O DESIGN E SUA HISTÓRIA NOS SISTEMAS DE OBJETOS DE CENA E CENÁRIOS PARA TEATRO E CINEMA

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1 0 THIAGO DE STURDZE O DESIGN E SUA HISTÓRIA NOS SISTEMAS DE OBJETOS DE CENA E CENÁRIOS PARA TEATRO E CINEMA FLORIANÓPOLIS SC 2008

2 1 UNIVERSIDADE DO ESTADO DE SANTA CATARINA UDESC CENTRO DE ARTES CEART DEPARTAMENTO DE DESIGN DDE THIAGO DE STURDZE O DESIGN E SUA HISTÓRIA NOS SISTEMAS DE OBJETOS DE CENA E CENÁRIOS PARA TEATRO E CINEMA Trabalho de Conclusão de Curso apresentado à Universidade do Estado de Santa Catarina UDESC curso de Design Industrial habilitação em projeto de produto, como requisito para a obtenção do título de Bacharel em Design Industrial. Orientador: Douglas Ladik Antunes, M.Sc FLORIANÓPOLIS SC 2008

3 2 THIAGO DE STURDZE O DESIGN E SUA HISTÓRIA NOS SISTEMAS DE OBJETOS DE CENA E CENÁRIOS PARA TEATRO E CINEMA Trabalho de Conclusão de Curso aprovado como requisito parcial para obtenção do grau de bacharel em design industrial no curso de graduação em Design Industrial da Universidade do Estado de Santa Catarina UDESC. Banca Examinadora: Orientador: Prof. Douglas Ladik Antunes, M.Sc Co-orientador: Prof. Mauro de Bonis Almeida Simões Membro: Prof. Claudio de São Plácido Brandão, M.Sc Florianópolis, 10 de Julho de 2008

4 À minha família: meus pais, minha irmã e meus dois irmãos; aos meus amigos e aos professores e pessoas que me apoiaram. 3

5 4 Filosoficamente falando, o design de produção é uma disciplina fascinante. Tem um componente realmente espiritual. Porque exige que se examine o mundo bem de perto, ver as coisas como realmente são e não como você quer que elas sejam, e então recriá-las com objetivos totalmente fictícios e imaginários. Qualquer trabalho que o obrigue a olhar o mundo com tanto cuidado tem de ser um bom trabalho, que faz bem à alma. Paul Auster Romancista, Poeta, Ensaísta e Cineasta

6 5 RESUMO Esta pesquisa buscou estabelecer as relações entre Design Industrial com Teatro e Cinema. Foram considerados o surgimento, a evolução, o processo de desenvolvimento, as tecnologias e as demandas das atividades relacionadas. Algumas breves biografias de profissionais, arquitetos, artistas, cineastas e designers que contribuíram para a consolidação das atividades abordadas foram incluídas. Optou-se por uma pesquisa exploratória, investigando o campo de atuação profissional entre as áreas. O trabalho foi elaborado utilizando-se informações de fontes bibliográficas, de filmes, da internet e de visitas a exposições. A pesquisa pode ser dividida em duas partes: teatro e cinema. Na parte de teatro são abordados esclarecimentos sobre cenografia, início do teatro, breve histórico da cenografia teatral, desenvolvimento da cenografia no teatro, passando pelo teatro da Bauhaus, sempre apontando questões relacionadas ao design. Na parte de cinema são apresentados aspectos específicos da elaboração de cenários e objetos de cena para cinema. Inclui um histórico da ficção científica no cinema apresentando questões relevantes ao design neste campo, além de abordar aspectos relacionados às tecnologias aplicadas, através de exemplos. Imagens e fotos referentes aos temas abordados foram inseridas no trabalho para exemplificar e possibilitar um melhor entendimento dos assuntos tratados. PALAVRAS CHAVE: Design de produto; Objetos de cena; Cenografia.

