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7 SERÕES GRAMMATICAES

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9 LINGUA PORTUGUEZA SEROES GRAMMATICAES ou INOVA GRAMÁTICA PORTUGUEZA 1'ELO DR. ERNESTO CARNEIRO RIBEIRO Lente Jubilado do Gymnasio da Bahia e Director do Gymnasio " Carneiro Ribeiro" "Zr 2f EDICAO Augnientada e cuidadosamente revista pelo Autor Xntt nl Inial, unir, <td ni prostmtu"

10 5 5 LA TROBE UNIVERSrTY LIBRARY

11 offlseus ofílhos Ç/J. ó^viaria CJlivia Cl arneiro de Qjotua (J.J. obviaria rjuditi) Carneiro (J\ibeiro (JJr. C-mes to Carneiro J\ibeiro (JJr. Q/Jeraclito Carneiro (J\ibeiro CJnqenfjeiro Q/2elvecio Carneiro Jyi beiro OFFFIiF.Cr: 0 AUTOR.

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13 PROLOGO DA PRIMEIRA y) desenvolvimento que nestes últimos annos têm tido os flgfiylos^ grammaticaes, esclarecidos pela grammatica comparada, levotwims a emprehender esto nosso trabalho, que não é senão a grammatjcav portugueza a que damos uma feição histórica,.ampliando-11: base e enriquecendo-a de novas observações, que a longa o estudo da lingua, que, com tanto amor cultivamos, suggerido e ensinado. Hoje todo o estudo da grammatica a que não acompanham as observações sobre a historia da lingua em sua evolução progr iva, como um organismo vivo, que se não podo subtrahir ás leis a que está sujeito tudo o que vive, é incompleto c repellido para o puro domínio dos estudos abstractos e metaphysicos, em nada consoantes á, esphera em que deve girar esc deve manter toda a sciencia que aspira a uma utilidade pratica e real, e se harmoniza e concerta com os sellos que em todos os trabalhos seientifleos vai imprimindo e gravando o século que atravessamos. Neguem-se todos os méritos aos estudos positivos, tão ardentemente sustentados e pleiteados por Comte e Littré, e completados pela orientação que lhes dá a escola ingleza contemporânea, não se lhes poderá contestar o mérito de ter tenaz e instantemente chamado a attenção dos espiritos do ermo somhrio e intrinca.in <las abstracções, vagas e ociosas, para o campo largo e fecundo da observação, aturada e reflectida, que fornece a sciencia o seu ponto de partida, sua base e substraítim. Todos os trabalhos grammaticaes de algum merecimento attestam esta nova tendência no estudo da grammatica. Para o estudo tia nossa lingua eme todas as linguas românicas. foi a grammatica de UYederico Diez o ponto de partida de todos os trabalhos sobre o mesmo assumpto, a grammatica histórica de Brachet, em França, os estudos criteriosos de Adolpho Coelho, em Portugal, e no Brazil os estudos de Pacheco Júnior e a nova gram- \ J^>

14 VIII matiea portugueza de João Ribeiro, são outros tantos exemplos de que em nossa lingua e nos idiomas novo-iatinos essa é a direcção geral que, de alguns annos a esta parte, se vai dando ao estudo da grammatica, assentando-a não no dominio exclusivo do abstracto, senão no concreto e real, que lhe offerecem base ampla e segura. Duas direcções differentes tem dado os escriptores ao estudo da sciencia da linguagem: na primeira o sentido das palavras é tudo, a sua funeção c o seu valor lógico; a grammatica considerada sob esse aspecto e uma sciencia puramente abstracta, como o é a lógica, a que se vincula intimamente e com que se confunde; na segunda attentam mais nos elementos niorphicos das palavras, consideram-nas sob seu aspecto material; a grammatica então se torna uma sorte de anatomia ou histologia: estudam-se as palavras como compostas de órgãos; estudam-se, para nos exprimirmos assim, os tecidos desses órgãos, os elementos desses tecidos, como nascem e vivem, como crescem, prolificam e definham, se encorpam e se apoucam, se engrazam e separam, se modificam, se transformam, estacionam, envelhecem e remoçam, apparecem e morrem. O grammatico não é já um lógico, senão um naturalista. Sob o primeiro aspecto estudaram a grammatica os Gregos e Romanos; sob o segundo, os graminaticos da índia. Por muitos séculos foi aquella primeira direcção que sempre se deu ao estudo da grammatica; a direcção, porem, a que se dá modernamente a preferencia é a segunda; mas, por um excesso, a que tende sempre a humanidade, quando duas opiniões se contrastam e parecem dividir os espíritos, á força de attentar na forma e no material das palavras, tem-se menosprezado o seu lado lógico, o seu sentido e a sua funeção. O verdadeiro estudo da grammatica histórica, como de qualquer grammatica especial, não é perfeito, se essas duas direcções se reputam incompatíveis, antagónicas e inconciliáveis, se não se

