EDUCAÇÃO EMOCIONAL NA ESCOLA

Tamanho: px
Começar a partir da página:

Download "EDUCAÇÃO EMOCIONAL NA ESCOLA"

Transcrição

1 Educação Emocional na Escola 3 EDUCAÇÃO EMOCIONAL NA ESCOLA A Emoção na Sala de Aula

2 4 Educação Emocional na Escola

3 Educação Emocional na Escola 5 Jair de Oliveira Santos EDUCAÇÃO EMOCIONAL NA ESCOLA A Emoção na Sala de Aula Salvador Bahia 2000 EDITADO PELA FACULDADE CASTRO ALVES

4 6 Educação Emocional na Escola Copyright 2000, by: Jair de Oliveira Santos Todos os direitos reservados a: Jair de Oliveira Santos Rua Rio de Janeiro, 679, Pituba Telefax: (071) Home Page: Salvador Bahia Brasil Editado pela Faculdade Castro Alves Instituição Mantenedora Administradora Educacional Santos Ltda Rua Mal. Andrea, 226 Pituba Bahia Brasil Cep: CNJP / INSC. EST.: Tel: (071) Fax: a Edição, setembro, S235e Santos, Jair de Oliveira. Educação Emocional na Escola / Jair de Oliveira Santos: A Emoção na Sala de Aula. Salvador, p. 1. Emoções. 2. Psicologia pedagógica. I. Título.

5 Educação Emocional na Escola 7 A Olívia, esposa, companheira e amiga - cuja vida é uma lição de bem querer - com o carinho e o afeto de sempre. Para meus filhos e meus netos, com carinho. A meus Pais, que me ensinaram, com o exemplo, o bem querer e o equilíbrio emocional. In memorian.

6 8 Educação Emocional na Escola

7 Educação Emocional na Escola 9 "Quem conhece aos outros é inteligente Quem conhece a si mesmo é sábio." Lao Tsé - Tao Te King, XXXIII "Um problema da nossa sociedade atual é que temos uma atitude diante da educação como se ela existisse apenas para tornar as pessoas mais inteligentes, para torná-las mais criativas.(...). A utilização correta da nossa inteligência e conhecimento consiste em provocar mudanças de dentro para fora, para desenvolver um bom coração. Tenzin Gyatso Décimo Quarto Dalai Lama Fevereiro de 2000

8 10 Educação Emocional na Escola

9 Educação Emocional na Escola 11 SUMÁRIO Prefácio Apresentação PARTE I Compreendendo a Emoção 1. Que é emoção? Emoções Principais Controle das Emoções PARTE II Porque e Para que Educação Emocional 2. Que é Educação Emocional Bases psicológicas da educação emocional Necessidade da educação emocional Fundamentos e Aspectos Históricos da Educação Emocional A educação emocional deve começar na família Uma experiência bem sucedida Os valores na Educação Emocional Aspectos históricos... 67

10 12 Educação Emocional na Escola PARTE III Alguns Atores da Cena Emocional 4. Conhecendo a nós mesmos Como pensamos Como ampliar a autoconsciência Para conhecer nossas emoções Controle da raiva Tipos de raiva O que faz a pessoa com raiva Reações corporais A raiva no Budismo: O Lamrim e o Dalai Lama A raiva que separa os casais Como controlar e evitar a raiva O mal que a raiva faz Como agir no medo Disfarces e tipos de medo O que nos faz sentir medo Conduta no medo e suas conseqüências Preocupação Como aprendemos a ter medo O medo no local de trabalho Como enfrentar medo e preocupação Ansiedade Como agir na tristeza Tipos e conseqüências da tristeza Depressão Como enfrentar tristeza e a depressão

11 Educação Emocional na Escola Como prevenir o estresse As fases do estresse O que produz estresse Formas e conseqüências do estresse Estresse e memória Como lidar com o estresse Relacionamento Os níveis de Comunicação Relacionando-se nos mesmos níveis Como relacionar-se com pessoa reservada Como relacionar-se com pessoa sociável Como relacionar-se com pessoa de auto-estima baixa Comunicação Sensibilidade Comunicação não verbal Estímulos sociais ou carícias Comunicando-se bem Algumas regras de comunicação PARTE IV Aspectos práticos e teóricos da Educação Emocional 11. Resultados da Educação Emocional Resultados do Programa do Colégio Águia Múltiplas Inteligências Novos Paradigmas Educacionais

12 14 Educação Emocional na Escola PARTE V Cenário da Mente e Evolução do Conceito de Emoção 14. O cenário da mente Atores da consciência e suas relações Significado e Mecanismos das Emoções O urso da floresta As Emoções vêm do cérebro A Emoção é produto do meio A Emoção é uma tendência O inconsciente emocional O cérebro do homem e o cérebro da cobra O centro cerebral das Emoções Considerações finais Referências Bibliográficas

13 Educação Emocional na Escola 15 PREFÁCIO DA SEGUNDA EDIÇÃO Alguns fatores nos levaram a publicar esta segunda edição. O primeiro é que a Educação Emocional na Escola é um novo ramo de conhecimento, ainda em processo de elaboração, na condição de aplicação prática dos conhecimentos referentes à inteligência emocional, conceito ainda em fase de elaboração. Deve-se levar em conta a recente reformulação feita pelo seu criador, Peter Salovey, que declarou recentemente: "Usar as emoções como base para o pensamento e pensar com as próprias emoções pode estar relacionado com competências sociais e comportamentos adequados importantes. No momento, estamos no início da curva do aprendizado sobre inteligência emocional: os próximos anos deverão trazer pesquisas estimulantes que contribuam para nossa compreensão do conceito". Dentro deste espírito, entendemos que deveríamos acrescentar novos conceitos e outras visões. No capítulo da Raiva incluímos a visão da Ira na Psicologia Budista, como uma delusão, segundo uma de suas escrituras fundamentais, o Lamrim (em tibetano), traduzido como "tapas do Caminho", de acordo com Gyatso. Foi incluída também a visão do Dalai Lama sobre a raiva. Incluímos também recentes estudos sobre a raiva entre os parceiros de um casamento, feitos pela psicoterapêuta

14 16 Educação Emocional na Escola americana Bonnie Maslin e novas considerações no capítulo destinado ao Medo. Ampliamos as Considerações Finais, com análises de naturezas sociológicas e filosóficas. Acrescentamos dois novos capítulos, um referente ao Relacionamento (capítulo 9) e outro à Comunicação (capítulo 10), os quais representam a passagem dos estudos da Psicologia Individual para a Psicologia Social. Ambos foram inspirados na nossa experiência com os Programas de Educação Emocional desenvolvidos na Faculdade Castro Alves e no Colégio Águia. No capítulo do Relacionamento (9) são apresentados os objetivos de um relacionamento, a análise de como identificar as necessidades do outro, de como agir para que ele seja duradouro, como trocar informações, técnicas para desenvolver um bom relacionamento, os níveis de comunicação em um relacionamento. Por fim são dadas orientações para relacionamento com pessoas reservadas, ou sociáveis ou com auto - estima baixa. No capítulo 10 analisamos o conceito e os objetivos da comunicação, características de uma comunicação eficaz, a sensibilidade, a comunicação não verbal, as carícias, e técnicas e regras para desenvolver uma comunicação eficaz. O segundo fator, que nos motivou profundamente para a elaboração desta segunda edição, foi a grande aceitação do livro por parte de professores e alunos da Faculdade Castro Alves. A obra foi adotada como livro básico para a disciplina de Educação Emocional, ministrada pioneiramente no Brasil pela Castro Alves, autorizada pelo Parecer 819/99 do Conselho Nacional de Educação. O interesse dos alunos pelos estudos das emoções foi tal que solicitaram à Faculdade a criação de uma nova disciplina, a Educação Emocional II, para se aprofundarem. Foram atendidos e a disciplina será ministrada no segundo semestre curricular. A decisão foi tomada em função dos excelentes resultados obtidos, mensurados através da comparação dos Questionários de Comportamento de Avaliação de Entrada, preenchidos pelos alunos no início do primeiro semestre, e os Questionários de

15 Educação Emocional na Escola 17 Avaliação de Saída, por eles preenchidos no fim do mesmo semestre. O fato de ser um curso pioneiro no ensino superior no Brasil tem despertado a atenção da mídia, e o jornal A TARDE, em sua edição de 9/7/2000 publicou a seguinte entrevista com dois alunos da Faculdade Castro Alves: "O aluno de Marketing, Paulo Barros disse que: "Depois da Educação Emocional passei a ser mais tranqüilo e menos ansioso. Melhorei muito meu convívio familiar, inclusive no relacionamento com a noiva. Acho que a Educação Emocional é fundamental para nossa formação". Silvana Cambuí, também do curso de Marketing, disse que: "O estudo da educação Emocional ajudou muito meu desenvolvimento pessoal. Fiquei mais confiante em mim e passei a me relacionar melhor com todo mundo, inclusive com minha filha. Passei a compreender melhor meu marido, e fiquei mais paciente com ele. Hoje convivo melhor com todos de minha família". O mesmo jornal publicou em sua edição de 28/5/00 outra entrevista com alunos da Castro Alves. Otto Segundo disse sempre ter tido interesse pelo tema, arrematando: 'E agora só faço me interessar mais pelos estudos da Educação Emocional". Mônica Pedrosa declarou que: Depois que passei a estudar Educação Emocional minha relação com o mundo mudou. Sei que no futuro isso vai ser um diferencial em minha carreira profissional, mas no presente já estou colhendo os frutos de conhecer minhas emoções nas relações do cotidiano. Seremos gratos a todos que enviarem sugestões e comentários sobre esta nova edição, pois certamente ajudarão para o aprimoramento de novas edições que virão, face às

16 18 Educação Emocional na Escola novas pesquisas e estudos que serão realizados, havendo a necessidade de permanente atualização. Jair de Oliveira Santos Rua Mal. Andréa, 226, Pituba Salvador, Bahia, CEP

17 Educação Emocional na Escola 19 PREFÁCIO DA PRIMEIRA EDIÇÃO Jair de Oliveira Santos trouxe para o ensino a sua experiência em medicina e em educação médica. E Educação Emocional na Escola: a emoção na sala de aula é um livro gestado na convergência das preocupações com os objetivos educacionais que devem ir muito além do conhecimento discursivo. Como médico e educador, Jair tem uma ilustre coorte de antecessores. A tendência médica bem baiana para a Medicina e para a educação é uma vertente tradicional com destacadas manifestações. Graduado em Medicina, em 1962, antes já era professor de Física no ensino médio. Inclinado para o ensino, ingressa na Faculdade de Medicina da Universidade Federal da Bahia (UFBa), onde realiza toda sua carreira docente de instrutor de ensino superior a professor adjunto. Na atividade fundante da sala de aula, no magistério secundário e superior, formou-se professor. Iniciou a caminhada, como convém, no ensino médio, no Colégio Estadual da Bahia, de 1958 a Já como professor começou a manifestar liderança administrativa em cursos de vestibular, criando depois a sua própria tenda de trabalho, experimentando teorias, métodos e técnicas de ensinoaprendizagem. Eis quando surge o seu Colégio Águia. É neste estabelecimento que o médico e pedagogo vão experimentar os resultados últimos de suas reflexões práticas e filosóficas.

18 20 Educação Emocional na Escola Paralelamente, trabalhará em dois níveis de ensino-médio e superior. No médio, como administrador criativo confirmará anos e anos de conhecimento prático e a educação aristotelicamente é um conhecimento prático, aplicado graduando-se em Pedagogia, pela Faculdade de Educação da Bahia, em 1986, integra prática com teoria. Já a via do ensino superior apresentou-se como uma excelente oportunidade de desenvolver a educação médica. Participa, então, da douta Congregação da Faculdade de Medicina, coordena a disciplina Iniciação do Exame Clínico, preside a comissão de currículo, assessora, compõe e coordena o Colegiado do Curso de Medicina. Durante mais de uma dezena de anos ocupou-se da Educação Médica, tendo pela mesma um denodado carinho demonstrado em Educação Médica; Filosofia, valores e ensino (Salvador, 1987), e em Educação Médica e Humanismo (Salvador, 1984). Freqüenta congressos e reuniões da Associação Brasileira de Educação Médica e colabora com a Revista Brasileira de Educação Médica. Como profissional da medicina, cardiologista, ocupa várias posições em hospitais, na Secretária de Saúde do Estado da Bahia, no Pronto-Socorro e em centros de saúde. Pela vereda da educação que soube tão bem abrir, segue com o seu Colégio Águia, como fundador, diretor, professor e orientador. Aposentando-se da Ufba, concentra-se nos seus experimentos pedagógicos, emprestando especial atenção à qualidade total na escola, à educação holística e, mais recentemente, à educação emocional, à qual dedica vários ensaios acerca do medo, estresse, controle da raiva, tristeza, autoconsciência, sistematizando-os neste volume. Dentre as instituições culturais e profissionais, médicas e educacionais a que pertence, destaco particularmente a Academia Baiana de Educação, da qual Jair é membro titular e efetivo no apoio. Ingressou em 1984, dirigiu e sustenta a Revista, presidiu a Academia de 1996 a Juntos elaboramos o estatuto e o regimento do sodalício. Foi na Academia de Educação que nos encontramos e cada vez mais nos aproximamos.

19 Educação Emocional na Escola 21 A Educação Emocional na Escola é uma manifestação de sua vocação acadêmica e produção científica, composta de vários trabalhos médicos e educacionais. Em síntese, como o autor afirmar: "Na elaboração deste trabalho moveu-nos a intenção de chamar a atenção dos que se dedicam à educação, para uma pedagogia voltada para os sentimentos e emoções". Um pouco mais adiante, continua: "Acreditamos que a educação com objetivos exclusivamente cognitivos tem se mostrado insatisfatória pois apesar de tantos avanços tecnológicos, da televisão, dos computadores, multimídia, utilizados no processo educacional, as novas gerações têm mostrado crescente falta de competência emocional e social". No seu esforço de reflexão, Jair, com este livro contribui para o debate acerca da aplicação da inteligência emocional na escola. Edivaldo M. Boaventura

20 22 Educação Emocional na Escola

21 Educação Emocional na Escola 23 APRESENTAÇÃO DA PRIMEIRA EDIÇÃO Este livro é o fruto do esforço que desenvolvemos há décadas no sentido de melhor compreender este fascinante aspecto da personalidade humana que é sua dimensão emocional. Desde os anos 70 tivemos nossa atenção voltada para o tema, inclusive pela condição de Professor da Faculdade de Medicina da Universidade Federal da Bahia, pois esta é uma dimensão de grande significado no exame do paciente, e que deve ser devidamente pesquisada e interpretada na anamnese, quando é feito o estudo de sua história social e personalidade. Na época a bibliografia era limitada, pois as pesquisas relativas ao tema eram escassas. Nos anos 80, ao fazer um curso de graduação em Pedagogia, na Faculdade de Educação da Bahia, estudando Psicologia Geral e Psicologia da Educação, tivemos oportunidade de aprofundar nossas reflexões sobre este intrigante tema que é a emoção humana. A partir dos anos 80, surgiram novos pesquisadores sobre o assunto, e, principalmente nos anos 90, intensificaram-se as pesquisas, com avanço considerável da quantidade de conhecimentos disponíveis sobre a função de áreas cerebrais relacionadas com o desenvolvimento do processo emocional. Tornaram-se conhecidas ligações entre o cérebro emocional, principalmente a amígdala cerebral e o neo-córtex, parte mais recentemente desenvolvida do cérebro humano,

22 24 Educação Emocional na Escola sede da função cognitiva. Foram identificados tratos nervosos ligando as regiões onde se processam as emoções e as zonas onde se processa o pensamento racional (neo-córtex cerebral), possibilitando o entendimento de relações entre a mente emocional e a mente racional. Em 1997 publicamos um livro sobre educação emocional, com o título "Educação Emocional aspectos históricos, fundamentos e resultados", logo esgotado. Não fizemos nova edição face a nossa intenção, ora concretizada, de publicarmos a obra atual, ampliada, contendo inclusive o resultado de nossa experiência com a implantação de um Programa de Educação Emocional no Colégio Águia, por nós fundado e dirigido. Este programa foi grande fonte de aprendizagem, e nos motivou a elaborar e publicar seis manuais, para utilização dos alunos, abordando os conceitos fundamentais da psicologia das emoções, a autoconsciência, a raiva, o medo, a tristeza e o estresse. Na elaboração deste trabalho moveu-nos a intenção de chamar a atenção dos que se dedicam à educação, para uma pedagogia voltada para os sentimentos e emoções. É um tema que não tem sido devidamente abordado na escola, e sobre o qual devem ser desenvolvidos estudos, reflexões, pesquisas e experimentos, visando estabelecer uma metodologia adequada para sua implantação e implementação. Em todos os cantos do mundo as estatísticas mostram o aumento da violência, da intolerância, do medo, da depressão e do suicídio entre os jovens. A violência e a intolerância dos adultos também é crescente, registrando-se um número cada vez maior de separações e divórcios entre os casais. Estes são sintomas evidentes de erosão e ruptura do tecido social, decorrentes da incompetência emocional e social do homem e da sua incapacidade de convívio harmônico na sociedade. Acreditamos que a educação com objetivos exclusivamente cognitivos tem se mostrado insatisfatória pois, apesar de tantos avanços tecnológicos, da televisão, computadores, e multimídia utilizados no processo educacional, as novas gerações têm mostrado crescente falta de competência emocional e social. O elevado índice de delinqüência juvenil, em todas as classes

23 Educação Emocional na Escola 25 sociais, nas mais abastadas e nas menos favorecidas economicamente, somado aos fatores acima mencionados, são uma demonstração inquestionável da falência dos paradigmas educacionais vigentes e da necessidade de uma reflexão mais profunda sobre eles. Cabe aos educadores conscientes de suas responsabilidades, buscar alternativas de soluções para esta grande crise, as quais devem passar pela inclusão do paradigma emocional no processo educacional. Este é o objetivo maior deste estudo: chamar a atenção para a necessidade da educação emocional sistemática, dentro da escola e no lar. Defendemos que deve ser dada à emoção e aos sentimentos da criança, do adolescente e do adulto, a mesma atenção dada à sua educação cognitiva. Podemos inferir de experiências educacionais efetuadas nos Estados Unidos, referidas neste trabalho, que é através da educação das emoções que poderemos contribuir para modificar este quadro dramático. A obra atual contém as idéias expostas no livro anterior e os conteúdos desenvolvidos nos manuais citados, utilizados como textos básicos pelos alunos que participaram do programa, do ensino fundamental e médio, e pelos professores, orientadores e supervisores nele envolvidos. Apresentamos novos conceitos resultantes de pesquisas bibliográficas efetuadas recentemente, e é relatada nossa experiência com a implantação do Programa de Educação Emocional no Colégio Águia. Ao concluir a elaboração deste trabalho tivemos reforçada nossa convicção de que há necessidade absoluta da implantação da educação emocional na escola, com a implementação do Paradigma Emocional, ao lado do Paradigma Cognitivo- Racional, que está esgotado, enquanto parâmetro exclusivo. O plano do livro foi desenvolvido levando em conta a necessidade de serem estabelecidas bases conceituais necessárias e indispensáveis para a consecução de seus objetivos, inclusive o de servir como obra de apoio para a implantação da Educação Emocional na Escola. Usamos o termo escola, numa concepção lato sensu, abrangendo qualquer estabelecimento que se destine à educação, do nível

24 26 Educação Emocional na Escola fundamental, ao médio e ao superior, sejam institutos de educação superior, faculdades isoladas, faculdades integradas, centros universitários ou universidades. Defendemos a implantação da educação emocional também no nível superior, e na Faculdade Castro Alves, que será brevemente implantada e dirigida por nós, com cursos de Administração Geral, Administração com ênfase em Marketing e Administração com ênfase em Recursos Humanos, em todos os currículos plenos constará a disciplina Educação Emocional. A obra está dividida em cinco partes, sendo o objetivo da primeira buscar elementos que permitam a compreensão do que seja uma emoção (capítulo 1). Na segunda parte, nos capítulos 2 e 3, procuramos conceituar a educação emocional, estabelecer seus fundamentos e relatamos alguns aspectos históricos. A terceira trata da autoconsciência, de algumas das emoções principais - raiva, medo, tristeza e do estresse (capítulos 4 a 8). Na quarta parte consideramos os resultados da educação emocional, e analisamos a teoria das múltiplas inteligências e os paradigmas educacionais (capítulos 9 a 11). Na quinta e última parte, nos capítulos 12 e 13, analisamos o cenário da mente, e o significado e mecanismos das emoções. No primeiro capítulo, à guisa de introdução, apresenta os conceitos fundamentais da Psicologia das Emoções. A emoção é considerada uma forma de energia e uma reação do organismo a estímulos externos ou internos. Segue-se análise dos seus elementos e das reações corporais que produzem, e classificação. Continua com o controle das emoções e são estabelecidas as bases psicológicas da educação emocional, bem como seus objetivos, sendo enfatizada sua necessidade. No capítulo 2 procuramos situar a educação emocional como parte da educação holística, mostrar sua necessidade e conceituá-la, mostrando a importância da introspecção em sua metodologia. Alertamos para as diferença entre a educação emocional na escola, que tem objetivo profilático, e nos consultórios de psicoterapia, que tem objetivos terapêuticos. Alertamos para o fato de que, apesar de todo o progresso material e cognitivo do homem, é crescente sua infelicidade, pois número crescente de pessoas apresentam perturbações de

25 Educação Emocional na Escola 27 natureza mental, e procuram nos tranqüilizantes, álcool e nas drogas solução para seus problemas existenciais. O capítulo 3 trata dos fundamentos e aspectos históricos da educação emocional. Nos fundamentos consideramos seus princípios, o papel da família como fonte de ensinamentos, o papel da empatia, os limites do comportamento do educando e a relação entre educação emocional e valores. Nos aspectos históricos, enfatizamos que a preocupação com as emoções é antiga, tendo sido objeto do pensamento e da observação oriental, no budismo, hinduísmo e entre os judeus essênios, dentre outros. O capítulo 4 trata da Autoconsciência, seu conceito e importância prática, seus elementos, e uma classificação das pessoas quanto à autoconsciência e à reação às emoções. Analisamos os tipos de pensamentos, com ênfase nos diálogos internos e nos pensamentos automáticos e a importância deles na Educação Emocional. São analisadas formas de ampliação da autoconsciência, recomendações para monitorá-la e a importância do relaxamento. Por fim é considerado o autoconhecimento emocional, através da meditação, música e do diário de emoções. O capítulo 5 trata da raiva, seu significado e finalidade, e seus mecanismos desencadeadores, tipos, conduta da pessoa enraivecida e de suas reações corporais. Analisamos suas formas de manifestação e os meios para identificá-la, bem como as formas de ação diante dela, como saber se alguém está com raiva e os meios para o controle dela. Por fim, recomendações do que fazer para evitá-la e seus efeitos deletérios sobre o coração e o corpo. No capítulo 6 trata do medo-conceito, origem genética e influência do meio ambiente na sua expressão, seus disfarces, tipos e causas, a conduta da pessoa com medo e suas conseqüências, e as reações da pessoa que está com medo. A preocupação, das formas mais comuns do medo, tem atenção especial, com orientação para como agir diante dela, bem como diante da ansiedade. Por fim, tratamos da questão da utilidade do medo e da sua repressão.

26 28 Educação Emocional na Escola O capítulo 7 refere-se à Tristeza - seu conceito, a questão de sua origem genética e da influência do meio ambiente na sua expressão. Segue análise da sua função, das diferentes formas de apresentação, da reação de luto, sua importância e suas diferentes etapas, tipos e causas, conduta da pessoa com esta emoção e suas conseqüências, bem como as reações que o organismo apresenta quando a pessoa está triste. A depressão, forma de luto muito freqüente merece atenção especial, com orientação para seu reconhecimento prático e dos fatores que podem interferir em seu aparecimento. Por fim, orientação do que deve e do que não deve ser feito diante da tristeza e a depressão, e a questão da repressão da tristeza. O capítulo 8 trata do estresse, sendo apresentado seu conceito e significado, fases e sintomas, causas, tipos e conseqüências no organismo: coração, tensão arterial, infecções, diabetes, estômago, intestino, e glândulas endócrinas. É tratada a relação entre estresse e memória e é dada orientação do que deve e do que não deve ser feito por uma pessoa estressada. No capítulo 9 são abordados os resultados da educação emocional obtidos em experiências escolares e pesquisas laboratoriais, desenvolvidas nos Estados Unidos. Os efeitos vão desde a melhora do controle dos impulsos e do autocontrole de um modo geral, até à melhoria do relacionamento social e familiar, com menos delinqüência, redução da ansiedade e melhor auto-estima. Tratamos dos resultados de nossa experiência no Colégio Águia. O capítulo 10 refere-se às Múltiplas Inteligências de Gardner, pensamento que representa um grande avanço, carecendo entretanto de estudos, experimentos e pesquisas para sua implantação adequada na escola, em larga escala. O capítulo 11 contempla a questão dos novos paradigmas emocionais, e nele expressamos nosso pensamento, enfatizando o esgotamento do paradigma cognitivo-racional, enquanto modelo único e advogamos a necessidade da operacionalização de novos modelos: do paradigma emocional, do paradigma das múltiplas inteligências e do paradigma

27 Educação Emocional na Escola 29 holístico, considerando uma necessidade imperiosa a busca de alternativas de soluções. No capítulo 12, descrevemos o cenário em que se desenvolvem a funções psíquicas - o cenário da mente, considerando-a como uma função da ativação dos neurônios cerebrais. Analisamos as relações do campo da consciência com o inconsciente, e tratamos dos conceitos de elementos fundamentais para o processo da educação emocional vontade, atenção e pensamento. O capítulo 13 trata da evolução do conceito de emoção a partir das idéias de William James, que a concebeu como reação do organismo. Seguem as idéias de Cannon e Bard, que conceituaram a emoção como o resultado de processos que têm curso no cérebro, no hipotálamo. Continuamos com a abordagem cognitivista de Stanley Schachter e Jerome Singer, que destacam no processo emocional o papel da consciência, abordagem endossada por Magda Arnold na sua teoria da avaliação, que admite ser a percepção da emoção resultante de uma tendência à ação que a pessoa exposta a uma experiência emocional tem. A avaliação é a apreciação mental do dano ou benefício potencial de uma situação. São descritas as concepções de Robert Zajonc e de Joseph Le Doux sobre o inconsciente emocional, bem como as de Papez sobre o fluxos do sentimento e de pensamento na gênese das emoções. Finalmente, tratamos da teoria do sistema límbico e do cérebro trino de Paul Mac Lean e apresentamos as restrições a ela feitas por Le Doux, e o papel da amígdala cerebral na gênese da emoções. Seremos gratos a todos que enviarem sugestões e comentários sobre este trabalho, pois certamente ajudarão para o aprimoramento de novas edições que virão, pois este é um tema de ponta do novo conhecimento humano, e, face às novas pesquisas que serão realizadas, haverá a necessidade de permanente atualização. Jair de Oliveira Santos Rua Rio de Janeiro, 679, Pituba Salvador, Bahia Cep

28 30 Educação Emocional na Escola

29 Educação Emocional na Escola 31 PARTE I COMPREENDENDO A EMOÇÃO

30 32 Educação Emocional na Escola

31 Educação Emocional na Escola 33 1 O que é Emoção? EMOÇÃO É UMA REAÇÃO DO ORGANISMO Em uma sessão do Programa de Educação Emocional do Colégio Águia, um aluno relatou a seguinte experiência: estava passeando de bicicleta na orla marítima quando um desconhecido lhe deu uma "fechada", fazendo com que ele se desequilibrasse e caísse no chão. Na hora, sentiu a cabeça confusa, sem poder distinguir bem as coisas, ficou muito irritado, o coração disparou, como se quisesse sair pela boca, a respiração ficou acelerada, as mãos ficaram frias e suando muito, o rosto quente, o sangue "fervendo", a boca seca, os braços e as mãos ficaram contraídos. Levantou-se, pegou a bicicleta e pedalou velozmente em direção ao ciclista que o derrubou, até alcançá-lo. Gritando muito, aos berros, a voz profundamente alterada, começou a bater boca com ele, quase chegando aos murros. Só não chegaram aos tapas porque o outro ciclista lhe pediu desculpas, dizendo que não tinha sido sua intenção derrubá-lo, e que o choque tinha ocorrido porque ele estava distraído. Este é um exemplo de uma emoção, que é uma reação do organismo humano em resposta a estímulos que vêm de fora do corpo

32 34 Educação Emocional na Escola ou de dentro dele 38. A emoção é uma forma de energia mental que produz reações no organismo vivo. Uma emoção surge em uma pessoa quando alguém é vítima de uma agressão, como no caso do nosso ciclista ou quando alguém, irritado após um desentendimento, agride outra pessoa com um tapa. Em ambos os casos o agredido é tomado pela raiva, e o estímulo que a produziu foi a agressão. Em toda emoção há três reações do organismo: uma a nível mental, outra a nível corporal e uma terceira a nível do comportamento da pessoa. A nível mental há uma experiência emocional psicológica que pode ser de agitação ou lentidão. Quando o ciclista foi abalroado e caiu, sua cabeça ficou agitada e meio confusa, e ele ficou sem saber direito o que fazer. A nível corporal, o organismo sofre reações internas no seu funcionamento durante a emoção, e a pessoa pode sentir o coração disparar e a respiração ficar mais rápida, quando agredida. Outra reação que a emoção determina é de mudança de comportamento, surgindo uma tendência para aproximação ou afastamento do objeto que produz o estímulo. Depois de ter tomado o tapa, a pessoa pode sentir vontade de aproximar-se do agressor para revidar a agressão, numa reação de luta ou vontade de afastar-se dele, numa reação de fuga. Um empresário amante da cultura oriental e que se dedicava há muitos anos à prática de meditação fazia uma curta viagem para tratar de negócios. A viagem transcorria bem e ele meditava concentrandose em sua respiração. Sua mente atenta percebia os acontecimentos em volta e ele sentia profundamente relaxado, atento aos pensamentos intrusos que às vezes tentavam penetrar em sua mente. Sentia a respiração lenta, as batidas do coração lentas e as mãos quentes. O avião começou a baixar e foi anunciado o pouso. Acostumado a viajar, o empresário não sentiu medo durante o pouso, apesar do avião ter dado uns tombos na aterrissagem. Quando o avião parou, notou que suas mãos estavam frias e suando abundantemente. O que nosso amigo empresário teve foi medo. Mas o medo dele não se manifestou a nível mental (pois ele não teve o sentimento de medo), mas apenas a nível corporal, com estimulação das glândulas sudoríparas de suas mãos, que ficaram suando abundantemente. Conscientemente ele não teve medo, não teve a experiência mental do medo, mas percebeu apenas a reação corporal da emoção. Isto mostra que a emoção se desenvolve em dois níveis: o nível consciente, em que há percepção da experiência emocional e o nível inconsciente, em que há percepção imediata da existência da emoção,

33 Educação Emocional na Escola 35 tomando-se conhecimento dela posteriormente através de sinais indiretos, resultantes da ativação do sistema nervoso simpático (coração acelerado, respiração acelerada, etc.). Em síntese, toda emoção é uma reação do organismo, com três tipos de respostas: uma mental (de agitação ou depressão), uma resposta interna do organismo (no caso da raiva, disparam o coração e a respiração) e uma resposta comportamental (de aproximação ou de afastamento, no caso da raiva). COMPONENTES DE UMA EMOÇÃO Numa emoção devem ser considerados quatro elementos: o conhecimento da situação em que ela ocorre, a experiência mental, a reação corporal e reação da pessoa em relação à causa da emoção. O conhecimento da situação em que ocorre a emoção é importante para que se saiba em que circunstâncias ela ocorre o que permitirá a prevenção do aparecimento da mesma emoção depois. Quando a pessoa está preparada, esperando o aparecimento da emoção, isto facilita seu controle. A experiência mental da emoção é aquilo que se sente quando está emocionado. Pode ir de uma sensação agradável ou desagradável, até uma sensação de agitação ou lentidão. É agradável a sensação na alegria e no afeto: ocorre quando se recebe um presente, ou uma boa notícia ou se encontra alguém que se quer bem. É desagradável a sensação no medo, na tristeza e na raiva. A pessoa fica triste ao receber a notícia da morte de uma pessoa que gosta, quando perde um parceiro sentimental ou seu melhor amigo ou quando seu cachorrinho morre. Pode ficar com medo de perder o emprego ou de ter o salário reduzido, com medo dela ficar doente ou uma pessoa mais chegada da família. Pode ficar com raiva de seu colega porque teve um atrito com ele ou porque alguém bateu em seu carro. A pessoa pode sentir uma agitação mental, uma maior vivacidade mental, no caso da raiva e da alegria, uma lentidão mental ou mesmo depressão, sentir-se "prá baixo", no caso da solidão, tristeza e depressão. As reações corporais na emoção 38 são importantes para a pessoa saber quando está emocionada ou quando alguma pessoa com que esteja lidando está emocionada, por isto devemos aprender a reconhecê-las. Elas podem aparecer em diversos locais do corpo: no

34 36 Educação Emocional na Escola rosto, músculos, vasos sangüíneos, sangue, coração, pulmão, olhos, nervos e glândulas. No rosto a reação varia de uma emoção para outra, com características próprias no medo, raiva, tristeza, alegria e desprezo. Nos músculos pode haver contração ou relaxamento muscular: no medo há contração dos músculos para permitir a fuga. Na raiva há também contração dos músculos, que tanto serve para a luta quanto para a fuga. No afeto/amor, há um relaxamento muscular generalizado. Nos vasos sangüíneos pode haver estreitamento ou dilatação. Quando há estreitamento dos vasos do rosto a pessoa fica pálida, como ocorre geralmente quando alguém está com medo. Se houver dilatação dos vasos a pessoa fica avermelhada, como na maioria dos casos de raiva ou quando se tem uma alegria muito forte. Nas glândulas salivares, há um aumento da produção de saliva e a boca fica "cheia de água" no afeto/ amor. Na raiva e no medo a boca fica seca. Com as glândulas que fabricam o suor, pode haver aumento dele, no caso da raiva e do medo. O coração pode disparar quando a emoção é intensa, como na raiva, no medo e na alegria. A respiração pode ficar mais rápida nas emoções intensas, como na raiva, medo e alegria. Nos olhos, ao lado das lágrimas na tristeza e na alegria, pode haver também uma dilatação das pupilas e a pessoa ficar com os olhos "esbugalhados", na raiva, no medo e no amor/afeto. A mudança na voz é uma reação importante do corpo. Na raiva a voz fica ríspida e grosseira, enquanto no amor/afeto ela fica suave e doce. Quando há uma emoção hormônios elaborados no corpo o preparam para determinado tipo de resposta: na raiva, graças à estimulação do simpático, há maior produção de adrenalina e noradrenalina, levando maior quantidade de sangue para os músculos facilitando suas ações. Aceleram-se os batimentos cardíacos, aumenta a intensidade da contração do miocárdio. No medo, o sangue vai em maior quantidade para as pernas, facilitando uma possível fuga, havendo uma sensação de imobilidade durante algum tempo. No amor, nos sentimentos afetuosos e após a satisfação sexual, em vez da reação de "lutar ou fugir", encontrada na raiva e no medo, há uma reação oposta, comandada pelo parassimpático: é a resposta de relaxamento, que gera uma sensação geral de calma e satisfação. Veremos posteriormente em detalhes as modificações corpóreas das emoções, que variam de uma para outra. Na raiva, devido à descarga de adrenalina e noradrenalina, há taquicardia, o coração

35 Educação Emocional na Escola 37 dispara, calor é sentido na face, que fica enrubescida, avermelhada. Aparece suor na testa e nas mãos, acompanhado de tremores das mãos e dos membros e de uma expressão facial característica das pessoas enraivecidas - os músculos faciais contraídos fortemente em uma carranca típica. No medo a expressão facial é bem conhecida: olhos esbugalhados, bem abertos, com os cantos internos suspensos. A boca aberta com os cantos dos lábios puxados para trás, as sobrancelhas franzidas, devido à contração dos músculos da face, com rugas no meio da testa. No desprezo há contração unilateral dos músculos dos lábios e da face, repuxando a comissura labial, o canto do lábio, para o lado, entortando a boca para a esquerda ou para a direita. Na depressão acentuada há uma expressão característica com repuxamento dos cantos da boca para baixo, devido à contração da musculatura facial, acompanhada de um olhar distante, fixo e vazio. Na alegria, além do brilho e da vivacidade do olhar, os lábios são repuxados para cima com a abertura de um sorriso espontâneo. EMOÇÕES PRINCIPAIS Consideram-se cinco emoções básicas 39 : raiva, medo, tristeza, alegria/prazer, afeto/amor. Elas podem se apresentar de forma mais branda ou mais intensa. A raiva, por exemplo, tem uma forma extrema na fúria 40 e outra mais suave na irritação e na ironia. Outras formas de raiva são o ódio, a revolta, o ressentimento, a indignação, o aborrecimento, a vingança, a violência, o mau humor, a rivalidade, a animosidade, a hostilidade. A forma extrema do medo é o terror e a mais branda é a preocupação: quem está preocupado com alguma coisa é porque está com medo desta coisa. Alguém que está preocupado com a prova final de Matemática é porque está com medo de ser reprovado nela, porque está inseguro com seus conhecimentos, provavelmente porque não estudou direito durante o ano. Outras formas de medo são a ansiedade, angústia, timidez, apreensão, nervosismo, cautela, inquietação, etc. A forma extrema da tristeza é a depressão severa, mas ela pode manifestar-se de formas mais suaves, como sofrimento, mágoa, pesar, tédio, desalento, solidão, nostalgia, amargura, desânimo, desalento, melancolia, etc. Outras formas de manifestação da alegria/prazer são: felicidade, contentamento, deleite, diversão, satisfação, bom humor. O afeto/amor

36 38 Educação Emocional na Escola pode manifestar-se como aceitação, amizade, afinidade, confiança, dedicação, adoração e paixão. MENTE EMOCIONAL E MENTE RACIONAL Emoção é uma palavra que vem do latim, movere (que significa mover), precedida do sufixo ex (para fora), significando afastar-se. Em toda emoção há uma tendência à ação. O Oxford English Dictionary define emoção como: "Qualquer agitação ou perturbação da mente, sentimento ou paixão; qualquer estado mental veemente ou excitado". Goleman 8 entende que emoção se refere a um sentimento e seus pensamentos distintos, estados psicológicos e biológicos, e a uma gama de tendências para agir. Aceita-se atualmente a existência de duas mentes, a racional e emocional. Enquanto a mente racional é capaz de ponderar e refletir, permitindo uma resposta mais demorada aos estímulos, a mente emocional relaciona-se a um sistema de conhecimento impulsivo e rápido, que permite respostas rápidas e instantâneas em situações nas quais a vida está em perigo, e em que a demora da resposta poderia representar a morte. A mente emocional é nossa proteção contra o perigo, baseando-se nas primeiras percepções para agir e reagindo ao quadro total sem analisá-lo detidamente. Sua reação é instintiva, imediata, não reflexiva. Para Mac Lean a base orgânica das emoções do homem está no seu cérebro, principalmente no chamado sistema límbico (do latim limbus, margem): um conjunto de formações neurológicas que cerca e limita o tronco cerebral. Ele resultou da evolução do cérebro dos mamíferos e dos répteis, ao longo de milhões de anos de evolução. O cérebro cresceu de baixo para cima, desenvolvendo-se os centros superiores a partir dos inferiores. Quando estamos tomados pelas emoções - amor, ódio, paixão, raiva, medo, e outras - estamos sob o jugo do sistema límbico, que então controla nosso comportamento. Veremos no capítulo Significado e Mecanismo das Emoções, que Le Doux nega a possibilidade de existência do sistema límbico e acredita que cada emoção pode requerer diferentes sistema cerebrais para processar-se, não existindo apenas um único sistema. A parte mais recentemente desenvolvida do cérebro humano, denominada neocórtex, é a sede do pensamento e contém os centros que integram aquilo que é percebido pelos sentidos - tato, olfato,

37 Educação Emocional na Escola 39 gosto, visão e audição - que foram criados para que o homem percebesse o meio em que vive. As áreas emocionais estão ligadas com a neocórtex através de milhares de circuitos neuronais, permitindo aos centros emocionais grandes poderes sobre o comportamento humano, chegando às vezes a dominá-lo, durante os "seqüestros emocionais". Existe habitualmente um funcionamento integrado entre o cérebro emocional e o neocórtex, permitindo harmonia das ações humanas, racionais e emocionais. Os centros superiores não podem controlar totalmente a vida emocional e a Educação Emocional objetiva exatamente criar condições para o controle dos impulsos emocionais. Existe uma área do cérebro emocional, acima do tronco cerebral, denominada de amígdala, que é fundamental para a vida emocional. Foi verificado que a vida sem amígdala é destituída de significados emocionais: animais que têm a amígdala retirada são incapazes de sentir medo ou raiva e perdem o impulso para competir ou cooperar, ficando com as emoções embotadas ou ausentes de um modo geral. Sabe-se hoje que, quando há uma situação desencadeadora de medo, a amígdala estimula a secreção dos hormônios que vão desencadear a reação de "luta-fuga", determinando também a contração dos músculos faciais relacionados com o medo. A amígdala está ligada ao tálamo através de neurônios que permitem comunicação direta, numa transmissão mais rápida, permitindo resposta mais pronta, como no caso dos seqüestros emocionais. Neles o cérebro tem seu funcionamento totalmente comandado pela mente emocional e o comportamento do indivíduo é totalmente irracional. É o caso de acessos de fúria durante os quais o indivíduo não tem consciência do que está fazendo, nem se lembra de detalhes posteriormente. CONTROLE DAS EMOÇÕES POSITIVAS E NEGATIVAS De acordo com o efeito agradável ou desagradável produzido, as emoções são classificadas em positivas e negativas. Positivas são as que produzem efeitos agradáveis, como a alegria/prazer e o amor/afeto. Negativas são as que produzem efeitos desagradáveis, como o medo, a raiva e a tristeza. De acordo com o efeito sobre o comportamento, de aproximação ou afastamento, as emoções podem produzir tendência de

38 40 Educação Emocional na Escola aproximação, no caso das que ativam sentimentos agradáveis como a alegria/prazer e o amor/afeto ou tendência de afastamento, no caso de medo, tristeza e raiva. De acordo com a origem as emoções podem ser inatas e aprendidas 40. As inatas são as que o indivíduo nasce com elas, e as aprendidas são produzidas por estímulos aprendidos e por situações sociais. Uma mesma emoção raiva, medo e tristeza pode ser inata ou aprendida, a depender de como foi gerada. Através de nossa vontade, do nosso querer, podemos controlar o comportamento gerado por nossas emoções 37. Se alguém está com raiva pode controlar-se, em vez de entregar-se à vontade de bater ou xingar a pessoa que lhe enraiveceu. Para isto devemos desviar o pensamento e a atenção daquilo que nos causou a raiva. A atenção e o interesse reforçam as emoções 37, logo reforçam a raiva. A atenção é como uma lente de aumento com que vemos a emoção. É como um farol que ilumina as emoções melhor para nós que assim conviveremos muito melhor com as pessoas do nosso círculo de amizades. Existem técnicas, simples e fáceis de serem aplicadas, que permitem o controle da atenção e do pensamento, logo, o controle da raiva. Basta a nós querermos utilizá-las e termos persistência e disciplina na aplicação delas. Uma delas é a Técnica de Substituição 37 : pensar em outras coisas e desviar a atenção da raiva ou de outra emoção desagradável. Pensar ou imaginar coisas agradáveis e procurar manter estes pensamentos e imagens durante muito tempo em nossa mente, até que a raiva tenha enfraquecido e desaparecido. Recorde uma cena agradável, relembrando detalhes dela: um passeio na praia, um passeio no campo, um bonito por de sol, uma visão das ondas do mar quebrando nas pedras, o barulho das ondas do mar, uma viagem de carro em uma estrada muito bonita, etc. Não tente esquecer a raiva reprimindo-a diretamente, pois geralmente não dá bom resultado. Outra técnica para combater emoções negativas, o medo e a tristeza, é a técnica de "agir como se": 35 quando se sentir triste, deprimido ou inseguro, em vez de entregar-se à tristeza, à depressão, à melancolia e ao medo, procure agir como se estivesse alegre, otimista e confiante. O segredo é não se entregar. É possível o controle de suas emoções e isto depende de um esforço seu para consegui-lo.