7 6 ÍNDICE INTRODUÇÃO OBJETIVO GERAL OBJETIVOS ESPECÍFICOS JUSTIFICATIVA METODOLOGIA REFERENCIAL TEÓRICO CENOGRAFIA CENÓGRAFO DESIGN NO TEATRO INÍCIO DO TEATRO BREVE HISTÓRICO DA CENOGRAFIA TEATRAL CENOGRAFIA NO TEATRO TEATRO NA BAUHAUS Teatro na Bauhaus de Weimar Teatro na Bauhaus de Dessau Teatro sob a direção de Hannes Meyer Bauhaus Outras considerações SET DESIGN STAGE DESIGN NORMAN BEL GEDDES HENRY DREYFUSS DESIGN NO CINEMA CENOGRAFIA NO CINEMA TECNOLOGIA (3D e efeitos especiais) DESIGN DE FICÇÃO CIENTÍFICA NO CINEMA Exemplo De Caso SYD MEAD MERCHANDISING EXEMPLOS DE OBJETOS DE CENA UTILIZADOS NO CINEMA EXEMPLOS EM FLORIANÓPOLIS CONSIDERAÇÕES FINAIS REFERÊNCIAS BIBLIOGRAFICAS ANEXO A ANEXO B

8 7 LISTA DE FIGURAS Fig. 01 Ballett Triádico de Oskar Schlemmer no Tetro Metropolitano de Berlim (1926) Fig. 02 Desenho do Ballet Mecânico, Fig. 03 Esboço de cena de O Homem no Painél de Controle de Kurt Schmidt, Fig. 04 Esboço de cena de Circus de Xanti Schawinsky, Fig. 05 Cena de Equilibraismo no teatro da Bauhaus Fig. 06 Cena de uma apresentação de Dança da Forma, Fig. 07 Cartaz comemorativo da turnê do teatro da Bauhaus, Fig. 08 O Teatro Jovem na Bauhaus Fig. 09 Cena de Visitante na Cidade em Casa do Professor L Fig. 10 Rendering de Johnny On a Spot (Brooklyn Academy of Music, 1980) Fig. 11 Rendering de A Tale Told (Circle Repertory Company, 1981) Fig. 12 Rendering de Ashes (Manhattan Theatre Club, 1976) Fig. 13 Cenário de Living Dolls (Manhattan Theatre Club, 1960) Fig. 14 Cenário de Ring of Nibelung ( ) Fig. 15 Rendering de um cenário de John Conklin Fig. 16 Cena de Volpone, cenário de (Set Designer) Steven Grahan (Carnegie-Mellon University, 1971) Fig. 17 Cena de Situation Comedy, cenário de (Set Designer) Warner Blake (Carnegie-Mellon University, 1971) Fig. 18 Rendering de Karl Eigsti para Death of a Salesman de Arthur Miller Fig. 19 Sketch de Karl Eigsti para The Last Meeting of the Knights of the White Magnolia Fig. 20 Cenário de The Last Meeting of the Knights of the White Magnolia Fig. 21 Sketch de Michael Frain para Alphabetical Order Fig. 22 Cenário de Alphabetical Order (Long Warf Theatre, 1976) Fig. 23 Cena de Joseph and the Amazing Technicolor Dreamcoat. (Royale Theatre, 1981) Fig. 24 Modelo de Eugene Lee para The Ballad of Soapy Smith de Michael Weller (New York Shakespeare Festival,1984)... 45

