SÃO, SEGURO E CONSENSUAL : OS MODOS DE LEGITIMAÇÃO DO BDSM 1

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1 SÃO, SEGURO E CONSENSUAL : OS MODOS DE LEGITIMAÇÃO DO BDSM 1 Paula Chiconini 2 Resumo: Esta pesquisa tem como objetivo investigar as relações entre violência e erotismo, a partir dos modos de legitimação do BDSM, sigla que engloba uma série de práticas e jogos sexuais: B para Bondage, o par B&D para Bondage e Disciplina, o par D&S para Dominação e Submissão, e o par S&M para Sadismo e Masoquismo. A metodologia adotada consistiu na análise de blogs e sites brasileiros sobre o tema na internet e pesquisa de campo em eventos, festas e casas noturnas com frequência de adeptos do BDSM em São Paulo. Constatou-se que o argumento central de legitimação do BDSM, que busca desvinculá-lo de noções de violência, patologia e crime é o consenso entre os envolvidos em suas práticas. Observou-se, contudo, que esse consenso é o tempo todo (re)negociado entre os praticantes, produzindo tensões nas fronteiras entre o consensual e o não-consensual. Palavras-chave: Sexualidade; Violência; Erotismo. Objeto e Objetivos Esta pesquisa tem como objetivo lançar luz às relações entre violência e erotismo, a partir da investigação dos modos de legitimação do BDSM, acrônimo que, de acordo com Bruno Zilli (2007), engloba uma série de práticas e jogos sexuais: B para Bondage 3, prática que envolve a imobilização do parceiro comumente por meio de cordas e algemas; o par B&D para Bondage e Disciplina, relativo a jogos eróticos que envolvem punição e castigo; o par D&S para Dominação e Submissão, referente ao 1 O presente artigo é fruto de minha pesquisa intitulada Violência, gênero e os erotismos contemporâneos: um estudo antropológico sobre as relações entre sujeitos, corpos e objetos eróticos nas experiências SM, vinculada ao Processo FAPESP nº 2012/ , sob orientação da Profª Drª Maria Filomena Gregori. Agradeço à FAPESP pelo apoio financeiro que tem viabilizado esta pesquisa e a minha orientadora pelo constante estímulo intelectual. Uma versão em painel deste trabalho foi apresentada no GT 1 Gênero Sexualidade e Família, na Semana de Ciências Sociais SEMANACS 2012 E Agora?, Campinas, Instituto de Filosofia e Ciências Humanas, UNICAMP, 01 a 04 de outubro de Graduanda do 8º período do curso de Ciências Sociais, com ênfase em Antropologia, pela Universidade Estadual de Campinas. 3 Neste trabalho, optei por grafar em itálico termos em língua estrangeira e termos nativos. 1

2 estabelecimento de um jogo erótico, baseado em uma relação que envolve uma assimetria de poder, na qual há um parceiro que domina e outro que se submete; e o par S&M para Sadismo e Masoquismo, ou sadomasoquismo, referentes a práticas e jogos sexuais que utilizam a dor como estímulo erótico. Essa discussão é bastante fértil no que tange à Antropologia e os estudos de gênero e sexualidade, na medida em que, como bem aponta Maria Filomena Gregori (2010) o BDSM performatiza e coloca em questão as fronteiras e os limites entre violência e erotismo, prazer e perigo, prazer e dor, domínio e sujeição, segurança e risco. Mapeando o campo A metodologia adotada nesta pesquisa consistiu-se de pesquisa de campo em três festas, uma casa noturna e um bar com frequência de adeptos do BDSM em São Paulo e participação em quatro workshops organizados por membros da comunidade BDSM. As festas foram a Dungeon Festish Fest- 3ª Edição 4, organizada pelo Dungeon Fetish Club 5 e as chamadas Dia Internacional do BDSM e Erousdition, organizadas pelo Clube Dominna 6. O bar visitado foi o Porão 7, que na realidade é um boteco, e não possui esse nome, mas é assim chamado por possuir um cômodo inferior, acessado por meio de uma escada, que na ocasião de festas e eventos é adaptado para a realização das práticas BDSM. Notei que os frequentadores destes três estabelecimentos/eventos possuem idade entre 35 e 50 anos, são majoritariamente oriundos da classe média e predominantemente brancos ou de pele clara, com a presença pontual de sujeitos negros ou de pele escura. Notei que o público que circula nestes e entre estes eventos é praticamente o mesmo, não variando muito. 