ALÉM DAS PERCEPÇÕES E REPRESENTAÇÕES, A ELABORAÇÂO DO MAPA DAS SENSAÇÕES DA CIDADE DE CURITIBA

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1 ALÉM DAS PERCEPÇÕES E REPRESENTAÇÕES, A ELABORAÇÂO DO MAPA DAS SENSAÇÕES DA CIDADE DE CURITIBA Élio Ricardo Cagnato Bacharel e Licenciado em Geografia Mestrando em Geografia pela Universidade Federal do Paraná RESUMO Instigados por reconhecer que os indivíduos são autênticos e pela hipótese de que com base em suas experiências individuais cada qual tem uma percepção e uma representação diferenciada dos logradouros que frequentam ou visitam, buscou-se interpretar de que forma e através de qual dispositivo as suas escolhas pessoais os levam a selecionar os espaços preferenciais de vivência dentro da cidade. Espacializar ou mapear a forma como as pessoas sentem, percebem, representam e vivenciam os diversos logradouros de uma cidade conduziu esta pesquisa, instigada pela demanda em entender se haveria ainda, nos dias de hoje, algum significado na procura por excitar os sentidos físicos humanos, permitindo que a complexidade das sensações humanas pudesse dar lugar à instintividade destes sentidos e deixasse brotar uma relação de apego, recordação, prazer ou repulsa em estar ou frequentar uma determinada paisagem. O Mapa das Sensações da cidade de Curitiba é um projeto que mostra uma nova forma de experimentar e sentir o que a cidade revela através dos sentidos. É um novo olhar sobre a metrópole, revelando suas diversas nuances por meio do estímulo aos cinco sentidos físicos humanos. Buscaram-se as impressões e declarações que traduziram sons, imagens, gostos, aromas e toques onde visitantes e moradores da capital paranaense sugerem o que pode haver de destaque na cidade por meio da vivência sensorial. Palavras chave: Percepção; representação; sensações; sentidos. 1. INTRODUÇÃO Em um mundo moderno e em uma cidade cosmopolita como a Curitiba do século XXI não é de se admirar que a maioria dos apelos à sensibilidade humana seja traduzida pela aplicação intensa de símbolos visuais, sejam estes de 2

2 advertência, de normatização, de orientação, de mídia comercial e de apresentação da opulência e do poder de uma economia capitalista. A forma como a humanidade se adapta e ao mesmo tempo se conforma, talvez de uma maneira involuntária, demonstra que a evolução e a necessidade de se viver em uma cidade voltada ao progresso e ao desenvolvimento não deixam espaço e oportunidades para a utilização e uso sensível de todos os nossos sentidos físicos. Alguns autores, como Tuan (1980), colocam a visão como o sentido mais importante para os humanos e sugere que a maioria das pessoas, provavelmente considera a visão como a faculdade mais valiosa e preferiria perder a perna ou tornar-se surda ou muda a sacrificar a visão", tentando com isto justificar o caráter eminentemente visual para se apreenderem as paisagens geográficas. Entretanto, para outros, como Milton Santos (1996, p. 61) a paisagem é composta não apenas de volumes, mas também de cores, movimentos, odores, sons, etc.". Sendo assim, apenas uma leitura visual não ofereceria um panorama completo da paisagem e perderia a subjetividade de alguns fatores importantes para agregar significado a uma paisagem que pode estar formada no imaginário social. Para Merleau Ponty (2011), defensor de um mundo fenomenológico, é preciso reconhecer o ser humano como ser-ao-mundo e a consciência (que é sempre de alguma coisa) somente é percebida pelo corpo em movimento: somos ativos no mundo. E para que haja uma perfeita condição de se analisar os resultados da fenomenologia, o mesmo Ponty postula que é necessário se desenvolver a redução fenomenológica ou do grego antigo, epoché. Isto requer a suspensão de atitudes, crenças, teorias, e o conhecimento do mundo exterior - concentração exclusiva na experiência em foco. Ponty acreditava que devemos restringir o conhecimento ao fenômeno da experiência da consciência e à visão do mundo que o indivíduo tem. Assim, nota-se que não existe objeto sem sujeito, pois para que percebamos as coisas é preciso que as vivamos (MERLEAU-PONTY, 2011, p. 436). É através da percepção, portanto, que o mundo no qual é possível a disposição das coisas ganha sentido e forma. Contudo, isso ocorre por meio da representação, que é uma função simbólica e objetivante dada pela consciência individual a partir da relação entre o corpo e o ambiente. Apesar de somente ser 3