9 8 Fig. 25 Modelo de Eugene Lee para La Fanciulla del West Fig. 26 Modelo de Ming Cho Lee para The Witch of Endor (1965) de Martha Graham Fig. 27 Modelo de Mitchell David para Henry V (Delacorte Theatre, 1976) Fig. 28 Modelo de David Mitchell para La Cage aux Folles, (1983) Fig. 29 Cenário de King John (1967) Fig. 30 Sketch de Douglas Schmidt para Frankenstein (Palace Theatre, 1981) Fig. 31 Cena de Frankenstein (Palace Theatre, 1981) Fig. 32 Rendering com colagem de Douglas Schmidt para Grease (Eden Theatre, 1972) Fig. 33 Rendering de Robin Wagner para And the Wind Blows (1959) Fig. 34 Rendering de Douglas Schmidt para Macbeth, cenário fechado (American Shakespeare Festival, 1973) Fig. 35 Rendering de Douglas Schmidt para Macbeth, cenário aberto (American Shakespeare Festival, 1973) Fig. 36 Modelo de Norman Bel Geddes para Divina Comédia de Dante, Fig. 37 Conceito de ônibus aerodinâmico de Norman Bel Geddes Fig. 38 Sifão para soda de Norman Bel Geddes de Fig. 39 Histórico telefone Modelo 300 do designer Henry Dreyfuss para os Bell Telephone Laboratóries, Fig. 40 Royal Starship Fig. 41 Pintura de ambiente futurista de Syd Mead Fig. 42 Pintura de nave espacial de Syd Mead Fig. 43 Pintura de carro futurista de Syd Mead Fig. 44 Rendering do carro de policia do filme Blade Runner, vista lateral Fig. 45 Rendering do carro do filme Blade Runner Fig. 46 Carro cenográfico usado no filme Blade Runner Fig. 47 Carro de Blade Runner levantando vôo Fig. 48 Cena do carro voando em frente ao sol Fig. 49 Cena do carro voando sobre os prédios de Los Angeles do futuro Fig. 50 Cena do carro voando em frente ao telão publicitário Fig. 51 Rendering do cenário do centro de LA no futuro para o filme Blade Runner Fig. 52 Cenário do centro de Los Angeles do filme Blade Runner... 95

10 9 Fig. 53 Moto do filme Tron Fig. 54 Tênis Nike do filme De Volta para o Futuro II Fig. 55 Lexus Concept Car Carro da Lexus projetado para o filme Minority Report Fig. 56 Rendering do Mag-Lev vehicle concept do filme Minority Report Fig. 57 Rendering de carro para o filme Minority Report Fig. 58 Modelo de brinquedo da Royal Starship, fabricado pela Fantastic Plastic Fig. 59 Modelo da Royal Starship Fig. 60 Sabres de Luz da série de filmes Guerra nas Estrelas Fig. 61 Arma de Blade Runner Fig. 62 Carro DeLorean da série de filmes De Volta para o Futuro Fig. 63 Exposição Star Wars (sabre de luz e figurinos e robôs) Fig. 64 Exposição Star Wars (Naves) Fig. 65 Exposição Star Wars (andróide, figurino e naves) Fig. 66 Pistolas do filme Minority Report e armamentos Fig. 67 Jornal do filme Eu Robô, bonecos, e miniaturas da ILM Fig. 68 Helton montando exposição no FAM Fig. 69 Objetos de cena do filme Doce de Côco Fig. 70 Placa Santinho Santeiro Fig. 71 Detalhe da Placa Fig. 72 Tomada da placa Santinho Santeiro Fig. 73 Santas de Madeira Fig. 74 Santas de gesso Fig. 75 Placa dos carros da cidade fictícia Fartura do filme Doce de Côco Fig. 76 Objeto de cena metralhadora do filme Doce de Côco Fig. 77 Detalhe da metralhadora cenográfica Fig. 78 Cano da metralhadora cenográfica Fig. 79 Troféus de gesso Fig. 80 Troféus Fig. 81 Logo da Prefeitura Municipal de Fartura Fig. 82 Detalhe de cena do filme Doce de Côco

11 10 Fig. 83 Parte do microfone Fig. 84 Árvore cenográfica de Helton Matias para Hamlet (CEART, 2007) Fig. 85 Detalhe dos rolamentos Fig. 86 Engate da árvore Fig. 87 Galhos da árvore Fig. 88 Rodas da árvore Fig. 89 Máscara

