PISTAS E TRAÇOS DO CORPO SUSPEITO: ]AILTON, O ESTUPRADOR DE ITAMBÉ

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1 PISTAS E TRAÇOS DO CORPO SUSPEITO: ]AILTON, O ESTUPRADOR DE ITAMBÉ Nilton MlLANEZ Todo eu sou corpo e nada mais; a alma nâo é mais que um nome para chamar algo do corpo. (NIETZSCHE, 2008, p ). o homem da multidão "Olhava os passantes em massa e neles pensava em função de suas relações gregárias. Em breve, porém, desci a pormenores e examinei com minudente interesse as inúmeras variedades de figura, roupa, ar, andar, rosto e expressão fisionômica." (POE, 2001, p ). Esta é atitude do personagem descrita por Edgard Allan Poe, em 1840, que p.or trás da vidraça de um Café, em Londres, examina diferentes tipos sem rosto que andam de um lado a outro. Em meio a escreventes, batedores de carteira, jogadores profissionais, revendedores judeus, mendigos de rua, mocinhas, prostitutas e ébrios, o observador das ruas, mais um homem da multidão, busca amparo no exame do comportamento corporal e da expressão do rosto de um desconhecido que começa a perseguir com o seu olhar afinado: o homem sem rosto precisa ter sua expressão facial decifrada.. Porém, o sujeito observador se distancia do sujeito observado por meio de um conjunto de técnicas, regras e procedimentos, peculiar à história da expressão no século XIX, marca- 81

2 Pistas e traços do corpo suspeito: [ailton, o estuprador de Itambé Nilton Milanez da pela ruptura dos estudos de Charles a expressão das emoções HAROCHE, 1998). do homem Darwin, em 1874, sobre e do animal Paradoxalmente, (COURTINE; essa separação dos olhares dades que enquadram os sujeitos em uma sociedade norma da arte de bem <,lpresentar-se em público, suas faces." O rosto está, pqrt'lnto~ regulada pela salvaguardando, ávido par~ s~~ identificado. Quem é qo, produz um duplo efeito: possibilita ao sujeito uma aproximação muito maior consigo mesmo, forçando-o a controlar suas paixões, bem e quem é do mal ~esp a domesticar seus gestos, à medida que se singulariza no meio da multidão, como também afasta-o de si mesmo, pois está em um que se coloca. A necessidade de se proteger dos rostos sem face das multidões é imperiosa. Por isso, desdesempre houve técnicas de momento histórico no qual a constituição dos saberes científicos e especializados fundam uma ruptura entre o homem orgânico e o decifração homem vamos, então, nos posicionar sensível (COURTINE; HAROCHE, 1998). Isso só mostra cada vez mais que o desejo de não estar só exige o reconhecimento e identificação do outro, evitando o apagamento dos rostos para poder constituir a singularidade dos corpos, estória? No final, dos rostos qlfe requeremj.lma o reconhecimento é essa atitude semiqlógica dos sinais e traços de fac~s suspeitas, 4iant~ dessa história Essas quesrões me perseguiram ao me deparar com a construção J~úm~ a postura, compreender (COURTINE, é preciso estar alerta à morfologia das expressões 2008, p.341), como forma de de de Vitória da Con~ujsta, meio de construção mentos O corpo, nesse sentido, para sabermos movimentos, diferencíã-los é visto como atitudes, comporta- do que pode ser suspeito criminoso daquilo que não é. Exigir uma identificação muito além do que apresentar o. RG. Há uma incitação da visibilidade imediata do sujeito que se apresenta tecnologia das redes denominadas de relacionamento, ou focebook, que funcionam como um registro pela, mídia. que se pode ser chamado por meio da como orkut geral do sujeito, Os sistemas de identificação observador e observado é mantida, nesse caso, por fatores também de semíologia de sensibilidade às expressões, cuja decifração dos traços acaba por criar a identificação de vidas normais e vidas suspeitas. A forma de gerenciamento (FOUCAULT, de controle desses RGs individuais 82 vai do rosto ao produzir o visibiü- poss,uern suas técnicas e elaboração adequando-se à ordem social de nosso tempo. Para, tanto, vou fixar bases