ASPECTOS FLORÍSTICOS DA APP DO CÓRREGO DO RELÓGIO, COMO SUBSÍDIO PARA A RECUPERAÇÃO DAS ÁREAS DEGRADADAS DE MARCELÂNDIA, MT.

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1 VIII ENCONTRO DA SOCIEDADE BRASILEIRA DE ECONOMIA ECOLÓGICA 5 a 7 de agosto de 2009 Cuiabá - Mato Grosso - Brasil ASPECTOS FLORÍSTICOS DA APP DO CÓRREGO DO RELÓGIO, COMO SUBSÍDIO PARA A RECUPERAÇÃO DAS ÁREAS DEGRADADAS DE MARCELÂNDIA, MT. Rosália Valençoela Gomes Barros (Lions Clube de Marcelândia) - Ruth Albernaz Silveira (Lions Clube de Marcelândia)Rubens dos Santos (Lions Clube de Marcelândia) Jonilkem da Silva Almeida

2 ASPECTOS FLORÍSTICOS DA APP DO CÓRREGO DO RELÓGIO, COMO SUBSÍDIO PARA RECUPERAÇÃO DAS ÁREAS DEGRADADAS DE MARCELÂNDIA, MT RESUMO A área de estudo situa-se no córrego do Relógio, pertencente à bacia hidrográfica do rio Tapajós, localizada no Assentamento Bom Jaguar, em Marcelândia, MT e teve como objetivo identificar a estrutura comunitária dos estratos arbustivo-arbóreo da APP, bem como selecionar espécies a serem utilizadas na revegetação das áreas degradadas da bacia hidrográfica. A APP do córrego do Relógio e dos demais cursos d água do assentamento sofre processos de perturbação semelhantes aos que são submetidos os demais ecossistemas brasileiros. Os poucos remanescentes florestais necessitam de pesquisas básicas, no sentido de promover e incentivar a conservação e a preservação da flora da região. O conhecimento da organização estrutural das populações de espécies vegetais com identificação dos grupos ecológicos e riqueza florística, é base para a definição de estratégias de manejo, bem como a conservação e restauração de remanescentes florestais. Para o levantamento florístico foi utilizado o método quadrante de amostragem fitossociológica, com demarcação de 4 parcelas de 10 x 10 m. No inventário foram considerados indivíduos com diâmetro (DAP) > 5,0 cm. Nas amostragens foram identificados 139 indivíduos, 25 espécies distribuídas em 11 famílias. Dentre as espécies destacam-se: Trattinickia rhoifolia, Aspidosperma polyneurum, Apuleia leiocarpa, Calophyllum brasiliensis, Dipteryx odorata, Trema micrantha, Euterpe catinga, Mauritia flexuosa e Inga laurina. Constatou-se que os remanescentes florestais compreendem principalmente Florestas Estacionais e que 77,8% das propriedades não possuem APP, estando em desacordo com o Código Florestal Brasileiro. Esta situação sinaliza a necessidade urgente de recuperação e conservação dessa micro-bacia e demais cursos d água da região. Palavras-chave: Composição Florística; Preservação; Córrego do Relógio; Área de Preservação Permanente; Marcelândia-MT. ABSTRACT The study area places in the stream of the Clock, pertaining to the hydrographical basin of the river Tapajos, located in the Good Nesting Jaguar, in Marcelândia, TM and had as objective to identify the communitarian structure of arbustivo-arbóreo stratus of the APP, as well as selecting species to be used in the revegetação of the degraded areas of the hydrographical basin. The APP of the stream of the Clock and the too much water courses of the nesting suffers similar processes of disturbance to that the too much Brazilian ecosystems are submitted. The few forest remainders need basic research, in the direction to promote and to stimulate the conservation and the preservation of the flora of the region. The knowledge of the structural organization of the populations of vegetal species with identification of the ecological groups and florística wealth is base for the definition of handling strategies, as well as the conservation and restoration of forest remainders. For the florístico survey the method was used quadrant of fitossociológica sampling, with landmark of 4 10 parcels of x 10 m. In the inventory individuals with diameter had been considered (DAP) > 5,0 cm. In the samplings 25 species distributed in 11 families had been identified to 139 individuals. Amongst the species they are distinguished: Rhoifolia Trattinickia, Aspidosperma polyneurum, Apuleia leiocarpa, Calophyllum brasiliensis, Dipteryx odorata, Diaresis micrantha, Euterpe catinga, flexuosa Mauritia and laurina Inga. One evidenced that the forest remainders understand Forests mainly Park and that 77.8% of the properties do not possess APP, being in disagreement with the Brazilian Forest Code. This situation signals the urgent necessity of recovery and conservation of this micron-basin and too much water courses of the region. Key-Word: Florística composition; Preservation; Stream of the Clock; Area of Permanent Preservation; Marcelândia-MT.

