LINGUAGEM, TELEVISÃO, ESCOLA E FAMÍLIA

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1 CEFAC CENTRO DE ESPECIALIZAÇÃO EM FONOAUDIOLOGIA CLÍNICA LINGUAGEM LINGUAGEM, TELEVISÃO, ESCOLA E FAMÍLIA PATRICIA MAESTRINI ALLODI São Paulo 1998

2 CEFAC CENTRO DE ESPECIALIZAÇÃO EM FONOAUDIOLOGIA CLÍNICA LINGUAGEM LINGUAGEM, TELEVISÃO,ESCOLA E FAMÍLIA Monografia de Conclusão do Curso de Especialização em Linguagem Orientadora: Mirian Goldenberg PATRICIA MAESTRINI ALLODI São Paulo

3 Resumo A presente pesquisa teve como objetivo estudar a relação entre linguagem, televisão, escola e família no desenvolvimento da criança da era tecnológica e da mídia. Para tanto, buscamos diferentes autores que se aprofundaram neste tema. Verificou-se pela literatura que a televisão tem muito mais aspectos negativos do que positivos, por exemplo, a violência televisiva e as transformações comportamentais como a passividade, a diminuição da capacidade de concentração e atenção e perda do espírito crítico e do raciocínio, as quais devem ser consideradas. Uma importante observação é que realmente a linguagem sofreu alterações devido à influência da linguagem audiovisual, tendo como as principais modificações: redução do vocabulário, desprezo pela escrita, e o envolvimento emocional que está acima do racional e do lógico. Os autores pesquisados acreditam que a família tem papel importante como mediador dos fatos televisivos e o impacto causado nas crianças. Além disso, acreditam que a escola e a televisão não devem se opor, mas serem práticas complementares, para que o processo ensinoaprendizagem seja mais motivador para as crianças da era tecnológica e da mídia. 2

4 Summary This research had as objective the relantionship between language, television, school and family in the child development on the technology age and media environment. For that, some writers that went deeply on this issue, were read. According to the reffered to literature the television s programs have more negative aspects than posititive aspects for example the violency and behavior changes like passivity, concentration and attention capacities impairment, and loss of critical and logical mind, which has to be considered. The most important point is the changing suffered by the language due to audiovisual influence being the main alterations: vocabulary reduction, less attention for writting and the emotion environment beyond the racional and logical mind. The writers researched believe that the family acts as an important element between the television s programs and their influence in children. Besides that they believe that school and television can t be on opposite sides, but be complementary by and together to motivate the children on the teach-learning process. 3

5 Aos meus pais, Marli e Edgard, por fazerem da minha caminhada da vida um passeio feliz. Obrigada pelo amor, pela presença constante, e pela força e coragem nos momentos em que precisei. Obrigada por torcerem e incentivarem meu crescimento pessoal e profissional. Ao Silvano, pelo amor e por torcer pelo meu crescimento profissional. Obrigada pela paciência nos momentos em que precisei. Ao meu sobrinho Enrico, pelo amor e sorriso inocente, mas sobretudo por ter despertado em mim, o interesse por esta pesquisa. 4

6 Agradecimentos conhecimento. À Mirian Goldenberg pela orientação e por compartilhar todo o seu Às amigas de curso do CEFAC pelos nossos momentos de orientação conjunta. carinho. Ao meu pai, pela dedicação na revisão ortográfica, feita com muito momentos. À minha mãe por contribuir de maneira tão especial em diferentes Ao Silvano que sempre esteve ao meu lado, compreendendo e respeitando todos os momentos. Além da ajuda na revisão e no computador quando diversas vezes precisei. Às amigas Daniela Bonini, Daniela Leite Gomes, Andréa Goldberg e Andréa Edo pela cuidadosa correção tão importante na finalização deste trabalho. Às amigas Ana Lúcia Panadés e Karin Senise Martinho que colaboraram com material bibliográfico. deste estudo. À todos que de alguma forma colaboraram para a concretização 5