15 / IX approximam, auxiliando-se, completando-se, robustecendo-sc, amalgamando-se e fundindo-se, encontrando uma na outra a base em que se levanta e sustenta. Modestos, não visando a outro fito senão á utilidade, ahi subtnettemos os nossos Serões ao juizo dos entendidos: Serões lhes chamamos nós, porque, na vida trabalhada e afanosa que levamos, só cm horas difficil e penosamente subtrahidas ao repouso é que os traçamos e escrevemos, esforçando nos, na esphera limitada de nossas forças, por trazer este escasso óbolo ao thesouro, já liem enriquecido das lettras pátrias: que nas grandes messes ha sempre que respigar, por mais numerosos e precavidos que sejam os segadores. O trabalho que ora trazemos á luz é, se nos não cega a \ aidade, o resumo dos trabalhos modernos mais importantes sobre 0 assumpto. Leiain-no o julguem-no os entendidos. E se desta publicação auferir algum fructo a mocidade, a cuja instrucção temos dedicado a maior parte de nossa obscura existência, pagos, bem pagos nos consideraremos nós de ter, com o sacrifício de longas horas de repouso, comprado o maior e mais profundo contentamento a que visamos, dando á estampa os nossos Serões Grammaticaes. BAHIA

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17 PROEOGO DA PRESENTE EDIÇÃO > IRAMOS hoje a lume a segunda edição dos nossos Serões Grammaticaes, revistos attentamente em todos os seus capitulos, augmentados e refundidos em todas as suas partes, de tal feitio que constituem antes uma obra nova do ijue uma nova edição propriamente dita. O acolhimento que a primeira edição teve a dita de lograr dos entendidos, que com mão tão larga nos ampararam e animaram os esforços, a continuação dos nossos estudos attinontes a assumptos da lingua, que com entranhado amor e carinho cultivamos, o desenvolvimento que, esclarecidas pela historia, vão tendo em nossos dias as investigações das linguas românicas, a cujo grupo perl a lingua portugueza, induziram-nos, embora nos reconheçamos ténues grandia, a pôr bombros á presente edição, furtando longas horas ao repouso o fechando os olhos a soturna de sacrifícios do que, entrado em annos, já se vai sentindo fraco pari» a publicação de obras de tal fôlego e porte, como a que ora damos á estampa. Bem que se guarde, cm geral, nesta a ordem observada na distribuição dos capítulos da antiga edição, delles ha completamente novos, delles muitos corrigidos, muitos ampliados, muito-- de todo o ponto remodelados, como ao estudioso leitor fácil será de verificar, se porlustrar de assento e sobremão todas as partos e todos os capitulos da presente obra, já de ha muito planeada. Na orthographia não julgamos ainda t\a bom aviso seguir a reforma radical, a que mctteu mãos a Academia Brazileira de Lettras, que exagera, a nosso parecer, as vantagens do systema phonetico, sem lhe rastrear e apontar os defeitos. Todas as reformas orthographicas até hoje feitas, já no portuguez, já no francez, já em qualquer das linguas congéneres, e tendentes a assentar a orthographia na pronuncia, pouco têm logrado em relação aos resultados a que aspiram os reformadores. A unidade e uniformidade de qualquer systema orthographieo é o ideal a que visam todas as reformas intentadas nessa parte gramma-