3 possível a representação de coisas passíveis de percepção, é aceitável que possa ser feito o exercício mental de percebê-las. Quantos de nós podemos resgatar algumas lembranças importantes que estão em nossas memórias e que somente quem as experimentou, através dos vários sentidos pode resgatar na memória? Onde buscamos, por exemplo, o perfume de uma florada em um pomar de laranjeiras e outros cítricos que mais tarde transformavam-se em frutas e eram saboreadas sorvendo-se o seu suco azedoadocicado? Isto pode hoje ser experienciado e resgatado, muitas vezes, apenas em uma banca de feira livre ou nas prateleiras do Mercado Municipal. E o som de um ambiente mais tranquilo, que não esteja poluído pelos ruídos dos diversos tipos de veículos que infestam as grandes cidades, inclusive nos horários e dias reservados para o descanso e lazer, poderia ser encontrado nos parques e áreas verdes? Conforme Kozel (2007), o espaço não é somente percebido, sentido ou representado, mas também vivido. As imagens que as pessoas constroem estão impregnadas de recordações, significados e experiências. Teria ainda, nos dias de hoje, algum significado a procura por excitar os sentidos físicos humanos, permitindo que a complexidade das sensações humanas pudesse dar lugar à instintividade dos sentidos físicos e deixasse brotar uma relação de apego, recordação ou prazer em estar ou frequentar uma determinada paisagem? Seria possível espacializar ou mapear a forma como as pessoas percebem e vivenciam as diversas paisagens de uma cidade? O Mapa das Sensações de Curitiba é um projeto que mostra uma nova forma de experimentar e sentir o que Curitiba tem de interessante. É um novo olhar sobre a metrópole, revelando suas diversas nuances por meio do estímulo aos cinco sentidos físicos humanos. Buscamos impressões e declarações que traduzem sons, imagens, gostos, aromas e toques para que visitantes e moradores da capital paranaense sugerem o que pode se destacar em termos de logradouros da cidade, por meio da vivência sensorial. Tivemos por objetivo identificar, analisar e mapear diversos lugares de Curitiba, com uma forma de apreensão mais detalhada, revelando a possibilidade de 4

4 se experimentar lugares geográficos, com base nas impressões e sensações que nos chegam através dos sentidos físicos. Como produto, propomos uma representação cartográfica, o mapa das sensações, acompanhado por uma gravação de áudio indicando as paisagens apontadas. 2. FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA A afinidade e a ligação que o ser humano tem com o espaço onde vive ou frequenta, revela de que maneira o meio ambiente é percebido e selecionado através de experiências vividas ou sensações gravadas no seu íntimo para ter relevância, tanto com o sentimento de atração como o de repulsa. Quando nos reportamos às paisagens, é imprescindível considerarmos também a dimensão simbólica conforme apontam alguns autores. As paisagens tomadas como verdadeiras de nossas vidas cotidianas estão cheias de significado. Grande parte da Geografia mais interessante está em decodificá-las. [...] Porque a geografia está em toda parte, reproduzida diariamente por cada um de nós. A recuperação do significado em nossas paisagens comuns nos diz muito sobre nós mesmos. Uma geografia efetivamente humana crítica e relevante, que pode contribuir para o próprio núcleo de uma educação humanista: melhor conhecimento e compreensão de nós mesmos, dos outros e do mundo que compartilhamos (COSGROVE, 1998, p. 121). Culturas e tradições de raças e povos também interferem na maneira como o mundo pode ser percebido. As questões de gênero humano, masculino ou feminino; de origem, visitante ou nativo; de fisiologia da espécie humana em suas aparências e estruturas; o desenvolvimento físico desde a idade de infante até a velhice; o imaginário e o irreal, e as mudanças de atitude ambiental durante a vida conduzem às sensações e preferências para estabelecer a ligação do ser humano com um lugar. Além disso, "a compreensão do espaço local torna mais fácil o estudo de qualquer outra área, pois é nele onde estão as referências pessoais e os valores, o 5

