LIVE CINEMA É CINEMA? RESUMO

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1 1 LIVE CINEMA É CINEMA? Guilherme Malo Maschke 1 RESUMO Live cinema é um conceito amplo e significa variadas formas de produção audiovisual. A intenção desse artigo não é buscar um conceito final e preciso para o termo. Ao contrário, visamos mostrar as problemáticas estéticas e conceituais que encontramos ao estudar esse objeto. A produção de live cinema está associada a um desenvolvimento tecnológico, em especial dos microcomputadores, que permitem esse tipo de processamento de imagens em tempo real. Visamos delimitar o que pode ou não ser live cinema, assim como sua relação com o cinema, em especial com as experimentações estéticas das vanguardas do século XX. PALAVRAS-CHAVE: Live cinema. Live eletronics. Performance. Vanguarda soviética. Música eletroacústica. 1. INTRODUÇÃO Entre as mudanças que a tecnologia eletrônica e a informática geraram na vida humana, ressalta-se, no campo filosófico e estético, uma em especial: a relação com a arte, tanto na sua produção, como na sua percepção e possibilidade de divulgação. O século XX foi turbulento por suas vanguardas, guerras, expansão e consolidação de uma indústria cultural, crise dos grandes discursos utópicos, movimentos totalitários e tantos outros eventos. Nas artes as vanguardas aparentemente esgotaram as experimentações das linguagens, e com os avanços tecnológicos se consolidaram novas mídias, tal qual, o cinema e mais tardar, o vídeo. Dentro de áreas ou formas de artes milenares, a tecnologia criou seu impacto, transformando maneiras de apreciar. No caso da música, as experimentações com mecanismos de gravação e reprodução sonora abrem caminho pra música concreta. A eletrônica abre caminhos para produção de sons através de mecanismos puramente técnicos, gerando a música eletrônica. Diante desses experimentos criam-se novos 1 Graduando do Curso de Filosofia pela Unisinos.

2 2 problemas estéticos: alguns mais banais, outros radicais e que geram discussões até os dias de hoje. As formas de audição da música eletrônica/concreta alteram radicalmente a maneira de apreciar a música. Também altera o objeto sonoro, não sendo mais os instrumentos tradicionais com suas alturas, timbres, etc. O objeto sonora passa a ser os ruídos cotidianos, as ondas senoidais, as filtragens eletrônicas e osciladores. 2. O QUE É LIVE CINEMA? Faço essa breve explicação da música e suas transformações no século passado, pois meu contato com o Live cinema se relaciona com a música eletroacústica. Dentro das experimentações eletrônicas com os sons, existe a modificação e alteração de sons em tempo real, denominado de live electronics music 2. Ou seja, os sons são modificados, repetidos, passam por diversos efeitos em tempo real com o live cinema ocorre o mesmo procedimento. Apesar de um conceito amplo, live cinema representa qualquer intervenção, modificação ou produção de imagens em tempo real. Além disso, em muitos casos são usados softwares semelhantes em uma apresentação de live cinema e live electronics music. Cito o caso do Max/MSP, que foi inicialmente desenvolvido para produção sonora, porém hoje se apresenta como um software muito versátil e é usado para processamento de imagens/vídeos. O termo live cinema designa precisamente produção, mixagem, edição de imagens em tempo real. É um termo bastante amplo, envolvendo variadas formas de produção. Desde projetos usando imagens de arquivo de outros filmes, modificadas e mixadas em tempo real, como produção de imagens em tempo real de forma mais rústica, usando câmera e materiais diversos, se aproximando de um espetáculo ilusionista 3. Também podemos definir live cinema como edição do filme em tempo real. Todavia, o que existe em comum nesses experimentos diversos é o fato de intervirem em tempo real na estrutura narrativa, nas imagens e até mesmo na trilha sonora do filme. Como afirmar Makela (2012), As there are many different genres in live cinema, and as the material can be both abstract and figurative, it is impossible to name just one approach in order to create meaning in a performance. Live cinema performance can be experienced as live painting as well as live montage. 2 BOSSEUR, Dominque e Jean-Yves. Revoluções musicais. Lisboa: Caminho, 1990, p Como no projeto Eile de Yrotto. Disponível em: <http://www.livecinema.com.br/port/135,2935>. Acesso em: 2 dez