18 XII tical; entretanto na realização do próprio systema phonetico differenças ha que contrastam com esse desideratum. Esperemos, pois, a sancção do uso, que em coisas de linguagem é soberano dictador, sobrepondo-se não raramente aos avisos e suggestões reflectidas da razão. Estudando a lexieologia, demos maior desenvolvimento á morj)hologia, aprofundando-nos no conhecimento dos prefixos e suffixos dos vocábulos, mostrando quanto influem nas modificações radicaes e thematicas e nas modalidades do sentido mesmo das palavras; que, segundo já o affirmamos algures, esses elementos formativos semelham, no organismo das linguas, os órgãos nos seres vivos, com seus tecidos e elementos anatómicos, que constituem a trama, a estructura intima desses tecidos. Entre os novos capitulos da presente ediçãofiguranessa parte o que trata do esboço histórico da lingua portugueza, desde a sua elaboração até os nossos dias, dando-se ligeira noticia dos mais notáveis escriptores antigos e modernos, que se ligam ás varias phases de desenvolvimento desse idioma, e o capitulo referente á classificação das linguas, onde se assignala o grupo em que elle se filia. É também novo o capitulo que trata das variações de sentido das palavras. As diversas observações sobre a semântica têm hoje em dia attrahido a attenção dos glottologos e grammaticos, os quaes lhe vão reservando lugar distincto nas obras grammaticaes que se não limitam aos estudos puramente rudimentares da grammatica expositiva, nem se embrenham no intrincado de problemas especulativos da linguagem sem nenhum alcance pratico. Por isso é que reputamos de bom conselho não omittir em nossos Serões Grammaticaes as advertências suggeridas pelos vários sentidos que se vão adaptando aos vocábulos da lingua em sua crescente mobilidade, como expoentes do estado social que traduzem

19 XIII e com que se emparelham e identificam, a modo de sombras ou imagens, acompanhando a realidade do ser interior, que reflectem e com que se ajustam na expressão do pensamento. Na syntaxc, onde se notam muitas explanações sobre as leis e regras da concordância e da regência, regular ouanomala, sobre o se, nas construcções de sentido passivo, em que tão de costumo a indole de nossa lingua se compraz e saborèa, encontra-so um capitulo sobre a analyse lógica, jade concerto com a terminologia dos gramniaticos inglezes, já com a dos francezes, por onde bem é de ver que os mesmos factos grammaticaes, designados por nomes differentes e muitas vezes considerados á differente luz, são diversamente interpretados, segundo o systema de analyse que se adopte. Na construcção dos pronomes, empregados como complementos, individuamos com largas minudencias os casos da próclise e enclise pronominal, autorizando as observações e preceitos, referentes a esse importante ponto grammatical, com innumeros exemplos, abonados por nossos escriptores de melhor nota, por forma que não fique o leitor tão atalhado e sem conselho na discriminação dos casos da anteposição ou posposição pronominal. Abi, pela natureza mesma da matéria, fomos, por ventura, alem ila meta em que devêramos suspender a penna, se não confiáramos encontrar escusa na benevolência do leitor generoso. Largo desenvolvimento igualmente demos aos casos de pessoalidade e impessoalidade dos infinitivos, ponto esse de nosso idioma que é, podemos assim dizel-o, mar de vacillações, onde ao que escreve, ainda abeberando-se nos mais límpidos mananciacs, é, por vezes, difficilimo achar fundo. Seria por extremo tedioso indicar aqui todas as fontes que nos forneceram valiosos subsidiospara a traça e feitura desta nossa obra. Á nossa pratica de longos annos do estudos vieram ajuntar-se em ampla contribuição os trabalhos glottologos e grammaticaes de