5 que permite estabelecer analogias e aguçar o grau de reflexão" (KOZEL, 1999). Estas hipóteses ganham significado com a seguinte indagação: Por que os indivíduos e os grupos não vivem os lugares do mesmo modo, não os percebem da mesma maneira, não recortam o real segundo as mesmas perspectivas e em função dos mesmos critérios, não descobrem neles as mesmas vantagens e os mesmo riscos, não associam a eles os mesmos sonhos e as mesmas aspirações, não investem neles os mesmos sentimentos e as mesmas afetividades? (CLAVAL, 2001b, p. 40). Encontrar na geografia ou nos estudos geográficos uma justificativa para entender de que maneira a relação do ser humano acontece com o espaço e de que forma este seleciona as suas paisagens preferidas se torna uma instigante questão, uma vez que uma determinada paisagem pode ter grande significado para alguém, ao mesmo tempo pode ser insignificante para outrem com percepções sentimentos e sensações diferenciadas. De uma maneira geral, as paisagens são apreendidas e mencionadas de acordo com a interação com o ambiente, a partir do visível. Entretanto, ao se perceber apenas o visível das paisagens perde-se um conjunto de importantes estímulos capazes de sensibilizar os outros sentidos. Para Claval (2001a), os lugares estão carregados de sentido para aqueles que os habitam ou que os frequentam. Conforme Tuan (1980), os lugares fornecem estímulos sensoriais que dão forma aos ideais humanos. Ele ressalta que "aguçar os sentidos permite ao ser humano experimentar sentimentos mais intensos pelo espaço geográfico e nesse caso maior respeito pelo ambiente onde vive" e ainda, segundo o mesmo autor, os seres humanos registram as sensações do mundo através de um equipamento biológico muito evoluído que se utiliza dos sentidos físicos. Graças aos órgãos sensoriais, que podem variar em grau de importância dependendo da cultura, pode-se perceber o ambiente e coletar experiências. Ao se considerar que a atenção dada a determinada paisagem se transforma em significância e permite ao ser humano selecioná-la como registro, Condillac (1993) afirma que ao nos fixarmos em um objeto, da mesma maneira que lhe concedemos atenção, dele recebemos a própria atenção que lhe concedemos. Esta possibilidade se reafirma quando Kozel e Torres (2010) ressaltam que "cada paisagem é produto e produtora da cultura, e é possuidora de formas, cores, 6

6 cheiros, sons e movimentos que podem ser experienciados por cada pessoa que se integra a ela, ou abstraído por aquele que a lê através de relatos e/ou imagens". Assim, a capacidade de sentir do ser humano divide-se entre passado e presente, ou seja, as sensações vividas constantemente são retomadas através das lembranças e da memória. A maneira como o ser humano utiliza os seus equipamentos sensórios está ligada à importância que cada espaço ou paisagem significam no seu dia a dia. O sentido do olfato está constantemente associado à memória de aromas, perfumes e odores, bons ou maus, e se distribui entre ambientes internos e externos que podem estar em recintos fechados ou abertos percebendo-os, por exemplo, em praças, jardins ou logradouros do cotidiano urbano. Pitte (1998), em sua obra, considera que a geografia dos odores busca contribuir para o entendimento do ser humano integrado em um ambiente emanante de vários odores como: a localização das atividades humanas sejam agrícolas, comerciais ou industriais, o cheiro dos lugares e a diferenciação dos territórios. Tuan (1980) argumenta que temos a tendência de negligenciar o sentido do olfato e muitas vezes vincular a palavra odor ao mau cheiro, o que pode ser considerado um desperdício se considerarmos a capacidade que os odores têm de transmitir informações e evocar lembranças. Os cheiros são fundamentais à identificação e à orientabilidade dos espaços em uma complementação às informações visuais. Um cheiro de mato pode nos remeter aos campos, área rural, topografia variada, estradas de terra. A audição é uma ferramenta eficaz na percepção à distância e serve de alerta e identificação de determinadas nuances de uma paisagem que podem não ter sido reveladas apenas como o olhar. Schafer (2001) afirma que todo ambiente acústico, qualquer que seja sua natureza pode ser considerado uma paisagem sonora sendo importante ressaltar seu caráter dinâmico de mutação. O impacto sonoro no meio ambiente é analisado por Constantino (2001) ao afirmar que apesar de pessoas e os sons compartilharem o mesmo espaço não existe um registro histórico das ondas sonoras das paisagens, como existe na música, nas partituras e em algumas gravações e que esquecemos que os ambientes urbanos podem e devem ser mais agradáveis e saudáveis e que 7