39 Educação Emocional na Escola 41 SÍNTESE A base orgânica das emoções do homem está no cérebro emocional, um conjunto de formações neurológicas que cerca e limita o tronco cerebral resultante da evolução do cérebro dos mamíferos e dos répteis ao longo de milhões de anos, que cresceu de baixo para cima, desenvolvendo-se os centros superiores a partir dos inferiores. Quando estamos tomados pelas emoções - amor, ódio, paixão, raiva, medo e outras - estamos sob o jugo do cérebro emocional, que então controla nosso comportamento. A parte mais recentemente desenvolvida do cérebro humano, denominada de neocórtex, é a sede do pensamento e contém os centros que integram o que é percebido pelos sentidos (tato, olfato, gosto, visão e audição). As áreas emocionais estão ligadas com a neocórtex através de milhares de circuitos neuronais, permitindo aos centros emocionais grandes poderes sobre o comportamento humano. A mente emocional existe em oposição à mente racional. Enquanto a racional é capaz de ponderar e refletir, permitindo uma resposta mais demorada aos estímulos, a mente emocional relaciona-se a um sistema de conhecimento impulsivo e rápido, que permite respostas rápidas e instantâneas. A mente emocional é nossa proteção contra o perigo: baseia-se nas primeiras percepções para agir e reage ao quadro total sem analisá-lo detidamente. Sua reação é instintiva, imediata, não reflexiva. A amígdala cerebral está ligada ao tálamo através de neurônios que permitem uma transmissão mais rápida dos impulsos nervosos, resultando uma resposta mais pronta, como no caso dos seqüestros emocionais. Neles o cérebro tem seu funcionamento totalmente comandado pela mente emocional e o comportamento do indivíduo é totalmente irracional. É o caso de acessos de fúria durante os quais o indivíduo não tem consciência do que está fazendo, nem se lembra de detalhes posteriormente. A emoção é uma reação do organismo em resposta a estímulos externos ou internos. Ele reage com três respostas: uma mental de agitação ou depressão, uma resposta interna no seu funcionamento e uma resposta comportamental, que pode ser de aproximação, afastamento ou paralisia.

40 42 Educação Emocional na Escola Devemos procurar as reações corporais da pessoa com emoção no rosto, músculos, vasos sangüíneos, glândulas salivares e sudoríparas, coração, respiração, olhos e voz. Na raiva, a face fica contraída, pálida ou avermelhada, os músculos do corpo se contraem, a boca fica seca, aumenta a quantidade de suor, o coração e a respiração disparam, os olhos ficam dilatados e a voz fica ríspida e grosseira. As emoções básicas são raiva, medo, tristeza, alegria e afeto, e podem se manifestar com maior ou menor intensidade, sob a forma de diversos "disfarces". A preocupação é uma forma do medo, a irritação uma forma da raiva, o sofrimento uma forma da tristeza, contentamento uma forma de alegria, dedicação uma forma de expressar afeto. Quando estivermos enraivecidos não devemos pensar no motivo da raiva mas sim desviar o pensamento para coisas agradáveis: um passeio na praia ou no campo, um bonito por de sol, o mar quebrando nas pedras, etc., mantendo o pensamento nestas coisas até a raiva desaparecer. As emoções podem produzir aproximação ou afastamento entre as pessoas. A alegria e o amor aproximam as pessoas, enquanto o medo, a tristeza e a raiva as afastam.

41 Educação Emocional na Escola 43 PARTE II PORQUE E PARA QUE EDUCAÇÃO EMOCIONAL

42 44 Educação Emocional na Escola

43 Educação Emocional na Escola 45 2 O que é Educação Emocional A Educação Emocional deve ser considerada uma parte da Educação Holística. O objetivo maior da educação holística, para Pierre Weil 15, é ensinar ao educando a arte de viver em paz consigo mesmo, com os outros na sociedade e com a natureza. Viver em paz consigo mesmo, no nível mental, através da sabedoria; no nível emocional, através do amor, alegria, compaixão e equilíbrio; no nível corporal, cuidando de sua saúde. Viver em paz com os outros na sociedade, na economia, na vida social, na cultura e com a natureza, procurando conhecer suas leis para viver em harmonia com ela. A Educação Holística deve abranger todas as dimensões do educando, emocionais e racionais, nos seus aspectos afetivos, cognitivos e psico-motores. Deve atender às funções do hemisfério cerebral esquerdo, que abriga o raciocínio concreto, lógico, formal e analítico, baseado na razão e fatos, e às funções do hemisfério cerebral direito: os raciocínios abstratos, conceituais, informais e intuitivos, e a atividade emocional. Uma das preocupações da educação holística deve ser o autoconhecimento do educando, corrigindo assim um grande defeito da educação ocidental, que é de preocupar-se principalmente com o conhecimento do mundo externo ao educando 1. A questão da educação emocional se torna mais relevante neste final de século, cerca de trezentos anos após o surgimento do Iluminismo, que acreditou ser a Razão o farol que iluminaria o Homem na busca da felicidade. Entretanto hoje vemos que, malgrado todo o desenvolvimento

44 46 Educação Emocional na Escola intelectual humano, apesar de todas as conquistas tecnológicas, de ter sido dominada a Natureza em muitos aspectos, de ter sido criada outra realidade, a realidade virtual, apesar de tudo isto, é cada vez maior a taxa de pessoas infelizes, neuróticas, frustradas, ansiosas, deprimidas ou mesmo portadoras de psicoses. Pesquisas recentes nos Estados Unidos mostram que 48% dos americanos tiveram pelo menos uma vez em suas vidas problemas psiquiátricos 8. Pesquisa da Universidade de Harvard mostra que muitos de seus ex-alunos, dotados de altos QI (coeficientes de inteligência) e de grandes competências intelectuais, não tiveram o sucesso esperado nas suas vidas, por apresentarem problemas de relacionamento, resultantes de baixa competência emocional 8. Acreditamos serem estes indicadores mais do que suficientes para que se olhe de frente a questão da Educação Emocional, cuja meta deve ser o desenvolvimento da Inteligência Emocional, que foi definida pela primeira vez em 1990, por Peter Salovey 63, como "a capacidade de monitorar os sentimentos e emoções próprios e alheios, de reconhecer as diferenças entre eles e de usar essa informação para orientar o pensamento e a ação das pessoas". Em publicação recente Salovey 64, considerando que a definição anterior trata somente de percepções e do controle da emoção, omitindo o pensamento sobre o sentimento, propõe nova definição para inteligência emocional: "A Inteligência Emocional envolve a capacidade de perceber acuradamente, de avaliar e de expressar emoções; a capacidade de perceber e/ou gerar sentimentos quando eles facilitam o pensamento; a capacidade de compreender a emoção e o conhecimento emocional; e a capacidade de controlar emoções para promover o crescimento emocional e intelectual". Desta forma a inteligência emocional contempla a percepção, a avaliação e a expressão das emoções, pela capacidade que tem a pessoa de identificar suas próprias emoções ou a de outras pessoas, mediante sua linguagem, sua aparência e seu comportamento. A capacidade de expressar acuradamente suas emoções e as necessidades relacionadas com seus sentimentos, bem como a capacidade de discriminar entre o próprio e o impróprio. É caracterizada a inteligência emocional como uma capacidade relacionada com a facilitação do ato de pensar, pois as emoções

45 Educação Emocional na Escola 47 voltam a atenção para informações importantes para o pensamento e são utilizadas como auxílio para julgamentos e sentimentos que dizem respeito à memória. Estados emocionais estimulam de maneira diferente a abordagem de problemas específicos, como quando a felicidade facilita o raciocínio indutivo e a criatividade, enquanto a tristeza é depressora do raciocínio. A inteligência emocional ajuda a compreender e analisar as emoções e a empregar o conhecimento emocional, pois permite rotular e reconhecer as relações entre as palavras e as emoções em si, e permite inferir os significados que as emoções transmitem, como o fato de que a tristeza quase sempre acompanha uma perda, e de que a raiva quase sempre se acompanha de frustração. Permite compreender sentimentos complexos como o ciúme, considerado uma mistura de amor, medo e raiva, e o espanto, combinação de medo e surpresa. Permite compreender e reconhecer transições entre emoções como da raiva para a satisfação, quando alguém enraivecido se vinga de outra pessoa. Finalmente permite a inteligência emocional o controle reflexivo das emoções para promover o crescimento emocional e intelectual, quando a pessoa se mantém aberta a seus sentimentos, agradáveis ou desagradáveis, podendo se envolver com eles através da reflexão ou se distanciar deles, desviando a atenção para outros objetos de pensamento. A capacidade de monitorar suas emoções reconhecendo suas utilidades e suas influências em sua vida, enfim a capacidade de administrar a emoção em si mesmo e nos outros, através da moderação das emoções negativas, desagradáveis e da valorização das positivas, agradáveis, sem reprimi-las. A educação emocional implica em desenvolver no educando o autoconhecimento, a autoconsciência, a nível psicológico e somático. Em desenvolver a capacidade de identificar e reconhecer suas emoções e sentimentos, avaliando suas intensidades, e as expressões corporais correspondentes, no momento em que ocorrem. A controlar suas expressões emocionais, a aprender a monitorar seus impulsos e a adiar suas satisfações. Faz parte da educação emocional o desenvolvimento da empatia, capacidade de reconhecer corretamente as emoções do outro e de compreender seus sentimentos e perspectivas, respeitando as diferenças com que as pessoas encaram as coisas, permitindo convívio harmônico com o outro. A atenção primordial da educação emocional deve dirigir-se para emoções e sentimentos que mais interferem no comportamento social do indivíduo, tais como raiva, tristeza, medo e suas assemelhadas: ira,

46 48 Educação Emocional na Escola fúria, ressentimento, mágoa, revolta, desânimo, desalento, desesperança, depressão, ansiedade e preocupação. Deve dirigir-se também para emoções outras, tais como, prazer, amor, surpresa, nojo e vergonha. OLHANDO PARA DENTRO DE SI MESMO A introspecção é um instrumento metodológico de excelência para a educação emocional. Consiste em dirigir nossa capacidade de observação para o mundo dos fatos psicológicos que podemos ter percepção consciente. É dirigir o "olho da mente" para os atores de nossa consciência, observando o fluxo de acontecimentos que nela ocorre, procurando identificar cada um deles, observando a mudança contínua com que se sucedem. É identificar os pensamentos, emoções e sentimentos, procurando percebê-los com a maior nitidez possível. Notar quando entram em cena a vontade e a atenção, percebendo a relação entre elas, e o efeito da atenção sobre a percepção das funções mentais. Como vimos, a fixação da atenção sobre determinada emoção ou sentimento produz a magnificação dele e sua persistência no primeiro plano da mente, graças à transferência da energia da atenção para o objeto dela. Devemos fazer a identificação dos pensamentos reflexivos e dos argumentos lógicos que os constituem, caracterizando suas premissas e as conclusões suportadas por elas. Atenção para os pensamentos automáticos, quase sempre negativos, e para a identificação das intuições que brotam na mente, as quais, para alguns psicólogos transpessoais, significam um acesso ao inconsciente superior. Identificar na corrente mental a ocorrência de lembranças de fatos recentes ou remotos e a roupagem emocional que os envolve, soando-nos como agradáveis ou desagradáveis. Caracterizar a imaginação, reconhecer os instintos (pulsões), impulsos e desejos que irrompem do inconsciente, além dos juízos de valor (avaliações) que fazemos das coisas.

47 Educação Emocional na Escola 49 A EDUCAÇÃO EMOCIONAL NA ESCOLA E NO CONSULTÓRIO O Autor entende que deve ser feita uma diferença entre a educação emocional na escola e a educação emocional feita nos consultórios dos psicólogos, psicoterapêutas e psiquiatras, pois elas são diferentes por natureza. Primeiro porque a educação emocional feita na escola tem uma finalidade primordialmente profilática, preventiva: o que se pretende é que o educando adquira atitudes e habilidades que permitam a identificação e o controle de suas emoções e a prática da empatia. Partimos do princípio de que ele não é portador de qualquer patologia da esfera emocional. A educação emocional no consultório tem um objetivo terapêutico específico modificar o comportamento do paciente, através da psicoterapia, para que retorne a padrões de comportamento pessoal e socialmente aceitáveis. Está implícita a necessidade de um diagnóstico prévio da patologia do paciente, que orientará a terapia. Sob o ponto de vista epistemológico, são diferentes os objetos da educação emocional na escola e no consultório, pois enquanto a primeira se destina ao indivíduo que não é o portador de distúrbios psicológicos evidentes, a segunda se preocupa exatamente com os portadores de tais distúrbios. É bem verdade que durante o curso de educação emocional na escola, podem ser identificados casos psicopatológicos esta é nossa experiência que devem ser encaminhados para o devido tratamento. No caso do consultório, geralmente é o próprio paciente que procura o profissional de saúde em busca de alívio para seus sofrimentos. As metodologias a serem utilizadas devem ser necessariamente diferentes, pois enquanto no consultório o atendimento é feito individualmente ou em pequenos grupos, na escola o programa de educação emocional deve contemplar centenas ou milhares de educandos. E é aí que reside grande parte de sua dificuldade de operacionalização. O processo deve ser conduzido sob a supervisão de profissional da Psicologia habilitado no trato das emoções, com a participação de professores e técnicos em educação dispostos a voluntariamente participar dele, depois de adequadamente treinados e mediante uma metodologia adequada para a consecução de seus objetivos.

48 50 Educação Emocional na Escola BASES PSICOLÓGICAS DA EDUCAÇÃO EMOCIONAL A emoção em sua essência é o resultado da percepção de processos emocionais inconscientes, que ocorrem no inconsciente emocional. Tais processos, involuntários por natureza, enquanto se desenvolvem, são inacessíveis à volição, à vontade, porém quando tornados conscientes podem tornar-se objeto da cognição, dos pensamentos e até mesmo da vontade. Podem ser avaliados, então, cognitivamente, conscientemente, e discriminados no tocante à possibilidade da conveniência da pessoa entregar-se ou não ao curso natural da emoção. Conforme Le Doux 34 animais que sofrem decorticação cerebral pela ablação cirúrgica apresentam uma reação emocional acentuada diante de estímulos insignificantes, e perdem a capacidade de controlar a raiva. Isto sugere que as áreas corticais cerebrais comandam as reações emocionais desenfreadas, e que elas têm a capacidade de impedir a livre expressão delas por sua ação inibitória. Surge aí a possibilidade concreta da Educação Emocional, enquanto processo que consiste em utilizar-se a energia psíquica disponível, das funções cognitiva e volitiva, do pensamento, da atenção e da vontade, para a identificação e avaliação das emoções, bem como da atuação da pessoa no sentido de interferir no curso natural do processo emocional. Em outras palavras, um estímulo externo (agressão física ou verbal) pode desencadear em uma pessoa um processo inconsciente da elaboração de uma emoção (raiva), processo emocional este que pode aflorar na mente, podendo a pessoa, após identificar a raiva, decidir se deve ou não atuar sobre seu curso, mediante a utilização de sua atenção e de sua vontade, fazendo um exercício de Educação Emocional. As bases anatômicas, fisiológicas e psicológicas do processo de educação emocional serão estudadas no capítulo Significado e Mecanismo das Emoções, ao tratarmos do Circuito de Papez. No entendimento do Autor não é possível atuar-se no processo emocional enquanto ele não se tornar consciente. Isto significa, na prática, que jamais deixaremos de ter emoções raiva, medo, tristeza, alegria e afeto - pois elas são intrínsecas à condição humana, fazendo parte do nosso patrimônio genético, herdado ao longo de milhões de anos de evolução das espécies animais. Entendida desta forma, a finalidade da Educação Emocional 74 é ensinar as pessoas a identificar e reconhecer suas emoções e

49 Educação Emocional na Escola 51 sentimentos, a aprender a avaliar suas intensidades, e as expressões corporais correspondentes, no momento em que ocorrem. Serve para a pessoa aprender a controlar suas emoções e seus impulsos e a adiar suas satisfações, bem como para aprender a identificar e reconhecer as emoções do outro, procurando enxergar a situação dentro de sua ótica. Em outras palavras, para a pessoa procurar sentir como o outro sente e buscar convívio harmônico com ele. Por exemplo, se uma pessoa está com raiva de alguém, depois de discutir com ele, pode aprender a reconhecer que naquele momento está enraivecida, procurar controlar sua raiva, e não se entregar a ela, partindo para agressão física ou verbal. Por outro lado, se alguém se desentendeu com um colega, saber identificar nele os sinais de raiva, através de sua expressão fisionômica, de sua face, de seus olhos. Se notar que ele está mesmo enraivecido, deixar a coisa esfriar um pouco para resolver depois o problema. Através da educação emocional a pessoa vai ter a oportunidade de conhecer-se melhor, de analisar suas emoções, seus pensamentos, sua atenção e sua vontade, coisas as quais, seguramente, a maioria das pessoas até hoje não se preocupa. Se a pessoa conhece-se melhor, vai poder controlar melhor a sua vontade e vai viver mais conscientemente. Assim as pessoas irão ter uma melhor qualidade de vida, brigar menos, e terão mais condições de manter suas amizades, pois elas não vão acabar por causa de brigas resultantes de descontrole emocional. NECESSIDADE DA EDUCAÇÃO EMOCIONAL É através da educação emocional que pode ser feita a diminuição da violência - forma mais extrema da raiva - praga que está assolando o mundo inteiro. Veja, todos os dias, na televisão, nos jornais e nas revistas que você lê, no rádio que você ouve, o aumento assustador da violência no mundo inteiro, sob as formas mais variadas, de assassinato, assaltos, roubos, seqüestros, estupros, etc. Por outro lado o aumento da intolerância e da violência entre os adultos é crescente, bem como o número de lares desfeitos, de divórcios e separações de casais. Tudo isto é o resultado da raiva sem controle.

50 52 Educação Emocional na Escola A educação emocional, como você já viu, pode controlar a expressão da raiva e pode melhorar este quadro. As estatísticas mostram no mundo inteiro um aumento da solidão, tristeza, depressão, suicídio entre os jovens e do medo. Seguramente a educação emocional será útil no sentido de diminuir a solidão, a tristeza e o medo. Ela certamente ajudará a construir um mundo melhor. Se aprendemos a controlar a raiva e procuramos divulgar suas formas de controle na escola, em casa e com os amigos e amigas, procurando ajudá-los a controlar suas raivas, seguramente estaremos contribuindo para um mundo melhor, sem tanta violência. Devemos juntar-nos numa campanha para a diminuição da raiva e da violência!

51 Educação Emocional na Escola 53 SÍNTESE A questão da educação emocional se torna mais relevante neste final de século, pois, malgrado todo o desenvolvimento intelectual humano, apesar de todas as conquistas tecnológicas, de ter sido criada a realidade virtual, é cada vez maior a taxa de pessoas infelizes, neuróticas, frustradas, ansiosas, deprimidas ou mesmo portadoras de psicoses. A introspecção é um instrumento metodológico de excelência para a educação emocional. Consiste em dirigir nossa capacidade de observação para o mundo dos fatos psicológicos que podemos ter percepção consciente e identificar os pensamentos, emoções e sentimentos, procurando percebê-los com a maior nitidez possível. Caracterizar a imaginação, reconhecer os instintos (pulsões), impulsos e desejos que irrompem do inconsciente, além dos juízos de valor (avaliações) que fazemos das coisas A educação emocional na escola tem uma finalidade primordialmente preventiva e pretende que o educando adquira atitudes e habilidades que permitam a identificação e controle de suas emoções e a prática da empatia. A educação emocional no consultório tem objetivo terapêutico específico modificar o comportamento do paciente, para que ele retorne a padrões de comportamento pessoal e socialmente aceitáveis. A educação emocional implica em desenvolver no educando o autoconhecimento, a autoconsciência, a nível psicológico e somático. Em desenvolver a capacidade de identificar e reconhecer suas emoções e sentimentos, avaliando suas intensidades, e as expressões corporais correspondentes, no momento em que ocorrem. A controlar suas expressões emocionais, a aprender a monitorar seus impulsos e a adiar suas satisfações. Implica no desenvolvimento da empatia, capacidade de reconhecer corretamente as emoções do outro. A emoção é o resultado da percepção de processos inconscientes, involuntários por natureza, que quando tornados conscientes podem tornar-se objeto dos pensamentos e até mesmo da vontade. A Educação Emocional consiste em utilizar-se a energia psíquica disponível do pensamento, atenção e vontade, para a identificação e avaliação das emoções, bem como da atuação da pessoa no sentido de interferir no curso natural da parte consciente do processo emocional.

52 54 Educação Emocional na Escola Através da educação emocional a pessoa vai ter oportunidade de conhecer-se melhor e analisar suas emoções, pensamentos, atenção e vontade. A educação emocional seguramente ajudará no controle da raiva, que está assolando o mundo inteiro, e será útil para ajudarmos a construir um mundo melhor, permitindo também que atuemos sobre o medo, a tristeza e a solidão.

53 Educação Emocional na Escola 55 3 Fundamentos e Aspectos Históricos da Educação Emocional CIÊNCIA DO AUTOCONHECIMENTO Experiências sobre educação emocional com crianças e adolescentes foram desenvolvidas nos Estados Unidos a partir da década de 90, e Goleman em Inteligência Emocional 8, 1996, refere os componentes do denominado "Currículo da Ciência do Eu", que considera ser o modelo para o ensino de inteligência emocional. Entre os tópicos ensinados, está a autoconsciência que tem por objetivo reconhecer os sentimentos e estabelecer um vocabulário para expressá-los, procurando estabelecer relações entre pensamentos, sentimentos e reações a eles. Procura identificar quando são os pensamentos ou os sentimentos que governam determinada decisão; analisar as opções de alternativas para uma decisão e aplicar estes conhecimentos no uso de drogas, fumo e sexo; reconhecer as forças e fraquezas, de um modo realista. É dada ênfase ao controle das emoções e a compreender o que está causando determinados sentimentos, aprendendo a lidar com eles, principalmente a ira, o medo e a tristeza. Estimula a aceitação de responsabilidades por suas decisões e a cumprir compromissos, a aprender as artes de cooperação, solução de conflitos e negociação de meios termos. São os seguintes seus conteúdos programáticos:

54 56 Educação Emocional na Escola autoconsciência tomada de decisão pessoal lidar com sentimentos e com a tensão emocional empatia comunicação intuição auto - aceitação responsabilidade pessoal assertividade dinâmica de grupo solução de conflitos. FALANDO DE PRINCÍPIOS Gottman, em Inteligência Emocional, a Arte de Educar Nossos Filhos 9, 1997, estabelece com base em suas pesquisas e observações, alguns elementos básicos para a educação emocional. Postula ele cinco passos seqüenciados: Perceber a emoção na criança. Reconhecer na emoção uma oportunidade de intimidade ou aprendizado com o educando e de transmissão de experiência. Escutar com empatia, legitimando os sentimentos da criança. Ajudar a criança a encontrar palavras para identificar a emoção que ela está sentindo. Impor limites, e, ao mesmo tempo, ajudar a criança a resolver seus problemas. Estabelece como princípio a necessidade do desenvolvimento da consciência emocional do educador, que deve estar consciente de seu universo emocional. Ele deve fazer um trabalho de autoconscientização de suas emoções e de reconhecimento das emoções do outro, procurando identificá-las e analisá-las no momento em que ocorrem. A capacidade de perceber emoções é a mesma para ambos os sexos, mostram as pesquisas de Gottman. Os homens, que ao contrário das mulheres têm tendência para esconder suas emoções, têm capacidade de senti-las da mesma forma que a mulher. Isto significa que o homem pode ser um bom preparador emocional, pois tem consciência de seus sentimentos (salvo em condições de

55 Educação Emocional na Escola 57 patologia), e a capacidade de reconhecer e reagir às suas emoções e às dos outros. Podem ter empatia tanto quanto as mulheres. Provavelmente o comportamento do homem no sentido de reprimir as emoções e de fazer pouco caso de seus sentimentos deva ser decorrente de uma questão cultural - os homens, de um modo geral, são educados para ser insensíveis e para reprimir suas emoções. A capacidade de sentir as emoções é a mesma em todas as raças, porém a capacidade de expressá-las é condicionada culturalmente, variando de um povo para outro: os japoneses e os escandinavos são auto-repressores, enquanto os italianos e os latinos são mais autênticos em suas expressões emocionais. A EDUCAÇÃO EMOCIONAL DEVE COMEÇAR NA FAMÍLIA As pesquisas de Gottman indicam que a educação emocional deve começar no seio da família. É importante que a criança seja habituada desde cedo a expressar suas emoções e a lidar com elas, devendo para isto receber apoio e ajuda dos pais. Principalmente as emoções negativas, raiva, medo, tristeza e suas assemelhadas, senão serão adolescentes e adultos incapazes de se relacionarem adequadamente, com dificuldades de relacionamento emocional. Embora sem poder precisar quando o bebê começa a relacionar-se emocionalmente com os pais, se ainda no ventre materno, logo após o nascimento ou algumas semanas após o nascimento, pesquisas realizadas com bebês de três meses ressaltaram a criatividade e a competência emocional dos recémnascidos em matéria de comunicação emocional 9. Gottman 9 traz recomendações específicas para diferentes fases do desenvolvimento da criança: para a fase do andar vacilante - de um a três anos, para a fase da segunda infância - quatro a sete anos, para a da terceira infância - oito a doze anos, e para a adolescência. FASE DO ANDAR VACILANTE Na época situada entre um e três anos, a criança se torna mais autoritária e começa a ficar teimosa, tendo como característica o egocentrismo, pois ainda não foi adequadamente desenvolvida a

56 58 Educação Emocional na Escola sociabilidade. É a fase em que "o que eu vejo é meu", "se é seu, mas eu quero, é meu", "se é meu, é meu para sempre". Isto naturalmente gera frustração e raiva e a preparação emocional da criança é importante para ajudá-la a lidar com estes sentimentos, sendo fundamental a ajuda para suas identificações. É importante que durante os conflitos e problemas os pais tentem enxergá-los dentro das perspectivas da criança e evitem situações que as façam sentir-se impotentes, e percam por completo o controle da situação. Deve ser dada à criança a possibilidade de escolha para conduzir a situação, desde quando isto não represente ameaça à sua segurança. Por, exemplo, cita Gottman, em vez de dizer "vista seu casaco porque está frio" perguntar-lhe: "Você quer vestir a jaqueta ou o suéter?". A briga entre crianças por um brinquedo e a fúria que pode advir desta briga, pode ser um bom momento para a educação emocional. Nesta oportunidade podem ser identificadas e rotuladas para a criança a frustração e a raiva decorrente dela. Aproveitar para ensinar que não se bate e não se maltrata os amiguinhos e que, em tendo ocorrido isto devem ser pedidas desculpas, com o cuidado de que não haja humilhação da criança. Deve ser feito o elogio e dado o estímulo constantemente, no sentido de que a criança perceba que se compartilha da sua vida. Importante marco no desenvolvimento da criança na primeira infância é o interesse crescente por brincadeiras simbólicas e de fazde-conta. Entram aí as imitações dos adultos, no telefone, no carro, na mesa, etc. E as brincadeiras de fazer a barba, varrer, cozinhar, reclamar com a boneca, beijar os brinquedos e outras. SEGUNDA INFÂNCIA Entre quatro e sete anos, a criança já está mais desenvolvida, fazendo novos amigos, freqüentando ambientes diferentes e aprendendo novidades. É preciso que ela aprenda a inibir atitudes impróprias, a concentrar-se e a atingir objetivos externos, como aceitar regras para suas brincadeiras e a resolver seus conflitos. É importante estimular o convívio com outras crianças para que ela possa adquirir estas habilidades, pois o relacionamento com colegas é excelente para o desenvolvimento de técnicas para regular as emoções. A amizade é um terreno fértil para o desenvolvimento emocional da criança pequena.

57 Educação Emocional na Escola 59 É importante saber que a criança na segunda infância tem dificuldade para administrar mais de uma relação ao mesmo tempo. Daí a freqüente situação em que a terceira criança seja excluída da brincadeira. Quando isto ocorrer é importante identificar os sentimentos de seu filho, sobretudo se ele estiver com raiva ou triste por causa do ocorrido, convidando outra criança para brincar ou estimulando-o a utilizar um brinquedo sozinho. Nesta faixa etária é encontrada também a brincadeira de faz-deconta, que deve ser estimulada, pois facilita o desenvolvimento emocional da criança, ajudando-a a ter acesso a sentimentos recalcados. Nas conversas com os brinquedos, a criança costuma projetar suas idéias, desejos, frustrações e medos, e a análise delas pode ser útil para a descoberta de sentimentos recalcados. Para Gottman o faz-de-conta tem muita eficácia para ajudar a criança a lidar com as ansiedades que surgem nesta idade, e considera que os temores que ela pode apresentar são: medo da impotência, do abandono, do escuro, dos pesadelos e da morte. O medo da impotência pode ser combatido ajudando a criança a sentir-se mais poderosa permitindo-lhe optar pelo que vestir, pelo que comer, com que brincar, etc. Isto lhe dá mais auto-estima pois ela se sentirá no centro das decisões de sua vida, o que será muito importante para o bom desenvolvimento de sua personalidade. Devem ser abolidos os comportamentos invasivos, tipo amarrar o sapato quando a criança está tendo dificuldade de fazê-lo deve-se orientá-la para que ela resolva seus problemas pessoalmente. Quanto ao medo do abandono, deve-se tranqüilizar a criança dizendo que será feito o possível e o impossível para protegê-la, amá-la e bem tratá-la. Para combater o medo do escuro, talvez seja necessário instalar uma lâmpada noturna menos potente, pois o escuro pode representar para a criança o local onde moram todos os seus medos e seus monstros. O medo de pesadelos pode ser muito grande pois a criança pode ter dificuldade em separar o sonho da realidade. Deve ser feito um trabalho no sentido de mostrar-lhe o significado do sono e do sonho em sua vida. Quanto ao medo da morte, se forem feitas perguntas diretamente a respeito, mostrar que suas preocupações são consistentes. No caso da perda de um animal de estimação, de um amigo ou colega, identificar a tristeza que a criança sente com esta perda e oferecerlhe carinho e consolo. É importante identificar e rotular o medo quando ele se manifesta, analisá-lo com empatia e pensar com a criança as

58 60 Educação Emocional na Escola diferentes maneiras de lidar com as diferentes ameaças, reais ou imaginárias 33. TERCEIRA INFÂNCIA Entre oito e doze anos, a criança tem consciência da influência social e está convivendo com muitas pessoas, ao tempo que está desenvolvendo seu lado cognitivo, aprendendo o poder da razão sobre as emoções. Começa a preocupar-se com sua imagem perante os outros e fica cheia de exigências sobre o estilo de roupas e com sua aparência perante os outros. Faz tudo para evitar chamar a atenção dos colegas sobre si mesma e procura evitar implicâncias e humilhações. Para evitá-las, procura retirar os sentimentos de suas relações com os colegas. Nesta idade começa a preocupar-se com o que é moral e o que é justo. Se for percebido que houve um tratamento injusto com outra criança ela deve ser conscientizada do fato, e, a não ser que tenha havido intenção declarada de agressão, devem ser evitados castigos muito severos. Quando seu filho for excluído ou maltratado pela turma e vier se queixar, ajude-o a enfrentar a situação e a pensar soluções para o problema, inclusive no que ele pode fazer para cultivar amizades. Lembrar que arrogância, desprezo e sarcasmo pelos valores do adulto são atitudes normais na terceira infância. No caso de serem ultrapassadas as normas do respeito mútuo, adverti-lo da impropriedade dos termos utilizados. ADOLESCÊNCIA É uma fase marcada por questões relacionadas com a identidade do adolescente, em que ele procura conhecer-se a si próprio, respondendo a perguntas do tipo "quem sou eu?". Volta ao egocentrismo, em que o centro de tudo é ele e, no sentido de busca de identificação fora da família, volta-se para seus amigos e seu grupo. As mudanças hormonais, geram alteração dos caracteres sexuais secundários, e podem causar reações psicológicas mais ou menos acentuadas, que devem ser compreendidas pela família, pois é uma fase tempestuosa pela qual todos temos de passar.

59 Educação Emocional na Escola 61 Gottman faz algumas recomendações específicas: aceitar que a adolescência é uma fase em que o filho se separa dos pais, devendo ser mostrado o maior respeito pelo mesmo, não se devendo ficar permanentemente a corrigi-lo e a apontar suas falhas. Aconselha não implicar com ele, nem humilhá-lo, jamais rotulando-o de preguiçoso, ganancioso, desleixado, egoísta, etc. Quando tiver de admoestá-lo, fazê-lo sobre atos específicos e não sobre o seu caráter. Deve-se estimulá-lo a decidir sozinho sobre seus problemas, inclusive sobre sua problemática sentimental e existencial. Aconselha que os pais procurem conhecer as pessoas que convivem com o adolescente, inclusive os amigos e pais dos amigos. Algumas recomendações são válidas para crianças e adolescentes: deve ser permitida a livre expressão das emoções, sendo dada a devida atenção às mesmas, procurando-se identificar e compreender seus sentimentos. O respeito mútuo deve ser mantido em qualquer situação, principalmente quando houver atritos envolvendo comportamentos emocionais. Em tais oportunidades o pai ou mãe deve controlar-se emocionalmente, não devendo utilizar escárnio, desprezo, ironia ou comentários que desmereçam os filhos. Jamais se deve bater nas crianças e adolescentes ou insultá-los, pois tais comportamentos seguramente gerarão seqüelas psicológicas de conseqüências imprevisíveis no futuro, com traumas que marcarão suas vidas. Por outro lado isto seguramente dificultará um bom relacionamento entre o agressor e a criança, que dirigirá para ele sentimentos de revolta, mágoa e rancor, ficando mais agressivas a longo prazo. Pesquisas mostram que quando são colocadas normas que a criança é capaz de compreender, ela se comporta melhor, principalmente quando consegue regular suas emoções negativas, raiva, medo e tristeza. Há um consenso entre os psicólogos de que a agressão física às crianças e adolescentes só funciona a curto prazo, e unicamente graças ao medo que gera. A longo prazo a criança se sente impotente e injustiçada, furiosa com o agressor. Por outro lado, bater tem um efeito pedagógico negativo pois ensina à criança e ao adolescente que a violência, a agressão, é a forma preferencial que deve ser utilizada para resolver problemas, em lugar do diálogo e da compreensão. O educando introjetará tal comportamento e o utilizará futuramente para resolver seus problemas, levando-o a dificuldades de relacionamento social.

60 62 Educação Emocional na Escola VER O MUNDO COM OS OLHOS DO OUTRO A empatia é a capacidade de colocar-se no lugar de outro, como se fosse ele. É a capacidade de sentir o que o outro sente. Ajuda muito a compreender o comportamento da criança, do adolescente e do adulto com o qual nos relacionamos, sendo de extrema valia na educação emocional. O exercício da empatia implica na utilização da visão, da imaginação e da fala. A visão para perceber os sinais físicos da emoção do educando, a imaginação para perceber suas perspectivas em relação à situação considerada e a fala para ajudá-lo a identificar e nomear suas emoções. É importante nas estratégias de educação emocional prestar atenção aos gestos, ao tom de voz e à expressão corporal da criança e do adolescente. Entende o Autor que o processo de educação emocional funciona como um cimento para a agregação familiar, pois sua prática, tendo como pilar a empatia, implica necessariamente em uma maior atenção dos pais para com os filhos. Tal atenção, expressão de afeto paternal, gerará uma recíproca por parte dos filhos, que reforçará os laços familiares. A LIBERDADE TEM LIMITES Um dos princípios da educação emocional, para Gottman, é valorizar os sentimentos e as emoções do educando, permitindo-lhe que os extravasem, que os expressem livremente, sem reprimi-los. Deve entretanto ser mostrado, com clareza, os limites deste extravasamento, que são os comportamentos socialmente toleráveis. Em termos práticos, deixá-lo chorar, sem reprimi-lo, quando sentir-se frustrado. Deixar extravasar sua raiva, sua irritação, sem permitir entretanto que pratique qualquer tipo de agressão aos outros - indicar que o limite da sua liberdade de expressão emocional é a não agressão do outro, seja física, seja verbal, através de palavrões. Conforme Haim Ginott 10 deve-se ensinar à criança que todos os sentimentos e desejos são aceitáveis, mas não todos os comportamentos ligados a estes sentimentos e desejos. É importante que a criança e o adolescente conheçam as regras de comportamento permitidas para que assim ele possa conhecer quais seus limites, para poder balizar suas condutas. A disciplina, na visão de Kant 11, é o respeito, a colaboração e o acatamento das normas sociais. O ideal é que o educando aprenda a respeitar

61 Educação Emocional na Escola 63 voluntariamente, sem nenhuma coação, as regras de comportamento, sendo convencido a acatá-las e a cooperar com elas. Santos 23 considera duas formas de disciplina, embora a essência delas seja a mesma, o respeito às normas: a individual, interior e a social, exterior. A individual está relacionada com o respeito às normas que a pessoa estabelece para si mesma. É a autodisciplina, na qual a prescrição das normas parte do indivíduo e está relacionada com a "força de vontade", sendo um traço de personalidade comum aos homens bem sucedidos. Deve ser estimulada e cultivada na escola, pois é um fator de sucesso social. Quanto à disciplina social, externa, as normas são estabelecidas pela sociedade, e é muito importante para a formação do cidadão prestante e socialmente integrado, que se acostumará desde o início a respeitar e acatar as normas sociais. Como diz Ginott 10, o excesso de permissividade "Causa ansiedade e faz com que, cada vez mais, a criança exija privilégios que não podem ser concedidos". Para Ginott os pais devem considerar um sistema de regras com três "zonas" de comportamento: verde, amarela e vermelha. Na verde estão os comportamentos permitidos. Na amarela estão os comportamentos inconvenientes mas toleráveis, baseados na liberdade de quem está aprendendo e na condescendência para momentos difíceis. Aí está incluída, por exemplo, a tolerância para a transgressão das normas por um adolescente que os pais estão se separando e que está vivendo um momento emocionalmente difícil. Na zona vermelha estão os comportamentos intoleráveis em qualquer circunstância, pois colocam em risco a segurança ou o bem estar dos outros. É o caso de agressões verbais ou físicas, desrespeito aos outros, comportamentos imorais ou anti-sociais. Acredita o Autor, baseado em sua experiência educacional, que as zonas propostas por Ginott são aplicáveis tanto para as crianças quanto para adolescentes, devendo ser o educando previamente informado das conseqüências da transgressão às regras, bem como das punições que serão aplicadas, as quais devem ser proporcionais à gravidade da transgressão. A partir da idade em que a criança tem a capacidade de perceber abstrações - para Piaget 14 em torno dos dez anos - o ideal é que, na escola, as regras de comportamento dos alunos sejam estabelecidas de um modo não autoritário, com a participação deles, de modo cooperativo e consensual. Respeitados os valores fundamentais da

62 64 Educação Emocional na Escola escola, expressos na sua filosofia educacional, as regras de comportamento podem e devem ser discutidas com os alunos, em cada classe, no início do ano letivo, e expressas sob a forma de um "Compromisso de Convivência", assinado por todos e exposto no mural da sala de aula. UMA EXPERIÊNCIA BEM SUCEDIDA A experiência do Autor no Colégio Águia tem dado bons resultados, com diminuição das transgressões disciplinares. Há o apoio dos professores, que solicitam à administração da escola a aplicação anual do Compromisso de Convivência, de cuja elaboração eles participaram. Com pequena variação de uma classe de alunos para outra, no Compromisso os alunos se comprometem a: não praticar ações que prejudiquem a si mesmos ou a qualquer pessoa da escola, nem a seus patrimônios. respeitar a si mesmo e aos outros, e não fazer críticas depreciativas a seus colegas. ter em mãos o material didático de apoio necessário para participar das aulas. resolver as tarefas de casa no tempo aprazado. entrar na sala de aula imediatamente após o toque da sineta. não perturbar o funcionamento da sala de aula. não dificultar o livre trânsito nas dependências do colégio. participar da solução de problemas que porventura surjam durante o funcionamento da classe. ausentar-se da sala de aula somente por motivo justificado e devidamente autorizado pelo professor. Quanto à questão das punições, lembraremos que na idade média os alunos indisciplinados eram conduzidos para os calabouços. O castigo físico foi usual durante muitos anos e, lamentavelmente, ainda é utilizado como meio disciplinador em alguns países, gerando revolta e mais agressividade dos que o sofrem. Defende o Autor que a punição advinda da própria classe a que o aluno pertence é mais efetiva e dá melhores resultados preventivos do que a punição aplicada pela administração da escola. Esta crença é baseada no ensinamento da Dinâmica de Grupo, de que o participante de um grupo quer continuar a pertencer a ele, salvo se estiver disposto a migrar para outro. Por isto sofrerá muito mais a punição oriunda do grupo do que se ela advier de outra instância da escola.

63 Educação Emocional na Escola 65 No Colégio Águia, por nós administrado, temos obtido bons resultados no controle da disciplina através da implantação do Conselho de Turma, eleito democraticamente no início do ano, com a participação de todos os alunos da classe. Dentre outras tarefas, ele é responsável pela punição daqueles que transgridem o Compromisso de Convivência. Um dos objetivos da educação emocional deve ser que o educando adquira a competência de estabelecer suas normas de comportamento, de acordo com os valores da cultura em que vive, e se acostume a respeitá-las. O Autor entende que a educação para a frustração é extremamente importante no processo de educação geral da criança e do adolescente, pois em suas vidas futuras, freqüentemente se depararão com situações em que seus desejos e anseios serão frustrados por situações diante das quais serão completamente impotentes. Ele deve aprender a administrar as emoções ligadas às suas frustrações, de modo a não gerar comportamentos socialmente intoleráveis e os atritos conseqüentes. OS VALORES NA EDUCAÇÃO EMOCIONAL A educação emocional, em última análise, visa a introjeção de valores no educando, os quais implicam na aquisição de determinados comportamentos emocionais desejados. Assim, está sujeita às regras gerais da educação de valores, e podemos tomar como referência a Clarificação de Valores, proposta por Raths 19, que se preocupa fundamentalmente com processo de valoração. Parte do pressuposto de que os valores são marcos de experiências vividas pela pessoa, e que uma mudança nos padrões de experiências emocionais pode gerar modificações nos seus padrões de valores. Para Raths, o processo de valoração consta de três aspectos básicos: escolha, apreciação e ação. A escolha deve ser feita livremente pelo sujeito valorante, dentre alternativas, após a consideração ponderada da conseqüência de cada alternativa. A apreciação deixa a pessoa valorante satisfeita com a escolha, desejando por isto afirmá-la publicamente. A ação, expressão da escolha feita, deverá repetir-se em várias outras circunstâncias, como padrão do modo de existir.