20 XIV Bopp, Diez, W. Meyer-Lubke, A. Maury, Gaston Paris, S. Reinach, Darmesteter, A. Hovelacque, Max Míiller, Michel Bréal, Delon, Brachet, Brunot, Ayer, II. Torres y Gomez, R. de Vasconcellos, Gonçalvez Viana, Júlio Moreira, J. Leite de Vasconcellos, C. de Figueiredo, João Ribeiro, Adolpho Coelho, que nos offereccram copiosos materiaes para a remodelação desta nossa obra. Abi vão publicados em sua segunda edição os nossos Serões Grammaticaes, que procuramos com afanoso empenho tornar mais dignos da leitura do diligente e estudioso. Dos entendidos desejamos e confiadamente esperamos não lhes falte o bafejo salutar e animador, nem o juizo sincero, sine malitia et studio. Para os que não trabalham por amor á vaidade, sempre inimiga da sciencia, senão por amor ao bem, único fito a que devemos aspirar em nossos commettimentos, é sempre bem vinda a critica que não destilla fel, a critica comedida e bem intencionada, que é elemento de animação e ardimento para os lidadores nessas sementeiras do luz, e incentivo de vida e progresso para as lettras e scien cias que elles cultivam. Sigam, pois, rota desassombrada os nossos Serões Grammaticaes, e se de sua publicação advier ás lettras pátrias um minimo de utilidade, tol-o-emos em muito, e sobejamente indemnizados nos julgaremos nós das fadigas e esforços que nos custou esta segunda edição, comprada por preço ainda mais subido e levando o mesmo intuito da primeira, receiosos ainda assim de não aquilatarmos bem o quid jerre reeusent, quid valeant humeri do poeta venusino.

21 SEROES GRAMMATICAES

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23 SEROES GRAMMATICAES INTRODUCÇÃO i Considerada de modo theorico, podea grammatica definir-se a sciencia <la linguagem: é seu objecto o estudo das leis ou normas segundo as quaes se exprime o pensamento pela linguagem, quer escripta, quer fallada. Estudando-a, porem, sol) um aspecto pratico, podemos delinil-a a arte da linguagem. Linguagem é o conjuncto dos signaes pelos quaes o homem manifesta seus pensamentos. Entre os signaes contam-so os gestos, os movimentos dos músculos do rosto, os caracteres escriptós, os sons articulados. Os caracteres escriptós ou signaes graphicos formam a eseri/rttira. Os sons articulados ou signaes phonetieos formam a palavra. Sons articulados chamam-se os que são principalmente modificados pela abobada palatina, pela lingua. pelos dentes o lábios. São assim denominados, porque, sahindo o ar dos pulmões e atravessando suecessivamente os brónchios, a trachéa e a larynge, é, em sua passagem pela bocca, submettido á acção de vários órgãos, que o dificrenciam e transformam em sons particulares, de caracter determinado.

24 2 INTROQUCÇAO Á formação de taes sons é que se dá o nome de articulação. Pelo que respeita á grammatica, o vocábulo linguagem é tomado não no seu sentido lato, senão no sentido restricto de linguagem articulada, oral ou escripta; nada lendo que ver a grammatica com os gestos, as pantomimas c os vários movimentos e posturas do corpo a que tão amiúde recorremos, para voluntária ou instinctivamente debuxar ao vivo os sentimentos e paixões, que nos salteam ou as ideias, que nos dominam. Por meio da linguagem, oral ou escripta, é que os homens communicam entre si. Verdade é que, como o fazem os outros animaes, pode o homem exprimir seus sentimentos e pensamentos por gestos, movimentos, gritos inarticujados, interjeições naturaes; mas entre esta linguagem, só por só de alcance tão estreito c limitado c em harmonia com o ser puramente sensível e a linguagem articulada propriamente dita, cava-se um abysmo, tão grande e profundo, que se torna insondável aos olhos do próprio transformismo. A linguagem articulada, o mais nobre, o mais feliz, o mais característico attributo da espécie humana, não é só e puramente um meio de communicaçãa; é um poderosíssimo instrumento, sob cuja influição se analysa, desfia, desenvolve e esclarece o pensamento e se tornam realizáveis as operações do espirito; é nina como que gymnastica natural, que dá ao pensamento toda a sua força e segurança, todo o seu brilho, todo o seu elasterio, toda a sua belleza eflexibilidade.tirai ao homem essa grande alavanca, mais poderosa do que a alavanca do que, em sua elevada concepção, nos falia o mathematico de Syracusa; dcixai-lhe como único meio de communicação, no apertado âmbito de sua existência e relações, o grito e os meios limitadíssimos a que recorrem os outros animaes; e lhe arrancareis da mão e da fronte o sceptro e diadema que o tornam rei da creação, esbulhando-o do instrumento de seus maiores triumphos, de suas mais gloriosas conquistas: não será mais um homem, senão um ser desacompanhado o só, elo solitário e desengrazado da grande cadeia social.