sobre uma teoria semioló- permitem corpo como um todo e parece ter por finalidade do. esse tipo de de estratégias Q4e, ao meu ver, seguem a ordem de 11m<\.história dos gica para realizar essa empreitada ampliando portanto, de corpo criminoso. tes da sua intimidade e dando garantias de que todos "são pessoas do bem". A mesma dicotomia estabelecida pelo século XIX entre e profissional, Observarei, vai, hoje, em torno olhares e de suas sensibilidades, sua vida doméstica e pro- de um saber e controle social que determinam os limi- englobando então, da posição do olhar de um sujeito sobre outro, conside- rando a produção e qu,e manufaturam Um conjunto de técnicas serniológicas de deciframento indícios para referenciar e elementos duzem a imagem de um sujeito qqe vai de: suspeito a crimínosopor corp9 proliferadas que a identificam. nos jorna cida- no interior da Bahia. Pretendo, os mecanismos mensurar a periculosidade das fisionomias. Por isso, a identidade de um rosto precisa ser reconhecida imediatamente, traçando-se os um dispositivo Corno Como se constrói d~sç4rsiv~me~te a fig~ra de um corpo suspeito? Como q criminoso pode ser construído ~a, mídia? midiática em torno de q ~t~pr~4qf ~~ I~b~ nais, blogs, fatos em, murais, postes de luz e falas cotidianas as hierarquias." p~p das expressões? seja por meio de identidades marcadamente físicas ou passionais. Se a "[:..] sociedade democrática apaga os indícios físicos tradicionais, embaralha os velhos códigos da sociedade de ordem, banaliza mascara pergunta ;,t um conjunto distinguir em direção ao saber. "Chamemos de conhecimentos e de técnicas que onde estão os signos, definir o que os institui como signos, conhecer seus liames e as leis de seu encadeamento." 2000, p.40),. Isto dito significa que, para Foucault, em As palavras e as coisas, não há uma teoria dos signos que não 83

3 Pistas e traços do corpo suspeito: [ailton, o estuprador de Itambé privilegie uma análise dos sentidos a não ser aquela calcada na complexidade e no conjunto das imagens colocadas em uma rede de encadeamentos, tornando a imagem a representação da coisa a que se refere. Nesse sentido, essa vertente semiológica alerta para o reconhecimento e identificação do sujeito por meio de sua representação. Gostaria de apontar, então, dois posicionamentos serniológicos que se ligam e que nos auxiliarão a analisar a intrínseca relação entre a representação da imagem corporal de jailron, seu nível de periculosidade e atividades criminais. O primeiro deles se refere à investigação que Michel Foucault dá ao trato do olhar dentro da cultura médica do século XIX, fundamentada no que o filósofo chamou de golpe de vista (FOUCAULT, a, p.xll) em seu livro O Nascimento da clínica. O golpe de vista faz parte de uma experiência clínica que visa, de um lado, o estabelecimento do homem em relação a si próprio e da linguagem com as coisas nas quais ele se confronta. Essa maneira de olhar para o homem e para as coisas designa previamente um método para a constituição dos discursos, determinado por uma soberania do olhar, que nos diz onde está localizado o mal no corpo. O olhar, assim, é que constrói a verdade por meio da distinção das características e diferenças daquilo que nos aparenta estranho. Instaura-se, dessa maneira, uma ordem do olhar que organizará formas de dizer sobre o sujeito a partir de uma leitura guiada por sintomas. ~utro, elemento importante a se observar é que o "[...] golpe de vista e da ordem não verbal do contato, contato puramente ideal, sem dúvida, porém mais ferino, no fundo, porque atravessa melhor e vai mais longe [...] é o índice que apalpa as profundezas." (FOUCAULT, 2001a, p.138). O espaço dessa investigação, como vemos, é sempre o corpo, que se encontra em evidência, questionando o lugar do que é vísivel e invísivel no espaço corpóreo. Esse m~t~do analítico apesar de utilizado como expressão de percepções médicas, seve-nos para a constituição de visibilidades em outros campos do saber que não somente a medicina, mas também no que se refere às práticas jurídicas. 