Estágio Curricular em Geografia e a Educação para além da visão

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1 Estágio Curricular em Geografia e a Educação para além da visão Carolina Carneiro Magalhães Universidade Federal do Ceará Rodolfo Anderson Damasceno Góis Universidade Federal do Ceará - Tâmara Kaline Fernandes da Silva Universidade Federal do Ceará Profª. Drª.Alexandra Maria de Oliveira Universidade Federal do Ceará - INTRODUÇÃO A disciplina Estágio Curricular Supervisionado em Geografia II tem como objetivo trabalhar com a educação diferenciada em diferentes modalidades. Educação indígena, no campo, profissional, EJA e alunos com necessidades especiais. Neste sentido a equipe se propôs a trabalhar com os alunos portadores de deficiências visuais. A escola escolhida foi Instituto dos Cegos Dr. Hélio Góes, que está situado na Av. Bezerra de Meneses, nº 892 no bairro São Gerardo, é uma instituição filantrópica, que foi construída em 1942, para atender a comunidade que necessita de serviços de apoio a visão. Os alunos que freqüentam a escola são oriundos de diversos lugares, inclusive do interior. Esta demanda ocorre, devido ao fato da instituição receber alunos que apresentam não somente deficiência visual, também há na instituição um trabalho de reabilitação, que consiste em auxiliar pessoas que por algum motivo perderam a visão e necessitam adquirir autonomia. OBJETIVOS O trabalho tem como principal objetivo estabelecer uma relação de aprendizagem, tanto para os estagiários como para os alunos do Instituto dos Cegos Dr. Hélio Góes, visando que a aprendizagem ocorra de forma relativamente igual à assimilação da matéria. Objetiva-se ainda entender as necessidades de um grupo minoritário da sociedade, para de fato saber quais são suas dificuldades com relação a disciplina de geografia. 1

2 METODOLOGIA Os professores do Instituto são formados nas respectivas áreas que lecionam, não havendo, portanto, professores polivalentes. Para lecionar no Instituto, é necessário fazer um curso que é ofertado pela própria entidade, onde o futuro professor aprenderá desde a anatomia ocular, até a didática da disciplina que será lecionada por este em sala de aula. O contato com os professores é bem difícil devido à incompatibilidade de horários o encontro com estes por vezes inviabiliza-se. Assim tivemos maior contato com a professora Andréa que nos acompanhou em todas as visitas e nos mostrou um pouco a realidade do instituto. A professora Andréa é pedagoga e trabalha no Instituto há 11 anos, é casada com o professor de História do Instituto que apresenta baixa visão, o que facilita seu trabalho na instituição. O Instituto Hélio Góes, que está localizada na Av. Bezerra de Meneses no bairro São Gerardo, é uma entidade filantrópica, que tem 67 anos de existência tendo sido fundada em É uma sociedade civil que atua nas áreas de educação, saúde, profissionalização e inserção social da pessoa cega. A entidade conta também com um hospital que atende pelo SUS, particular e convênios e são esses órgãos que mantém a escola. Existe uma necessidade muito grande de espaços físicos e no melhoramento do ambiente para os alunos com deficiência visual ou outra deficiência como cadeirante, por exemplo. Isso ficou bem visível quando no dia da nossa primeira visita, um aluno havia caído da calçada, pois esta não tem rampa de acesso o que dificulta a locomoção dos deficientes visuais e como já foi citado alguns alunos apresentam outras deficiências, como física e mental, também não apresenta rampa de acesso ao primeiro andar, impossibilita aos alunos cadeirantes ter acesso aos andares superiores. Segundo a professora Andréa, houve um aumento do espaço físico da instituição, porém este foi ocupado pelo hospital e desde então não houve mais ampliações na escola. A escola conta com 18 salas de aula, sendo que cada sala tem no máximo dez alunos, biblioteca braile Josélia Almeida, imprensa braile Rosa Baquit, Centro de estudos DOSVOX prof. José Antônio Borges, centro de gravação de livros falados, centro de prevenção a cegueira 2

