Saúde Coletiva ISSN: Editorial Bolina Brasil

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1 Saúde Coletiva ISSN: Editorial Bolina Brasil da Costa Borges Caixeta, Camila Roberto; da Costa Borges, Carolina Roberto; Iwamoto, Helena Hemiko; Camargo, Fernanda Carolina Há "desgaste" do trabalho noturno entre os profissionais de enfermagem? Saúde Coletiva, vol. 9, núm. 57, 212, pp Editorial Bolina São Paulo, Brasil Disponível em: Como citar este artigo Número completo Mais artigos Home da revista no Redalyc Sistema de Informação Científica Rede de Revistas Científicas da América Latina, Caribe, Espanha e Portugal Projeto acadêmico sem fins lucrativos desenvolvido no âmbito da iniciativa Acesso Aberto

2 Há desgaste do trabalho noturno entre os profissionais de enfermagem? A preocupação com o trabalho noturno é um tema atual que cada vez mais, vem sendo estudado por profissionais de diversas áreas, por ser uma tendência mundial para o atendimento às necessidades populacionais e de serviços. Com o objetivo de identificar a presença de alterações biológicas, fisiológicas e psicossociais advindas do trabalho noturno entre os profissionais de enfermagem, realizou-se este estudo de natureza descritiva e exploratória. Utilizou-se para a coleta de dados um questionário semi estruturado contendo questões pessoais e os aspectos resultantes do trabalho noturno. A maioria dos trabalhadores relatou prejuízos na vida social, no relacionamento familiar e com parceiro/amigos. Os impactos físicos da jornada noturna foram mais expressivos nas mulheres, com alterações gástricas e cardíacas e a qualidade do sono em homens, decorrente da insônia/dificuldade para dormir e sonolência no trabalho. É preciso que as instituições de saúde ofereçam além de complementações salariais, um ambiente de trabalho mais humanizado, levando-se em consideração que estes trabalhadores muitas vezes abdicam os seus momentos de lazer, colocando o trabalho em primeiro plano, esquecendo-se até do cuidado à própria saúde. Descritores: Enfermagem; Trabalho Noturno; Saúde do Trabalhador. The concern about night shift working is an actual theme being studied by professionals from several areas, as it is an worldwide trend aiming supply popular service demand. In order of identifying biological, physiological and psychosocial alterations derived from night shift working among Nursery professionals this descriptive and exploratory study has been made. The data was collected using a semi-structured questionnaire using private questions and resulting aspects of the night shift working. The majority of the professionals referred social life implications also issues on friends, partners and family relationships. The night shift working physical impact were more significant on women, with gastric altercations, cardiac problems. Sleep quality decrease among men due to insomnia, difficulty to sleep and somnolence during work. It urges Health Institutions go beyond salary complements offering a more humanized working environment, taking in account those professionals several times relinquish their leisure time, putting work in the first plan, even forgetting to take care of their own Health. Descriptores: Nursing; Night work; Occupacional health. La preocupación por el trabajo nocturno es un tema actual que cada vez más está siendo estudiado por profesionales de diferentes áreas, ya que es una tendencia global para el atendimiento de las necesidades de la población y los servicios. Con el fin de identificar la presencia de cambios biológicos, fisiológicos y psicosociales del trabajo nocturno de los profesionales de enfermería, se organizó un estudio descriptivo y exploratorio. Se ha utilizado para el recopilatorio de datos, un cuestionario semi estructurado con cuestiones personales y cuestiones derivadas de