4 Festa de periodicidade semestral, que ocorre desde 2011 em uma escola de dança, localizada na região da Vila Mariana, em São Paulo. A edição a qual compareci foi a terceira. 5 O termo club se refere, neste caso, não a um espaço físico, mas a um clube formado por adeptos do BDSM em São Paulo, que se reuniram e resolveram criar um evento a Dungeon Fetish Fest para reunir adeptos do BDSM e outros fetiches, iniciantes e interessados em conhecer, discutir e vivenciar o BDSM. 6 O Dominna funcionava como um clube até 2010, na região do Tatuapé em São Paulo. Devido a diversos problemas, entre estes, financeiro, o clube foi fechado, mas as sócias remanescentes continuam organizando festas que levam a marca do clube Dominna em um espaço chamado Café Concerto Uranus, na região central de São Paulo. Para maiores informações acerca do Clube Dominna ver FACCHINI (2008). 7 Localizado nos arredores do Parque da Aclimação, na Vila Mariana em São Paulo. 2

3 A casa noturna visitada, a Projeto Luxúria MiniClub 8, ou simplesmente Luxúria ou Lux, como é chamada por seus frequentadores, é um club não destinado exclusivamente ao público BDSM, mas que agrega também fetichistas, góticos, gays e lésbicas, de modo geral o que poderíamos definir como um público alternativo, moderno e descolado. Caracterizado por um gosto por práticas de modificação corporal como piercings, alargadores e tatuagens e vestir-se utilizando elementos de uma estética gótica/punk e também fetichista. De acordo com Isadora Lins França (2007,p ), Boa parte deste público costuma se espalhar pelos bares e sinucas das esquinas da Rua Augusta e apreciar a atmosfera decadente da região, tomada por prostitutas, pedintes e botecos sujos, recorrendo a uma espécie de ressignificação do lixo, transformado em luxo, como atesta a recente moda de realização de festas em antigos bordéis da região. O centro da cidade também é uma opção valorizada, nesse mesmo espírito, em que um equipamento é moldado ao gosto dos modernos. Os frequentadores da Lux, em comparação com os demais eventos, são mais jovens, com idade que varia entre 25 e 40 anos, ao que me pareceu de maior poder aquisitivo, oriundos de classe alta, e também majoritariamente brancos, com a presença pontual de negros. O público deste club foi o mais variado que encontrei, sendo que alguns de seus frequentadores adeptos do BDSM não circulam pelos outros espaços e eventos aqui citados. Os workshops dos quais participei foram: o primeiro sobre técnicas de shibari 9, realizado no PopPorn Festival , e os demais, realizados dentro das festas do Dominna, sobre bondage, spanking 11 e sobre a confecção e a produção artesanal de objetos e instrumentos sadomasoquistas. Além da pesquisa de campo, foi realizada análise qualitativa do conteúdo encontrado em um blog, o SM Sem Mistério (sm-semmisterio.blogspot.com.br) e dois sites brasileiros na internet, o Mestre e o Portal do Senhor Verdugo (mestrejotasm.com.br/senhorverdugo.com; respectivamente) que versam sobre a temática BDSM e foram selecionados por sua relevância com o tema e por terem sido apontados a mim como referências importantes por praticantes do BDSM. Por se tratar 8 Localizado na região dos Jardins em São Paulo. 9 Técnica japonesa de bondage. 10 Mostra de filmes que têm o sexo e o erotismo como linguagem ou tema principal, realizada anualmente na cidade de São Paulo desde Para maiores informações ver o website do evento: 11 Prática de espancamento que pode ser realizada com as mãos, chicotes, varas, chinelos, palmatórias, entre outros. 3

