Nº MARÇO/2015 CIRCULAÇÃO NACIONAL R$ 9,90 PETROLÃO

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1 Nº MARÇO/2015 CIRCULAÇÃO NACIONAL R$ 9,90 MERCADO COM LUPA NO PETROLÃO Romulo F. Federici disseca a crise da Petrobras no ensaio O GOVERNO SANGRA, MAS O MERCADO AMPARA E OPOSIÇÃO VACILA. Escreve ele: Vivemos um momento absolutamente atípico, pois não se trata, apenas, de uma crise gerada por denúncias de corrupção. Com isso já estaríamos acostumados. Afinal, desde sempre, se cochicham histórias cabeludas sobre os fornecimentos e fornecedores da Petrobras. CRISE POLÍTICA Congresso sente cheiro de queimado: CPI da Petrobras, votações para derrubar vetos de Dilma, orçamento impositivo aprovado; PT fora da mesa da Câmara e da Comissão da Reforma Política; bases governista, insatisfeitas, traições... CUNHA Impõe nova rotina política à Câmara e ao Congresso, e muda forma de Dilma governar, forçando o governo a negociar mais. E ainda indica líder do PMDB, presidentes da CPI da Petrobras e presidente da Reforma Política. DILMA Nunca um presidente esteve diante de um entrecruzar de tantas pressões políticas, judiciais e econômicas. Junte-se isso tudo o dilema da Petrobras diante da Operação Lava Jato. PÁGINAS AZUIS MARCOS GARZON Escritor revela como em seus livros previu todas as mudanças climáticas, e sobretudo a falta água que assola o país, fundamentado em seus estudos e observações sobre os fenômenos que ocorrem no planeta, como enchentes, secas, nevascas e degelos.. CAÇAS GRIPEN Aquisição dos caças suecos pela FAB pode abrir ao Brasil as portas de um novo domínio industrial, a propriedade intelectual, que jamais foi ineria no conjunto de nossas prioridades estratégicas para o domínio da alta tecnologia militar.

2 EDITORIAL OS CINQUENTA TONS DE CINZA DO SILÊNCIO Quando no Brasil uma destas 50 entidades, instituições, organizações, poderes, grupos, indivíduos, blocos e aliados externos caem em silêncio, é hora de estar alerta! Não é o estado natural deles. Estão em transição. São os cinquenta tons de cinza do silêncio. SILÊNCIO TÁTICO - Mercado SILÊNCIO PRUDENTE -Militares SILÊNCIO OBSEQUIOSO - Igreja SILÊNCIO BUROCRÁTICO - Itamaraty SILÊNCIO COMPLEXADO - Petrobras SILÊNCIO NOS AUTOS - STF SILÊNCIO CAVERNOSO - Cunha SILÊNCIO COMPANHEIRO - Lula SILÊNCIO ATÁVICO - Renan SILÊNCIO PROFISSIONAL - Temer SILÊNCIO OBLÍQUO - Economistas SILÊNCIO ACADÊMICO - FHC SILÊNCIO CONSPIRATÓRIO - Base governista SILÊNCIO LAMENTÁVEL - OAB SILÊNCIO MARQUETEIRO - Dilma SILÊNCIO ESTRATÉGICO - Aécio SILÊNCIO REVANCHISTA - Centrais sindicais SILÊNCIO OPORTUNISTA - Obama SILÊNCIO INSIDIOSO - Cristina Kirschner SILÊNCIO REGULAMENTADO - Mídia SILÊNCIO RUIDOSO - Ruas SILÊNCIO PENSADO - Moro SILÊNCIO CRAVADO - Elites SILÊNCIO ADIPOSO - Banco do Brasil SILÊNCIO CAPCIOSO -Industriais SILÊNCIO IMEMORIAL - Bancos SILÊNCIO BOVINO - Agronegócio SILÊNCIO CONSENTIDO - Governadores SILÊNCIO FALIDO - Prefeitos SILÊNCIO MAGOADO - Sarney SILÊNCIO REVOLTADO - PT SILÊNCIO AMADURECIDO - Maduro SILÊNCIO MATREIRO - Marina SILÊNCIO PIDÃO - PMDB SILÊNCIO CONFORMADO - Levy SILÊNCIO IRÔNICO - Delfim SILÊNCIO GENEROSO - BNDES SILÊNCIO VINGATIVO - Barbosa (Joaquim) SILÊNCIO ADERENTE -Barbosa (Nelson) SILÊNCIO TRABALHADO - Janot SILÊNCIO DISTANTE - BRICS SILÊNCIO DÚBIO - Evo SILÊNCIO TRAVADO - PSB SILÊNCIO SISTÊMICO - PDT SILÊNCIO SÓCIO - PP SILÊNCIO INQUIETIO - Movimentos sociais SILÊNCIO AGRADECIDO - Advogados SILÊNCIO AGENDADO - Cardozo SILÉNCIO ANGUSTIADO - Empreiteiras

