Razões de um liberal para o Não ao aborto Rodrigo Adão da Fonseca Publicado na Revista Atlântico (Número 21 * Dezembro, 2006)

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1 Razões de um liberal para o Não ao aborto Rodrigo Adão da Fonseca Publicado na Revista Atlântico (Número 21 * Dezembro, 2006) No início do próximo ano, os portugueses vão ser novamente chamados a pronunciar-se em referendo sobre a legalização do aborto ou, se preferirem, sobre a despenalização da interrupção voluntária da gravidez, se realizada, por opção da mulher, nas primeiras dez semanas, em estabelecimento de saúde legalmente autorizado. Desafiou-me a Atlântico a apresentar aqui as razões que me levarão a votar Não, repto que aceitei de imediato. Ainda este texto está numa fase embrionária, próxima do momento da concepção e já certamente pela cabeça de muitos leitores terão passado, talvez até sem notarem, dezenas de conjecturas sobre as raízes do meu Não. Para alguns, estarei com o meu voto a violar a esfera de liberdade e autonomia da mãe, dona do seu corpo. Para outros, mais empolgados, serei um dogmático apriorista, inimigo do progresso, enredado no preconceito religioso. Haverá ainda quem, com desdém, me questione retoricamente, pois claro como é que, longe de viver uma vida asséptica ou monástica como seria do apreço da Santa Madre Igreja, me disponho a negar à mulher o direito de se libertar dos condicionalismos da natureza rumo a uma sexualidade mais aprazível, equivalente à masculina. Outros apontar-me-ão uma suposta responsabilidade por estar a condenar à pobreza centenas de adolescentes, forçadas a abandonar a escola e a crescer precocemente, marcadas por um erro infantil, inimputáveis, já que induzidas por uma sociedade em que sex is in the air, onde a volúpia do sexo se mistura no ar com o oxigénio que respiramos. No limite, serei cúmplice da morte, pois o meu Não poderá empurrar para o flagelo do aborto clandestino milhares de mulheres. Já no quadrante diametralmente oposto, haverá quem se regozije com a minha posição, vendo nela, entre dezenas de outras razões, uma apologia da vida, que merece a tutela jurídica desde o momento da concepção. 1

2 Retrato de um debate A discussão do aborto surge no espaço público condicionado por este cocktail explosivo, onde convergem ou, se quiserem, divergem uma infinidade de dados do real, posições influenciadas pelas mais distintas percepções e experiências de vida. A reboque do referendo somos literalmente bombardeados na televisão, nos jornais, na blogosfera ou na caixa de correio electrónico com relatos marcantes, pareceres de especialistas e, obviamente, dezenas de rigorosas estatísticas: vidas proletárias rodeadas de pobreza, de sacrifício, histórias de parteiras de vão de escada, mulheres que sofrem danos físicos e morais irreversíveis, parceiros que esquecem o seu papel e as encurralam na decisão. A penalização do aborto é ainda apresentada como uma desqualificação socioeconómica, ou até como uma forma de opressão dos ricos contra os pobres, já que uns, graças a um certo desafogo económico, se deslocam a clínicas sofisticadas, em Portugal ou no estrangeiro, enquanto os mais pobres ficam à mercê da carnificina e das parteiras clandestinas. Reclama-se, pois, a suprema redenção da prestação estatal, para equilibrar privilégios: são-nos arremessadas estatísticas demolidoras sobre o flagelo do aborto clandestino, a prática sexual adolescente, ou a suposta ignorância dos portugueses acerca da contracepção. Descrevem-se com pormenor mazelas infligidas às mulheres, outros procuram exorcizar fantasmas do passado, teorizando soluções que lhes permitam acalmar as suas consciências e desassossegos. Em sentido inverso, são-nos oferecidos casos de vida, mães que encontram nos filhos deficientes a felicidade dos seus, casais que nos explicam como a decisão de dar à luz foi o motivo de alegria e união; famílias numerosas em que todos abdicam um pouco, mas onde não falta aquilo que se perdeu em muitos agregados de filho único ; médicos e enfermeiros que durante anos praticaram abortos, mas que um dia nos decidiram descrever a faceta mais negra deste lado tão escuro da existência humana. Nesta tentativa de encontrar a verdade nos factos e no real discute-se, ainda, onde começa a vida: será que ela se inicia no momento da concepção, quando o embrião adquire uma fisionomia próxima da humana, ou apenas quando se detecta actividade cerebral? E o coração, quando é que bate? O 2