3 INTRODUÇÃO O Estado do Mato Grosso possui vários domínios vegetais, destacando-se o Cerrado, o Pantanal e a Floresta Amazônica, sendo que esta última está presente mais ao Norte do Estado, mas, existem zonas de contato e/ou zonas de transição entre Cerrado e floresta. A área onde está inserida a Bacia Hidrográfica do córrego do Relógio foi denominada de Floresta Estacional Semidecidual, sendo descrita como uma vegetação ecotonal, onde as espécies florestais umbrófilas e estacionais se misturam aleatoriamente, sem estarem associadas a um determinado tipo de clima, solo e/ou relevo (SEPLAN, 1999). As florestas Semidecíduas do córrego do Relógio sofrem processos de perturbação semelhantes aos que são submetidos os demais ecossistemas brasileiros. Os poucos remanescentes florestais necessitam urgentemente de pesquisas básicas, no sentido de promover a conservação e a preservação dos fragmentos florestais da região. Para Van Den Berg, 1995, essas formações vegetais são sistemas particularmente frágeis em face dos impactos promovidos pelo homem, pois, além de conviverem com a dinâmica erosiva e de sedimentação dos cursos d'água, localizam-se no fundo de vales, que correspondem às áreas de uma bacia hidrográfica onde, comumente, ocorrem os solos mais férteis e úmidos. Por isso, as matas ciliares são tão propensas a derrubadas, dando lugar às atividades agrícolas (BOTELHO e DAVIDE, 2002; OLIVEIRA FILHO et al., 1994). A velocidade de devastação das florestas ameaça os ecossistemas florestais primários, confinando-os basicamente em áreas protegidas. Assim, os estudos direcionados aos estádios sucessionais das florestas secundárias são primordiais, uma vez que as florestas em regeneração constituem importante laboratório natural, capaz de gerar informações indispensáveis ao entendimento da dinâmica sucessional (RIBAS et al., 2003). O conhecimento da organização estrutural das populações de espécies arbustivo-arbóreas, através de estudos fitossociológicos, é base para a definição de estratégias de manejo e conservação de remanescentes florestais e de restauração florestal em áreas degradadas.

4 Para Simões (2001), a recuperação das áreas de Preservação Permanente constitui um dos fatores que, conjuntamente com outras práticas conservacionistas, compõem o manejo adequado da bacia hidrográfica, para fins de garantir a quantidade e qualidade da água e a biodiversidade. A pesquisa foi desenvolvida no Assentamento Bom Jaguar onde grande parte das micro-bacias formadoras do rio Xingu e rio Tapajós encontram-se degradadas em função do desmatamento proveniente da rápida ampliação da fronteira agrícola desprovida de práticas adequadas de conservação, fator que tem contribuído com a redução da quantidade e qualidade da água; assoreamento do leito de rios, soterramento de córregos e nascentes, processos erosivos, presença de voçorocas e mata ciliar substituída por pastagens, gerando expressiva alteração da paisagem. O município de Marcelândia possui taxas crescentes de desmatamento, a taxa anual que até 2001 estava inferior a 100 km², alcançou o patamar de 180 km² anuais em 2002 e 2003 e 280 km² em 2004 (ICV 2005). Em 2007, o município foi considerado líder em desmatamento na Amazônia, ocupou o 1º lugar estando no topo da lista dos que mais desmataram. A perspectiva do asfaltamento do trecho ainda não pavimentado da BR 163 (do extremo norte de Mato Grosso até Santarém no Pará) pode ter uma parte da responsabilidade pela intensificação do processo de ocupação, que está amplamente ligado à expansão do cultivo de soja na região (INPE 2008). Sendo assim, afluentes importantes já apresentam problemas graves de diminuição do volume hídrico, além disso, várias nascentes já secaram. Essa região, a princípio extremamente rica em recursos hídricos, está hoje enfrentando a perspectiva de uma grave crise hídrica. Neste sentido, este estudo visa contribuir para o detalhamento da vegetação do componente arbóreo arbustivo de Marcelândia, por meio da identificação da composição florística e da estrutura fitossociológica do componente arbóreo de um trecho de Floresta Estacional Semidecidual no Assentamento Bom Jaguar, tornando mais eficiente o processo de restauração e recuperação de matas ciliares de rios e córregos desta região. MATERIAL E MÉTODOS O presente trabalho foi desenvolvido no município de Marcelândia norte do Mato Grosso, que possui como principais bacias hidrográficas a Bacia do rio Xingu e Bacia do rio Tapajós. A área de estudo compreende a micro-bacia do córrego do Relógio, pertencente à bacia hidrográfica do rio Tapajós, no Assentamento Bom Jaguar em Marcelândia, MT (Figura 1). A área está situada nas