3 NESTA EDIÇÃO OS 10 MAIS DE DEZEMBRO NA POLÍTICA E NO PODER POLÍTICA ENCRUZILHADA DE DILMA CONGRESSO CHEIRO DE QUEIMADO 10 COLUNA LEONARDO MOTA NETO 12 MEMÓRIA EPOPÉIA DE TRANCEDO 14 SWING POLÍTICO ARTIGO DEFESA CAÇAS GRIPEN SONAR ALBERTO CAEIRO FÓRUM DAS MULHERES 24 CAPA ENSAIO POLÍTICO PETOBRAS, MERCADO, GOVERNO, OPOSIÇÃO POLIS MAIS SONAR CONFIDENCIAL RICARDO REIS GARNERO PÁGINAS AZUIS BASIL E CHINA MACOS GARZON ÚLTIMO SONAR ÁLVARO CAMPOS OPINIÃO ELLEN BARBOSA EXPEDIENTE BILHETE DO EDITOR CARTA POLIS revista mensal de bastidores do poder em Brasília. Editor-responsável: Leonardo Mota Neto Diretora: Ellen Rôse Aguiar Barbosa Editora de Arte: Ana Ingrid Ruckschloss Fotos: Divulgação e Internet Gerente Comercial: Ulysses C.B. Cava Diagramação e projeto gráfico: Gn1 Comunicação (www.gn1comunicacao.com.br) Redação, Comercial e Administração: SCN, Qd 1, Lote 50, Bl. E, Sala 512, Ed. Central Park, CEP: Tel: CARTA POLIS é uma publicação da POLIS.COM; Todos os direitos reservados. *Os artigos assinados nesta edição são de responsabilidade de seus autores. CARTA POLIS não se responsabiliza pelos conceitos neles emitidos. Mais um avanço de CARTA POLIS é registrado neste número. Por preferência do nosso colaborador, o jornalista, publicitário, dirigente sindical e editor-web Fernando Vasconcelos, o nosso anúncio institucional da quarta capa desta edição está veiculado pelo respeitável e tradicional ANUÁRIO DO PRÊMIO COLUNISTAS BRASILIA DE 2014 que anualmente registra o estado da arte da publicidade da Capital da República e circula por todo o mercado e agências do país.

4 POLÍTICA 10 OS MAIS FEVEREIRO DE Destaque do Mês NA POLÍTICA E NO PODER Michel Temer Conserva-se com sua postura serena e colaborativa com a presidente Dilma Rousseff na Vice-Presidência da República, embora diante da sucessão de ebulições na área política. Como presidente nacional do PMDB licenciado, tem credenciais para agir frontalmente nas articulações, mas prefere uma atitude reservada para não ofuscar a presidente nem comprometer o equilíbrio de relações com o PT, partido com que partilha o poder. O comportamento leal e ético do vice, torna-se ainda mais relevante no momento em que o PMDB ocupa a presidência do Senado e da Câmara dos Deputados, o que dá margem a projetos de hegemonia do partido. No entanto, Michel Temer não se deixa envolver pelas questões internas nas duas casas do Congresso, reservando-se a ter opinião própria na reforma política. Como dirigente partidário, não se nega também a emitir a opinião de que o PMDB deverá ter candidato próprio a presidente da República em

5 POLÍTICA ARMANDO M. NETO Está fazendo dentro do governo um contraponto às medidas de ajuste que visam retirar subsídios ao setor industrial para compensar a carga fiscal e à concorrência desleal de produtos estrangeiros que chegam mais baratos ao país. JOAQUIM BARBOSA Embora aposentado do Supremo Tribunal Federal, continua exercendo influência sobre segmentos de opinião do país através das redes sociais como o Twitter, em postagens em que critica com contundência o comportamento do ministro da Justiça. RODRIGO JANOT Tomou a iniciativa de procurar autoridades dos Estados Unidos para aperfeiçoamento do Ministério Público Federal no rastreamento dos recursos públicos desviados pela corrupção, e foi centro das atenções nacionais com a lista de políticos. MARIO GARNERO Atua no eixo internacional junto às correntes mundiais de comércio com o Brasil, e agora tenta despertar a consciência do empresariado e do governo para a necessidade de darmos prioridade máxima ao nosso relacionamento com a China. ALEXANDRE ABREU Presidente do Banco do Brasil mostra ter o discurso da continuidade administrativa ao lançar-se logo após a posse a iniciativas para manter o desempenho da instituição no mercado nacional, no qual concorre com os grandes agentes privados. TEORI ZAVACKI Tem tido ultimamente relevância com relator das denúncias criminais da Operação Lava Jato feitas pela Procuradoria-Geral da República de políticos protegidos por foro privilegiado. Avesso a mídia, conserva-se fora do perímetro de culto à personalidade. ALDEMIR BENDINE Na Petrobras, como seu presidente, procura espaço de governança em que possa oferecer à sociedade respostas rápidas da recuperação financeira da empresa, segundo em seu primeiro teste de exposição pública, a entrevista ao Jornal Nacional. MIRO TEIXEIRA Como deputado mais velho e o que mais mandatos exerceu na Câmara, abriu os trabalhos da nova legislatura, fez um ousado pronunciamento de exortação pela reforma política, na qual defende o fim do financiamento privado das campanhas. RODRIGO MAIA Depois de longo período coincidindo com o esvaziamento do DEM, volta ao topo da política nacional brilhantemente como presidente da Comissão Especial de Reforma Política da Câmara, por articulação de Eduardo Cunha. JOAQUIM LEVY Volta a constar dessa galeria, depois de sua viagem aos Estados Unidos numa primeira aparição pública após a posse no Ministério da Fazenda, pontuando com uma exposição em Nova York, em que a transparência e clareza sobre os dados foram sua marca. (*) Esses nomes estão sendo apresentados por ordem alfabética. O critério da escolha foi uma consulta ao Conselho Editorial da CARTA POLIS. 5