84 O olhar como investigação não foi somente identificado por Foucault, mas também coroado por Ginzburg (1999), historiador que nos anos 80 registrou os golpes do olhar na arte, na literautra e na medicina em seu artigo Sinais: raizes de um paradigma indiciário. O autor nos apresenta maneiras de olhar para objetos específicos na constituição de um método que tem como linha singular observar os pormenores, os menores detalhes que podem passar despercebidos aum olhar desatento. Esse método é conhecido por método morelliano, paradigmas estabelecidos pelo médico Morelli, no fim do século XIX, cujo objetivo é "[...] apreciar os pormenores em relação à obra de arte." (GINZBURG, 1999, p.145). Buscando distinguir os originais das cópias nos museus da Europa, Morelli lançará toda sua atenção aos índices das obras de arte, atingindo pontos centrais como os lóbulos das orelhas, unhas e formas dos dedos, dos pés e das mãos. Configura-se, assim, um quadro no qual a decifração da leitura está calcada em elementos residuais e marginais, no entanto, essenciais para a captura de indícios reveladores. Ao lado desse método indiciário na história da arte está, também, a aproximação da arte literária desenvolvida por Conan Doyle em suas histórias protagonizadas por Sherlock Holmes. Os indícios agora não são somente úteis para o reconhecimento e atribuição de identidade às obras de pintura italiana, mas servem à decifração de pistas para encontrar a autoria de crimes no seio da literatura. Como um detetive, então, o método deixa claro que o analista deve 'ler' os traços mais particulares em seu objeto de estudo para chegar à conclusão em uma investigação frutuosa. A mesma técnica será utilizada, ainda, por Freud, que acreditava ter encontrado ali um "[...] método aparentado à técnica da psicanálise médica." (FREUD 1999, p.148). apud GINZBURG, Como podemos notar, o que está no ponto das mutações é o olhar que lançamos sobre os objetos, elegendo nossas posições como sujeito. As teorias apresentadas tanto por Foucault quanto os intrincamentos selecionados por Ginzburg abrem as portas para uma semiologia histórica, cujo sentido primeiro parece 85

4 Pistas e traços do corpo suspeito: [ailton, o estuprador de Itambé ser compreender e decifrar o corpo por meio de seus signos, ou seja, suas pistas, traços e sinais dentro do quadro de uma perspectiva de identificação, começando com o médico, passando pelo conhecedor de quadros até chegar ao detetive, expressões e mobilidades para a constituição das subjetividades. Retraçar, portanto, a história do detalhe parece delinear um quadro semiológico para a leitura e interpretação do corpo, ferramentas afiadas para a compreensão da produção dos sentidos no interior dos discursos, artes de existência na constituição dos sujeitos e suas subjetividades. Foto 1 - jailton, O estuprador de ltambé. Jekyl e Hyde: a marca do mal Seguindo as pistas de tradução corporal que ventilei anteriormente, quero apresentar a foto de Jailton, o estuprador de Itambé, designação produzida pela mídia de Vitória da Conquista, no mês de outubro de Como nos posicionarmos diante dessa foto l? Para onde olhar? O quê olhar? A imagem parece exigir uma decifração para compreendermos o lugar preenchido pelos sinais de identificação do suspeito. Diante da foto de Jailton, buscamos encontrar os traços que o definem pelos seus atos criminosos. Sabemos, é claro, que não há um criminoso nato, porém nossa maneira de olhar para a representação fotográfica do indivíduo transforma-o em sujeito, incitando-nos a buscar nele sinais físicos de criminalidade em potencial. Paradoxo irrefutável: o corpo acaba sendo ao mesmo tempo material de exame e prova para a constituição do crime pelo qual o indivíduo está sendo acusado. Fonte: Foto postada no blog