4 de uma pesquisa ainda em andamento o período aqui analisado compreendeu os meses de maio a setembro de O BDSM e o estigma da perversão Historicamente, o BDSM tem sido associado a noções de perversão sexual, doença mental, crime e violência (ZILLI, 2007). Michel Foucault (1988), localiza no século XIX o processo de medicalização da sexualidade. Processo em que a psiquiatria teve papel de destaque ao propor uma ciência sexual, por meio da qual objetivou catalogar e dar conta de todos os fenômenos sexuais desviantes em relação à sexualidade conjugal, ou seja, heterossexual, monogâmica e com finalidade reprodutiva. Neste processo emergiram as categorias dos perversos e das perversões sexuais, dentro da quais o sadismo e o masoquismo representam importantes diagnósticos do período, conforme aponta Zilli (2007). É nesta época em que é escrita a obra Psichopathia Sexualis, em 1886, pelo médico psiquiatra austríaco Richard Von Krafft- Ebing. De acordo com Jorge Leite Jr. (2006), a obra consiste de uma classificação das patologias físio e psicológicas das condutas sexuais, cujo objetivo foi o de apresentar suas causas e possíveis métodos de tratamento. O BDSM também está historicamente associado à polêmica figura do Marquês de Sade 12, nobre francês e escritor libertino do final do século XVIII, cuja obra e biografia são famosas por exibirem um retrato cruel da sexualidade, que é exercida muitas vezes de forma violenta e cruel por suas personagens. Esse escritor defendia, em linhas gerais, a busca pelo prazer acima de todas as coisas. Voltando a obra de Krafft- Ebing, quando cunha o termo sadismo para se referir à associação entre erotismo e crueldade, o autor baseou-se nas obras de Sade para definir esta patologia e dar-lhe um nome. Segundo Leite Jr. (2006), o termo masoquismo foi assim constituído de forma semelhante. Originário do sobrenome do escritor e romancista austríaco, autor de A Vênus das Peles (1870), Leopold Von Sacher-Masoch 13. Segundo o último, homem e mulher são seres diferentes, sendo a segunda superior ao primeiro, que deve reconhecer o fato e curvar-se e entregar-se a ela. A mulher deve ser cruel com seu homem-escravo, 12 Para maiores informações sobre a vida e a obra de Marquês de Sade, ver LEITE JR. (2006). 13 Para maiores informações sobre a vida e a obra de Sacher-Mashoch, ver DELEUZE (1983); GREGORI (2010) e LEITE JR. (2006). 4

5 torturando-o na carne e no espírito, conforme aponte Leite Jr. (2006). Na obra em questão, Sacher-Masoch narra as investidas do jovem nobre francês Séverin em relação à Senhora Wanda, da qual quer tornar-se seu escravo sexual/amoroso. Baseado nisto, ao prazer erótico associado ao gosto pela dor e pela flagelação física e psicológica, foi cunhado o termo masoquismo. A pesquisa de campo, assim como a pesquisa na internet, têm revelado até o momento, a centralidade do conceito de SSC, isto é, sigla que se refere à São, Seguro e Consensual e que orienta e norteia as práticas e os relacionamentos no âmbito do BDSM. Este conceito foi criado justamente para se contrapor as noções de violência, crime, perversão, patologia, perigo e risco às quais o BDSM é comumente associado. No cerne deste conceito está a noção de consensualidade, ou seja, a ideia de que o BDSM se constitui de jogos sexuais praticados apenas entre sujeitos que consentem em participar dos mesmos. Conforme aponta Zilli (2007, p. 62) a noção de consentimento é central para separar e distinguir BDSM e criminalidade, sendo também sua principal estratégia de legitimação, na medida em que expressa não haver violação nem abuso reais 14 daqueles envolvidos. Desse modo, embora a