3 Cel. José Bezerra Arruda, Centro de capacitação profissional e inserção no mercado de trabalho, serviço social, artes e ofícios, projeto pedagógico cultural Tudo a Ver, orientação e mobilidade, esportes como natação e hidroterapia e ainda conta com o hospital Alberto Baquit Júnior, unidade oftalmológica Iêda Otoch Baquit e um centro de professores de educação especial na área da deficiência visual. Todos os alunos têm acesso ao hospital e a todos os serviços que são oferecidos por ele. A escola hoje conta com 250 alunos matriculados em todas as faixas etárias, pois a escola tem o ensino regular até o 8º ano, começando desde a educação infantil, e no próximo ano contará também com o 9º ano, há ainda os alunos do EJA e alunos em processo de reabilitação. Segundo a professora Andréa a escola ultimamente tem passado por dificuldades depois que o diretor-presidente que tanto zelou pela instituição foi assassinado em 2006, o Dr. Waldo Pessoa. Hoje sua mulher é a presidente do SAC, que é a Sociedade de Assistência aos Cegos do Ceará. Os alunos que freqüentam o Instituto são de várias faixas etárias, pois a escola tem turmas desde a educação infantil até o 8º ano e também conta com o EJA e os alunos reabilitados. Eles são atendidos pelo Instituto sem precisar custear as despesas. A aluna mais velha da escola tem 82 anos e faz parte da turma da reabilitação. Alguns alunos são oriundos do interior vem passam uma semana depois voltam, esses alunos são principalmente do EJA e da reabilitação e como afirmou a professora Andréa: eles vêm por que muitas vezes são vistos pelos pais como inválidos, então eles buscam no Instituto não só educação formal, mas principalmente conforto, carinho e alguém para conversar e dividir seu espaço, assim como também uma ocupação para o seu dia-a-dia. Porém vale destacar que o Instituto, não oferece só educação formal, mas principalmente assistência no âmbito da saúde como exames oftalmológicos. A escola oferece também, serviços sociais, de reabilitação, artes e inserção no mercado de trabalho. No programa relativo ao mercado de trabalho, percebe-se que a escola adéqua-se a LDB, pois em seu parágrafo IV do art. 59, a LDB ressalta que as escolas devem ter: educação especial para o trabalho, visando a sua efetiva integração na vida em sociedade, inclusive condições adequadas para os que não revelarem capacidade de inserção no trabalho 3

4 competitivo, mediante articulação com os órgãos oficiais afins, bem como para aqueles que apresentam uma habilidade superior nas áreas artística, intelectual ou psicomotora; Mesmo assim sabemos que com todos esses avanços, há ainda muitas barreiras para serem superadas, pois o que se percebe é uma exclusão dos deficientes no mercado de trabalho, e não somente nele, mas em outras instâncias da sociedade e do poder público, pois infelizmente ainda vive-se a cultura do poder dominante, ou seja, do mais forte. Segundo Jurjo Torres Santomé: as culturas ou vozes dos grupos sociais minoritários e/ou marginalizados que não dispõem de estruturas importantes de poder costumam ser silenciadas, quando não estereotipadas e deformadas, para anular suas possibilidades de reação. (SANTOMÉ, 2005) Segundo o material fornecido pelo Instituto, a história do Braille teve início em 1825, quando Louis Braille um músico e professor francês, criou o mais funcional de todos os sistemas anteriormente criados o Sistema Braille, servindo como veículo de acesso a educação, cultura e informação para as pessoas cegas. Publicado definitivamente em 1829, o Sistema Braille é hoje mundialmente usado. Antes deste alfabeto existiram outros, porém Louis Braille ainda estudante, concebeu outro sistema de escrita e leitura, que consistia em seis pontos em relevo permitindo obter sessenta e três combinações diferentes, representando as letras do alfabeto, sinais de pontuação, números, notações científicas e musicais, podendo ser escrito pela própria pessoa cega e por ela lido através do tato. No Brasil, a adoção do Sistema Braille no processo educacional das pessoas cegas, deu-se em 1854 por ato oficial do Imperador Dom Pedro II, sendo o primeiro país da América Latina a reconhecer a universalização do Sistema Braille. No mundo contemporâneo, apesar do indiscutível valor dos processos auxiliares de leitura e escrita para cegos advindos da eletrônica, reconhece-se que o Braille é, e continuará sendo indispensável no processo formativo intelectual, profissional, cultural e social das pessoas com deficiência visual, face aos valores reflexivos emergentes da autonomia e independência que o sistema proporciona, concebendo-lhe o bem estar psicossocial necessário a sua plena e satisfatória integração ao seio da sociedade. 4

