LIMITAÇÕES DE DIREITOS AUTORAIS

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1 LIMITAÇÕES DE DIREITOS AUTORAIS Guilherme Carboni 1. FUNÇÃO SOCIAL DO DIREITO DE AUTOR Limitações: hipóteses em que a lei permite a livre utilização de obras protegidas sem a necessidade de autorização do autor Função social do direito autoral: promover o desenvolvimento cultural e tecnológico (finalidade pública) por meio da concessão de um exclusivo (direito privado) Limitações atingem o exercício do direito de autor Função social afeta a própria substância do direito de autor, constituindo-se no seu fundamento e na sua justificação

2 1. FUNÇÃO SOCIAL DO DIREITO DE AUTOR 1) Restrições intrínsecas: a) objeto b) duração c) limitações estabelecidas em lei 2) Restrições extrínsecas: a) função social da propriedade b) função social dos contratos c) teoria do abuso de direito d) regras sobre desapropriação para divulgação ou reedição de obras intelectuais (Decreto-Lei 3.365/41, artigo 5, letra o ) e) princípios constitucionais a respeito do direito de acesso ao conhecimento, à informação e à cultura bem como ao desenvolvimento tecnológico 2. LIMITAÇÕES NA CONVENÇÃO DE BERNA Convenção da União de Berna (1886) regra dos 3 passos : Fica reservada às legislações dos países da União a faculdade de permitir a reprodução das referidas obras, (1) em certos casos especiais, (2) desde que tal reprodução não prejudique a exploração normal da obra (3) nem cause um prejuízo injustificado aos legítimos interesses do autor

3 2.1. CERTOS CASOS ESPECIAIS As hipóteses de limitações não podem ser amplas e genéricas Devem ser definidas e limitadas Devem ter um propósito que seja justificável em termos de políticas públicas Esse entendimento não tem sido óbice para que países adotem um tratamento genérico e aberto das limitações aos direitos autorais, como é o caso do sistema de fair use norte-americano 2.2. NÃO PREJUDIQUE A EXPLORAÇÃO NORMAL DA OBRA Exploração normal : exclusividade de exploração que o autor espera, razoavelmente, poder realizar, em condições normais, no momento de sua criação normal : refere-se a formas de exploração que tenham ou possam vir a ter considerável importância econômica ou prática

4 2.2. NÃO PREJUDIQUE A EXPLORAÇÃO NORMAL DA OBRA Não se poderia estabelecer uma limitação, de forma injustificada, a um mercado comercialmente relevante ou a uma forma de exploração já existente ou que poderá surgir Exceto se houver uma finalidade pública, quando a limitação poderá ser imposta 2.2. NÃO PREJUDIQUE A EXPLORAÇÃO NORMAL DA OBRA Entendimento do painel da OMC constituído para analisar as limitações do Digital Millennium Copyright Act: deve-se levar em consideração não somente usos então existentes da obra, mas também seus usos potenciais De acordo com a decisão do painel, todas as formas de exploração de uma obra, que tenham ou provavelmente venham a ter importância econômica ou prática considerável devem ser reservadas ao autor Outro ponto importante da decisão: nem todos os usos comerciais de uma obra necessariamente conflitam com sua exploração normal

5 2.2. NÃO PREJUDIQUE A EXPLORAÇÃO NORMAL DA OBRA Na cópia privada: é possível defender que, em determinadas condições, a cópia privada não afeta a exploração normal da obra Saber se uma utilização afeta a exploração normal da obra significa saber se tal utilização pode ser vista como substituta em relação à aquisição de um exemplar original Entretanto, não se pode assumir que a realização de uma cópia privada substitui a aquisição de um exemplar original em todos os casos 2.2. NÃO PREJUDIQUE A EXPLORAÇÃO NORMAL DA OBRA Diferentes modalidades ou práticas de cópia privada podem ser identificadas, fazendo com que uma análise única aplicável a todas elas seja não somente difícil quanto indesejada: - Cópias feitas a partir de um exemplar original, legitimamente adquirido pelo copista - Obra que não esteja sendo efetivamente explorada e que esteja esgotada: nessa hipótese, ainda que o copista quisesse, não teria como adquiri-la - Reprodução para preservação do original - Reprodução para utilização em outros formatos ou aparelhos: o copista de um CD dificilmente adquiriria um novo original apenas para ouvi-lo em outro aparelho -etc.