6 A PRESIDENTE ENCRUZILHADA: NUNCA TANTAS ADVERSIDADES JUNTAS A presidente Dilma Rousseff está diante de uma encruzilhada. Não é novidade. Diversos presidentes na história se depararam com o mesmo sentimento de falta de chão. Provavelmente, Dilma reúna as mais desgastantes condições entre todos. Tudo conspira no momento contra ela: política, economia, mercados externos, justiça, aprovação interna, vida partidária. Os tempos passado e presente a desafiam, projetando uma sombra negra para o seu futuro. Não está somente nela a geratriz desse processo. Está no seu temperamento inquieto, no seu gênio áspero, na sua solidão consentida. O problema vem da própria concepção de um presidente frente ao sistema político-eleitoral de hoje, feito de trocas intensivas em um mercado de câmbio clandestino. Para poder governar, ela terá que intercambiar com a base governista no Congresso mais posições ainda de seu governo. Terá que entregar o segundo escalão aos partidos; retalhar as diretorias do Banco Brasil. O BNDES ela preservou de vir para o retalho, mantendo Luciano Coutinho. Será obrigada a comprometer a eficiência do governo (se é que tem eficiência) para atender ao jogo da sustentação do poder. Com essa invariável na vida dos presidentes brasileiros, Dilma tem que impor um mínimo de governabilidade. Aquilo que chamam governança, terá que arrancar de um ministério com titulares de nomes desconhecidos e procedências estranhas. Terá que confiar em Joaquim Levy, desconfiando, porque o PT estará unido aos movimentos sociais para clamar a revisão de tudo o que o ministro da Fazenda está providenciando nas contas públicas em nome do ajuste fiscal. São muitos os campos de batalha de Dilma. E ainda existe a batalha da comunicação que vem sendo perdida. Resistirá? Tem que resistir. É da natureza do processo resistir-se. O que precisa é de uma certa inteligência que harmonize, e não disperse. 6

7 A PRESIDENTE CUNHA IMPÕE MUDANÇA NA FORMA DE GOVERNAR A revisão ou flexibilização os direitos trabalhistas adquiridos desde 1932 na era Vargas, não será fácil para o governo Dilma, nem mesmo sob a égide do ajuste de contas públicas. O ministro Miguel Rossetto, após a conversa de Dilma com o presidente da CUT, disse que Dilma defendeu com muita ênfase as medidas de ajuste para reintroduzir o país no caminho do crescimento econômico. Quem concordará com esse apelo ou com a ênfase? O Congresso, tomado por uma onda de independência, após anos de submissão à vontade do Executivo, não será. A revisão dos direitos trabalhistas não será aprovada na íntegra, e nem mesmo o PT admite que não passará pelo crivo dos parlamentares. O problema é que o governo Dilma não fez ainda a parte mais grave no corte de despesas públicas, por exemplo, reduzir o número de ministérios, principal bandeira das ruas de junho de e ainda espera que o Congresso assuma o ônus de aprovar um ajuste trabalhista impopular. Também espera que as centrais sindicais o apoiem no flexibilizar os direitos sociais como o seguro-desemprego. Portanto, espera que suas decisões sejam plebiscitárias que todos aceitem sem contestação no entendimento de que, após numa reeleição com 59 milhões de votos Dilma empalma legitimidade para propor reformas estruturais com o apoio governista. A questão, porém, é que não existe mais força impositiva que dobre o Congresso. Existe sim, orçamento impositivo na nova era Cunha. A base governista se pulverizou em 594 vontades pessoais (513 deputados federais e 81 senadores). Ninguém é mais dono de ninguém. 7

8 CONGRESSO CHEIRO DE QUEIMADO: CONGRESSO IMOLA DILMA? Dilma foi buscar conselhos com Lula em São Paulo e 39 ministros aguardaram as novas diretrizes. Onde está o centro do poder real? É uma questão que vive no cerne da autoridade presidencial, mas que não encontra resposta em nenhuma agente do poder. O Congresso sente o cheiro de queimado. O Congresso é altamente sensível para sentir o cheiro de queimado. Quando o sente, se autopolicia. Não acrescenta brasas às labaredas que crepitam. É uma autodefesa comum aos políticos: não se autoimolam como os budas ditosos. Nem querem imolar os outros, pelo menos, antes que esses, por fraqueza, cuidem de se imolar. Do outro lado da praça, o governo Dilma dá aparência de estar se estiolando sem rumo e sem norte. A biruta dos ventos rodopia intensamente e não se fixa numa só direção. O grande problema do governo hoje é o político. Pelo político perde o restante. Não é o da comunicação se não tiver o político resolvido, de nada adianta ter boa imagem. Não é o econômico se não tiver o político resolvido de nada adianta tranquilizar os mercados. Resolver o político é buscar o equilíbrio, o que Dilma não tem. Não adiantou obter 59 milhões de votos e não ter como compartilhá-los com uma base estável e segura. Não se trata de ministros qualificados ou não qualificados para a articulação política. Trata-se de ministros políticos que obtenham o respeito dos parlamentares e credibilidade ao assumirem compromissos selados pela presidente. Quando vão ao Congresso, os ministros parecem falar por si mesmos, medrosos, sem avançar um milímetro além do dever de casa. Expõem temor de errar ou pisar em falso para não serem desautorizados pelo Palácio do Planalto. Têm absoluto pavor de falarem com os jornalistas. Ninguém assegura que os acertos políticos que eles conduzem serão cumpridos. Enquanto isso, os verdadeiros profissionais do Congresso como o deputado Eduardo Cunha ocupam o cenário numa relação oposta à promovida pelo governo: tudo às claras, jogando franco, olhando no olho de cada parlamentar. 8

9 POLÍTICA Sr. Gestor, não deixe o mosquito da Dengue se instalar na sua cidade. O mosquito da Dengue está mais perigoso. Agora ele transmite também a Chikungunya. Uma doença que, assim como a Dengue, provoca febre, dor de cabeça e dores muito mais fortes nas articulações, principalmente nos pulsos e tornozelos. Mais um motivo para você deixá-lo bem longe da sua cidade. Por isso: Reorganize a assistência à saúde nos diversos níveis de atenção; Reforce a vigilância em saúde (controle de vetores e monitoramento de casos); Promova a capacitação e a educação permanentes; Planeje ações de comunicação e mobilização para eliminar os criadouros do mosquito. Faça a sua parte. DENGUE E CHIKUNGUNYA O perigo aumentou. E a responsabilidade de todos também. 9