trabajo nocturno. La mayoría de los trabajadores informó que tiene deficiencias en la vida social, en la familia y pareja / amigos. El impacto físico de la jornada nocturna fue más significativo en las mujeres con los cambios gástricos y cardíacos y la calidad del sueño en los hombres, debido al insomnio o dificultad del sueño y somnolencia en el trabajo. Es necesario que las instituciones de salud ofrecerán además de salarios complementares, un lugar de trabajo más humano, teniendo en cuenta que estos trabajadores abdican de su tiempo libre, poniendo el trabajo en el primer plano, olvidándose de la atención a la propia salud. Descriptores: Enfermería; Trabajo nocturno; Salud laboral. Camila Roberto da Costa Borges Caixeta Enfermeira. Mestre em Promoção da Saúde. Docente do Curso de Graduação em Enfermagem do Centro Universitário do Planalto de Araxá UNIARAXÁ. Carolina Roberto da Costa Borges Enfermeira. Mestranda em Promoção da Saúde pela UNIFRAN. Docente do Curso de Graduação em Enfermagem da UNIARAXÁ. Helena Hemiko Iwamoto Enfermeira. Mestre e Doutor em Recursos Humanos. Professora Adjunta da Universidade Federal do Triângulo Mineiro - UFTM. Fernanda Carolina Camargo Enfermeira. Mestre em Atenção à Saúde pela UFTM. Saúde Coletiva 212;9 (57):

3 Recebido: 2/5/212 Aprovado: 2/12/212 INTRODUÇÃO trabalho noturno é inerente a organização da sociedade contemporânea e importante para o desenvolvimento econômico O de um país. Para atender as necessidades da população, principalmente nas metrópoles, os serviços noturnos são cada vez mais comuns 1-3. Esses serviços representam uma alternativa para ingresso no mercado de trabalho e apresentam-se como opção, entre os trabalhadores, para aumentar o orçamento. Entretanto, são preocupantes as formas como se estruturam os serviços noturnos e suas repercussões para a saúde dos trabalhadores 1-3. Entre os mais antigos grupos profissionais que trabalham em sistemas de turnos - diurnos e noturnos, estão àqueles vinculados aos serviços de saúde, no qual se destaca a equipe de enfermagem, composta por enfermeiros, técnicos e auxiliares de enfermagem 2. De maneira geral, é considerado importante o trabalho noturno da enfermagem porque garante a continuidade do cuidado, sem prejuízos assistenciais, nos estabelecimentos de saúde 3. No Brasil, já é tradição adotar para a equipe de enfermagem o turno de 12 horas de trabalho noturno seguido de 36 horas de descanso 2,4. Mas, a realidade aponta que muitos profissionais da enfermagem não descansam após cumprirem a jornada noturna, muitos iniciam suas atividades em outros vínculos empregatícios ou são responsáveis pelos cuidados domésticos 3. Neste contexto, vale destacar as relações entre gênero e trabalho, tendo em vista que a maioria dos trabalhadores da enfermagem são mulheres 4. Poucas alterações ocorreram na divisão das tarefas domésticas, mesmo após a inserção da mulher no mercado de trabalho, maior parte dessas atividades ainda é de exclusiva responsabilidade das mulheres 4. Esse panorama apresenta-se como problema para a saúde dos trabalhadores de enfermagem não apenas pela sobrecarga de atividades, mas, principalmente, pelo fato do trabalho noturno se dá no sentido inverso ao funcionamento fisiológico do organismo. Quando uma pessoa trabalha a noite, ela precisa dormir e descansar durante o dia. Entretanto, a adaptação do ritmo biológico e do sistema de sono e vigília não ocorre instantaneamente 4,5. A alternância dia e noite é um dos mais importantes sincronizadores do ritmo biológico e determina a oscilação regular das funções corporais denominada por ritmo circadiano, responsável por níveis mais elevados de atividade durante o dia e níveis mais baixos, a noite 1,5. De forma geral, essa ritmicidade é influenciada por fatores ambientais como o clima, temperatura e a exposição