7 Eles não vêem mais como antes, (o olho de um rapaz aparece aumentado por uma câmara) Eles não ouvem como antes, (um jovem aparece deitado sob uma árvore, com um radinho de pilha no ouvido) Eles não falam como antes, (via-se um jovem de olhar brilhante, falando ao telefone) Eles não aprendem como antes, ( via-se uma classe diante das máquinas de aprender) Eles não comandam mais como antes, (um homem manipulava botões numa mesa eletrônica) Eles não andam mais como antes, (via-se um astronauta dentro de um foguete) ( Montagem audiovisual sobre a nova geração ) 6

8 Sumário Página 1. Introdução Discussão Teórica A Televisão A Televisão e a criança Aspectos positivos e negativos da televisão Principais mudanças causadas pelo audiovisual apontadas como aspectos negativos A violência na televisão A Linguagem A linguagem audiovisual Linguagem audiovisual x linguagem literária Linguagem Atual Escola, família e televisão Considerações Finais Referências Bibliográficas Anexo

9 1 - Introdução Desde o surgimento da televisão, por volta de 1926, vários estudos foram realizados com o intuito de perceber e detectar seus efeitos sobre a população, e as conseqüências trazidas por ela, como mudanças de hábitos e comportamentos. No entanto, hoje em dia, com a evolução das cidades, com o aumento da violência, a falta de espaço físico domiciliar, entre outros fatores, a televisão passou a ser uma forte aliada na vida familiar, principalmente em relação às crianças, que passam horas do seu dia em frente à telinha. As crianças estão deixando de correr, de pular, de realizar atividades físicas espontâneas, porque não se pode mais brincar nas ruas, porque moram em prédios onde, às vezes, não há espaço externo que as possibilite de brincar livremente ou porque as mães trabalham fora, e não há quem as leve até o play ground. Desta forma, as crianças passam muitas horas do dia assistindo televisão, e sabemos que muitas vezes a programação não é adequada para elas. As crianças vêem de tudo, novelas, filmes de terror, programas que mostram somente tragédias, assassinatos, exploração da imagem de deficientes, a violência com sensacionalismo, enfim toda a programação sem exceções. A preocupação é porque as crianças assimilam facilmente o que vêem e ouvem, o que pode ser exemplificado pelo fato das crianças decorarem slogans de propaganda e imitarem personagens. 8

10 Além disso, o tipo de relação comunicativa, se podemos chamar de comunicação, é totalmente passiva, ou seja, são receptoras de informações, publicidades, e de toda programação estipulada e vendida pelas emissoras de televisão. Um dos fatores que incentivou este estudo, por mostrar como as crianças assimilam rapidamente e passam a ser um meio de propagação da informação/propaganda, foi o exemplo de uma mãe que estava repreendendo o seu filho, quando este a interrompeu e disse: - "Isso não é importante, o importante é que o Banco Real dá dez dias sem juros". Outro fator que me despertou interesse é o fato de como as crianças se identificam e assimilam o conteúdo da programação, pois um paciente em terapia, que estava escrevendo uma história, na qual haviam vilões e bandidos, perguntou-me se eu era do "mal", pois ele era, porque nos desenhos que ele assistia, só quem é do "mal se dava bem". É importante refletirmos sobre a televisão, que está cada vez mais ocupando espaço dentro dos lares, e provavelmente ocupará mais ainda, pois as invenções ao redor dela são muitas: coloridas, de muitas polegadas, à cabo, de alta resolução, entre outras. Saliento que desde pequenas, as crianças começam a se habituar com a televisão, em um período importante de desenvolvimento neuro-psicomotor e de linguagem. A linguagem merece uma atenção especial, não só em termos de desenvolvimento, falhas, mas também, no que se refere às influências e estímulos sobre ela. 9

11 Por isso, resolvemos pesquisar a televisão, que é um assunto que não só pais, mas educadores e profissionais que trabalham com crianças, vem se perguntando sobre seus efeitos e repercussões no desenvolvimento infantil, inclusive no desenvolvimento da linguagem. Tratando-se de aspectos tão importantes na vida de uma criança, algumas questões foram levantadas: Que tipo de influência a televisão pode exercer sobre a linguagem infantil? Será que as crianças que assistem muita televisão possuem uma linguagem diferenciada? A televisão pode padronizar a linguagem infantil? Será que não estamos criando crianças teledependentes? Como a criança lida com a programação que assiste? Será que a violência assistida pode influenciar o comportamento infantil? Será que a escola consegue atrair as crianças com a metodologia tradicional? Que adaptações a escola tem que fazer para as crianças não perderem o estímulo de estudar? Será que a escola vê a televisão como rival? Ou a televisão pode ser considerada uma aliada no ensino-aprendizagem? Ou, o quê podemos fazer para diminuir este interesse imensurável pela televisão? Que outras atividades poderão ser propostas? 10