10 POLÍTICA COLUNA Leonardo Mota Neto GILES VOLTOU Para novamente abrigar Giles Azevedo em seu gabinete, Dilma Rousseff restaurou na estrutura palaciana um antigo cargo que há muito não era preenchido, o de secretário particular da presidente. O último presidente a nomear um foi José Sarney, através de seu genro, Jorge Murad. Entre as tarefas de Giles, uma é cuidar da agenda de Dilma com o empresariado. SARNEY MAGOADO Sem mandato, mas morando em Brasília, José Sarney está mais do que amuado: o grau é magoadíssimo. Literato, com vários livros escritos, até hoje diz não entender da ingratidão humana. Queixa-se mais de Lula que de Dilma. A íntimos diz ter viabilizado Lula. E o que recebeu em troca? TELEFONE TOCA? Até a reunião que mantiveram em São Paulo, os telefonemas de Lula à Dilma, e vice-versa, haviam escasseado. Esse é um termômetro que mantém a República estável. Quem sabe agora com o país entrando na normalidade em março, o telefone toque mais. ERENICE REAPARECE Logo na sua primeira semana de trabalho em seu gabinete no Ministério de Minas e Energia, o ministro Eduardo Braga recebeu a visita ilustre de uma ex-ministra da Casa Civil. Erenice Guerra chegou pelo elevador privativo, assomou à porta do gabinete, entrou e demorou-se duas horas com Braga. A agenda do ministro teve que ser empurrada para frente. A área de energia é da preferência de Erenice. NÚCLEO DESCONTENTE Ninguém na cúpula do governo está contente com o desempenho do núcleo duro da presidente. Eles são 6, e no total são 6 que batem cabeça sem saber exatamente o que fazerem. Tudo porque a presidente mantém um trato distanciado e é a única que sabe de tudo, enquanto os demais não sabem nada. 10

11 POLÍTICA THOMAS VOLTOU O ministro da Comunicação, Thomas Traumann, depois de um período meio afastado, voltou a ser requisitado a todo instante pela presidente. Na gangorra do poder, sua cotação subiu muito. Nem mais se menciona a hipótese de a área de publicidade da Secom passar ao Ministério das Comunicações. TEMER DISCRETO Uma postura e uma agenda discretíssimas agora ainda mais que antes, caracterizam o vice-presidente Michel Temer. Sua rotina diária no anexo do Palácio do Planalto tem sido magra em contatos externos. Mantém-se afastado da dupla Renan Calheiros e Eduardo Cunha. EDUARDO PAGA O presidente da Câmara, Eduardo Cunha, não sabe que espaço a mais usar na casa para abrigar tantas comissões técnicas como paga de compromissos assumidos em sua campanha. São, até o momento, 22 comissões contra 12 do Senado, onde Renan Calheiros só tem 39 eleitores para cativar como paga de favores de campanha. CACIFE ALTO A boca pequena nos corredores do Senado sussurra que Renan Calheiros escalou uma mesa diretora com senadores de pouca experiência para poder exercer total influência sobre os rumos da casa, e assim ter controle absoluto da pauta de votações. Em contrapartida, aumentou consideravelmente seu cacife na negociação direta com o Palácio do Planalto. CARTA ESCONDIDA O momento em que as tensões entre Dilma Rousseff e Eduardo Cunha se normalizarão será sinalizado por um gesto da presidente: manobrar para que o dirigente da Câmara ocupe a presidência da República numa viagem dela ao exterior. Para tanto, isso precisaria fazer Michel Temer viajar também. É um custo alto, mas só depende dela. Será um trunfo na manga de Dilma no momento em que a tensão chegar ao próximo. Cunha, vaidoso, gostaria de enriquecer a biografia com uma passagem pela presidência, nem que por dois dias. 11

12 MEMÓRIA TANCREDO OITO PAÍSES ANTES DA POSSE QUE NÃO ACONTECEU Leonardo Mota Neto Editor-geral da CARTA POLIS, acompanhou a viagem do presidente eleito Tancredo Neves pelo Correio Brraziliense. Há 30 anos, março de A viagem começou tensa - uma curta descida para reabastecimento do avião em Lima, no Peru, com destino à Itália, primeira escala da viagem. Dr. Tancredo (vou chamá-lo aqui sempre de Dr. Tancredo, como nós, jornalistas, o chamávamos) desembarcou em plena madrugada, de sobretudo para ter um rápido rendez-vous na sala VIP com o presidente peruano. Ao descer as escadas, voltou-se para um pequeno grupo onde eu estava, e brincando nos disse: - Ih, estou com morrendo de medo dos tupamaros... Era o movimento insurrecional peruano, aquele mesmo que décadas mais tarde seria esmagado por Albero Fujimoru, no trucidamento coletivo na Embaixada do Japão. Subimos de novo além-andes e na Itália estava previsto uma ida ao Palácio Quirinal para conversar com o primeiro-ministro, Giulio Andreotti. O que interessava mesmo ao católico de São João del Rey, era a visita ao Vaticano no dia seguinte para receber a bênção de João Paulo II para levar o Brasil ao seu prometido destino. Foi um dia engalanado para o casal Tancredo Risoleta, e para sua comitiva em que pontuava o jovem secretario presidencial, Aécio Neves, que tratávamos de Aecinho. A França não estava no roteiro. Havia gerado protestos do Palácio do Eliseu ocupado por François Mitterand. Logo ele, um socialista que desejava conhecer o presidente que vencera o candidato do regime militar no colégio eleitoral. A diplomacia francesa - que desde Talleyrand não é para brincadeira - tanto fez que Dr. Tancredo, hospedado no vetusto Hotel Excelsior, na Via Veneto, afinal concordou em dar um pulo na França, de apenas algumas horas. Soubemos depois por Mauro Salles - que fazia as vezes de porta-voz - que a curta viagem foi terminantemente proibida pelos médicos. Mas, França é França e tem os seus mistérios. O jato militar da Força Aérea Francesa foi buscar o presidente eleito e sua reduzida comitiva em Roma para conduzi-los à cidadezinha do sul francês, onde o casal François-Danielle mantinha sua casa de campo. Foi uma visita encantadora em charme e atenções especiais dos anfitriões - relatou-nos Mauro mais tarde. Bem mais tarde mesmo, pois era mais de meia noite que Dr. Tacredo chegou ao hotel da encantadora aventura, sem demonstrar o mínimo de fadiga. Mauro Salles se permitiu nos revelar uma passagem da conversa dos dois presidentes (nenhum jornalista o acompanhou). Quando Danielle Mitterand perguntou-lhe como eram as praias brasileiras, se eram de água fria ou quente e que cor tinham, revelando enorme curiosidade para conhecê-las um dia, Dr. Tancredo com seu jeito sedutor, respondeu à primeira-dama: - Nossas praias têm a cor de seus olhos. Lisboa, próxima parada. O primeiro-ministro, Mario Soares, amigo de tantos amigos no Brasil, fez da visita acontecimento sem par. Para coroar esse espírito festivo, Dr.Tancredo foi de trem à Coimbra receber homenagem reservada a hóspedes lusitanos de cepa rara: o título de Doutor Honoris Causa. Mais uma vez os médicos tiveram que intervir: não é que a Espanha, enciumada com a presença em Portugal de tão ilustre presidente eleito, reclamara através da diplomacia do rei Juan Carlos II uma rápida ida a Madri? A despeito dos médicos, Dr.Tancredo embarcou no jato da Força Aérea Espanhola, que foi buscá-lo especialmente para ir jantar no Palácio Zarzuela com o casal real, Juan Carlos II e Sofia. Desta vez, ao contrário do que ocorrera na Itália em relação à França - conseguimos uma vaga no avião - apenas uma - para que um de nós fosse à Madrid e relatasse aos demais a conversa real. Reunimo-nos - éramos mais de 60, contando com os correspondentes na Europa - na sala de imprensa do Hotel Ritz, onde a comitiva se albergara - e votamos democraticamente (foi secreto) no Mauro Santayana, que havia sido diretor da Casa do Brasil na Espanha. Dr. Tancredo voltou a Lisboa às duas da manhã, alimentado e feliz. 12