64 66 Educação Emocional na Escola Assim, só se pode dizer que algo é um valor quando há uma escolha dentre alternativas, livremente, ponderadamente, com estima, passando a pessoa a agir de acordo com sua livre escolha, publicamente, repetidamente. No tocante à aprendizagem de valores, Sócrates partia do pressuposto de que as virtudes morais eram latentes em cada pessoa, e defendia que o educador deve incutir os valores na consciência dos educandos. Para ele, quanto mais virtuoso fosse o mestre e mais virtudes fossem ensinadas aos alunos, mais virtudes o aluno praticaria. Kneller 20 lucidamente contesta, afirmando que "Quanto mais o mestre virtuoso presidir a prática da virtude, mais virtude o discípulo praticará". Bicudo 21 enfatiza que a exploração da aprendizagem dos sentimentos humanos é um importante caminho para a autoconscientização, representando uma ampliação do domínio dos valores do estudante. É evidente a importância do exemplo na educação emocional. Não adianta o educador emocional pregar determinado comportamento diante de determinada situação e agir de forma diferente: não adianta pregar o controle da raiva e descontrolar-se na primeira situação que o enraiveça. A importância do significado pedagógico do exemplo é dada pelos gregos, conforme registra Werner Jaeger, na Paidea 22. No século IX antes de Cristo, Homero, na Ilíada e na Odisséia trata do significado do exemplo e considera que nada tem sua eficácia como guia de ação. Cita a exortação de Atena a Telêmaco e o exemplo de Orestes ao vingar seu pai, matando Egisto. Píndaro, quatro séculos depois, no século IV a.c., evoca o exemplo de heróis famosos como parte constitutiva da educação e da ética aristocrática de seus contemporâneos. Para os gregos dos séculos posteriores, os paradigmas de seus heróis e suas sagas têm grande significado como parte de suas vidas e de seus pensamentos. Isto ocorre também com Platão no desenvolvimento de sua obra, desde os diálogos menores - Apologia de Sócrates, Eutifron, etc.- até as obras mais complexas - Fédon, Fedro, O Banquete, culminando com A República: em todas elas a estrutura íntima é paradigmática, pois as idéias para Platão nada mais são do que "paradigmas fundamentados no que é". Os Sofistas e Isócrates, nos séculos IV e V a.c. foram grandes adeptos da pedagogia do exemplo: fundamentavam

65 Educação Emocional na Escola 67 suas metodologias didáticas em modelos, os quais deveriam ser imitados por seus alunos. A preocupação de tomar o exemplo como paradigma pedagógico está presente no pensamento oriental, na obra de Confúcio, no "Grande Estudo" 25, quando se refere às qualidades e virtudes do Príncipe Sábio: "Se as ordens do Príncipe estão em contradição com sua conduta, o povo não deve obedecê-las. Um Príncipe Sábio, antes de exigir uma coisa dos outros, deve praticá-la primeiro, ele próprio; antes de repreender uma falta nos outros, deve ter o cuidado de não fazer o que reprova. Um homem que não sabe regular-se e tratar aos outros com a mesma medida que usa para si mesmo, não pode instruir aos outros". O Autor acredita que o educando só introjetará e concretizará em termos de comportamento o valor disciplina, se houver um "clima" de disciplina no meio em que ele convive: disciplina é um clima sócioemocional, sobretudo. De nada adiantará alguém recomendar comportamento disciplinado, respeito às normas, se não praticar tal comportamento. ASPECTOS HISTÓRICOS O Budismo Sempre existiram esforços para a realização da educação emocional ao longo da história da humanidade, de modo não sistemático e sem metodologia bem definida. Encontramos exemplos na cultura oriental e um deles está no Budismo. Uma análise mais detida da doutrina de Siddãrtha Gautama Buda (560 a.c a.c.) remete-nos aos fundamentos de seus ensinamentos, que são relacionados com o sofrimento na vida humana e com um meio para sua libertação. A busca deste meio implica, em diversos fatores, dentre eles e necessariamente, na educação das emoções: na busca do autodomínio, do autocontrole e do autoconhecimento. Importa também na busca do conhecimento das outras pessoas, de suas emoções e seus sentimentos, num processo de empatia. As quatro nobres verdades - os ensinamentos de Buda começaram em Benares, cidade sagrada dos hindús, no Parque dos

66 68 Educação Emocional na Escola Cervos de Sarnath, onde ele pronunciou seu primeiro sermão, conhecido como "O Giro da Roda da Lei". Neste sutra Buda explicitou a estrutura quádrupla de seus ensinamentos, conhecida como "As Quatro Nobres Verdades" 2, que são as seguintes: "Qual é, pois, a Nobre Verdade sobre o sofrimento? O nascimento é sofrimento, a velhice é sofrimento, a doença é sofrimento, a morte é sofrimento. Estar ligado a coisas desagradáveis é sofrimento. A perda daquilo que amamos é sofrimento. Não obter aquilo que se quer também é sofrimento. Em suma, todo apego a qualquer dos cinco skandas* envolve sofrimento. Qual é, pois, a Nobre Verdade sobre a origem do sofrimento? É esse desejo ardente que leva ao renascimento, associado ao prazer e à avidez, que procura gozo ora aqui, ora ali, isto é, o desejo de experiências sensuais, o desejo de perpetuar-se, o desejo de extinção. Qual é, pois, a Nobre Verdade que leva à cessação do sofrimento? É dominar por completo esse desejo ardente, é afastar-se dele, renunciar a ele, rechaçá-lo, libertar-se dele, não apegar-se a ele. Qual é, pois, a Nobre Verdade sobre a senda que leva à cessação do sofrimento? É esta Nobre Senda Óctupla que consiste em: reta compreensão, reto pensamento, retas palavras, reta ação, reto viver, reto esforço, reta atenção, reta concentração". A meditação sobre as quatro nobres verdades e sobre os fatos básicos da existência é a tarefa central do budismo. Buda postulou que o desejo, o apego, a possessividade e a inveja são as causas centrais de muitos males que afligem a humanidade, tanto pessoais quanto sociais, e que o autodomínio e o autocontrole são extremamente úteis no combate a estes males. Pregou que nosso conhecimento íntimo pode ser a fonte de onde podemos tirar elementos que nos possibilitem combater o sofrimento. O caminho óctuplo - é o caminho budista para a libertação do sofrimento, baseado na lei universal da interdependência entre causa e efeito: o sofrimento é o efeito do desejo. Um dos elementos do caminho óctuplo é a "samma sati", a consciência correta, considerada fator principal do caminho. Implica na gradual extensão da consciência do indivíduo, para que todas suas ações, palavras e pensamentos sejam realizados à luz plena da consciência. *As skandas são as partes constitutivas do homem, segundo o Budismo, representadas pelo corpo, sensações, percepções, impulsos, emoções, atos de consciência.

67 Educação Emocional na Escola 69 Segundo o Satipatthãna Sutta 3 livro clássico do budismo, no sermão pronunciado para os monges, na cidade de Kammassadamma, na Índia, Buda lhes apontou o caminho para a superação da tristeza e da lamentação o Caminho do Fundamento da Consciência, através de múltiplas contemplações: do corpo, dos sentimentos, da mente e dos fenômenos. A Contemplação do Corpo objetiva dar consciência da existência do corpo através da percepção de seus movimentos, como por exemplo da respiração, feita através da observação da inspiração e da expiração, seus inícios e términos, suas durações e amplitudes. Principalmente observando suas mudanças constantes, o que caracteriza a impermanência das coisas, a annica. A contemplação do corpo pode e deve ser feita em outras de suas partes e em seus movimentos. Após atingir um estado de relaxamento, passar da contemplação do corpo para a Contemplação dos Sentimentos, objetivando a consciência plena de que eles existem, estão vivos dentro de nós. A palavra sentimento é aqui utilizada no sentido de qualquer reação emocional conseqüente a um estímulo, físico ou mental: prazer e dor, agradável e desagradável, tristeza e alegria, amor e ódio, raiva, medo, mágoa, paz, etc. A orientação é para que, numa atitude calma e imparcial, sejam observados os sentimentos, no seu devir, no seu aparecer e desaparecer, na sua origem e desintegração. Não se deve aderir a eles quando forem agradáveis e esquivar-se quando forem desagradáveis - a observação deve ser neutra. Devemos controlarnos, fazendo um esforço para que os sentimentos não nos levem a fazer ou dizer coisas das quais possamos nos arrepender mais tarde. Outro passo é a Contemplação da Mente, para que haja consciência da sua existência. Busca-se a existência de outros sentimentos que não tenham sido detectados, e de "estados da mente": luxúria, ódio, indolência, sentimental, alegre, concentração, devaneio, etc. Para Buda, isto contribui para o crescimento e conhecimento da consciência, principalmente da qualidade constantemente mutável do estado da mente. É feita a mesma advertência: deixar que cada estado surja e desapareça sem impedimentos, sem que a vontade interfira em seu curso. É recomendado que a consciência dos sentimentos e dos estados mentais sejam praticados tanto internamente no praticante, quanto externamente em outras pessoas, procurando observar seus aparecimentos e desaparecimentos.

68 70 Educação Emocional na Escola Quanto aos Fenômenos dos Cinco Obstáculos, Buda recomenda a identificação da sensualidade e a presença de má vontade, torpor (preguiça), agitação, ansiedade e incerteza. Ao tratar dos temas que devem ser objeto da meditação, a psicologia budista 4 reconhece a presença de três impulsos não saudáveis na mente (akusala), que devem ser evitados, dois deles de natureza emocional, a luxúria e o ódio. A luxúria, caracterizada pelo desejo de prazeres (passados, presentes ou futuros), o egoísmo e a cobiça. O ódio caracterizado pela tendência de rejeitar e destruir, vai desde o sarcasmo até à brutalidade. Os Essênios Em 1947 um garoto beduíno pastoreava cabras perto de um rochedo na margem ocidental do Mar Morto, quando descobriu no interior de uma caverna um jarro que continha manuscritos referentes aos essênios, que ficaram conhecidos como Os manuscritos do Mar Morto 5. Os essênios eram uma das seitas principais dos judeus existentes no século I, ao lado dos fariseus e dos saduceus. Eles renunciaram ao prazer, identificando-o com o vício, exercitando-se na temperança e no autocontrole, uma forma de contenção emocional. Submetiam-se a uma disciplina muito rígida e dois rolos dos manuscritos revelaram-se seu Manual de Disciplina, pertencente a uma ordem monástica muito antiga, encontrados em uma caverna próxima ao mosteiro. Havia uma insistência no autocontrole emocional e era prescrita punição para quem extravasasse a raiva. Era errado odiar um irmão de fé ou mesmo perder a calma. Hinduísmo Swami Sivananda, em sua obra Raja Yoga 24, refere que na filosofia vedântica são consideradas três Gunas, que são atributos ou qualidades da mente: Sattwa, Rajas e Tamas. Tudo que existe, existe pela composição destas qualidades. Sattwa relaciona-se com sabedoria, inteligência, bondade e luz e, quando domina, é responsável pela calma e serenidade do homem. Rajas, relacionada com a paixão, ambição, vontade, inquietude, ansiedade, dinamismo, e, quando domina determina a agitação e a excitação. Tamas, relaciona-se com a ignorância,

69 Educação Emocional na Escola 71 lassidão, apatia, preguiça, maldade e quando domina é responsável pela estupidez e insensatez humanas. As gunas estão presentes em todas as pessoas, sendo uma delas predominante no comportamento, as outras agindo concomitantemente. Nos sábios e nos santos, há predominância de Sattwa, enquanto no perverso bandido domina Tamas e o executivo ansioso é dominado por Rajas. Recomenda Sivananda a identificação das Gunas em cada um de nós, através da meditação, para assim reconhecer os fatores determinantes de nossos comportamentos, procurando estimular o crescimento de Sattwa, que estimula o desenvolvimento do discernimento, do raciocínio e do entendimento, pois, "a porta da intuição se abre totalmente". Deve-se procurar a libertação do domínio de Tamas e Rajas, devido a seus efeitos perniciosos. As pessoas rajásicas são muito ambiciosas, estão sempre em ação. São faladoras, desejam poder, riqueza, prestígio, posição, nome e fama, pois rajas é a fonte da ânsia, acorrentando a pessoa à ação. Seus desejos são insaciáveis. As pessoas tamásicas não são guiadas pela razão e não têm capacidade de julgamento. Não têm inclinação para o trabalho, são preguiçosas e dormem demasiadamente. Um dos representantes modernos do pensamento hindú é Sathya Sai Baba, que vive na Índia, e de lá transmite os ensinamentos das sagradas escrituras vedânticas. Entende que a disciplina é fundamental para o ser humano e que devem ser vencidos os seis "inimigos" do corpo, expressos através de seis sentimentos: desejo, ódio ou raiva, ambição, apego, orgulho e soberba, ciúme e inveja 13. Considera que "a raiva transforma o homem em uma besta embriagada. Os outros impulsos são igualmente viciosos. Procure praticar sempre ações salutares. Prescreve claramente a educação emocional aos seus seguidores quando recomenda: "Mesmo se você não tiver firme fé em Deus ou em qualquer Nome ou Forma particulares que expresse o Imanente Poder, comece pelo controle das imposições da mente, dos impulsos do ego e das atrações e das algemas sensuais. (...) Seja paciente. Seja humilde." Ensina que Dhyana, a meditação, é a disciplina pela qual a mente é treinada para a análise e a síntese internas e recomenda a

70 72 Educação Emocional na Escola respiração lenta para acalmar as emoções. Prega os seguintes passos para os iniciados: "O passo primeiro é o controle dos sentidos; o segundo o controle das emoções e dos impulsos; o terceiro o domínio do equilíbrio e da equanimidade; o próximo é a regulação da respiração e dos movimentos dos ares vitais; o quinto é a prevenção das influências exteriores e dos desvios da mente; o próximo é a atenção unidirecional sobre seu próprio progresso; e finalmente entrar no real dhyana ou meditação sobre a realidade última, que culmina no samadhi*" (13). * Samadhi é um estado mental descrito pela filosofia yoga, atingido através da meditação profunda, que corresponde à união do meditador com a realidade última do universo. Não pode ser descrito, mas reconhecido diretamente, intuitivamante. Nele haveria um estado de completa felicidade, alegria e paz.

71 Educação Emocional na Escola 73 SÍNTESE Um dos princípios da Educação Emocional estabelece a necessidade do desenvolvimento da consciência emocional do educador para que ele fique consciente de seu universo emocional. Ele deve fazer um trabalho de auto-conscientização de suas emoções e de reconhecimento das emoções do outro, procurando identificá-las e analisá-las no momento em que ocorrem. As pesquisas indicam que a educação emocional deve começar no seio da família. É importante que a criança seja habituada desde cedo a expressar suas emoções e a lidar com elas, devendo para isto receber apoio e ajuda dos pais. Nas conversas com os brinquedos, a criança costuma projetar suas idéias, desejos, frustrações e medos, e a análise delas pode ser útil para a descoberta de sentimentos recalcados. Deve ser permitida a livre expressão das emoções na criança, e deve-se identificar e compreender seus sentimentos. O respeito mútuo deve ser mantido em qualquer situação. Quando houver atritos envolvendo comportamentos emocionais, o pai ou mãe deve controlar-se, não devendo utilizar escárnio, desprezo, ironia ou comentários que desmereçam a criança. Devem ser abolidas humilhações e injustiças e jamais se deve bater nas crianças ou insultá-las, pois tais comportamentos gerarão seqüelas psicológicas de conseqüências imprevisíveis, com traumas que marcarão suas vidas. Qualquer forma de agressão e de violência contra o educando, seja física ou psicológica perpetuará a violência social. Não praticar a violência é uma forma de fazer Educação para a Paz, um dos componentes da educação holística. A empatia é a capacidade de colocar-se no lugar de outro, como se fosse ele. É a capacidade de sentir o que o outro sente. É importante nas estratégias de educação emocional prestar atenção aos gestos, ao tom de voz e à expressão corporal da criança e do adolescente. Um dos princípios da educação emocional é valorizar os sentimentos e as emoções do educando, e permitir que os expressem livremente, sem reprimi-los. Deve entretanto ser mostrado, com clareza, os limites deste extravasamento, que são os comportamentos socialmente toleráveis.

72 74 Educação Emocional na Escola Há duas formas de disciplina, a individual e a social. A individual, interna, relaciona-se com o respeito às normas que a pessoa estabelece para si mesma. É a auto-disciplina, traço de personalidade comum aos homens bem sucedidos. Deve ser estimulada e cultivada na escola, pois é um fator de sucesso pessoal e social. Na disciplina social, externa, as normas são estabelecidas pela sociedade, e é muito importante para a formação do cidadão. A punição advinda da própria classe a que o aluno pertence é mais efetiva e dá melhores resultados preventivos do que a punição aplicada pela administração da escola. Não adianta o educador emocional pregar determinado comportamento em determinada situação e agir de forma diferente: não adianta pregar o controle da raiva e descontrolar-se na primeira situação que o enraiveça. Um Príncipe Sábio, antes de exigir uma coisa dos outros, deve praticá-la primeiro, ele próprio; antes de repreender uma falta nos outros, deve ter o cuidado de não fazer o que reprova. Um homem que não sabe regular-se e tratar aos outros com a mesma medida que usa para si mesmo, não pode instruir aos outros (Confúcio, Os Quatro Estudos). A Contemplação dos Sentimentos recomendada por Buda, visa a consciência plena de que eles existem, que estão vivos dentro de nós: prazer e dor, agradável e desagradável, tristeza e alegria, amor e ódio, raiva, medo, mágoa, paz, etc. Numa atitude calma e imparcial, devem ser observados os sentimentos, no seu aparecer e desaparecer, na origem e desintegração. Não se deve aderir a eles quando forem agradáveis e esquivar-se quando forem desagradáveis a observação deve ser neutra. Sathya Sai Baba entende que a disciplina é fundamental para o ser humano e que devem ser vencidos os seis inimigos do corpo: desejo, ódio ou raiva, ambição, apego, orgulho e soberba, ciúme e inveja.

73 Educação Emocional na Escola 75 PARTE III ALGUNS ATORES DA CENA EMOCIONAL

74 76 Educação Emocional na Escola

75 Educação Emocional na Escola 77 4 Conhecendo a nós mesmos O QUE TEMOS EM NOSSA MENTE A autoconsciência é a percepção e a compreensão das informações que temos de nós mesmos 42. Na autoconsciência a mente observa e investiga todas suas próprias experiências. Não se deve deixar influenciar pelas emoções é uma atenção que deve registrar as observações de tudo que se passa dentro da consciência de modo neutro e imparcial, sem fazer nenhum julgamento. É uma espécie de testemunha do que está ocorrendo, sem interferir no que ocorre: nos pensamentos, emoções, sentimentos, sensações corporais, desejos, intenções, atitudes e atos. Da mesma forma que registra uma emoção de alegria ou tristeza, ou um sentimento de felicidade ou desespero, registra também a presença do som de um violino ou guitarra, a visão de um pássaro voando, o cheiro de um perfume, uma dor de cabeça, o gosto ácido de um limão ou o desejo de beber água. Os elementos da autoconsciência são: pensamentos e avaliações, sentimentos e emoções, sentidos (visão, audição, tato, olfato, gosto), atenção, desejos e intenções, atos.

76 78 Educação Emocional na Escola A autoconsciência é o ponto de partida para o controle das emoções e representa uma evidência de que os circuitos neurológicos do cérebro detectam a presença delas e que portanto podem interferir nelas, atuando sobre o seu componente relacionado com o pensamento. A autoconsciência é uma aptidão fundamental para o processo da educação emocional, pois é a base do autocontrole das emoções. Segundo John Mayer 8, psicólogo americano especializado em emoções, reconhecer uma emoção negativa raiva, medo ou tristeza, ou um estado de espírito negativo relacionado a esta emoção, já significa querer livrar-se dela ou deste estado de espírito. O reconhecimento de que "estou sentindo raiva" abre para a pessoa duas possibilidades: uma, a de não agir sob sua influência e outra, a possibilidade de procurar livrar-se dela. COMO PERCEBEMOS AS EMOÇÕES Mayer 8 considera três tipos de pessoas quanto à autoconsciência: autoconscientes, mergulhadas e resignadas. As autoconscientes são pessoas conscientes de seus estados de espírito e de suas emoções, na hora em que ocorrem. Se a pessoa está com raiva, tem conhecimento de que está possuído por esta emoção na hora, por isto tem capacidade de sair dela mais rapidamente. A vigilância sobre si mesmo ajuda a administrar melhor suas emoções. As mergulhadas são pessoas prisioneiras de suas emoções e por elas dominadas. É como se o comando de suas vidas estivesse nas mãos de seu estado de espírito ocasional. Elas não têm muita consciência de suas emoções e acham que não podem ter maior controle sobre suas vidas emocionais. Sentem-se emocionalmente descontroladas. É o caso de alguém que tem medo de muitas coisas ou vive permanentemente enraivecida, mas que não está consciente de que seu problema é de natureza emocional, no fundo. As resignadas são pessoas que têm percepção clara de seus estados emocionais mas tendem a aceitá-los, a não fazer nada para mudá-los. É o caso de uma pessoa triste e deprimida que não busca nem quer ajuda, pois acha que isto faz parte de seu destino. Entende o Autor deste livro que, em qualquer um dos tipos considerados, é de muita valia a percepção da autoconsciência da pessoa, através de técnicas apropriadas. No caso das autoconscientes, elas se tornarão mais competentes emocionalmente do que já são. Quanto às resignadas e as mergulhadas, se elas tiverem

77 Educação Emocional na Escola 79 melhor conhecimento de seus universos emocionais, estarão assim aptas a melhor administrarem suas emoções e seus estados de espírito. Quanto à intensidade com que as pessoas sentem suas emoções, Edward Dianer 8 considera dois tipos. Num extremo aqueles que sentem pouco suas emoções e são calmos em suas reações e no outro, aqueles que reagem com grande intensidade a elas. Relata o caso de um universitário que, diante de um incêndio em seu apartamento foi buscar um extintor de incêndio, e voltou com ele nas mãos, andando... Como exemplo do outro extremo, relata o caso de uma mulher que ao ver o anúncio em um jornal de uma liquidação de uma cara loja de modas, imediatamente entrou no seu carro e viajou durante três horas para fazer as compras. Já no terreno da doença, existem aqueles que têm dificuldade para exprimir suas emoções e sentimentos e até mesmo para sentilos. Não têm autoconsciência emocional pois não sabem precisar seus sentimentos e emoções. Quanto maior for o nosso grau de autoconsciência, maior será a possibilidade de conhecermo-nos melhor e podermos influenciar nossas ações, de modo que elas sejam benéficas a nós e aos nossos parceiros sociais. Com maior autoconhecimento teremos melhores condições para controlar nossas emoções e acalmar uma pessoa com descontrole emocional, a nos comunicarmos com os outros de modo eficiente, a ajudar a resolver conflitos e fazermos auto-motivação. Para termos uma idéia do quanto pouco conhecemos a nós mesmos, veja o seguinte exemplo: alguém vai à praia e, dentre outras pessoas que lá estão, vê uma pessoa muito bonita. Gosta dela e resolve "dar em cima", Aproxima-se e começa a conversar. Veja o que ocorreu na sua autoconsciência, que lhe passou despercebido: Sua visão lhe informou da presença de muita gente na praia, inclusive da pessoa que gostou. Sua atenção, uma espécie de farol que ilumina as personagens da nossa mente, fez com que seu olhar se fixasse nela. Seu pensamento analisou o corpo dela, seu rosto, seu modo de sorrir, e fez uma avaliação a respeito, concluindo: ela é muito bonita. É o meu tipo. Surgiu então o desejo de namorá-la e a intenção de executar este desejo. Decidiu então caminhar para onde ela estava. Sua atitude, foi de aproximar-se.

78 80 Educação Emocional na Escola Então executou sua decisão através do ato de andar em direção a ela e sentar para conversar. As etapas da intenção, decisão e de execução do ato, fazem parte do ato da vontade 37. A autoconsciência é de extrema importância na abordagem da raiva e da preocupação crônica. No caso da raiva, se a pessoa for autoconsciente, vigilante de seus pensamentos, aos primeiros sinais de irritação mental poderá imediatamente desencadear os mecanismos de controle, seja a nível mental, seja a nível corporal. Assim os efeitos da emoção serão minimizados e ela não se entregará às explosões de raiva, que a nada conduzem, só a mais problemas de relacionamento, pois poderá culminar com a própria violência física. No caso da preocupação, do medo, é através de sua autoconsciência que a pessoa vai se conscientizar dos seus pensamentos preocupantes, o que deve ser feito desde o início, impedindo-os de crescerem em espiral, que é a tendência natural, aumentando cada vez mais a preocupação. Se ela deixar a preocupação instalar-se, outros pensamentos negativos virão se somar aos iniciais o que agravará cada vez mais a ansiedade, que cursa normalmente com o medo. É importante identificar logo no início a preocupação e procurar atuar sobre ela. Podem ser usadas, por exemplo, as técnicas de relaxamento, que podem surtir bons efeitos, ou então, a contestação ativa da preocupação por intermédio de reflexões. Não devemos esquecer que: grande parte de nossos problemas somos nós mesmos que criamos em nossas cabeças. Fazendo uma análise das nossas últimas preocupações veremos que muitas delas não tinham fundamento. Não devemos entregar-nos a nossas preocupações, nem devemos ficar ruminando sobre elas. COMO PENSAMOS Se prestarmos bem atenção a nossos pensamentos veremos que existem quatro tipos básicos: lógico, racional, reflexivo; os desordenados, aleatórios; os automáticos e os diálogos internos. O pensamento racional, reflexivo é o pensamento lógico, feito mediante as leis e regras da lógica formal, a qual visa que o pensamento sempre esteja de acordo consigo mesmo. Neste tipo de pensamento, partimos de determinadas premissas, de determinadas afirmações e tiramos conclusões coerentes com as afirmações iniciais.

79 Educação Emocional na Escola 81 Por exemplo: Raimundo é irmão de Helena e Helena é filha de Eduardo, logo Raimundo é filho de Eduardo. Este é o tipo de pensamento que usamos quando estudamos matemática, ciências naturais, etc. É o que usamos quando conversamos com outra pessoa e queremos convencê-la de alguma coisa, ou quando queremos convencer a nós mesmos para fazer ou não alguma coisa. Os pensamentos reflexivos são a base da reflexão construtiva, extremamente importante nas nossas vidas, pois permite o planejamento do que iremos fazer no futuro. A reflexão construtiva permite a análise antecipada de problemas e situações do futuro e a busca de soluções adequadas. A grande questão é quando aparece o medo e a reflexão construtiva transforma-se em uma preocupação, junto com a qual sempre vem uma carga maior ou menor de ansiedade, que força a mente a fixar-se em determinada ameaça, que pode ser real ou aparente. Então a mente pode fixar-se obsessivamente na ameaça, podendo surgir um componente pessimista do pensamento, de que "nada vai dar certo" e de que "tudo vai se acabar", e de que "virá uma catástrofe na vida". Devemos estar atentos para nossas preocupações, pois elas sempre escondem um medo por trás delas. Elas devem ser combatidas com reflexões construtivas, realistas e positivas. Pensamento aleatório ou desordenado: Faça a seguinte experiência: vá para seu quarto e sente-se confortavelmente em uma cadeira de almofada ou deite-se na cama. Feche os olhos durante cinco minutos, não deixe ninguém lhe incomodar, e fique prestando atenção a seus pensamentos. Vai ver em quantos assuntos diferentes vai pensar, um depois do outro; na pessoa de quem gosta, no amigo, família, pais, irmãos, etc. Não há uma lógica entre um pensamento e outro, eles ocorrem ao acaso, desordenadamente. Pensamentos automáticos: são pensamentos irracionais que explodem espontaneamente em nossa mente. São ligados às emoções e expressam a intensidade delas. Por exemplo, quando estamos com raiva de alguém podemos pensar: "Vou enforcá-lo" ou "Vou matá-lo" e assim por diante, pensando coisas que jamais pensaríamos se estivéssemos emocionalmente equilibrados. São pensamentos que, embora ilógicos, tendemos a acreditar neles, podendo gerar outros pensamentos automáticos. Veja o exemplo de pensamentos automáticos que podem ocorrer na cabeça

80 82 Educação Emocional na Escola de um aluno que é encaminhado para a Supervisão ou a Diretoria por estar brincando durante a aula: "Agora estou perdido, para que fui brincar na aula". E continua: "Serei suspenso e vou perder as provas do bimestre". E mais: "Se não fizer as provas tirarei nota zero e meu pai vai brigar comigo e vai cortar minha mesada". E assim por diante. Na realidade são pensamentos automáticos irracionais desencadeados pelo medo que o aluno está sentindo, pensamentos estes que podem desencadear uma percepção distorcida da realidade, servindo de base para novos pensamentos automáticos e para novas avaliações distorcidas, cada vez mais distantes da realidade. Vejamos o desfecho da situação vivida pelo aluno: na Supervisão, por ter cometido uma transgressão disciplinar simples, uma brincadeira sem maiores conseqüências, ele foi simplesmente advertido verbalmente. Seus pensamentos automáticos fizeram uma tempestade em um copo de água... Diálogos internos 42 : são conversas interiores que temos conosco mesmos. Podem preceder, acompanhar ou seguir-se às nossas emoções, sendo importantes na formação de nossas experiências emocionais. Por exemplo, alguém teve um desentendimento com um colega de turma e ficou irritado com ele, mas em vez de entregar-se a sua raiva e partir para a agressão física, pensou consigo mesmo: "Se eu me entregar à minha raiva e der um murro nele isto não vai resolver o problema. Muito pelo contrário, vai ser pior para mim porque vou pegar uma suspensão, o que vai me trazer muitos problemas em casa. É melhor então eu esfriar a cabeça e conversar com ele amanhã". No diálogo interno o eu racional conduz a situação de forma equilibrada, com bom senso. Às vezes o eu emocional dialoga com o eu racional, tentando convencê-lo a praticar uma ação mais rápida e mais violenta, sendo repelido pela razão. COMO AMPLIAR A AUTOCONSCIÊNCIA Promover sempre um diálogo interno consigo mesmo: podemos ampliar nossa autoconsciência em relação a nossos pensamentos e avaliações promovendo um diálogo interno conosco mesmos. Por exemplo, podemos dizer a nós mesmos o que achamos do resultado da última prova de Matemática, se nos saímos bem e em que podemos melhorar. Podemos analisar nosso relacionamento com nossos pais, amigos e irmãos, procurando ver onde podemos melhorá-lo.

81 Educação Emocional na Escola 83 Devemos procurar ver como nos posicionamos diante das coisas se é de modo otimista, achando sempre que as coisas vão dar certo em nossas vidas, ou de modo pessimista, achando sempre que as coisas vão dar errado e que a culpa é nossa. Depois de encontros, refletir sobre eles: depois de encontros, principalmente se houve desentendimentos com outras pessoas, devemos procurar pensar sobre as causas que determinaram o desentendimento e o que determinou nosso comportamento. Acostumar a ouvir outras pessoas: é uma boa norma saber o que outras pessoas pensam de nosso comportamento. Não que devamos mudar simplesmente porque outra pessoa acha que estamos errados. Mas com a finalidade de melhor poder avaliar a situação: às vezes chegamos à conclusão de que estamos errados depois de refletirmos sobre as opiniões de outras pessoas. Prestar atenção aos sentidos - nossos sentidos (visão, audição, tato, olfato e gosto) são presentes que a natureza nos deu para que possamos saber o que se passa em nossa volta. É através dos sentidos que recebemos informações sobre o mundo que nos cerca. Eles devem ser devidamente utilizados, para que obtenhamos informações sobre nós mesmos, sobre outras pessoas e sobre o mundo. Para treinar e exercitar os ouvidos, devemos ouvir os sons que percebemos com atenção, principalmente quando estivermos escutando música. Devemos procurar identificar cada instrumento que está sendo tocado, pois isto é um bom exercício para o ouvido: o violão, o pandeiro, a cuíca, o tamborim, se for um samba. Na música clássica, o violino, o piano, o violoncelo, a trompa, etc. Para exercitar o olfato, devemos identificar o maior número de odores que pudermos quando estivermos andando na rua, no campo ou na praia. Prestar bem atenção ao gosto dos alimentos, em vez de comer apressadamente e identificar o sabor de cada um deles: da carne, peixe, galinha, cenoura, alface, tomate, arroz, pizza, etc. Prestar atenção a nossa respiração, se ela está normal ou apressada, às batidas do coração, ao tom de voz, se ele está alterado ou não. Para exercitar a visão, quando andar na rua prestar atenção nas coisas que vemos, nas suas formas e cores. Identificar nossas intenções: nossas intenções são as expressões de nossos desejos. Se sabemos o que realmente desejamos, poderemos utilizar esta informação para fazer melhor o planejamento

82 84 Educação Emocional na Escola de nossas ações. É muito importante que sejamos honestos conosco mesmos, expressando o que realmente queremos. Prestar atenção aos sentimentos e emoções: devemos sempre identificar as emoções e sentimentos que temos em determinado momento, senão poderemos agir movidos por impulsos relacionados com eles, que poderão nos causar muitos problemas desagradáveis, principalmente no caso das emoções negativas, raiva, medo e tristeza. Mesmo no caso das emoções positivas, como o afeto e a alegria, é bom que tenhamos consciência de que estamos agindo movido por elas e que, muitas vezes, elas também devem ser controladas. Prestar atenção aos nossos atos: devemos procurar estar conscientes das conseqüências de nossos atos. Às vezes um ato impensado, um gesto áspero, uma voz mais elevada pode trazer conseqüências negativas para nossos relacionamentos com pais, irmãos, amigos e outras pessoas. A outra pessoa pode se sentir ferida e humilhada, ficando magoada. Atenção para o modo de falar e para a linguagem corporal, que às vezes diz muito mais do que as próprias palavras. Se falamos com uma voz alterada isto pode ser interpretado como agressão pela pessoa com quem você está conversando. Se você fala com a cara enfezada, amarrada, o outro fica na defensiva ou pode mesmo partir para a agressão verbal. Para Acompanhar a Autoconsciência Fazer a si mesmo as seguintes perguntas, pelo menos uma vez pela manhã e outra à noite, todo dia: 1. Que emoções e sentimentos tenho agora? 2. Que estou desejando agora? 3. Quais informações estou tendo agora de meus olhos, ouvidos, olfato, gosto e de meu tato? 4. Que avaliação estou fazendo agora, e sobre que assunto? 5. Que ação estou praticando agora?

83 Educação Emocional na Escola 85 RELAXAR PARA MELHOR NOS CONHECERMOS As técnicas de relaxamento são recursos importantes para a obtenção do autoconhecimento, pois durante o relaxamento muscular há uma maior quietude da mente, o que permite uma melhor concentração e análise do conteúdo mental. Durante o relaxamento poderemos contemplar calmamente nossos pensamentos, sentimentos, emoções, desejos e intenções, e o que se passa em nosso corpo: o que ouvimos, os odores que nos cercam, o que vemos, etc. Podemos experimentar sensações novas, que nunca tivemos antes: de peso, de calor, de frio, etc. O praticante de uma técnica de relaxamento denominada Treinamento Autógeno, sente peso e calor em seus braços e pernas, o que significa, na prática, uma ampliação da autoconsciência. Durante o relaxamento, segundo Herbert Benson, professor da Faculdade de Medicina de Harvard, nos Estados Unidos, há uma estimulação do ramo parassimpático do sistema nervoso autônomo 43, que determina a diminuição do número de batimentos cardíacos. O coração bate mais devagar. A respiração fica mais lenta, pois diminui a freqüência dos movimentos respiratórios. Diminui a quantidade de oxigênio consumida pelo corpo, diminui a tensão muscular para abaixo dos níveis de repouso, diminui a pressão arterial em algumas pessoas. No registro da atividade elétrica cerebral há maior quantidade de ondas cerebrais mais lentas, as ondas alfa e beta. Segundo Benson a continuidade da prática do relaxamento pode proporcionar uma sensação de maior controle sobre a vida e a sensação de que as emoções podem ser controladas. Não se deve esperar que estas mudanças ocorram imediatamente. Podem levar semanas ou mesmo meses para aparecerem. É preciso disciplina e perseverança para obter bons resultados. Ao praticar relaxamento, se sentir medo quando fechar os olhos, praticá-lo com os olhos abertos, olhando de modo descontraído para um quadro ou um objeto qualquer. Não há efeitos colaterais para a esmagadora maioria das pessoas. Algumas podem lacrimejar ou ter uma sensação ligeira de peso e calor nas mãos e pés. Na Faculdade de Medicina de Harvard, no Mind / Body Medical Institute, está sendo utilizado o relaxamento para ajudar as pessoas, especialmente os jovens adolescentes alunos do segundo grau, na administração do estresse e da ansiedade em suas vidas. Benson, mentor do programa, acredita que ele possa ajudar a prevenir o comportamento violento e autodestrutivo entre os jovens, como o

84 86 Educação Emocional na Escola suicídio (que cresce assustadoramente entre eles), e a desenvolver habilidades que lhes permitam conviver com o estresse pelo resto de suas vidas. As técnicas de relaxamento são úteis também no controle da raiva e das preocupações. Descreveremos uma técnica utilizada no programa acima referido, com modificações ditadas pela experiência pessoal do Autor deste livro ao longo de dezenas de anos de prática. Ela é baseada em técnicas de relaxamento utilizadas há milênios pelos orientais. Técnica de Relaxamento - os passos são os seguintes: Escolher uma palavra ou uma frase que tenha grande significado: pode ser paz, amor, ou um simples número (um) ou uma frase como "estou tranqüilo", por exemplo. Sentar-se em posição confortável, com a coluna ereta. Fechar os olhos. Soltar o corpo. Relaxar os músculos. Respirar naturalmente, lentamente, sem interferir na respiração. Sentir o ar entrar e sair livremente nos pulmões. Repetir a palavra ou a expressão escolhida toda vez que expirar. Não se preocupar com nada que esteja em volta. Esquecer as preocupações. Concentrar a atenção exclusivamente na palavra escolhida. Se vierem pensamentos intrusos na mente, afastá-los delicadamente, voltando a concentrar-se na palavra escolhida. Começar com 10 a 20 minutos e depois aumentar o tempo, até quando se sentir bem. Praticar a técnica uma a duas vezes por dia, de preferência na mesma hora e no mesmo local. Outra técnica de relaxamento, descrita pelo autor deste trabalho em seu livro "Educação Emocional" 55, é baseada na respiração, sendo muito utilizada pelos orientais. São os seguintes passos: Sentar-se em posição confortável, com a coluna ereta. Fechar os olhos. Soltar o corpo. Procurar relaxar todos os músculos. Respirar naturalmente, lentamente, sem interferir na respiração. Sentir o ar entrar e sair livremente nos pulmões. Observar cuidadosamente cada fase da respiração, a inspiração (entrada do ar) e a expiração (saída do ar). Depois de identificar cada fase, concentrar-se isoladamente em cada uma delas: prestar atenção no início, na duração, na amplitude e no término de cada uma. Quando surgir pensamentos na mente, afastá-los gentilmente, retornando a atenção para a respiração.

85 Educação Emocional na Escola 87 Não se preocupar com nada que esteja em volta. Esquecer as preocupações. Concentrar a atenção exclusivamente na respiração. Para ajudar a concentração, contar lentamente, de um até dez, as inspirações e as expirações, acompanhando seus ritmos. Não é recomendável passar de dez, pois pode-se perder a concentração e pensar em outras coisas. Outra forma de garantir a concentração é prestar atenção ao movimento de subida e descida do tórax ou do abdômen, repetindo "sobe-desce", para cada subida ou descida do tórax, ou "dentro-fora" para cada inspiração e expiração que forem realizadas. Começar com 10 a 20 minutos e depois aumentar o tempo, até quando se sentir bem. Praticar a técnica uma a duas vezes por dia, de preferência na mesma hora e no mesmo local. PARA CONHECER NOSSAS EMOÇÕES Algumas maneiras podem ser utilizadas para entrarmos em contato com nossas emoções, para melhor nos conhecermos, dando um passo fundamental para a auto educação emocional. Começa com a identificação das nossas emoções, e é fundamental para identificar as dos outros, praticando a empatia. Dentre elas podemos citar a meditação, a oração, elaboração de um "diário de emoções", tocar um instrumento musical, pintar ou desenhar. A LIÇÃO DO ORIENTE A meditação é definida por Mouni-Sadu 16 como: "Direção ativa, constante de sua consciência para um tema escolhido, sem quaisquer desvios ou omissões, mantendo-o diante de sua mente pelo tempo necessário". A finalidade de todas as meditações é sempre a mesma, obter a quietude da mente através da concentração em determinado objeto ou tema. Variam as técnicas a depender das posições filosóficas pressupostas, no taoísmo, budismo, zenbudismo ou hinduísmo. Durante a meditação diversas alterações físicas ocorrem. A pulsação e a respiração ficam mais lentas, diminui o consumo de

86 88 Educação Emocional na Escola oxigênio, diminui a pressão sangüínea e há um sentimento de bemestar na pessoa. A psiconeuroimunologia mostrou que o cérebro e o sistema imunológico constituem um sistema integrado, havendo uma interação entre eles. A meditação, o relaxamento e as imagens mentais positivas estimulam a produção de linfócitos, células sangüíneas da linhagem branca importantes para a defesa imunológica celular do organismo humano. Após alguns minutos do início da prática da meditação, há uma sensação de profundo relaxamento, e o corpo fica descontraído e pesado. Há falta de clareza e vivacidade da mente, sentindo-se uma espécie de letargia até o ponto de dormitar sem dormir. Recentemente a farmacologia explicou tais fenômenos mediante a descoberta das endorfinas (1975), que são substâncias opiáceas produzidas pelo cérebro em condições especiais, verdadeiras morfinas endógenas. São mediadores químicos que exercem ação analgésica sobre a consciência porque se ligam aos receptores "opiáceos", semelhantemente à morfina e à heroína. MEDITAÇÃO HINDUÍSTA Sai Baba 13 recomenda que se reserve uns poucos minutos no início de cada dia para a prática da meditação, aumentando posteriormente a duração da sua prática, preferencialmente nas horas que antecedem a aurora. Pode-se utilizar uma lamparina ou uma vela com luz interna, com uma chama firme e reta. Deve-se sentar em qualquer asana (posição) confortável, sobre uma almofada ou uma tábua, nunca sobre o chão diretamente, e olhar firmemente para a chama. Depois fechar os olhos e procurar senti-la dentro de si mesmo, entre as sobrancelhas. Deste ponto levá-la até o coração, iluminando o trajeto que for realizado. A seguir, imaginar que a luz se faz mais ampla, ampliando-se cada vez mais até penetrar os membros, atingindo depois a língua, ouvidos e cabeça, espalhando-se a seguir em volta. Repetir isto todo dia, preferencialmente na mesma hora, de forma sistemática. O Autor acredita que ela é um dos meios mais efetivos para o autoconhecimento emocional. Tanto mais que abre as portas para o autocontrole, não só das emoções e dos sentimentos, mas também dos pensamentos associados. Daí sua importância no controle dos sentimentos, principalmente dos negativos, raiva, tristeza e medo. Não se deve esperar que através da meditação seja controlado o nascer dos sentimentos, pois eles nunca deixarão de existir. Podem

87 Educação Emocional na Escola 89 ser controladas suas expressões, o que é um grande avanço em termos de educação emocional. É a expressão descontrolada da raiva que leva a grandes problemas de relacionamento social. Quem consegue controlar sua tristeza e não se entrega a ela, provavelmente entrará em depressão mais dificilmente. A tentativa de controle do medo dificultará um maior desequilíbrio emocional e é um grande avanço em termos de educação emocional. O EFEITO DA MÚSICA Existem evidências experimentais de que a música pode gerar uma resposta de relaxamento dos músculos, estimular a parte intuitiva do hemisfério cerebral direito e harmonizar as atividades de ambos os hemisférios. Em pesquisas feitas por Helen Bonny, do Institute for Counsciousness and Music, nos Estados Unidos, foi constatado que músicas de compositores clássicos - Bach, Haydin, Vivaldi, Debussy e Bizet - produziram "uma redução mensurável da pulsação e efeitos positivos sobre depressão e ansiedade (...)" 7. Watson 17 refere que o interesse do efeito da música sobre as emoções é antigo, pois desde 1937, Kate Hevner, no The American Journal of Psycology, sugeriu uma classificação da música e poesia em oito pontos, levando em consideração seus efeitos sobre o estado de ânimo do ouvinte: solene e sagrado triste e dolente terno e sentimental quieto e calmante vivaz e brincalhão alegre e feliz eufórico e excitante vigoroso e majestoso Os efeitos da música sobre a mente dependem da constituição psicofisiológica de cada ouvinte e, para determinada pessoa, dependem do estado emocional no momento. Uma música pode ser agradável para

88 90 Educação Emocional na Escola uma pessoa e ser altamente irritante para outra é o caso das músicas com ritmo "quente", como o rock e da música baiana tipo axé. E para uma mesma pessoa, em determinado momento pode ser agradável ouvir uma música de ritmo mais acelerado e em outro momento só ser agradável uma música mais melodiosa, mais lenta. Quando uma pessoa está apaixonada a música que lhe é mais agradável é a música romântica, que ela ouve lembrando a pessoa querida. Em alguns casos, quando os ouvintes são especialmente sensíveis, alguns tipos de música podem causar problemas sérios de saúde. Assagioli 35 refere que Hastings, em seu estudo "Musicogenic Epilepsy" menciona 20 casos, 11 dos quais eram seus pacientes, que tiveram crises de epilepsia precipitadas pela música. Na mesma obra, Assagioli considera que concertos musicais muito extensos podem causar efeitos maléficos aos ouvintes. Músicas melancólicas e depressivas podem levar tristeza e amargura aos ouvintes, não devendo ser ouvidas nos casos de tristeza e depressão, como exemplo os "Noturnos" e a "Marcha Fúnebre" de Chopin, além de muitos adágios e partes muito lentas de diversos concertos. Contra a depressão, a tristeza, o desalento e o pessimismo a música alegre, cheia de vivacidade, atua como um verdadeiro antídoto, como por exemplo, as músicas de Bach, Mozart, Haydin e outros, além das músicas populares alegres, que levantam o estado psicológico das pessoas. Músicas frenéticas, principalmente se ouvidas em altos volumes, podem ser maléficas para o equilíbrio emocional das pessoas, podendo inclusive induzi-las a atos de violência. Para alguns pesquisadores, certos tipos de música têm entretanto um impacto prejudicial sobre o corpo, como por exemplo o rock pesado. Nos últimos anos surgiu um novo tipo de música, denominada de "Música New Age", baseada na idéia de poder alterar o estado de espírito do ouvinte, induzindo estados alterados da consciência, expandindo-a. É uma música muito melodiosa, sendo usada para relaxamento e meditação, acreditando Watson que ela só seja útil como ponto de partida para iniciar o relaxamento e a meditação. EMOÇÕES NO DIA-A-DIA Gottman 9 defende que fazer um diário das emoções é excelente meio para o autoconhecimento emocional, pois assim a pessoa se conscientizará de seus sentimentos. Acredita que identificar e escrever sobre suas emoções ajuda a controlá-las e propõe o seguinte modelo de diário emocional, a ser preenchido em todos os dias da semana:

89 Educação Emocional na Escola 91 Semana de... a... EMOÇÃO SEG TER QUA QUI SEX SAB DOM Felicidade Afeição Interesse Excitação Orgulho Desejo Amar Ser amado Gratidão Tensão Mágoa Tristeza Irritação Raiva Piedade Desgosto Culpa Inveja Arrependimento Vergonha

90 92 Educação Emocional na Escola SÍNTESE A autoconsciência é a percepção e a compreensão de informações sobre você mesmo. Os elementos da autoconsciência são pensamentos e avaliações, emoções, sentimentos e sentidos (visão, tato, olfato, audição e gosto), desejos e intenções, atenção e atos. Há três tipos de pessoas no tocante à autoconsciência: as autoconscientes, as mergulhadas e as resignadas. As autoconscientes são conscientes de suas emoções e de seus estados de espírito na hora em que ocorrem e vigilantes sobre seus estados emocionais, o que ajuda a controlar melhor suas emoções. As mergulhadas são prisioneiras de suas emoções e por elas dominadas. Elas não têm maior conhecimento de suas emoções e acham que não podem ter maior controle sobre sua vida emocional. As resignadas têm percepção clara de seus estados emocionais, mas tendem a não fazer nada para mudá-los. A autoconsciência é de extrema importância na abordagem da raiva e da preocupação crônica Na raiva, a pessoa vigilante de seus pensamentos, aos primeiros sinais de irritação mental poderá fazer seu controle e não se entregará às explosões de raiva. Na preocupação, que é uma forma de medo, a pessoa vigilante vai se conscientizar dos seus pensamentos preocupantes e procurará combatê-los desde o início. Há quatro tipos básicos de pensamentos: o racional, que é o pensamento lógico, feito mediante as leis da lógica e a base da reflexão construtiva, importante nas nossas vidas, para o planejamento do futuro. O pensamento aleatório ou desordenado em que não há uma lógica entre um pensamento e outro, eles ocorrem ao acaso, e perturbam muito a concentração no relaxamento. Os pensamentos automáticos são irracionais, explodem espontaneamente, ligados às emoções. Os diálogos internos são conversas interiores que temos conosco mesmos, que podem preceder, acompanhar ou vir depois das emoções. Recomendações para ampliar a autoconsciência: promover um diálogo interno consigo mesmo: depois de encontros, refletir sobre eles; acostumar-se a ouvir outras pessoas, prestar atenção aos sentidos (visão, audição, tato, olfato e paladar). Identificar as intenções, pois elas são expressões de desejos. Prestar atenção aos sentimentos e emoções, procurando identificá-los em determinado

91 Educação Emocional na Escola 93 momento. Prestar atenção aos atos e estar consciente das conseqüências deles. Para treinar e exercitar os ouvidos, ouvir os sons que perceber com muita atenção, principalmente quando estiver escutando música. Para exercitar o olfato, identificar o maior número de odores que puder, quando estiver andando. Prestar bem atenção ao gosto dos alimentos, à respiração, às batidas do coração e ao seu tom de voz. Para exercitar a visão, quando andar na rua, prestar atenção nas coisas que vê. As técnicas de relaxamento são importantes para o autoconhecimento, pois durante o relaxamento muscular há uma quietude da mente, melhor concentração e melhor condição para análise do conteúdo mental. Durante o relaxamento há estimulação do parassimpático, o coração bate mais devagar, a respiração fica mais lenta, diminui a quantidade de oxigênio consumida pelo corpo, diminui a tensão dos músculos, diminui a pressão arterial em algumas pessoas. A prática do relaxamento pode proporcionar uma sensação de maior controle sobre a vida e sobre as emoções. A finalidade de todas as meditações é sempre a mesma, obter a quietude da mente através de sua concentração em determinado objeto ou tema. A prática da meditação é um dos meios mais efetivos para o autoconhecimento emocional, pois ela abre as portas para o controle das emoções, dos sentimentos e dos pensamentos associados. Daí sua importância no controle dos sentimentos, principalmente dos negativos, raiva, tristeza e medo. Nos últimos anos surgiu um novo tipo de música, denominada de "Música New Age", baseada na idéia de poder alterar o estado de espírito do ouvinte, induzindo estados alterados da consciência, expandindo-a.