comunidade BDSM faça referência a Sade, esta referência é sempre no sentido de enfatizar que o que praticam é muito distante e diferente do praticado e defendido por este, haja vista que assumem o consentimento como premissa básica de suas ações, como podemos ver nos seguintes fragmentos retirados do Portal do Senhor Verdugo, do site do Mestre e do blog SM Sem mistério, respectivamente: 14 Ênfase do autor. O termo SεtM significa Sadismo e Masoquismo e toda a ação derivada daí não é necessariamente consensual, tem uma identidade maior com história e classificação médica. SM significa sadomasoquismo e é entendido como comportamento ou orientação sexual (Disponível em <http://www.senhorverdugo.com/bdsm-e-afins/143-diferencas-entre-sm-esam.html> acessos em 16/10/2012) São, Seguro e Consensual. A importante tríade que separa o aceitável e o condenável no BDSM. Tudo o que possa ser classificado como SSC é aceitável no BDSM, por mais que para alguns (ou nós mesmos) pareça um exagero ou absurdo. Da mesma forma, qualquer coisa que venha a ferir um dos elementos da tríade deve ser execrado e condenado, por mais que possa, a princípio, parecer um insignificante detalhe (Disponível em <http://www.mestrejotasm.com.br/saz.htm> acessos em 16 de outubro de 2012). São, Seguro e Consensual. Se uma das vértices desta tríade não existir, também não existe BDSM. (Disponível em <http://sm-semmisterio.blogspot.com.br/2008/comeo.html? zx=b01 e7e1eb2 511e54> acessos em 16 de outubro de 2012). 5

6 Há, portanto, um claro desejo em afastar-se das classificações médicas acerca do BDSM que o compreendem pela chave da patologia e daquele outro SεtM praticado sem o consentimento entre as partes. Observo, entretanto, que a relação entre o BDSM e o discurso médico-científico é marcada por ambiguidades. Se por um lado foi e, em certo sentido, ainda é este discurso um dos grandes agentes na patologização da(s) sexualidade(s) BDSM, também é este mesmo discurso que é reapropriado pela comunidade BDSM no processo de legitimação e despatologização do mesmo. Presenciei uma situação em campo bastante ilustrativa quanto a este ponto. Em uma palestra sobre cutting 15, a palestrante, uma sub 16 de aproximadamente 30 anos, antes de iniciar sua fala colocou que devido a existência de certa confusão em relação ao fato de até que ponto o cutting pode ser considerado uma prática BDSM ou um distúrbio psicopatológico, chamaria um amigo seu, psicólogo e Mestre 17 no meio BDSM, para fazer os devidos esclarecimentos. O psicólogo então esclareceu que só pode ser considerada como patológica, segundo a atual classificação da comunidade médicocientífica, citando o Manual de Diagnóstico e Estatística dos Transtornos Mentais (DSM-IV), aquela atividade ou comportamento que traga prejuízo físico, psíquico e/ou social para o próprio sujeito ou para outrem. Isso vai ao encontro do apontado por Zilli (2009b), quando afirma que na atualidade o discurso médico é usado como importante referência, justamente devido a seu peso científico, para atestar e assegurar que as práticas BDSM nem sempre são perigosas ou patológicas. Ainda segundo Zilli (2007), de acordo com o DSM IV, as práticas BDSM não são em si mesmas patológicas, mas os modos como um sujeito as vivencia pode ou não ser patológica. Além disso, é importante atentar para o fato de que no BDSM os momentos de execução das práticas são chamados de jogos, plays ou cenas. Os dois primeiros termos, como bem aponta Gregori (2010) parecem fazer referência ao lúdico, enfatizando este aspecto das práticas BDSM e não a violência à qual é geralmente pensada e associada. Em campo, algo que tenho vivenciado muito, refere-se ao fato de que, assim que tomam conhecimento de que estou ali nas festas, eventos e workshops como pesquisadora, 15 Tipo de escarificação, ou seja, a produção de cicatrizes no corpo realizadas, neste caso, por meio de incisões na pele através de objetos cortantes, usualmente, um bisturi. Esta palestra foi realizada no evento em comemoração ao Dia Internacional do BDSM, organizado pelo Dominna. 