12 Devemos discutir os programas e fatos mais detalhadamente com as crianças, para que elas filtrem melhor as informações que lhe são passadas? Como os educadores devem lidar com os fatos da televisão? A televisão deve ser introduzida na escola? Será que a imagem pode substituir a escrita? Será que a leitura da imagem (linguagem audiovisual) desenvolve como a leitura literária (linguagem literária)? Desta forma, esta pesquisa pretendeu estudar a relação entre linguagem, televisão, escola e família no desenvolvimento da criança da era tecnológica e da mídia. Para tanto, considerando o objetivo desta pesquisa, utilizei da bibliografia sobre o tema, que representa uma fonte estável de informações, para entender as questões levantadas e para buscar evidências que fundamentem as afirmações e declarações utilizadas neste trabalho. 11

13 2 - Discussão Teórica Este capítulo tem a preocupação de discutir cada um dos temas envolvidos nesta pesquisa: a televisão, a linguagem, a escola e a família destacando os aspectos mais importantes, tentando desenvolver a relação existente entre eles A Televisão Todas as culturas têm seus próprios meios de comunicação e transmissão de conhecimentos, mitos e lendas (SIVERSTONE,1994). Antigamente, as pessoas usavam a linguagem oral ou desenho como meio de comunicação. Hoje, com os avanços tecnológicos, a transmissão da cultura é feita em roupas modernas através do meio mais popular, a televisão, que é uma representação através de imagens. É a união do verdadeiro, do imaginário e do real no presente ( BERGER, 1979; SILVERSTONE,1994). 12

14 A televisão como foi citada na revista VEJA (29/07/98) foi inventada em 1926, mas só vinte e seis anos depois, em 1952, é que ela passou a ser utilizada por mais de cinqüenta milhões de pessoas no mundo. As discussões em torno dela são muitas e de diferentes formas. Cohen citado no Livro da Vida (1971) acredita que os programas de televisão influenciam um tipo de conhecimento prejudicial à uma vida social saudável. Por outro lado, Mc Luhan citado no mesmo livro, vê a televisão como o "carro chefe" dos meios de comunicação, que veio para romper os velhos hábitos de pensamento, transformando a visão do mundo e de nós mesmos (p.1825). SILVERSTONE (1994) acredita que através da dimensão mítica da televisão podemos entender a influência dela nas atitudes e comportamentos individuais, capaz de moldar os valores de toda uma sociedade. Em todo o mundo, os maiores índices de audiência são conseguidos através de programas inspirados em lendas folclóricas, heróis, vilões que acabam com finais felizes. Muitas vezes, a audiência se cansa de finais felizes que parecem menos reais, surgindo então, a mídia cômica e satírica, que ridiculariza mitos menores, mas mantém a credibilidade da própria mídia e ajuda o público a adaptar novos valores. O mito, segundo SILVERSTONE (1994), estabelece um mundo de significados culturais, que fazem parte de uma história ordenada, seguindo objetivos definidos pelo homem. 13

15 Nós, homens, somos os produtores de mito, porque construímos nossa História: valores, intenções e aspirações. Muitas vezes, utilizamos o mito para responder algumas questões sobre vida, sofrimento e morte. O mesmo autor complementa que os mitos não se referem ao primitivo, são processos dinâmicos, contínuos que estão localizados em aspectos como: universidade, religião, ciência atual, senso comum, filosofia, imaginação literária, que tentam explicar a evolução universal e projetar o futuro coletivo. A televisão liga todos esses processos com o mundo da cultura cotidiana. SILVERSTONE (1994) acredita que por querer atrair a audiência, ou mesmo para responder as ansiedades humanas e sustentar as crenças e esperanças, a televisão acaba sendo organizada em redes nacionais sobre as tradições culturais nacionais. MORAN (1991) concorda com tal fato, pois a preocupação da televisão é a universalidade, ou seja, deseja atingir o máximo de pessoas, assim acaba transformando ou escolhendo acontecimentos de ampla aceitação. A função principal da televisão é traduzir para o público aquilo que lhe é estranho. Além disso, tem como função "rearranjar" as situações sociais, políticas e econômicas embaralhadas apresentando através de personagens ou programas "uma sabedoria maior e uma síntese de valores acima do conflito bipolar" (SILVERSTONE,1994,p.52). 14