12 11 INTRODUÇÃO A idéia inicial do trabalho surgiu do interesse em entender o processo de criação de objetos de cena e cenários para teatro e cinema, e suas relações com o design. O problema, a princípio, era saber se estas relações existiam, para então esclarecer esses processos dentro do contexto de atuação da área de design. À medida que o trabalho foi tomando forma a partir da pesquisa bibliográfica, foram incluídas questões relevantes sobre a evolução histórica e desenvolvimento das atividades abordadas. Várias produções de teatro e cinema foram citadas e apresentadas como exemplos, além de artistas, designers e cineastas que contribuíram para o desenvolvimento profissional desta área. Este trabalho propõe-se a ajudar estudantes das áreas de design industrial, teatro e cinema a entenderem melhor as relações do design com produções audiovisuais e espetáculos. Na verdade, o trabalho está direcionado a qualquer pessoa envolvida com a produção de objetos de cena e cenários, para teatro e/ou cinema, apresentando aspectos referentes a essas relações como a evolução, o processo de desenvolvimento de design neste campo e demandas específicas deste tipo de atividade. O intuito é o de aperfeiçoar a interatividade e a interdisciplinaridade entre a área de design industrial com as áreas do teatro e do cinema, sobretudo no que se refere à direção de artes para espetáculos e produções audiovisuais. Este é um trabalho de conclusão (TCC) do curso de Design Industrial com habilitação em Projeto de Produto, do Centro de Artes de Santa Catarina (CEART), da UDESC. Fazem parte do CEART os cursos de Música, Moda, Artes Cênicas, Artes Plásticas, Design Industrial e Design Gráfico. Assim, também se torna claro

13 12 outro aspecto importante e implícito no trabalho: o de buscar maior integração entre o curso de Design Industrial com o de Artes Cênicas, nas questões referentes à produção de objetos de cena e cenografia. Do mesmo modo que o curso de Moda pode se relacionar com o de Artes Cênicas na parte de figurinos; o curso de Música na parte de composição e arranjo para uma produção; o curso de Artes plásticas, assim como o de Design Industrial, na parte de cenários, objetos de cena entre outros; e o curso de Design Gráfico na produção de pôsteres, sites na internet e, no caso de produções audiovisuais, do design gráfico propriamente. Ou seja, é possível aperfeiçoar as relações entre um curso e outro, e a interatividade, por exemplo, pode ser um bom meio para se melhorar o entendimento das possibilidades de atuação profissional resultantes destas relações. Além disso, a UFSC e a UNISUL têm cursos de cinema, e facilitar um melhor entendimento das capacidades do design nesta área também pode ser importante para a formação e possibilidades de futuro profissional envolvendo os dois campos. OBJETIVO GERAL Realizar um estudo que aborde as contribuições do Design para as áreas de teatro e cinema. Mais especificamente, as relacionadas à direção de arte, na parte das produções que envolvem a criação de objetos de cena e cenários. OBJETIVOS ESPECÍFICOS Na primeira parte (Teatro), pesquisar material sobre cenografia, as origens do teatro, breve histórico da cenografia teatral, desenvolvimento da cenografia no teatro, passando pelo teatro da Bauhaus, sempre apontando questões relacionadas

14 13 ao design. Além disto, incluir breves biografias e características de artistas, arquitetos e designers que contribuíram para o desenvolvimento desta área. Na segunda parte (Cinema), apresentar aspectos específicos da elaboração de cenários e objetos de cena para cinema. Incluir um histórico da ficção científica no cinema apresentando questões pertinentes ao design neste campo, biografias relevantes, além de abordar aspectos relacionados às tecnologias aplicadas, através de exemplos. JUSTIFICATIVA O trabalho pode servir como subsídio na busca de um melhor entendimento das possíveis atividades e capacidades de profissionais da área de design industrial relacionadas ao teatro e ao cinema. Assim, o trabalho pode propiciar um melhor desenvolvimento de produções que envolvam estas relações, no sentido de aperfeiçoar a interatividade característica destes meios multidisciplinares. Esta integração poderá resultar também em benefícios relativos às produções teatrais e cinematográficas propriamente, como divulgação de informações e entretenimento. O trabalho poderá ampliar e gerar o conhecimento de novas perspectivas para designers de produto, uma vez que ficam evidenciadas e esclarecidas as possibilidades profissionais dentro da concepção destes tipos de produções. METODOLOGIA É importante esclarecer que a idéia que se tem de design aplicado em teatro e cinema não é bem definida. Por isso o trabalho foi estruturado no sentido de

