literatura e resistência às ditaduras na América do Sul

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1 literatura e resistência às ditaduras na América do Sul Em 1995, no Brasil, o escritor anarquista, Roberto Freire, publicou os dois volumes de Os cúmplices. O romance narra as aventuras apaixonadas vividas por dois jovens irmãos, de sangue e de luta, no bairro do Bixiga, em São Paulo, nas décadas de 1950 e Momento em que Bruno e Victor se orgulhavam de chocar bonde, rebolar ao som de Elvis Presley, mas principalmente de assistirem nos cinemas Marilyn Monroe e depois Brigite Bardot. Baseando-se nas conversas realizadas com o libertário Jaime Cubero, Freire inventou a história destes dois irmãos que acabam descobrindo o anarquismo através das peladas, jogos de futebol de várzea. Depois de enfrentarem o time da Mooca, Bruno e Victor recebem o convite de Liberto, filho de um anarquista que lutara na Revolução Espanhola, para frequentarem as reuniões do Centro de Cultura Social localizado no bairro do Brás. Para além do jornalismo presente nas ambições do corajoso irmão mais velho, Bruno, Os cúmplices trata, também, do teatro experimentado por Freire nas décadas de 1950 e Victor, o irmão mais novo, descobre junto dos prazeres do sexo, as inovações do teatro inventado por Grotowski na Polônia e do Living Theatre nos Estados Unidos. No romance, Freire descreve por meio de certos personagens, a repressão enfrentada por ele durante o lançamento do espetáculo O&A, no TUCA, teatro no qual foi diretor geral desde sua inauguração em 11 de setembro de 1965 até Um ano após O & A, 1968, o general Costa e Silva decreta o AI-5. A violência a partir de então se intensifica ainda mais sobre certos jovens como Wagner, personagem de Os cúmplices, rapaz que falava com as mãos se agitando diante do rosto, 1 militante preso numa manifestação próxima à PUC-SP, na Rua Monte Alegre, que teve as mãos decepadas pelo Delegado Flores, no DOPS. 2 Como aponta Cecília Coimbra, a partir de 1968, a tortura passa a ser prática comum e oficial (...) Além de obter informações,

2 fragilizar e pulverizar os opositores do regime, a tortura cumpre, como dispositivo social, uma função: produz subjetividades. Pelo medo, cala a sociedade. 3 Se Cléo & Daniel, primeiro romance de Freire, esboçado no porão do DOPS de São Paulo onde hoje é a Estação Pinacoteca, bairro da Luz - denunciava a impossibilidade de amor em meio a um regime militar, neste romance ele apresenta a ditadura investindo sobre o sexo dos jovens. Enquanto o primeiro volume de Os cúmplices termina em sexo liberado e novas possibilidades de prazer descobertas por Victor, o desfecho deste último descreve a tortura incidindo sobre o corpo de seu irmão mais velho. O delegado Flores foi-lhe dando bofetadas no rosto, cada vez mais fortes, até que se cansou (...) Entregaram-lhe o arame ligado ao aparelho. O delegado o segurou firme (...) E Flores foi enfiando o arame pela uretra de Bruno, que logo começou a sangrar. 4 Os efeitos da tortura sobre Bruno, o corajoso irmão mais velho que abandona o jornalismo para se tornar matador de coronéis no nordeste do país, torna-o impotente para os prazeres da vida. Os cúmplices narra de certa maneira uma história vivida por inúmeros presos no Brasil. Desde o eletrochoque foi-lhe amarrado um dos terminais do magneto num dedo de seu pé e no seu pênis, onde recebeu descargas sucessivas, a ponto de cair no chão até a utilização de insetos a interroganda quer ainda declarar que durante a primeira fase do interrogatório foram colocadas baratas sobre o seu corpo, e introduzida uma no seu ânus, 5 a tortura visava não somente arrancar informações úteis à repressão dos grupos que lutavam contra a ditadura mas, também, arruinar o sexo e interceptar o prazer. Prática comum nos porões não só do Brasil, mas de toda a América Latina dos anos O escritor chileno Roberto Bolaño escreveu: no México, me contaram a história de uma moça do MIR, que torturaram introduzindo ratos vivos na sua vagina. Essa moça conseguiu se exilar e chegou ao DF. Vivia lá, mas cada dia ficava mais triste