7 aperfeiçoar a relação do ser humano com o ambiente sonoro melhora a qualidade de vida. Indo além do espectro diário provocado por ondas sonoras dispersas e produzidas de forma aleatória e indiscriminada no meio ambiente, segundo Kozel (2012), a paisagem sonora demanda uma interpretação e um pensamento dentro de um contexto cultural e para tanto, "deve levar em conta a diversidade de sons presentes num lugar, e a relação destes com a cultura e com o lugar. É na paisagem sonora que estão, além dos sons artificiais produzidos pelas máquinas e motores, as línguas, os sotaques e as gírias, e as músicas". O sentido do tato, muitas vezes negligenciado em prol da visão não permite que se utilize da intimidade que podemos ter com os objetos e paisagens. Desde a infância costumamos identificar o mundo em que vivemos com o toque das mãos e dos pés, porém a sensibilidade cutânea pode revelar bem mais do que isto pelas sensações que nos chegam se nos mantivermos atentos. Para Juhani Pallasmaa (2011), todos os sentidos, incluindo a visão, são extensões do tato; os sentidos são especializações do tecido cutâneo, e todas as experiências sensoriais são variantes do tato e, portanto, relacionados à tatilidade. O calor do sol, a umidade transpirada por uma mata, as variações de temperatura, a textura dos diversos objetos, o caminhar por vários relevos. O olhar nos mantém distantes das coisas, porém o toque nos aproxima. Segundo Montagu (1986), empalidecemos de medo, nos arrepiamos de emoção, enrubescemos de vergonha e a nossa pele revela as nossas paixões e emoções. Enfim, experimentar o uso da visão, do tato, da sensação de temperatura, do olfato, da audição, do paladar e uma possível sinestesia entre eles conduz ao propósito de refletir sobre as sensações que as dinâmicas das paisagens podem provocar, atrelando as emoções percebidas às lembranças a que elas possam nos remeter, sendo que para o estudo do espaço vivido considera-se a experiência humana dos lugares. 3. ETAPAS DA PESQUISA A pesquisa se desenvolveu nas seguintes etapas: 8

8 Primeira etapa: levantamento de bibliografia estabelecendo o estado da arte referente ao objeto de estudo e suas inter-relações. Segunda etapa: criação de um sítio, na Internet, para pesquisar os dados relacionados ao objeto de estudo como: indicação dos lugares mais apreciados pelos sentidos; organização dos dados obtidos com a pesquisa empírica. Terceira etapa: pesquisa de campo com o registro de entrevistas da população frequentadora dos locais indicados na etapa anterior, registrando suas impressões e sensações sobre lugares selecionados, utilizando para isto as metodologias de Geografia Oral e Cápsula Narrativa. Quarta etapa: Sintetizar os dados obtidos com a elaboração do Mapa das Sensações da cidade de Curitiba e da gravação de áudio com os registros. 4. METODOLOGIA A fase inicial da pesquisa consistiu no levantamento de dados quantitativos e qualitativos que pudessem indicar e elencar lugares sugeridos e selecionados pelas pessoas pesquisadas com destaque para a indicação baseada nas impressões e sensações obtidas pelos sentidos. O instrumento de pesquisa foi elaborado com objetividade, tendo em vista não se tornar enfadonho ou complexo. Este aspecto foi detectado em um ensaio inicial, desenvolvido como piloto, que elucidou a necessidade de elaborar-se um questionário sucinto, prático de ser respondido e com questões de fácil entendimento e compreensão (anexo 1). Destacou-se, também, a intenção de não se identificarem os colaboradores que participaram das pesquisas para que não houvesse a necessidade de comprometimento de ambas as partes, pesquisador e pesquisado, com relação à documentação formal de contratos ou documentos de autorização para uso de imagens ou depoimentos. Uma diretriz que também norteou a elaboração do questionário foi a de não imprimir um caráter de obrigatoriedade em responder todas as questões do mesmo, deixando para o pesquisado, em aberto, a questão refrente às suas experiências pessoais, uma vez que esta questão demandava uma descrição mais alongada em 9