92 94 Educação Emocional na Escola

93 Educação Emocional na Escola 95 5 Controle da Raiva O CIÚME QUE LEVOU A MATAR É noite de sexta-feira, Márcia e Josevan combinam sair para tomar uns drinques num bar perto de casa. Depois de alguns goles, lá pela madrugada, entram algumas garotas no bar e Josevan começa a olhar para elas. Márcia, irritada com o comportamento do companheiro, pede que ele a respeite como sua mulher. Ele não gostou e lhe deu um tapa, que detonou o início da briga. Márcia saca uma faca e desfere diversos golpes em Josevan, deixando-o estirado no chão, morto. Márcia, autuada em flagrante delito, antes de ser encaminhada para o presídio feminino, confessou ao delegado que sua intenção não era matar o companheiro (notícia do jornal "A Tarde", em 28/2/1999). Estes episódios se repetem freqüentemente nas páginas policiais de diferentes jornais de diversas partes do mundo e são a expressão da forma mais extrema da raiva. A raiva é uma das emoções principais dos animais. Se um cachorro, é ameaçado por outro maior e mais forte, reage imediatamente com raiva, mostrando-lhe os dentes e rosnando. Mostra sua vontade de lutar, de reagir à agressão, de manter sua integridade corporal e sua preservação individual.

94 96 Educação Emocional na Escola Isto ocorre com qualquer animal, inclusive o homem, que tenha sua integridade física ameaçada, diante de um perigo real ou presumido: reage preparando-se para lutar ou fugir. Foi graças à raiva, enquanto meio de defesa contra ameaças de outros animais, que o homem das cavernas conseguiu sobreviver e dar continuidade à espécie humana. A raiva é uma manifestação do organismo para a preservação do indivíduo. Na raiva há uma reação para lutar, pois o cérebro emocional estimula a secreção de diversas glândulas, com a produção final de adrenalina e noradrenalina no corpo, numa resposta ao estresse existente 44. Durante esta reação, o cérebro emocional fica de prontidão para responder ao estímulo, funcionando como uma base para reações posteriores - é como se a mente emocional ficasse com o "dedo no gatilho". No homem moderno a reação à raiva continua a existir, com as mesmas características, embora existam novos estímulos capazes de desencadeá-la, devido ao novo tipo de vida do homem. Os estímulos capazes de produzir a raiva no homem moderno são muito mais de natureza intrapessoal, psicológica ou de natureza interpessoal, social e não podem ser resolvidos pelos simples mecanismos de luta e de fuga. No caso de Márcia, de início, não houve uma ameaça real à sua integridade física, e o estímulo desencadeador da raiva foi ver seu companheiro dirigir gracejos para outras mulheres. Isto atingiu profundamente sua autoestima, levando-a à reação, de início puramente verbal. Josevan, sob o efeito do álcool, que altera o controle emocional, reagiu violentamente dando-lhe um tapa houve aí uma agressão real à integridade física de Márcia, que teve uma reação desproporcional à agressão sofrida, e se entregou à sua raiva, matando o companheiro. Por isto não devemos nos entregar à nossa raiva, pois poderemos praticar atos dos quais posteriormente nos arrependeremos. Márcia foi longe demais e vai pagar por esta explosão de raiva com muitos anos de sua vida durante os quais estará na prisão. Como veremos depois, a maioria das raivas do homem moderno tem origem em seu pensamento e é alimentada por ele. É o caso da raiva recíproca que existe entre os judeus e os árabes, ou de uma pessoa que pede a outra para fazer uma coisa e não é atendida, ficando frustrada e com vontade de agredi-la. Como é impossível para o homem lutar ou fugir de seus pensamentos irados, ele tem de procurar outras formas para resolver o problema de sua raiva. O pior é que na raiva desencadeada pelo

95 Educação Emocional na Escola 97 pensamento a reação do estresse é igual à reação existente quando há uma agressão real contra o indivíduo, e os efeitos maléficos são os mesmos sobre o organismo da pessoa enraivecida e, tanto maiores quanto maior for a duração do estado raivoso. TIPOS DE RAIVA O tipo de raiva natural, que os animais nascem com ela, é a raiva inata 40. Ela se caracteriza pela rapidez com que ocorre, mobilizando-o para responder a situações urgentes em que a perda de tempo pode ser uma questão de vida ou morte. Há outro tipo de raiva que o indivíduo aprende durante sua vida: é a raiva aprendida ou raiva programada, que é aprendida no convívio com as outras pessoas, principalmente dentro da família, com os pais, irmãos, etc. É gerada e mantida pelo pensamento, não havendo uma ameaça real contra a integridade física da pessoa enraivecida. Um exemplo de raiva aprendida ou programada é a que existe entre dois povos, como a existente entre judeus e árabes. Quando o judeu é pequeno lhe é ensinado um sentimento de hostilidade, para com os árabes, ocorrendo o mesmo com os árabes em relação aos judeus. Este sentimento de hostilidade é encontrado, também, dentro de um mesmo povo entre facções políticas diferentes, principalmente nas populações do interior do estado. Existe numa cidade no interior de Pernambuco um ódio aprendido entre duas famílias tradicionais, que tem durado muitas gerações, tendo como resultado matanças constantes entre seus membros. Também existe raiva aprendida entre membros de diferentes religiões, como entre os católicos e os protestantes da Inglaterra. A raiva inata é uma reação a uma ameaça real e concreta contra a integridade do organismo. Ela é transitória e dura enquanto durar o estímulo que a produz e gera uma reação proporcional ao estímulo, originando-se sempre no presente. Se alguém tomar um tapa no rosto, vai ter uma raiva inata, natural, pois houve uma ameaça real e concreta ao seu corpo. Ela será transitória, passageira, e sua intensidade será proporcional ao tapa que se recebeu. Se doer muito o tapa, a raiva será maior, se doer menos será menor. A raiva vai começar no tempo presente, na hora que se tomar o tapa. Na raiva aprendida ou programada não há uma ameaça real à pessoa e há grande participação do pensamento, tanto na produção da

96 98 Educação Emocional na Escola raiva, quanto na sua perpetuação. Ela é persistente e repetitiva. No caso da briga entre famílias é o pensamento que vai ficar alimentando a raiva dentro da cabeça da pessoa. É uma raiva que resulta do pensamento 8, originando-se no passado, e a única forma de controlála é lutar contra o pensamento que a desencadeia e mantém. Foi publicado no jornal "A Tarde", em 21 de janeiro de 1988 a seguinte matéria: um engenheiro saiu em busca de diversão e foi a uma barraca em Vilas do Atlântico. Sentou, pediu uma cerveja e alguns caranguejos de "tira-gosto". Notou que os caranguejos estavam fedendo, podres e pediu outro "tira-gosto". O dono da barraca não gostou e disse que não venderia mais nada a ele. O engenheiro, revoltado, pediu a conta, na qual foi cobrado o caranguejo. Ele discutiu, esbravejou, mas terminou pagando. Depois foi ao jornal e pediu para colocar uma nota contra o barraqueiro, citando o nome da barraca. Além disso deu queixa na Delegacia de Defesa do Consumidor, pedindo a devolução do dinheiro do caranguejo pago e deu queixa na Secretaria Municipal de Saúde, pedindo uma vistoria nas condições higiênicas da barraca. É um caso típico de raiva desencadeada pelo pensamento e mantida por ele. O que causou a raiva foi o garçom não ter atendido ao que o engenheiro queria, que era trocar o caranguejo. Não foi uma ameaça real à integridade física do raivoso, mas a frustração aos desejos dele. O pensamento irado do engenheiro serviu como fonte de alimentação para sua raiva, que foi aumentando cada vez mais e exigindo dele uma vingança, uma desforra. Ele pensava: "Você não é homem não? Você vai engolir isto deste moleque desqualificado? Você vai ficar desmoralizado? E sua auto-estima, como fica depois disto? Você vai tolerar esta humilhação?". E assim por diante, num crescendo cada vez maior. E ele entregou-se à sua raiva. Dominado pelo cérebro emocional, irracionalmente, o engenheiro procurou o jornal, perdendo seu tempo e gastando mais dinheiro, para fazer a denúncia pública e assim tirar a forra do barraqueiro, extravasando sua raiva, e procurando prejudicálo economicamente. Mas isto não conseguiu aplacar sua ira e ele partiu para dar queixa na Delegacia do Consumidor, pedindo a devolução dos poucos reais que pagou pelo caranguejo. E gastou muito mais de gasolina para extravasar sua raiva. Não satisfeito ainda foi na Secretaria Municipal de Saúde pedir para fechar a barraca devido às suas más condições de salubridade. E isto só lhe gerou mais despesas e mais aborrecimentos...

97 Educação Emocional na Escola 99 Este é um grande exemplo de raiva gerada pelo pensamento e de que a conduta raivosa é completamente irracional e sem sentido. E mais, de que há necessidade de ser feita a educação emocional, pois se o engenheiro tivesse tido educação emocional teria pensado: "Deixa isso pra lá. Vou comer o caranguejo em outra barraca". E teria passado seu domingo em paz com sua família, livrando-se do grande estresse que teve. QUANDO A PROVOCAÇÃO PRODUZ RAIVA O limiar de raiva é a quantidade de estímulo ameaçador capaz de determinar o aparecimento da raiva. Para determinada situação, se determinada pessoa estiver calma, somente uma dada provocação, com determinada intensidade I, poderá despertar nela a reação de raiva este é o limiar de raiva para aquela pessoa, naquelas circunstâncias. Se o estímulo provocador tiver intensidade menor do que o valor I, ela não terá raiva. Por exemplo, alguém que recebe uma agressão verbal num momento em que está calmo, poderá tolerar a agressão sem reagir, pois não foi atingido seu limiar de raiva. Se entretanto ele tivesse sido submetido a um estresse mantido durante o período que antecedeu imediatamente a provocação e depois fosse alvo da mesma agressão, seguramente responderia a ela manifestando a raiva que estava possuído. É que houve um rebaixamento do seu limiar de raiva, e agora ele reage com um estímulo menor do que aquele que normalmente toleraria. Isto ocorre porque o estresse mantido produz a liberação dos hormônios do estresse (adrenalina e noradrenalina), aumentando a sensibilidade do cérebro emocional à raiva. Esta aí a explicação de porque uma pessoa pode responder explosivamente a um pequeno estímulo se tiver tido diversos aborrecimentos anteriores, e porque existem os seqüestros emocionais, nos quais a pessoa, por quase nada, fica enraivecido e sai esbravejando e quebrando tudo. Entendese porque deve ser feito o controle da raiva desde o início do processo raivoso, e porque se deve detectá-lo desde o aparecimento dos primeiros sinais corporais, coração e respiração disparados e voz alterada.

98 100 Educação Emocional na Escola E I Limiar de Raiva Figura 5-1 T Limiar de Raiva Limiar de raiva é a quantidade de estímulo capaz de desencadear a raiva. Na vertical está indicada a variação do estímulo e na horizontal a variação do tempo. A raiva só aparece quando o estímulo atinge um valor maior do que I: este é o limiar de raiva. O QUE FAZ A PESSOA COM RAIVA Quando a pessoa está com raiva pode ter uma das condutas seguintes, segundo Accioly 40 : Agredir a quem lhe provocou a raiva. É um tipo de comportamento muito freqüente. A pessoa enraivecida, principalmente quando não é atendida no que quer, frustrada, parte para a agressão. Existe tanto na raiva inata, natural quanto na aprendida, gerada pelo pensamento. Na raiva inata é freqüente partir para dar um murro no seu agressor, revidando a agressão sofrida. Rebelar-se contra o agressor - a pessoa enraivecida porque sofreu uma humilhação de outro procura vingar-se não obedecendo as suas ordens, e rebelando-se contra ele. Outras formas de reação: impedir que o agressor faça alguma coisa, exigir, ameaçar, opor-se ao agressor, fazer imposições, humilhar, criticar, rebaixar, controlar, torturar, perseguir, expulsar, etc.

99 Educação Emocional na Escola 101 REAÇÕES CORPORAIS DA RAIVA A raiva se manifesta no corpo de diversas maneiras e uma das manifestações mais importantes, para a qual sempre devemos estar atentos é a manifestação que está no rosto da pessoa enraivecida: há uma contração dos músculos da face, principalmente no maxilar inferior, na mandíbula, e a pessoa fica com uma carranca típica da raiva, com o "queixo quadrado". Fica suando muito, as pupilas ("menina dos olhos") dilatadas, a pele avermelhada ou pálida. Nos membros, há uma contração muscular generalizada, principalmente do braço, antebraço e mãos. Os dedos das mãos ficam fechados, em uma posição de briga, mostrando a disposição de dar um murro. A tensão dos músculos aumenta, mostrando a vontade de brigar. Na voz, a fala fica grosseira, áspera, alterada e é geralmente exaltada, alta. A boca fica seca, o coração dispara e parece querer saltar do peito, a respiração fica ofegante, a tensão arterial sobe. Tudo isto devido ao aumento da produção de noradrenalina no corpo. O açúcar do sangue sobe, para servir como fonte de energia rápida no caso de luta ou de fuga. Esta reação é conhecida como resposta ao estresse 44 e ocorre toda vez que há uma ameaça ao organismo. O nível da intensidade da expressão corporal da raiva varia de uma pessoa para outra e, na mesma pessoa varia com a intensidade maior ou menor da raiva. Ela pode durar somente minutos ou horas, mas pode durar dias se a raiva ficar mantida. Neste último caso pode levar danos sérios à saúde da pessoa. FANTASIAS DA RAIVA E SUA IDENTIFICAÇÃO A raiva pode manifestar-se sob diferentes disfarces. Goleman 8 refere que a forma mais extrema está representada pelo ódio, fúria e violência. As formas mais brandas são revolta, ressentimento, exasperação, indignação, vexame, animosidade, aborrecimento, irritabilidade, hostilidade. Accioly 40, além de manifestações acima citadas inclui chateação, frustração, aversão, mágoa, ciúme (que é uma emoção mista), inveja, desagrado, decepção e rivalidade.

100 102 Educação Emocional na Escola Para saber se uma pessoa está enraivecida, procure identificar nela os sinais corporais da raiva, cujas intensidades variam de acordo com a intensidade da emoção, sendo mais evidentes quando a raiva é mais pronunciada. O rosto fica suado, pálido ou avermelhado. Os olhos podem ter uma dilatação das pupilas, ficando "esbugalhados". Os músculos da face se contraem, principalmente os do queixo, que fica "quadrado", assumindo o rosto como um todo a forma de uma "carranca típica". As mãos e os braços tremem muito. Os punhos fechados, prontos para a briga. A respiração fica mais rápida, ofegante. Há uma mudança de voz que fica áspera, ríspida e grosseira, geralmente a pessoa falando mais alto que o normal. A R A I V A N O B U D I S M O : O LAMRIM E O DALAI LAMA O Lamrim é uma escritura do ramo tibetano do budismo atribuída ao monge Atisha, que viveu nos séculos X ao XI ( ). Traduzida como Etapas do caminho, ela constitui o corpo principal do budadharma, e visa orientar os discípulos ao modo de satisfazer seus desejos e necessidades. As instruções do Lamrim foram ensinadas originalmente por Buda Shakyamuni e transmitidas por seus seguidores, encontrando em Atisha a unificação de várias tradições. No capítulo das delusões há um destaque especial para a Raiva. As delusões são fatores mentais que fazem nossa mente ficar agitada e descontrolada, perturbando-a e levando à perda do controle. São consideradas, dentre outras, a raiva, o apego desejoso, o orgulho, a ignorância e a dúvida. Para os budistas elas constituem a base de todos os enganos e conflitos humanos. Para o Lamrim, a raiva é "Um fator mental que observa um objeto animado ou inanimado, sente que é desagradável, exagera nas suas más qualidades, considera-o indesejável, antagoniza-se com ele e gera o desejo de prejudicá-lo 68 ". São considerados nove tipos de raiva, de acordo com o objeto e a época em que foi gerada. Podemos ter raiva de alguém ou de algo que tenha nos prejudicado, nos prejudique ou venha a nos prejudicar, que tenha prejudicado, prejudique ou venha a prejudicar nossos parentes e amigos, tenha ajudado, ajude ou venha a ajudar nossos inimigos. Vejamos exemplos de cada situação: Raiva de alguém ou de algo que tenha nos prejudicado no passado.

101 Educação Emocional na Escola 103 É o caso de lembrarmos de uma história passada em que alguém nos agrediu física ou moralmente, ou nos humilhou. Podemos ficar remoendo o incidente e desenvolver um sentimento de inimizade e vontade de nos vingar. A lembrança de fatos ocorridos há centenas de anos pode causar hostilidade entre povos e levar nações à guerra. Raiva de alguém ou de algo que esteja nos prejudicando no presente. É a raiva que você sente por alguém que lhe ofende agora ou lhe agride verbal ou fisicamente, ou é áspero no tratamento. Raiva de alguém ou de algo que possa nos prejudicar no futuro. Se alguém compete com outro para tentar conseguir um emprego, naturalmente ficará com raiva antecipada dele, devido à possibilidade de perder a colocação e ficar desempregado. Nações que competem entre si podem imaginar fatos que possam a vir ocorrer no futuro e até entrar em guerra por causa destas suspeitas. Raiva de alguém ou de algo que tenha prejudicado nossos amigos ou parentes no passado. Se você encontra na rua uma pessoa que esmurrou seu irmão há alguns dias, naturalmente vai ficar com raiva dele. Raiva de alguém ou de algo que esteja prejudicando nossos parentes ou amigos no presente. Se você sabe que alguém roubou seu irmão ou seu amigo, vai ficar com raiva desta pessoa. Raiva de alguém ou de algo que possa prejudicar nossos parentes ou amigos no futuro. Se você sabe que alguém ameaçou com uma surra ou de matar seu irmão ou seu amigo, naturalmente vai ficar com raiva dele. Raiva de alguém ou de algo que tenha ajudado nossos inimigos no passado. Se você sabe que, na última eleição em que um parente era candidato a um cargo eletivo, alguém trabalhou intensamente contra ele, desviando votos considerados certos, vai ficar com raiva desta pessoa. Raiva de alguém ou de algo que esteja ajudando nossos inimigos no presente.

102 104 Educação Emocional na Escola Se você encontra na rua uma pessoa batendo em seu irmão, ajudado por outras pessoas de seu grupo, vai ficar com raiva desta outras pessoas. Raiva de alguém ou de algo que possa ajudar nossos inimigos no futuro. Se você tem uma questão judicial importante e sabe que determinada pessoa vai testemunhar a favor da outra parte, naturalmente vai ficar com raiva dela. A raiva prejudica a todos, na visão budista: tanto quem a sente, quanto à pessoa a quem ela é dirigida. Ela é capaz de destruir muitas relações e muitas amizades, sendo a responsável pela falência da maioria dos casamentos. No Guia do Estilo de Vida do Bodhisattva 68, Shantideva diz que não há mal pior do que a raiva. Para o Lamrim, devemos impedir o desenvolvimento da raiva assim que notarmos suas etapas iniciais, cortando o contato com o objeto provocador, pois é difícil controlá-la depois que toma conta de nossa mente. Devemos identificar a raiva em suas etapas iniciais, evitando ela explodir. Esta análise mostra como os budistas, há milênios já se preocupavam com as emoções e que os germens da Educação Emocional se encontram nas suas antigas escrituras. A VISÃO DA RAIVA PELO DALAI LAMA O Dalai Lama, lider espiritual do budismo tibetano, no ano 2000, expressou suas convicções a respeito da raiva 73. Comentaremos algumas delas, no sentido de constatar a coincidência do seu pensamento com o da ciência atual. Para ele a raiva está situada entre as emoções negativas ou aflitivas, ao lado da presunção, arrogância, ciúme, desejo, luxúria e intolerância. A raiva e o ódio, entretanto, são os maiores males, pois representam os obstáculos de maior vulto ao desenvolvimento da compaixão e do altruísmo, e por destruírem nossa virtude e nossa serenidade mental. A compaixão, segundo Sogyal Rimpoche 74, é uma sensação de simpatia ou cuidado com uma pessoa que sofre, uma ternura que vem do coração para a pessoa que está em sua frente e um reconhecimento das suas necessidades e da sua dor, além de uma determinação prática de fazer tudo que for possível e necessário para

103 Educação Emocional na Escola 105 aliviar seus sofrimentos. O que caracteriza a verdadeira compaixão é que ela é ativa. Acredita existir um tipo positivo de raiva, quando motivada pela compaixão ou por uma sensação de responsabilidade. A raiva motivada pela compaixão pode ser usada como impulso para um ato que gere o bem de alguém, pois ela gera um tipo de energia que impele o indivíduo a agir com rapidez e decisão, como uma força para provocar ação urgente. Na maioria das vezes a raiva é negativa, gerando rancor e ódio. Devemos ter muito cuidado, porque nunca sabemos ao certo se ela acabará sendo construtiva ou destrutiva. Quanto ao ódio, ele nunca é positivo, sempre é negativo, e não gera absolutamente nenhum benefício. O ódio é comparado a um inimigo: um inimigo interno que só tem uma função, fazer o mal a quem o possui, destruindo-o a curto e a longo prazo. O ódio é o nosso maior inimigo. Devemos cultivar a paciência e a tolerância, pois elas são os antídotos da raiva e do ódio. Não podemos superá-los simplesmente suprimindo-os, e enquanto a pessoa tiver tolerância e paciência, sua serenidade e sua paz de espírito não serão perturbadas. Para isto devemos gerar um forte desejo de atingir nosso objetivo, e uma determinação firme de suportar as dificuldades que encontraremos em nosso caminho. A prática da paciência e da tolerância são a forma de combater o ódio e a raiva e devemos exercitá-las sempre que estivermos com pensamentos irados ou cheios de ódio. Quando o ódio e a raiva surgem com grande intensidade, sufocam a melhor parte de nosso cérebro e nosso poder de discernimento se torna totalmente inoperante, sem poder funcionar. O rosto da pessoa se torna contorcido, repulsivo, e ela emana uma energia muito hostil que até os animais de estimação sentem e procuram evitar a pessoa naquele instante. Quando a pessoa nutre pensamentos rancorosos, eles tendem a se acumular dentro dela, causando sintomas, tais como perda de apetite e insônia, que fazem com que a pessoa se sinta mais tensa e nervosa. Quanto à expressão da raiva, acredita o Dalai Lama que, em determinadas circunstâncias, talvez seja melhor abrir o coração e

104 106 Educação Emocional na Escola expressá-la. Ressalva entretanto que a raiva e o ódio podem se agravar e crescer cada vez mais, se forem deixados à vontade. Chama a atenção para o fato de que se nos acostumarmos a expressá-los, normalmente isto resulta no crescimento deles e não na redução. Por isto, quanto mais adotarmos uma atitude cautelosa, procurando reduzir suas intensidades, lutando contra eles, melhor será. Quanto à prevenção da raiva, recomenda que deve ser feito com antecedência um trabalho constante no sentido de gerar o contentamento interior e cultivar a benevolência e a compaixão. Isto produzirá serenidade mental e pode ajudar até a impedir que a raiva se manifeste. Se estivermos diante de uma situação que gere raiva ou ódio, devemos encará-los de frente, e procurar identificar quais os fatores que deram origem àquela manifestação emocional. No caso da raiva, tentar identificar se ela é de natureza construtiva ou destrutiva. Se for raiva destrutiva ou ódio, contrabalançar suas ações com pensamentos de paciência e de tolerância. Se a emoção for muito forte, talvez seja o melhor tentar deixá-la de lado naquele instante e pensar em outra coisa. Quando a mente se acalmar um pouco, analisar melhor o que ocorreu. Realmente, sabemos hoje que pesquisas mostram que uma análise lógica e uma reavaliação dos pensamentos e da situação que detonaram a raiva podem ajudar muito a dissipá-la. Também a busca de diferentes ângulos da situação desencadeadora da raiva pode ser muito eficaz, bem como procurar ouvir as razões do outro. Para o Dalai Lama, o único fator que pode nos dar refúgio ou proteção em relação aos efeitos destrutivos da raiva e do ódio é a prática da tolerância e da paciência. Quando toleramos pequenos sofrimentos ou problemas que temos em determinado momento, nós estamos evitando maiores dissabores ou maiores sofrimentos no futuro. Para ele a humildade tem íntima ligação com a paciência, pois ela envolve a capacidade de agir deliberadamente para não assumir uma atitude beligerante, mesmo a pessoa tendo a capacidade de agir agressivamente. A pessoa sabe que é capaz de ter uma atitude agressiva mas resolve não assumi-la.

105 Educação Emocional na Escola 107 O método básico prescrito pelo Dalai Lama para superar a raiva e o ódio é o da Meditação Reflexiva, que envolve o uso do raciocínio e da análise para investigar suas causas. Um primeiro exercício de meditação consiste em visualizar uma situação em que uma pessoa conhecida está tendo um acesso de raiva. Ela está furiosa, perdeu a serenidade, está gritando e contorcendo o rosto, sua face está deformada, o queixo para cima, os olhos quase saltando da órbita, os punhos cerrados. Fazer esta visualização durante alguns minutos e, ao final, analisar a situação e associar à nossa experiência. Verificaremos provavelmente que já estivemos neste estado algumas vezes. Tomar então a seguinte resolução: "Nunca me deixarei dominar por uma raiva ou por um ódio tão intensos, porque perderei minha paz de espírito, minha serenidade e assumirei esta aparência física horrível". Concentrar a mente nesta resolução, se comprometendo a combatêlos antes que cresçam. A segunda meditação prescrita pelo Dalai Lama consiste em visualizar alguém que não lhe agrade e que está fazendo algo que lhe aborrece muito ou lhe ofendendo. A seguir, pense que a reação natural de raiva que teria diante dela está se manifestando. Veja se seu coração dispara, se a respiração fica ofegante, se seus pensamentos ficaram agitados, se você ficou irritado. Durante uns três a quatro minutos, analise como se comportou durante a visualização, e constate que perdeu a paz de espírito e que sua irritação foi crescendo à medida que se entregava a ela. Então tome a seguinte resolução: "No futuro não agirei mais desta maneira". Fixe sua mente durante algum tempo nesta resolução, porque estará assumindo a atitude que terá de agora por diante quando exposto a uma situação que desencadeie raiva ou ódio. A RAIVA QUE SEPARA OS CASAIS Maslin 72 considera dois tipos básicos de casais raivosos: aqueles em que a raiva é manifesta e aparece de forma evidente, os raivosos - que sabem que -são - raivosos, e aqueles em que a raiva existe mas é oculta, não aparece: são os raivosos- sem saber Os que têm raiva manifesta dividem-se em duas categorias, expansivos e provocadores. Os expansivos, no qual os dois parceiros

106 108 Educação Emocional na Escola discutem, brigam abertamente e são vingativos, devido aos temperamentos incendiários. Os provocadores, em que apenas um membro do casal expressa abertamente sua raiva, resmungando e se exasperando, enquanto o outro o provoca. Casal expansivo: No casal expansivo há uma hostilidade declarada de ambos os parceiros, e um deles está sempre cutucando as fraquezas, limitações, medos e falhas do outro. Os conflitos e as lutas surgem sem nenhuma razão, com discussões a propósito de qualquer coisa, levando a uma exaltação cada vez maior de cada parceiro. Vejamos o caso de Alberto e Marília, que estão se preparando para ir a uma festa de ano novo na casa de um amigo. Quando ela aparece com um vestido muito decotado, ele não perde a oportunidade para agredir: "Você não está vendo que este decote está exagerado e que seus seios estão aparecendo? Você está parecendo uma prostituta!" Ela não perde a oportunidade para responder e agredi-lo: "Já vem você com seu ciúme besta. Você precisa é ir a um psiquiatra para se tratar e vencer esta insegurança. Também você não dá para nada mesmo na vida. Não consegue nem uma promoção no trabalho. É por isto que ganha o salário que ganha". Os expansivos não têm hora nem lugar para brigar, discutindo abertamente na frente dos outros, no shopping, na rua, no cinema, na casa dos amigos. O clima psicológico existente é altamente deletério para ambos, e, quando há filhos esta hostilidade repercute muito negativamente nas crianças. À medida que aumenta a hostilidade vai diminuindo o respeito mútuo entre os parceiros, com agressões cada vez mais violentas, de lado a lado. Se o marido diz: "Ninguém tolera viver com você. É por isto que seu ex-marido lhe deixou". Ou "Por isto é que todos seus amigos brigam com você". A mulher contra ataca com tom mais violento, a voz alterada:

107 Educação Emocional na Escola 109 "Vou denunciar ao Imposto de Renda todas suas falcatruas e que você tem conta no exterior". Casal provocador: No casal provocador só um conjugue expressa a raiva abertamente, tem "pavio curto", é o "dono" da ira matrimonial. Ele é provocado pelo outro até explodir. O outro parceiro não expressa sua raiva diretamente, e faz o papel de inocente. Ele é provocador e queima o outro em fogo brando, até exasperá-lo. O conjugue raivoso fica impaciente, incomodado, exasperado, chateado, irritado, nervoso, rabugento ou impaciente, a depender do nível de provocação. Um parceiro é provocador e o outro é provocado É o caso de Ricardo que combina com Helena para irem ao teatro ver uma peça, que começa às 21 horas, devendo sair às 20 horas. Já são 20,30 h e Helena ainda não acabou de se vestir, faltando fazer a maquiagem. Ela, intencionalmente, fica pirraçando Ricardo, para que ele fique irritado e descontrolado. Quando ele explode, fica exasperado, descontrola-se, agride-a verbalmente e desiste de sair. Era o que ela queria: agredir, magoar e ferir o parceiro, expressando indiretamente sua ira. Enquanto o provocado reage expressando abertamente sua raiva, o comportamento do provocador é ignorar as reações do parceiro com expressões do tipo: "De que você está falando?" "Desculpe, eu não fiz por mal". "Porque você está zangado, se eu não fiz nada?" O provocador passivo expressa sua raiva com agressão passiva, sob a forma de hostilidade indireta, através do esquecimento, da incompetência, do desleixo, da falta de atenção, da negligência. O provocador implode sua raiva, engolindo-a, repressão esta que lhe faz muito mal, e o provocado explode violentamente. A raiva oculta Os casais que têm raiva oculta são de quatro tipos: representadores, deslocadores, simbolizadores e eliminadores. Vejamos a caracterização de cada um deles:

108 110 Educação Emocional na Escola Casal de Representadores: O casal representador esconde suas raivas através do uso do álcool, de drogas, comendo excessivamente, praticando a infidelidade conjugal ou trabalhando em excesso. Eles utilizam determinadas fachadas para esconder seus sentimentos. Apesar da raiva existente no relacionamento, de ambas os parceiros, o sentimento de hostilidade permanece oculto mediante a utilização de estratégias de ação, de representações que servem para evitar a expressão da ira. Podem sair às compras, jogar ou praticar esportes. Estas estratégias não são conscientes, como em todos os outros casamentos raivosos. O representador se envolve tanto nas suas distrações, que sobra pouco tempo para o parceiro, o casamento e a família. Ele procura inconscientemente fugir de seus problemas conjugais, e tem mais satisfação em suas atividades fora do casamento. Um dos mecanismos usado pelo homem é viciar-se no trabalho, trabalhando compulsivamente, e pela mulher é sair para fazer compras, jogar com as amigas ou ir a chás beneficentes. As reações emocionais tendem ao tédio, à indiferença, à apatia, mais do que à colera, à ira e à antipatia. Fica um casamento sem graça e sem vida, chato, cansativo e desestimulante. O representador pode buscar solução num caso amoroso extraconjugal para enfrentar o tédio do casamento. O comportamento representador é muitas vezes auto-destrutivo, pois o guloso pode sacrificar sua beleza e sua saúde; o trabalhador compulsivo seguramente vai ficar estressado, com todas as conseqüências; o gastador vai terminar gastando o que não pode, fazendo dívidas, que vão complicar ainda mais o casamento; o álcool para relaxar vai levar ao alcoolismo; as drogas ao vício. Roberto e Cíntia vivem um casamento representador, devido a problemas de suas infâncias. Ele trabalha compulsivamente todos os dias das 8 às 20 horas, e, invariavelmente leva trabalho para o fim de semana. Fora disto está vendo televisão ou navegando na Internet. Nunca tem tempo disponível para a família, particularmente para sua parceira. Cíntía tem compulsão para comer muito, e cada dia está mais gorda e menos atraente. Procura uma "amiga do peito" para extravasar suas mágoas e sempre está na rua, fazendo compras ou visitando outras amigas. Como Cíntia perdeu seus atrativos femininos, devido à gordura excessiva, Roberto termina se encantando com uma companheira de trabalho e está tendo um caso com ela.

109 Educação Emocional na Escola 111 Casal de Deslocadores: Os deslocadores geralmente são pessoas muito raivosas que jamais ficam enraivecidas: em vez de dirigir a raiva para o seu parceiro deslocam-na para objetos externos ao relacionamento. Criam inimigos externos porque sabem inconscientemente que se admitirem a raiva que têm do parceiro poderão tornar-se inimigos. Eles desviam a raiva para um adversário que pode ser comum aos dois, como os empregados, irmãos, sogros, sogras e parentes. Um amigo, o patrão, colegas de trabalho, os vizinhos, podem ser o objeto da raiva do casal. É uma ira mais no estilo da impaciência, da suspeita, do descontentamento, do que uma raiva aberta. Encontram sempre defeitos nos outros e os olham com superioridade, sendo altivos, isolados e anti-sociais, pagando como preço a solidão. Gustavo e Verena receberam os amigos para uma das raras recepções que deram em sua casa. Depois que todos saíram, Verena ficou radiante por ter terminado a reunião e comentou sobre um casal de amigos de forma desairosa, dizendo que ele foi mal educado na mesa, usando o garfo para peixes para comer o filé. Imediatamente Gustavo engrossou as críticas, dizendo que o vestido dela estava ultrapassado e que provavelmente ela não tinha podido comprar um vestido novo. E ficaram, até o sono chegar, falando mal dos outros convidados Casal de Simbolizadores: O casal de simbolizadores expressa simbolicamente a raiva, indiretamente. A raiva aparece mais em sintomas do que em palavras: seus corpos manifestam a emoção que a mente não lhes permite expressar. A raiva é desviada inconscientemente e manifestada através de símbolos, convertida sob a forma de doenças, úlceras, enxaquecas, dores ou outros sintomas. A raiva do simbolizador se volta contra ele mesmo. Geralmente um membro do casal desenvolve a doença e o outro cuida dele. É o caso de Joana, que sempre tem uma dor para se queixar, ora na cabeça, ora no ombro, na perna, nos joelhos ou nos braços. Às vezes tem diarréia, dores abdominais, falta de ar, tonturas, etc. E Adelmo, pacientemente, como seu enfermeiro, trata de suas queixas, dá os remédios na hora certa, leva-a para o médico ou para a fisioterapia. Ele acha que ela pode ficar magoada se não receber a atenção necessária.

110 112 Educação Emocional na Escola Casal de Eliminadores: Os eliminadores eliminam a raiva do relacionamento evitando a qualquer custo qualquer confronto ou atrito com o parceiro. Esforçam-se o que podem para fazer de conta que está tudo bem e que a raiva não existe. Quando a percebem, fazem questão de engolir tudo, de passar uma esponja, pois o importante é não brigar. Como conseqüência a relação do casal fica fria e sem vida. É importante realçar que a raiva não é eliminada da relação e fica latente, escondida. Terezinha é casada com Ronaldo há mais de 10 anos e tem uma preocupação constante para que nada lhe falte. Se o leiteiro não trouxe o leite, ela se apressa em ir pegar no supermercado; se o jornaleiro não trouxe o jornal na hora certa, ela vai comprar na banca. Ela está sempre pronta a assumir a culpa por qualquer coisa que não esteja correndo bem. Ela jamais se zanga e muito menos se exaspera. É sempre cortês, calma, contida, controlada. O que ela não quer é um atrito, uma discussão, um desentendimento. É melhor para ela suportar o sentimento de culpa do que enfrentar a raiva de Ronaldo. Ronaldo, por seu lado, também um conciliador, acha que está bem casado, evita discussões esconde-se atrás do jornal que pega para ler quando há a possibilidade de um desentendimento. Se for necessário renuncia ao que for preciso, e dá outra versão dos fatos, contanto que não haja briga. O preço pago pelo eliminador é muito alto. Ele pode viver carregando muita culpa, triste e magoado, sempre diminuindo sua auto-estima, humilhando-se ao desculpar-se freqüentemente de coisas que fez e de que não fez. Ele se acostuma a não dizer o que sente e o que pensa, o que gosta e o que não gosta, e termina por distanciar-se de si mesmo. Ele se perde de si mesmo - este é o maior preço que ele paga. Maslin entretanto reserva um lugar positivo para a raiva no casamento. É a raiva construtiva, assim é conceituada: "É a exigência de que o mundo reconheça que temos as nossas necessidades e que os outros também têm. A raiva construtiva nos dá forma, nos permitindo desenhar à nossa volta uma linha, uma fronteira: este sou eu! (...) Uma fronteira que nos preserva no santuário de nossa individualidade, mas ao mesmo tempo deixa aberturas para que os outros possam entrar e nós nos manifestarmos. Dessa forma, a raiva marca nossa separação, mas sela nossa união".

111 Educação Emocional na Escola 113 O Autor desta obra entende que quando nossas necessidades, desejos e exigências não são atendidos, a frustração decorrente do não atendimento desencadeia de modo natural e legitimo nossa raiva, que não deve ser reprimida. Ao contrário devemos ter consciência da sua existência e procurar identificá-la no momento em que ocorre através de suas expressões verbais ou não verbais: sinais corporais, postura corporal, timbre de voz, etc. Devemos procurar meios de canalizar nossa raiva adequadamente, de forma socialmente aceitável, expressando-a de modo a respeitar as pessoas com quem nos relacionamos. Esta expressão equilibrada e não agressiva da raiva é a Raiva Construtiva, que todos nós devemos cultivar. QUE FAZER DIANTE DE ALGUÉM COM RAIVA O princípio fundamental é não entrar na raiva de quem está enraivecido. Não discutir com ele nem tentar convencê-lo. Ele está tomado pela raiva e sua razão está "fora de campo". O pensamento do raivoso é comandado pela mente emocional e não responde aos argumentos da razão e da lógica, por isto não se deve discutir com quem tem raiva e antes que se fique com raiva também, sair de junto. Dar um passeio e deixar para conversar depois que ele melhorar do acesso de raiva. Quando uma pessoa está com raiva o que ela quer é que os outros entrem na raiva dela, que vai se alimentar desta discussão. Se a pessoa não discute, ele fica decepcionado e sua raiva acaba morrendo, pois ela é uma forma de energia que para viver precisa ser alimentada. COMO SABER SE ESTAMOS COM RAIVA Devem ser consideradas situações: a da raiva inata e a da raiva adquirida. Em ambas a reação é a mesma, variando apenas o grau da intensidade, pois o cérebro emocional não sabe diferenciar entre uma agressão real e uma virtual. Tanto em uma quanto em outra podemos saber que elas existem através de reações corporais, já descritas. Relembrando: coração

112 114 Educação Emocional na Escola dispara, a respiração fica acelerada, os pensamentos ficam confusos, tremores, a face fica pálida ou avermelhada, com gotas de suor na testa, os músculos da face travados em uma carranca, a testa contraída, a voz alterada, os olhos dilatados. Os músculos dos braços contraídos, as mãos fechadas como se estivesse se preparando para dar um murro. COMO CONTROLAR E EVITAR A RAIVA Algumas sugestões são extremamente importantes, pois nunca devemos nos entregar a nossa raiva, pois seremos prejudicados. Basta lembrar o caso do engenheiro, que teve tantos dissabores porque se entregou à raiva. Devemos ficar sempre nos vigiando, principalmente quando pedirmos a alguém para fazer alguma coisa e não formos atendidos. Quando percebermos que estamos ficando irritados, não devemos deixar a irritação crescer, pois ela vai aumentar cada vez mais, e ficará mais difícil para controlá-la. Devemos então distrair-nos e procurarmos pensar em outras coisas. Ler uma revista ou jornal, assistir televisão ou uma fita de vídeo. Não deixar que o pensamento raivoso cresça e tome conta da gente. Não devemos ficar ruminando sobre o assunto que causou a raiva e procurar esquecê-lo. Só voltar a pensar nos acontecimentos que geraram a raiva depois que ela passar, pois aí teremos uma visão clara e racional da situação e a enxergaremos melhor. Quando estivermos com raiva de alguém, procurar conhecer os pontos de vista da outra pessoa. Tentar convencer a nós mesmos que devemos controlar nossa raiva. Nossa atitude é muito importante: cultivar uma atitude mental de que "não vou me entregar à raiva". Não ceder aos impulsos agressivos durante a raiva. Deixar para agir depois que ela passar. Aristóteles, na "Ética a Nicômano 59 ", admite a possibilidade de que um homem calmo possa se encolerizar com coisas ou pessoas, se justificadamente, na devida ocasião e durante o devido tempo. Esclarece entretanto que

113 Educação Emocional na Escola 115 "Um tal homem tende a não se deixar perturbar nem guiar pela paixão, mas a irar-se (...) com as coisas durante o tempo que a regra prescreve". Ressalta que o homem calmo não é vingativo, mas que "Suportar insultos tanto pessoais como dirigidos aos nossos amigos é próprio de escravos". Sobre a questão do controle da raiva, é muito significante o depoimento dado pelo décimo quarto dalai-lama, líder de todos os budistas tibetanos, em entrevista a Renée Weber 61, em Ele declara que: "De uma perspectiva ampla e profunda, sustentar uma atitude hostil contra alguém e criar ódio por ele conduz definitivamente a resultados negativos. Compreendendo esse fator podemos concluir que uma atitude hostil não é boa. É bem mais conveniente adotar uma atitude amistosa. E isso continua a ser verdadeiro mesmo que a outra pessoa, por seu lado, se conduza de maneira errada e justifique nossa decisão de agir com dureza. Pois, numa segunda reflexão, se levarmos em conta os benefícios a longo prazo, concluiremos que a bondade é bem melhor e que, a despeito da irascibilidade do outro, devemos mostrarnos amistosos. É assim que penso". As recomendações que se seguem são muito úteis para evitar a raiva: Aprender a administrar o estresse de forma adequada e evitar situações altamente estressantes, pois o estresse facilita o aparecimento da raiva. Uma situação que poderíamos suportar sem enraivar-nos, poderá ser altamente desencadeadora de raiva, se estivermos muito estressados. Combater o estresse com exercícios físicos regulares e utilizar técnicas de relaxamento. Não ficar pensando em coisas desagradáveis, que nos irritem, causem revolta, ou nos façam sentir humilhados. Estes pensamentos vão desencadear e manter a raiva dirigida contra alguém. Não entrar na raiva dos outros, porque a raiva é contagiosa. Evitar situações que possam levar a um atrito ou a uma briga com outras pessoas. Não ficar provocando os outros, diretamente ou através de ironias. Quem planta sempre colhe o que planta. Distrair-se e divertir-se regularmente.