25 SERÕES GRAMMATICAES 3 Como a varias luzes se pode considerar a grammatica, assim recebe esta diversas denominações, consoantes ao objecto a que especialmente visa. Assim que se diz grammatica geral, particular, comparada ou histórica. A (jranimatica geral tem por assumpto os princípios universaes e invariáveis da linguagem ; estuda os factos, as leis reguladoras da linguagem na sua maior amplitude. A particular restringe o estudo dos factos ou leis da linguagem a uma só lingua, fazendo applicação dos princípios, que são o objecto da grammatica geral, aos usos, ás instituições mais ou menos arbitrarias da lingua ou idioma, que especialmente estudamos. A grammatica geral ê unia su; ha, porem, tantas grammaticas particulares, quantas são as linguas no seu período disciplinar ou critico. A grammatica comparada estuda os idiomas investigando-lhes as analogias e semelhanças, as feiçõeseademanes particulares, comparando-lhes os factos, as transformações, a filiação, o desenvolvimento e evolução histórica. Esta recebe lambem a denominação de histórica, porque se não podem comparar dois ou mais idiomas sem os acompanhar em seu desenvolvimento histórico. Isto não obstante, uso ó muito commum entre os grammaticos applicar á grammatica o epitheto de histórica, quando estuda os factos de uma lingua cm todas as suas phases e períodos, reservando-sc a qualificação de comparada ou comparativa, quando estuda dois ou mais idiomas, que se filiam no mesmo grupo ou familia linguistica, relevando-lhes as semelhanças o diííerenças. Mas a grammatica comparada c a histórica ligam-se de tal modo, tanto se auxiliam, que parece não constituem duas sortes de grammaticas, senão uma só, a que se poderá chamar histórico-comparada. De feito, é evidente que, estudando a grammatica comparada as transformações suceessivas por que, atravez do espaço

26 4 ixtronrcção e do tempo, passam as linguas em sua marcha evolutiva, encontra na histórica seu instrumento c auxiliar indispensável, seu antecedente necessário: do mesmo modo que esta, á luz daquella, estuda as linguas, filiando pela comparação as novas formas de um idioma derivado cm formas successivamente mais antigas, até prendei-as á forma ou formas da lingua matriz, donde promanam. A grammatica particular é elementar ou philosoplnca, conforme se limita á exposição tios factos de uma lingua particular, ao estudo das regras e instituições mais ou menos arbitrarias, sem se elevar aos princípios geraes de que se deduzem; ou, ao revez disso, estuda essas instituições arrazoando-as, ligando-as aos princípios geraes, que são os seus fundamentos, princípios de uma verdade immutável, communs a todas as linguas, sempre harmónicos e idênticos como leis constitutivas da humanidade, que é sempre uma, idêntica, igual a si mesma. Agrammaticaparticular, quando elementar, diz-se também expositiva, descripliva ou pratica, porque expõe, descrev classifica, estabelece methodicamente os factos ou phenomenos de uma lingua, estatuindo as regras e preceitos a que se submeltem, sem attentar nas leis e nos princípios geraes que os regem e dominam. Essa é a que geralmente se define a arte de fallar e escrever correctamente uma lingua. Grammatica portugueza é a disciplina ou arte de ler, fallar e escrever correctamente a lingua portugueza. Seu objecto é o estudo methodico dos factos da linguagem e das leis a que esses factos obedecem, no que respeita á nossa lingua. A tendência que actualmente se manifesta em todos os grammaticos a darem ao esludo dessa disciplina uma feição histórica, lem levado alguns modernos, e entre outros Ferdinand Brunot, a criticar a definição tradicional da grammatica a arte de fallar e escrever correctamente uma lingua, julgando inexacta e por demais modesta; «inexacta, porque se julga hoje e parece com razão», diz elle, em sua Grammatica