13 MEMÓRIA 1 Fotos de Tancredo com: 1 - Papa João Paulo II; 2 - Felipe Gonzalez Washington. D.C Abaixo de zero, exigindo dos acompanhantes e médicos cuidados especiais com o presidente eleito, mas não sabíamos então de nada mais profundo sobre a saúde dele. Instalados no hotel, o embaixador brasileiro, Sérgio Corrêa da Costa, foi apanhar de limusine Dr. Tancredo e Dona Risoleta para um jantar reservado na embaixada naquele sábado. Era o briefing para a recepção na Casa Branca - ponto mais alto de todo o tour presidencial - na segunda-feira próxima. Fazia muito menos de zero grau quando o carro encostou na portaria. Os que permaneceram de plantão no hotel para documentar a saída e a volta, sentiram naquela noite a primeira sensação de que havia algo estranho com a saúde. Desde a chegada de Lisboa, passara o dia encerrado na suíte presidencial. Mauro Salles desceu e veio nos dizer que o presidente eleito estava apenas com uma forte gripe, mas que confirmara o jantar na embaixada. Foi assim que ele, Dona Risoleta e uma risonha comitiva desceram do elevador para tomar a Limusine. Encasacado e com um écharpe enrolada no pescoço que lhe cobria quase todo o rosto, não deixou de nos cumprimentar e se dirigiu especialmente e com carinho ao repórter político Paulo Branco da Tribuna da Imprensa do Rio, e cobrar-lhe: - Meu filho, você não está com frio? Está sem cachecol, sem suéter, só com paletó. - Obrigado presidente, mas eu não vou ir do hotel e aqui está com uma ótima calefação - respondeu Paulo. - Não senhor. Vá jantar num bom restaurante com seus colegas, não me espere que vou demorar muito... Voltando-se para sua mulher: - Risoleta, faça o favor de subir à nossa suíte. Na minha mala há um suéter reserva bem quentinha. Traga aqui para o Paulo Branco. Decorreram uns dez minutos. O embaixador, impaciente, pensando certamente na mesa posta e com os demais convidados, todos da intelligentzia diplomática em Washington. Por fim, Dona Risoleta desceu com um suéter quentinho. Paulo o vestiu e só aí Dr. Tancredo e sua comitiva foram cumprir a agenda. Voltou sorridente e afável às duas da madrugada. Não fomos jantar fora. Com as duas faces rosadas, jeitão de cowboy, o presidente Ronald Reagan recebeu Tancredo Neves na Casa Branca com simpatia acima do tom habitual para países abaixo do Rio Grande. Senão a diplomacia, pelo menos os jornalistas lograram uma vitória: uma introdutora do cerimonial veio nos prevenir que estava limitado a 10 o número de jornalistas brasileiros que poderiam entrar no Salão Oval para documentar o encontro e fazer perguntas a ambos - a quantidade delas seria ditada pela boa vontade - como é a praxe. Que tirássemos os nomes em sorteio. Fomos falar com Mauro Salles. Éramos 60. Cito entre eles, homenageando os demais, Ana Amélia Lemos, que representava a Zero Hora. Não poderíamos voltar para o Brasil sem provar o crème de la crème. Mauro nada nos disse em resposta. Com passos lépidos, procurou o secretário de Imprensa de Reagan. Argumentou que era a redemocratização brasileira que chegava a Washington 60 testemunhas enviadas pelas principais organizações da mídia. O secretário cedeu. Rompeu um tabu secular e assim todos entraram. Três dos nossos, fizeram perguntado a Reagan enquanto três colegas americanos, a Dr.Tancredo. A boa vontade imperou. Chegamos ao México, penúltima etapa. Dr. Tancredo concedeu sua primeira e última entrevista coletiva em toda a viagem. Não abordou a preocupação geral com sua saúde, mas observei que ele não retirava a mão do abdômen. Quando lhe fiz minha pergunta, por sorte me tratou pelo nome, o que era raro, pois chamava todos de simpatia. Matreiramente, usava um termo carinhoso para todos, temendo esquecer o nome de alguém. Chegamos, por fim, a Buenos Aires, última escala. A saúde do presidente eleito continuava estacionária, e aparentemente estava recuperado da gripe rumo à posse dali à dias. Sabíamos que dali por diante, ao chegar de volta ao Rio, iria rarear nosso contato com aquele político carinhoso e acessível que costumava morder a ponta da gravata para simbolizar que estava contrariado com alguma coisa. Organizamos uma despedida para o presidente eleito e Dona Risoleta. Fizemos um rateio para comprar bolo e champanhe. A festa era nossa. Combinamos com Mauro Salles trazer o homenageado quando tivéssemos feito um semicírculo. Mauro nos impôs a condição que fosse rápida - e me disse que o presidente estava rouco. (Sabia ele de mais alguma coisa a respeito da saúde dele?) Mais uma vez votamos democraticamente para escolher um porta-voz do grupo, e recaiu num jornalista eloquente, o baiano Carlos Henrique de Almeida Santos, que cobria a viagem pelo SBT. Filho de um deputado federal, Almeida Santos, que havia sido colega na Câmara de Dr.Tancredo. Este, emocionado, respondeu com seu discurso de esperança antes de una posse que nunca aconteceu. 3 - Belaunde Terry; 4 - Francois Mitterrand; 5 - Raul Alfosin; 6 - Ronald Reagan; 7 - Dona Risoleta e os Reis da Espanha; 8 - Com o Neto Aécio Neves. (*) Pesquisa de imagens e histórica com apoio de Léo Ladeira - Rio de Janeiro. 2 13