114 116 Educação Emocional na Escola Não fazer uso continuado do álcool, nem abusar de seu uso, pois ele deixa a pessoa mais sensível às provocações. Quando sob o efeito do álcool a pessoa fica menos tolerante e pode explodir por qualquer coisa. Devemos perdoar às pessoas que nos fizeram mal. O perdão vai fazer mais bem a quem perdoa do quem a quem é perdoado. O ódio faz mais mal à pessoa que o tem do que a quem ele é dirigido. Depois do perdão a pessoa se sentirá "mais leve". Devemos rir sempre que pudermos. Quando alguém ri, a contração das comissuras labiais vai evocar o sentimento de alegria dentro de seu ser e isto lhe fará muito bem. NÃO SE ENTREGUE À RAIVA Não devemos nos entregar à nossa raiva. Quando alguém extravasa sua raiva passa a ser prisioneiro dela, pois raiva se alimenta de raiva. Quanto mais a extravasamos, mais ela vai querer de nós. A certa altura perdemos inteiramente o controle da situação e o cérebro emocional assume o controle do nosso comportamento. A pessoa termina explodindo em violência ou fazendo coisas completamente irracionais, das quais provavelmente se arrependerá depois, ficando envergonhado do que fez. Veremos mais adiante o caso do homem que deu um murro no carro e caiu morto. No ponto máximo da raiva, que passa a alimentar-se o pensamento irado, ela vai exigir vingança e desforra, e a pessoa não pensará nas conseqüências de seus atos. A vontade é de bater, esmurrar, pisar, o que não se deve fazer. As pesquisas mostram que, na realidade a descarga da raiva não a elimina. No momento da descarga há um sentimento de satisfação mas ele é transitório, ela não se extingue. A psicóloga Diana Tice 8, mostrou através de pesquisas que explodir de raiva não deixa as pessoas livres dela. Constatou que após a explosão, quando o raivoso fala na pessoa que causou a raiva sente um prolongamento do seu estado de espírito irado. A pesquisa mostrou que um melhor resultado havia quando a pessoa enraivecida esfriava a cabeça e depois procurava a outra para acertar a desavença, de modo calmo e equilibrado.

115 Educação Emocional na Escola 117 O MAL QUE A RAIVA FAZ Um homem de um pouco mais de cinqüenta anos, alto e forte foi operado do coração porque tinha tido um infarto. Viajando numa estrada, um motorista o ultrapassou e deu uma "fechada", quase batendo em seu carro. Nosso homem enraivecido, alucinado, acelerou seu carro até ultrapassar o outro, obrigando-o a parar no acostamento. Saltou de seu carro e dirigiu-se para o motorista do outro, e extravasou sua raiva xingando-o de todas as formas. Não satisfeito, deu um murro violento na capota do carro, amassando-a muito. Quando acabou de esmurrar o carro, teve um desmaio e caiu. Morto. Teve um infarto do coração, fulminante, a autópsia mostrou depois. Se ele tivesse tido educação emocional e se tivesse aprendido a controlar sua raiva, certamente estaria vivo, pois não teria feito o que fez. A raiva faz muito mal ao coração, principalmente às pessoas que já são doentes dele. Existem pesquisas 45 indicando que cerca de pessoas, por ano, nos Estados Unidos, têm um ataque cardíaco, que podem terminar com a morte, devido à raiva. No acesso de raiva a grande quantidade de noradrenalina liberada age sobre o coração fazendo-o disparar, batendo muito depressa, o que pode ocasionar um infarto ou uma parada cardíaca, principalmente nos que já são doentes. Um dos efeitos da raiva sobre o corpo é produzir a contração dos músculos, o que ocorre tanto na inata quanto na adquirida. Quando uma pessoa tem um temperamento raivoso e se entrega freqüentemente à raiva, seus músculos ficam permanentemente contraídos, endurecidos, como se fosse uma couraça envolvendo o organismo, o que causa profundo mal estar à pessoa e produz malefícios à sua saúde. O pior é que se a raiva é capaz de produzir determinada contração muscular, esta contração é capaz de produzir a raiva, é capaz de evocar o sentimento de raiva. Forma-se um círculo vicioso - a raiva produz a contração muscular e a contração evoca a raiva. Geralmente a contração da musculatura é bem evidente na face da pessoa raivosa: ela vive enfezada, com a fisionomia cerrada, cheia de rugas na testa franzida, cara amarrada, queixo puxado para baixo, sobrancelhas apertadas. Para desfazer o círculo vicioso os exercícios físicos regulares ajudam a descontrair a musculatura, sendo particularmente útil a ginástica facial para trabalhar determinados grupos de músculos da face. Os efeitos da raiva mantida no organismo, além de doenças do coração e do aparelho digestivo serão detalhados no capítulo do Estresse.

116 118 Educação Emocional na Escola SÍNTESE A raiva é uma manifestação do organismo para a preservação do indivíduo, podendo ser desencadeada diante de uma agressão real à pessoa ou pelo seu pensamento, e a reação de estresse existente é a mesma, tanto em um caso quanto no outro, sendo os mesmos seus efeitos maléficos. Durante a raiva o cérebro emocional fica de prontidão para responder ao estímulo ameaçador, quer seja ele real ou presumido. Há dois tipos de raiva: a inata, natural, que os animais já nascem com ela e na qual há uma ameaça real, concreta ao indivíduo e a raiva aprendida, que é gerada e mantida pelo pensamento da pessoa enraivecida. A raiva aprendida é adquirida no convívio com a família (com os pais, irmãos, parentes e pessoas próximas) e com os grupos sociais, religiosos, políticos, etc. Nela não há uma ameaça real contra a integridade corporal da pessoa. Quando a pessoa está com raiva pode ter uma das condutas seguintes: agredir, rebelar-se, impedir, exigir, ameaçar, opor-se, fazer imposições, humilhar, criticar, rebaixar, torturar, dominar, expulsar, etc. Uma reação corporal da raiva muito importante está no rosto, pois há contração dos músculos faciais, principalmente da mandíbula, e a pessoa fica com uma carranca típica. Contraem-se os músculos da testa e a fisionomia fica carregada, as pupilas ficam dilatadas e a pele fica suada, avermelhada ou pálida. Os músculos dos braços, antebraços e mãos ficam contraídos, a mão fechada como se fosse dar um murro, a voz fica grosseira, áspera e alterada. A boca fica seca, o coração dispara, a respiração fica ofegante. O Lamrim considera que podemos ter raiva de alguém ou de algo que tenha nos prejudicado, nos prejudique ou venha a nos prejudicar, que tenha prejudicado, prejudique ou venha a prejudicar nossos parentes e amigos, tenha ajudado, ajude ou venha a ajudar nossos inimigos. Para o Lamrim, devemos impedir o desenvolvimento da raiva assim que notarmos suas etapas iniciais, pois é difícil controlá-la depois que toma conta de nossa mente. Para o Dalai Lama, raiva e o ódio representam obstáculos ao desenvolvimento da compaixão e do altruísmo, destruindo nossa virtude e nossa serenidade mental.

117 Educação Emocional na Escola 119 A raiva motivada pela compaixão é do tipo positivo e pode ser usada como impulso para um ato que gere o bem de alguém. Produz energia que impele o indivíduo a agir com rapidez e decisão, e é útil para uma ação urgente. Na maioria das vezes a raiva é negativa, gerando rancor e ódio. Devemos ter muito cuidado, porque nunca sabemos se ela será construtiva ou destrutiva. O ódio nunca é positivo, e nunca gera nenhum benefício. É um inimigo interno que só tem por função fazer o mal a quem o possui, destruindo-o a curto e a longo prazo. O ódio é o nosso maior inimigo. A paciência e a tolerância devem ser cultivadas, pois são os antídotos da raiva e do ódio. Enquanto a pessoa tiver tolerância e paciência, sua serenidade e sua paz de espírito não serão perturbadas. A prática da paciência e da tolerância combatem o ódio e a raiva e devemos exercitá-las sempre que estivermos com pensamentos irados ou cheios de ódio. Quando o ódio e a raiva surgem com grande intensidade, o poder de discernimento se torna totalmente inoperante, o rosto da pessoa se torna contorcido, repulsivo, e ela emana uma energia muito hostil que até os animais de estimação sentem e procuram evitá-la. Em algumas circunstâncias especiais a raiva pode ser expressa, entretanto ela pode se agravar e crescer cada vez mais, se for deixada à vontade. Se nos acostumarmos a expressá-la, normalmente isto resulta no crescimento dela e não na sua redução. Quanto mais adotarmos uma atitude cautelosa, lutando contra ela, melhor será. Para a prevenção da raiva, pode ser feito, com antecedência, um trabalho para gerar o contentamento interior e cultivar a benevolência e a compaixão, que produzirão serenidade mental, podendo até ajudar a impedir que ela se manifeste. Frente a uma situação que gere raiva ou ódio, devemos encará-los de frente, tentar identificar seus fatores determinantes e se a raiva é construtiva ou destrutiva. Se destrutiva ou ódio, usar a paciência e a tolerância. Se forem muito fortes, o melhor é pensar em outra coisa, e, quando a mente se acalmar analisar melhor o que ocorreu. Para o Dalai Lama, o único fator que pode nos dar refúgio ou proteção em relação aos efeitos destrutivos da raiva e do ódio é a prática da tolerância e da paciência. Quando toleramos pequenos sofrimentos ou problemas que temos em determinado momento, poderemos estar evitando maiores dissabores ou maiores sofrimentos no futuro. A humildade tem íntima ligação com a paciência, pois envolve a capacidade de agir deliberadamente para não assumir uma atitude beligerante, mesmo tendo a capacidade de agir agressivamente. A

118 120 Educação Emocional na Escola pessoa sabe que é capaz de ter uma atitude agressiva, mas resolve não assumi-la. Um exercício de meditação consiste em visualizar uma pessoa conhecida com um acesso de raiva, furiosa. Ela perde a serenidade, grita e contorce o rosto, a face fica deformada, o queixo para cima, os olhos quase saltando da órbita, os punhos cerrados. Fazer a visualização durante alguns minutos, analisar a situação e associar à nossa experiência, verificando que estivemos neste estado algumas vezes. Tomar então uma resolução: "Nunca me deixarei dominar pela raiva ou ódio tão intensos, porque perderei minha paz de espírito, minha serenidade e assumirei esta aparência física horrível". Concentrar a mente nesta resolução de não se deixar influenciar pela raiva e pelo ódio, se comprometendo a combatê-los logo que apareçam. A segunda meditação prescrita pelo Dalai Lama consiste em visualizar uma pessoa que você não gosta fazendo algo que lhe aborrece ou que está lhe ofendendo. Pensar que deixou sua raiva se manifestar e ver a reação de seu coração, se a respiração fica ofegante, se seus pensamentos ficaram agitados, se você ficou irritado. Durante uns três minutos, analise como se comportou durante a visualização, e constate que perdeu a paz de espírito e que sua irritação foi crescendo à medida que se entregava a ela. Então tome uma resolução: "No futuro não agirei mais desta maneira". Fixe sua mente durante algum tempo nesta resolução. Há dois tipos básicos de casais raivosos: aqueles em que a raiva é manifesta, e aqueles em que a raiva existe oculta. Os de raiva manifesta dividem-se em expansivos e provocadores. Os expansivos discutem, brigam abertamente e são vingativos. Nos provocadores apenas um membro do casal expressa abertamente sua raiva, resmungando e se exasperando, enquanto o outro o provoca. No casal expansivo há uma hostilidade declarada de ambos os parceiros, e um deles está sempre cutucando as fraquezas, limitações, medos e falhas do outro e os conflitos e as lutas surgem sem nenhuma razão. Eles não têm hora nem lugar para brigar, discutindo abertamente na frente dos outros, e o clima psicológico é altamente deletério para ambos. No casal provocador só um membro expressa a raiva abertamente. Ele é provocado pelo outro até explodir. O outro parceiro não expressa sua raiva diretamente, e queima o outro em fogo brando, até exasperá-lo, até ele ficar impaciente, exasperado, chateado, irritado. O provocador expressa sua raiva de forma indireta, através, do desleixo, da falta de atenção, da negligência.

119 Educação Emocional na Escola 121 Os casais que têm raiva oculta são de quatro tipos: representadores, deslocadores, simbolizadores e eliminadores. O representador esconde sua raiva através do uso do álcool, de drogas, comendo excessivamente, praticando a infidelidade conjugal ou trabalhando em excesso. A hostilidade permanece oculta em representações que servem para evitar a expressão da ira. Os deslocadores jamais ficam enraivecidas: em vez de dirigir a raiva para o seu parceiro deslocam-na para um adversário: amigos, empregados, irmãos, sogros, sogras e parentes. A ira é no estilo da impaciência, da suspeita, do descontentamento. Encontram sempre defeitos nos outros e os olham com superioridade. São altivos, isolados e anti-sociais. O casal de simbolizadores expressa a raiva, indiretamente. A raiva aparece mais em sintomas do que em palavras. É convertida sob a forma de doenças: úlceras, enxaquecas, dores, etc. A raiva do simbolizador se volta contra ele mesmo. Geralmente um membro do casal desenvolve a doença e o outro cuida dele. Os eliminadores evitam a qualquer custo qualquer confronto com o parceiro. Fazem de conta que está tudo bem e que a raiva não existe. Quando a percebem, fazem questão de engolir tudo, pois o importante é não brigar. Existe um lugar positivo para a raiva no casamento, sob a forma de raiva construtiva. Quando nossas necessidades e desejos não são atendidos, a frustração decorrente desencadeia de modo natural a raiva, que não deve ser reprimida. Devemos ter consciência dela, procurar identificá-la e procurar meios de canalizá-la de forma socialmente aceitável, expressando-a de modo a respeitar as pessoas com quem nos relacionamos.

120 122 Educação Emocional na Escola

121 Educação Emocional na Escola Como agir no Medo UMA HISTÓRIA DE MEDO DE VIAJAR DE AVIÃO Uma professora morava em Salvador e gostava muito de passear no Rio de Janeiro, para onde viajava de avião, com seu esposo, sempre que podia. A noite que precedia a viagem era um tormento para ela, cheia de pesadelos e sonhos de que o avião estava caindo. Quando chegava no aeroporto o sofrimento aumentava: as mãos ficavam geladas, com suor abundante, e ela sentia uma angústia, um estreitamento no peito, muito grande. Quando entrava no avião é que era coisa: o coração disparava, a respiração acelerava, os olhos ficavam esbugalhados, a face pálida, as sobrancelhas contraídas, os músculos do corpo se contraíam tanto que chegavam a sentir dor. Durante a viagem, se o avião balançasse, aí que era sofrimento, pois ela começava a chorar e a tremer muito. Apertava as mãos suadas, uma contra a outra, num sinal evidente da ansiedade e da angústia que estava possuída. Durante o vôo não aceitava nenhum alimento, que lhe fosse oferecido, sólido ou líquido. Durante a

122 124 Educação Emocional na Escola aterrissagem tudo que sentia aumentava muito de intensidade, e só respirava aliviada quando saía do aeroporto. Este é um exemplo de medo de viajar de avião, em que os sinais e os sintomas da emoção são bastante floridos. O medo é uma reação do organismo a uma ameaça real ou imaginária, e teve função muito importante na preservação da raça humana e de todas as espécies animais. Foi graças a ele que nossos antepassados se salvaram das feras e dos perigos que os ameaçavam, e tiveram a capacidade de reagir instantaneamente, fugindo ao ataque de um leão ou de um tigre, preservando sua vida e a espécie. O medo e a ansiedade, até certo limite, são aliados do homem, porque além de nos proteger contra perigos, nos faz cautelosos e prudentes em certas situações, opondo-se à imprudência e ao destemor. O psicólogo Jerome Kagan 8 acredita que a pessoa quando nasce pode ser portadora de um temperamento tímido. O temperamento, modo de ser da pessoa em relação a sua vida emocional, é herdado: a pessoa o traz em sua constituição genética. Acredita-se haver pelo menos quatro tipos de temperamento: tímido, ousado, otimista e melancólico. Um conceito que ajuda a compreender melhor a problemática do medo é o de limiar do medo. Limiar do medo é a quantidade de estímulo capaz de desencadear em uma pessoa o medo. Nas mesmas condições ambientais, diante da mesma quantidade de estímulo, uma pessoa pode sentir medo, e outra não. Por exemplo, se duas pessoas estão em uma mesma sala e alguém entra de repente, uma pode tomar susto - que é uma forma de medo - enquanto a outra permanece tranqüila. A que tomou susto tem um limiar de medo baixo, pois com pouco estímulo teve medo. A outra tem limiar de medo mais alto, pois precisa de estímulo maior para se amedrontar. As pessoas tímidas têm limiar de medo mais baixo, isto é, sentem medo diante de pequenos estímulos, que não geram reação em outras pessoas. Se você prestar atenção nas pessoas que conhece, facilmente encontrará algumas que são naturalmente assustadas e outras que são naturalmente calmas - umas têm limiar de medo baixo e outras alto. Ser assustado ou calmo é uma tendência com que a pessoa nasce, relacionada com sua constituição genética. Tem relação com o modo pelo qual o cérebro emocional reage aos estímulos, se ele produz maior ou menor quantidade de noradrenalina, uma das substâncias

123 Educação Emocional na Escola 125 produzidas quando a pessoa está com medo. As pessoas tímidas têm maior quantidade de noradrenalina no sangue, mostram as pesquisas. Kagan 8 acompanhou crianças a partir de um ano e nove meses e verificou que aquelas inseguras e hesitantes durante brincadeiras com outras, sempre se grudando com as mães, posteriormente, quando cresciam, se tornavam muito medrosas na escola, ansiosas na sala de aula e nos pátios de recreio. Quando adultas continuavam tímidas, tendendo ao isolamento social e tinham medo de fazer um discurso ou de apresentar-se em público. Quando crianças tímidas eram submetidas a um treinamento em educação emocional, tiveram possibilidade de superar esse medo natural. Quando treinadas para serem cooperativas e empáticas com outras crianças, e para fazer amizades, elas podem superar a timidez. A pesquisa mostrou que uma criança tímida aos quatro anos, aos dez já tinha conseguido se libertar da timidez. Isto mostra que o meio cultural onde a pessoa vive pode modificar para melhor as tendências com que ela nasce. DISFARCES E TIPOS DE MEDO Existem muitos disfarces do medo, com diferentes nomes. A forma mais extrema é o terror podendo assumir a forma de fobia ou de pânico, já no terreno da doença. Uma forma muito comum do medo é a preocupação, e outras são 40,8 ansiedade, angústia, apreensão, nervosismo, timidez, vergonha, remorso, consternação, cautela, escrúpulo, inquietação, pavor, susto. Há dois tipos de medo: o natural e o adquirido. O natural é inato, e os animais nascem com ele. É o resultado de estímulos que vêem do meio ambiente, do meio externo. Quando alguém se aproxima de um passarinho, de um peixe, de um siri, imediatamente ele sai correndo, porque há uma ameaça, e ele corre para defender-se. O medo natural se caracteriza por ser uma reação que ocorre imediatamente, com grande rapidez, mobilizando o animal para responder a situações de grande perigo, em que a velocidade da resposta pode ser uma questão de vida ou de morte. Vejamos o que ocorre quando alguém vai andando na rua e, de repente, surge um cachorro ameaçador, querendo mordê-lo. Seu organismo é mobilizado para a defesa através de reações inconscientes, automáticas, preparando-o para a fuga: a amígdala cerebral envia sinais para o hipotálamo que estimula a hipófise através de um hormônio, o CRF.

124 126 Educação Emocional na Escola A hipófise libera outro hormônio, o ACTH, que estimula a suprarenal para a produção de mais adrenalina e de mais cortisona, as quais são lançadas no sangue. A adrenalina acelera o coração que manda mais sangue para os músculos, e a cortisona aumenta o açúcar sangüíneo, o que permite uma rápida contração muscular, permitindo que a pessoa saia correndo. O medo aprendido ou programado é aquele que o indivíduo aprende durante sua vida. O estímulo que produz o medo aprendido é interno, vem do pensamento da pessoa, e a pessoa aprende no convívio com outras, principalmente na família, com os pais, irmãos e parentes. O caso de nossa professora, relatado no início do capítulo, é de medo aprendido. Outro exemplo é o famoso medo de barata ou de rato que a filha aprendeu desde pequena com sua mãe, o medo de escuro que o filho aprendeu com a mãe que só dormia com a luz acesa. Vejamos um caso de medo aprendido, condicionado. Um médico cardiologista trabalhava na emergência de um hospital e freqüentemente, à noite, era procurado pela ambulância em sua residência para atender pacientes graves. A ambulância chegava na porta de sua casa com a luz vermelha do teto acesa, girando. Depois de algum tempo, esta luz passou a ser um símbolo de preocupação para o médico, pois, ao entrar na ambulância, ele não sabia a extensão da gravidade do paciente que iria atender. Entrava na ambulância preocupado, coração disparado, ansioso, mãos suando, musculatura do corpo contraída, tenso, e ia atender o paciente. Só voltava a se sentir bem depois de resolvida a situação de emergência. Com o tempo o médico notou que, ao dirigir tranqüilamente pela rua, se o motorista da frente pisava no freio e acendia a luz vermelha traseira, imediatamente seu coração palpitava, e ficava suando, tenso e ansioso. Ele tinha medo condicionado, aprendido, devido à presença da luz vermelha que ativava sua memória emocional na amígdala cerebral, desencadeando assim todas as reações de medo que o organismo tinha aprendido naquelas circunstâncias. No medo inato existe uma ameaça real à integridade do organismo, enquanto no medo aprendido a ameaça não é concreta, mas sim criada pelo pensamento. No caso da professora, não havia uma ameaça real à sua integridade física, pois o avião não estava caindo realmente: era sua mente quem estava criando o medo. Nos outros exemplos citados, a barata, o ratinho e o escuro não são ameaças reais, mas sim criadas pelo pensamento. Em qualquer tipo de medo a reação do organismo é sempre a mesma: há uma preparação para a fuga de um perigo, que pode ser

125 Educação Emocional na Escola 127 real, no caso de um assalto, ou não existir concretamente, como quando alguém está preocupado porque vai fazer uma prova e não sabe o assunto, ou está preocupado porque o avião está atrasado e nele viajam pessoas queridas. Mesmo que não haja uma ameaça real, a pessoa sofre com os efeitos corporais do medo, da mesma forma que sofreria diante de uma ameaça real, como ocorreu no caso da professora no avião. O QUE NOS FAZ SENTIR MEDO Existem muitas causas de medo, que podem ser reais ou criadas pelo pensamento, que serão descritas a seguir. Medo do futuro: é gerado pelo pensamento, sendo o resultado de influências da família e de pessoas com as quais a pessoa convive ou conviveu. É o caso do medo da morte, da velhice, da invalidez, do desamparo, da ruína, da solidão e de doenças. Medo de doenças: é muito freqüente quando o pai ou a mãe é preocupado com doenças e o transmite aos filhos. Às vezes é o próprio medo quem desencadeia a reação corporal temida pela pessoa, como no caso de alguém com medo de ter a pressão sangüínea alta, e ao procurar o médico para medi-la, já vai preocupado. O medo de que ela esteja acima do normal, gera um estresse, e quando o médico vai fazer a medida há liberação de adrenalina e noradrenalina, substâncias que elevam a pressão sangüínea. Resultado, quando o médico faz a medida, a pressão está realmente elevada e a verdadeira causa foi o medo, aliado ao estresse por ele provocado. O medo da ruína: pode surgir numa pessoa que faz parte de uma família com boas condições financeiras, que de repente passa por dificuldades de dinheiro. Ela passa a ter medo de não ter dinheiro. O medo de fazer sexo: pode surgir em uma pessoa que teve um episódio de impotência sexual, e que tem grande ansiedade ao tentar manter outra relação sexual, com medo de fracassar de novo. Este medo pode ser tão grande que pode levar a novo episódio de impotência. O medo de animais: o medo de cachorro, tão freqüente, pode ser devido a uma agressão ou até a uma mordida de um cão que a pessoa tenha sofrido quando era criança. Pode desaparecer com o tempo, na medida que a pessoa seja exposta, com segurança, a outros cães que não a molestem. Às vezes é um medo a animais que foi aprendido com

126 128 Educação Emocional na Escola outras pessoas com quem conviveu: é o caso do medo de barata e rato, que os filhos têm porque a mãe tinha. Medo de autoridade: é um medo que surge em pessoas que tiveram pai ou mãe autoritário e repressor. Medo de homem ou medo de mulher: ocorre em pessoas que tiveram na infância convívio com um homem castrador ou uma mulher castradora, e que projetam esta imagem opressora para todos os homens e todas as mulheres. Medo de responsabilidade: ocorre em pessoas que se sentem incapazes de assumir responsabilidades: inscrevem-se em um concurso e no dia não vão fazer a prova. É o caso de um aluno que procura fraudar no colégio, levando um colega para fazer a prova por ele. Medo de água: alguém que quando criança quase se afogou e bebeu muita água, pode desenvolver medo de água quando adulto. Medo da morte: é um medo que geralmente evitamos enfrentar e para a qual devíamos nos preparar. Existe principalmente nas pessoas idosas, mas pode existir também em jovens e crianças. Medo de desagradar: há pessoas que têm como norma de conduta sempre querer agradar aos outros e agem impelidos pelo medo de desagradar. Medo de não ser satisfeito: tem pessoas que gostam sempre de serem satisfeitas em seus desejos e por isto têm medo de não conseguirem a satisfação desejada. Medo de errar: as pessoas perfeccionistas, também chamadas super - responsáveis, gostam de fazer tudo com perfeição e por isto, até a última hora se esforçam para que a tarefa a executar saia com perfeição. Elas têm medo de errar. Medo do tempo não dar: são pessoas sempre apressadas ao executar suas tarefas, pois têm medo de que o tempo não dê para executá-las. Geralmente conviveram com outras pessoas que tinham o mesmo medo. Medo de não conseguir: são pessoas que se esforçam muito para executar as tarefas, sempre com medo de não conseguir seu objetivo. Como conseqüência passam a fazer diversas coisas ao mesmo tempo e terminam por não concluir nenhuma satisfatoriamente. Por exemplo, um aluno que tenta diversos vestibulares ou diferentes concursos ao mesmo tempo e não consegue passar em nenhum, porque enfrenta os exames com medo de não conseguir. Medo de expressar emoções: são pessoas que durante a infância e a adolescência foram reprimidas na expressão de suas emoções e por isto têm medo de expressá-las, acostumando-se a reprimi-las.

127 Educação Emocional na Escola 129 Aprenderam que expressar emoção é coisa de gente fraca e que as pessoas realmente fortes não expressam seus sentimentos. Accioly 40 cita o medo de Deus, dos espíritos, do demônio, do juízo final, do inferno, de catástrofes (terremotos e inundações) e de epidemias. Filliozat 46 refere ainda medo da separação, do desconhecido, do aniquilamento, do sofrimento, da dependência, da degradação, do julgamento, da vida. CONDUTA NO MEDO E SUAS CONSEQÜÊNCIAS O medo crônico pode ter conseqüências altamente desagradáveis na vida da pessoa, em decorrência das alterações corporais e das condutas que pode gerar. A pessoa pode assumir uma das condutas que se seguem: fugir de suas responsabilidades, afastar-se, obedecer por falta de capacidade de reagir ou subordinar-se, vivendo acovardada. As conseqüências do medo podem surgir em diversas áreas: no relacionamento interpessoal, na área profissional e na área existencial. No relacionamento interpessoal, a pessoa pode se sentir desvalorizada perante os outros, e como o medroso transfere o poder para quem o intimida, pode sentir-se uma vítima. A nível profissional, como o medroso perde a confiança em si mesmo, deixa de ser competitivo e passa a ser menos criativo. Isso o leva à estagnação profissional e à diminuição da produtividade no trabalho. No campo existencial a soma de todos estes fatores negativos leva a uma grande limitação existencial, maior ou menor a depender da intensidade e duração do medo. O medroso crônico perde a alegria de viver, e é tomado por grande tristeza, graças aos efeitos corporais desvitalizantes do medo. Ele se sente como vítima dos outros, pois perde o poder de comandar sua vida, face à perda de confiança em si mesmo, o que traz grande limitação a sua vida. REAÇÕES CORPORAIS NO MEDO O medo se manifesta de diversos modos no organismo e devemos estar atentos a suas formas de manifestações. No rosto, há palidez maior ou menor, a depender da intensidade do medo, que é causada pela contração dos vasos que levam o sangue para a face.

128 130 Educação Emocional na Escola Os olhos ficam esbugalhados, bem abertos, com os cantos internos suspensos. A expressão do olhar é característica de quem está com medo. As sobrancelhas ficam franzidas, devido à contração da musculatura frontal, com rugas no meio da testa. Um suor pegajoso e frio pode aparecer na face e espalhar-se pelas mãos e por todo o corpo. Nos membros, há contração muscular generalizada, pois a função básica do medo é permitir que o organismo reaja à ameaça fugindo. E para fugir é necessário que os músculos se contraiam para gerar o movimento. Às vezes o medo é tão grande que as pernas começam a tremer, e a pessoa fica parada, presa no chão. As mãos ficam frias, suando muito. Os cabelos dos braços podem ficar levantados. Mesmo que a ameaça não seja real os músculos se contraem, preparando o organismo para uma fuga que não vai existir. Os efeitos maléficos desta contração se fazem sentir no organismo: a musculatura fica contraída, envolvendo-o como se fosse uma couraça, o que traz profundo desconforto e mal estar à pessoa, inclusive dores, às vezes. Durante o medo, o organismo reage com a chamada resposta ao estresse, de modo semelhante ao que ocorre na raiva e em outras emoções, com produção de maior quantidade de hormônios elaborados pela glândula supra-renal, adrenalina, noradrenalina, e corticosteróides. O açúcar do sangue sobe, para servir como fonte rápida de energia para o caso de fuga. Como resultado da ação da adrenalina e noradrenalina, a boca fica seca, o coração dispara, a respiração fica acelerada, a tensão arterial pode subir. Estas reações podem durar minutos ou horas, mas podem durar muitos dias se o medo for mantido, e levar a danos sérios à saúde da pessoa. PREOCUPAÇÃO A preocupação é a forma de medo mais encontrada na nossa vida. A tendência natural das preocupações é de crescer em espiral, pois pensamentos automáticos negativos vão se juntando aos iniciais, agravando a ansiedade que existe quando há medo. É importante estar sempre vigiando nossos pensamentos para identificar os que são preocupantes logo que surgem, e atuar sobre eles, impedindo que as preocupações cresçam. A reflexão construtiva, importante para a análise antecipada de situações futuras, pode ser um problema quando o medo se alia a ela, transformando-a em preocupação, geralmente acompanhada de maior ou menor ansiedade. A mente pode então fixar-se obsessivamente na ameaça, real ou aparente, e surgir um componente pessimista de

129 Educação Emocional na Escola 131 pensamento, de que "nada vai dar certo", "tudo vai se acabar" e de que "virá uma catástrofe na vida". A maioria das preocupações não têm base em coisas reais de nossa vida, e são o resultado de avaliações irrealistas que fazemos de determinadas situações, levados por pensamentos automáticos, irracionais. Nós criamos os problemas em nossa cabeça e nos entregamos a eles de forma irracional. Daí o conselho: não devemos nos entregar a nossas preocupações, nem ficar ruminando sobre elas. Lembrar do caso descrito no capítulo da Autoconsciência, do aluno que foi chamado à diretoria, e que no caminho se entregou a seus pensamentos automáticos. Quando chegou lá, estava certo de que ia ser suspenso por muitos dias e no entanto teve apenas uma simples advertência. Ele criou uma série de problemas em sua cabeça devido a avaliações indevidas, o que ocorre muitas vezes em nossas vidas, trazendo às vezes grandes sofrimentos. Os efeitos corporais da preocupação são os mesmos do medo, variando de intensidade a depender da intensidade da preocupação. Uma pessoa que tem preocupação crônica, tem um grande mal estar físico devido à contração generalizada de seus músculos, que terminam ficando endurecidos, como uma couraça. A pessoa vai ficando encurvada, principalmente nos ombros e sente os músculos de seus braços e pernas "presos". COMO APRENDEMOS A TER MEDO Acredita o Autor que há dois tipos de medo: o herdado, que faz parte do patrimônio genético do indivíduo, e o condicionado, decorrente e determinado pelo condicionamento cultural. O medo condicionado é adquirido ao longo da vida da pessoa, sendo resultante de circunstâncias específicas por ela vivida, que analisaremos nesta seção. A compreensão do processo do medo condicionado, também chamado de adquirido ou programado, passa necessariamente pela compreensão do significado da aprendizagem no ser humano. O homem nasce programado para aprender, podendo para isto usar duas estratégias de aprendizagem. Uma é por adesão ao conhecimento dos outros, lendo um livro ou assistindo uma conferência: é o Conhecimento Aprendido. Está presente desde a infância e se realiza de início através do vínculo com os pais, constituindo o Apego, uma ligação de grande conteúdo informativo.

130 132 Educação Emocional na Escola Para Bowlby 69, entende-se por comportamento de apego "Qualquer forma de comportamento que leva uma pessoa a conseguir ou a manter aproximação com outra pessoa, diferente ou semelhante, considerada, em geral, mais forte e/ou mais experiente". O comportamento de apego está presente sobretudo na espécie humana e nos animais superiores. O comportamento de apego do filho e o comportamento de cuidado dos pais são importantes neste canal de aprendizagem cultural. O apego nada mais é do que uma tendência natural que o indivíduo tem para adquirir de um parceiro social a capacidade de aprender disposições adquiridas. Outra forma de aprendizagem é através do Conhecimento Especulativo: o indivíduo aprende através de suas experiências pessoais, pelos ensaios e erros, mediante a observação da realidade cotidiana. Ela constitui a Exploração e se processa através de experiências autônomas com a realidade. Ambas as modalidades são necessárias e se complementam -uma boa capacidade de explorar o mundo depende de uma adequada relação de apego. Uma das formas de medo é a fobia um medo imotivado de um objeto ou situação, levando a crescentes limitações da atividade da pessoa. A fobia é uma forma de sofrimento construída a partir de crises de medo e ansiedade. Uma de suas principais causas é a exclusão da exploração ou do apego, durante o desenvolvimento da aprendizagem da criança. Se predomina o apego, principalmente por estímulos advindos da mãe, com a exclusão conseqüente da exploração do mundo por parte da criança, isto cria condições potenciais para o desenvolvimento do medo e das fobias. Cerca de 70% dos casos de fobia relatados por Lorenzini 69 são decorrentes da exclusão da exploração, o que levava a criança a perder a confiança em si própria. Os 30% restantes decorreram da exclusão do apego, ficando a criança sem confiar nos outros ela aprendeu desde cedo que não podia confiar na mãe (ou figura de apego substituta), pois ela não tinha disponibilidade ou capacidade para atender suas necessidades. O exemplo mais característico de fobia é a agarofobia, em que a pessoa tem medo de ficar sozinha ou de estar em lugares públicos, no meio de multidões, túneis, pontes, ou em situações nas quais a fuga pode ser difícil. Outros tipos de fobias são: medo de bacilos, medo de lugares fechados, medo de exalar mau cheiro, etc.

131 Educação Emocional na Escola 133 Uma criança que foi estimulada pela mãe a ter apego excessivo a ela, que não teve o estímulo adequado para o desenvolvimento de sua capacidade de exploração do mundo em seu redor, que foi criada numa "torre de marfim", com super-proteção e alienação da realidade social, tem todas as condições para desenvolver uma personalidade insegura e de ter o medo permeando e dominando a maioria de suas atividades, além de ter terreno fértil para desenvolver fobias. Para Lorenzini 69, na contínua interação com a mãe, principal figura de apego, a criança desenvolve um modelo de apego que envolve a disponibilidade, a acessibilidade e a capacidade da mãe de atender suas necessidades. Ela quer que a mãe esteja disponível para atender suas necessidades, que o acesso a ela lhe seja fácil e que ela tenha a capacidade de atender suas necessidades básicas, de sobrevivência, amor e proteção. Tendo em conta os elementos acima a criança vai decidir sobre a seguinte questão: "Ela me ama ou não me ama?" Ao mesmo tempo a criança desenvolverá, na sua relação com a mãe, uma idéia de si mesma acerca de sua capacidade de suscitar reações positivas, que podem ser resumidas na seguinte questão: Será que tenho a capacidade de chamar a atenção dela e de ter seu interesse e afeto? Sou uma pessoa amável pelos outros? Tenho a capacidade de me fazer amar pelos outros? A partir de uma resposta positiva a esta questão, a criança vai desenvolver ou não a capacidade de ter confiança em si mesma. E a partir das respostas a estas perguntas ela construirá diferentes tipos de estratégias de apego: desenvolverá o apego seguro ou o apego inseguro. Apego seguro O apego seguro é uma estratégia na qual a criança responde positivamente às duas perguntas acima formuladas, sentindo-se amada e amável. Ela, além de confiar em si própria, confia também na disponibilidade e na capacidade de ajuda de sua figura de apego (mãe, ou figuras secundárias que cuidam dela na sua ausência). Por isto sente-se segura para explorar o mundo. Deve passar pela sua cabeça mais ou menos isto: se eu tiver qualquer dificuldade na exploração do mundo em redor de mim, terei a

132 134 Educação Emocional na Escola quem recorrer, pois sei que minha mãe gosta de mim e me socorrerá, pois sou amado por ela. As emoções predominantes na vida desta criança, e com as quais ela enfrentará o mundo, serão a satisfação e a alegria. No futuro será um adulto que não correrá o risco de desenvolver o medo como traço marcante de sua personalidade, nem sintomatologia fóbica. Apego inseguro É decorrente de uma das situações seguintes: na primeira a criança tem um modelo positivo de si mesma, se acha amável, mas não se sente amada pela mãe. Ela confia em si, mas não confia na mãe. Desenvolve-se o apego inseguro evitante. Na segunda situação, a criança não confia em si, mas confia na mãe e por isto vai reforçar o apego com ela, gerando o apego inseguro ambivalente. Apego inseguro evitante: A criança aprendeu a confiar em si mesmo e a desconfiar dos outros. Ela não pede ajuda aos outros, porque se considera "não amada" e procura organizar sua vida fazendo pouco do amor e do amparo dos outros, procurando sempre ser auto-suficiente. Demonstra uma aparente segurança diante de acontecimentos altamente estressantes. As ligações afetivas são negligenciadas, desconfia das relações íntimas e não confia nos parceiros afetivos. Seu comportamento estará voltado para a exploração e para o comportamento especulativo, evitando o apego. As principais emoções destas depressão. pessoas são a tristeza e a Apego inseguro ambivalente: A criança confia no outro mas não confia em si mesma. Ela sente que a mãe não confia nela, embora ela confie na mãe. Por isto termina por não confiar em si mesma, o que gera o medo de separarse da mãe, e experimenta por isto angústia de separação, tendendose a agarrar-se à genitora, e quando adulta, aos outros. A aprendizagem através da exploração lhe provoca muita ansiedade porque implica em distanciamento da figura de apego. Decorre daí o medo e a insegurança com que encara a vida, e o medo e a insegurança com que vai encará-la quando adulta.

133 Educação Emocional na Escola 135 O medo é a emoção predominante na vida destas pessoas. Esta relação ambivalente, confia no outro e não confia em si mesma, tem origem numa excessiva proteção da mãe nas explorações que a criança tentou realizar. Sua autonomia foi castrada pela superproteção materna. Em uma palavra, a superproteção impediu a criança de gerir adequadamente sua autonomia, castrando a confiança que deveria ter em si mesma. Quando adulta o comportamento de apego com alguém vai sempre existir, devido à insegurança que foi gerada. Ela se sente incapaz de resolver suas dificuldades, tem grande dependência dos outros, e acha que não é capaz de despertar reações positivas neles. Sofre muito quando tem de suportar separações. O apego é procurado de forma incessante, de modo inconsciente, numa tentativa de suprir a desconfiança de si mesmo, procurando sempre ser agradável aos outros: "Se eu for agradável e, me apegar a ele, não vou ser maltratada nem agredida" Vejamos um exemplo, de uma pessoa com apego seguro ambivalente. Mercedes era filha única de um casal. Criança bonita, era adorada pela mãe, Cristina, mulher madura que tinha como traço fundamental da personalidade a insegurança, com frustração existencial e profissional. A mãe de Cristina tinha sido superprotetora, autoritária e castradora. Cristina vivia um casamento raivoso, em que a raiva era oculta e a hostilidade entre os parceiros raramente era manifestada. O sentido maior da vida de Cristina era sua filha, à qual se dedicava integralmente, dando-lhe todo o carinho e afeto que era capaz, e sempre a queria junto de si. Quando Mercedes pedia para ir brincar na casa de suas amiguinhas, sempre recebia um não. As amigas deveriam vir brincar em sua casa, sob a vigilância e proteção de Cristina, que tinha medo de algo lhe ocorrer. Quando Mercedes contrariava a mãe e saía, ao voltar para casa a encontrava mal humorada, distante, ameaçadora, dizendo que iria abandoná-la, recusando-se a aproximar-se dela. Mercedes começou a aprender que teria de escolher entre a exploração do mundo e o afeto e a aceitação de sua mãe, que sempre lhe descrevia o mundo externo como hostil, traiçoeiro e perigoso. Quando ela tinha um pequeno resfriado, a mãe lhe passava a idéia de que era uma criança bastante frágil e que precisava muito de seus

134 136 Educação Emocional na Escola cuidados para não ter uma doença grave. Ela precisava de muita ajuda e muita proteção da mamãe, sempre. Mercedes aprendeu que era frágil, não podia confiar em si mesma e precisava apegar-se cada vez mais a sua mãe para poder sobreviver. Quando ela chorava ou ficava emocionalmente excitada, Cristina interpretava isto como sintoma de uma doença, incutindo assim na filha o medo de suas próprias emoções, ensinando-lhe a não identificá-las e discriminá-las. Mercedes cresceu neste clima de estímulo do apego à mãe, com castração da aprendizagem por exploração, a desconfiança em si mesma e o mundo externo era pintado como agressivo e hostil. Na adolescência a vigilância continuou: os vestidos que a filha vestia a cada dia eram escolhidos pela mãe, que sempre a "ajudava" na hora de comprá-los. Os sapatos eram escolhidos pelas duas, e a mãe ajudava a filha a pentear os cabelos e a fazer a maquiagem. Mercedes transformou-se em uma adulta insegura, medrosa, dependente, carente de carinho e de afeto, com auto-estima baixa, sempre procurando saber a opinião dos outros sobre o que ela pensa e o que ela faz ou vai fazer. Para não perder a aprovação e o afeto da mãe, Mercedes aprendeu a não contrariá-la e a não enfrentá-la, e engolindo todas suas raivas e descontentamentos. Aprendeu a eliminar a expressão direta da raiva de sua vida e tornou-se uma adulta repressora de seus sentimentos e emoções, expressando sua raiva de forma simbólica, numa hostilidade velada. Quando tem raiva, reprime-a e chora, transformando-a em mágoa, ou converte-a em sintomas das mais diferentes doenças: dor de cabeça, mal estar, tonturas, falta de ar, dores articulares, etc. Já adulta, a mãe sempre se intromete em sua vida, ditando-lhe todos os passos, numa tentativa de realizar-se através da filha, compensando suas frustrações pessoais. Hoje Mercedes é uma pessoa submissa, pois aprendeu que para ter o amor de sua mãe devia sempre baixar a cabeça, pois era proibido rebelar-se, sob pena de perder o afeto e a aprovação ou ser por ela abandonada. Deve ficar bem claro que Cristina não teve culpa do ocorrido pois fazia tudo com a melhor das intenções, por amor a Mercedes. Mas, sem querer, involuntariamente, ensinou-lhe a ter medo de tudo e de todos e a reprimir suas emoções. Na observação do Autor há uma espécie de transmissão cultural dos comportamentos acima descritos, de geração para geração, de avó para mãe e de mãe para filha.