à luz, mas também por fatores sociais como horário de trabalho, horários de refeições, calendário escolar, atividades religiosas, enfim, atividades sociais que compõem a vida cotidiana de qualquer pessoa 3-5. Por essas razões, os trabalhadores noturnos estão mais susceptíveis a dessincronização interna do ritmo biológico, pois não conseguem tornar compatíveis o repouso com os ciclos de sono e vigília, além de ser mais difícil conciliarem as atividades sociais, incluindo compromissos familiares, com o horário de trabalho 3,4. Essa contradição temporal entre o trabalho noturno e a organização da vida cotidiana predispõem os trabalhadores de enfermagem a distúrbios fisiopatológicos e psicossociais, como problemas gastroentéricos, cardiológicos, obesidade, depressão, ansiedade e isolamento social 1-5. As administrações dos serviços de saúde devem estar sensíveis para essas questões, pois alterações na saúde dos trabalhadores de enfermagem podem interferir na qualidade do atendimento prestado e prejudicar o desempenho do trabalho. Mas, devem atentar-se, principalmente, para a necessidade de incorporação de estratégias que minimizem os desgastes resultantes do serviço noturno, como reorganização da rotina de trabalho, promoção de ambientes adequados e remuneração diferenciada, além da implantação de programas que visem à qualidade de vida dos trabalhadores noturnos 2-4. Nesse sentido, o presente estudo objetiva caracterizar o trabalhador noturno da enfermagem e identificar a presença de alterações fisiopatológicas e prejuízos psicossociais em técnicos e auxiliares de enfermagem que realizam jornada noturna em um hospital filantrópico do Triângulo Mineiro. METODOLOGIA Trata-se de estudo descritivo e exploratório realizado em um hospital filantrópico do município de Araxá, localizado na região Triangulo Sul de Minas Gerais. Conforme censo 21, o município de Araxá/MG apresenta habitantes, é cidade Pólo da microrregião em saúde de mesmo nome, composta por mais sete municípios adjacentes. Participaram da pesquisa 27 técnicos e auxiliares de enfermagem de um hospital filantrópico de médio porte. Os critérios de inclusão dos participantes foram: ser técnico ou auxiliar enfermagem e ser integrante da escala de plantão noturno, com turno fixo (12 horas trabalhadas seguidas de 36 horas de 9 Saúde Coletiva 212;9 (57): 89-93

4 descanso). Critério de exclusão foi ser trabalhador em período de férias ou afastados do serviço. Para a coleta de dados utilizou-se questionário contendo questões referentes à caracterização demográfica como sexo, idade, estado civil, número de filhos; referentes à caracterização do trabalho como tempo de trabalho e atividades desenvolvidas fora da jornada noturna; e questões referentes aos aspectos resultantes do trabalho noturno como sono, vida social, e as alterações biológicas, fisiológicas e psicossociais. Na análise dos dados utilizou-se estatística descritiva por percentagem e número absoluto. A realização desta pesquisa foi aprovada pelo Conselho de Ética em Pesquisa do Centro Universitário do Planalto de Araxá e os dados foram coletados nos respectivos locais de trabalho dos participantes, após a anuência e assinatura do Termo de Consentimento Livre e Esclarecido. RESULTADOS Dos 27 técnicos e auxiliares de enfermagem escalados para o trabalho noturno, praticamente ⅔ dos trabalhadores eram mulheres (7,4%). A média de idade foi de 38 anos, variando entre 21 a 57 anos. Desses participantes, 44,4% eram casados, 63% com filhos e 33,3% tinham curso superior completo. A maioria dos técnicos e auxiliares de enfermagem (7,4%) realizava outras atividades após o trabalho noturno, e este percentual foi mais elevado entre os homens (75%) quando comparado às mulheres (68%). Por outro lado, o percentual entre as mulheres que mantinham o trabalho noturno