5 coordenadas 87º89 84 de longitude e 75º68 08 de latitude. Figura 1. Localização do município de Marcelândia-MT. Levantamento Fitossociológico Para a coleta de dados foi realizada a avaliação florística do estrato arbóreo arbustivo a partir de quatro parcelas de 100 m 2, visando conhecer as espécies mais adaptadas ao ambiente degradado e perturbado da nascente do córrego do Relógio. As parcelas seguiram o leito do curso d'água, para melhor conhecimento das espécies de ambiente úmido. Em cada parcela foram registrados e identificados todos os indivíduos arbóreos vivos com DAP (diâmetro a altura do peito) > 5 cm. Foi feito o levantamento florístico de todas as plantas arbóreas com DAP igual ou superior a 5 cm e altura superior a 1,30 m. O levantamento florístico foi realizado em Agosto de 2008, em um fragmento residuário da nascente do córrego do Relógio. O material botânico foi identificado pela comparação e consulta à literatura clássica taxonômica e reconhecimento realizado por mateiros. As espécies foram agrupadas em famílias, de acordo com o sistema do Angiosperma Phylogeny Group II (APG, 2003).

6 As espécies foram ainda classificadas segundo o seu grupo ecológico, adotando-se a metodologia descrita por LORENZI (2002) e SILVA (2002), com a seguinte abordagem: Pioneiras espécies de ciclo de vida curtos, que só germinam e se desenvolvem à plena luz; Secundárias espécies de ciclo muito longo, que germinam e se desenvolvem a sombra, mas ocupam o estrato superior da floresta quando adultas; Clímax espécies que germinam e se desenvolvem sob dossel durante todo o ciclo de vida. RESULTADOS E DISCUSSÃO O município de Marcelândia pertence à mesorregião Norte Mato-grossense e microrregião de Sinop, está localizado no Ecótono Sul Amazônico, onde o mesmo é caracterizado por ser uma área de transição entre as florestas úmidas da Amazônia e os cerrados do Brasil Central. A cobertura vegetal desta região, de acordo com o Projeto RADAMBRASIL 1980, é composta por áreas de Transição ou áreas de Tensão Ecológica, Floresta Estacional Semidecidual, Floresta Ombrófila Densa e a Floresta Ombrófila Aberta. A Floresta Estacional Semidecidual Submontana é a mais representativa no município quando se trata de extensão, pois representa 975,348 ha, um total de 79,58% do território municipal. O clima da região é do tipo Equatorial quente e úmido, havendo duas estações bem definidas: a chuvosa, que ocorre no período de outubro a abril; e a seca, que corresponde aos meses de maio a setembro (SEPLAN, 1999). A Precipitação anual de 2500 mm com temperatura média anual de 24ºc, a altitude média é de 375 m. O relevo é basicamente formado por Planalto Residual, os solos predominantes são do tipo Glei pouco húmico distrófico a moderado com textura média. Segundo IBGE a área da unidade territorial do município perfaz km² de extensão, está situado a 703,2 km da capital Cuiabá. A economia do município consiste no extrativismo vegetal madeireiro, seguido pela pecuária e em menor proporção da agricultura e comércio. O córrego do Relógio possui aproximadamente m de extensão, apresenta diversos usos e possui baixa reserva de matas nativas e ciliares. Com este trabalho foi possível identificar que a micro-bacia do córrego do Relógio apresenta uma problemática ambiental centrada no parcelamento do solo e na ocupação das áreas adjacentes às nascentes e cursos d água. As atividades realizadas nesta micro-bacia têm contribuído com a redução e extinção da mata nativa, assoreamento do leito do córrego, compactação do solo e processos erosivos. Dentre os usos mais impactantes destacam-se a agricultura, a pecuária leiteira e principalmente a criação de suínos, além da construção de moradia à beira dos cursos d água. ASPECTOS FLORÍSTICOS