6 2.3. PREJUÍZO INJUSTIFICADO AOS LEGÍTIMOS INTERESSES DO AUTOR Exige que o prejuízo seja razoável, devendo a limitação ao direito de autor ser socialmente justificável e sem escopo de lucro Entende-se que o termo injustificado possui conotação primordialmente econômica O prejuízo injustificado deve ser causado em relação a interesses legítimos, por exemplo, interesse público 2.4. A REGRA DOS 3 PASSOS E O INTERESSE PÚBLICO Guia Interpretativo da Convenção de Berna, editado pela OMPI: Interpretação que deve ser dada ao artigo 9.2 da Convenção de Berna: considera que as exceções aos direitos autorais, de uma forma ou de outra, sempre terão algum impacto no mercado que é reservado aos titulares de direitos autorais. Entretanto, para se avaliar se determinada exceção é ou não válida no âmbito da Convenção de Berna, não se deve simplesmente levar em consideração se o autor sofre ou não um prejuízo qualquer, mas se o prejuízo é ou não injustificado Para esse fim, as limitações devem ser estabelecidas sem o escopo de lucro, exemplificando com dois casos relacionados à reprografia: a reprodução de obra protegida para fins privados e de pesquisa e a reprodução com o objetivo de distribuição em larga escala

7 2.4. A REGRA DOS 3 PASSOS E O INTERESSE PÚBLICO Os tribunais vêm aplicando a regra dos 3 passos de forma bastante restrita A aplicação da regra dos 3 passos deveria atender à função social do direito de autor, que é a promoção do desenvolvimento cultural (interesse público) 2.4. A REGRA DOS 3 PASSOS E O INTERESSE PÚBLICO A regra dos 3 passos não deveria ser um empecilho para (a) que os países adotassem limitações com base em princípios gerais, desde que as hipóteses de incidência desses princípios possam ser razoavelmente previstas; e (b) para a criação de novas limitações com base em políticas públicas A regra dos 3 passos deveria ser interpretada de forma a não colidir com direitos fundamentais (como o direito à educação) e a questões de interesse público, especialmente com relação ao desenvolvimento científico e cultural

8 3. REGULAMENTAÇÃO NA LEI 9.610/98 (LDA) Artigos 46 a 48 da Lei 9.610/98 estabelecem um rol taxativo: (a) reprodução de notícia na imprensa diária ou periódica em diários e periódicos; (b) reprodução para uso de deficientes visuais, sem intuito de lucro; (c) reprodução, em um só exemplar de pequenos trechos, para uso privado do copista, desde que feita por este, sem intuito de lucro; (d) citação de passagens para fins de estudo, crítica ou polêmica; 3. REGULAMENTAÇÃO NA LEI 9.610/98 (LDA) (e) apanhado de lições em estabelecimentos de ensino por aqueles a quem elas se dirigem, vedada sua publicação; (f) utilização para demonstração da obra à clientela; (g) representação teatral e execução musical no recesso familiar ou para fins didáticos, em estabelecimentos de ensino; (h) utilização para produzir prova judiciária ou administrativa; (i) reprodução de pequenos trechos de obras preexistentes em obra maior;

9 3. REGULAMENTAÇÃO NA LEI 9.610/98 (LDA) (j) paráfrase e paródia, quando não houver descrédito; e (k) representação de obras situadas permanentemente em logradouros públicos 3. REGULAMENTAÇÃO NA LEI 9.610/98 (LDA) Não há qualquer previsão da possibilidade de livre utilização para atividades de caráter educacional, científico ou de pesquisa