16 O mesmo autor relata que a função mais questionada da televisão é o fato dela transformar as tradições míticas em ideologias. Assim, no momento em que a televisão torna uma visão mundial em natural, toda informação nova será colocada nessa nova estrutura. Na verdade, para SILVERSTONE (1994) não há como negar o poder de influência da televisão, das instituições educacionais e da religião na formação de visões míticas. Mas, conclui, que a televisão e mito são processos ideológicos, sendo a cultura inerente à História humana. Para EURASQUIM et al (1983) o controle ideológico, como também a propaganda e o estímulo ao consumo são objetivos dos meios de comunicação. Em particular, a televisão, segundo MORAN (1991) é um meio de comunicação que conseguiu unir diversão, informação e alimenta o consumo, interligando assim: ficção, informação e publicidade. Os programas de ficção utilizam da realidade versus fantasia, dos estereótipos, e dos mitos amor x ódio, bem x mal, entre outros. A publicidade sem dúvida, utiliza-se de várias formas de sedução, uma linguagem mais elaborada e rica, humor, efeitos visuais e sonoros, que transformam sonhos e necessidades em 30 segundos. É um ciclo de carência x compra, pois sugere soluções através da compra de bens, por isso não podem ser desvinculados da credibilidade, porque estabelecem laços entre os elementos psicológicos e o conhecimento do público que se pretende atingir (MORAN,1991). O mesmo autor faz uma diferença do que é informar e a informação na televisão: informar é recortar fragmentos da realidade e organizá-los através de critérios, enquanto que na televisão poderíamos dizer que informar 15

17 é transformar tudo que é exceção à regra, o excepcional, o que não é rotineiro, o novo. A informação na televisão deveria ser dada isenta de qualquer visão, mas na realidade há parcialidade desde a seleção das notícias, na ênfase dada, na relativização da informação, bem como no modo de apresentá-la: duração, chamadas antes do noticiário, imagens gravadas ou via satélite, efeitos visuais e sonoros. CARMONA et al (1996) levantam algumas questões sobre a televisão, o que é uma boa programação?, a audiência pode ser considerada um meio de julgar a programação?, o telespectador pode dizer não?, violência gera violência?, e alerta que estamos preparando crianças para o amanhã, e que seria necessário dar-lhes parâmetros hoje, para que sejam capazes de escolher, e serem responsáveis amanhã. Ressaltam ainda, que a audiência verifica o que as pessoas estão assistindo dentro das programações oferecidas, mas não pode verificar como elas estão recebendo o conteúdo/ a programação, ou seja, é quantitativa e não qualitativa. 16

18 A televisão e a criança Segundo PORTO (1995) na sociedade moderna, a televisão é assistida pela quase totalidade das crianças, deste modo ela pode ser considerada como uma realidade, e não há como ignorá-la. A mesma autora complementa ainda que a televisão faz parte da família, mantém vínculos constantes, ou seja, participa da vida familiar, e muitas vezes, dependendo da programação e dos interesses, até inibe o diálogo entre os familiares. Portanto, devemos conhecer melhor a televisão e nos conscientizarmos dos significados veiculados por ela, para que possamos evitar eventuais males que porventura possam surgir pelo uso indiscriminado (PORTO,1995). Dessa forma, a programação infantil deve ser bem observada, e devemos defender uma programação de qualidade não só para as crianças, mas para a sociedade em geral (CARMONA et al, 1996; MORAN, 1991). A relação entre a televisão e a infância desperta muita preocupação entre os profissionais que trabalham com as crianças, por isso em 1995, estes profissionais se reuniram para discutir este tema, e das conclusões deste encontro surgiram algumas recomendações que poderão integrar o Estatuto para a Televisão Infantil, que está atualmente em discussão na Europa, mas que terá vigência internacional (CARMONA et al, 1996, ANEXO I). Segundo a pesquisa realizada pela revista VEJA (17/08/98) sobre hábitos e preferências de 1,3 milhão de meninos e meninas, entre 10 e 14 17