7 Os remanescentes florestais da área de estudo compreendem principalmente Florestas Estacionais. A Floresta Estacional caracteriza-se por ocorrer em clima com duas estações bem definidas, uma chuvosa e outra seca. Essa sazonalidade causa nas árvores a queda foliar. Ocorrem espécies dominantes com cerca de 25 metros de altura, com eficiente sistema de adaptação a deficiência hídrica, apresentando uma diminuição do sistema foliar. Essa tipologia de vegetação pode ser Semidecidual (submontana ou aluvial), Arborizada ou Aluvial. Nas parcelas demarcadas foram amostrados 139 indivíduos, distribuídos em 25 espécies e 11 famílias botânicas (Tabela 1). Tabela 01. Relação das famílias e espécies encontradas em um fragmento residuário da nascente do córrego do Relógio, Marcelândia, MT. Nome Popular Nome científico Família Sucessão (*) Açaizinho Euterpe catinga Palmae (Arecaceae) P Amescla Trattinickia rhoifolia Burseraceae P Barbatimão-do-mato Stryphnodendron adstringens Leguminosae-Mimosoideae P Buriti Mauritia flexuosa. Palmae Arecaceae P Cambará rosa Gochnatia polymorpha Compositae P Canelão Ocotea velutinar Lauraceae S Canelinha Ocotea pulchella Lauráceae S Caroba Jacaranda cuspidifolia Bignoniaceae P Champagne Dipteryx odorata Leguminosae-Papilionoideae C Embaúba Cecropia purpurascens. Cecropiaceae P Garapa Apuleia leiocarpa Leguminosae C Grandiúva Trema micrantha Ulmaceae S Guanandi Calophyllum brasiliensis Guttiferae S Ingá-branco Inga laurina Leguminosae P Ingá-feijão Inga cylindrica Leguminosae-Mimosoideae P Leiteiro Sapium haematospermum Euphorbiaceae P Lixeira Aloysia virgata. Verbenaceae S

8 Mamoninha-do-mato Mabea fistulifera Euphorbiaceae P Morcegueira Andira inermis. Leguminosae S Morototó Didymopanax morototonii. Araliaceae S Pacova Heliconia marginata Heliconiaceae S Peroba d água Aspidosperma polyneurum Apocyneceae S Sucupira amarela Bowdichia virgilioides Leguminosae-Papilionoideae P Tucumã Astrocaryum vulgare. Palmae (Arecaceae) P Urucum Bixa orellana Bixaceae P (*) Sucessão: P pioneira; S secundária; C- clímax A família Leguminosae apresentou 4 indivíduos, seguido por Lauraceae também com 4 indivíduos, Palmae com 3 indivíduos e demais famílias com 1 indivíduo (Figura 2). No presente estudo, as famílias Leguminoseae e Palmae foram as mais representativas em termos de riqueza, detendo 32% (8) do total de espécies. Por ser região amazônica, este valor está bem abaixo do esperado, já que estudos sobre a riqueza florística registrada em cada hectare de trechos de Floresta Amazônica indicam valores entre 90 e 322 espécies (MACIEL e LISBOA, 1989; LIMA-FILHO et al., 2001). Em um estudo realizado no Maranhão, em apenas m 2 de Floresta Ombrófila foram amostradas 88 espécies (MUNIZ et al.,1994b). Figura 2. Número de indivíduos amostrados por famílias na área de estudo.

9 O número de espécies pode variar de acordo com o trecho da Floresta Amazônica inventariado, pois à medida que se afasta da região central, onde predomina a Floresta Ombrófila, em direção aos extremos, a riqueza florística diminui, mas ainda continua em níveis mais altos quando comparadas com outros tipos florestais. Geralmente, na Amazônia Central são amostradas mais de 200 espécies em um hectare (Silva et al., 1992; Oliveira & Mori, 1999; Lima-Filho et al., 2001; Oliveira & Amaral, 2004), enquanto que mais para o Leste do Estado do Amazonas este número cai para 145 espécies (Amaral et al., 2000). No levantamento florístico o número de espécies foi influenciado diretamente pela inclusão de arbustos finos no levantamento. Em função da adoção desse critério contribuíram para a riqueza florística Sapium haematospermum, Aloysia virgata, Mabea fistulifera. A espécie que mais ocorreu foi a Aspidosperma polyneurum (Figura 3), seguida em menor número por Mauritia flexuosa, Euterpe catinga, Heliconia marginata, Inga cylindrica, Inga laurina, Cecropia purpurascens, Endicheria paniculaa, Euterpe oleracea, Didymopanax morototonii, Ocotea pulchella, Ocotea velutina e Astrocaryum vulgare. Essas 12 espécies somam 60% do total das identificadas. Em razão da sua alta freqüência, podem ser consideradas as espécies de maior adaptabilidade ao ambiente perturbado das nascentes, sendo portanto as mais indicadas para a recuperação de áreas degradadas de APP. Figura 3 Peroba d água (Aspidosperma polyneurum) A abundância de indivíduos nem sempre é proporcional ao número de espécies, ou seja, poucas espécies podem ser representadas por grandes populações ou uma única espécie pode ser muito abundante na comunidade. Esta observação também se estende às famílias, que podem apresentar alta riqueza, mas