9 seu depoimento. O questionário passou por uma fase de testes e isto foi realizado em caráter de experiência, com alguns voluntários, para verificar a inteligibilidade das questões e as facilidades de compreensão e interpretação das questões por parte dos pesquisados. Ao definir o melhor formato do instrumento de pesquisa a questão seguinte seria a forma aplicá-lo e a seleção dos entrevistados. Em consonância com os avanços do mundo cibernético e a possibilidade de utilizarem-se, como aliadas, as ferramentas das Tecnologias da Informação e Comunicação (TIC s), decidiu-se por estruturar o mecanismo de pesquisa e coleta de dados através dos recursos disponíveis para a organização, divulgação, motivação dos entrevistados e coleta de dados através destas ferramentas. A possibilidade encontrada para elaboração do questionário (anexo 1) através de uma estrutura de ferramenta tecnológica, o fornecimento de dados em uma estrutura com um compilador próprio de dados, uma plataforma própria de elaboração de formulários e apresentação automática dos mesmos, incluindo gráficos estatísticos e uma planilha editável, de custo praticamente nulo para a sua elaboração e a possibilidade de acesso fácil em qualquer terminal conectado à Internet, indicou o sistema de serviços on line Google como facilitador para estruturar a ferramenta de pesquisa. O dispositivo utilizado para armazenar os dados obtidos foi o "Google Drive" que possibilitou o armazenamento de grande quantidade destes dados e o fácil acesso a partir de qualquer terminal conectado à Internet, bastando para isto teremse os dados de acesso de usuário e senha. Este recurso mostrou-se extremamente útil e prático, pois facilitou o acesso para análise e discussão da pesquisa. Após a definição do instrumento da pesquisa empírica necessitou-se de um provedor, dispositivo virtual, para a criação e hospedagem de um sítio na Internet. Isto se fez necessário, pois a ferramenta de pesquisa elaborada no Google demanda seu aporte em uma estrutura que possibilite a sua divulgação e direcionamento para um endereço virtual, o qual serviu de ligação entre o terminal utilizado pelo pesquisado e o banco de dados, do Google Drive, do pesquisador. O provedor escolhido foi o "Universo On Line" (UOL) que ofereceu a estruturação do dispositivo de divulgação da pesquisa com página de apresentação, domínio próprio na Internet, o que garantiu exclusividade com relação à divulgação do título do trabalho de pesquisa, espaço para estocagem de arquivos digitais, endereço eletrônico 10

10 próprio de correspondência ( ) e também a possibilidade de espaço para a divulgação das fases do projeto de pesquisa através de "Blog", espaço na Internet, cuja estrutura permite de forma simples e direta um registro cronológico, frequente e imediato das opiniões, emoções e resultados das pesquisas. Todo este dispositivo gerou um custo para a aquisição do domínio na Internet, o que no mês de abril de 2013 demandou um investimento de cento e setenta e oito reais (R$178,00). A figura1 (anexo 2) apresenta a estrutura funcional deste dispositivo. A etapa seguinte consistiu na divulgação e a chamada de pessoas a colaborarem com a pesquisa através da resposta do questionário elaborado e alocado na página eletrônica do projeto sob o endereço eletrônico: Fez-se uso de listas de endereços eletrônicos ( s) e de redes sociais, (especialmente do Facebook) o que favoreceu o resultado de um rápido retorno e grande quantidade de questionários respondidos. A partir dos dados recebidos foi possível estruturará-los e elencar os logradouros mais indicados e destacados para a fase posterior. A lista dos dez logradouros classificados com o maior número de indicações na pesquisa, baseada nos questionários, apontou os logradouros a serem visitados e pesquisados através de entrevista com os frequentadores e usuários dos mesmos. A fase seguinte da pesquisa caracterizou-se em estabelecer correlação entre os dados coletados e as bases epistemológicas do projeto, a fenomenologia e a percepção humana do espaço. Como procedimento metodológico compatível optamos pelas cápsulas narrativas que contemplam o discurso, as experiências dos pesquisados, seus testemunhos e suas impressões sobre o espaço percebido. A escolha deve-se à necessidade de uma maior flexibilidade para análise dos dados elencados a partir de sensações e sentimentos compatíveis com o método fenomenológico proposto. Assim, sugere Caldas, que: A interpretação advinda das imagens que se interpenetram em nossa imaginação, jogo de metáforas, de sons, de cores, de vidas, tempos e lugares, mesclam-se exigindo algo diferente de uma leitura objetificante, que exija capturar a rede significativa e transformá-la em coisa, em linguagem cientifica. Uma de nossas primeiras preocupações é não dizer aquilo que é, inclusive não saber e não querer saber se algo pode ser o que é, mas aquilo que nos impressiona, o que nos seduz, o que nos dá prazer é o contato, o 11

