Colóquio "Desigualdades e Desemprego"

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1 Observatório das Desigualdades Colóquio "Desigualdades e Desemprego" Rosário Mauritti ISCTE, 11 de Novembro de 2009

2 A precariedade laboral: uma definição um fenómeno complexo e multidimensional com contornos económicos, sociais e jurídicos e que sugere a ideia de emprego transitório, instável, com horários irregulares, empregadores múltiplos (sucessivos ou simultâneos), e com rendimentos variáveis, frequentemente, desprovidos das regalias sociais associadas ao trabalho assalariado.

3 A precariedade laboral 1) Para segmentos significativos da população, particularmente nas faixas etárias dos mais jovens e mais desqualificados, representa a alternativa possível ao desemprego e à pobreza. 2) Nos qualificados está associado também à maior capacidade de mobilidade e adaptação a novos contextos laborais. 3) Funciona como factor de maturação e oportunidade para a aquisição de novas competências ou novos recursos humanos.

4 O olhar que se constrói de seguida 1) toma por referência as trajectórias, os projectos e as realizações de um protagonismo que associou o subemprego e a precariedade laboral com uma escolha de independência. 2) identifica a noção de precariedade laboral assumindo a perspectiva e os significados do sujeito que a refere num confronto com a experiência vivida;

5 A Catarina, 35 anos, solteira. Mora sozinha há seis anos num T1 alugado no mesmo bairro que a viu crescer, numa rua próxima da casa onde vive a avó, a mãe e um meio irmão, fruto de um segundo casamento da progenitora. A sua formação de base é História de Arte que apenas exerceu no âmbito de um estágio de pós-graduação em Gestão e Valorização do Património Cultural, ao abrigo do Programa Mercado Social de Emprego.

6 O trabalho no Call center: a oportunidade de prolongar um projecto de autonomia Para fazer face às despesas que o morar sozinha implicou, e uma vez que os rendimentos que detinha por via do estágio eram insuficientes, inscreveu-se num call center, numa orientação que então via como provisória.

7 O trabalho no Call center: nessa altura eu já estava aqui em casa, tinha o meu espaço as minhas coisinhas. E portanto o call center começou por ser um complemento. ( ) Depois acabou o estágio e eles não renovaram o contrato. Voltar para casa da minha avó e da minha mãe, não. Não, não nunca pus sequer essa hipótese. Para mim isso seria como que eu reconhecer que tinha falhado. E acabei por não ter outra saída na altura

8 A Crise a oportunidade de mudança Nessa altura, para fazer face às despesas chega a acumular o trabalho em três centros diferentes, trabalhando em média 15 horas por dia, sábados, domingos e feriados incluídos. Este período prolonga-se por 4 anos, e é apenas quando cai doente que, obrigada a endividar-se e sem animo para regressar. Uma amiga ainda do tempo da pós-graduação, ligada ao recrutamento para algumas empresas, fala-lhe num emprego como assessora de direcção num armazém de uma grande central de distribuição de electrodomésticos, que fornece lojas e grandes superfícies de venda ao público.

9 O contrato, o up-grade das novas condições acabei por ir à entrevista e entretanto acabei por ficar no lugar, já lá estou para aí há sete ou oito meses... e assinei agora a renovação por mais um ano. Pronto, neste momento estou a ganhar cerca de eu ainda mal consigo acreditar! Depois tenho o seguro de saúde, tenho os subsídios do Natal e das férias, e tenho o direito de gozar férias Portanto, fiz um up-grade não só no tipo de trabalho, mas também no vencimento ( ) apesar de este trabalho ser também muito exigente e absorvente e geralmente, é impossível cumprir um horário entre as 9h e as 6h da tarde. A maior parte das vezes saio de lá às 7h ou mesmo 7:30h

10 A vida mudou mas não totalmente Cumulativamente mantém ainda o trabalho num dos call center apenas três dias por semana, das 20h à 24h, e às vezes, mas agora cada vez mais de forma excepcional, como sublinha, também ao sábado e domingo.