16 Termo nativo utilizado para se referir ao sujeito que ocupa a posição de submissão no âmbito do BDSM. Existem outros termos empregados para esta mesma finalidade, como bottom e escravo(a), porém, observo uma frequência maior do uso do termo sub. 17 Uma das formas de denominar o sujeito de sexo masculino que ocupa a posição de dominação no âmbito do BDSM. 6

7 de pronto, as pessoas começam a enfatizar um caráter mais lúdico e descontraído do BDSM, com dizeres do tipo a gente está aqui pra se divertir ; não é só dor, não é só bater, aqui tem carinho, tem respeito, tem amizade ; aqui existe muito respeito, ninguém vai te obrigar a nada. O termo cena, em contrapartida, parece sugerir uma ideia de drama ou teatro. Nas palavras de Leite Jr. (2006, p. 251), talvez para marcar a idéia de que o acontecimento não é real, e sim um teatro, além de reforçar o caráter estético e a necessidade de um público. Ou seja, a violência ali se acontece é uma violência encenada e não real e parte do consentimento de todos os envolvidos. A noção de São, conforme retratada no Dicionário do BDSM do Mestre 18 é emblemática quanto a esse aspecto: Sadio, higiênico, salutar, justo, íntegro, consciente, sóbrio, maduro. Os termos consciente e sóbrio sugerem justamente a capacidade de distinguir entre fantasia e realidade, ou seja, entender que o que se executa em uma cena é uma encenação de uma violação e não uma violação real. O SSC e a Pedagogia BDSM Algo que tenho observado tanto na pesquisa de campo quanto na pesquisa pela internet se refere ao fato de que no BDSM há uma preocupação em não exprimir opiniões como corretas ou como condutas a serem seguidas e tampouco em julgar a opinião de outrem em termos de certo e errado. As opiniões são expressas enquanto tal e sempre com a ressalva de que constituem apenas a opinião daquele sujeito e não necessariamente representativa da opinião ou das opiniões da comunidade BDSM como um todo. No site Mestre ao final de suas publicações, o autor, em geral, assina é a minha opinião. No blog do Dungeon Fetish Club, que organizou a festa Dungeon Festish Fest - 3ª Edição, da qual participei, a primeira regra destacada para a festa foi a seguinte: Respeito a qualquer participante da festa, independente de sua posição no BDSM 19. Colocações deste tipo, fazem querer supor a existência de uma democracia de ideias e de posições dentro do BDSM. O que observo, no entanto, a despeito deste fato é justamente a constituição de uma espécie de pedagogia BDSM. Embora afirmações de que o BDSM é múltiplo e possível de ser vivenciado de diversas maneiras sejam 18 Disponível em <http://www.mestrejotasm.com.br/saz.htm> acessos em 16 de outubro de Disponível em <http://dungeonclubbr.blogspot.com.br/> acessos em 16 de outubro de

8 comuns neste universo, existem prescrições que sugerem a normatização tanto da execução das práticas quanto das condutas que cada praticante deve ter de acordo com sua posição dentro do BDSM se submisso(a)/escravo(a) ou Dom/Domme 20 e uns em relação aos outros. Tais prescrições associadas a regras e rituais, conforme apontado por Regina Fachinni (2008), constituem a chamada Liturgia do BDSM. O tratamento entre Dons/Dommes e subs/escravos(as) é perpassado por certas regras, como por exemplo, a de que os últimos devem dirigir-se aos primeiros utilizando termos como Senhor(a), Dom/Domme, Dono(a), Mestre, Rainha, entre outros. Além disso, ao final de uma cena o/a sub, deve ajoelhar-se aos pés de seu/sua Dom/Domme, beijar-lhes os