11 toque e a f(r)icção com uma matéria que é a mesma dos sonhos e da vida (CALDAS, 1999a, p. 121). Priorizamos análises qualitativas que permitissem vislumbrar o ser humano e os significados atribuídos aos espaços sensíveis elencados. O que é apontado por Caldas quando diz: A Geografia Humana precisa respirar com a experiência, a oralidade auto-organizada, a narrativa, a individualidade (esse bicho papão das ciências), extraindo seus devires não de epistemologias de poder, mas de um contato aberto, intenso e livre com alguém que escolhe sua narrativa, seu espaço, suas forças, escolhe sua narrativa como viveu sua vida, suas relações vitais que é, em primeira instância, espaço e lugar. Como compreender a construção desse espaço e do lugar sem respeitar a criação individual do narrador (CALDAS, 2010, p. 2). Assim, os pressupostos relativos à Geografia Oral se constituíram no suporte necessário à pesquisa através de: [...] um novo conceito, o de Geografia Oral enquanto campo nômade que articula espaço-lugar com oralidade-narrativa, articula vivamente o narrador, os narradores e seu lócus vivo, com o pesquisador através das narrativas, isto é, não há nem território nem Geografia antes dessas relações efetivas: o espaço-lugar jorra das oralidades em narrativas escolhidas pelo narrador, não o contrário (CALDAS, 2010, p. 2). O procedimento metodológico proposto com as cápsulas narrativas objetiva: [...] estabelecer conexões, aprender a ouvir as ressonâncias, abrir as redes, os fluíres entre domínios de saberes, domínios de vida, campos de práticas. [...] enquanto tensor livre para o pensar geográfico para uma Geografia Oral. Com essa conexão não se pretende legitimar, fundar, justificar um novo saber, mas arejar um lócus antigo de práticas (CALDAS, 2010, p. 2). Os dados obtidos, permitirão evidenciar as experiências vividas a partir das sensação advindas de seu narrador conforme aponta o autor anteriormente citado. A geografia oral não busca a cronologia das experiências narradas, mas sim as experiências. Através delas podemos criar uma ponte provisória entre domínios de conhecimento instaurando um 12