15 14 apresentar informações que pudessem revelar se estas relações existem, se esta idéia é pertinente com a realidade. A pesquisa foi, portanto, exploratória. O trabalho foi elaborado utilizando-se informações bibliográficas, filmográficas, da internet e de visitas a exposições que pudessem provar as relações entre design com teatro e cinema. Todo o trabalho foi adequado de acordo com o Manual para Elaboração de Trabalhos Acadêmicos da UDESC: Teses, Dissertações, Monografias e TCCs, que tem como fonte norteadora as recomendações da ABNT.

16 15 REFERENCIAL TEÓRICO Neste trabalho, o foco está nas produções teatrais e cinematográficas, tendo sempre em vista as relações que o design pode ter, ou tem, com estes tipos de produções no que se refere à criação e elaboração de objetos de cena e cenografia. Para isso, se entende desnecessária qualquer explicação sobre o que é o cinema e o que é teatro, pois se parte do pressuposto de que já se deve ter um entendimento básico suficiente para a compreensão do tema do projeto. Assim, foram analisados somente os aspectos de produções de teatro e cinema que tem maior relação com o tema do trabalho, buscando, desta forma, maior pertinência. CENOGRAFIA De acordo com Mantovani (1989), o termo cenografia (skenographie), é composto de skéne, (cena), e graphein, (escrever, desenhar, pintar, colorir) e se encontra em textos gregos como A Poética, de Aristóteles, por exemplo. A palavra servia para designar certos embelezamentos da skéne. Mais tarde, o termo é encontrado nos textos em latim (De Architetura, de Vitruvio): scenographia. Usado provavelmente para definir no desenho uma noção de profundidade. Posteriormente, no Renascimento, com os textos de Vitruvio traduzidos, o termo cenografia passa a ser usado para designar os traços em perspectiva e notadamente os traços em perspectiva do cenário no espetáculo teatral. Hoje, a cenografia é utilizada em espetáculos e produções áudio visuais. Em relação a espetáculos podem ser citados: teatro, shows de dança, concertos de música, óperas, desfiles de carnaval, entre outros. Nas produções audiovisuais se tem, abrangendo o cinema e a TV: filmes, novelas, seriados, documentários,

17 16 programas de auditório, videoclipes, propagandas, etc. Todos estes exemplos estão sujeitos, em certa medida, ao recurso da cenografia e à utilização de objetos de cena. Claro que um documentário que retrata situações reais do dia a dia, por exemplo, exige menos ou nenhuma necessidade de produção de alegorias e adereços como um desfile de carnaval, por exemplo. Mas, vez ou outra, por menor que seja a necessidade, independentemente do formato do espetáculo ou da produção audiovisual, a utilização desses recursos é indispensável. Mantovani (1989, p. 5) afirma que a cenografia é um elemento que faz parte do espetáculo. Vamos ao cinema, à ópera, ao balé e ao teatro, ou assistimos na televisão, além de novelas, filmes publicitários, musicais, videoclipes, e shows. Em todos encontramos um elemento que sempre faz parte do espetáculo: a cenografia. [...] Então, um espetáculo é composto por vários elementos organizados e orquestrados de tal forma que o espectador possa apreciálos no seu conjunto. Podemos dizer que todo e qualquer tipo de espetáculo é o resultado de um trabalho coletivo. Aqui fica claro que o trabalho envolvido é feito em conjunto, é interdisciplinar, aspecto fundamental da área de design. Borges (1987, p. 4) explica que, No espaço da encenação, artifícios variados são utilizados para ajudar a pessoa que está vivendo o personagem, a passar a mensagem. Nele são criados elementos plásticos, visuais, sonoros, etc, que compõem um ambiente. E ainda que: Cenografia é uma arte complexa. Cenografia é a grafia da cena. É a forma plástica de se falar de uma cena. [...] Forma plástica é todo elemento passivo, construtivo e concreto, a que nós damos formas com nossas próprias mãos. Diferente da música, por exemplo, forma sonora. (BORGES, 1987, p. 7)