há mais de um ano (84%) foi superior ao dos homens (62,5%) (Tabela 1). Quanto às possibilidades dos entrevistados conciliarem as atividades diurnas ao trabalho noturno, todos responderam que já se organizaram, embora houvesse relatos sobre cansaço excessivo em 42% das mulheres e 38% dos homens, após o plantão noturno. Quando questionados sobre o trabalho noturno trazer prejuízos à saúde, todos foram unânimes nesta afirmação. Sobre a qualidade do sono dos técnicos e auxiliares de enfermagem, apesar de homens (5%) e mulheres (84%) considerarem seu sono satisfatório, a maioria (74,1%) afirmou dormir menos de 8 horas por dia, principalmente os homens (88%). E, 44,4% dos entrevistados referiram que não dormem tranquilamente, porque tem o sono perturbado por ruídos, enquanto 18,5% apresentam insônia ou dificuldade para dormir (Tabela 2). Quando questionados se apresentavam algum problema durante o sono, as mulheres listaram maior diversidade de problemas em relação aos homens. Os problemas apresentados pelas mulheres foram roncar (42%), ter dor de cabeça (21%), taquicardia e ranger os dentes (ambos com 11%) durante o sono. Já, para os homens, foram mais prevalentes roncar (67%) e ter taquicardia (22%) durante o sono (Tabela 3). Todos os 27 técnicos e auxiliares de enfermagem responderam que estão acostumados com a jornada de trabalho noturna. E, sobre os prejuízos decorrentes desse trabalho, as mulheres Tabela 1 - Tempo de trabalho noturno dos técnicos e auxiliares de enfermagem. Araxá-MG, 21 Tempo de trabalho noturno < 1 ano 1-5 anos 5-1 anos > 1 anos 3 (16) 5 (26) 4 (21) 7 (37) 3 (37,5) 3 (37,5) 2 (25) 6 (22) 8 (3) 4 (15) 9 (33) Tabela 2 - Qualidade de sono dos técnicos e auxiliares de enfermagem. Araxá-MG, 21 Quantidade e qualidade de sono Horas de sono < 8 horas diárias Sono satisfatório Sono perturbado por ruídos Insônia/dificuldade para dormir Sonolência no trabalho 13(68) 16(84) 9(47) 7(88) 4(5) 3(38) 3(38) 2(25) 2(74,1) 2(74,1) 12(44,4) 5(18,5) 4(14,8) Tabela 3 - Problemas apresentados pelos técnicos e auxiliares de enfermagem, durante o sono. Araxá-MG, 21 Problemas Andar Ranger dentes Acordar em pânico Taquicardia Paralisia Dor de cabeça Roncar 4(21) 8(42) 1(11) 2(22) 5(67) 1(4) 2(8) 2(8) 4(16) 1(4) 4(16) 13(44) e a maioria dos homens (87%) relataram ter relacionamento satisfatório com os colegas de trabalho. Entretanto, a maioria dos entrevistados relatou que o trabalho noturno traz prejuízos tanto para a vida social (7,4%), quanto para o relacionamento com os familiares (55,5%), com parceiro e amigos (44,4%) (Tabela 4). Por sua vez, 78% dos homens e 6% das mulheres disseram que o trabalho noturno prejudica a saúde. As queixas mais comuns em ambos os sexos foram constipação intestinal (26%), seguidas por gastrite/azia (22,2%) e falta de apetite (22,2%). Entre as mulheres prevaleceram queixas sobre gastrite e azia (26%), e entre os homens a falta de apetite (38%) (Tabela 5). Saúde Coletiva 212;9 (57):

5 DISCUSSÃO As adaptações em que são submetidos os trabalhadores noturnos de enfermagem trazem conseqüências que alteram o comportamento e o desempenho desses profissionais. Dormir é uma necessidade orgânica e o descanso noturno é o esperado para a fisiologia humana 4. Há diferenças individuais quanto à alocação do período de sono e vigília nas 24h diárias. Existem indivíduos, caracterizados como pequenos dormidores, que necessitam no máximo de 5h3 e 6horas de sono; e outros que biologicamente necessitam de 8h3 a 9horas de sono, denominados por grandes dormidores 2. Mesmo com as diferenças individuais entre o tempo necessário de sono, trabalhadores de enfermagem que dormem em média 4h3 por dia, após uma semana, podem ter sono acumulado, levando a sonolência para níveis similares ao da privação total do sono 5. Em relação à qualidade do sono, dormir durante