12 conhecimento próprio. Como a pontuação é interferência mínima, o pontuar só retirará da narrativa, transformada em texto, o que deforme o narrado e seu narrador, o pontuamento busca apresentar a narrativa mais próximo possível do narrado pelo narrador, com isso temos a singularidade do narrador, com métodos apropriados ao pesquisador na área de Geografia (CALDAS, 2010, p. 5). O espaço quando impregnado de significados adquire o status de lugar e esse aspecto também é evidenciado por Caldas quando aponta que: O lugar, enquanto conhecimento, advém de uma Geografia Oral que articula os conceitos de Cápsula Narrativa (Caldas, 1999a, 1999b, 2009) com os de espaço e lugar, a História Oral com a Geografia Humana como mecanismos de produção de conhecimento advindo das narrativas, dos narradores e não do pesquisador, do projeto, das redes acadêmicas e dos livros. Vem de quem é e produz o espaço, o lugar, o território, a população e das suas narrativas (CALDAS, 2010, p. 2). Assim certificamos que a opção pelo procedimento metodológico da "Cápsula Narrativa", permite o desenvolvimento de uma Geografia Oral como metodologia aplicada. O conceito da Cápsula Narrativa enquanto instrumento de captação de experiências e conhecimentos adquiridos do mundo vivido foi o suporte para a terceira fase da pesquisa. Consistindo na coleta de informações em campo, nos dez logradouros mais citados apontados na primeira fase da pesquisa, realizada via internet por meio eletrônico. Com o registro das informações a partir das Cápsulas Narrativas puderam se obter elementos significativos importantes quanto à percepção e sensações relacionadas. Com a noção de cápsula narrativa, elemento chave da Geografia Oral [...] aquilo que é dito, pensado, lembrado ou sonhado é sempre uma narrativa, uma ficção e não o acontecido ou uma versão sobre o acontecido; essa ficção não reproduz nem representa o acontecido, sequer a sequência do acontecido, mas como dizemos aquilo que entendemos como o vivido e, no caso, o vivido que vamos pensar, espaço/lugar em sua forma de existência, advinda de práticas, atividades, crenças, imaginários produtivos, reprodutivos que se transformarão em conceitos (CALDAS, 2010, p. 2). Esta fase da pesquisa empírica demandou, além do planejamento estratégico para selecionar os dias e horários mais compatíveis para encontrar o 13

13 público em atividade nos locais destinados à pesquisa, uma identificação do pesquisador. Pôde-se observar, durante um ensaio realizado em campo, que a população não foi receptiva, quando abordada pelo pesquisador não identificado. Procedeu-se, então, ao planejamento e projeto de uma identidade visual, constituída de uma camiseta e um crachá de identificação. Com a identificação a receptividade foi maior e despertou curiosidade pela pesquisa. 5. RESULTADOS PRELIMINARES Obtivemos a participação de um universo de trezentas e cinquenta pessoas, registradas via site, que indicaram noventa e dois logradouros significativos. Os dez logradouros mais apontados foram (por ordem de indicações): Parque Barigüi, Jardim Botânico, Rua XV de Novembro, Bosque do Papa, Parque São Lourenço, Bairro de Santa Felicidade, Feira do Largo da Ordem, Mercado Municipal, Museu Oscar Niemeyer e Parque Tanguá. Conforme prevíamos, a maior percentagem foi apontada para as sensações relacionadas à visão 44%, seguidos da audição 22%, olfato 20%, paladar e tato 7%. Os resultados parciais e preliminares indicam que a metodologia escolhida foi adequada aos objetivos da pesquisa. O número elevado de participações no site revelaram a validade e importância da ferramenta de coleta dos dados. A pesquisa empírica em campo prossegue com o aporte das cápsulas narrativas possibilitando construir uma Geografia Oral, complementando os dados elencados via meio eletrônico. O resultado final da pesquisa será a representação cartográfica referendada no Mapa das Sensações da Cidade Curitiba, com a localização dos pontos mais indicados e um descritivo das sensações reveladas, nos logradouros, com os trechos mais significativos de depoimentos dos entrevistados. Concomitantemente será produzido um material gravado em áudio, especialmente dedicado a deficientes visuais e a despertar no sentido da audição a observação dos depoimentos. 14