27 SERÕES GR WIMAIli VES 5 Francesa, «que uma grammatica não deve ensinar apenas a fallar e escrever o francez actual; é mister que nos permitia comprehender a lingua de nossos pais e apreciar as obras de todos os nossos escriptores por velhos de muitos séculos que sejam. A grammatica deve, pois. neste sentido ser histórica»! Pensamos, porem, que se pode dar ao estudo da grammatica portuguseza ou de qualquer grammalica particular a feição histórica, que lhe dão modernamente, não deixando por isso a grammatica especial de sor a disciplina ou arte de ler^fallar e escrever correctamente, pela razão de hão haver Da definição nada que se opponha ao estudo desenvolvido da lingua não só no presente, senão também atravez de todas as transformações, por (pie, por sua mobilidade essencial, tem passado desde a sua origem até o momento actual. Chama-se lingua ou idioma a linguagem articulada de um povo ou de uma nação. Numa grammatica estudam-se os sons constitutivos das palavras, suas modificações e transformações e o unido de represental-os; os elementos que entram no quadro do pensa mento ou no discurso e as formas diversas que esses elementos revestem; as variadas combinações, o concerto o as relações desses mesmos elementos para tecer o discurso. Fm quatro parles, portanto, se divide a grammatica: Phonologia ou Phonetica, Orthographia, Lexioologia e Syataxe ou Phraseologia. Phonologia é a parte da grammatica que estuda os sons da lingua, suas modificações c transformações. Orthographia é a que tem por objecto a. representação dos sons por meio de caracteres graphicos ou lettras. É esta parte um complemento da Phonologia. Lexicologia chama-se a parte que trata das palavras consideradas em relação ao seu valor, a sua etymologia. a sua classificação, as suas formas ou inflexões grammaticaes. A l e cicologia recebe a denominação de morpliologia. quando estuda a palavra considerada em suas formas e estruetura. Syntaxo ou Phraseologia diz-se a que nata da composição

28 6 INTRQDUCÇÃO da proposição e da phrase, das relações que as palavras e as proposições têm entre si, de seu concerto e construcção. A orthographia, que, como dissemos, é um complemento da phonologia, parece, por outra parte, se inclue já na lexicologia já na sgntaxe; porque, ensinando a representar bem os sons das palavras, presuppõe o conhecimento da formação delias, de suas variasflexõese desinências, e a adaptação dessas flexões aos números, géneros, graus, pessoas, modos c tempos das palavras que possuem tacs accidentes, o que tudo pertence ao domínio da lexicologia ou da sgntaxe. Afora a phonologia, a orthographia, que lhe serve de complemento, a lexicologia e a sijntaxe ou phraseologia distingue-se como parto da lexicologia a scinasiologia ou semântica, que estuda o sentido ou significação das palavras e as variações e transformações de sentido que apresentam ou por que vão passando. O estudo da origem e das formas primitivas dos vocábulos constitue o objecto da etymologia. Da classificação das palavras fazem alguns uma parte da lexicologia, que, por analogia com o que se dá na botânica, denominam Taxionomia ou Taxinomia. A etymologia, a semântica ou semasiologia, como a designou Reisig, impropriamente chamada por outros sematologia ou semiologia e que modernamente tem sido objecto de estudos muito importantes, bem que se liguem á grammatica por laços bem estreitos, não são, rigorosamente fallando, partes delia, senão da glottologia ou philologia. A ultima dessas duas partes não se acha ainda radicalmente estabelecida e systematicamente organizada. Isto não obstante, os recentes e preciosos estudos de Bréal, Whitney, Suchier, Darmesteter c outros, enfeixando-lhe e systemando-lhe os factos, constituem valiosos fundamentos em que deve assentar essa moderníssima parle, que figura como importante appendice dos estudos grammaticaes.