pés, por vezes as mãos e os objetos por meio dos quais sofreu os açoites, como chicotes e palmatórias, por exemplo. Ritual este que tenho observado em todas as festas e eventos aos quais tenho frequentado. Essa pedagogia BDSM está ligada a outro aspecto fundamental do BDSM que é a segurança, o que pressupõe o domínio de uma técnica criada e veiculada pelos próprios praticantes tanto pela internet, como a partir da organização de palestras e workshops, visando orientar as maneiras mais seguras de realizar cada prática ou jogo erótico, especialmente para os iniciantes no BDSM. Isto se inscreve em um cálculo racional do uso do prazer, isto é, a busca pela maximização do prazer, ao mesmo tempo em que se busca minimizar e/ou controlar os riscos envolvidos nestas práticas (GREGORI, 2003; ZILLI, 2007; FACCHINI, 2008). A posse deste conhecimento técnico passa pela confecção de objetos e instrumentos sadomasoquistas, seu correto manuseio, e por um conhecimento detalhado da anatomia e do funcionamento do corpo humano. A necessidade de estudar e de conhecer a fundo o BDSM antes de colocá-lo em prática é, a todo o momento, enfatizada. No workshop sobre spanking, do qual participei, para citar como exemplo, foi ensinado aos participantes de que modo, com quais instrumentos, a maneira correta de manuseá-los, a distância que se deve manter de acordo com a altura do/a sub, e em quais regiões do corpo se pode bater em outrem e as que são proibidas por oferecerem risco de acidentes, visando preveni-los e garantir ao máximo a segurança dos envolvidos, em especial daqueles que ocupam a posição de submissão no jogo sadomasoquista. Também fomos alertados sobre os perigos de se realizar qualquer cena 20 Termos nativos para designar o sujeito de sexo masculino e o de sexo feminino, respectivamente, que ocupam a posição de dominação no jogo sadomasoquista. É grafado desta maneira, com as iniciais em maiúscula, podendo ser também grafado todo em maiúsculo, para justamente marcar uma posição de dominação, em oposição aos termos sub ou escravo(a) grafadas em minúscula. 8

9 sob o efeito de álcool e/ou drogas, tanto para Dons/Dommes quanto para subs. O seguinte fragmento retirado do blog SM Sem Mistério coloca em evidência a importância do conhecimento dentro do BDSM: Dominadores(as) e Submissos(as) iniciantes. Está querendo começar? Nunca praticou? Ótimo. Não tem nada de mais nisso. Não importa sua idade: se 18 ou 48. Simplesmente assuma a sua condição de iniciante. Desça do pedestal.aproxime-se daqueles que já praticam, que já vivenciaram muitas situações reais e aprenda. Não se esqueça que informação é tudo. A prática segura do SM 21 requer algum conhecimento de várias vértices. Um bom dominador, por exemplo, vai saber alguma coisa de anatomia, psicologia, filosofia, primeiros socorros, sexualidade oposta (principalmente) e mais um monte de coisas que vai aprender estar co-relacionado com o SM. Submissos(as) aprendam também! Afinal, é seu lindo corpinho que vai estar amarrado (às vezes vendado e amordaçado) a disposição de um Dominador com um chicote de couro na mão. (Disponível em <http://smsemmisterio.blogspot.com.br/2008/12/o-w-orld-w-ide-w-eb-e-o-bdsm.html> acessos em 17 de outubro de 2012). Esse aspecto pode ser compreendido a partir do que Gregori (2003, p.111) denominou de erotismo politicamente correto, o que a autora apontou como um empreendimento, observado em sua pesquisa em sexs shops de São Francisco (EUA) e São Paulo, cuja finalidade é desvincular o erotismo de seu sentido de violação. Em suas palavras: Há um esforço claro de integração e não de subversão. A tríade SSC representa também um claro esforço da comunidade BDSM em neutralizar as noções de perigo e risco comumente associadas às suas práticas eróticas. Isso não