o dia para repor o sono perdido pelo trabalho noturno é uma necessidade entre os trabalhadores de enfermagem. Entretanto, muitos trabalhadores podem não ter as condições favoráveis para esse descanso. As limitações dessas condições relacionam-se aos incômodos provocados pela luz do dia, pela temperatura, por barulhos/ruídos e até mesmo pela responsabilidade de ter que assumir compromissos domésticos ou outro vínculo empregatício 6-8. De forma geral, a maioria das atividades sociais tem seus horários de funcionamento incompatíveis aos horários de quem trabalha à noite 1-5. Nesse sentido, a característica do sono de reposição ao trabalho noturno é de um sono permeado por perturbações, tanto na sua estrutura interna, quanto na sua duração. Além do mais, apresenta duração menor que o sono noturno, com características polifásicas por ocorrer em períodos fracionados 9. Estudo realizado com trabalhadores de enfermagem de um hospital público de São Paulo/SP retrata que em relação à qualidade de sono, após uma jornada noturna, foi pior do que após um dia de trabalho. Atribui ao fato, como causa principal, a falta de sincronicidade entre o período de repouso e o ritmo biológico dos trabalhadores 1. Já, estudo realizado em Ribeirão Preto/SP, em hospital universitário, junto aos trabalhadores noturnos de enfermagem, apresentou quanto à qualidade de sono diurno desses profissionais, que havia períodos curtos e incompletos, com média de 2 horas de sono por dia com pouca eficácia, sendo esse sono significativamente pior que o sono noturno 2. A percepção de que o trabalho noturno implica em grandes mudanças na vida pessoal, é compartilha entre os trabalhadores de ambos os sexos. A necessidade de se manter em vigília à noite e de repousar de dia permeia vários aspectos da vida cotidiana. Em estudo realizado com trabalhadores noturnos no Rio de Janeiro/RJ, apresentou que o desencontro proveniente do trabalho noturno afeta o relacionamento familiar, principalmente entre os conjugês 11. Além do mais, estudos Tabela 4 - Prejuízos decorrentes do trabalho noturno em relação à vida social e relacionamento com familiares e amigos. Araxá-MG, 21 Prejuízos Vida social Relacionamento familiar Relacionamento com parceiro e amigos 13(72) 11(61) 8(45) 6(75) 4(57) 4(5) 19(7,4) 15(55,5) 12(44,4) Tabela 5 - Queixas mais comuns dos técnicos e auxiliares de enfermagem decorrentes do trabalho noturno. Araxá-MG, 21 Queixas Constipação Intestinal Gastrite/azia Falta de apetite Hipertensão Arterial Problemas Cardíacos Úlcera 5(26) 5(26) 3(16) 3(16) 2(25) 1(12) 3(38) 1(12) 7(26) 6(22,2) 6(22,2) 3(11,1) 3(11,1) 1(3,7) indicam que o tempo dedicado ao lazer tende a ser menor entre esses trabalhadores 11,12. A análise de discurso de trabalhadores noturnos de enfermagem de hospital de ensino da rede pública em Goiânia/GO, apontou que a necessidade de tempo para cuidar de si mesmo, para o lazer e o convívio familiar são deficitárias entre esses profissionais, principalmente pelas dificuldades em reorganizar a rotina, pelo tempo e suas pressões, sendo esses fatores responsáveis por estilos de vida que pouco reconhecem as necessidades humanas desses profissionais 1. Todavia, a capacidade do trabalhador noturno em recompor suas necessidades de repouso e de reorganizar sua vida cotidiana tem forte relação com o apoio proveniente dos familiares, tanto na promoção de ambiente domiciliar favorável para o descanso - com redução de ruídos e de luminosidade para estímulo ao sono, quanto na capacidade de organizar participações em eventos sociais e atividades de lazer conforme disponibilidade de horários desses trabalhadores 1,11,12. A dessincronicidade entre ritmo biológico e a jornada de trabalho também afeta os sistemas orgânicos. Consequências fisiopatológicas estão relacionadas à desorganização do ciclo 92 Saúde Coletiva 212;9 (57): 89-93