19 anos que vivem na Grande São Paulo, em relação à mídia podemos constatar que 91% dos entrevistados preferiram a televisão aos outros meios de comunicação, seguida da revista com 68%, e do rádio com 51% da escolha dos entrevistados. É importante destacar que, ao mesmo tempo que, a televisão reduz oportunidades da criança em estabelecer relações, não requer participação dela, limita a criança à um determinado espaço e exclui a atividade física essencial para o seu desenvolvimento. É assistindo televisão que a criança passa mais horas, desde o início de sua vida consciente, numa fase de desenvolvimento mental e físico, e formação de hábitos e atitudes (EURASQUIM et al 1983). Os mesmos autores relatam que as crianças que já nascem com televisão em casa ficam mais vulneráveis à se tornarem teledependentes, ou seja, é aquela criança que passa a maior parte do seu tempo assistindo televisão. Hoje em dia, é muito mais fácil a criança se tornar um teledependente, favorecida pela vida moderna, correria, falta de espaço externo, além de ser, de certa forma uma opção barata de entretenimento. BALTAZAR (1991) relata que alguns estudos norte-americanos concluíram que o hábito de assistir televisão pode prejudicar o desenvolvimento cognitivo da criança, uma vez que oferece uma aprendizagem aparentemente facilitada, com estímulos que sensibilizam a audição e visão, mas que não facilitam processos mais complexos que exigem da criança por exemplo, elaboração e noção de tempo. De acordo com NETO (1993) as estatísticas provam que uma criança que nasce hoje, quando estiver jovem, terá despendido mais tempo 18

20 vendo televisão do que realizando qualquer outra atividade, com exceção das horas de sono. Nos países industrializados na escala de atividades que os estudantes realizam, assistir televisão ocupa o segundo lugar (FERRÉS,1996). Segundo estimativas norte-americanas, as crianças em fase préescolar são as que mais assistem televisão, em média 26 horas e 54 minutos por semana. Na Espanha, a média é de 20 horas semanais (EURASQUIM et al, 1983). Alguns estudiosos condenam a televisão como sendo perniciosa para a criança, mas será que não estão confundindo os programas inadequados com o veículo em si, a televisão? (Livro da Vida, 1971) Pode ser que sim, no entanto temos que pensar como CARMONA et al (1996) que ressaltam o fato das crianças se envolverem de forma diferenciada com os programas de televisão, diferente de como os adultos acham que deveria ser. Na verdade, temos que diferenciar dois processos: recepção e percepção. Recepção é o processo pelo qual recebemos algo, ou seja, reagimos a partir do momento que recebemos os estímulos. No entanto, "percepção é o processo pelo qual tomamos consciência imediata de objetos e fatos e suas relações num dado contexto". A percepção depende não apenas dos nossos sentidos, mas também dos interesses pessoais, assim a percepção é sempre uma interpretação subjetiva de um fato (BALTAZAR,1991, p.14). Para a mesma autora, enquanto os adultos utilizam de toda a percepção (emocional e racional) para analisar fatos e pessoas, as crianças 19

21 não utilizam, pois dependem muito ainda de sinais concretos. A preocupação maior é sabermos como e quando a criança consegue distinguir o que real e o que é pretendido como real na televisão. A criança pequena não distingue ficção de realidade, os fatos são tão reais para ela como seu próprio pai, por exemplo. Além disso, se identificam com personagens e situações não conseguindo ter o distanciamento que o adulto consegue ter (Livro da Vida, 1971). BALTAZAR (1991) acredita que a criança sente dificuldade em diferenciar o que é real e o que é fantasia, embora esteja em pleno desenvolvimento cognitivo, pois a televisão não apresenta a fantasia de modo diferente da realidade, tudo é espetáculo. No Livro da Vida (1971) foi destacado que a preferência das crianças por filmes de aventuras ou histórias de fantasia advém do fato que elas "participam" dos enredos de sua imaginação, pois a primeira atitude é relacionar-se com as histórias. Para PORTO (1995) a magia apresentada nas histórias vem ao encontro das fantasias da criança, o que proporciona à ela segurança, e ao mesmo tempo catarse, assim pode se envolver com os personagens de forma que seus sentimentos, desejos, emoções possam aflorar. A mesma autora complementa que a televisão, apresentando um mundo encantando para o telespectador onde tudo é possível, pois relaciona o real com a fantasia, e dessa forma, lida com valores, conceitos, e desperta interesses, faz com que o indivíduo impossibilitado de realizar seus desejos, consiga transpor essa impossibilidade para as histórias que vivencia na televisão. 20