Sudoeste Hoje de Davi Ferraz (2009). Negro, olhos puxados, boca carnuda, ombros largos, corpo malhado em uma camiseta branca que contrasta e põe em evidência a cor de sua pele. No fundo uma parede azul e o que parece ser a parte do batente de uma porta. Uma cena doméstica, de um homem com os padrões de beleza de nossa época, entre foto cotidiana e sensualidade, se não fosse o fato de se tratar do acusado de vários crimes, desde estupro até assalto a mão armada'. Visto desse jeito, o olhar para a foto se modifica: o objeto é o mesmo, mas nossa posição do lugar para olhá-lo é outra. Seus traço parecem ter, então, que revelar suas (i)moralidades. Mas onde elas estariam? Um detalhe na foto pode ter passado despercebido, mas sua atenção nos é chamada pela intervenção do de um internauta em um blot: olhem, nenhuma pessoa tira foto de frente e aparece a sombra, esse cara deve ser a sombra do DIABO (Arthur) 1 Confira a foto postada no blog Sudoeste Hoje de Davi Ferraz em Disponível em <http://www.sudoestehoje.com.br/web/policia12293-policia-etano-encalco-do-estuprador-de-itambe.html>. Acesso em 15 novo Extrato do texto "PM e Caesg se juntam para capturar o 'Estuprador de Itambé', do dia 08 de outubro de 2009 no blog Sudoeste Hoje de Davi Ferraz (2009). Disponível em <http://www.sudoestehoje.com.br/web/policia/2293- policia-eta-no-encalco-do-estuprador-de-itambe.html>. Acesso em 15 novo Comentário postado no Blog de Ronny Santos (2009). Disponível em: <http:// rsanttos. word press.com/2009/11 /04/estuprador-de-itamb-deixa-conquistensesem-estado-de-pnico/>. Acesso em 15 novo

5 Dar atenção à sombra do corpo de JailtOD, refletida na parede atrás dele, como faz Arthur, demonstra um modo de olhar para o sujeito que vai se dividir em dois: destaca-se a presença do que é visível e o.que está invisível, daquilo que é interior e se expressa na sua exterioridade por um golpe de vista. Essa dicotomia revelaa presença de um corpo e de uma alma, sendo que por meio dela, na interioridade dos sentimentos do corpo, é que poderíamos conhecer as paixões escondidas do suposto criminoso. A tensão entre "[...] interioridade escondida do homem e sua exterioridade manifesta." (COURTINE; HAROCHE, 1988, p.39) é o lugar no qual é possível entrever tudo aquilo que está oculto e que será manifesto. A marca de desidentificação do corpo representada na sombra descaracteriza o sujeito de sua humanidade, apresentando um espaço que se constrói à luz do desconhecido, do estranho, que se transforma em tenebroso e demoníaco. Esse cara deve ser a sombra do DIABO, como enuncia o internauta, é a concl~são a que se chega sobre a imagem em foco. Assim, a imagem da virtualidade do corpo do criminoso será a materialização do conhecimento que se produz acerca dele. Fotografia: da morfologia do corpo à moral dos atos A fotografia traz, portanto, uma produção em torno de si e dos arredores daqueles que a olham. A construção midiática acerca de jailton vai se desvelando a partir dos vestígios iconográficos que partem da rnaterialização de sua foto, ou como disse Barthes (2001, p.103), ao evidenciar o elo entre o político e seus eleitores, "[...] a fotografia é elipse da linguagem e condensação de todo um 'inefável' social [...] em proveito de uma 'maneira de ser', de um estatuto social e moral." Nessa linha, a fotografia nos faz reconhecer em profundidade aquele que nela está representado, mostrando-nos que o que está exposto na foto inclui as motivações, circunstâncias familiares, mentais, eróticas e o estilo da imagem do retrato.. Sob essa perspectiva, a fotografia de jailron impele o seu espectador a uma cumplicidade, exigindo dele o decifrarnenro daquele 88 Pistas e traços do corpo suspeito: [ailton, o estuprador de Itambé corpo e de sua moral ali presentes. Como analista, observo a fotografia e os elementos que a constituem como semiologias para a construção e fixação das marcas e valores sócio-históricos