11 Um balanço do trabalho no Call center Neste momento faço inquéritos para [uma operadora de telemóveis] e faço atendimento da linha de créditos. (...) até são duas linhas consideradas assim mais soft em termos dos call center... é uma profissão que eu gosto de fazer. Eu gosto de contactar e gosto de telefonar, só que é desgastante, porque no fundo uma pessoa é tratada como se fosse um escravo:, porque no fundo uma pessoa é tratada como se fosse um escravo: recebe mal, é obrigada a cumprir certos parâmetros que são considerados correctos, e quando não os cumpre é logo julgada ( ) E depois é o ambiente que às vezes se gera, não é o melhor Neste call center onde eu estou agora, nós trabalhamos à hora no máximo ganhamos entre três e quatro euros, já com os seguros e subsídios todos incluídos aquilo está organizado por escalões e quantas mais horas fazemos mais recebemos por cada hora, é assim, e às vezes, há rivalidades para ver quem consegue fazer mais horas tipo para poder ganhar mais dois euros (risos).

12 Porquê manter o vinculo no call center Mantém esta vinculação ao call center, em parte porque contraiu dívidas que ainda não saldou, em parte, também, para manter alguma fonte de recursos alternativos, caso o seu contrato não viesse a ser renovado. Pondera para breve deixar de vez esta actividade. Mas custalhe pensar nisso, pois apesar dos sacrifícios que tem de fazer para se manter neste ritmo, fez no call center duas ou três grandes amigas e reconhece que desenvolveu ali um conjunto de novas competências...

13 ... No meio daquilo tudo, conheci pessoas fantásticas Eu sempre fui uma pessoa que não comunicava muito oralmente e aí desenvolvi algumas competências a própria comunicação. E aprendi outro tipo também de competências em termos de trabalho: aprendi outras profissões, outro tipo de funcionamento, outro tipo de ferramentas... E, no fundo, eu acho que foi enriquecedor.

14 O contraponto com as condições oferecidas no novo trabalho Mas o novo trabalho e a segurança que o mesmo lhe confere em termos remuneratórios, de estabilidade e de convívio, também, permite-lhe começar a desenhar um futuro mais liberto e com maior disponibilidade para a vida pessoal e social, incluindo o desperdiçar tempo naquelas actividades de lazer, que gosta, mas que não tem ainda oportunidade de concretizar.

15 Os projectos que se começam a desenhar Quero estar com os meus amigos, quero recomeçar a ir ao cinema e ao teatro, quero ver exposições, quero ir aos museus, sei lá, quero fazer tudo aquilo que não faço já há muito tempo de uma forma mais continuada. Neste seguimento, a Catarina vai em breve ter a primeira semana de férias desde há séculos. Quer fazer uma coisa super especial algo que permita compensar estes quatro anos sempre a trabalhar. O que planeia então fazer?

16 O ideal das primeiras férias Vou ficar em casa. Vou fechar a porta. Vou desligar a campainha e o telemóvel e vou ficar em casa (risos). Porque é uma coisa que já não faço há imenso tempo e que me vai dar muito prazer vou fazer a limpeza da Primavera e tentar arranjar espaço, o que vai ser difícil, mas pronto. Mas vou sobretudo ficar em casa. Vou às compras, vou encher o frigorífico esse tipo de coisas mais normais, do dia-a-dia... e fazer aquelas coisas que já não faço há imenso tempo. Por exemplo, entre as mil quinquilharias que tenho espalhadas por todos os cantos, tenho umas caixas para pintar que ofereci à minha mãe o ano passado no Natal... ela pergunta pelas caixas, eu digo ah, tenho que comprar as tintas. Portanto, vai ser agora nas férias.

17 Os projectos de futuro ou a ausência de projectos Quanto ao futuro continua a preferir não fazer grandes planos até porque tem receio que depois nada aconteça como tinha planeado. As coisas, no fundo, voltarem à normalidade, é isso que eu pretendo num futuro mais próximo, é voltar à normalidade Na casa ponto de observação, o local em função do qual se desenhou toda a narrativa as paredes ainda pintadas de negro são sinais presentes do pesadelo que afirma ter criado para si, por sua própria vontade.

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