22 Isto quer dizer que, a percepção também está relacionada com a auto-imagem, ou melhor, a "imagem refletida no espelho da tv". Devemos pensar como a televisão pode influenciar a identidade da criança através de como ela percebe os personagens e os fatos transmitidos (BALTAZAR, 1991, p.18). BALTAZAR (1991) destaca que em diversas etapas do desenvolvimento infantil, a família e a escola são modelos ideais de valores e atitudes, mas quando estes agentes primários apresentam-se de forma contraditória, os agentes secundários, como a televisão, tornam-se os modelos a serem seguidos e, portanto, desempenham função na formação da identidade da criança 1. Da mesma forma, temos que pensar que a televisão pode estar influenciando a criança a ter uma visão preconceituosa de certas raças ou crenças, uma vez que a televisão faz questão de neutralizar as diferenças. Assim, o papel dos pais e da família é primordial, uma vez que eles devem ser mediadores da televisão e também amenizar os conflitos que a criança porventura possa estar sofrendo. (BALTAZAR,1991). Desde o surgimento da televisão, os programas infantis são fantasiosos. Dessa forma, surge uma nova questão: a preferência por programas de ficção é natural da criança, ou a televisão é que impôs um tipo de escolha? (Livro da Vida, 1971). Na primeira fase da infância, a criança tem necessidade da fantasia, da imaginação, pois o mundo ainda é cheio de mistérios, medos, e essa 21

23 fantasia auxiliará a criança a lidar com seus medos, angústias, conflitos pessoais (Livro da Vida,1971). 1. Os agentes socializadores dividem-se em : agentes primários e agentes secundários. Os agentes primários são aqueles que fornecem informações sociais: fatos, valores, idéias. São agentes primários os pais, família, escola, e instituições religiosas. Nos agentes secundários incluímos todos os meios de comunicação de massa. São os agentes que fornecem informações que podem prover e contribuir para a informação da pessoa, mas não podem transformá-la em ação. Como foi citado anteriormente, o mito faz parte da narrativa televisiva, pois trata de aspectos relativos à vida, morte, entre outros. Para BALTAZAR (1991) o mito também é utilizado na programação infantil, é através da fantasia que os mitos se transformam em espetáculos infantis. Nossas dúvidas e angústias são representadas pelos monstros, que lutam para libertar a consciência do consciente. Os bandidos representam todos os perigos, obstáculos que devemos ultrapassar na vida. Além disso, nas programações infantis encontramos muitos animais humanizados, ou animais que vivem igualmente ao homem, por exemplo, o Scooby Doo. A mesma autora destaca que a televisão não só exerce a função de aliviar angústias como também exerce a função educativa, e cita que quando a criança observa animais rebeldes, com atitudes inconseqüentes, que são levados a sua jaula, pode inferir uma reflexão na criança sobre seu próprio comportamento e que conseqüências isso pode acarretar. CARMONA et al (1996) recomendam que a programação infantil deve investir na "pluralidade de linguagens, riqueza e variedade de gêneros 22