14 SWING POLÍTICO MACIEL EVITOU TOMAR GOLE DE CACHAÇA PARA TIRAR O MEDO NA HORA DE MAIOR PERIGO O jornalista José Augusto Freitas era assessor do então deputado Marco Maciel, quando foi candidato a senador em Pernambuco. A campanha estava acirrada. Maciel tinha adversários renhidos. Mas, o ético e honrado parlamentar jamais deixou de lado seu estilo: fez inteira, como se tivesse saindo do banho, empertigado e com roupa imaculada. Houve um episódio, porém, em que Marco Maciel quase fez uma concessão à vulgaridade tomando um gole de cachaça. Aconteceu quando o pequeno bimotor em que viajavam de Brasília para Recife num fim de semana, embandeirou um dos motores perto de chegar ao aeroporto de Guararapes. A bordo, um aflito Maciel, sentindo os arrancos do avião com um só motor e perdendo atitude, começou a rezar fervorosamente. Augusto, irreverente, disse-lhe: - Deputado, um dos doadores da campanha é a Cachaça Pitu. Trouxe comigo uma garrafa de emergência para tirar o medo. O jornalista, também amedrontado, serviu-se de uma lapada. Ainda juntou outro argumento: - Pode ficar tranquilo que essa cachaça é especial e não deixa bafo. Ninguém no aeroporto vai perceber que o senhor bebeu. Maciel, lívido, resistiu ao apelo da Pitu. Somente rezou. O bimotor finalmente aterrissou como uma pato manco. No toalete, lavando o rosto para encarar seus eleitores, Maciel desabafou: - Não poderei dizer a meu patrocinador que nem num momento de perigo de vida experimentei o seu produto... SENADOR QUE SALVOU CONGRESSO DE INTERVENÇÃO MILITAR DAVA UM REINO POR UM PAR DE SAPATOS ITALIANOS No quesito de adoração de políticos por sapatos italianos, um outro foi Petrônio Portella, o senador piauiense, ministro da Justiça de Figueiredo que negociou a lei da anistia. Antes, no governo Geisel, como presidente do Congresso Nacional, contribuiu com seu prestígio pessoal para evitar uma crise político-militar de proporções incalculáveis àquela época dura ao atravessar a Praça dos Três Poderes para acalmar os chefes militares que pregavam a cassação de dois parlamentares - o senador Leite Chaves e o deputado Marcelo Gatto - que haviam feito discursos considerados ofensivos ao Exército. Petrônio salvou os dois. Mas, Petrônio gostava mesmo era de sapatos italianos. No Natal de 1981, seu último em vida, recebeu em sua mansão na Península dos Ministros, um grupo pequeno de familiares e amigos, entre esses, o único parlamentar, o deputado Paes Landim, seu conterrâneo. Com um pacote finamente embalado debaixo do braço, Landim adentrou a sala e Petrônio ficou ansioso por saber o que era o presente. Chama Landim: - Vamos ali no meu quatro, pois já estou até adivinhando o que é. Claro, era o esperado par de sapatos italianos Mais um para sua imensa coleção. Petrônio, feito criança, tirou o par de sapatos que estava usando e experimentou o novo. Calçou como uma luva. Sorridente, feliz mesmo, voltou à sala e mostrou seus novos sapatos a todos, agradecendo Landim: - Foi meu melhor presente de Natal, seu doutor!. 14