135 Educação Emocional na Escola 137 O MEDO NO LOCAL DE TRABALHO A identificação e o reconhecimento de nossos medos é de alta valia, tanto em nossa vida pessoal quanto no local de trabalho. Conhecendo-os podemos lidar melhor com eles e descobrir novas formas de manuseá-los. A repressão de qualquer emoção, inclusive do medo, impedindo que ele se torne consciente, se faz às custas do dispêndio de grandes quantidades de energia psíquica. Ao reprimir o medo, reprimimos junto com ele outras emoções, como a alegria e o prazer. Quando tomarmos consciência da existência deles, e de outras emoções reprimidas, a energia que era gasta nesta repressão pode ser canalizada para tarefas produtivas e para energias positivas, tipo alegria e amor. Diminuirá nossa auto-censura e a censura aos outros, em casa, na escola e no trabalho, permitindo que sejamos mais criativos, mais flexíveis e mais produtivos. A conscientização do medo e uma abordagem racional e compreensiva das causas que o determinam vai nos permitir saber que a maioria deles não tem fundamento na realidade. A maioria de nossos medos é criado em nossas cabeças. Como o mecanismo da repressão atinge outras emoções, outras emoções vão aflorar à nossa auto-consciência, permitindo que seja dada a elas um tratamento racional, resultando a compreensão e o controle delas. Nossas emoções são instrumentos que podem e devem ser utilizados racionalmente em nossas vidas, desde quando sejamos devidamente educados para isto. Sabe-se que nossa capacidade de avaliação da realidade depende de nossas emoções. Quando estamos possuídos por uma emoção muito forte, como a raiva e o medo, nossas avaliações da realidade são bastante prejudicadas. A tristeza nos faz ver a realidade de uma forma pessimista. Damásio 8 descreveu o caso de um paciente que, depois de um acidente teve a retirada da amígdala cerebral, local em que se processam as emoções, e depois disto perdeu a capacidade de avaliação correta da realidade. O medo, por sua própria natureza, tem um efeito paralisante na pessoa, principalmente quando é mantido, afetando o relacionamento interpessoal, a área profissional e a existencial. Faz a pessoa sentirse intimidada e transferir o poder para quem a intimida. A pessoa com medo castra sua criatividade, perde a confiança em si mesma, e diminui sua produtividade no trabalho, perdendo a alegria de viver. Gilley 70 considera quatro etapas na transformação pessoal que leve a novas formas de lidar com o medo:

136 138 Educação Emocional na Escola Percepção: ficamos conscientes de nossos medos pessoais e na empresa e aprendemos a sondá-los para ficarmos conscientes dos medos centrais, que estão por trás deles. Conscientização: ficamos atentos para nos conscientizarmos de nossos medos, na hora em que os sentirmos, para explorá-los, buscando informações importantes a seus respeitos. Aprendemos a viver e a trabalhar em um estado consciente, longe de nossas reações automáticas condicionadas àqueles medos. Compromisso: nos comprometemos a ter disciplina no processo de transcender toda uma vida de comportamentos induzidos por hábitos ligados aos medos, através de muita prática. Coragem: devemos ter coragem para deixarmos de ser vítima, de apontar sempre culpados para o que ocorreu, e ao mesmo tempo assumir responsabilidade sobre nossos atos. E advoga que (...) Temos o potencial para tornar o medo terrível, negado e não assumido, numa força dinâmica para o bem de nossas empresas e para o crescimento das pessoas que delas participam". " Tenho plena consciência de que este não é o tipo de coisa que se ensina nas escolas tradicionais de administração. É um trabalho pessoal árduo, difícil de por em prática em dias que já parecem estar totalmente ocupados. Porém há um imperativo pessoal e empresarial: à maneira antiga não está funcionando. O preço tem sido alto demais e continuamos a pagá-lo(...) através de aumento de gastos, perda de capital humano, decisões ineficazes e falta de prazer no trabalho". (...) Chegou a hora de transformar o local de trabalho em um lugar onde gostamos de estar. Admitir nossos medos pessoais e estar em paz com eles no ambiente de trabalho, e fazer o mesmo com os medos no âmbito da empresa significa percorrer um longo caminho rumo a competência emocional em nossa vida". Somente no século XX as empresas passaram a reconhecer a importância da saúde física de seus empregados e passaram a fazer investimentos em convênios com planos de saúde. É chegada a hora delas se darem conta da importância da competência e da saúde emocional de seus empregados. A competência emocional nada mais é do que um relacionamento saudável e maduro com nossas emoções e com as emoções dos outros e é tão importante para a produtividade da empresa, quanto a saúde física dos seus empregados, por isto deve

137 Educação Emocional na Escola 139 estar na preocupação do empresário consciente a implantação de programas de educação emocional para os seus empregados. COMO ENFRENTAR MEDO E PREOCUPAÇÃO Podemos enfrentá-los das seguintes formas: Reflexão construtiva: Pode ser muito útil uma reflexão construtiva, realista e positiva, sobre a situação. Por exemplo, se alguém está preocupado com a nota que vai tirar em uma prova, achando que vai ser baixa, pode fazer a seguinte reflexão construtiva: "Ora, se tem dez assuntos que entram na prova e eu já estudei oito, e os sei bem, se eu estudar os outros dois, terei toda probabilidade de ter uma boa nota. Por isto não devo ficar preocupado e posso me divertir com tranqüilidade". Mas se a reflexão levar à conclusão que realmente estudou pouco e que pode tirar nota baixa, o que deve ser feito para afastar a preocupação é ir estudar mais, pois afastada a causa desaparece seu efeito. Relaxamento: O relaxamento atua na preocupação porque a atenção da pessoa é desviada do foco da preocupação para sua respiração ou para as palavras que está repetindo. Quando alguém dirige sua atenção para o objeto que o preocupa, transfere para ele a energia da atenção, o que faz com que a preocupação cresça cada vez mais 35. A preocupação como que "atrai" a atenção, e forma-se assim um círculo vicioso: a atenção aumenta a preocupação e a preocupação "atrai" a atenção, que aumenta a preocupação. Para quebrar este círculo vicioso é preciso que se dirija a atenção para outra coisa, o que se consegue através do relaxamento. Ao fazer o relaxamento se retira aos poucos a energia da preocupação, ela vai diminuindo e pode até desaparecer. Quando a preocupação não se extingue completamente e volta de novo, pode-se usar a mesma técnica para combatê-la, o que vai minando cada vez mais sua energia, sua força. O importante é que não se deixe a preocupação solta, não se entregue a ela. Por outro lado, através do relaxamento a pessoa está desfazendo um dos efeitos corporais da preocupação, que é a contração dos

138 140 Educação Emocional na Escola músculos, que pode causar muito mal estar, pois ela pode sentir, até dores. Ginástica facial: Na descrição dos efeitos corporais do medo, vimos que um deles é a contração dos músculos frontais, levando a testa a ficar com rugas e as sobrancelhas franzidas. Os olhos ficam bem abertos, esbugalhados, com os cantos internos suspensos. Uma pessoa que tem preocupação crônica termina por incorporar estes traços a sua fisionomia e sua face vive permanentemente enrugada, com as sobrancelhas franzidas. Ela vive sempre de "cara amarrada", a cara da pessoa preocupada. A ginástica facial feita com regularidade é útil para desfazer os efeitos sobre os músculos da face. Escrever sobre sua preocupação: James Pennebaker 8 mostrou que se a pessoa fala sobre suas preocupações ou escreve sobre elas quinze ou vinte minutos por dia, durante cinco dias seguidos, isto tem efeito benéfico. Foi verificado que as defesas orgânicas da pessoa melhoram com estas estratégias, bem como sua produtividade no trabalho, porque o medo tem efeito paralizante sobre a atividade de sua vítima. Este é o poder do "desabafo", que a pesquisa mostra ser útil também para a raiva e para a tristeza. Exercícios Físicos: Os exercícios físicos são úteis para neutralizar as reações corporais do medo e da preocupação crônica, principalmente os que levam a contração muscular vigorosa e a musculação. A musculação só deve ser feita sob acompanhamento médico e com todos os cuidados necessários para não ter efeitos danosos sobre a saúde. A massagem de grupos musculares específicos e os exercícios de alongamento e relaxação são recursos úteis para desfazer os efeitos corporais do medo. Dentre os exercícios específicos, pode-se apertar com as mãos uma bolinha de borracha ou de papel. Outro exercício é apertar as mãos com força, uma segurando a outra, ambas colocadas nas costas.

139 Educação Emocional na Escola 141 Infundir confiança: Se a pessoa está com medo de alguma coisa e tem fé em suas crenças religiosas, ela deve apegar-se às suas crenças porque isto lhe infundirá confiança. Mesmo sem haver nenhum efeito sobre o comportamento real da situação, o efeito psicológico será muito bom, pois diminuindo o medo, diminuirão seus efeitos maléficos sobre o organismo. Se alguém está com medo de alguma coisa, pode recorrer à reza pedindo a Deus ou a algum santo para ajudá-lo. Isto lhe dará forças para enfrentar melhor a situação. O Dalai Lama 73 acredita que uma abordagem útil para combater a preocupação é cultivar o seguinte pensamento: "Se a situação ou problema for tal que possa ser resolvido, não há necessidade de preocupação. Por outro lado, se não houver saída, nenhuma solução, nenhuma possibilidade de equacionar o problema, também não fará sentido nos preocuparmos, já que não poderemos fazer nada a respeito do mesmo". E argumenta que se houver uma solução para o problema, em vez de nos sentirmos dominados por ele, a atitude mais acertada consiste em procurarmos a sua solução, gastando nossa energia voltando nossa atenção para a busca da solução e não gastando-a com a preocupação em si. O importante é resolver o problema. Se o problema não tem solução, quanto mais rápido aceitarmos este fato, menos ele nos incomodará. De qualquer forma, devemos enfrentar o problema diretamente, pois só assim poderemos saber se existe ou não solução para ele. ANSIEDADE A ansiedade é uma reação natural do organismo diante de certas situações da vida: antes de um exame médico ou de uma prova, diante de uma mudança importante em nossa vida, diante de um futuro incerto. Ela é útil enquanto nos ajuda a preparar-nos para lidar com algum perigo. Pode surgir diante de situações do dia a dia ou pode ser criada pelo pensamento, em situações que realmente não ocorrerão. Alguns autores fazem diferença entre a ansiedade e o medo: acham que no medo a reação é contra uma ameaça precisa, determinada, e que na ansiedade a reação é contra algo vago e inespecífico. Quanto à relação entre a ansiedade e a angústia, a

140 142 Educação Emocional na Escola angústia é considerada como uma continuação da ansiedade, um estágio mais avançado dela. A ansiedade passa a ser maléfica quando é excessiva ou se instala de maneira crônica. A pessoa passa a se sentir doente, com falta de ar, sensação de sufocamento, palpitações no coração, formigamentos, cansaço, muita tensão muscular, dores nos músculos, dorme mal, tem queixas do estômago, intestinos, etc. Pode comprometer o funcionamento do sistema responsável pelas defesas do organismo, facilitando as infeções. Pode interferir na evolução da arteriosclerose, e levar ao enfarto no coração, causar úlcera do estômago e do intestino, desencadear acesso de asma, etc. A ansiedade interfere negativamente em todas as atividades intelectuais, inclusive na aprendizagem e na avaliação do rendimento escolar. A preocupação que a acompanha é a essência desta ação negativa. Mesmo em pessoas bem dotadas intelectualmente, com alto quociente intelectual (QI), a ansiedade perturba a atividade intelectual e elas produzem menos do que poderiam produzir se não estivessem ansiosas. Pesquisas de Alpert 8 mostraram que a apreensão antes e durante a prova interfere na clareza do pensamento e na memória do estudante. Daí sua repercussão no rendimento escolar: quanto mais a pessoa tem tendência para preocupar-se mais fraco poderá ser seu desempenho na escola, em notas de provas ou testes. Ela tende a ter pensamentos automáticos negativos, do tipo "não vou conseguir fazer isto" ou "não sou bom nisto" e começa a atividade achando que vai fracassar. Foi realizada pesquisa com pessoas sem tendências a preocupações, pedindo-se a elas que, antes de executarem novamente a tarefa que já tinham executado antes, se preocupassem com alguma coisa. O resultado é que suas capacidades de realização foram bastante diminuídas 8. O relaxamento interfere positivamente sobre a atividade intelectual de pessoas preocupadas - mostrou uma pesquisa com preocupados que tiveram um período de relaxamento de quinze minutos antes de realizar determinada tarefa. Depois do relaxamento eles tiveram melhores resultados do que antes, pois o relaxamento diminui o nível de preocupação. Quanto maior o número de preocupações, maior será a redução da capacidade de executar determinada tarefa, pois a energia mental que deveria ser normalmente utilizada para executá-la é desviada pela preocupação. Neste sentido, as preocupações encaminham a pessoa ao fracasso. Pessoas capazes de administrar adequadamente suas emoções podem usar a ansiedade que precede a execução de qualquer tarefa -

141 Educação Emocional na Escola 143 prova, teste, apresentação, discurso, etc. - para motivar-se e preparar-se melhor para a tarefa. Por outro lado, os estados de espírito positivos, em que predominem a descontração e o bom humor, aumentam a capacidade de pensar com maior flexibilidade e levam a maior facilidade para encontrar soluções para problemas. Daí a recomendação de que imediatamente antes das provas o melhor é relaxar, distrair-se e ouvir uma boa piada. Não adianta ficar estudando de última hora pois isto só aumentará a ansiedade e prejudicará o rendimento na prova. Estudos mostraram que pessoas que acabaram de ver um vídeo de humor na televisão eram melhores na solução de um quebra-cabeça, do que outros que assistiram antes um filme sobre matemática. Como enfrentar a ansiedade: O relaxamento é uma das formas de administrar a ansiedade, pois diminui a freqüência dos batimentos do coração e o número de respirações por minuto, fazendo o contrário do que a ansiedade faz, que é aumentá-los. Se tiver uma raiva por trás da ansiedade e da angústia, devido a um ressentimento de alguém, a uma frustração, a uma injustiça, esmurrar umas almofadas para descarregar a energia 46. Exprimir o que está sentindo: fazer uma carta para a pessoa de quem se está com raiva (não precisa mandar), pintar, desenhar, cantar, tocar o instrumento que gosta. OS BENEFÍCIOS DO MEDO E OS MALEFÍCIOS DE SUA REPRESSÃO O medo, apesar de todos os males que pode fazer ao organismo, tem o seu lado bom, como tudo na vida, e pode nos trazer alguns benefícios, como veremos a seguir. Na defesa do organismo, ele pode ser muito útil, quando uma pessoa ouve um tiroteio, pois é o medo que a faz jogar-se imediatamente no chão, para proteger-se. Se tem uma briga, é o medo que nos faz fugir da confusão. O medo nos faz cautelosos e prudentes ao agir, o medo da violência e dos assaltos nos faz precavidos e prudentes ao sair de casa. O medo da morte nos impede de reagir aos assaltos e de correr em alta velocidade nas estradas.

142 144 Educação Emocional na Escola As preocupações nos ajudam a resolver problemas futuros e a nos preparar psicologicamente para enfrentá-los. A preparação psicológica pode diminuir o estresse e a ansiedade na hora do confronto com o problema. O medo de fracassar ou de não fazer bem feito nos estimula a fazer as tarefas com mais cuidado e a nos prepararmos para elas com mais interesse e mais motivação, melhorando nosso desempenho. O medo de doenças nos faz prevenir contra elas, como por exemplo evitar o uso de gorduras animais, carne vermelha, leite integral, manteiga, queijo, etc., para que o colesterol não aumente no sangue, levando a doenças do coração e vasos, como o enfarte do coração e a hipertensão arterial. As emoções quando reprimidas podem produzir efeitos maléficos no organismo, tanto as negativas, raiva, medo e tristeza, quanto as positivas, alegria e afeto. Um dos efeitos negativos da repressão das emoções na criança é formar um adulto insensível, indiferente às suas emoções e às dos outros. Claude Steiner 47 refere resultados de pesquisas em que presidiários condenados por assassinatos cruéis relataram viver em estado de profunda insensibilidade emocional e que são praticamente desprovidos de sensações emocionais. Dizem que cometem violências com outras pessoas na esperança de que tais atos rompam sua insensibilidade e os façam sentir algo. Estes homens foram vítimas de agressões e de diversos traumas emocionais e físicos em suas vidas. Uma maneira de lutar contra esta situação é fazer a educação emocional, com o aprendizado da consciência emocional e o desenvolvimento da empatia. O medo quando reprimido pode ser substituído pela raiva, pela tristeza ou por uma falsa alegria. Já a alegria, o afeto, a raiva e a tristeza, quando reprimidos, podem ser substituídos pelo medo 40. Em vez de sufocar as emoções, o que possibilitará que cresçam despercebidas, elas devem ser controladas. Para isto devemos identificá-las e compreendê-las, e usar esta compreensão para modificar a situação em nosso benefício. Primeiro, é preciso que se tome consciência da existência da emoção, prestando atenção a nossas reações corporais: coração batendo forte, respiração acelerada, suores no rosto e nas mãos, músculos tensos, etc. Segundo, é preciso atenção aos nossos pensamentos, e, se for o caso, que façamos um diálogo interno conosco mesmos, ou nos concedamos uma trégua, saindo da situação durante algum tempo, para tentar controlar nossas atitudes.

143 Educação Emocional na Escola 145 SÍNTESE O medo é uma reação do organismo a uma ameaça, real ou imaginária. As pessoas que têm temperamento tímido quando nascem, têm um limiar de medo baixo, e sentem medo diante de pequenos estímulos. Ser assustado ou calmo é uma tendência que a pessoa nasce, relacionada com sua constituição genética e crianças tímidas submetidas a treinamento em educação emocional, podem superar a timidez. O medo natural, que os animais nascem com ele, é o medo inato, e é desencadeado por um estímulo externo, vindo do meio ambiente. O medo aprendido é adquirido durante a vida da pessoa, e é desencadeado pelo seu pensamento, e enquanto no medo inato existe uma ameaça real à pessoa, no aprendido, a ameaça não é concreta, é criada pelo pensamento. As reações no corpo da pessoa com medo, surgem tanto no medo inato, quanto no aprendido, e mesmo que não haja uma ameaça real, a pessoa sofre com os efeitos corporais do medo. Estas são algumas das causas de medo: do futuro, de doenças, da ruína, de fazer sexo, de animais, de autoridade, de homem, de mulher, de responsabilidade, de água, de desagradar, de não ser satisfeito, de errar, do tempo não dar, de não conseguir, de expressar emoções, de Deus, dos espíritos, do demônio, do inferno, de catástrofes, de epidemias, da morte. A pessoa com medo se comporta das seguintes maneiras: foge de suas responsabilidades, afasta-se, é obediente, submete-se à vontade dos outros, subordina-se facilmente. Conseqüências do medo sobre a pessoa: no relacionamento interpessoal, ela se sente desvalorizada diante dos outros. Como profissional, o medroso perde a confiança em si mesmo, deixa de ser competitivo e passa a ser menos criativo. No campo existencial há uma limitação maior ou menor, a depender da intensidade e duração do medo, com perda da alegria de viver e grande tristeza. Manifestações do medo no rosto: palidez maior ou menor, a depender da intensidade do medo. Olhos esbugalhados, sobrancelhas franzidas, rugas no meio da testa. Suor frio pode aparecer. Nos membros: contração muscular generalizada, as pernas podem tremer, e a pessoa ficar imobilizada. Mãos frias, suando muito, os cabelos dos braços podem ficar levantados, produção de mais adrenalina e noradrenalina, e de corticosteróides, elevação do açúcar no sangue. A

144 146 Educação Emocional na Escola boca fica seca, o coração dispara, a respiração fica acelerada, a tensão arterial pode subir. A preocupação é a forma de medo mais comum na nossa vida, e sua tendência natural é de crescer, pois pensamentos negativos vão se juntando aos iniciais. Devemos estar sempre vigiando nossos pensamentos para identificar as preocupações logo que surgem, e atuar sobre elas, impedindo seus crescimentos. A maioria das preocupações não corresponde à realidade e é decorrente de avaliações incorretas que fazemos. Para enfrentar o medo e a preocupação podem ser utilizadas uma das seguintes estratégias: reflexão construtiva sobre a situação, desde que ela seja realista e positiva. O relaxamento atua na preocupação porque sua atenção é desviada dela. Ginástica facial é útil para desfazer os efeitos nos músculos da face. Falar ou escrever sobre a preocupação será útil. Exercícios Físicos são úteis, principalmente os que produzem contração muscular vigorosa. A musculação (só deve ser feita com os cuidados necessários), massagem, alongamento e relaxação são úteis também. Rezar, pedindo ajuda a Deus ou a outras entidades em que se confie, é útil. A ansiedade é uma reação do organismo a certas situações da vida. É útil enquanto nos ajuda a preparar-nos para lidar com um perigo e pode surgir em uma situação concreta ou ser criada pelo pensamento, em situações que não correspondem à realidade. A ansiedade faz mal quando é excessiva ou crônica, e a pessoa pode sentir falta de ar, palpitações no coração e outros sintomas. Para enfrentar a ansiedade podem ser usados o relaxamento e exercícios físicos. Há dois tipos de medo: o herdado, que faz parte do patrimônio genético do indivíduo, e o condicionado, decorrente do condicionamento cultural, adquirido ao longo da vida da pessoa. O homem, pode usar duas estratégias de aprendizagem para aprender. Uma é pelo Conhecimento Aprendido, pela adesão ao conhecimento dos outros, lendo um livro ou assistindo uma conferência. Se realiza na infância através do vínculo com os pais, constituindo o Apego, tendência natural do indivíduo para adquirir de um parceiro social a capacidade de aprender disposições adquiridas. Outra forma de aprendizagem é o Conhecimento Especulativo, na qual o indivíduo aprende consigo mesmo, através de suas experiências pessoais, pela observação da realidade. Constitui a Exploração e se processa através de experiências autônomas. O apego e a exploração se complementam: uma boa capacidade de explorar o mundo depende de uma adequada relação de apego.

145 Educação Emocional na Escola 147 A fobia é um medo sem justificativa de um objeto ou situação, levando a crescentes limitações da atividade da pessoa. É construída a partir de crises de medo e ansiedade, e uma de suas principais causas é a exclusão da exploração ou do apego, durante a aprendizagem da criança. Quando predomina o apego, e há exclusão da exploração, há condições para o desenvolvimento do medo e fobias, pois a criança perde a confiança em si mesma. A exclusão do apego leva a criança a não confiar nos outros, pois aprendeu que não podia confiar na mãe. Na interação com a mãe, a criança desenvolve um modelo de apego que leva em conta a disponibilidade, a acessibilidade e a capacidade dela para atender suas necessidades. Aí ela vai decidir, para si mesma, se tem ou não a capacidade de ser amada pelos outros. Ela desenvolverá também uma idéia se é capaz de suscitar reações positivas, formulando a seguinte questão: Tenho a capacidade de me fazer amar pelos outros? A partir de uma resposta positiva ou negativa, ela vai desenvolver ou não confiança em si mesma. No apego seguro a criança confia em si própria e confia também na capacidade de ajuda de sua mãe, por isto sente-se segura para explorar o mundo. As emoções predominantes na vida da criança que teve apego seguro, e com as quais ela enfrentará o mundo, serão a satisfação e a alegria. Será um adulto sem o risco de desenvolver grandes medos e fobias. O apego inseguro evitante decorre da criança ter modelo positivo de si mesma, mas não se sentir amada pela mãe. Ela confia em si, mas não confia na mãe. No apego inseguro ambivalente a criança não confia em si, mas confia na mãe e por isto reforça o apego com ela. No apego inseguro evitante, a criança aprendeu a confiar em si mesmo e a desconfiar dos outros. Não pede ajuda aos outros, organiza sua vida fazendo pouco do amor e do amparo dos outros, procurando ser auto-suficiente. Demonstra aparente segurança diante de acontecimentos altamente estressantes. Desconfia das relações íntimas e não confia nos parceiros. Está voltada para a exploração, evitando o apego. Suas principais emoções são a tristeza e a depressão. No apego inseguro ambivalente, a criança confia no outro mas não confia em si mesmo. Aprendeu a confiar na mãe, mas que a mãe não confiava nela. Termina por não confiar em si mesma. Com medo de separar-se da mãe, tende a agarrar-se a ela. Quando adulta, tende a

146 148 Educação Emocional na Escola agarrar-se aos outros: a superproteção impediu a criança de gerir adequadamente sua autonomia, castrando a confiança que deveria ter em si mesma. A exploração do mundo lhe provoca muita ansiedade, daí o medo e a insegurança com que encarará a vida quando adulta. O medo é a emoção predominante na vida destas pessoas. A identificação e o reconhecimento de nossos medos é de alta valia, em nossa vida pessoal no local de trabalho. Conhecendo-os podemos lidar melhor com eles e descobrir formas de manuseá-los. Ao reprimir o medo, reprimimos junto com ele outras emoções, como a alegria e o prazer. Quando tomarmos consciência da existência dele, a energia que era gasta nesta repressão pode ser canalizada para tarefas produtivas, e para emoções positivas, tipo alegria e amor. Diminuirá a auto-censura e a censura aos outros, permitindo que sejamos mais criativos, flexíveis e produtivos. Nossas emoções podem e devem ser utilizadas racionalmente, desde quando sejamos educados para isto. Nossa capacidade de avaliação da realidade depende das emoções. O paciente de Damásio 8 que teve amígdala cerebral retirada, perdeu a capacidade de avaliação correta da realidade. Se nos privamos do conhecimento de nossas emoções vai haver um relacionamento conflituoso com elas, no qual vamos desperdiçar boa parte de nossa energia psicológica. Gilley advoga que a eficiência do local de trabalho tem sido influenciada negativamente por nossa incompetência emocional, e que temos potencial para tornar o medo negado e não assumido, numa força dinâmica para o bem de nossas empresas e para nosso crescimento pessoal. Afirma que este não é o tipo de coisa que se ensina nas escolas tradicionais de administração, mas que há um imperativo empresarial para a mudança: a maneira antiga não está mais funcionando. E que devemos percorrer um longo caminho rumo a competência emocional em nossa vida. É chegada a hora das empresas reconhecerem a importância da competência e da saúde emocional de seus empregados e de que eles devem ter um relacionamento saudável e maduro com suas emoções e com as emoções dos outros, pois isto é muito importante para a produtividade empresarial. Deve estar na preocupação do empresário lúcido a implantação de programas de educação emocional para seus empregados.

147 Educação Emocional na Escola Como agir com a Tristeza A MORTE DO COMPANHEIRO Ana e Roberto conheceram-se ainda jovens, ele com vinte anos e ela com dezoito. Namoraram, noivaram, casaram, tiveram dois filhos e durante muitas dezenas de anos tiveram uma vida de harmonia, compreensão e afeto, um sempre procurando agradar ao outro. Ao longo do convívio se habituaram um ao outro, celebraram juntos as mesmas alegrias, choraram juntos as mesmas tristezas, comungaram dos mesmos medos e das mesmas ansiedades, sentiram as mesmas raivas. Acostumaram-se ao apoio que se davam mutuamente e havia um vínculo existencial muito grande, uma ligação muito forte entre eles. De repente, Roberto morre, vítima de um enfarto fulminante. Ana sente muita falta e tem um grande estresse, pois perdeu algo que fazia parte íntima de sua vida, que era uma parte de seu eu. Fica desvitalizada, sempre chorando, sem ânimo para enfrentar a vida, muito triste, arredia, querendo ficar só o tempo todo. Com o tempo foi se recuperando e com o afeto dos filhos e netos, aos poucos, foi recobrando o ânimo para viver.

148 150 Educação Emocional na Escola Esta história caracteriza bem a tristeza: é uma reação do organismo a uma perda ou a uma decepção, que leva a pessoa à paralisação ou ao isolamento, diferentemente de outras emoções que levam ao movimento. Pode resultar de estímulos externos ou internos, sendo que os externos podem ser perdas materiais ou afetivas, de objetos ou pessoas com grande significado existencial. A tristeza decorrente de estímulos internos pode ser porque a pessoa está frustrada por ter errado quando queria acertar, não foi satisfeita em seus desejos, fracassou ao não ter conseguido fazer algo ou foi forçada a satisfazer outra. A pessoa habitualmente triste já nasce com esta tendência. O psicólogo Jerome Kagan 8 acredita que a pessoa quando nasce pode ser portadora de um temperamento melancólico. Ser triste ou alegre é uma tendência com que a pessoa nasce, relacionada com sua constituição genética. A finalidade da tristeza é permitir à pessoa aceitar uma realidade que não pode mudar e criar condições de afastamento para que se reestruture psicologicamente. Ela volta sua energia para dentro de si mesma, para seu interior, cumprindo uma etapa de repouso necessária para a reconstrução do seu eu atingido. A pessoa faz um investimento em seu ser interior. Ela precisa de um tempo para recompor-se psicologicamente, para reestruturar suas forças, pois a perda o deixou muito fragilizado perante a vida. Este tempo varia de pessoa para pessoa, em função da força do afeto e do vínculo que existiam. Nos casos de morte, como o de Ana, quem fica, fica triste, recolhe-se dentro de si, volta sua energia para dentro de si próprio porque precisa dela para o trabalho de reconstrução. Não tem alegria para divertir-se e para fazer vida social. Entra num trabalho de luto, que é muito importante para a aceitação da nova realidade que não pode ser mudada, e para a elaboração de novos planos de vida e de novo modelo existencial, substituindo àquele que existia. Às vezes, como a ligação era muito intensa, o membro do casal que fica é incapaz de recompor-se psicologicamente e vive o resto da vida triste ou deprimido. Ou morre pouco tempo depois. Cada um de nós conhece ou já ouviu falar de um caso destes. A tristeza pode ser decorrente da morte ou de qualquer situação em que haja perda de algo muito importante para a pessoa. Existem muitos disfarces da tristeza 40, 8, 46 que é conhecida com diversos nomes, sendo chamada de depressão no terreno da doença. Estas são algumas denominações da tristeza: desilusão, melancolia, nostalgia, sofrimento, mágoa, desalento, desânimo,

149 Educação Emocional na Escola 151 solidão, desamparo, desespero. Às vezes, a pessoa prefere estar desprezada, desgostosa, rejeitada, amargurada, consternada ou desencorajada. REAÇÃO DE LUTO A reação de luto é provocada pela necessidade de submissão de uma pessoa a uma situação que ela tem de aceitar. Ela é impotente diante da situação e não pode mudar nada, o que ocorre quando há grandes perdas na vida, restando uma única alternativa: chorar. Ela é vivida quando há morte de um ente querido e em outras situações: separação, perda, mudança de casa, entrada em aposentadoria, mudança de trabalho, esperança decepcionada, perda de um objeto ao qual se é apegado, etc. No trabalho de luto é importante a pessoa chorar. A repressão da tristeza, através da repressão do choro, leva à interrupção do trabalho de luto, que é importante para a solução adequada da situação. Segurar o choro significa gastar energia para impedir que as lágrimas corram, além de inserir tensões em nosso corpo. Fillizolat 46 descreve cinco etapas do luto, sendo que de início a pessoa reage à nova realidade e luta contra ela, para finalmente render-se. A primeira é a da negação: A realidade ainda não pode ser encarada e a pessoa procura se proteger de emoções mais intensas. Ela não aceita a situação e não quer compreendê-la. Então, é melhor negar tudo: "Não, ele não morreu, não é possível"; "Não, ele não me deixou, é tudo mentira", e assim por diante. A segunda é a da raiva. A pessoa se sente frustrada com a perda do que queria continuar a ter e fica enraivecida. Passa a protestar e a acusar a todos em volta de si ou a si própria. Fica a remoer seu sentimento de culpa: "Ele morreu porque os médicos foram incompetentes! Este hospital tem um péssimo atendimento!". Ou então: "A culpa é minha, eu devia ter visto que eles eram incompetentes!" Na terceira etapa, a pessoa se põe a negociar e a fazer promessas, para ter o que perdeu de volta. A quarta etapa é da depressão, em que há aceitação da realidade imutável. A energia que era utilizada na cólera e na negociação acaba, a pessoa se entrega. Fica abatida e se larga, dizendo: "É isto mesmo, não o verei mais, acabou tudo". Na última etapa, a pessoa aceita tudo e está preparada para investir suas energias em novos laços. A pessoa fez o luto.

150 152 Educação Emocional na Escola O luto é um processo de adaptação à nova realidade e cada etapa é importante para estruturar a seguinte, e se não é resolvido leva a bloqueios emocionais de conseqüências maléficas, devido às emoções que ficam bloqueadas no inconsciente. É o que ocorre quando acontece algo horrível e procuramos reprimir o acontecimento desagradável, fazendo de conta que nada ocorreu, utilizando pensamentos do tipo: "Não quero sentir, isto não tem importância, não vou mais pensar nisto". TIPOS E CONSEQÜÊNCIAS DA TRISTEZA Há dois tipos de tristeza: a natural e a adquirida ou programada. A natural, inata, a pessoa nasce com ela, nos temperamentos melancólicos e o que a faz aparecer vem da programação genética. A tristeza aprendida ou programada é aprendida durante a vida e o estímulo que a produz é interno, vem do pensamento. A pessoa aprende no convívio com outras, principalmente na família, com pais, irmãos e parentes. É o caso de alguém que convive desde criança com pessoas melancólicas e deprimidas e que termina triste e deprimida, pois as emoções são contagiosas. A tristeza relacionalmente programada 40 pode ser devida à pessoa ter errado, não ter sido satisfeita, não ter conseguido executar algo que desejava, em conseqüência de ter satisfeito alguém ou ter participado de rituais coletivos entristecedores (enterros, cerimônias religiosas, etc.) As conseqüências da tristeza podem surgir em diversas áreas: no relacionamento interpessoal, na área profissional e na área existencial. No relacionamento interpessoal a pessoa pode se sentir desvitalizada no seu relacionamento. A nível profissional, devido a seu pensamento pessimista, a pessoa deixa de ser competitiva e é menos criativa. Leva à estagnação e à incapacitação profissional, com diminuição da produtividade no trabalho. No campo existencial a soma de todos estes fatores negativos leva a uma grande limitação existencial ou mesmo anulação, maior ou menor a depender da intensidade e duração da tristeza. O portador de tristeza crônica não tem alegria para viver, graças aos efeitos corporais desvitalizantes da emoção. A reação do organismo à tristeza é a paralisação e o isolamento, com pensamento pessimista. As reações corporais surgem tanto na inata, quanto na aprendida e uma grande característica da pessoa triste

151 Educação Emocional na Escola 153 está em sua face: os cantos dos lábios ficam caídos e a expressão do olhar é melancólica, sem vida, sem brilho, de desânimo. DEPRESSÃO A depressão representa a tristeza sob a forma de doença. A tristeza faz parte de nossa vida, mas pode transformar-se em depressão, que pode durar meses ou anos, podendo atingir todas as idades, desde crianças, adolescentes até adultos, tanto do sexo masculino quanto do feminino. Há dois tipos de depressão: a reativa ou situacional e a endógena. A reativa ou situacional é uma reação do organismo a determinado acontecimento externo, como uma grande perda afetiva, de um ente querido. Pode aparecer devido à perda de sentido de vida da pessoa, como no caso de alguém que se aposentou e não sabe o que fazer com seu tempo, com sua vida. Às vezes descamba para o alcoolismo, procurando fugir desta situação que lhe é insuportável. A depressão endógena é causada por fatores internos do organismo e acredita-se que algumas pessoas podem estar geneticamente predispostas a ela. Quem sofre de depressão tem diminuição da serotonina e da noradrenalina, substâncias relacionadas com a transmissão do impulso de uma célula nervosa para outra. Acredita-se que a fadiga física, lentidão mental, falta de energia e de motivação existentes no deprimido, estejam relacionadas com baixos níveis de noradrenalina em seu corpo, por isto as novas medicações estão se voltando para corrigir a falta de noradrenalina. A serotonina é responsável pela existência dos estímulos sexuais, impulsos e irritabilidade em indivíduos saudáveis. A depressão pode aparecer de forma bem evidente ou surgir de forma velada, aparentando outras doenças. É então denominada de depressão latente ou branca. São referidos como fatores que interferem no aparecimento da depressão, estresse mantido, carência afetiva, comportamento punitivo dos pais, pais muito severos, estresse dos pais, pais que perderam sua auto-estima, inclusive por desemprego, existência de conflitos conjugais. Para que uma pessoa seja considerada portadora de depressão, é preciso que apresente pelo menos cinco das queixas seguintes, durante pelo menos duas semanas seguidas: Sentimento de tristeza ou vazio, durante todo o dia, durante muitos dias. Perda de vontade de alimentar-se.

152 154 Educação Emocional na Escola Diminuição ou perda da vontade de manter relações sexuais. Dificuldade para dormir ou sono interrompido ou acordar muito cedo pela manhã. Sensação de fadiga e de cansaço exagerado. Perda de interesse ou do prazer nas atividades habituais. Lentidão ou agitação nas atividades. Diminuição da capacidade de concentrar e de pensar. Pessimismo, tendência a se ver de forma negativa, desvalorização de si mesmo, pensamentos com auto-acusação. Pensamentos de morte e idéias suicidas. A depressão pode variar de uma pessoa para outra, apresentandose em algumas com predomínio de agitação e ansiedade e em outras com lentidão e diminuição das atividades. Deve-se pensar na possibilidade de depressão quando uma criança ou adolescente ficar retraído dos amigos, o rosto sério, sem expressar emoções positivas ou negativas, o ar ausente. Se, ao contrário, ele se mostrar irritadiço, ansioso, agitado, teimoso e insatisfeito, isto também pode corresponder à depressão. A depressão atinge atualmente tanto adultos quanto crianças. Pesquisas indicam que cerca de 2% da população infantil e 10% dos adolescentes são atualmente atingidos pela depressão 46. COMO ENFRENTAR TRISTEZA E DEPRESSÃO Pode-se enfrentar a tristeza comum e a depressão leve utilizando-se as estratégias que se seguem, de forma isolada ou combinada. Se a depressão for mais forte, deve ser procurada a assistência psicoterapêutica necessária. Dar sentido à vida: Uma das causas da depressão é a perda do sentido de vida. Como a vida não tem um sentido único, mas sim diversos sentidos, para evitar a depressão recomenda-se que a pessoa procure estabelecer, no início de cada dia, uma meta, um objetivo, um sentido imediato, para sua vida. Devemos estabelecer, todas as manhãs, uma meta ou algumas metas para o dia que está começando, respondendo à seguinte pergunta: que vou fazer durante o dia? Por exemplo: "Hoje de manhã irei para a escola, à tarde estudarei durante duas horas, depois verei

153 Educação Emocional na Escola 155 televisão. À noite vou ver o namorado ou conversar com meus amigos". É importante que se saiba o que vai fazer com o tempo, preenchendo-o com coisas significativas e agradáveis, para que sua vida não fique vazia e sem sentido. Quando alguém está motivado, sabe o que vai fazer, sabe qual a direção que vai tomar, daí a importância das metas. A meta é um objetivo específico que estimula a canalização das energias em uma determinada direção, enchendo a vida de significado e sentido e devem ser estabelecidas metas que sejam estimulantes. Distração: Devemos programar intencionalmente acontecimentos agradáveis que nos distraiam: ir passear no shopping, ao cinema ver um filme cômico, ao teatro ver uma peça de humor, ver uma partida de futebol, ir à praia, encontrar-nos com pessoas que gostemos, com os amigos, ler livros e revistas, etc. Estudos mostram que pessoas que vêem muita televisão ficam mais deprimidas depois de assistí-la 8. Praticar exercícios físicos: As pesquisas mostram que andar e fazer ginástica são exercícios úteis para combater a depressão leve - tristeza profunda, desânimo e sentimentos de autodepreciação - porque mudam o estado de espírito. A ginástica traz maior estímulo para o organismo, contrapondo-se ao baixo estímulo da depressão. Pesquisas mostram que o exercício físico freqüente é tão eficaz quanto a psicoterapia no tratamento da depressão leve ou moderada 43. O exercício parece melhorar o humor através de seus efeitos fisiológicos sobre o sistema nervoso e também através de seus efeitos psicológicos diretos, proporcionando uma distração das preocupações do dia a dia e diminuindo o estresse. Qualquer forma prazerosa de exercício pode proporcionar melhora psicológica e ajudar a contrabalançar os efeitos do estresse. A ginástica facial feita com regularidade é útil para reverter os efeitos da tristeza sobre os músculos da face. Quando a pessoa está triste um dos efeitos corporais da emoção é o repuxamento dos músculos da comissura labial para baixo. Toda vez que houver este repuxamento, será evocada a tristeza e tudo se passará como se ela estivesse presente. Os cantos dos lábios ficam puxados permanentemente para baixo na tristeza crônica. Um bom exercício consiste em forçar os cantos

154 156 Educação Emocional na Escola dos lábios para cima, como se estivesse sorrindo. Prender durante alguns segundos. Fazer três a quatro sessões de dez elevações ao dia. Esta é uma forma indireta de combater a tristeza. Sorrir Independentemente da ginástica facial, devemos sorrir sempre, mesmo que não tivermos motivo real para isto. Quando sorrimos mandamos uma mensagem positiva para seu cérebro, pois o ato mecânico de sorrir evoca a alegria na memória, pois ela condicionou a alegria ao ato de sorrir. Segundo Assaglioli 35, uma lei básica da psicologia ensina que os atos podem evocar emoções, em recíproca ao fato de que a emoção provoca o ato: quando estamos alegres, sorrimos porque estamos alegres e, quando sorrimos, podemos evocar a alegria. Contestar os pensamentos tristes e pensar em coisas alegres. Devemos procurar mostrar a nós mesmos que a coisa não é tão preta quanto parece, verificando o lado bom da situação que nos deprimiu. Se a tristeza é porque alguém perdeu o namorado, lembrar daquelas situações em que o relacionamento não era tão bom e nas brigas que tiveram. Lembrar que o mundo não se acabou, que a Terra não vai parar por isto. Procurar sempre ter pensamentos positivos e não se entregar: recordar situações divertidas e momentos de felicidade. Melhorar a auto-imagem. Tratar bem da aparência, usar o perfume que gosta, vestir-se bem e, se for mulher, fazer uma boa maquiagem. Ajudar a outras pessoas. Ao ajudar os outros, a pessoa se sentirá útil por estar fazendo o bem e, ao mesmo tempo, estará desviando sua atenção de suas preocupações e ruminações, o que lhe será altamente benéfico. Pesquisas mostram que lançar-se ao trabalho voluntário é um dos mais poderosos modificadores do estado de espírito negativo. Orar. Pesquisas mostram que rezar é um meio eficaz para combater a tristeza e a depressão. A pessoa se sente fortalecida e esperançosa ao buscar ajuda sobrenatural.

155 Educação Emocional na Escola 157 Escrever sobre a tristeza: James Pennebaker 8 mostrou que se a pessoa fala ou escreve sobre sua tristeza quinze ou vinte minutos por dia, durante cinco dias seguidos tem um efeito benéfico. É o poder do "desabafo". Relaxamento: Segundo Goleman 8 as técnicas de relaxamento colocam o corpo em um estado de baixa estimulação e por isto funcionam bem para a ansiedade, mas não tão bem para a depressão. Se a depressão for acompanhada de ansiedade, há indicação do relaxamento. Coisas que não devemos fazer quando estivermos tristes ou deprimidos: Comer demais. Seguramente isto vai causar malefícios, principalmente para quem tem tendência para engordar. A pessoa vai se arrepender depois e comer demais não vai melhorar seu estado de espírito. Nos entregarmos ao álcool. O álcool é um depressor do sistema nervoso central e só vai piorar a tristeza e depressão. Fuja do álcool! Usar tóxicos: maconha, cocaína, crack, etc. Os tóxicos não resolvem nenhum problema nosso. Pelo contrário, só fazem piorá-los, levando a pessoa à dependência química e psicológica, com suas conseqüências em termos de degradação pessoal, profissional e existencial. Ficar sozinhos, pois iremos sofrer com a solidão e o isolamento. Ver filmes e peças de teatro tristes, nem escutar músicas fúnebres ou depressoras, pois só irão piorar a tristeza, porque vão induzir a acentuação do estado de espírito negativo. Ficar ruminando a tristeza, pois isto fará com que a pessoa se sinta pior.