24 e conteúdos", principalmente em aspectos que favoreçam o desenvolvimento das crianças. Não é demagogia, mas temos que pensar que um dia crianças já viveram sem televisão, e temos que encarar que houve sim uma transformação na infância regida pela televisão (EURASQUIM et al,1993). FERRÉS (1996) concorda com o fato de que a televisão está conduzindo o desaparecimento da infância, uma vez que oferece de forma indiscriminada a informação antes só reservada aos adultos. Segundo o mesmo autor, outras modificações também estão ocorrendo, como a modificação dos processos mentais, a linguagem, e a primazia do aspecto sensitivo sobre o intelectual Aspectos positivos e negativos da televisão MORAN (1991) destaca que a capacidade que a televisão tem de estabelecer relações agradáveis, sedutoras e envolventes, não pode ser explicada só pela tecnologia, mas pela facilidade que essa indústria tem de captar as necessidades e anseios do público. Deslumbra, fascina, diverte, e manifesta sua força de apresentar e representar o mundo. O poder de fascínio da televisão pode ser explicado pelo fato dela cumprir todas as funções de um espetáculo, ou seja, o telespectador tem gratificações sensoriais, mentais e psíquicas (FERRÉS,1996). O autor citado acima revela que as gratificações sensoriais acontecem pelos estímulos sonoros e visuais fornecidos pela televisão, além 23

25 disso, pelos personagens sedutores que aparecem, cenários exóticos e de luxo, e objetos ou fatos atraentes como: roupas, jóias, festas, entre outros. FERRÉS (1996) complementa que as gratificações mentais acontecem porque a televisão utiliza-se de fábulas e de fantasias, que é uma necessidade fundamental, desde os primórdios da humanidade, quando os homens se reuniam em volta de fogueiras para contar histórias. Finaliza abordando as gratificações psíquicas que acontecem por dois mecanismos psicológicos, pelos quais o telespectador se integra com o espetáculo: identificação e projeção. A identificação acontece quando o telespectador considera o personagem como reflexo da sua própria vida. No entanto, a projeção é produzida quando o telespectador coloca seus sentimentos nos personagens: ódio, desejo, compaixão... No audiovisual o prazer aumenta, porque as gratificações psíquicas ocorrem sem que o telespectador corra algum risco, assim ela participa de situações perigosas, sofre perdas,..., e acaba com um final feliz (FERRÉS,1996). Mas, o prazer ou o desprazer de um programa acontece pelo envolvimento emocional do telespectador, para que um programa seja agradável deve satisfazer as necessidades conscientes e inconscientes das pessoas. FERRÉS (1996) conclui que a televisão é o espelho da pessoa, pois quando se escolhe um programa ou um ídolo, está manifestando suas idéias, interesses, esperanças,... No entanto, ocorre aí um paradoxo, se o telespectador assiste à televisão para fugir de si mesmo, pode acabar se encontrando na tela, mesmo que de forma inconsciente. Quando o telespectador avalia um programa, está refletindo sobre ele mesmo. 24

26 Além das gratificações sensoriais, mentais e psíquicas, Ferrés (1996) destaca outro fator positivo, como o fato de que na televisão a informação não tem fronteiras, assim, possibilita um envolvimento maior do telespectador com o mundo. PORTO (1995) acredita que a grande parte da população só tem acesso ao mundo pela televisão, e isto está provocando uma mudança nos conhecimentos e percepções do mundo. Outro aspecto positivo apontado por EURASQUIM et al (1993) é que a televisão é uma opção barata de entretenimento. Contudo, como foi discutido anteriormente, citado por BALTAZAR (1991), a televisão tem como função não apenas o entretenimento, mas tem uma função educativa, que não podemos deixar de considerar como um aspecto positivo da televisão. Há uma polêmica entre os autores, enquanto que para BABIN & KOULOUMDJIAN (1989) a televisão evidencia desigualdades entre as crianças, para FERRÉS (1996) a televisão produz igualdades. Os primeiros autores defendem essa opinião, pois a criança que recebe em casa uma linguagem mais elaborada, tem mais facilidade de entender a linguagem televisiva, aquela que não tiver vai ter que se arranjar. Para FERRÉS (1996) a televisão produz igualdade entre as pessoas, uma vez que transmite tudo à todos, não limitando a experiência a ninguém. Por outro lado, são inúmeros os aspectos negativos destacados pelos autores, como a hiperestimulação sensorial destacado por FERRÉS (1996) que acontece pela aceleração cada vez maior de mudanças de imagens. O telespectador acaba se habituando com esse ritmo, quando não há mudanças, torna-se monótono. Consequentemente, provoca mais um 25

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