29 SERÕES ORAMMATK AES 7 ir <> estudo da grammatica não era de todo desconhecido dos antigos; entre os gregos as investigações grammaticaes originaram-sc da necessidade de explicar, criticar o interpretar os antigos poetas da Grécia, sobretudo Homero; entre os romanos os estudos grammaticaes, considerados sempre na maior estimação, oppuzenam forte represa á torrente invasora da linguagem descurada tio povo, a qual, em lucta incessante com a lingua de Cicero, César e Virgilio, ora vencida, ora triumphadóra, a obrigou atina! a ceder o passo, deixando-a mal ferida e dando nascimento aos idiomas novo-latinos, a cujo grupo pertence a lingua que portuguezes e brazileiros falíamos. Todos os trabalhos da, idade media, têm por fundamento o ensino dado em Poma pelo grammatico Donato, que viveu no século quarto e as ideias contidas nas Inslitutiones gi maticae de Prisciano, quefloresceu no século sexto. Mas o verdadeiro methodo no estudo da sciencia grammatical ainda se não havia descoberto: regras de lodo o ponto em antagonismo com o bom senso, subtilezas mais ou menos engenhosas, uma metaphysica fútil e estéril, uma polyglottia pesada, inconsistente e embaraçosa substituíam os verdadeiros processos no estudo da grammatica. O critério histórico e comparativo data da primeira metade do século lindo. A sabia sociedade asiática, fundada cm Calcuttá por William Jones, com o descobrimento úo sanscrito, levou os doutos investigadores à concepção da unidade indo-europea, estabelecidos os vínculos de parentesco entre essa lingua e os idiomas da Europa. Este descobrimento foi, portanto, de importantíssimos resultados com relação á grammatica histórica ou comparada, (pie tanta luz derrama nos factos da grammatica particular: foi, na phrase judiciosa de Muller, a centelha eléctrica que/es crystallisar em formas regulares os elementos fluctttantes da

30 8 INTRODUCÇAO linguagem, reunidos nas obras immensas de Heroas e de Adelung. (') Dahi uma serie de progressos e conquistas da sciencia grammatical, a que imprimiram os sellos de seu engenho Schlegel, Bopp, Pott, Jacob Grimm, Maury, Benfey.Burnouf, Diez, Max Mttller, Dréal, Lifctré, Brachet, Clédat, Brunot, Suchier, Meyer Ltibkc, Gaston Paris, PaulRegnaud, Darmesteter, Carolina Michaelis, Adolpho Coelho, Pacheco Júnior, Gonçalvez Viana, Ribeiro de Vasconcélloz, João Ribeiro o tantos outros, que deram uma feição inteiramente nova aos estudos grammaticaes, ampliando-lhes os fundamentos, fazendo irradiar muita luz cm todos os factos da sciencia da linguagem. (1) Apud S. Reinach Philologie Classique.

31 PARTE PRIMEIRA Phonologia CAPITULO I Do apparelho vocal. Vogaes e consoantes ou articulações. Diphtho syllaba; vocábulo. Da configuração do tubo sonoro na prolação das vogaes. O apparellio da 002 compõe-se de muitos órgãos, que o tornam maravilhoso e inimitável. E com efleito um dos mais importantes da organização humana: a natureza parece fez de cada homem um musico, dando-lhe um instrumento superior a todos quantos a arte mais aperfeiçoada, O engenho mais próvido e aguçado poderia architectar. 1*] um singiilarissinio instrumento: de uma construcção admirável, a um tempo único e múltiplo: único em sua estruetura; múltiplo em seus vários modos de funecionar; reúne o doce e suave de todos os instrumentos; irmana o simples ao sublime, o triste e lúgubre ao alegre e risonho; vivifica suas notas, aquecendo-as ao fogo das paixões; suaviza seus accentos, affeiçoando-os á ternura dos aílectos e das doces com moções; avigora-os, accommodando-os as energias da vontade, ao brilho dos conceitos, a varonilidade e ao vigor d'aliua. É, em siimma. o instrumento dos instrumentos, o mais fiel traduetor de todas as nossas impressões, instrumento (pie nunca destoa, porque sempre se atina ao diapasão de nossos