18 17 E Mantovani (1989, p.13), referindo-se ao cenógrafo, afirma que: Ele se expressa através de uma linguagem visual, e encena plasticamente um texto dramático ou outra proposta de espetáculo. Quando as autoras se referem à criação de elementos visuais que compõem um ambiente, as formas plásticas, associa-se automaticamente estas criações à idéia de que há por trás do espetáculo um trabalho envolvendo projetos desenhados do que serão os elementos visuais que compõem as cenas. Ou seja, há a necessidade de esforços envolvendo criatividade para a concepção de desenhos de objetos de cena e cenários, com a finalidade de complementar e trazer maior exatidão à mensagem que se quer passar com o espetáculo ou produção áudiovisual. Segundo Mantovani (1989, p.12) cenografia hoje é um ato criativo aliado ao conhecimento de teorias e técnicas específicas que tem a priori a intenção de organizar visualmente o lugar teatral para que nele se estabeleça a relação cena/público. Organizar visualmente é uma expressão que remete diretamente à área de design. Pois se entende que um designer deve projetar de maneira a agradar o seu público alvo, preocupando-se, em grande parte, com o aspecto visual de suas concepções. Mas existe um diferencial claro, no caso de um projeto cenográfico, em relação ao público alvo. Um produto projetado para ser produzido em série, tem como seu público alvo os usuários dos produtos, no caso de um projeto executado especificamente para o palco, o público alvo são supostamente os espectadores, e obviamente a equipe de direção e produção do espetáculo.

19 18 Logicamente, o envolvimento maior ou menor da produção de objetos de cena e cenário, vai estar diretamente relacionado ao custo da produção. E os materiais podem ser os mais variados. Como se percebe nesse trecho: Em cenografia não existem limites. Tudo pode ser feito desde que a produção possa acompanhar, principalmente com o orçamento. Qualquer material pode ser usado. Papel, pano, madeira, plástico, isopor, etc. (BORGES, 1987 p. 9) Ainda, de acordo com Mantovani (1989, p. 6): A cenografia, o figurino, a luz e, de certa forma, o ator, são elementos visuais do espetáculo. A cenografia pode ser considerada uma composição em um espaço tridimensional o lugar teatral. Utiliza-se de elementos básicos, como cor, luz, formas, volumes e linhas. Sendo uma composição, tem peso, tensões, equilíbrio ou desequilíbrio, movimento e contrastes. [...] Não podemos confundir cenografia com decoração. Cenografia é um elemento do espetáculo (teatral, cinematográfico etc.), e decoração é sinônimo de arquitetura de interiores. Mantovani (1989, p. 6) também explica que cada um dos espetáculos mencionados cinema, ópera, balé etc. é diferente, tem proposta e objetivos diferentes, possui uma linguagem específica. Assim, como elemento desses espetáculos, a cenografia também tem propostas e objetivos adequados a cada espetáculo. No caso deste trabalho, deve-se lembrar que o que será focado são as relações entre design aplicado à cenografia e objetos de cena, adequado às propostas e objetivos próprios do teatro e do cinema. CENÓGRAFO No trecho do livro Introdução à Cenografia, a seguir, se tem uma descrição das áreas nas quais a autora Rita de Cássia Borges entende que um cenógrafo deve ter formação:

20 19 Um cenógrafo é um ator-plástico. Tem formação de pintura, escultura, fotografia, desenho de figurino, de marcenaria, de adereço, de iluminação, de arquitetura, de filosofia, sociologia, dramaturgia, interpretação, história e política. Cultura geral. (BORGES, 1987, p. 9) E a descrição de Anna Mantovani, em seu livro Cenografia : Ele conhece teorias e técnicas específicas como, por exemplo, história da arte e do espetáculo, desenho, pintura, escultura, modelagem, composição cenotécnica, entre outras. (MANTOVANI, 1989, p. 13) Se for considerado que em um curso de design de produto se estuda fotografia (que inclui iluminação), desenho técnico, prática de oficina (marcenaria e metais), resistência dos materiais, modelagem (maquetes), história da arte, entre outras disciplinas e matérias com relações muito próximas das que as autoras se referem, pode-se supor que um designer de produto deve estar, se não totalmente dentro, pelo menos muito próximo do perfil necessário para executar a função de cenógrafo. É ainda a autora de Introdução a Cenografia quem descreve aspectos e características que envolvem o trabalho de um cenógrafo: Numa produção, trabalha como um ator. Participa das análises do texto junto com todos. Adquire a visão clara do diretor em relação ao espetáculo. Faz um levantamento de pesquisa em relação ao texto, de história, política e economia. Toma conhecimento do espaço cênico e do limite do orçamento da produção. Elabora estudos desenhados e acompanha os ensaios. Sua idéia amadurece junto com as idéias do diretor. Após a idéia finalizada, desenvolve a execução e montagem junto com a equipe técnica: o iluminador, o carpinteiro, o contra-regra, o cenotécnico, o aderecista, o maquinista. Apresenta suas idéias finalizadas em desenho de projeto, em planta baixa, perspectiva, cortes, detalhes, etc, e em maquete. Segue-se a execução, com sua administração. As montagens, os ensaios, o ensaio geral e a estréia. [...] O trabalho do cenógrafo finaliza-se na estréia, mas ele permanece no palco e no espetáculo, não com a sua pessoa, mas com o seu personagem plástico. (BORGES, 1987, p. 9, 10)

21 20 E a autora Anna Mantovani explica: O cenógrafo é o profissional que adquiriu conhecimentos que lhe permitem criar a cenografia. [...] Uma vez convidado a fazer parte de uma equipe, o cenógrafo deve entrar em contato com os outros profissionais, se inteirar do trabalho. Passará depois a estudar e analisar a proposta ou texto dramático, para iniciar uma pesquisa antes de criar a cenografia. Esboçará e desenhará a sua proposta até a execução dos cenários. Essa fase, dependendo do que sejam os cenários, necessita de outros profissionais para ser executada. Este processo de trabalho é genérico, pois cada profissional e equipe estabelece o seu. (MANTOVANI 1989, p. 12, 13) Percebe-se com estes exemplos o grau de interatividade e multidisciplinaridade que envolve os esforços de uma produção, colocando assim o perfil do designer muito próximo das características necessárias para este tipo de trabalho.

22 21 1 DESIGN NO TEATRO 1.1 INÍCIO DO TEATRO Sobre as origens do teatro, Borges (1987) explica que começou com cerimônias religiosas em que se fazia louvor a BACO (Deus do vinho). Faziam parte do espetáculo a música, a dança, pessoas vestidas de animais, coro, etc. E Borges (1987, p. 5) ainda menciona: Mas, segundo Aristóteles, só podemos considerar mesmo teatro, quando o que está sendo encenado é algo um pouco mais afastado da realidade. Aquelas cerimônias eram firmemente desenvolvidas dentro de um roteiro de realidade. Ou seja, Aristóteles se referia ao verdadeiro teatro como aquele que fosse a encenação de um mundo imaginário, fantasioso, diferente da interpretação da realidade. Esse aspecto exige esforços na elaboração de produções no sentido de que as apresentações possam ser feitas de maneira que remetam os espectadores à ambientação diferenciada, imaginada pelo autor. Borges (1987) afirma que as primeiras montagens de teatro começaram na Grécia, 50 anos AC, onde já se escreviam textos, havia dramaturgos, atores, músicos, etc. Naquela época eram praticados dois tipos de espetáculos: a comédia e a tragédia. Esses espetáculos tinham estórias onde aconteciam cenas com final feliz ou trágico, com personagens de família, de políticos e de deuses. Os espaços onde eram encenados não eram templos. Já eram espetáculos encenados por atores e não por sacerdotes. Eram construídos espaços arquitetônicos específicos para os espetáculos. E até hoje ainda existem ruínas dessas construções. Eram adaptadas nas encostas dos morros em forma circular, o que possibilitava uma excelente acústica.