6 sono e vigília entre os trabalhadores noturnos, podendo variar desde insônia, irritabilidade, sonolência de dia, até sensação de ressaca e letargia nas reações motoras 4. Os agravamentos dessas situações podem resultar em problemas na digestão e na secreção hormonal, com complicações cardiocirculatórios O trabalho noturno pode provocar mudanças importantes no sistema de secreção de pepsina e de gastrina, causando dificuldades na digestão de certos alimentos ingeridos em determinados períodos do dia, que em longo prazo podem acarretar maiores complicações gastrointestinais. Os distúrbios gastrointestinais, como azia e gastrite, não são comuns numa pessoa normal e quando não há uma causa visível, eles podem decorrer de doença psicossomática, como fadiga crônica e estresse 5, Por sua vez, o repouso inapropriado colabora para o estresse que aumenta a produção de cortisol, levando ao ganho de peso, aumento da glicemia e do colesterol 14. Nesse contexto, os trabalhadores noturnos da enfermagem estão mais susceptíveis a problemas cardiovasculares como hipertensão arterial e taquicardias, e até mesmo infarto do miocárdio 9, Frente aos prejuízos nas relações sociofamiliares e predisposição a desenvolvimento de agravos em saúde, à escolha pelo trabalho do turno da noite entre os profissionais de enfermagem, relaciona-se a diferentes aspectos. Em pesquisa sobre significados do trabalho noturno de enfermagem em cinco instituições de saúde, constatou que o trabalho apresentava pontos positivos como: liderança, inexistência de competição acirrada, ficar longe de fofocas e maior autonomia 6,9. Acrescenta-se as motivações a remuneração financeira, que coloca para o trabalhador a jornada noturna nem sempre como uma escolha pessoal, mas como uma necessidade para complementar seu orçamento e conciliar seus horários em diferentes vínculos empregatíscios 1. Diante dos resultados, são necessárias proposições ao enfrentamento das adversidades impostas pelo trabalho noturno. Essas proposições referem-se a uma estruturação da vida individual, que cada trabalhador noturno de enfermagem necessita organizar sua rotina, privilegiando ações saudáveis, como o repouso de qualidade e o convívio social e familiar. Cabe também aos estabelecimentos de saúde promoverem condições de trabalho adequadas à jornada noturna, que devem ser diferenciadas considerando as peculiaridades que envolvem os trabalhadores desse turno. CONCLUSÃO Praticamente dos técnicos e auxiliares de enfermagem realizavam outras atividades após o trabalho noturno (7,4%). A maioria dorme menos que 8 horas/dia (74,1%), e consideram este tempo de sono satisfatório, embora alguns refiram que não dormem tranquilamente, porque tem o sono perturbado por ruídos (44,4%). Por mais que os técnicos e auxiliares de enfermagem estejam acostumados com trabalho noturno, a maioria acha que traz prejuízos tanto na vida social (7,4%), quanto no relacionamento com os familiares (55,5%) e com parceiro e amigos (44,4%). E ainda, 78% dos homens e 6% das mulheres acreditam que o trabalho noturno prejudica a saúde. Enfim, há necessidade de uma avaliação contínua para valorização dos técnicos e auxiliares que realizam jornada noturna, procurando soluções para que haja um equilíbrio entre as vantagens trabalhistas versus capacidade física dos trabalhadores. Essas soluções podem ser buscadas com a melhoria das condições de trabalho, ou seja, disponibilizando um local específico para descanso durante a jornada de trabalho, alimentação compatível com o trabalho noturno e transporte para retorno ao domicilio, e outras. Referências 1. Neves MJA, Branquinho NCSS, Paranaguá TTB, Barbosa MA, Siqueira KM. Influência do trabalho noturno na qualidade de vida do enfermeiro. 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