daquele corpo suspeito. Entretanto, devo repetir que a leitura da fotografia não se dá de forma isolada e que a constituição de seus sentidos está atrelada a indícios exteriores e- traços já sulcados pelos mecanismos de produção discursiva midiática, reafirmando as suspeitas pelo indivíduo da foto, além de elencar e dar voz aos leitores. Juntos, em uma ciranda, mídia e leitores, sem sabermos quem determinou que papel para quem nesse jogo, (rejconstroem o lugar de jailten na sociedade. Lembro, também, que a leitura que apresento a seguir se adequa a esse escopo discursivo, no qual a imagem do suspeito desencadeia, passando a pertencer ao domínio da anormalidade. Portanto, a mesma pose, olhar, rosto, roupa, cenário poderiam fazer parte da corporalidade de uma propaganda de revista, de jornal ou outdoor de alguma marca famosa, mas o campo discursivo no qual ela se encontra aceita um número e valor de formações em detrimento de outras. Posto isso, podemos compreender que a pose de jaílton, de frente, encarando todo e qualquer cidadão, atribuem-lhe sentidos que soam ameaça e confronto, ao olhar diretamente em nossos olhos do outro lado da foto, da mesma maneira que fazem os animais prontos para o ataque. A camiseta branca, em contraste com sua pele, ressalta a largura de seus ombros e dá destaque aos seus ossos externos, fazendo-nos considerar sua força e possível agressividade. Os lábios grossos, antes de sugerir uma arte erótica, remontam a memórias em que o negro pertenceria a sociedades primitivas ou selvagens, era detentor de um exotismo comparado ao dos animais. O cabelo negro, curto e rente ao crânio estabelece o limite para onde devemos voltar e fixar nossa visão, fazendo-nos retomar aos olhos de jailton. Um olho com formato diferente do outro. O olho da direita nos encara, o da esquerda nos olha atravessado. Essa desarmonia do desenho dos olhos produz um efeito de estranheza que é prolongado pelo fundo azul e o pedaço do possível batente de porta, cujas memórias compartilhadas lançam-nos às cabanas no meio da floresta das histórias infantis, povoadas de bruxas e lobos 89

6 Pistas e traços do corpo suspeito: [ailton, o estuprador de ltambé ou até mesmo fazendo-nos retomar os 'cativeiros' dos sequestrados dos dias de hoje. Assim, tipo morfológico e ambiente externo completam o clima de terror das condições que propiciaram a veiculação e circulação daquela foto. A foto de Jailton responde, portanto, a um largo leque de pessoas consideradas suspeitas como nativos de colônias européias, imigrantes, negros, pobres, mendigos, degenerados, prostitutas. O que parece mover a identificação desses sujeitos, segundo Cole (2001), é o desejo de controlar esses corpos suspeitos, por meio de formas de identificação cruéis que visam à visibilidade e irreversabilidade das maneiras de se produzir um criminoso. Dessa forma, a fotografia, uma das mais baratas formas de identificação hoje em dia, pode ser usada para estigmatizar grupos de pessoas, provocando seleção e hierarquização dos sujeitos pelas marcas notórias dos traços que os assemelham dentro de determinados grupos. Esse tipo de atitude face aos indivíduos é análogo ao descrito por Lavater (1807), em A arte de conhecer os homens pela fisionomia, que prescreve como devemos buscar conhecer na organização de cada corpo a superioridade e inferioridade de cada espécie. A questão central desse pensamento, que data do início do século XIX, é que ele toma a interpretação dos signos relacionados à forma e conceitos cristalizados no imaginário sócio-histórico, fazendo proliferar imagens de interdição e segregação na construção do indivíduo perigoso. o monstro e a lei A análise dos detalhes vai-nos levando a caminhos, primeiramente, tortuosos, incongruentes, deixando-nos, às vezes, confusos, mediante a profusão de discursos que vão se formando aqui e ali. No entanto, essa dispersão de discursos vai, aos poucos, formando uma cadeia discursiva que pode ser acompanhada e compreendida por meio de um fio regular, que o ilumina e esclarece: um quadro pintado por uma linguagem mista, que nos é dado a ver sob a ótica da mídia. E o discurso da mídia, portanto, nesse caso, insere o suspeito Jailton no domínio da monstruosidade e da anomalia. 