3 3 Nessa passagem percebemos a multiplicidade de elementos que o termo live cinema pode significar. Curiosamente, para Mia Makela, live cinema não é cinema, pois não apresenta uma forma narrativa convencional e linear. A estrutura do live cinema é essencialmente não-linear, se aproximando de filmes experimentais e das vanguardas cinematográficas do século XX. Também é importante problematizar a relação de live cinema com VJ s. Entendemos por Vj performances visuais em tempo real, podendo representar efeitos feitos em tempo real para uma apresentação de música eletrônica, como efeitos luminosos ou projeções. Para Mia Makela, a diferença fundamental de ser um VJ e fazer live cinema está no processo de produzir suas próprias imagens. Alguém que produz live cinema, em geral, produz seu próprio material para depois editar em tempo real. Todavia, Vjing e live cinema estão em uma relação estreita, muitas vezes sendo atribuído aos Vj s como precursores ao live cinema. 4 Mia Makela complementa a definição ao dizer que o trabalho do VJ se diferencia do trabalho do artista do live cinema pelo fato de que o primeiro não produz o seu material, trabalhando em cima de material alheio, enquanto que o segundo, em geral, o produz. (COUTINHO, 2012) 3. O QUE NÃO É LIVE CINEMA? Importante destacar que o live cinema se diferencia do cinema interativo. No primeiro, ocorre uma espécie de apresentação onde acontece a projeção de imagens, porém, quem direciona o espetáculo é o diretor, ou alguém que tenha conhecimentos e opere os equipamentos. Já no cinema interativo existe a participação/intervenção do público de forma direta, ou seja, o publico pode direcionar os acontecimentos do que se passam na tela. Um elemento essencial do live cinema é a performance; as apresentações de live cinema se dão como um show. Vemos as pessoas trabalhando em seus laptops, assim como a tela onde mostram os seus resultados. Também é comum ter música feita por um DJ em tempo real ou por uma banda. Isso destaca sua característica de baixa interatividade, porém, trata-se de um acontecimento único e impossível de repetir. Esse 4 Conforme descrição feita no site do festival de live cinema. Disponível em: <http://www.livecinema.com.br/artigo/77>. Acesso em: 2 dez

4 4 elemento do live cinema é precisamente interessante, pois mostra uma ruptura com a produção padronizada do cinema industrial. Vemos isso como uma possibilidade de pensar um cinema não industrial, que pode ser único em cada apresentação, quebrando com a própria essência do cinema como uma produção audiovisual padronizada. Mia Makela apresenta uma concepção interessante ao defender que live cinema não é cinema. Pois, não apresenta uma história linear, nem mesmo é baseado em falas e em atores. Ademais, Makela defende que a linguagem do cinema e do live cinema não são a mesma, apesar de apresentaram certa semelhança em alguns pontos, live cinema acaba por desenvolver uma linguagem própria que é dividida em três elementos: montagem, composição e efeitos visuais. A montagem é o elemento constituinte do cinema, sendo basilar nas experimentações das vanguardas do cinema Russo. Makela faz referência a essas experimentações como começo ou, inicio do live cinema. Como esclarece a autora: Eisenstein s montage techniques could also be seen as the beginning of VJing. The way he used sound as the basis of the visual montage is how contemporary live visuals are often presented (MAKELA, 2012). Percebemos, apesar de defender live cinema is not cinema (MAKELA, 2012), que as vanguardas trazem elementos de experimentação que estão fortemente presentes nos trabalhos atuais de live cinema. Dessa maneira, o live cinema se relaciona com os elementos mais radicais e técnicos do cinema, como a montagem, composição de imagens e utilização de efeitos, distanciando-se do cinema comercial e, de outro lado, aproximando-se do cinema de vanguarda soviético. Apesar de não poder ser considerado cinema, o live cinema é constituído pelos elementos centrais da técnica do cinema, mostrando, antes de uma ruptura com o cinema, uma continuação nos processos de experimentação de imagens em movimento. O caso de Peter Greenaway também é interessante para pensar o live cinema. Peter Greenaway levanta Eisenstein como um grande nome do cinema, ou como um dos únicos que fez cinema, por suas experiências estéticas. Greenaway (2012) também representa o live cinema em seu projeto Tulse Luper VJ Tour, apesar das declarações apocalípticas com o cinema, Greenaway parece continuar fazendo cinema. Porém, suas proposições provocativas mostram seu esclarecido desprezo pelo cinema mainstream. De outro lado, a morte do cinema parece mostrar que algo novo está surgindo das cinzas dessa velha mídia industrial.