156 158 Educação Emocional na Escola Quando a pessoa triste ou deprimida se entrega à preocupação fixa em coisas que está sentindo: no cansaço, na pouca energia que tem, na pouca motivação para executar suas tarefas habituais, no pouco trabalho que está fazendo. E isto só vai piorar sua situação. Para complicar entram em campo os pensamentos automáticos, sempre negativos, dizendo-lhe que todos vão rejeitá-lo, que nunca vai ficar bom, etc. A pessoa deve reagir e não se entregar. Ficar o tempo todo chorando e nos lamentando. O choro é útil durante o trabalho de luto e não deve ser reprimido. Entretanto entregar-se excessivamente ao choro vai fazer a pessoa prisioneira da tristeza e da depressão. A TRISTEZA NÃO DEVE SER REPRIMIDA As emoções reprimidas podem produzir efeitos maléficos no organismo e a tristeza é importante para a pessoa aceitar uma realidade que não pode mudar, dando um tempo, através de um afastamento, para reestruturar-se psicologicamente. A repressão da tristeza, através da repressão do choro, leva à interrupção do trabalho de luto, tão útil para a saúde mental. O luto não resolvido leva a bloqueios emocionais, ficando a emoção reprimida no inconsciente, com prejuízos para a personalidade. Um dos efeitos negativos da repressão das emoções nas crianças é formar um adulto insensível, indiferente às emoções dos outros e a tristeza reprimida pode ser substituída pelo medo. Em vez de sufocar as emoções devemos controlá-las. Devemos compreendê-las e usar esta compreensão para modificar a situação em nosso benefício. Para isto é preciso primeiro tomar consciência da existência da emoção, prestando atenção para suas reações corporais, que no caso da tristeza são: diminuição da capacidade de fazer as coisas, sensação de moleza no corpo e de cansaço fácil, cantos dos lábios caídos, olhar vago, fixo, entristecido. Atenção às reações mentais e comportamentais: isolamento, lentidão do pensamento, diminuição da capacidade de concentração, falta de prazer ao executar tarefas que habitualmente são agradáveis, alteração do sono, diminuição do apetite alimentar e sexual.

157 Educação Emocional na Escola 159 SÍNTESE A tristeza é uma reação do organismo a uma perda ou decepção, e leva à paralisação ou isolamento. Os estímulos externos da tristeza são perdas de objetos ou pessoas queridas e os internos são frustração por ter errado, não ter os desejos satisfeitos, ter fracassado por não conseguir algo, ter sido forçado a satisfazer outra pessoa. A tristeza permite à pessoa aceitar uma realidade que não pode mudar, voltando sua energia para dentro de si mesma, na sua reconstrução. A reação de luto é provocada pela necessidade de submissão a uma situação para a qual se é impotente. É vivida na morte de um ente querido, separação, perda, mudança de casa, aposentadoria, mudança de trabalho, etc. São as seguintes as etapas da reação de luto: negação, em que pessoa nega a realidade. Segue a fase da raiva, em que pessoa acusa a todos ou a si própria. Depois a pessoa faz promessas para ter de volta o perdido. Segue-se a fase da depressão, em que a pessoa se entrega. Na última etapa a pessoa faz o luto, aceita a realidade e está pronta para investir suas energias em novos laços. A tristeza natural, que os animais nascem com ela, é inata, geneticamente programada. A tristeza aprendida é adquirida durante a vida da pessoa e é desencadeada pelo seu pensamento. A reação do organismo à tristeza é a paralisação e o isolamento. O pensamento é pessimista e há diminuição da capacidade profissional, podendo haver decadência econômica, dificuldade de relacionamento e anulação existencial da pessoa. A depressão representa a tristeza sob a forma de doença. Há dois tipos: a reativa e a endógena. A reativa ou situacional é uma reação a um acontecimento externo, como a perda de um ente querido. A endógena é ligada a alterações da serotonina e noradrenalina, substâncias relacionadas com a transmissão do impulso nas células nervosas. A depressão pode aparecer de forma clara ou de forma velada, sendo então denominada depressão latente. Uma pessoa para ser considerada com depressão deve ter pelo menos cinco das queixas seguintes: sentimento de tristeza, perda de vontade de alimentar-se, perda da vontade de manter relações sexuais, perturbações do sono, sensação de fadiga, perda de interesse nas atividades, lentidão ou agitação nas atividades, redução da capacidade de concentrar e pensar, pessimismo, idéias suicidas.

158 160 Educação Emocional na Escola Coisas que devem ser feitas para enfrentar a tristeza e a depressão leve: dar sentido à vida, distrair-se, praticar exercícios físicos, fazer ginástica facial, sorrir, mesmo sem querer, contestar os pensamentos tristes e pensar em coisas alegres, procurar melhorar a auto-imagem, procurar ajudar outras pessoa, rezar, escrever sobre a tristeza, praticar relaxamento (se houver ansiedade). Coisas que não se deve fazer quando estiver triste ou deprimido: comer demais, se entregar ao álcool, usar tóxicos (maconha, cocaína, crack, etc.), ficar sozinho, ver filmes e peças de teatro tristes, escutar músicas depressoras, ficar ruminando a tristeza, ficar o tempo todo chorando e se lamentando. A tristeza não deve ser reprimida pois pode fazer mal à saúde, desde quando ela é importante para a pessoa aceitar uma realidade que não pode mudar. A repressão do choro leva à interrupção do trabalho de luto e o luto não resolvido leva a bloqueios emocionais, podendo ser a tristeza reprimida substituída pelo medo. Em vez de sufocar a tristeza, devemos controlá-la, tomando consciência da sua existência, prestando atenção para as reações corporais, mentais e comportamentais e atuando sobre elas.

159 Educação Emocional na Escola Como prevenir o Estresse O ACIDENTE NA ESTRADA Certa noite um estudante fazia uma viagem de Salvador para Feira de Santana em sua camioneta, acompanhado da namorada e de uma amiga. De repente surgiu na contramão um caminhão, e para não bater de frente com ele o estudante lançou o carro na ribanceira, capotando diversas vezes. Ensangüentado, com muitos cortes no rosto e no corpo, sentindo muitas dores, foi levado para um hospital, onde foi verificada a presença de diversas fraturas, inclusive das costelas. Com o tratamento adequado, após cerca de três meses estava totalmente recuperado fisicamente, não sentia mais dores e os cortes cicatrizaram. Mas todo fim de semana quando tinha de viajar na mesma estrada, para ir à fazenda da família, começava a se sentir mal cerca de meia hora antes da viagem: ficava inquieto, ansioso, angustiado, tenso, irritadiço, com náuseas, chegando mesmo a vomitar. Suava muito nas mãos, nos pés e no rosto, sentia os músculos do corpo contraídos, o coração disparado, a respiração acelerada e às vezes falta de ar. Tinha até diarréia algumas vezes. Durante a viagem

160 162 Educação Emocional na Escola continuava a sentir-se mal e só melhorava depois que chegava na fazenda. O que nosso estudante tinha eram os sintomas do estresse, pois a lembrança da estrada evocava em sua memória o acidente e todas suas conseqüências, todo seu sofrimento. Como veremos mais adiante neste capítulo, no item estresse e memória, existe uma forma de memória inconsciente, relacionada com as emoções e com base na amígdala cerebral, que é muito importante no desencadeamento do medo condicionado ou adquirido. O estudante ficava com medo de ter um novo acidente e o estresse era desencadeado. O estresse é uma reação do organismo a pressões externas ou internas que o levam a alterações promovidas por substâncias que induzem várias modificações que podem culminar em doença. Hans Selye, criador do conceito de estresse, definiu o estresse biológico como a resposta não específica do corpo a qualquer exigência feita a ele. E disse que "O estresse acelera o ritmo do envelhecimento pelos desgastes da vida cotidiana". Quando enfrentamos uma situação estressante, devemos considerar a participação de três fatores: o agente estressante, que desencadeia a situação, a percepção mental do evento, a reação do corpo à pressão sofrida. Geralmente a ação do agente estressante está fora de nossa capacidade de controle e o máximo que podemos fazer é tentar evitar a situação, se nós já a conhecemos anteriormente. A reação de nosso corpo é inconsciente, automática, e não temos condições para atuar diretamente no seu processo desencadeador, podendo entretanto interferir em seus efeitos em nosso organismo (fig. 8-1). O estresse é uma reação do organismo a pressões externas ou internas que o levam a alterações promovidas por substâncias que induzem várias modificações que podem culminar em doença. Surge quando há uma mudança em nossas vidas, sendo sua intensidade proporcional ao valor da mudança (fig. 8-2). Não esquecer que por trás de toda mudança há um medo, o medo do desconhecido. O significado inicial do estresse na vida animal foi de proteger os indivíduos contra agressões do meio ambiente, garantindo a perpetuação das espécies no processo evolutivo, através da chamada reação de luta e fuga.

161 Educação Emocional na Escola 163 Mente Experiência do estresse (percepção) Agente Estressante Corpo Reações ao estresse Figura 8-1 Quando um agente estressante atua sobre nosso organismo nossa mente tem a percepção da situação através da experiência do estresse. Nosso corpo apresenta reações à situação estressante devido à liberação de diferentes substâncias. Por trás do estresse está sempre uma emoção, principalmente o medo e a raiva. Ele cria as condições indispensáveis para que estas emoções atinjam seus objetivos, fazendo surgir os elementos orgânicos necessárias para suas expressões corporais e comportamentais. Para que haja a fuga, no medo ou a agressão, na raiva, são necessárias modificações decorrentes da reação de estresse. O homem moderno, embora não tenha mais necessidade para preservar-se das primitivas reações do estresse, continua a ter as mesmas reações, embora diante de situações diferentes. Poucos de nós tivemos necessidade de entrar em uma luta real corpo a corpo com outra pessoa.

162 164 Educação Emocional na Escola Pressões externas Trabalho Família Sociais Financeiras Substâncias que modificam o organismo Doenças do estresse Pressões internas Saúde Pessoais Figura 8-2 Natureza do Estresse Mudanças em nossas vidas podem funcionar como pressões externas (no trabalho, no lar, na família, na sociedade e nas finanças) ou internas (na saúde e pessoais) levando o organismo a reagir com aumento da produção de hormônios e outras substâncias que levam a modificações que podem desencadear doenças. Agora nossa luta é diferente. É com os clientes difíceis, com a competição desenfreada, pela manutenção do emprego, pela manutenção da saúde da empresa e assim por diante. Para nosso cérebro, entretanto, tudo é estresse, é pressão e ele responde preparando-nos para lutar ou fugir. Os hormônios produzidos permanecem no corpo e com o tempo podem causar sérios danos. As pressões externas podem vir de responsabilidades no trabalho, de problemas do lar e da família, de questões sociais, bem como de problemas financeiros. As pressões internas podem resultar de problemas de saúde, de doenças e de desequilíbrios do meio interno ou de questões pessoais. No mundo atual todas as pessoas, independente da classe social e do poder aquisitivo, estão expostas ao estresse, que pode levar a problemas de saúde. Desde a questões emocionais passageiras até a

163 Educação Emocional na Escola 165 problemas de natureza física, desde uma simples alergia, até um fatal enfarto do coração. Segundo a Academia Americana de Médicos de Família, mais de dois terços das consultas médicas hoje, são motivadas por problemas relacionados com o estresse: asma, falta de ar, dores musculares, ansiedade, nervosismo, dor de cabeça, indigestão, fadiga fácil, náuseas, etc. Nada nos envelhece mais depressa do que o estresse crônico, seja ele de natureza física, emocional ou social. Muitas pessoas que conhecemos aparentam idade muito maior do que a idade que realmente têm porque o estresse as envelheceu rapidamente. Porém, o estresse tem seu lado bom, ao permitir a reação de luta ou de fuga. Graças a ele muitas espécies animais conseguiram sobreviver às agressões de outras mais fortes, conseguindo perpetuarem-se. É graças ao estresse que a raça humana existe hoje, pois ele permitiu que muitos macacos fugissem dos animais selvagens. AS FASES DO ESTRESSE Hans Selye foi o primeiro a identificar e descrever o estresse, tendo considerado nele quatro etapas: alarme, resistência, exaustão e fase terminal 48. Fase de alarme - surge quando do contato entre o agente estressante e o organismo que reage. A medula das glândulas suprarenais libera mais adrenalina e noradrenalina, chamados de "hormônios do estresse", que levam ao aumento da pressão arterial e do número de batimentos do coração. As supra-renais liberam também hormônios glicocorticóides, capazes de produzir aumento da quantidade de açúcar no sangue, fornecendo o combustível que será queimado, tornando mais energia disponível para o organismo. Os músculos ficam tensos e consumimos mais oxigênio para aumentar nossa atividade, além de outras alterações metabólicas que surgem no organismo (fig. 8-3).

164 166 Educação Emocional na Escola Acelera o coração Adrenalina Supra renais Aumenta pressão arterial Contração do músculo Glicocorticóides Aumenta o açúcar no sangue energia Figura 8-3 Fase de alarme do estresse Na fase de alarme as glândulas supra renais produzem mais adrenalina e noradrenalina (hormônios do estresse) que levam ao aumento da velocidade dos batimentos do coração e da pressão arterial, aumentando assim a quantidade de sangue que chega aos músculos. As supra renais produzem também mais glicocorticóides que aumentam o açúcar no sangue (forma rápida de energia disponível), o qual é utilizada para a contração muscular, permitindo a reação de luta ou de fuga. Fase de resistência - nela o organismo se defende dos agentes estressantes. Aumentam os glicocorticóides no sangue, aumenta o ácido clorídrico (que pode produzir úlceras no estômago e no duodeno), diminuem as defesas do organismo, diminui a atividade dos glóbulos brancos, deixando o organismo mais vulnerável às infeções. Nesta fase aumenta a produção de radicais livres ou oxidantes, que são moléculas ou fragmentos de moléculas em desequilíbrio elétrico, devido à presença de elétrons livres. Os radicais livres são altamente reativos e podem retirar elétrons de outras substâncias, produzindo modificações na estrutura e no funcionamento delas, que quando essenciais ao bom funcionamento orgânico, provocam danos aos tecidos, que podem evoluir para doenças graves. O organismo tem mecanismos de defesa naturais para combater os radicais livres, as enzimas anti-oxidantes, que os neutralizam. Porém se a quantidade deles for muito grande e ultrapassar a capacidade de defesa do organismo, ele pode apresentar doenças (fig. 8-4). É isto que ocorre durante o estresse crônico, pois é gerado o estresse oxidativo.

165 Educação Emocional na Escola 167 Glicocorticóides Radicais Livres Ácido clorídrico Enzimas anti-oxid. Defesa orgânica Leucócitos Figura 8-4 Fase de resistência ao estresse Na fase de resistência aumentam mais os glicocorticóides, sobem os radicais livres, o ácido clorídrico e as enzimas anti-oxidantes. Diminuem os leucócitos e as defesas orgânicas se a situação perdurar, facilitando a instalação de agentes infecciosos e de outras naturezas. Fase de exaustão - o organismo atinge o limite da capacidade para defender-se e entra em exaustão. Não consegue mais produzir hormônios para defender-se, nem leucócitos, nem antioxidantes. A adrenalina, até então um agente de defesa, passa a ter efeito nocivo, produzindo aumento da tensão arterial, que pode culminar com derrame cerebral. Fase terminal - o organismo não consegue manter o equilíbrio interno e perde a capacidade de defender-se da agressão de agentes capazes de produzir doenças, que podem então instalar-se. Veremos posteriormente quais são estas doenças. O QUE PRODUZ ESTRESSE O psicólogo Richard Rahe 49, considera que o estresse pode surgir nas seguintes situações: problemas de saúde, no trabalho, no lar e na família, pessoais e sociais e problemas financeiros. Rahe criou um padrão para a medida do estresse, a Unidade de Mudança de Vida (UMV). Quanto maior o grau de mudança, mais unidades terá a modificação. Para a morte de um cônjuge, ele atribui 105 UMVs, o maior valor, e para uma doença sem maior seriedade atribui 25 UMVs. São indicadas abaixo as causas de estresse, nos diferentes grupos citados. O número à direita corresponde ao número de UMVs atribuídas a cada situação.

166 168 Educação Emocional na Escola Problemas de saúde: Doença que deixa a pessoa de cama durante uma semana ou mais, ou hospitalização 42 Doença menos séria 25 Tratamento dentário sério 40 Grande mudança de hábitos alimentares 29 Grande mudança no hábito de sono 31 Mudança no divertimento habitual 30 Problemas no trabalho: Demissão 64 Rebaixamento de função 57 Punição com suspensão 57 Aposentadoria 49 Mudança para novo tipo de trabalho 38 Mudança de horário ou condição de trabalho 33 Mudança nas responsabilidades de trabalho 29/31 Transferência do local de trabalho 38 Problemas com patrão, colegas ou subordinados 30/39 Problemas no lar e na família: Morte de um filho ou cônjuge 10 Morte de pais 66 Morte de irmão/irmã 64 Término de casamento ou divórcio 56 Gravidez 60 Parente que venha morar na casa 56 Casamento 50 Aborto espontâneo ou provocado 53 Problema de saúde ou mudança de comportamento membro da família 52 Mudança de residência 28/38 Nascimento ou adoção de filho 40 Filho saindo de casa para casar ou outro motivo 30 Discussões com o cônjuge 34 Divórcio dos pais 38 Novo casamento dos pais 33 Nascimento de neto 31 Problemas pessoais e sociais: Morte de amigo próximo 46 Decisão importante na vida 45

167 Educação Emocional na Escola 169 Dificuldades sexuais 49 Acidente 44 Rompimento de relacionamento íntimo 35 Noivado 39 Novo relacionamento íntimo 32 Mudança de hábitos pessoais 31 Problemas financeiros: Vencimento de empréstimo 57 Diminuição de renda 60 Perda ou danos em propriedade pessoal 40 Grande aquisição de bens 39 Dificuldade de crédito 43 DESAFIO, ESCOLHA E ENVOLVIMENTO Foi visto que geralmente não podemos atuar nos agentes desencadeadores do estresse, entretanto podemos desenvolver estratégias para lidar com eles, bem como com seus efeitos sobre nosso corpo. Devemos saber identificar e separar as causas do estresse e seus efeitos sobre nosso corpo. A melhor maneira de administrar o estresse é evitá-lo e é muito útil saber quais os recursos que podem ser utilizados com esta finalidade. Podemos usar os conhecimentos sobre o desafio, a escolha e envolvimento ou congruência. O desafio nada mais é do que uma conseqüência de nossas ações para atingir determinado objetivo. Ao buscarmos atingir determinado objetivo sentimo-nos desafiados para atingir a meta desejada e devemos ter muito cuidado na aceitação ou não do desafio. Devemos avaliar bem a situação para não tentarmos atingir aquilo que não temos recursos suficiente para vencer a dificuldade observada, pois se não conseguirmos atingir nosso objetivo isto vai gerar um estresse muito grande e a frustração resultante desencadeará ainda mais estresse. Devemos procurar identificar acuradamente qual nossa área de influência dentro de nossa área de interesse, pois geralmente podemos influir em somente uma parcela dela. Não devemos querer "abraçar o mundo inteiro".

168 170 Educação Emocional na Escola Entra aí a noção de escolha: é a habilidade de reagir de diferentes maneiras, flexibilizando nossas ações. A escolha bem feita é importante para permitir a sensação de controle que temos de uma situação. Quando nos sentimos sem controle de uma situação, ela se torna altamente estressante, pois se torna uma ameaça potencial, gerando o medo. Diante de uma situação devemos identificar a dificuldade que ela representa para nós e os recursos que dispomos para enfrentá-la. Quando a dificuldade é maior do que os recursos, pode gerar um nível maior ou menor de estresse; se os recursos são muito maiores que a dificuldade, pode gerar tédio e indiferença. Se um estudante sabe de antemão que a prova que ele vai fazer é uma prova fácil, pois o professor é pouco exigente isto gerará nele indiferença. Mas se sabe que o professor é exigente e que a prova vai ser difícil isto vai gerar muito estresse e muita ansiedade. Devemos ter cuidado com o excesso de controle, pois ele pode ser altamente estressante. É o caso de querer de nós mesmos coisas que estão além de nossas capacidade física, intelectual, financeira, política ou social. É o caso de alguém que compra um automóvel de luxo e não ganha o suficiente para pagar as prestações - quando elas vencerem terá um estresse muito grande, que poderia ter sido evitado. No outro extremo está o controle insuficiente de uma situação em que podemos agir, temos capacidade para influenciar, que é de nosso interesse e não agimos. Isto dá uma sensação de impotência, que pode influir no aparecimento de doenças. Outra situação importante é aquela em que o evento está dentro de nossa área de interesse mas nós não temos capacidade para mudar seu curso. Nós queremos o desejado mas não podemos consegui-lo - devemos aceitar, sem revolta aquilo que não temos capacidade para resolver, pois a revolta somente trará conseqüências negativas para nosso organismo, devido ao estresse resultante. É o caso de um estudante que fez o vestibular para Medicina e foi reprovado. Não pode fazer nada e deve aceitar o ocorrido que não pode ser mudado e procurar se preparar para outro vestibular, no próximo ano ou em outra faculdade. O envolvimento é um senso de direção que nos permite aproximarmos daquilo que desejamos. Depende muito da atitude da pessoa em relação ao desejado, da sua motivação e da energia interior que dispende em suas ações.

169 Educação Emocional na Escola 171 Segundo McDermott 61, para fazermos uma administração adequada dos fatores que podem determinar em nós o aparecimento do estresse, devemos analisar: o ambiente em que vivemos nosso comportamento nossa capacidade de desencadear ansiedade em nós mesmo nossas crenças e valores. No ambiente em que vive, é altamente estressante para a pessoa uma discussão e uma briga com uma pessoa que ela goste, muito barulho no local de trabalho, muita exigência no trabalho, além da capacidade de realização da pessoa, assim como ausência de poder de decisão. Dentre os comportamentos geradores de estresse está deixar para fazer as coisas na última hora, com pressa, correndo. Satisfazer as exigências de outras pessoas quando não gostaria de atendê-la. Refere ser de grande benefício o prazer físico como ouvir música, fazer exercícios ou assistir um filme ou uma peça que goste. Fazer coisas agradáveis e divertir-se é uma boa receita para evitar o estresse. Dentre as crenças estressantes, refere aquelas que colocam a pessoa à mercê dos outros ou dos acontecimentos ou que pressupõem que a pessoa não tem escolhas para reagir às situações. No sentido oposto agem as crenças que aumentam a sensação de controle sobre si mesmo e sobre o ambiente externo. O Q U E S E N T E A P E S S O A COM ESTRESSE A pessoa com estresse apresenta queixas de diversos órgãos. Segundo o psicólogo Michael Antoni 49, pode ter queixas mentais, emocionais, comportamentais, corporais e sociais. Queixas mentais e emocionais: ansiedade, preocupações, dificuldade de memória, baixa concentração, sensação de tensão, irritabilidade, inquietação, angústia, incapacidade de relaxar e depressão. Queixas comportamentais e corporais: problemas de sono, fisionomia cansada, punhos cerrados, choro, mudanças nos hábitos relacionados com os alimentos, bebida, cigarro e dificuldade para concluir deveres profissionais. Músculos tensos ou doloridos, ranger

170 172 Educação Emocional na Escola de dentes, suar muito, dor de cabeça, sensação de desmaio e sufocamento, dificuldade de engolir, náuseas, dores de estômago, intestino solto ou constipação, necessidade rápida de urinar, urinar muito, perda de interesse sexual, cansaço, tremores, perda ou ganho de peso, atenção exagerada para as batidas do coração. Queixas Sociais: A qualidade do relacionamento pode mudar, sendo que algumas pessoas tendem a se relacionar mais, enquanto outras tendem ao isolamento. FORMAS E CONSEQÜÊNCIAS DO ESTRESSE Há duas formas de estresse: de curto prazo e de longo prazo ou crônico. No estresse de curto prazo o agente que o produz age durante pouco tempo e as reações corporais são fugazes. É o caso do estresse gerado por uma prova que alguém vai fazer ou de uma discussão com um colega ou amigo. As reações ficam limitadas às duas primeiras fases, de alarme e de resistência, não produzindo efeitos nocivos sobre corpo. No estresse de longo prazo ou crônico o agente estressante atua durante um período de tempo grande e os efeitos corporais são mais demorados. É o caso de uma doença prolongada que o obrigue a ficar na cama durante alguns dias ou de uma briga com pessoa da família, que se convive com ela. Enquanto a briga não acabar, a pessoa vai ficar estressada. Daí a vantagem de fazer a conciliação e acabar com o desentendimento. As reações no estresse de longo prazo não se limitam às fases de alarme e resistência, atingindo as fases de exaustão e terminal, com conseqüências nocivas para a saúde. O organismo reage com as mesmas mudanças do estresse de curto prazo, pois a adrenalina e a noradrenalina o colocam de prontidão. Sobem a pressão arterial, a velocidade dos batimentos do coração e a tensão dos músculos. Sobe o açúcar do sangue para gerar energia mais rapidamente, os pensamentos ficam acelerados, a pessoa fica ansiosa e pode haver até pânico. O prolongamento destas reações é que leva à alterações químicas no corpo e a lesões, com o desenvolvimento de doenças, devido a repercussões nos diferentes aparelhos e sistemas. Efeito do estresse no coração e vasos: No estresse crônico o aumento da pressão arterial, que é transitório no de curto prazo, passa a ser mantido e pode levar à

171 Educação Emocional na Escola 173 hipertensão arterial e a lesão nas paredes das artérias. Pode ocorrer em indivíduos saudáveis ou em pessoas com hipertensão fronteiriça. Os aumentos são maiores naqueles que já têm hipertensão ou nos que têm hipertensão fronteiriça. As lesões podem evoluir para obstrução arterial, particularmente nociva quando se dá dentro do coração, acarretando o infarto (fig. 8-5). O estresse mental produzido por um cálculo matemático complexo pode induzir a um espasmo repentino das artérias coronárias em portadores de doença cardíaca. Sabe-se hoje que o estresse pode aumentar o nível do colesterol no sangue, um dos fatores de risco mais importantes para o desenvolvimento de obstrução das artérias que irrigam o coração. Por outro lado, o estresse leva indiretamente a um aumento da coagulação do sangue, que facilita a obstrução das artérias. Esta é a explicação que temos hoje para o desenvolvimento de infarto no coração sem a pessoa ter colesterol acima do normal ou outros fatores de risco. No estresse o coração bate mais rapidamente, podendo haver perturbações do ritmo, que podem culminar com a morte da pessoa, pois na prática, é como se o coração parasse de bater e de mandar sangue para corpo. Em um estresse muito intenso pode cessar o controle sobre as batidas do coração com o aparecimento de perturbações graves do ritmo, que eqüivalem a uma parada do coração. Estresse de curto prazo (discussão) Fases de alarme e resistência Não produz efeitos nocivos e é benéfico Agente estressante Estresse de longo prazo (briga demorada) Até às fases de exaustão e terminal Doenças do coração, vasos, estômago, etc. Figura 8-5 Formas do estresse No estresse de curto prazo o agente estressante atua por pouco tempo, e são atingidas as fases de alarme e resistência, não havendo efeitos maléficos. No estresse de longo prazo o agente estressante age durante muito tempo e desencadeia todas as fases, desde a de alarme até a terminal, podendo aparecer diferentes doenças.

172 174 Educação Emocional na Escola Sabe-se hoje que o estresse e as emoções fortes, particularmente a raiva e a hostilidade, podem contribuir para danos de longo prazo no coração e nos vasos e até mesmo precipitar repentinos infartos. Estresse e infecções A defesa do organismo se faz através do sistema imunológico, que está constituído pelas células, os leucócitos, e pelos anticorpos. No estresse de curto prazo, há aumento passageiro das defesas do organismo, porém no estresse crônico as defesas diminuem, pois a adrenalina e os corticosteróides aumentados inibem a atividade dos leucócitos, podendo mesmo danificá-los. Estudos feitos com militares durante estressantes simulações de combate, mostraram enfraquecimento acentuado de seus sistemas imunológicos, deixando-os vulneráveis às infecções. Pesquisas de laboratório mostram que os corticosteróides reduzem de até 60% a produção dos anticorpos responsáveis pela defesa orgânica. Estresse e diabetes Os diabetes é uma doença relacionada com a diminuição da produção de insulina, hormônio produzido pelo pâncreas, responsável pela queima do açúcar no sangue. Como no estresse há aumento da quantidade de açúcar no sangue, pode piorar os diabetes que já existia. Estresse, estômago e intestinos: Pesquisas de Sandler 50 sobre o efeito do estresse nos intestinos mostraram que dois terços das pessoas saudáveis relataram alteração do funcionamento dos intestinos, queixando-se de diarréia na maioria dos casos, podendo haver também obstipação. Cerca da metade dos pacientes apresentou dor abdominal. Existem referências de que o estresse pode provocar dor no estômago e azia, devido ao excesso de ácido clorídrico produzido. Pode provocar indigestão, enjôo e aumento da quantidade de gases no estômago, além de vômitos, arrotos, gases e dores intestinais. Quanto às úlceras do estômago e do duodeno, as pesquisas recentes indicam que elas são produzidas por bactérias, embora o estresse possa contribuir para seu desenvolvimento e agravamento, principalmente devido ao aumento da secreção de ácido clorídrico (fig. 8-6).

173 Educação Emocional na Escola 175 Vasos sanguíneos Coração Hipertensão arterial Enfarte Alterações do ritmo Parada cardíaca EFEITOS DO ESTRESSE Infecções Estômago Diminuem leucócitos Diminuem anticorpos Dor Azia Gases Vômitos Dor Intestinos Piora diabetes Diarréia Gases Figura 8-6 Conseqüências do estresse O estresse de longo prazo pode produzir efeitos no coração e vasos (hipertensão arterial, enfarte do miocárdio, alterações do ritmo cardíaco e parada cardíaca, com morte súbita), facilitar o aparecimento de infecções, produzir queixas de estômago e intestinos (dor, azia, gases, vômitos e diarréia) e piorar diabetes já existente, além de outras doenças. ESTRESSE E MEMÓRIA Vanessa ia fazer prova de Matemática no vestibular para Medicina. Estava muito tensa e preocupada pois não gostava muito da matéria e tinha dificuldade para compreendê-la.

174 176 Educação Emocional na Escola Na véspera da prova passou o dia inteiro fazendo revisão dos assuntos que tinha estudado e se sentia muito angustiada. Não sentiu fome e quase não se alimentou. À noite, já cansada, para não dormir tomou uma pílula que uma colega lhe deu, e conseguiu estudar até altas horas da madrugada. Quando não agüentou mais, foi dormir. Teve um sono agitado, e acordou às seis horas, com o barulho do despertador - levantou-se, não comeu nada, porque não tinha fome, e saiu correndo para o local da prova. Com o engarrafamento, quase chegou atrasada. Entrou na sala em que ia fazer a prova, coração disparado, palpitando, dor nos ombros e nas pernas, ofegando, mãos frias, suando muito. Sentou-se na carteira, recebeu a prova e começou a ler as questões. Mal conseguia ler os enunciados das perguntas. Não se lembrava nada do que tinha estudado. Deu um "branco". Sentiu uma grande tremedeira e bateu num choro convulsivo. Entregou a prova sem responder nada e saiu da sala, chorando. Vanessa teve um estresse agudo, desencadeado por diversos fatores: primeiro pelo medo que tinha de Matemática; segundo porque passou o dia todo estudando sem parar, o que gerou muita ansiedade, que interfere na aprendizagem e na memória. Como não se alimentou, esta mudança em seus hábitos alimentares concorreu para desencadear o estresse. Quando tomou a pílula para dormir, induziu mudanças em seus sistema nervoso e modificou seus hábitos de sono, pois dormiu muito pouco - mais mudança, mais estresse. Sair sem alimentar-se foi outra mudança de hábitos alimentares, pois todo dia ela toma café pela manhã. O engarrafamento acentuou o estresse, devido ao medo de não chegar na hora. Tudo somado levou a uma grande descarga dos hormônios do estresse e os corticóides liberados em grande quantidade no sangue passaram para o cérebro, atuando nocivamente sobre o hipocampo, que, como veremos mais adiante, é relacionado com a memória de fatos que foram conscientes. As alterações que existiram no hipocampo prejudicaram a evocação, a lembrança do que tinha estudado, daí o "branco" que ela teve. Pesquisas recentes mostram que o homem tem dois tipos de memória, a explícita e a implícita. A memória explícita está relacionada com lembranças de acontecimentos dos quais a pessoa teve consciência. É o caso de um acidente que alguém foi vítima e que tem lembrança do carro capotando na estrada e que a buzina disparou. Ela está relacionada com áreas da córtex cerebral e com o hipocampo,

175 Educação Emocional na Escola 177 estrutura situada dentro do cérebro, na região mediana do lobo temporal. A memória implícita é uma forma inconsciente de memória, relacionada com a amígdala cerebral, estrutura do tamanho de uma noz que existe no interior do cérebro, próximo do hipocampo. Ela está relacionada com as emoções e pesquisas recentes mostram sua importância no desencadeamento do medo condicionado ou adquirido. No exemplo citado acima, a vítima do acidente ao ouvir posteriormente uma buzina de carro semelhante, pode sentir medo, medo este que ficou condicionado ao som da buzina. Ao ouvi-la, são desencadeados mecanismos automáticos na amígdala cerebral que fazem surgir o medo, semelhante ao que foi sentido no acidente. As duas memórias funcionam em associação, a implícita e a explícita. Ao ouvir posteriormente a buzina, a pessoa vai se lembrar do acidente, com quem estava e o que ocorreu, graças ao sistema do hipocampo, enquanto o sistema da amígdala vai produzir os efeitos corporais da emoção: tensão muscular, elevação da pressão sangüínea, aceleração dos batimentos cardíacos e liberação de hormônios do estresse. O estresse pode produzir alterações da memória ao interferir no funcionamento do hipocampo e prejudicar a memória explícita, consciente, ficando a pessoa impossibilitada de recordar um trauma que sofreu. Pesquisas recentes relatadas por Le Doux 34, mostram que a amígdala cerebral tem uma participação fundamental no controle da liberação de corticosteróides pela supra-renal. Quando a amígdala percebe um perigo ao qual a pessoa está exposta, envia mensagens ao hipotálamo, que envia mensagem para a hipófise através do Fator de Liberação da Corticotrofina (CRF). A hipófise libera no sangue um hormônio, o adrenocorticotrófico hormônio (ACTH), que produz a liberação dos corticosteróides no sangue. (Fig. 8-7)

176 178 Educação Emocional na Escola Hipófise CRF Hipotálam o ACTH Supra-Renal Am ígdala Hipocam po Corticóide Figura 8-7 Mecanismo de ação do estresse sobre o hipocampo e a memória Quando há um perigo a amígdala envia estímulos para o hipotálamo, e este aciona a hipófise e esta a supra-renal, que libera corticóides no sangue, os quais vão agir sobre o hipocampo, podendo produzir lesões nele, logo, na memória. Os esteróides, através do sangue, vão para o cérebro chegando ao hipocampo, à córtex cerebral e à amígdala. Se o estresse for demorado os corticóides vão produzir lesões no hipocampo, mais ou menos extensas a depender da sua duração. Ratos em estado de tensão são incapazes de aprender e de lembrar como cumprir determinadas tarefas. O estresse intenso temporário pode produzir a atrofia de dendritos dos neurônios do hipocampo, sendo estas alterações reversíveis, com regressão das alterações passado o estresse. Sob estresse prolongado as alterações são irreversíveis, havendo a degeneração dos neurônios.

177 Educação Emocional na Escola 179 Robert Sapolsky 53 estudou os efeitos da tensão social sobre macacos, submetendo-os a convívio demorado com um macho dominante. Ao longo de anos alguns vieram a falecer e a autópsia mostrou que alguns tinham úlceras estomacais e uma acentuada degeneração do hipocampo. Estes resultados foram confirmados em pesquisas feitas com ratos submetidos a estresse social prolongado, pois houve degeneração do hipocampo deles. Estudos recentes mostram que o estresse danifica o hipocampo de seres humanos e altera a memória consciente deles. Vítimas de constantes agressões na infância e veteranos da guerra do Vietnã tiveram uma diminuição do hipocampo. Acredita-se que situações estressantes produzem alterações do hipocampo no homem e da memória explícita. Em doentes portadores de tumor da supra-renal há aumento da produção de corticosteróides, e há queixas de perda de memória. Estudos recentes mostram nestes pacientes diminuição do tamanho do hipocampo. Por outro lado, em seres humanos ou ratos que recebem altas doses de corticosteróides mantidas, imitando os efeitos do estresse crônico, as células do hipocampo morrem e surgem problemas de memória. Isto mostra de forma conclusiva a relação entre aumento dos corticosteróides, diminuição do hipocampo e alterações da memória. MODOS DE REAGIR AO ESTRESSE A forma como a pessoa reage ao estresse é tão importante quanto o próprio fator estressante, na determinação do aparecimento de doenças. O humor da pessoa e sua estrutura de personalidade influem na forma que ela reage e interferem também na raiva reprimida, depressão, desesperança e estar sempre na defensiva. Na reação ao estresse é importante nossa atitude diante da vida e traços positivos de personalidade interferem na forma com que o organismo responde ao estresse. Estudos feitos com executivos por Suzanne Kobasa 52, na Universidade da Cidade de New York, mostram que pessoas que melhor respondem ao estresse são as que encaram as exigências da vida como um desafio e não como uma ameaça. Outro traço significante é que elas encaram os problemas da vida, do trabalho e da família, como um compromisso e não como uma obrigação. O terceiro traço é que tinham a sensação de estar com o controle da situação, procurando sempre ter as informações que precisavam para tomar decisões.

178 180 Educação Emocional na Escola Kobasa chamou de personalidade audaciosa àquela com os traços de desafio, compromisso e esforço para controlar a situação. Constatou que as pessoas audaciosas são menos propensas a adoecer quando sob a influencia do estresse, da mesma forma que aquelas que se exercitam regularmente. COMO LIDAR COM O ESTRESSE O que se deve fazer: Segundo Michael Antoni, psicólogo da Universidade de Miami 51, um programa que dá bons resultados é baseado em técnicas de relaxamento e exercícios físicos. Relaxamento: No estresse há aumento da atividade do sistema nervoso autônomo simpático e aumento da produção de adrenalina e noradrenalina. O sistema nervoso parassimpático tem ação oposta à do simpático, e a substância liberada pelo parassimpático é a acetil colina, de ação oposta à dos hormônios do estresse. É lógico então que para combater os efeitos do estresse deva ser estimulado o parassimpático, através do relaxamento, que produz aumento da quantidade de acetilcolina, neutralizadora da ação da adrenalina. As técnicas de relaxamento já foram estudadas no capítulo da Autoconsciência. Reveja. Exercícios físicos: O exercício físico ajuda a pessoa a sentir-se melhor, tanto sob o ponto de vista emocional quanto físico. Fazer exercício físico é um poderoso método de relaxamento, segundo Michael Sacks 52. Os exercícios podem reduzir a ansiedade e a depressão, melhorar o humor, a auto-imagem e eliminar os efeitos do estresse. Podem funcionar como amortecedores do estresse, fazendo com que os eventos estressantes tenham impacto negativo menor sobre a saúde psicológica e física. Pesquisas mostram que as defesas orgânicas aumentam com o exercício regular, aumentando o número de glóbulos brancos, durante algum tempo. O exercício que você praticar deve ser intenso mas não exaustivo, pois o excesso de atividade física pode aumentar o estresse e o tiro sair pela culatra.

179 Educação Emocional na Escola 181 A prática excessiva de exercícios pode levar a um estado de fadiga, ansiedade, depressão e insônia. Atletas competitivos, como os corredores e os nadadores e atletas de fim de semana que exigem demais de seu corpo, freqüentemente apresentam este tipo de problema. Lembrar que na vida nada demais é bom. Exercícios que se deve fazer: Exercícios aeróbicos: a caminhada e a corrida produzem aceleração do coração durante prolongados períodos de tempo e podem ser praticadas durante 20 a 30 minutos ou mais, sem que isto se torne exaustivo. É o chamado exercício aeróbico, porque permite que chegue um suprimento adequado de sangue aos músculos enquanto é realizado. Exercícios anaeróbicos: outro tipo de exercício é o levantamento de pesos ou a corrida de velocidade de 100 metros, chamado de exercício anaeróbico. É uma atividade extenuante, que só pode ser feita durante poucos minutos, pois deixa o praticante ofegante. Sua realização depende do limitado depósito de açúcar existente nos músculos, sob a forma de glicogênio muscular, e só devem ser feitos sob supervisão médica. Treinamento em positividade: É um treinamento que visa ensinar habilidades específicas para enfrentar situações difíceis com outras pessoas, com a finalidade de evitar conflitos e o estresse conseqüente. Há três estilos de comunicação: a passiva ou não-positiva, a agressiva e a positiva. Na comunicação passiva, não são comunicados às outras pessoas diretamente, com clareza, os pensamentos e desejos, de quem fala, que espera que elas adivinhem o que ele pensa e o que ele quer. Quando os outros não fazem o esperado, a pessoa fica ressentida, magoada, ferida e ansiosa. Na comunicação agressiva, existe uma agressão à outra pessoa. É o caso de alguém que grita com o garçom porque o filé chegou queimado, em vez de, polidamente, dizer-lhe que deve trazer outro filé porque aquele está queimado. O comportamento agressivo é hostil e faz com que as outras pessoas se sintam humilhadas e se afastem. Na comunicação com positividade a pessoa diz claramente o que está pensando, sentindo ou desejando, sem ser passivo (o que poderia parecer aos outros estar com medo) e sem ser agressivo, respeitando as outras pessoas, sem amedrontá-las. Neste tipo de comunicação as pessoas ficam à vontade para conversar, relaxadas e bem humoradas.

180 182 Educação Emocional na Escola São afastados o medo e a raiva, que corroem o bom relacionamento entre as pessoas. A positividade permite que se trate de assuntos estressantes de forma eficiente e resolva os conflitos rapidamente, sem maior desgaste para o relacionamento. Evita constrangimentos e ressentimentos posteriores. Para isto é fundamental que haja respeito às crenças, necessidades e desejos dos outros. O que não se deve fazer: Comer muito; Abusar do álcool: o melhor é não beber; Abusar do fumo: o melhor é não fumar; Usar drogas; Fugir mentalmente do problema que gera o estresse: Por exemplo, uma mulher que tenta esquecer brigas que está tendo com o marido fazendo o planejamento da festa de aniversário da filha. Esta técnica de negação, de manter fora da consciência o problema, não contribui para diminuir a resposta ao estresse e pode levar a conseqüências emocionais negativas. Pode surgir uma depressão e haver maior comprometimento das defesas orgânicas. Fugir materialmente do problema, fazendo de conta que ele não existe. Para fugir do problema a pessoa afasta-se das outras, de locais ou atividades desagradáveis, pensando que assim vai resolvê-lo. É a postura da avestruz que esconde a cabeça debaixo da asa, pensando que assim ficará livre do caçador. É a chamada defesa comportamental. Isto não resolve a situação - ela somente terá solução através da abordagem da situação com positividade. Estabelecer regras de comportamento para as outras pessoas: Se alguém estabelece regras de comportamento para os outros, quando eles não fizerem aquilo que esperava, a pessoa ficará frustrada, irritada, raiva esta que poderá desencadear o estresse. Entrar em atrito com as outras pessoas: Sempre que houver um atrito, uma fonte de aborrecimento, por trás desta contrariedade virá o estresse, pois a raiva desencadeia a liberação dos hormônios do estresse.