23 22 Nota-se também que, já naquela época, existia uma preocupação com as máscaras utilizadas. De acordo com Borges (1987), as máscaras utilizadas pelos atores continham efeitos acústicos. Borges (1987, p. 6) explica que, Os temas apresentados eram sempre relacionados aos problemas sociais que eles enfrentavam. [...] Informando, divertindo e educando, o teatro foi uma fonte de educação para a população grega. [...] Temas de heróis; o bem e o mal; lendas de ancestrais; guerras, rixas, casamentos e adultérios, destino de suas crianças, quem sofria de doenças e conflitos entre homens e deuses, crianças e parentes. [...] Organizavam-se grandes produções e festivais. Os trabalhos eram qualificados pelo governo e sempre um nobre custeava a produção de seu grupo. Mas os atores eram pagos pelo Estado. Assim pode-se ter uma idéia da complexidade dos trabalhos envolvidos no início das produções teatrais. Borges (1987, p. 6) ainda menciona vagamente aspectos da produção, como figurinos e cenários: Eles usavam figurinos, que era o mesmo da época, tendo especiais para os deuses, que misturavam com corpos de animais. Os cenários eram sempre os mesmos. Cenas fixas internas e externas de sua arquitetura, com algum complemento de tecido e plantas. Nota-se que já no início do Teatro havia uma preocupação clara com a ambientação cenográfica, o visual dos personagens, da apresentação como um todo. Mas essas características do teatro foram modificando-se com o tempo, de acordo com cada época BREVE HISTÓRICO DA CENOGRAFIA TEATRAL De acordo com Mantovani (1989), a cenografia existe desde que existe o espetáculo teatral na Grécia Antiga, mas teve um significado diferente em cada época, de acordo com a proposta do espetáculo teatral. Como toda arte, o Teatro

24 23 também é intimamente relacionado com o meio social onde surge, e se define de acordo com o pensamento de cada época. Ou seja, o Teatro e a cenografia da Grécia Antiga são diferentes dos de Roma, da Idade Média, do Renascimento e do Barroco. Sobre aspectos do cenário em diferentes períodos: Antiguidade O cenário na Antiguidade era fixo, tinha poucos elementos e servia de ornamentação para a cena. Na Idade Média, adquire um caráter místico e religioso, como o próprio Teatro: representava um lugar o céu, a terra, o inferno onde o ator ia atuar. O espetáculo nesse período foi apresentado primeiro nas igrejas e posteriormente nas praças. (MANTOVANI, 1989, p. 14) Renascimento O Renascimento na Itália trouxe os cenários construídos em três dimensões. Eram pintados utilizando-se a técnica da perspectiva central e recriavam paisagens urbanas ou campestres, acompanhando o tipo de encenação (tragédia, comédia ou sátira). [...] Na Inglaterra o Renascimento trouxe a cena elisabetana, onde o cenário construído é permanente, e nele podem ser acrescidos alguns elementos cênicos adequados à encenação. (MANTOVANI, 1989, p. 14) Barroco No Barroco a perspectiva usada é a oblíqua, os cenários construídos em três dimensões, como no Renascimento, são extremamente ricos em detalhes grandiosos. O palco passou a ser uma caixa de mágica e de truques. Deixar o público maravilhado era a principal função cenográfica. (MANTOVANI, 1898, p. 14) Mantovani explica que (1989) as transformações acontecidas a partir da Revolução Francesa, mudam o contexto social e, conseqüentemente, o artista e sua obra. E com a Revolução Industrial ocorrem outras mudanças. Com adventos de novas tecnologias, como o aparecimento da locomotiva e da velocidade, o olhar muda. O panorama artístico é alterado pela fotografia. Com o novo sistema de fábrica, o proletariado surge como uma nova classe social e também muda o

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