10 serem pouco abundantes. Em um trecho de Floresta Ombrófila Densa amazônica, por exemplo, a família Caesalpiniaceae foi representada por 12 espécies e 56 indivíduos, enquanto Lecythidaceae apresentou apenas cinco espécies e 101 indivíduos, evidenciando a desproporção entre riqueza e abundância para as famílias (Amaral et al., 2000). Dentre as espécies arbóreo-arbustivas identificadas, foram encontrados alguns poucos exemplares de Mezilaurus itauba, Cecropia purpurascens, Apuleia leiocarpa, Dipteryx odorata, Trema micrantha e Trattinickia rhoifolia (Figura 4). A análise da estrutura horizontal da área apresentou densidade total de ind/ha, pode-se dizer que a nascente do córrego do Relógio sofre fragmento florestal da nascente do córrego do relógio encontra-se em estágio médio de regeneração. Figura 4 Amescla (Trattinickia rhoifolia) Grupos Ecológicos No que concerne aos grupos ecológicos, 14 espécies foram classificadas como pioneiras, 02 como clímax exigentes de luz e 09 como Secundárias. Verificou-se maior predominância das espécies pioneiras, como efeito da grande intensidade da fragmentação, os quais fornecem condições favoráveis ao maior estabelecimento de espécies exigentes de luz nesses locais. O maciço estudado apresenta uma distribuição em forma de Jinvertido, que é a forma comumente encontrada em florestas naturais (Machado et al., 2004; Botrel et al., 2002). Esta distribuição se justifica por se tratar, originariamente, de um povoamento misto, mas que já possui indivíduos oriundos da regeneração natural no estrato arbóreo.

11 No levantamento florístico foi possível identificar a posição das espécies nos transectos, com relação à proximidade do curso d água: a) Distribuição preferencialmente próxima ao curso d água: Peroba d água, Açaí, Buriti e Pacova. b) Distribuição preferencialmente distante do curso d água: Mamoninha-do-mato, Champagne, Garapa, Grandiúva. c) Distribuição absolutamente indiferente ao curso d água: Caroba, Ingá, Leiteiro, Lixeira, entre outras Dentre as espécies arbustivo-arbóreas que apresentaram as cinco maiores DAP na área de estudo destacam-se: Aspidosperma polyneurum e Calophyllum brasiliensis apresentaram as maiores alturas, também apresentaram os maiores DAP médios. Inga laurina, considerada uma espécie de florestas maduras, destacou-se no seu diâmetro, encontrando-se um indivíduo com várias ramificações, que deu origem a um DAP de 140,28 cm. A Trattinickia rhoifolia apresentou um comportamento típico de espécies pioneiras, com um ritmo de crescimento mais acelerado em DAP. Apesar de não ter se destacado no crescimento em altura, Ocotea velutinar obteve o quinto maior DAP médio. Através desta pesquisa foi possível perceber que há na área de estudo relativa variedade de espécies florestais, resultado provável da interação com áreas adjacentes e da heterogeneidade ambiental, sendo importante enfatizar, o papel fundamental de algumas espécies florestais tanto para a preservação do ecossistema como para a sobrevivência da fauna da região. Destaca-se como exemplo o cumaru ou champagne, o canelão, a pacova e a embaúba, que apesar de seu porte frágil é responsável pela sobrevivência do bicho preguiça. Através da caracterização física da bacia hidrográfica do Córrego do Relógio constatou-se que no decorrer de seu curso d água, 77,8% das propriedades se encontram em desacordo com o que é estabelecido no Código Florestal Brasileiro de 1965, o qual determina preservação permanente de florestas e demais formas de vegetação natural num raio mínimo de 50 (cinqüenta) metros (BRASIL, 2002). Dentre as propriedades investigadas somente 22,2% possuem APP parcial, ou seja, parte de seu curso d água possui a área de preservação permanente (Figura 5). Esta situação sinaliza a urgência na recuperação e conservação dessa micro-bacia e demais cursos d água da região. Figura 5. Área de Preservação Permanente do córrego do Relógio em Marcelândia-MT.