90 Suas paixões interiores, escondidas, se revelariam em seus atos criminosos, cristalizando a relação diabo/estuprado r, corpo/atividade criminosa. Nesse sentido, a representação de seu corpo é tomada em consonância com o crime de estupro do qual é acusado. Estabelecemse, então, padrões de normalidade e anormalidade no interior da sociedade e da história. A anormalidade se estabelece a partir da desordem estabeleci da em relação ao direito a nosso próprio corpo, intimidade resguardada e protegida por lei, cujo desacato é um ato contranatureza. Essa desordem se constitui de modelos já considerados fora do padrão desde o século XIX, quando nos defrontamos com aquilo que é proibido e impossível (FOUCAULT, 2001b), por isso inaceitável. Assim, dentro do domínio da anomalia, o estuprador passa a ser identificado como um monstro. Dessa feita, as possibilidades de leitura que a foto de Jailton nos proporciona em seus vestígios, não se encontram somente na iconografia, mas pode ser também indicada por sinais lingüísticos particulares e fundamentais para a composição do discurso da monstruosidade, exigindo uma investigação histórica semio-linguístico-discursiva, que se delineia a seguir na fala de dois internautas": o monstro 107 Qua, 04 de Novembro de :44 Oaniela Gente será possivel q ninguém vai fazer nada, estou com medo de sair pra trabalhar e ainda fico ensigura preucupada com meus filhos em casa. justiça 256 Qui, 12 de Novembro de :55 hupi [...[espero que lailton esse monstro,que anda a solto seja preso logoe que se faça justiça. 4 Confira comentários postados no b/og Sudoeste Hoje de Davi Ferraz (2009). Disponível em <http://www.sudoestehoje.com.br/web/policia/2293-policia-etano-encalco-do:'estuprador-de-itambe.html>. Acesso em 15 novo

7 Pistas e traços do corpo suspeito: [ailton, o estuprador de ltambé No serap de Daniela, a sequência nominal 'O monstro' aparece no lugar do 'assunto' (subject) na estrutura do endereçamento eletrônico. Ao determinar 'monstro' pelo artigo 'O', atribui-lhe singularidade e potência, colocando-o no topo das discussões. Enquanto, o serap de hupi constitue a monstruosidade do suspeito por meio de uma referenciação, 'esse monstro', que nos lança ao reconhecimento de identificação verbal das mais evidentes, Jailton, nominação que novamente singulariza e coloca o corpo criminoso em questão na ordem do dia. O detalhe da escolha do léxico, a particularidade do lugar que ele ocupa e a especificidade do tipo de encadeamento propostos na estrutura do são índices que colocam em zoom o posicionamento dos sujeitos e, sobretudo, o lugar que dão a Jailton no centro da monstruosidade criminosa. Certamente, a mídia exerce, aqui, o exame sobre o suspeito, papel que é cornumente desempenhado pelos discursos médicos e judiciários. Assim, tais depoimentos implicam a anomalia na ordem da lei, produzindo o que Foucault (2001b) denominou de monstro humano. Foucault compreende essa referência no interior de um noção jurídica, sentido amplo do termo, pelo fato de sua existência abarcar dois outros patamares: "[...] não apenas uma violação das leis da sociedade, mas uma violação das leis da natureza." (FOUCAULT, 2001b, p.69). Isso nos faz compreender que o jurídico está, também, entrelaçado ao biológico e determina que o indivíduo precisa ser corrigido pelo seus atos. Essa noção jurídico-biológica introduz um sistema penal no qual "O criminoso é aquele que danifica, perturba a sociedade. O criminoso é o inimigo social." (FOUCAULT, 2002, p.8i). Discurso corroborado pelos seraps de Daniela e hupi. Mas daí fica a pergunta: como a lei vai tratar