14 REFERÊNCIAS CLAVAL, Paul. As abordagens da geografia cultural. In: CASTRO, Iná E.; GOMES, Paulo C.C.; CORRÊA, Roberto L. (orgs.). Explorações geográficas: percursos no fim do século. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1997, p CLAVAL, Paul. A geografia cultural. Florianópolis: Ed. da UFSC, 2011a. CLAVAL, Paul. O papel da nova geografia cultural na compreensão da ação humana. In: ROSENDAHL, Zeni; CORRÊA, Roberto Lobato (orgs). Matrizes da Geografia Cultural. Rio de Janeiro: EdUERJ, 2001b. CONSTANTINO, Regina Márcia. Uma ecologia para o som. In: Quem tem medo do interior? vol.1. Londrina: Editora UEL, CORRÊA, Roberto Lobato; ROSENDHAL, Zeny (orgs.). Introdução à geografia cultural. 2. ed. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, COSGROVE, Denis. A geografia está em toda parte: Cultura e simbolismo nas paisagens humanas. In: CORRÊA, Roberto Lobato; ROZENDAHL, Zeny (orgs.). Paisagem, tempo e cultura. Rio de Janeiro: EdUERJ, p. p KOZEL, Salete. Geopoética das paisagens: olhar, sentir e ouvir a natureza. Caderno de Geografia, Revista eletrônica. Belo Horizonte-PUC-MG. vol. 22, n. 37, KOZEL, Salete; TORRES, Marcos. A. Paisagens sonoras: possíveis caminhos aos estudos culturais em geografia. Revista RA E GA, Curitiba, n. 20, p , Editora UFPR. KOZEL, Salete Teixeira. Mapas mentais - uma forma de linguagem: perspectivas metodológicas In: KOZEL, S; FILHO, S. F. (orgs.) Da percepção e cognição à representação: reconstruções teóricas da geografia cultural e humanista. São Paulo: Terceira Margem EDUFRO, MERLEAU-PONTY, M. Fenomenologia da Percepção. São Paulo: Martins Fontes, MONTAGU, Ashley. Tocar - o significado humano da pele. São Paulo: Summus,1986. PALLASMAA, Juhani. Os olhos da pele: a arquitetura e os sentidos. Tradução técnica: Alexandre Salvaterra, Porto Alegre: Bookman,

15 PITTE, J. R.; DULAU, R. (org.) Géographie des odeurs. Paris: L' Harmattan, Tradução nossa. SANTOS, Milton. Metamorfoses do espaço habitado: fundamentos teóricos e metodológicos da geografia. São Paulo: Hucitec, SCHAFER, Raymond Murray. A afinação do mundo: uma exploração pioneira pela história passada e pelo atual estado do mais negligenciado aspecto do nosso ambiente: a paisagem sonora. São Paulo: Ed. da UNESP, TUAN, Yi-Fu. Topofilia: um estudo da percepção, atitudes e valores do meio ambiente. São Paulo: Difel, ANEXOS: Anexo 1: Estrutura do questionário: Programa de Pós Graduação em Geografia Mapa das Sensações de Curitiba A afinidade e a ligação que o ser humano tem com o espaço onde vive ou frequenta, revela de que maneira o meio ambiente é percebido e selecionado através de experiências vividas ou sensações gravadas. A importância que os sentidos físicos têm na vida das pessoas e na vida das cidades vai além do simples ato de ver, tocar, provar, cheirar ou ouvir. É por meio deles que percebemos o valor do mundo, que lembramos e que sentimos. Das descobertas iniciais da infância, a percepção que temos se dá muitas vezes de forma inconsciente: reagimos às emoções dando mais atenção ao que é novo e utilizando instintivamente um repertório de sentidos. Estas delicadas marcas, deixadas por um perfume, uma música, uma textura, uma imagem ou um sabor passam a exercer uma poderosa influência em nossas vidas. Pedimos a sua colaboração nesta breve pesquisa esperando que suas respostas sejam baseadas em suas próprias experiências, sentimentos e emoções. 1) Qual o lugar da cidade de Curitiba, que você visitou ou frequenta regularmente, que lhe agrada, lhe traz boas lembranças e remete a sensações relacionadas aos sentidos físicos humanos? (obrigatória)... 2) Qual(ais) sentido(s) físico(s) humano(s) você sente ser mais estimulado e lhe parece mais sensível neste lugar? (obrigatória) ( ) audição ( ) olfato ( ) paladar ( ) tato ( ) visão 3) Deixe um breve depoimento sobre as tuas experiências sensoriais quando se visita este lugar.(opcional) 16

16 ) Qual é a sua faixa de idade? (obrigatória) ( ) de 10 a 15 anos ( ) de 16 a 21 anos ( ) de 22 a 35 anos ( ) de 36 a 45 anos ( ) de 46 a 55 anos ( ) de 56 a 65 anos ( ) de 66 a 75 anos ( ) acima de 76 anos 5) Você é residente em Curitiba? (obrigatória) ( ) sim ( ) não. Agradecemos a sua participação e colaboração. Anexo 2 Figura 1 - Estrutura funcional para coleta de pesquisa. 17

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