12 As pressões impostas pelas perturbações ambientais ao fragmento florestal do córrego do Relógio, incluindo alteração e destruição da vegetação do entorno, colocam em risco a flora observada nesta área em particular, justificando medidas de conservação e preservação em curto prazo. Para tanto é necessário haver maior engajamento em políticas públicas locais, com envolvimento de órgãos governamentais, não governamentais e comunidade, com a consolidação de práticas educacionais, pois, o envolvimento e a participação pública na gestão desta sub-bacia está muito aquém do proposto pela Lei de Política Nacional dos Recursos Hídricos (LEI Nº 9.433/97). Diante do exposto recomenda-se algumas medidas a serem tomadas na área de estudo e região: Manter as áreas dos fragmentos florestais nativos e realizar monitoramento adequado dos espécimes observados no fragmento florestal das nascentes do córrego do Relógio. Monitorar a espécie Aspidosperma polyneurum, quando isolada, considerando a má qualidade que esta espécie apresenta, decorrente da pressão da floresta. Manter as bordas de contornos dos fragmentos florestais com vegetação primária como gramíneas, e composição de espécies com função de diversidade e função de preenchimento, para propiciar equilíbrio da mata secundária e minimizar os efeitos de borda e tensão ecológica. Para a área de estudo é importante o enriquecimento com novas espécies vegetais, bem como ações de Educação Ambiental nas comunidades do entorno. Para as demais áreas da sub-bacia do córrego do Relógio é importante a tomada de decisões com vistas à sustentabilidade em várias dimensões, dentre outras, recuperação de áreas degradadas, com estabelecimento de reflorestamento, corredores florestais e formação de banco de sementes. Acredita-se que a implantação de tais medidas a curto e médio prazo certamente irão refletir na melhoria da qualidade do ecossistema, bem como no aumento de oferta hídrica na região.

13 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS AMARAL, I.L.; MATOS, F.D.; LIMA, J Composição florística e parâmetros estruturais de um hectare de floresta densa de terra firme no rio Uatumã, Amazônia, Brasil. Acta Amazonica, 30(3): ANDRADE, M. A. Árvores zoocóricas como núcleos de atração de avifauna e dispersão de sementes f. Dissertação (Mestrado em Engenharia Florestal) - Universidade Federal de Lavras, Lavras, BOTELHO, S. A.; DAVIDE, A. C. Métodos silviculturais para recuperação de nascentes e recomposição de matas ciliares. In: SIMPÓSIO NACIONAL SOBRE RECUPERAÇÃO DE ÁREAS DEGRADADAS, 5., 2002, Belo Horizonte. Anais... Belo Horizonte: p BOTELHO, S. A.; DAVIDE, A. C.; FARIA, J. M. R. Desenvolvimento inicial de seis espécies florestais nativas em dois sítios, na região sul de Minas Gerais. Cerne, v. 2, n. 1, p , BOTREL, R. T. et al. Composição florística e estrutura da comunidade arbórea de um fragmento de floresta estacional semidecidual em Ingaí, MG, e a influência das variáveis ambientais na distribuição das espécies Revista Brasileira de Botânica, v.25, p , BRASIL. Ministério da Agricultura e Reforma Agrária. Normais climatológicas Brasília: p. BRASIL. Lei n , 15 set Institui o novo Código Florestal. Disponível em: <http://www.planalto.gov.br/ccivil/leis/l4771.htm>. CARVALHO, D. A. et al. Estudos florísticos e fitossociológicos em remanescentes de Florestas Ripárias do Alto São Francisco e Bacia do Rio Doce - MG. Lavras: Universidade Federal de Lavras/ CEMIG, p. DAVIDE, A. C.; SCOLFORO, J. R. S.; FARIA, J. M. R. Adaptação de 12 espécies florestais em área de empréstimo. In: CONGRESSO FLORESTAL PANAMERICANO, 1.; CONGRESSO FLORESTAL BRASILEIRO, 7., 1993, Curutiba. Anais... Curitiba: SBS/SBEF, 1993a. p INPE. Instituto Nacional de Pesquisa Espaciais. acessado em abril de 2009.

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