o criminoso? Quem são os sujeitos envolvidos na confecção e aplicação dessa lei? Que conhecimentos vão surgir do levantamento desses traços? Vejamos, então, mais um depoimento 92 online: estrupo 247 Qui, 12 de Novembro de :21 rhuan carlos abadias esse vagabundo tem que morer esse desgraçado deveria pegar ele e enfiar o pau bem no seu ## ai ele iria ver e sentir ador que as pessoa que ele cometeu o estrupo, e enfiar o braço bem no meio do seu ## fila da puta e depois matalo com um tiro de 12 bem no meio do seu ## encher de tiros seu aronbado vc vai morrer vai morrer vai morrer!!!!!!! Como podemos notar na leitura do de rhuan carlos abadias, o monstro acaba por suscitar violência, ódio e vontade de supressão do indíviduo, eliminado-o da sociedade por meio de sua morte, flagrando o desejo de uma higienização social. Como resultado, temos uma operação discursiva que desencadeia uma forma de exame marcada por uma homogeneidade da reação social (FOUCAULT, 2001b), que visa proteger todo o corpo social. Entretanto, este movimento discursivo provocado pelo sujeito e seu interrelacionamento com a norma e a lei produzem exatamente o caminho contrário da ordem. O monstro, sob essa ótica, é a representação da infração em uma potência altamente elevada que, paradoxalmente, não fará seu ponto de conversão na lei. "O monstro é uma infração que se coloca automaticamente fora da lei." (FOUCAULT, 2001b, p.70). E se olharmos minuciosamente para essa monstruosidade, veremos que ela não tem apenas um monstro, mas dois. De uma parte, temos o criminoso, aquele que rompe com o pacto social, transgredindo os cálculos de si, perdendo a razão e violentando uma lei natural. De outra, temos aquele que assume o lugar do rei soberano, com o direito de deixar viver ou fazer morrer (FOUCAULT, 1988), cuja posição coincide com a do crime, ou seja, é também da ordem da contranatureza. Rhuan age como um déspota, posição compreendida por Foucault (200 I b, p.ii7) como aquela na o indivíduo "[...] impõe sua violência, seus caprichos, sua não-razão, completa: A como lei geral ou como razão de Estado.", e 93

8 Pistas e traços do corpo suspeito: [ailton, o estuprador de Itambé o primeiro monstro jurídico que vemos surgir delinear-se ao novo regime da economia do poder de punir, o primeiro monstro que aparece, o primeiro monstro identificado e qualificado, não é o assassino, não é o estuprador, não é o que infringe as leis da natureza; é o que infringe o pacto social fimdamental. O primeiro monstro é o rei. (FOUCAULT, 2001b, p.118). Estamos diante, então, de um monstro humano na figura de Jailton e de um monstro jurídico na figura de Rhuan, que assume a posição de rei. A materialização desse reinado se materializa em esse vagabundo tem que morer e matalo com um tiro de 12 bem no meio do seu ## encher de tiros seu aronbado vc vai morrer vai morrer vai morrer!!!!!!!,afirmações cujo fundamento histórico se encontra na aplicação da correção sobre o indivíduo, difundida amplamente como prática institucionalizada de um sistema punitivo no seio de nossa sociedade disciplinar. Isso produz o efeito de apagamento do crime em detrimento do criminoso, tendo como fim a extinção do sujeito 'criminoso. Além disso, a promulgação da lei nesse caso se baseia na fonte histórica 'olho por olho, dente por dente', na medida em que o soberano estabelece que esse desgraçado deveria pegar ele e enfiar o pau bem no seu ## ai ele iria ver e sentir ador que as pessoa que ele cometeu o estrupo, reescrevendo a pena de talião (FOUCAULT, 2001 b, p.83), na busca de causar repugnância no próprio sujeito pelo crime que cometeu. ' o tecido dos sentidos Os traços, pistas, indícios e vestígios constituintes dos signos quando colocados em rede, sejam icônicos ou lingüísticos, regimentam o laço entre poder e produção de saber acerca dos sujeitos. O desejo tão irremediável do sujeito pela identificação do outro, de fato, está cercado