10 4. A SITUAÇÃO DA CÓPIA PRIVADA NO BRASIL Lei 5.988/73 (antiga Lei de Direitos Autorais) Art. 49. Não constitui ofensa aos direitos do autor: (...) II - A reprodução, em um só exemplar, de qualquer obra, contando que não se destine à utilização com intuito de lucro; 4. A SITUAÇÃO DA CÓPIA PRIVADA NO BRASIL Lei 9.610/98 (atual Lei de Direitos Autorais) Art. 46. Não constitui ofensa aos direitos autorais: (...) II - a reprodução, em um só exemplar de pequenos trechos, para uso privado do copista, desde que feita por este, sem intuito de lucro; (destacamos). Proibição da cópia privada, sem intuito de lucro

11 4. A SITUAÇÃO DA CÓPIA PRIVADA NO BRASIL Conceito de uso privado: Diz respeito ao uso da obra e não ao local de realização da reprodução Aspecto essencial do uso privado: refere-se ao fato de a cópia não ser submetida ao aproveitamento coletivo, além do ambiente íntimo e de relacionamento pessoal do copista (meio familiar ou análogo) 4. A SITUAÇÃO DA CÓPIA PRIVADA NO BRASIL Conceito de cópia feita pelo copista : No Brasil, a cópia é normalmente encomendada a estabelecimentos especializados Para alguns, a Lei 9.610/98 proibiria a realização de cópia por estabelecimento comercial ou pessoa jurídica Seria inadequado exigir que a cópia seja feita pelo próprio copista, especialmente nos casos em que os meios para realizar a cópia são inacessíveis aos usuários O terceiro apenas executa o ato de reprodução da obra, a pedido do interessado. Portanto, é o interessado, e não o terceiro, que realiza a reprodução

12 4. A SITUAÇÃO DA CÓPIA PRIVADA NO BRASIL Conceito de ausência de lucro: Finalidade comercial direta X finalidade comercial indireta Entendimento restrito: o fato de o copista deixar de pagar o preço que seria cobrado para a aquisição de um exemplar original da obra, já seria uma forma de lucro indireto? Esse não parece ser o intuito do legislador: tal entendimento levaria à conclusão de que praticamente todas as formas de cópia privada seriam proibidas de antemão, já que o copista estaria sempre evitando o pagamento de alguma forma de remuneração ao titular dos direitos autorais 4. A SITUAÇÃO DA CÓPIA PRIVADA NO BRASIL Há situações em que não parece razoável admitir a hipótese do lucro indireto do copista: - cópias feitas a partir de um exemplar original, legitimamente adquirido pelo copista - obra que não esteja sendo efetivamente explorada e que esteja esgotada: nessa hipótese, ainda que o copista quisesse, não teria como adquiri-la - reprodução para preservação do original - reprodução para utilização em outros formatos ou aparelhos: o copista de um CD dificilmente adquiriria um novo original apenas para ouvi-lo em outro aparelho -etc.

13 4. A SITUAÇÃO DA CÓPIA PRIVADA NO BRASIL Entendimentos a respeito da necessidade de ausência de lucro indireto devem ser vistos com cautela O conceito de lucro indireto parece mais apropriado no caso de a utilização da obra ser feita em conexão com uma atividade comercial 4. A SITUAÇÃO DA CÓPIA PRIVADA NO BRASIL Conceito de pequenos trechos : Algumas associações vêm entendendo: (a) por pequeno trecho: um fragmento da obra que não contempla sua substância (b) que a limitação apenas deve ser aplicada quando o próprio copista (um estudante, por exemplo) reproduz pequenos trechos de uma obra