181 Educação Emocional na Escola 183 SÍNTESE O estresse é uma reação do organismo a pressões que induzem alterações orgânicas, podendo culminar em doença. Surge quando há mudança em nossas vidas e sua intensidade é proporcional à mudança existente. De início o estresse tinha por finalidade proteger o indivíduo, preparando-o para a reação de luta ou fuga, garantindo a perpetuação da espécie, pois ele cria condições no organismo para que as expressões corporais e comportamentais das emoções possam efetuar-se. O homem moderno tem as mesmas reações de estresse do homem primitivo, só que agora diante das pressões da vida moderna. Seu cérebro responde às pressões preparando-o para lutar ou fugir e os hormônios produzidos, podem causar sérios danos com o tempo. As fases do estresse são as seguintes: fase de alarme - ocorre no contato com o agente estressante e nela a supra-renal libera mais "hormônios do estresse", há aumento da pressão arterial e dos batimentos do coração. Aumentam os glicocorticóides e o açúcar no sangue, os músculos ficam tensos, e mais oxigênio é consumido. Na fase de resistência aumentam mais os glicocorticóides e elevase o ácido clorídrico, diminui a atividade dos glóbulos brancos e o organismo fica vulnerável às infecções. Aumentam os radicais livres, capazes de criar condições para o aparecimento de doenças. Seguese a fase da exaustão, em que o organismo não consegue mais se defender através da liberação de hormônios e do aumento da produção de leucócitos e de antioxidantes. A adrenalina passa a ser nociva. Por último, na fase terminal o organismo perde a capacidade de defenderse e podem instalar-se doenças. O estresse pode surgir em nossa vida nas seguintes situações: problemas de saúde, problemas no trabalho, problemas no lar e na família, problemas pessoais e sociais, problemas financeiros. Há duas formas de estresse: de curto prazo e de longo prazo ou crônico. No de curto prazo o agente estressante age durante pouco tempo e as reações corporais são fugazes, limitando-se às fases de alarme e de resistência, não produzindo efeitos nocivos. No de longo prazo ou crônico o agente estressante atua durante mais tempo, e os efeitos corporais são mais demorados, ocorrendo em doença prolongada que deixe a pessoa na cama durante alguns dias, ou em briga com pessoa da família, que dure muito. As reações no estresse

182 184 Educação Emocional na Escola de longo prazo atingem as fases de exaustão e terminal, com conseqüências nocivas para a saúde. Principais conseqüências do estresse no organismo: hipertensão arterial, enfarte do coração, perturbações dos batimentos cardíacos, diminuição das defesas orgânicas, com aumento das infeções, queixas dos intestinos e do estômago. O homem tem dois tipos de memória, a explícita e a implícita. A explícita está relacionada com lembranças de acontecimentos que a pessoa teve consciência e é relacionada com a córtex cerebral e com o hipocampo. A memória implícita é uma forma inconsciente de memória e está relacionada com as emoções e com a amígdala cerebral. As duas memórias funcionam em associação, mas quando a memória implícita, ligada às emoções, é ativada produz os efeitos corporais da emoção correspondente. O estresse produz alterações da memória consciente interferindo no funcionamento do hipocampo e a pessoa fica impossibilitada de recordar um trauma. Vítimas de constantes agressões na infância e veteranos da guerra do Vietnã tiveram uma diminuição do hipocampo. A forma como a pessoa reage ao estresse é tão importante quanto o fator estressante, na determinação do aparecimento de doenças. Pesquisas mostram que as pessoas que melhor respondem ao estresse são as que encaram a vida como um desafio e não como ameaça. Outro traço é que encaram os problemas da vida, como um compromisso e não como uma obrigação. O terceiro traço é que procuram estar com o controle da situação, buscando sempre ter as informações que precisam para tomar decisões. O que fazer diante do estresse - praticar regularmente técnicas de relaxamento, fazer exercícios físicos regularmente, como andar durante 20 a 30 minutos diariamente, no mínimo 4 a 5 vezes por semana. Agir com positividade na comunicação, dizendo claramente às outras pessoas o que sente, pensa ou deseja, sem ser agressivo, nem passivo (medroso). O que não deve ser feito - comer em excesso, abusar do álcool (o melhor é não beber), abusar do fumo (o melhor é não fumar), fugir dos problemas existentes, mentalmente ou materialmente. Não devemos estabelecer regras de comportamento para as outras pessoas e assim evitar entrar em atrito com elas.

183 Educação Emocional na Escola 185

184 186 Educação Emocional na Escola 9 Relacionamento OBJETIVOS DO RELACIONAMENTO Relacionar-se com outras pessoas significa aproximar-se delas para atender necessidades ou trocar informações. O relacionamento é a capacidade que temos, em maior ou menor grau, de convivermos e comunicarmos com nossos semelhantes. Qualquer relacionamento deve atender a três objetivos principais: Suprir as necessidades mútuas das pessoas; Manter a relação ao longo do tempo, nos relacionamentos de longo prazo. Trocar informações sobre pensamentos, idéias e sentimentos dos que se relacionam. Quando duas pessoas se relacionam o propósito delas é suprir algumas de suas necessidades. Quando você precisa de uma informação para resolver um problema de Matemática, procura seu professor e pede uma explicação. Quando você precisa saber o dia da prova de qualquer disciplina, procura a Supervisão para obter esta informação. Quando carente de carinho e afeto, você procura seu namorado(a) em busca do atendimento de suas necessidades. Se tem necessidade de dinheiro, procura seu Pai para pedir; se está com fome, procura o vendedor do "fast food" para comprar um sanduíche.

185 Educação Emocional na Escola 187 Devemos ter em mente que em qualquer relacionamento as necessidades de ambas as partes devem ser atendidas, para ele durar. Se forem atendidas apenas as necessidades de uma pessoa, o relacionamento tenderá a acabar. Os relacionamentos em que há o atendimento unilateral das necessidades tendem a ser de curto prazo. Se você quiser que sua namorada(o) continue a ser carinhosa(o), deverá retribuir o afeto e o carinho que recebeu. É dando que se recebe. Para o relacionamento durar, cada pessoa deve se esforçar para atender as necessidades, expectativas e desejos da outra, pois, caso contrário, a outra se sentirá explorada e você não poderá mais contar com ela. COMO SABER AS NECESSIDADES DO OUTRO Uma das maneiras de saber as necessidades da outra pessoa é utilizar a técnica de comunicação chamada de Escuta Ativa ou Dinâmica 42, na qual você se esforça para compreender a outra pessoa e para ouvir realmente aquilo que ela está dizendo. Seguem algumas orientações para que você tornar-se um ouvinte dinâmico: Para ficar claro que você escutou realmente aquilo que seu interlocutor quis dizer, repita com suas próprias palavras o que entendeu e peça a ele para confirmar ou corrigir, se for o caso. Por exemplo, você está conversando com uma colega e ela disse que haverá uma festa no sábado na casa de um amigo, mas não ficou claro se ela lhe convidou para ir à festa. Para tirar a dúvida você deve perguntar: "Isto significa que você está me convidando para irmos juntos para a festa sábado?" Mostre a seu interlocutor que está prestando atenção à conversa usando expressões do tipo "Estou entendendo", "É isto mesmo", etc. Quando a outra pessoa estiver lhe comunicando seus sentimentos, deixe claro que está percebendo. A comunicação de sentimentos é uma demonstração de confiança, que fortifica o relacionamento, por isto você deve deixar claro que compreendeu, dizendo-lhe:

186 188 Educação Emocional na Escola "Eu percebo o que você acha e o que sente a respeito do assunto". Utilize a comunicação não verbal para mostrar ao interlocutor que você está escutando e entendendo tudo. Olhe nos seus olhos, faça sinais de que está concordando balançando a cabeça em gestos de assentimento, incline-se para ele. Outra maneira de avaliar as necessidades da outra pessoa é perguntar a ela diretamente: "O que é que você deseja? Diga que me esforçarei para atender." Ou então: "Posso ajudá-la em alguma coisa em retribuição ao auxílio que você me deu? Você precisa de alguma coisa?" A identificação da necessidade e do interesse do outro sempre deve ser uma preocupação no relacionamento, principalmente quando o objetivo é procurar a solução de conflitos ou o consenso. Por exemplo, se há um atrito entre dois colegas seus, já descambando para a agressão pessoal, e você quer ser o mediador, a primeira coisa que deve fazer é ouvir, em separado, as razões de cada um, para depois atuar, com isenção e imparcialidade, buscando a solução do problema. Fazer agradecimentos Todos nós temos necessidade de reconhecimento, por isto você deve sempre agradecer à pessoa que lhe fez um obséquio - ela ficará satisfeita com o reconhecimento, e quando você precisar dela, será atendido com boa vontade. Este é o sentido de dar gorjeta aos garçons - quando você voltar naquele restaurante será bem atendido, com um sorriso nos lábios. Se você não der gorjeta, será atendido com má vontade e os pedidos demorarão para chegar. Que lhe custa fazer um carinho ou qualquer gesto de afeto para seu Pai quando ele lhe der sua mesada? Porque não agradecer ao professor ou ao colega que lhe deu ajuda para fazer um trabalho, dizendo-lhe que espera a oportunidade para servi-lo? Isto é importante para a manutenção de um bom clima de relacionamento, além de contribuir para que ele seja duradouro.

187 Educação Emocional na Escola 189 DURAÇÃO DO RELACIONAMENTO Além dos fatores mencionados, é importante para a manutenção e duração de um relacionamento, que ele seja desenvolvido em um clima mútuo de confiança, respeito, consideração e apoio. Em cada novo relacionamento devemos estar atentos para conhecer melhor a outra pessoa, identificando traços de sua personalidade e de seu comportamento. Devemos identificar a pessoa de auto-estima baixa, para não magoá-la com críticas inoportunas. Identificar a pessoa reservada, que não gosta de muitos contatos sociais, para respeitar sua privacidade. Um exemplo: Bete sabe que seu colega Roberto é bom em Matemática e vai estudar com ele. No primeiro dia, deve estar atenta para identificar necessidades dele - será que precisa de ajuda em Biologia, que ela domina bem? Se Bete ajudá-lo em Biologia, as necessidades mútuas estarão sendo atendidas, e eles podem ser parceiros durante muito tempo. Bete deve procurar conhecer Roberto melhor em determinados aspectos. Será que ele tem auto-estima baixa? Se tiver, será muito sensível a críticas e ela deverá ser cuidadosa no relacionamento. Uma crítica inoportuna poderá deixar Roberto magoado, mesmo que não tenha sido esta a intenção de Bete. Será que ele é uma pessoa reservada, pouco sociável, que não se sente bem junto com muita gente? Se for, ela não deve chamar outros colegas para estudarem juntos, pois o deixaria bastante desconfortável. A duração de um relacionamento depende muito do respeito mútuo entre as pessoas que se relacionam. Este respeito passa pela sinceridade 47, lealdade e franqueza de cada parceiro, e concorrerá para o desenvolvimento de confiança mútua, fundamental para a duração do relacionamento. PENSAMENTOS, SENTIMENTOS E IDÉIAS O relacionamento pode ir da troca de informações sobre fatos, para a esfera dos sentimentos e idéias. No caso de Bete e Roberto, mais cedo ou mais tarde, haverá troca de informações sobre seus sentimentos e idéias, num processo interativo - o que um conta ou faz produz impacto no outro.

188 190 Educação Emocional na Escola Um dia Bete foi estudar na casa de Roberto e o encontrou de mau humor, irritadiço e, logo no início da conversa, ele a tratou de forma áspera. Ele estava com raiva e em vez de entrar na raiva dele, Bete procurou conscientizá-lo do que estava ocorrendo, dizendo-lhe: "Você está sendo ríspido comigo. Isto nunca ocorreu antes. Será que você está com algum problema em casa? Vamos, conte para mim; sou sua amiga e quero lhe ajudar. Desabafe. Vamos juntos encontrar uma solução para o problema." Roberto contou-lhe que teve uma briga com o Pai e que ela poderia ajudá-lo. Foi bom para Bete, que cresceu enquanto pessoa, para Roberto que descarregou suas preocupações e para o relacionamento, que se desenvolveu na base de uma confiança recíproca. Recomendações úteis para o compartilhamento de sentimentos e idéias 42,59 : Sempre você deve vigiar seu estado de espírito. Se você estiver de bom humor poderá perceber melhor o que a outra pessoa diz e controlar melhor suas reações. Se estiver de mau humor, enraivecido, magoado ou ressentido, evite qualquer situação que possa descambar para um atrito 55. Preste atenção ao estado de humor e reações da outra pessoa. Uma avaliação correta da situação lhe orientará para o que deve ser feito. É importante saber a hora de falar e a de ouvir e calar. Se a conversa for desagradável, comunique seu desagrado ao interlocutor. Sabendo que a conversa não é agradável, ele mudará de assunto. Conversar sobre assuntos pessoais contribui para melhor relacionamento entre as pessoas, principalmente a nível de trabalho, graças ao clima de intimidade e confiança que se desenvolve. COMO RELACIONAR-SE BEM Para você relacionar-se bem deve levar em conta a análise do relacionamento e a capacidade para comunicar-se em níveis adequados.

189 Educação Emocional na Escola 191 ANÁLISE DO RELACIONAMENTO A análise de um relacionamento deve considerar questões sobre: (Figura 9-1) Limites do relacionamento Expectativas do relacionamento Como você percebe o interlocutor Como o interlocutor lhe percebe Revisão dos diálogos Resultados do relacionamento LIMITES DA RELAÇÃO Quando nos relacionamos devemos ter em mente que o relacionamento tem um limite, que nunca deve ser ultrapassado, sob pena de influir negativamente na relação ou até mesmo determinar sua extinção. Às vezes, o limite da relação é muito tênue e de difícil demarcação, e, no tocante à outra pessoa, deve ser estabelecido por ela, a depender dela ser reservada ou sociável. As pessoas reservadas não sentem necessidade de muita companhia e de muita conversa. Não gostam de contatar com muitas pessoas ao mesmo tempo. Sentem-se mais à vontade trabalhando sozinhas, no máximo com mais uma ou duas. Trabalham silenciosamente, sem chamar atenção. Introspectivas, gostam de tarefas individuais, são emocionalmente distantes e autoconfiantes. Conversam o necessário para obter informações para a solução de problemas específicos ou atingir determinados objetivos. Estão mais preocupadas com seus pensamentos e sentimentos e concentram-se em questões referentes ao seu trabalho, seus interesses, desejos e planos. Limitam as atividades a seu mundo, por elas criado e no qual gostam de viver, mundo este geralmente de difícil acesso. Gostam de estabelecer limites para outras pessoas e querem a maior privacidade para seus sentimentos, emoções, problemas e vida pessoal. O relacionamento com pessoas reservadas merece cuidado, para não ultrapassar os limites estabelecidos. No caso de Bete e Roberto, antes referido, se ele fosse uma pessoa reservada, ao ser solicitado para desabafar poderia ter respondido:

190 192 Educação Emocional na Escola "Não se preocupe. São problemas que logo passarão. Desculpe se fui grosseiro com você. Não era minha intenção." E mudaria de assunto, afastando a interlocutora de seus problemas. Não adiantaria ela forçar: poderia provocar grande mal estar ou uma reação mais violenta, que dificultaria o relacionamento. As pessoas sociáveis, têm sociabilidade elevada, gostam de interagir com os outros, de companhia e de conversar muito, no trabalho, no divertimento e em casa. Gostam de participar de grupos e integram-se facilmente a eles, sendo estimuladas pela conversa e pela proximidade de outras pessoas. Relacionam-se com facilidade e gostam de "casa cheia", sempre convidando amigos para um bate-papo, almoçar, jantar ou saírem juntos. Detestam estar sozinhas e não estabelecem limites e barreiras para os outros. São abertas em seus sentimentos, emoções e problemas íntimos. No exemplo de Bete e Roberto, ele é sociável e por isto contou a ela, com detalhes, a briga que teve com o Pai e pediu conselhos. O QUE ESPERAR Ao estabelecer um relacionamento devemos ter em mente, o que pretendemos dele, e como definir quais os limites de possibilidade que ele pode nos oferecer. Se não fizermos isto poderemos frustrar nossas expectativas, esperando resultados que ele não pode nos oferecer, levando a decepções, frustrações ou ressentimentos. Sílvio simpatizou muito com sua colega Júlia e fez amizade com ela, iniciando-se um relacionamento prazeroso. Conversavam muito, trocavam confidências e iam para passeios e festas juntos. Com o passar do tempo, Sílvio notou que seus sentimentos estavam mudando e que não era apenas amizade o que sentia - ele passou a amar Júlia, e desenvolveu novas expectativas de relacionamento. Certo dia lhe disse que gostaria de namorar com ela. Júlia respondeu-lhe que gostava dele como amigo, e que não via possibilidade de ter uma relação fora da amizade. Sílvio ficou chocado com a resposta, teve uma decepção muito grande, ficou muito ressentido e deixou de falar com Júlia. Sílvio errou na sua avaliação e desenvolveu expectativas que o relacionamento não poderia oferecer.

191 Educação Emocional na Escola 193 Nossas expectativas devem ser realistas e razoáveis, e não devemos esperar que os outros façam coisas além de suas capacidades ou vontades. Devemos saber exercitar uma das maiores virtudes humanas, a tolerância, que consiste em aceitarmos as limitações e os defeitos das pessoas com as quais convivemos. Faça sempre expectativas razoáveis de seus relacionamentos. Se vai jogar com seu time de futebol, por melhores que sejam seus companheiros, não espere vencer todos os dias. Seja tolerante nos seus relacionamentos pois assim terá um convívio melhor e mais duradouro com as outras pessoas. Se você vai estudar com um colega, com a intenção de que ele lhe ajude, desde o início deve ter em mente que ele não pode saber tudo. Quando pedir para resolver um problema e ele não souber, seja tolerante, não se irrite, nem o ridicularize. Juntos devem pedir ajuda ao professor. A PERCEPÇÃO DO OUTRO E COMO ELE LHE PERCEBE Esforce-se para perceber o outro da forma mais objetiva possível, evitando qualquer forma de preconceito, seja de raça, religião, comportamento sexual ou sexo. Você pode saber como o outro lhe percebe de duas maneiras. Uma, é perguntando diretamente como ele o percebe, outra é analisando as reações que você provoca, através de suas expressões faciais, voz e olhos: de medo, tristeza, raiva, desprezo, ressentimento, alegria, amor, etc. Isto é muito importante para que você possa conduzir adequadamente o relacionamento. LEMBRAR O QUE FOI DITO E FEITO É uma técnica eficiente para sabermos o que se passou efetivamente durante um contato com outra pessoa, principalmente se houve desentendimento. Relembre a conversa, prestando atenção a todos os detalhes, inclusive aos gestos, voz e expressão do outro. É útil, principalmente quando queremos identificar a causa de um problema de relacionamento.

192 194 Educação Emocional na Escola Se você teve um atrito com um colega, que culminou em discussão, por motivos que não estão claros, pode utilizar esta técnica. Recorde todas as cenas desde o início do atrito e procure responder a si mesmo as seguintes perguntas: Será que me comuniquei com clareza? Será que compreendi corretamente o que ele disse? Será que o ofendi sem querer? Será que ele se comunicou com clareza? Será que ele me compreendeu? Será que poderia ter me conduzido de outra maneira? AVALIANDO OS RESULTADOS Quando analisar um relacionamento procure verificar se os resultados obtidos correspondem às suas expectativas. Assim você verá se está no rumo certo e, caso não esteja, o que é necessário fazer para atingir os objetivos. Por exemplo: você contratou um professor de Matemática para lhe dar aulas, visando melhorar para a prova do bimestre. Faça uma avaliação do progresso que está tendo e, se não for bom, responda a si mesmo as seguintes perguntas: Será que estou estudando o suficiente? Será que o professor está sendo claro nas explicações? Será que o tempo de duração da aula é o suficiente? A depender da resposta a cada pergunta, você poderá tomar a medida necessária para atingir as metas desejadas. Se o problema for de pouco estudo, deverá se dedicar mais ao estudo; se o professor não estiver sendo claro, delicadamente, diga-lhe que não está compreendendo as aulas e peça para mudar de método; se a aula estiver sendo muito curta, aumente a duração. Podem existir outros fatores que determinem o baixo aprendizado, mas o importante que você tenha a atenção despertada para a análise da situação, buscando atingir o resultado esperado.

193 Educação Emocional na Escola 195

194 196 Educação Emocional na Escola OS NÍVEIS DE COMUNICAÇÃO Quando duas pessoas se relacionam a profundidade da relação depende do vínculo, da ligação, existente entre elas. Para que exista este vínculo, é preciso que as pessoas utilizem os mesmos níveis de comunicação, ficando afinadas entre si, em sincronia e à vontade para compartilhar seus pensamentos, sentimentos e idéias. Há cinco níveis de comunicação em um relacionamento: (fig. 9-2): Nível das trivialidades Nível de informação de fatos Nível de pensamentos e idéias Nível dos sentimentos Nível culminante NÍVEL DE INFORMAÇÕES DE FATO Quando duas pessoas se comunicam neste nível, querem transmitir informações sobre fatos que ocorreram ou estão para ocorrer. É o caso de um professor dando aula, cuja intenção é transmitir orientação para seus alunos; da supervisora dando um aviso sobre as provas do próximo bimestre. De uma troca de opiniões sobre um filme visto recentemente, de comentários sobre a prova de português, sobre o último jogo de futebol, sobre uma briga que teve em casa, a natureza dos assuntos tratados varia desde os mais simples até os mais sérios e complexos. NÍVEL DAS TRIVIALIDADES É o nível básico de comunicação, sendo utilizado na comunicação rápida, em cumprimentos e saudações. Ocorre quando você encontra um colega no pátio da escola e diz: "Como vai? Tudo bem? Tudo certo?" Serve apenas para mostrar que viu seu colega, que notou sua presença. É um vínculo extremamente frágil, e devemos estar muito atento quando ele ocorre, pois geralmente indica que a outra pessoa está apressada ou que não tem maior interesse em estabelecer um nível mais profundo de comunicação no momento.

195 Educação Emocional na Escola 197 Se seu interlocutor se comunica neste nível, não trate de nenhum assunto que exija mais atenção dele, pois ele se esquivará, e isto poderá criar constrangimento. O que você deve fazer é combinar outra hora para conversarem, dizendo-lhe, por exemplo: "Depois lhe telefono para conversarmos". No nível de trivialidades, preste atenção aos indicadores de emoção da outra pessoa, e não somente às suas palavras. Atente para seu tom de voz, sua linguagem corporal, seu modo de andar, se apressado (indicando estresse) ou lento e encurvado (indicando depressão). Repare em sua expressão facial (que pode indicar medo, tristeza, alegria, raiva, depressão, etc.). Lembre-se que sentimentos e emoções são expressos por palavras e, também, pelas atitudes e gestos das pessoas. Fique atento para isto. Dê uma troca de opiniões sobre um filme visto recentemente, de comentários sobre a prova de português, sobre o último jogo de futebol, sobre uma briga que teve em casa. A natureza dos assuntos tratados varia desde os mais simples até os mais sérios e complexos. NÍVEL DE PENSAMENTOS E IDÉIAS Neste nível, em vez de situações concretas, procuramos comunicar pensamentos e idéias, e utilizamos afirmações que começam com frases do tipo: "Eu penso...", "Seria uma boa idéia se...", "Eu acho que...". É o caso de uma reunião da turma para escolher o nome do jornal que vai ser editado, oportunidade em que serão pedidas sugestões aos presentes, você se levanta e diz: "Eu acho que deve ser Informativo Águia". Outro colega diz: "Eu penso que deve ser Águia News" Ocorre quando você expressa para um colega sua opinião sobre qualquer coisa: "Eu acho que aquela gata é um avião". E assim por diante.

196 198 Educação Emocional na Escola Quando você estiver se comunicando neste nível e tiver pensamento diferente do seu interlocutor, apresente sua discordância de forma elegante, e nunca de modo arrogante e presunçoso, querendo ser o "dono da verdade". O outro poderá sentir-se magoado, desistir de continuar a conversa e nunca mais dar idéias. Sempre devemos ouvir as opiniões dos outros sobre nós mesmos. Só conseguimos ver o mundo através de nossos filtros da realidade, podendo ter uma visão distorcida dela, inclusive porque não enxergamos a maioria de nossos defeitos. Isto não quer dizer que devemos fazer aquilo que os outros querem, mas que devemos tomar decisões levando em consideração as opiniões das pessoas com quem convivemos. NÍVEL DOS SENTIMENTOS A comunicação a nível dos sentimentos permite que sejam compartilhados nossos sentimentos com outras pessoas. Isto às vezes é difícil, pois não estamos acostumados a expressar nossos sentimentos, inclusive porque podemos nos sentir vulneráveis aos outros, ao confiar-lhes nossos segredos. A comunicação de nossos sentimentos ao interlocutor cria condições para que ele revele os seus e aumenta a ligação com ele. Às vezes, após algumas confidências, o relacionamento se torna muito mais íntimo e são ditas muitas coisas em confiança, fortalecendo a relação e o vínculo entre as pessoas.

197 Educação Emocional na Escola 199

198 200 Educação Emocional na Escola A comunicação a nível dos sentimentos geralmente implica em afirmações do tipo: "Eu sinto...", "Eu fico emocionado quando..." NÍVEL CULMINANTE É o nível máximo de relacionamento e envolve todos os níveis vistos anteriormente: de trivialidades, informações de fatos, pensamentos, idéias e sentimentos. Neste nível as pessoas que se relacionam estão em perfeita sincronia, afinados e com grande ligação, e a comunicação flui naturalmente, sem interrupções ou constrangimentos. Ocorre quando você se senta para conversar com um amigo e, depois de cumprimentá-lo, comenta sobre o tempo (nível trivial), e fala sobre os últimos acontecimentos de suas vidas (nível de informações sobre fatos). Depois trocam opiniões sobre coisas que ocorreram recentemente (nível de pensamentos e idéias) e terminam trocando confidências sobre o que sentem a respeito de suas namoradas, já no nível de sentimentos. Este é o mais alto nível de comunicação que pode ser atingido num relacionamento, e nem todas as pessoas o conseguem com facilidade, seja na escola, seja nos relacionamentos pessoais. Por ser o mais produtivo, devemos sempre nos esforçar para atingi-lo. RELACIONANDO-SE NOS MESMOS NÍVEIS Em seus relacionamentos deve existir uma preocupação para que a comunicação se estabeleça em um mesmo nível: se seu interlocutor estiver no nível trivial, você deve se manter neste nível. Se alguém passar na rua por você, passo acelerado, estressado e lhe disser apressadamente "Bom dia, tudo bem?" Você não deve tentar parar a pessoa para conversar ou pedir sua opinião sobre qualquer assunto. Deve responder simplesmente:

199 Educação Emocional na Escola 201 "Tudo bem e com você?" Se uma pessoa estiver no nível de informações sobre fatos e a outra estiver no nível de pensamentos e idéias, a comunicação não progredirá. Se a supervisora vai dar um aviso na sala sobre o horário das provas finais, no nível de informações fatuais, não cabe alguém interromper dizendo, no nível de opiniões, "Eu acho que não devia ter prova dia de Sábado", pois ela está dando informação de um fato e não pedindo opiniões para um planejamento. Em qualquer relacionamento, na escola, em casa, nas relações sociais, devemos ter em mente que quando as pessoas se comunicam em diferentes níveis, é difícil uma comunicação coerente, pois enquanto uma fala de uma coisa, a outra fala de outra, nenhum vínculo poderá ser estabelecido. Procure sempre identificar o nível de comunicação em que você está e o de seu interlocutor e procure adaptar seu nível ao dele, passando de um nível para outro, se necessário. Atente para todos os sinais de comportamento do interlocutor, pois suas palavras podem dizer uma coisa e o tom de voz indicar outra. A pessoa pode dizer que está satisfeita com uma coisa porém sua voz denunciar raiva, traindo-a. Se você não prestar atenção na sua voz e na sua expressão facial, não perceberá realmente o que está ocorrendo. É útil falar com as pessoas olhando diretamente em seus olhos e analisando sua expressão facial. Fazendo isto você atuará no sentido de que seus relacionamentos interpessoais sejam mais produtivos. Você deve mudar de nível de comunicação nas seguintes situações: Quando o interlocutor estiver muito zangado, passe para o nível de fatos, pois ele não consegue raciocinar. Se não conseguir, deixe para conversar com ele depois, pois se insistir você corre o risco de perder o controle também. Mude para o nível de idéias e sentimentos autênticos quando quiser despertar a confiança de seu interlocutor, principalmente quando estiver mediando um conflito ou na busca de consenso. Mude para o nível fatual ou de pensamentos quando estiver fazendo resolução de problemas. Fique no nível das trivialidades toda vez que não estiver preparado para passar para um nível mais profundo de comunicação. Procure sempre ficar no nível de comunicação da outra pessoa.

200 202 Educação Emocional na Escola COMO RELACIONAR-SE COM PESSOA RESERVADA Para relacionar-se bem com uma pessoa reservada, fazendo-a sentir-se à vontade e evitar conflitos, você deve respeitar seu modo de ser, introspectivo e calado, voltado para seu mundo interior. Eis algumas dicas (fig. 9-3): Quando for tratar de um assunto vá direto a ele e não demore muito conversando. Trate exclusivamente do assunto que motivou o contato e fale apenas o necessário. Se não for solicitado por seu interlocutor, não trate da sua vida pessoal, nem aborde seus sentimentos mais profundos. Respeite a necessidade da pessoa reservada dispor de tempo para si mesma, permitindo que ela fique solitária, sem incomodá-la. Nunca force a pessoa reservada para desenvolver atividades que incluam muitas pessoas ao mesmo tempo. Quando perceber que alguém é do tipo reservado, tome a iniciativa de iniciar a conversação, sem entretanto forçá-lo a conversar quando não desejar. Respeite sua posição de não querer perder tempo com conversas inúteis e evite pedir que ela atenda ao público ou entretenha aos outros.

201 Educação Emocional na Escola 203

202 204 Educação Emocional na Escola C O M O R E L A C I O N A R - S E C O M PESSOA SOCIÁVEL Para relacionar-se bem com uma pessoa sociável, que gosta de companhia e de conversar muito, respeite seu modo de ser, extrospectivo e voltado para o mundo exterior (fig. 9-4). Eis algumas dicas: Dê muita atenção à sua conversa e passe algum tempo conversando com ela. Sempre que possível, inclua na conversação e nas atividades outras pessoas, pois elas gostam muito da interação grupal e da proximidade de outros. Expresse por sua capacidade de relacionar-se bem com os outros. Procure colocá-la em contato com outras pessoas sociáveis. COMO RELACIONAR-SE COM PESSOA DE AUTO-ESTIMA BAIXA Auto-estima é a tendência que a pessoa tem para aceitar-se e dar valor a si mesma 66. Existem pessoas que têm auto-estima baixa, em decorrência de não terem recebido amor e afeto adequados dos seus pais e de sua família ou por terem se desenvolvido em um ambiente com muitas críticas e comentários negativos sobre elas, constantemente. A pessoa que tem baixa auto-estima pode ser identificada porque se sente ofendida e magoada com facilidade diante de rejeição ou à crítica. Como ela dá pouco valor a si mesma, é modesta e se sente inferior aos outros, e deve merecer atenção especial em nossos relacionamentos, pois se ressente com muita facilidade. Orientações úteis para relacionamento com uma pessoa de baixa auto-estima (fig. 9-5): Sempre que possível, diga que ela tem valor e enalteça suas qualidades e seus comportamentos.

203 Educação Emocional na Escola 205

204 206 Educação Emocional na Escola Os elogios devem ser discretos para que ela não fique chocada ou deixe de acreditar neles, pois tais pessoas sentem-se pouco à vontade diante de elogios. Por exemplo, se você sabe que um colega tem auto-estima baixa e tirou uma nota 9 em uma prova, sem fazer alarde, deve elogiá-lo e parabenizá-lo pelo sucesso, pois isto será importante para ele. Não faça críticas que possam atingi-la diretamente. Quando precisar fazer críticas, faça-as de modo respeitoso, sem feri-la e deixando claro que está criticando seu ato ou seu comportamento e não sua pessoa. No seu relacionamento com ela procure ser modesto e usar humildade, em vez de arrogância e prepotência, porque ela se sente inferior aos outros. Evite em seu relacionamento que suas ações sejam mal interpretadas como rejeição ou crítica.

205 Educação Emocional na Escola 207

O desenvolvimento infantil de 0 a 6 e a vida pré-escolar ~ 1 ~

O desenvolvimento infantil de 0 a 6 e a vida pré-escolar ~ 1 ~ O desenvolvimento infantil de 0 a 6 e a vida pré-escolar ~ 1 ~ Wagner Luiz Garcia Teodoro ~ 2 ~ O desenvolvimento infantil de 0 a 6 e a vida pré-escolar PREFÁCIO 7 CAPÍTULO I: INSTITUIÇÃO E EDUCAÇÃO 1.1)

Leia mais

O STRESS ESTÁ DENTRO DE VOCÊ

O STRESS ESTÁ DENTRO DE VOCÊ O STRESS ESTÁ DENTRO DE VOCÊ O STRESS ESTÁ DENTRO DE VOCÊ Dra. Marilda Lipp (Org.) Copyright 1999 Marilda Emmanuel Novaes Lipp Coordenação editorial: Daisy Barretta Revisão: Isabel Menezes Ana Luiza França

Leia mais

MOTIVAÇÃO NAS AULAS DE EDUCAÇÃO FÍSICA: UM ENFOQUE NO ENSINO MÉDIO Fabiana Franchin 1 Selva Maria G. Barreto (O) 2 INTRODUÇÃO

MOTIVAÇÃO NAS AULAS DE EDUCAÇÃO FÍSICA: UM ENFOQUE NO ENSINO MÉDIO Fabiana Franchin 1 Selva Maria G. Barreto (O) 2 INTRODUÇÃO MOTIVAÇÃO NAS AULAS DE EDUCAÇÃO FÍSICA: UM ENFOQUE NO ENSINO MÉDIO Fabiana Franchin 1 Selva Maria G. Barreto (O) 2 1 INTRODUÇÃO Enquanto aluna do curso de pós-graduação em Educação Física Escolar e atuando

Leia mais

Viagem ao Mundo do Empreendedorismo

Viagem ao Mundo do Empreendedorismo Viagem ao Mundo do Empreendedorismo 2 Rita de Cássia da Costa Malheiros Luiz Alberto Ferla Cristiano J.C. de Almeida Cunha Viagem ao Mundo do Empreendedorismo FLORIANÓPOLIS - BRASIL - 2005 3 REDAÇÃO Rita

Leia mais

OS SETE HÁBITOS DAS PESSOAS MUITO EFICAZES Stephen R. Covey

OS SETE HÁBITOS DAS PESSOAS MUITO EFICAZES Stephen R. Covey OS SETE HÁBITOS DAS PESSOAS MUITO EFICAZES Stephen R. Covey 1 2 Vencer é um hábito. Assim como fracassar. Isso explica a obsessão de Stephen R. Covey, consultor empresarial e escritor de sucesso, com os

Leia mais

Ficha de Leitura do Livro O Adolescente Por Ele Mesmo. ZAGURY, Tania O adolescente por ele mesmo Rio de Janeiro: Record. 1996

Ficha de Leitura do Livro O Adolescente Por Ele Mesmo. ZAGURY, Tania O adolescente por ele mesmo Rio de Janeiro: Record. 1996 Ficha de Leitura do Livro O Adolescente Por Ele Mesmo ZAGURY, Tania O adolescente por ele mesmo Rio de Janeiro: Record. 1996 Pag 16 Introdução [...] Lá pelos oito, nove anos até mais ou menos onze ou doze,

Leia mais

EDUCAÇÃO FÍSICA ESCOLAR: DESENVOLVENDO CONHECIMENTO SOBRE O CORPO

EDUCAÇÃO FÍSICA ESCOLAR: DESENVOLVENDO CONHECIMENTO SOBRE O CORPO EDUCAÇÃO FÍSICA ESCOLAR: DESENVOLVENDO CONHECIMENTO SOBRE O CORPO Flaviane da Silva Mendes 1 Paula Hentschel Lobo da Costa (O) 2 I. INTRODUÇÃO Vivendo a realidade de uma professora de Educação Física,

Leia mais

A Programação Neurolongüística e o Sucesso nos Negócios

A Programação Neurolongüística e o Sucesso nos Negócios A Programação Neurolongüística e o Sucesso nos Negócios A diferença que faz a diferença Sue Knight Tradução Ana Beatriz Rodrigues e Priscila Martins Celeste Ediouro O que é PNL? Programação Neurolingüística

Leia mais

Mensagem. Escotistas em ação - Ramo Sênior

Mensagem. Escotistas em ação - Ramo Sênior Escotistas em ação - Ramo Sênior Este é um documento oficial da UEB União dos Escoteiros do Brasil para escotistas do Ramo Sênior, conforme sistema aprovado pelo CAN Conselho de Administração Nacional,

Leia mais

CICLO DE DISCUSSÕES SOBRE AS CONCEPÇÕES DE APRENDIZAGEM: INTERNALIZANDO NOVOS SABERES

CICLO DE DISCUSSÕES SOBRE AS CONCEPÇÕES DE APRENDIZAGEM: INTERNALIZANDO NOVOS SABERES CICLO DE DISCUSSÕES SOBRE AS CONCEPÇÕES DE APRENDIZAGEM: INTERNALIZANDO NOVOS SABERES Carolina da Cruz Jorge de Oliveira FURG CAPES Resumo O presente artigo apresenta os resultados de um ciclo de discussões

Leia mais

UNIVERSIDADE FEDERAL DO RIO GRANDE DO SUL FACULDADE DE EDUCAÇÃO LICENCIATURA EM PEDAGOGIA LISIANE CHIARADIA

UNIVERSIDADE FEDERAL DO RIO GRANDE DO SUL FACULDADE DE EDUCAÇÃO LICENCIATURA EM PEDAGOGIA LISIANE CHIARADIA UNIVERSIDADE FEDERAL DO RIO GRANDE DO SUL FACULDADE DE EDUCAÇÃO LICENCIATURA EM PEDAGOGIA LISIANE CHIARADIA FAZ-DE-CONTA NA EDUCAÇÃO INFANTIL: PREVENÇÃO DE DIFICULDADES E PROMOÇÃO DE APRENDIZAGENS. PORTO

Leia mais

A importância socioeconômica das características de Personalidade Daniel D. Santos

A importância socioeconômica das características de Personalidade Daniel D. Santos A importância socioeconômica das características de Personalidade Daniel D. Santos 1. Introdução Resumo Neste artigo discute-se o papel desempenhado por atributos de personalidade (em geral denominados

Leia mais

docente na Educação Infantil. 1 Agradeço a leitura e as sugestões dos professores da Universidade Federal de Minas Gerais Isabel de

docente na Educação Infantil. 1 Agradeço a leitura e as sugestões dos professores da Universidade Federal de Minas Gerais Isabel de Relações entre crianças e adultos na Educação Infantil Iza Rodrigues da Luz 1 Universidade Federal de Minas Gerais/ Núcleo de Estudos e Pesquisas sobre a Infância e a Educação Infantil izaluz@yahoo.com.br

Leia mais

Você sabe (mesmo) ler?

Você sabe (mesmo) ler? Ana Maria Mendez González Você sabe (mesmo) ler? Leitura, o sutil mundo das palavras Edições Anagon Junho 2007 Copyright de Ana Maria Mendez González Primeira edição: julho 2007 Você sabe (mesmo) ler?

Leia mais

O ENSINO DA LÍNGUA PORTUGUESA NAS ESCOLAS PÚBLICAS Celia Araújo Oliveira 1 Stânia Nágila Vasconcelos Carneiro 2 Ana Sandrilá Mandes Vasoncelos 3

O ENSINO DA LÍNGUA PORTUGUESA NAS ESCOLAS PÚBLICAS Celia Araújo Oliveira 1 Stânia Nágila Vasconcelos Carneiro 2 Ana Sandrilá Mandes Vasoncelos 3 O ENSINO DA LÍNGUA PORTUGUESA NAS ESCOLAS PÚBLICAS Celia Araújo Oliveira 1 Stânia Nágila Vasconcelos Carneiro 2 Ana Sandrilá Mandes Vasoncelos 3 Resumo No presente artigo busquei discutir o ensino da Língua

Leia mais

O PARADIGMA EDUCACIONAL EMERGENTE

O PARADIGMA EDUCACIONAL EMERGENTE O PARADIGMA EDUCACIONAL EMERGENTE Maria Cândida Moraes 1 PUC/SP/Brasil Depois de mais de 20 anos participando de processos de planejamento e de coordenação de políticas públicas relacionadas ao uso das

Leia mais

AUTO-ESTIMA: Como aprender a gostar de si mesmo Nathaniel Branden

AUTO-ESTIMA: Como aprender a gostar de si mesmo Nathaniel Branden AUTO-ESTIMA: Como aprender a gostar de si mesmo Nathaniel Branden Capítulo 1 A importância da auto-estima A forma como nos sentimos acerca de nós mesmos é algo que afeta crucialmente todos os aspectos

Leia mais

O AUTISMO E O PROFESSOR: UM SABER QUE

O AUTISMO E O PROFESSOR: UM SABER QUE UNIVERSIDADE ESTADUAL PAULISTA JÚLIO DE MESQUITA FILHO Faculdade de Ciências Campus de Bauru VIVIANE CINTRA FELICIO O AUTISMO E O PROFESSOR: UM SABER QUE PODE AJUDAR BAURU 2007 1 UNIVERSIDADE ESTADUAL

Leia mais

PSICOLOGIA DA EDUCAÇÃO

PSICOLOGIA DA EDUCAÇÃO PSICOLOGIA DA EDUCAÇÃO 1 Psicologia da Educação SOMESB Sociedade Mantenedora de Educação Superior da Bahia S/C Ltda. Presidente Vice-Presidente Superintendente Administrativo e Financeiro Superintendente

Leia mais

COM QUE CONTINGÊNCIAS O TERAPEUTA TRABALHA EM SUA ATUAÇÃO CLÍNICA? HÉLIO JOSÉ GUILHARDI 1 Instituto de Análise de Comportamento Campinas - SP

COM QUE CONTINGÊNCIAS O TERAPEUTA TRABALHA EM SUA ATUAÇÃO CLÍNICA? HÉLIO JOSÉ GUILHARDI 1 Instituto de Análise de Comportamento Campinas - SP COM QUE CONTINGÊNCIAS O TERAPEUTA TRABALHA EM SUA ATUAÇÃO CLÍNICA? HÉLIO JOSÉ GUILHARDI 1 Instituto de Análise de Comportamento Campinas - SP Ao tentar responder a questão título desta apresentação tem-se

Leia mais

QUALIDADE DE VIDA NO TRABALHO X AUTO- REALIZAÇÃO HUMANA

QUALIDADE DE VIDA NO TRABALHO X AUTO- REALIZAÇÃO HUMANA ICPG Instituto Catarinense de Pós-Graduação www.icpg.com.br 1 QUALIDADE DE VIDA NO TRABALHO X AUTO- REALIZAÇÃO HUMANA Silvinha Moretti Instituto Catarinense de Pós-Graduação ICPG Gestão Estratégica de

Leia mais

Que público é esse? formação de públicos de museus e centros culturais

Que público é esse? formação de públicos de museus e centros culturais Que público é esse? formação de públicos de museus e centros culturais Que público é esse? formação de públicos de museus e centros culturais Luciana Conrado Martins (Org.) Ana Maria Navas Djana Contier

Leia mais

A importância do Jogo no desenvolvimento da Criança

A importância do Jogo no desenvolvimento da Criança Isabel Maria da Costa Baranita A importância do Jogo no desenvolvimento da Criança Escola Superior de Educação Almeida Garrett Orientadora Científica: Professora Doutora Ana Saldanha Lisboa, 2012 1. Isabel

Leia mais

O LÍDER E SUA INFLUÊNCIA NA MOTIVAÇÃO DA EQUIPE. Clélia Maria Diniz Carvalho Souza

O LÍDER E SUA INFLUÊNCIA NA MOTIVAÇÃO DA EQUIPE. Clélia Maria Diniz Carvalho Souza 1 O LÍDER E SUA INFLUÊNCIA NA MOTIVAÇÃO DA EQUIPE Clélia Maria Diniz Carvalho Souza 2 UNIVERSIDADE CATÓLICA DE PERNAMBUCO LIBERTAS CONSULTORIA E TREINAMENTO CENTRO DE PESQUISA E PÓS-GRADUAÇÃO CURSO DE

Leia mais

SOFTWARE EDUCACIONAL: A IMPORTÂNCIA DE SUA AVALIAÇÃO E DO SEU USO NAS SALAS DE AULA

SOFTWARE EDUCACIONAL: A IMPORTÂNCIA DE SUA AVALIAÇÃO E DO SEU USO NAS SALAS DE AULA FACULDADE LOURENÇO FILHO ROMMEL XENOFONTE TELES DE MORAIS SOFTWARE EDUCACIONAL: A IMPORTÂNCIA DE SUA AVALIAÇÃO E DO SEU USO NAS SALAS DE AULA FORTALEZA 2003 1 ROMMEL XENOFONTE TELES DE MORAIS SOFTWARE

Leia mais

COMPETÊNCIAS PARA A VIDA

COMPETÊNCIAS PARA A VIDA COMPETÊNCIAS PARA A VIDA Trilhando Caminhos de Cidadania Este material é seu. Use sem moderação. Brasília, julho de 2012. 2 Expediente Realização: Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF) Gary

Leia mais

ADOLESCENTE, MAS DE PASSAGEM (Um ensaio espírita sobre a adolescência e a juventude) Paulo R. Santos

ADOLESCENTE, MAS DE PASSAGEM (Um ensaio espírita sobre a adolescência e a juventude) Paulo R. Santos ADOLESCENTE, MAS DE PASSAGEM (Um ensaio espírita sobre a adolescência e a juventude) Paulo R. Santos Este livro é dedicado aos jovens espíritas. Que sirva como elemento incentivador da vida moral sadia

Leia mais

DESENVOLVIMENTO DA LINGUAGEM NA EDUCAÇÃO INFANTIL

DESENVOLVIMENTO DA LINGUAGEM NA EDUCAÇÃO INFANTIL UNIVERSIDADE CANDIDO MENDES PRÓ-DIRETORIA DE PLANEJAMENTO E DESENVOLVIMENTO DIRETORIA DE PROJETOS ESPECIAIS PROJETO A VEZ DO MESTRE DESENVOLVIMENTO DA LINGUAGEM NA EDUCAÇÃO INFANTIL POR: SÔNIA MARIA SANTANA

Leia mais

Mentes Perigosas - O psicopata mora ao lado. Ana Beatriz Barbosa Silva

Mentes Perigosas - O psicopata mora ao lado. Ana Beatriz Barbosa Silva Livro: Mentes Perigosas - O Psicopata Mora ao Lado Autora: Ana Beatriz Barbosa Silva Editora: FONTANAR Gênero: Psiquiatria/Psicologia Páginas: 213 Numeração de páginas: rodapé Edição: 1 Acabamento: Brochura

Leia mais