3 e um dia morreu de tanta tristeza. Foi o que me contaram. Não a conheci pessoalmente (...) Não é uma história extraordinária. Sabemos de camponesas guatemaltecas submetidas a humilhações inomináveis. O incrível nessa história é sua ubiqüidade. 6 A literatura de Freire está intimamente ligada ao combate a ditadura civilmilitar. Não à toa ela irrompe num porão do DOPS, lugar em que Freire esteve preso logo após o golpe militar e esboçou os personagens de Cléo & Daniel, romance com que liberou sua escrita literária. É emblemática a cena em que Cléo e Daniel se encontram na Praça da República e se agarram apaixonadamente até serem brutalmente separados pelos transeuntes. Para além de expor, em Os Cúmplices, romance publicado quarenta anos depois de Cléo & Daniel, a violência da tortura no DOPS, Freire explicita os efeitos da ditadura civil-militar não somente nos porões das delegacias, mas, sobretudo, nos corpos, nas relações, no endurecimento da vida. Na América do Sul, anos 1960 e 1970, a ubiquidade da tortura, como mostrou Roberto Bolaño em seus escritos, não ficou restrita somente aos fétidos porões das polícias. Em Noturno do Chile, o escritor apresenta a casa de Maria Canales, espaço no qual se desenvolviam saraus e tertúlias e que reunia frequentemente artistas, literatos, pensadores da cultura do país governado pelo General Pinochet. Bolaño descreve a descoberta de um cômodo na casa por um teórico da cena de vanguarda. Quando se viu perdido no porão conta o narrador do romance e se conscientizou disso, não teve medo, ao contrário, viu despertar seu espírito trocista, abriu portas, pôs-se até a assobiar, e finalmente chegou ao último quarto no corredor mais estreito (...) abriu a porta e viu o homem amarrado numa cama metálica, de olhos vendados, e soube que o homem estava vivo porque o ouviu respirar, embora seu estado físico não fosse bom (...) viu suas supurações, como eczemas, as partes maltratadas da sua anatomia, as partes inchadas, como se tivesse mais de um osso quebrado. 7

4 Contudo, após assistir a cena, o teórico de vanguarda ou o ator de teatro ou um convidado qualquer meses depois, talvez anos depois, outro habitué dos saraus me contou a mesma história. Depois outro, depois outro, e mais outro, 8 fechou a porta e não disse absolutamente nada. Com a chegada da democracia, comenta o narrador de Noturno do Chile, soube-se que o marido de Maria Canales havia sido um dos principais agentes da DINA. 9 Os subversivos passavam pelos porões de Jimmy, onde este os interrogava, extraía deles toda informação possível (...) Na sua casa em regra, não se matava ninguém (...) se bem que alguns tenham morrido. 10 Assim como Freire, Bolaño viveu na pele a realidade cruel da América do Sul na década de Foi preso, no Chile, após o golpe militar em Entretanto, conseguiu escapar para o México, onde viveu nos anos seguintes. A proximidade entre a literatura de ambos não se dá pelo estilo da escrita, mas sim pela perspectiva de resistência vital que assumem diante da história recente do continente. Bolaño narrou, entre outras, a história de Auxilio Lacourte, mulher uruguaia que residia na Cidade do México e que estava presente na tarde em que o Exército invadiu a Universidade Autônoma do México (UNAM). Sentada na latrina, com a saia arregaçada, Auxílio permaneceu imóvel. Deste modo ficou até que os soldados deixassem a universidade e ainda por mais duas semanas. Saí ao corredor, e aí sim percebi imediatamente que algo estava acontecendo, o corredor estava vazio e a gritaria que subia pelas escadas era dos que atordoam e fazem história (...) fui à janela, olhei para baixo e vi os soldados, fui a outra janela e vi tanques, a outra no fundo do corredor, e vi furgões onde estavam metendo os estudantes e professores presos (...) Então eu disse para mim mesma: fique, Auxílio. Não deixem que a levem em cana, mulher (...) Não consigo esquecer nada, dizem que é esse meu problema. Sou a mãe dos poetas do México. Sou a única que se agüentou na universidade em 1968, quando os granadeiros e