significa, contudo, que tais práticas não sejam perpassadas, ao menos em alguma medida, pelo risco e pelo perigo. Ao contrário, a ênfase dada ao aspecto são, seguro e consensual do BDSM representa não apenas uma tentativa de lidar com perigo e risco, mas também o reconhecimento de que estes elementos permeiam e constituem tais práticas e, por isso mesmo, necessitam de uma série de códigos de condutas e de aparatos que mantenhamnos sob controle. Observo, todavia, que se o SSC constituí-se enquanto regra que norteia e orienta as condutas e os relacionamentos dentro do BDSM, este não é um conceito estático e definido em si mesmo, ao contrário, é um conceito passível de ser manipulado de acordo com cada sujeito ou situação. A seguinte passagem extraída do Portal do Senhor Verdugo ilustra esse ponto: 21 Grifos do original. 9

10 A questão do SSC é muito relativa e não pode ser vista de uma maneira simplista ou generalizada, nem tudo o que é seguro para uns o será para outros e vice-versa. Essa relatividade causa controvérsias e opiniões emocionais de ambos os lados, porém é uma situação que geralmente só o bom senso dos envolvidos pode equacionar [...] O SSC por si só não é suficiente para livrar-lhe de uma situação de risco, mas é um ponto de partida para o estabelecimento de relações com um nível de segurança maior (Disponível em <http://www.senhorverdugo.com/origem-do-ssc.html> acessos em 16 de outubro de 2012) A própria noção de consentimento, estratégica na legitimação do BDSM é também alvo de controvérsias e de constantes negociações. Algo que é muito debatido no âmbito do BDSM, pelo que tenho percebido tanto em campo quanto nas discussões pela internet, diz respeito ao fato de que, para alguns, a ideia de consentimento feriria os princípios da dominação, haja vista que alguns sujeitos argumentam que o consentimento seria uma espécie de inversão de papéis entre dominadores e submissos, na medida em que colocaria nas mãos daqueles que ocupam a posição de submissão a delimitação e a definição sobre a maneira como os jogos eróticos deveriam acontecer, borrando, desse modo, as fronteiras entre quem domina e quem se submete. Em campo, tenho ouvido de diversos subs que quem em verdade dita as regras do jogo é a/o sub e não o Dom ou a Domme, uma vez que é o primeiro e não os últimos quem define o que está disposto ou não a fazer em uma cena ou jogo erótico. Reconhece-se, em contrapartida, que sem o consentimento entre as partes não haveria como distinguir entre BDSM e violência e entre BDSM e crime, como é claramente expresso no seguinte trecho: Nada, absolutamente nada que fuja da consensualidade pode ser entendido como BDSM. Não se pode confundir a troca de poder (o momento em que um indivíduo entrega-se ao outro) com abuso ou violência gratuita (Disponível em <http://www.senhorverdugo.com/bdsm-e-sua-liturgia.html> acessos em 16 de outubro de 2012). Considerações Finais Gilles Deleuze (1983), em seu ensaio sobre A Vênus das Peles de Sacher- Masoch, aponta o contrato como a base da relação masoquista, contrato esse que pressupõe o consentimento e a reciprocidade entre os envolvidos. Partindo da premissa do SSC, a exigência do consentimento pressupõe o respeito aos limites de ambas as partes, com especial destaque aos limites dos subs. 10