32 10 PHONOLOGIA sentimentos, de nossos conceitos e paixões. Cante ou falle, é sempre a voz do homem musical e significativa. Fadando ou cantando, tangemos um instrumento musical, totalmente peculiar, cuja unidade apparente contrasta com a diversidade que lhe imprime a varia configuração do tubo sonoro. Este instrumento tem suas notas graves ou agudas, sua intensidade ou "amplitude, sua duração, sou timbre, seu rhythmo, sua melodia particular. Os sons elementares desse instrumento da voz chamam-se vogaes c consoantes ou articulações. Antes, porem, de mostrarmos qual a differença entre uma vogal e uma consoante, é mister definir o sentido que se liga ao vocábulo som e determinar a differença entre este e o ruido, phenomenos vibratórios a que. ao cabo de tudo, se reduzem as vogaes e consoantes. Som é a sensação produzida por uma vibração rápida e periódica do ar ou de qualquer outro meio elástico; ruido é, pelo contrario, a sensação produzida por vibrações irregulares e não periódicas. As notas que percebe nosso ouvido, quando se toca uma flauta, um piano, uma rabeca, constituem sons; o marulhar das ondas, o ranger das enxárcias, o atroar do canhão, o estampido da mina que rebenta, do edifício que abate, o bramido da fera, do vento, das bombardas, o farfalhar das maravalhas c das sedas, são ruídos. Com os sons podemos formar unta melodia ; com os ntidos podemos apenas marcar um rhythmo; com os. primeiros formam-se aceordes; com os segundos nno se formam aceordes, senão uma mistura indistincta c confusa. Verdade é que se pode conjunctarnente ouvir o som e o ruido. Assim que em uma peça musical, tangida ao piano, podemos distinguir as vibrações regulares que nos dão a sensação dos sons e os ruidos, occasionados pelos dedos ao correr por sobre o teclado. As notas que nos chegam aos ouvidos, quando ouvimos o violino, differem do ruido simultâneo, resultante do roçar tio arco pelas cordas deste instrumento. As vogaes são sons produzidos por uma correnteza de ar,

33 SERÕES GRAMMATICAES 11 modificada, mas não interrompida pelas diversas disposições do tubo pharyngo-buccal. As consoantes são ruidos que se produzem nessa mesma cavidade, em consequência de obstáculos que á correnteza do ar oppõem certas disposições anatómicas. Como cm todo o instrumento musical, no apparelho vocal se distinguem os três elementos seguintes: o elemento vibrante, o elemento motor e o tubo sonoro. 0 elemento vibrante é uma palheta representada pelas curtias vocaes (dobras ttjro-artjtenoides inferiores). O elemento motor é constituído pela correnteza de ar que se escapa dospulmões, e em direcção ao orifício glóttico, atravessa os brónchios -o a trachéa e vai de encontro ás bordas das duas dobras inferiores ou lábios vocaes, fazendo-os vibrar. O tubo sonoro é representado pelas cavidades da pharynge acima da larynge. Tcm-sc comparado o instrumento da voz a um instrumento de palheta, como a clarineta, o oboé c o fagote; a palheta. porem, do instrumento admirável da voz, niodilieandd-se de modos variadíssimos, produz uma serie de sons ascendentes e descendentes, como o não fazem senão imperfeitamente os outros instrumentos da mesma espécie, cm que a palheta vibratória não oflerocc o mesmo grau de mobilidade e elasticidade, nem se dobra, obedece e amolda tão a ponto, tão directa o intimamente ás impulsões da vontade de quem o tange e anima. Coando-sc pelo orifício da glotte, a corrente do ar, que vem dos pulmões, fornia o som chamado glóttico ou in articulado. As cavidades pharijngo-bttccal e nasal, pelas varias posições (pie tomam, representam o papel de tubo sonoro. As diversas partes consoantes do canal aéreo, revestindo de vida, digamol-o assim, o arcabouço ou esqueleto do som inarticulado ou glóttico, reforçam-no, imprimindo-lhe caracteres especiaes. As cartilagens do nariz, a trachéa, os brónchios, o pulmão, a caixa do thorax e até, segundo alguns, os ossos mesmos do

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