5 exército entraram. 11 Auxílio, mãe dos poetas do México, mãe destes jovens que morreram na Bolívia, foram mortos na Argentina ou no Peru, que sobreviveram foram morrer no Chile (...) que não mataram lá, mataram depois na Nicarágua, na Colômbia, em El Salvador. 12 Mãe dos jovens esquecidos que, como Bolaño respondeu certa vez em uma entrevista, semearam com seus ossos a América Latina. 13 Se durante a década de 1990, Freire e Bolaño escreveram sobre as infindáveis violências do Estado, nessa mesma década, depois de encerradas quase todas as ditaduras civis-militares, certos jovens passaram a exigir corajosamente a verdade sobre as prisões, torturas e desaparecimentos de homens e mulheres durante os anos 1970 e Os embates irromperam com a reunião pelas universidades da Argentina de jovens que cresceram ouvindo que seus pais haviam sido atropelados, entre outras justificativas escusas dadas pelo governo para encobrir os assassinatos de resistentes a ditadura entre 1976 e Desde a segunda metade dos anos 1980, alguns militantes encontravam-se em Talleres como a que levava o nome do escritor Julio Cortázar, para contar as crianças, filhas de seus companheiros de luta, o real desfecho da existência de seus pais. Uma década depois, portanto, esses mesmos jovens passaram a se encontrar em eventos como a Jornada de Memoria, Recuerdo y Compromiso de la Facultad de Humanidades y Ciencias de la Educación, realizado em 1995 e voltaram-se, com coragem, para reivindicar a verdade sobre o destino de suas famílias. É precisamente neste instante, no qual, simultaneamente, o presidente argentino Carlos Menem concedia indulto a vários militares e o Comandante da Aeronáutica, Alfredo Scilingo fazia declarações públicas sobre os chamados voos da morte, que irrompe o movimento dos HIJOS. Emiliano, um jovem que nasceu no interior da Escola de Mecânica da Armada (ESMA) conta que a primeira vez em que participou de uma reunião dos HIJOS, ficou em silêncio com

6 outros cinquenta jovens. Não havia a necessidade, segundo ele, de dizer o que cada um tinha passado ao largo daqueles anos. Mais do que irmãos de sangue, éramos irmãos de luta. Bastava um olhar ou um sorriso para nos entendermos, 14 afirmou. Uma das primeiras ações dos HIJOS na Argentina foi a peça de teatro bla,bla,bla, na qual um torturador que freqüentava uma quitanda manchava de sangue cada fruta em que tocava. A montagem inventada pelos HIJOS se encerrava com os jovens afirmando que era preciso o quitandeiro negar-se a vender a fruta para o covarde com sangue nas mãos. O efeito da cena animou o grupo a organizar as chamadas Comissões de Escrache que consistiam no preparo de manifestações que escancaravam o domicílio, o endereço do serviço dos homens que foram responsáveis pela prisão, tortura e morte de tantos homens e mulheres corajosos, muitos deles possivelmente seus pais. Não à toa o primeiro alvo da insolência dos jovens foi Jorge Magnaco, médico conivente com a tortura de muitas das mães desses HIJOS, encarregado dos partos na Escola de Mecânica da Armada (ESMA) e do roubo organizado pelo Estado das crianças filhas de militantes. Roubo sistemático que, segundo as Abuelas de Plaza de Mayo, é o resquício insuportável da ditadura nos dias atuais 15. Magnaco foi demitido da clínica em que trabalhava e expulso do condomínio onde morava. Os escraches argentinos chegaram ao Chile, país de Roberto Bolaño, no início dos anos 2000, com o nome de funa. E somente agora, 2012, diante das negociações em torno da aprovação da Comissão da Verdade, eles irromperam também no Brasil. Em março e abril, aniversário de quarenta e oito anos do Golpe de 1964, certos jovens romperam a monotonia de protestos recentes nos velhos vãos de museus ou diante de prédios públicos para expor onde moram e em que trabalham atualmente os colaboradores e torturadores da ditadura civil-militar no Brasil. Freire e Bolaño não

7 puderam assistir as manifestações organizadas por certos jovens da América do Sul e que visam explicitar a abjeta covardia de homens abomináveis. Em Os detetives, conto publicado em Chamadas Telefônicas, Bolaño narra, por meio da conversa entre dois policiais, o episódio de sua prisão em Ambos os agentes haviam estudado com o escritor durante o ginásio e o reconheceram assim que ele chegou a delegacia em que trabalhavam. Um deles conta que ao receber a notícia de sua liberação, Bolaño pediu para dirigir-se a um espelho. No retorno descreveu que ao se mirar no reflexo não reconhecia a própria imagem. O policial decidiu acompanhá-lo para também olhar-se no espelho e certificar Bolaño de que ele era o mesmo e que possivelmente não se reconhecia devido a precariedade da luz ou a velhice do espelho. Disse a ele: olhe, vou eu me olhar no espelho, e você vai se dar conta de que sou eu mesmo, de que a culpa é deste espelho sujo e desta delegacia suja e deste corredor maliluminado (...) abri, de repente, o máximo possível, e me olhei e vi alguém de olhos muito abertos, como se estivesse cagando de medo, e detrás dessa pessoa vi um tipo de uns vinte anos mas que aparentava pelo menos dez mais, barbudo, de olheiras fundas, magro, que nos fitava por cima de meu ombro. 16 Por fim, enquanto o policial se assusta com a própria imagem, Bolaño sussura em seu ouvido uma pergunta: tem alguma sala detrás dessa parede?. Obtém como informação que por detrás da parede havia um pátio onde situavam-se as celas reservadas aos presos ditos comuns. Entendi tudo, encerrou Bolaño, deixando o agente desnorteado, mirando o reflexo em que via dois ex-colegas, um com o nó da gravata frouxo, um tira de vinte anos, e o outro sujo, de cabelos compridos, barbudo, só pele e osso. 17