11 A pesquisa tem revelado que embora esse contrato exista e faça parte das negociações no âmbito do BDSM, é um contrato não apenas passível de ser quebrado, como também se espera que assim o seja. Talvez como uma tentativa de lidar com a problemática do quem domina quem, imposta pela cláusula do Consensual, na tríade SSC, uma estratégia muito utilizada e valorizada no BDSM por muitos Dons e Dommes é a de promover o que chamam de quebrar os limites do sub ou ainda de ampliar os horizontes do sub, ou seja, estratégia de convencimento utilizada por Dons e Dommes em relação a seus subs, para que estes últimos realizem e/ou passem a aderir, ainda que de forma lenta e gradual, a práticas que inicialmente impuseram como limite ou mostraram-se relutantes. Em uma palestra sobre dominação feminina, feminização 22 e inversão de papéis 23, realizada dentro do evento em comemoração ao Dia Internacional do BDSM pelo Dominna, a palestrante, uma Domme de meia idade, colocou que a verdadeira dominação estaria justamente em obter do sub aquilo que inicialmente lhe foi negado. Dessa perspectiva, o consentimento não é um conceito estático nem tampouco estanque, mas permite múltiplas interpretações e, mais do que isso, é o tempo todo alvo de negociações e renegociações entre os praticantes do BDSM, produzindo tensões nas fronteiras entre o consensual e o não consensual. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS: DELEUZE, Gilles. Apresentação de Sacher-Masoch: o frio e o cruel. In: SACHER- MASOCH, Leopold. Vênus das peles. Rio de Janeiro: Taurius, FACCHINI, Regina. Entre Umas e Outras: mulheres, (homo)sexualidades e diferenças na cidade de São Paulo. Tese (doutorado em Ciências Sociais) Instituto de Filosofia e Ciências Humanas, Unicamp, Campinas, FRANÇA, Isadora Lins. Sobre guetos e rótulos : tensões no mercado GLS na cidade de São Paulo. Cadernos Pagu, Campinas, n. 28, pp , FOUCAULT, Michel. História da Sexualidade I: A vontade de saber. Rio de Janeiro: Edições Graal, GREGORI, Maria Filomena. Relações de violência e erotismo. Cadernos Pagu, Campinas, n. 20, Jogo erótico comumente atribuído à dominação feminina, na qual o sub é obrigado a se vestir e a se comportar como uma mulher, sendo assim tratado. 23 Referentes a jogos sexuais nos quais a mulher assume a posição ativa e penetra o homem com o uso de dildos ou vibradores. 11

12 GREGORI, M. F. Prazer e perigo: notas sobre feminismo, sex-shops e S/M. In: GREGORI, M. F.; PISCITELLI, A.; CARRARA, S. (Org.) Sexualidade e saberes: convenções e fronteiras. Rio de Janeiro: Garamond Universitária, p GREGORI, Maria Filomena. Prazeres Perigosos: erotismo, gênero e limites da sexualidade. Tese (livre-docência). Instituto de Filosofia e Ciências Humanas/IFCH,UNICAMP, Campinas, LEITE JÚNIOR, Jorge. Das maravilhas e prodígios sexuais: a pornografia bizarra como entretenimento. São Paulo: Anablume, LEITE JÚNIOR, Jorge. A pornografia bizarra em três variações: a escatologia, o sexo com cigarros e o abuso facial. In: BENÍTEZ, Maria Elvira Díaz; FIGARI, Carlos Eduardo. (eds.). Prazeres dissidentes. Rio de Janeiro: Garamond, McCLINTOCK, Anne. Couro imperial: raça, travestismo e o culto da domesticidade. Cadernos Pagu, n.20, PARREIRAS, Carolina. Sexualidades no ponto.com: espaços e homossexualidades a partir de uma comunidade on-line. Dissertação (mestrado em Antropologia Social). Instituto de Filosofia e Ciências Humanas Universidade Estadual de Campinas, SILVA, Marcelle Jacinto da. Linguagens, Experiências e Convenções de Gênero e Sexualidade no BDSM. Monografia de Conclusão do Curso de Ciências Sociais. Centro de Humanidades/UFC, ZILLI, Bruno Dallacort. A perversão domesticada: Estudo do discurso de legitimação do BDSM na Internet e seu diálogo com a Psiquiatria. Rio de Janeiro: PPGSC/UERJ. Dissertação. (Mestrado em Medicina Social) ZILLI, Bruno Dallacort. BDSM DE A A Z: A DESPATOLOGIZAÇÃO ATRAVÉS DO CONSENTIMENTO NOS MANUAIS DA INTERNET. In: BENÍTEZ, María Elvira Díaz; FIGARI, Carlos Eduardo. (eds.). Prazeres dissidentes. Rio de Janeiro: Garamond, 2009a. ZILLI, Bruno Dallacort. BDSM e consentimento na internet. In: VIII Reunión de Antropología Del Mercosur (RAM). Buenos Aires, 29 de Setembro a 02 de Outubro de 2009(b). 12

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