15 SWING POLÍTICO GRANDE POLÍTICO EVITA SEGUIR PARA BRASÍLIA E PREFERE COMPRAR SAPATOS EM SÃO PAULO O professor João Di Gênio, dono do Colégio Objetivo e que marcou época em Brasília com sua mansão no Park Way (chamada Mansão das Palmeiras) onde recebia o mais alto círculo do poder era a companhia constante do senador Antônio Carlos Magalhães. Detalhe: Di Gênio, além de riquíssimo, era (e é) absolutamente discreto, uma razão a mais do grande político baiano confiar-lhe seus segredos. ACM o deferia e ainda mais por que o professor colocava à disposição seu jatinho de última fornada do fabricante. Di Gênio ia buscá-lo em Salvador todas as segundas e lavava de volta às sextas. Detalhe: os dois adoravam colecionar sapatos, o que, aliás, não é um fetiche incomum a políticos. Numa dessas viagens a bordo do jatinho, ACM conversava alegremente com professor sobre esse culto a uma das mais finos produtos da Itália. Foi quando o senador concebeu uma ideia repentina, daquelas que só se pode externar a um amigo milionário: - Que tal se em vez de Brasília, fossemos agora a São Paulo comprar sapatos na Daslu? Di Gênio foi consultar o piloto sobre a possibilidade de mudança do plano de voo. Podia. E assim foram os dois ver a última coleção de sapatos italianos na famosa butique da Madame Tranchesi. ERRAR UMA VEZ EM POLÍTICA É FALHA GRAVE, DUAS É SUICÍDIO, ENSINAVA MAGALHÃES O livro do senador Cristóvam Buarque - O Erro do Sucesso - tendo na capa a palavra ERRO grafada com seus dois RR ao contrário - lembra uma história do então candidato a senador por Minas em 1970, José de Magalhães Pinto. Concorria pela Arena. Seu adversário era um médico, Roberto Rezende, que havia sido derrotado por Israel Pinheiro nas eleições para governador de Rezende espalhou em toda Belo Horizonte um cartaz de rua reproduzindo sua jovem e sorridente estampa com suas iniciais, RR. Não deu outra. Magalhães, com seu iluminado instinto para a oportunidade, mandou espalhar um contra-torpedo em toda Belo Horizonte: - Não votem em Roberto Rezende. Não ERRE duas vezes... 15

16 SWING POLÍTICO EDUARDO CUNHA IMITA ACM E PRENDE DEPUTADOS MAIS UM DIA EM BRASILIA CONTRA MÁ VONTADE GERAL Eduardo Cunha chegou à Presidência da Câmara com tudo após uma estonteante vitória para cumprir todas as promessas de campanha. Uma delas é com a responsabilidade do mandato parlamentar. Chega de deputado ser um turista com mandato e regalias, permanecer em Brasília apenas dois dias, assinar a presença (agora com o dedo no sistema eletrônico), votar nas noites de quarta e ir embora para seu estado. O deputado tornou-se um transeunte de aeroporto. Solução inicial adotada por Cunha: marcar sessões nas manhãs de quinta-feira, para que o parlamentar passe mais um dia em Brasília, cumprindo sua obrigação com o eleitor. Lembra Antônio Carlos Magalhães, que foi ainda mais radical ao presidir o Senado: marcou sessões para as manhãs de sexta-feira. Os senadores compareciam, graças à enorme autoridade de ACM, além de sua força física que aterrorizava a todos. Eduardo Cunha não ameaça ninguém com força marcial. Apenas impõe sua agenda de campanha mesmo que signifique ao deputado federal gastar mais um dia em Brasília. APARECIDO MANDOU RECUPERAR ÁREA VERDE DO LAGO PARA CONSTRUIR CICLOVIA, MAS SUA BICICLETA NÃO ANDOU Os invasores de áreas públicas em Brasília não se limitam aos terrenos da periferia. O elegante Lago Sul, onde a elite se concentra, conta inúmeros casos de áreas verdes que margeiam o lago invadidas pelas elegantes mansões. A lei pétrea da urbanização da capital assegura acesso a toda a população. O governador Aparecido, epígono apaixonado das escalas urbanas de Lúcio Costa, não se conformava com as invasões de luxo. Um dia, mandou os órgãos competentes de fiscalização de seu governo agirem com rigor, a despeito de conselhos para não mexer nesse vespeiro, por causa dos VIPs. A ordem foi peremptória, bem ao estilo do Zé: derrubar cercas vivas, cercados de arame, árvores e até os cais para barcos que haviam sido instalados nas áreas verdes. E construir uma ciclovia ao longo de toda a orla do lago para que os brasilienses pudessem pedalar por aquelas magníficas paragens. Bem. Tudo foi feito conforme a ordem do governador. Tratores juntarem-se numa clareira junto à Ponte Costa e Silva para dar a largada à grande derrubada. Foi feita a vontade de Aparecido, que interpretava a vontade da comunidade. Uma pista de ciclovia abriu- -se nos quintais da elite, que eram os quintais do povo, na verdade. Havia sido cumprida a profecia de Oscar Niemeyer de uma Brasília socialista? Qual? Os VIPs começaram a procurar os desembargadores de plantão e com uma liminar aqui, outra ali, minaram a invasão do Estado em áreas nobres. A ciclovia foi interrompida, o mato voltou a fechar as pistas e voltou tudo ao que era antes: um festival de privilégios de uns poucos na área verde de todos. 16

17 SWING POLÍTICO HERÁCLITO CRIOU O PIANTELINHA NO SENADO PARA ALMOÇOS NO GABINETE E AGORA NA CÂMARA PENSA INOVAR Heráclito Fortes, uma das línguas mais viperinas do Congresso Nacional, um dos mais ilustres políticos brasileiros dos últimos 30 anos, voltou à Câmara dos Deputados e nos primeiros dias já disse a que veio: para o novo mandato parlamentar pelo PSB do Piauí. Supersticioso, cumpriu o mesmo ritual do começo dos seus mandatos: entra sozinho no novo gabinete, sem a companhia de qualquer assessor. Desta vez, entrou sozinho no gabinete 823 do Anexo IV. Senta-se na poltrona do gabinete, faz uma longa meditação sobre os rumos de sua atuação e somente depois começa a chamar os assessores. Quando senador, agiu exatamente assim. Inovou, seu gabinete na Ala Afonso Arinos era espaçoso mas, assim mesmo fez chegar à presidência do Senado um pedido especial para aumentá-lo. Queria uma mesa ampla para refeições. Assim foi feita sua vontade. Por se tratar de uma pequena obra de engenharia. Oscar Niemeyer foi consultado para dar permissão ao puxadinho de Heráclito e desenhá-lo. Batizado de Piantelinha, o restaurante de Heráclito ficou era famoso por estar sempre lotado de comensais para degustar os acepipes encomendados dos melhores restaurantes de Brasília, para começar, o Piantela. Pagos pelo próprio bolso do senador, é claro. Ao terminar o mandato de senador, o gabinete passou ao senador pernambucano Armando Monteiro Neto, que não continuou a tradição. Fez da sala de refeições uma biblioteca. Seu suplente, Douglas Cintra, efetivado, também não é do time do Piantelinha. Foi o fim de uma época. Mas, Heráclito certamente iniciará outra era na Câmara de Eduardo Cunha. 17