da constituição de verd~des. Para Foucaulr, o entroncamento do sujeito do conhecimento com sua representação na história é um dos pontos possíveis para o aparecimento de uma verdade. O filósofo sugere olharmos através da historia para 94 compreender "[...] a constituição de um sujeito que não é dado definitivamente, que não é aquilo a partir do que a verdade se dá na história, mas de um jeito que se constitui no interior mesmo da história, e que é a cada instante fundado e refundado pela história." (FOUCAULT, 2002, p.io). Dessa maneira, se efetua, então, uma crítica do sujeito pela história marcada pelos sinais que o compõem. E isso não equivale dizer que estamos diante do real ou da verdade como tal, pois [...] a semiologia não é urna chave, ela não permite apreender diretamente o real, impondo-lhe um transparente geral que o tornaria inteligível: o real, ela busca antes soerguê-lo, em certos pontos e em certos momentos, e ela diz que esses efeitos de solevamento do real são possíveis sem chave: aliás é precisamente quando a semiologia quer ser uma chave que ela não desvenda coisa alguma. (BARTHES, 2002, p.39). A verdade, portanto é uma ilusão. E a realidade não passade efeitos do real. O lugar entre o certo.e o errado, o normal e o patológico, o inocente e o culpado atingem esferas díscursivas que não são homogêneas porque clivadas de tantos inúmeros discursos, enviesados, deslocados, transmutados, cuja origem ou identificação não poderá jamais ser alcançada. Nesse sentido, quando identificar significar 'recuperar a origem de', estaremos fadados à angústia de uma incompletude que se tenta corrigir por meio da invenção, ou seja, fabricação de "[... ] uma série de mecanismos, de pequenos mecanismos." (FOUCAULT, 2002, p.i5), sernio-históricos, aqui levantados e compreendidos como signos no interior REFERÊNCIAS do discurso. BARTHES, R. Aula. Tradução de Leyla Perrone-Moisés. São Paulo: Cultrix, o Mitologias. Tradução de R. Buongermino e P. Souza. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil,

9 Pistas e traços do corpo suspeito: [ailton, o estuprador de ltambé COLE, S. A. Suspect identities: a history of fingerprinting and criminal ídentification. Cambridge: Harvard University Press COURTINE, J.-J.; VIGARELLO, G. Identificar: traços, indícios, suspeitas. In: CORBIN, A.; COR TINE, J.-J.; VIGARELLO, G. (Org.) História do corpo: as mutações do olhar: O século XX. Tradução e revisão Ephraim Ferreira Alves. Petrópolis: Vozes, 2008, p FERRAZ, D. Blog Sudoeste Hoje Disponível em: < em: 15 novo2009. FOUCAULT, M. A verdade e as formas jurídicas. Tradução de Roberto Cabral de Melo Machado e Eduardo Jardim Morais. Rio de Janeiro: NAU Ed., NIETZSCHE, F. Dos que desprezam o corpo. In: oassim falava Zaratustra. Tradução Mário Ferreira dos Santos. Rio de Janeiro: Vozes, p POE, E. A. O homem das multidões. In:. Edgar Allan Poe: ficção completa, poesia e ensaios. Organização e tradução Oscar Mendes. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 2001, p SANTTOS, R. Blog do Ronny Santtos Disponível em: < estuprador-de-ítamb- -deixa-conquistenses-em-estado-de-pnicol>. Acesso em : 15 novo O nascimento da clínica. Tradução de Roberto Machado. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2001a. --- Os anormais. Tradução de Eduardo Brandão. São Paulo: Martins Fontes, 2001 b. o As palavras e as coisas. Tradução de Salma Tannus Muchail. São Paulo: Martins Fontes, História da sexualidade I: a vontade de saber. Tradução de Maria Thereza da Costa Albuquerque e J. A. Guilhon Albuquerque. Rio de Janeiro: Graal GINZBURG, C. Sinais: raízes de um paradigma indiciário. In: Mitos, emblemas e sinais: morfologia e história. São --- Paulo: Companhia das Letras, p HAROCHE, c, COURTINE, J.-J. Histoire du visage. Paris: Payot, LAVATER, G. L'art de connaítre les hommes par Ia physionomie. Imprimerie de Hardy: Paris, v

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