5 RESULTADOS PRELIMINARES Como já nos tinha informado a professora Andréa, desde a nossa primeira visita, a escola ficou claro que não seria possível fazer nenhum tipo de intervenção na mesma, então decidimos convidá-la para dialogar um pouco juntamente com o restante da turma no departamento de geografia. No dia 19 de outubro, ela veio acompanhada pelos alunos Soares e Valziane realizar essa conversa. Começou apresentando o Instituto, falou dos programas de assistência que existe na instituição e falou das dificuldades e dos desafios que os deficientes enfrentam no seu dia-a-dia, assim como falou das leis e das funcionalidades desta. Em seguida o aluno do Instituto Soares falou sobre a sua vida e como foi seu processo de readaptação e reabilitação ao meio, assim como também dos preconceitos que enfrenta no seu dia-a-dia, não só ele, mas todos os deficientes. Falou da importância da sua família e disse que não acreditava na inclusão que está proposta hoje para os deficientes, pois este acha que a sociedade em geral ainda tem muito preconceito com as pessoas portadoras de deficiências, não somente com as cegas. Segundo ele deve-se haver uma mudança no pensamento da população e a implementação de equipamentos urbanos que possibilitem o livre acesso a todas as pessoas. Como ato de conclusão foi aberto um espaço de discussão onde foram realizadas perguntas para a professora Andréa e o aluno Soares. As perguntas giraram em torno das dificuldades destes alunos a inserção nas redes de ensino regular e nas dificuldades enfrentadas no dia-a-dia. Foi comentado também a questão do material didático que precisa ser adaptado para o Braille, porém nem sempre isso acontece. Foi discutido também as dificuldades dos alunos deficientes nas aulas de educação física, pois quando chegam à escola regular, muitos professores dizem que não vão atender os alunos e os mandam tirarem atestado. Os alunos depois que deixam instituto podem voltar para participarem das atividades sociais e culturais e atuar como voluntários no processo de ensino e readaptação dos demais alunos. Apesar das leis que regulam o mundo da educação, percebe-se que ainda há um distanciamento muito grande da realidade, pois esses alunos não têm uma educação especial 5

6 garantida até o ensino médio e a escola regular infelizmente não está preparada para receber esses alunos. Constatamos isto através da observação e do relato dos professores e alunos sobre a inclusão de deficientes visuais na rede regular de ensino, visto que, para atender as necessidades destes as escolas devem ter toda uma infra-estrutura e um corpo de profissionais capacitados para trabalhar devidamente com os alunos. Portanto, é necessário lutar e reivindicar para que os estabelecimentos educacionais disponham de educação especial até o ensino médio e fazer com que as escolas regulares funcionem de acordo com as normas estabelecidas pela LDB de 1996 e recebam todos os alunos sem discriminação. Houveram dificuldades para a realização deste estágio como citado anteriormente, no entanto este contato foi de fundamental importância para nossa formação acadêmica, isso vai facilitar o nosso trabalho enquanto futuros profissionais atuantes na área e nos levará a compreender a realidade daquele aluno quando tivermos um aluno especial na nossa sala e como diria o aluno Soares não ficar apavorado, pois cego fala. REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA BRASIL, Lei de Diretrizes e Bases da Educação < 03/LEIS/L9394.> Acesso em 15 de outubro de 2009 as 15:30. Sociedade de Assistência aos Cegos < acesso em 19/10/2009> Acesso em 15 de outubro de 2009 as 16:15. SANTOMÉ, Jurjo Torres. As culturas negadas e silenciadas do currículo. In: SILVA, Tomaz Tadeu da, (org.). Alienígenas na sala de aula. Ed. Vozes, Petópolis, p

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