14 4. A SITUAÇÃO DA CÓPIA PRIVADA NO BRASIL Problemas: a) Instauração do critério da essência da obra a idéia da reprodução de pequenos trechos é a revelação de essências parciais da obra b) A execução de cópias remuneradas (por Centro Acadêmico ou empresa copiadora, por exemplo) caracterizaria infração aos direitos de autor intuito de lucro deve ser considerado do ponto de vista do demandante da reprodução e não dos demandados a realizarem as fotocópias TOTAL IMPROPRIEDADE DESSA INTERPRETAÇÃO 4. A SITUAÇÃO DA CÓPIA PRIVADA NO BRASIL Interpretação deve levar em conta a realidade nacional: (a) Em outros países é comum os alunos tirarem cópias nas bibliotecas No Brasil as fotocópias são centralizadas em pequenas empresas privadas ou nos centros acadêmicos das Universidades (b) Em outros países existe mercado significativo de livros universitários de segunda mão, muitas vezes, mais baratos do que o custo da cópia integral

15 4. A SITUAÇÃO DA CÓPIA PRIVADA NO BRASIL (c) 62,7 % da população brasileira vive abaixo da linha da pobreza Para essa parcela da população brasileira, é impensável adquirir livros e produtos culturais e alimentar-se A reprodução integral de obras protegidas por essa população não interfere nos meios normais que os autores têm para explorar economicamente suas obras, pois essa parcela da população brasileira está fora do mercado O impedimento da reprodução de obras por essa parcela da população não implicará na compra de mais ou menos exemplares de livros, mas apenas na perpetuação da miserabilidade do povo brasileiro, gerada pela falta de acesso à cultura e à educação 5. PROPOSTA DA ABPI Art. 46. Não constitui ofensa aos direitos autorais, a reprodução parcial ou integral, a distribuição e qualquer forma de utilização de obras intelectuais que, em função de sua natureza, atenda a dois ou mais dos seguintes princípios, respeitados os direitos morais previstos no art. 24: I tenha como objetivo, crítica, comentário, noticiário, educação, ensino, pesquisa, produção de prova judiciária ou administrativa, uso exclusivo de deficientes visuais em sistema Braile ou outro procedimento em qualquer suporte para esses destinatários, preservação ou estudo da obra, ou ainda, para demonstração à clientela em estabelecimentos comerciais, desde que estes comercializem os suportes ou equipamentos que permitam a sua utilização, sempre na medida justificada pelo fim a atingir; II sua finalidade não seja essencialmente comercial para o destinatário da reprodução e para quem se vale da distribuição e da utilização das obras intelectuais; III o efeito no mercado potencial da obra seja individualmente desprezível, não acarretando prejuízo à exploração normal da obra;

16 5. PROPOSTA DA ABPI Parágrafo Único A aplicação da hipótese prevista no inciso II deste artigo não se justifica somente pelo fato de o destinatário da reprodução e quem se vale da distribuição e da utilização das obras intelectuais ser empresa ou órgão público, fundação, associação ou qualquer outra entidade sem fins lucrativos; 6. PROJETO DE LEI DO SENADO Nº, DE 2006 Altera o inciso II do art. 46 da Lei nº 9.610, de 19 de fevereiro de 1998, com a finalidade de estabelecer limite para reprodução de obra. O CONGRESSO NACIONAL decreta: Art. 1º O inciso II do art. 46 da Lei nº 9.610, de 19 de fevereiro de 1998, passa a ter a seguinte redação: Art II - a reprodução, em um só exemplar, de até vinte e cinco por cento de uma obra, para uso privado do copista, desde que feita por ele, sem intuito de lucro;... (NR) Art. 2* Esta Lei entra em vigor na data de sua publicação.

17 7. PROJETO DE LEI Nº 4.266, DO DEPUTADO FEDERAL JÚLIO LOPES proíbe o funcionamento, nos estabelecimentos de ensino superior, de máquinas fotocopiadoras destinadas à reprodução de livros didáticos

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