18 ARTIGO/DEFESA CAÇAS SUECOS FORTALECEM PROPRIEDADE INTELECTUAL Benny Spiewak Advogado, sócio responsável pelas áreas de Defesa, Propriedade Intelectual, Life Sciences e Tecnologia do escritório ZCBS Zancaner Costa, Bastos e Spiewak Advogados, A escolha pelos caças suecos F-X2 ratificam a importância da propriedade intelectual para o Brasil e a relevância dos direitos intangíveis na tomada de decisões altamente estratégicas no segmento de tecnologia nas áreas de Defesa. A aquisição de 36 aeronaves de combate, ao custo estimado de US$ 4,5 bilhões, objetiva substituir as atuais aeronaves francesas Mirage 2000C. Com a aquisição anunciada no último dia18 de dezembro pelo Ministro Celso Amorim e amplamente co- memorada pela Força Aérea Brasileira, o Brasil antecipa adquirir tecnologia e conhecimentos únicos, os quais, uma vez bem incorporados, permitirão com que o país potencialize sua capacidade intelectual e de reprodução de tecnologia. Mais do que modernizar a frota nacional de aeronaves de defesa, a decisão destaca a maturidade governamental relacionada à transferência de tecnologia. A partir da negociação, a qual poderá se estender por mais um ano, estará garantido transferência absoluta 18

19 ARTIGO/DEFESA de todos os sistemas de operação da aeronave, incluindo sistemas computacionais de comando de armamentos, os quais poderão ser incorporados a outros itens defesa atualmente já em processamento e produção nacional, como mísseis de defesa e componentes de artilharia. Mais do que uma aquisição de aeronaves, o Brasil, com o anúncio, adquire a capacidade de galgar incontáveis níveis na escala de detentores de conhecimentos tão estratégicos. Sem a aquisição, o processo de aprendizado e de maturação levaria dezenas de anos, com chances relativas de sucesso. O ganho para o Brasil e, especialmente, para o parque industrial e tecnológico nacional é incalculável. A medida, então, celebra a importância da propriedade intelectual, que está intimamente relacionada aos itens que serão objeto da interação Brasil-Suécia. Com o aprendizado, itens de elevado valor tecnológico serão desenvolvidos pelo país. Tais elementos, na medida em que agreguem inovação real, serão protegidos pelo Sistema da Propriedade Intelectual, seja através do emprego de patente, designs ou, ainda, através do mecanismo de proteção aos segredos industriais. Essa proteção resultará na habilidade de o Brasil licenciar ou comercializar esse conhecimento, o que permitirá a recuperação dos investimentos na aquisição inicial dessa tecnologia. O Sistema da Propriedade Intelectual, bem como o entendimento do país sobre o tema, sai fortalecido desse processo, na medida em que valoriza sobremaneira o investimento sueco em pesquisa e desenvolvimento, bem como a estratégica importância dos ativos intangíveis. Sobretudo, tal aquisição, amadurecida ao longo de quase uma década, demonstra que operações estratégicas internacionais considerarão o Sistema da Propriedade Intelectual como fator decisivo. YANAR, PRIMEIRA COMANDANTE Pela primeira vez em sua história, o Exército nomeou uma mulher comandante de uma Organização Militar Operacional. A pioneira é a major Yamar Eiras Baptista, que assumiu o comando do Hospital de Campanha Hospital Oswaldo Cruz, no Rio de Janeiro. A Base de Apoio Logístico do Exército realizou, em 5 de fevereiro último, a solenidade de passagem de Comando. 19

20 S NAR>>>>> Alberto Caeiro MANDATO CARO O custo de uma eleição para deputado federal nas últimas eleições foi em média R$ 10 milhões. Em 2010, a média havia sido de R$ 5 milhões. Prevê-se que em 2018 só quem gaste R$ 15 milhões tenha condições de ser eleito para a Câmara. Para governador o gasto médio foi maior: só quem gastou R$ 200 milhões se elegeu. Um ou outro governador, devido a sua popularidade, elegeu-se com menos. SONHO MEU O custo da eleição para deputado federal, a depender do rumo da reforma política que será apreciada pela Comissão Especial da Câmara, poderá ser enormemente barateado caso seja aprovado este mix: 1) financiamento apenas público de campanhas; 2) voto distrital misto e 3) final do regime de coligações proporcionais. É o sonho de todo democrata e de todo candidato sem posses. Portanto, irrealizável. TODO PRESTÍGIO Se há um visitante do Palácio do Planalto off-governo que é recebido na hora que chega pela presidente Dilma, este é o advogado Sigmaringa Seixas. Atribuído de missões informais que e são passadas diretamente por ela, Sig é uma ponte mais do que segura entre o governo e a alta magistratura. A assessora na escolha do futuro ministro do STF. DIRCEU PRÁTICO A razão pela qual José Dirceu deixou o escritório de advocacia do advogado José Gerardo Grossi para ir se instalar na banca do advogado Hélio Madalena é essencialmente prática: no primeiro, era um mero empregado quer precisava de um lugar para trabalhar no regime semiaberto. No segundo, é dono, pois Madalena é seu antigo sócio. 20

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