5 5 De forma mais especifica, Greenaway defende o que vimos até agora de texto ilustrado e não cinema. O diretor inglês parece preocupado com uma linguagem própria do cinema e defende que cinema deve criar imagens e não ilustrar histórias. Ambas as concepções de Greenaway e Makela parecem apontar para uma crítica ao cinema mainstream, apontando para uma ruptura com as formas tradicionais do cinema e continuação das experimentações do cinema de vanguarda, entre outras formas de experimentação audiovisual. 4. CONCLUSÃO Apesar de live cinema não representar o cinema tradicional narrativo, existe uma convergência estética com as experimentações das vanguardas da primeira metade do século XX. Assim, o live cinema mantém uma relação com elementos radicais do cinema experimental, como a não-linearidade, montagens complexas, mistura de imagens, imagens abstratas. Em nossa concepção, essa relação mostra a ligação com conceitos basilares da produção cinematográfica, mostrando uma relação de experimentação com as vanguardas, vídeo arte, cinema expandido, e demais experimentação em audiovisual. O live cinema, segundo nossa concepção, trabalha com os elementos mais radicais da produção cinematográfica, qual sejam, montagem, composição de imagens e efeitos visuais. Por certo, essa forma de experimentação resignifica as estéticas do cinema antigo, reconfigurando suas experimentações com a tecnologia atual. Antes de uma ruptura com o cinema, live cinema retoma o cinema antigo e os elementos basilares da linguagem cinematográfica. REFERÊNCIAS BENJAMIN, Walter. Obras escolhidas: v. 1. São Paulo: Brasiliense, BOSSEUR, Dominque e Jean-Yves. Revoluções musicais. Lisboa: Caminho, COUTINHO, Eleonora Loner. O live cinema e o cinema interativo: uma análise a partir do filme Ressaca. Disponível em: <http://www.revistas.ufg.br/index.php/lucianahidemi/article/view/18371>. Acesso em: 2 dez GREENAWAY, Peter. 105 anos de texto ilustrado. Disponível em: <http://www.letras.ufmg.br/poslit/08_publicacoes_pgs/aletria%2008/peter%20greena way.pdf> Acesso em: 2 dez

6 6 LEW, Michael. Live cinema: designing an instrument for cinemaediting as a live performance. Proceedings of the 2004 Conference on new interfaces for musical expression. Hamamatsu, MACHADO, Arlindo. Pré-cinemas & pós-cinemas. Campinas: Papirus, MAKELA, Mia. The practice of live cinema. Disponível em: <http://www.miamakela.net/text/text_practiceoflivecinema.pdf>. Acesso em: 2 dez MANOVICH, Lev. The language of new media. Cambridge: Massachussets Institute of Technology, MENEZES, Flo. Atualidade estética da música eletroacústica. São Paulo: Fundação Editora da UNESP (FEU), 1999.

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