8 A pergunta de Bolaño, insuportável para o agente, instiga a pensarmos os escrachos no presente. O escancaro dos abjetos serviçais da ditadura civil-militar tem de prosseguir com cada vez mais força. Mas se as ações não se ampliarem para a explicitação da continuidade do acossamento, prisão e tortura nos dias de hoje, outros pátios e celas sobrevirão escondidas pelo espelho e deste modo a violência do Estado sobre os corpos dos chamados presos comuns sobrevirá como ranço da ditadura civilmilitar. Em entrevista concedida em 1974, sobre a prisão de Attica, Michel Foucault recupera a descrição de outro literato, Jean Genet, sobre a distinção entre presos considerados políticos e os denominados comuns instaurada sobretudo, segundo ele, pelos movimentos políticos organizados. Durante a guerra, Genet era prisioneiro na Santé. Um dia, ele deveria ser transferido para o Palácio de Justiça. No momento em que iam algemar Genet com outro detento, este perguntou: Quem é este cara com quem vocês estão me algemando? E o guarda respondeu: Um ladrão. Então, o outro detento se esticou todo e disse: Eu me recuso. Eu sou um prisioneiro político, sou um comunista e me recuso a ser algemado com um ladrão. Depois desse dia, Genet me disse que não só desconfia, como tem um certo desprezo por todas as formas de movimento de ação políticos organizados na França. 18 Diante das marcas nos corpos das pessoas que resistiram aos interrogatórios e outros confrontos durante a ditadura, das feridas abertas pela tortura de nunca mais encontrar uma paixão ou um amigo, cabe no presente, agora, a certos jovens seguirem escrachando os torturadores que atuaram durante a ditadura civil-militar. Entretanto, é preciso enfrentar a tortura também como o efeito de tecnologias de poder como a polícia e o tribunal hoje. 18 Abolir a tortura, este rescaldo velho e podre, é uma tarefa pra já.

9 1 Roberto Freire. Os Cúmplices. Vol, 2. São Paulo: Sol & Chuva, 1996, p Para além da ironia em inventar um delegado com o sobrenome de Flores é de notar a semelhança entre Flores e Fleury um dos conhecidos torturadores do DOPS durante a ditadura civil-militar. 3 Cecília Coimbra. Guardiães da ordem: uma viagem pelas práticas psi no Brasil do Milagre. Rio de Janeiro: Oficina do Autor, 1995, p Roberto Freire. Os Cúmplices. Vol, 2. São Paulo: Sol & Chuva, 1996, p Arquidiocese de São Paulo. Brasil Nunca Mais. Rio de Janeiro: Vozes, 1985, p Roberto Bolaño. Carnê de baile. In: Putas Assassinas. Tradução de Eduardo Brandão. São Paulo: Companhia das Letras, 2008, p Roberto Bolaño. Noturno do Chile. São Paulo: Companhia das letras, 2004, p Idem. 9 Polícia politica chilena 10 Roberto Bolaño. Noturno do Chile. São Paulo: Companhia das letras, 2004, p Roberto Bolaño. Detetives Selvagens. Tradução de Eduardo Brandão. São Paulo: Companhia das Letras, 2006, p Disponível em Acessado em 15/02/ Idem. 14 Site acessado em 12/02/ Abuelas de Plaza Maio em Memórias Fraternas: La Experiencia de hermanos de desaparecidos, tios de jóvenes apropiados durante La ultima dictadura militar. Buenos Aires: Eudeba, 2010, p Roberto Bolaño. Os detetives In Chamadas Telefônicas. São Paulo: Companhia das Letras, 2012, p Idem.

10 18 Michel Foucault. Sobre a prisão de Attica in Ditos & Escritos.Tradução de Vera Lucia Avellar Ribeiro. Rio de Janeiro, Forense, 2003, vol, IV, p Ver Hypomnemata, 143, do Nu-Sol. Acessado em 13/05/2012.

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