3 senhor já viu uma ecografia às oito semanas? Sabe quando é que se forma o sistema nervoso central? No ponto em que tudo começa a ser ininteligível, e já só a Fátima Campos Ferreira é capaz de fazer o balanço entre tanto argumento Pró e Contra, no preciso momento em que apenas os cientistas muito cientistas conseguem explicar a natureza biológica do embrião, surge sempre alguém que, para superar todo este caldo de contracultura, lança a verdadeira e derradeira questão, de índole, dizem, filosófica, minando definitivamente o debate: o importante não é determinar onde começa a vida, mas sim quando é que o embrião adquire o estatuto de pessoa. Com esta caricatura, não se pretende desprezar nenhum dos argumentos acima apresentados, sejam eles verdadeiros ou compreensivelmente fantasiosos. No debate sobre o aborto, a discussão dos factos e o seu enquadramento desempenham um importante papel. Não faz sentido tomar decisões sem que tenhamos uma aderência sólida ao real. Gostaria ainda de deixar claro se alguém tiver dúvidas quanto a isso ser sensível aos inúmeros casos de adolescentes, oriundas de famílias pobres, que escondem de seus pais gravidezes indesejadas, que certamente as vão marcar para o resto da vida. Dói a alma quando se vê o que é a vida difícil e sacrificada de muitas mulheres do norte, que trabalham como mão-de-obra intensiva em linhas de produção fabril, para quem cada nova gravidez significa mais um degrau que descem rumo a uma pobreza endémica. Ninguém fica igualmente indiferente quando constata como muitas pessoas conseguiram encontrar força interior ou apoios de terceiros que lhes permitiram ultrapassar os momentos de adversidade. Só que, por mais que estes casos nos toquem, e apelem ao nosso lado mais humano, todos os sentimentos que nos possam inspirar em nada solucionam a desgraça destas vidas. Ao optar pelo Sim, muitos cidadãos acreditam que com o seu voto ajudam a resolver o drama das adolescentes grávidas; que se trava o ciclo de pobreza de uma parte significativa da nossa população; que por esta via milhares de mulheres deixarão de sentir as mazelas físicas e psíquicas associadas ao acto abortivo; no fundo, que com um simples Sim, se minimizam os cancros sociais que o aborto sintetiza. Não é essa, porém, a minha percepção. 3

4 Seja em relação ao aborto, seja no que diz respeito a inúmeras outras situações, julgo não fazer sentido deduzir as leis a partir de sínteses e análises comparativas dos dados do real. O comportamento humano é interdependente, e o legislador-sociólogo, em geral, está condenado ao fracasso. Por um lado, porque as civilizações evoluem ou regridem em função da força ou fraqueza das ideias incorporadas nos seus diversos tecidos sociais. São as ideias quando efectivamente vividas a fonte da riqueza e do bem-estar; ou a causa da pobreza e da miséria humana. Por outro lado porque, em rigor, e para lá dos inúmeros factos, muitas vezes apresentados sem grande avaliação ou análise, subsistem distintas concepções sobre a existência, a vida e a morte, o indivíduo e a relação que mantém com o seu corpo, e as mais variadas asserções acerca da liberdade e da alma. Neste plano deve ser lido o posicionamento de muitas pessoas que, em relação à generalidade das matérias, cuidam bem do plano dos princípios, mas que no que diz respeito ao aborto preferem aparentemente render-se e fundamentar-se apenas na leitura da realidade. Liberdade e responsabilidade individual ou simples arbítrio da vontade? A actual lei assenta em três pilares, que surgem conciliados entre si, representando um compromisso equilibrado entre a (1) protecção da vida e a salvaguarda da (2) responsabilidade e da (3) vontade. Ao contrário daquilo que é veiculado com frequência, ela não traduz stricto sensu uma visão religiosa. Tal não significa que a actual lei não mereça uma boa aderência por parte da Igreja, na medida em que tem como núcleo central a protecção da vida, moderada pela responsabilidade individual. Agora, existem aspectos na actual lei que dificilmente encontram acolhimento na moral cristã, pois se atendêssemos unicamente à defesa da vida, ficariam certamente de fora a interrupção de uma gravidez em caso de violação ou quando aquela ponha em perigo a saúde psíquica da mãe. Entendeu o legislador porém, que nestas circunstâncias não poderia impor-se à mulher uma gravidez que não resultou de um acto de vontade, do seu assentimento pleno e consciente. 4

5 O que nos perguntam, porém, no referendo é algo totalmente distinto: Concorda com a despenalização da interrupção voluntária da gravidez, se realizada, por opção da mulher, nas primeiras dez semanas, em estabelecimento de saúde legalmente autorizado? A pergunta induz o cidadão na ideia que a despenalização e a realização do acto abortivo em estabelecimento de saúde legalmente autorizado irá minimizar o flagelo do aborto, wishful thinking do legislador-sociólogo que faz fé na sua capacidade redentora e ignora a interdependência do comportamento humano, a tendência que este tem para se acomodar ao desvalor que se pretende agora reflectir no nosso ordenamento jurídico. O que se pergunta, em rigor, é se estamos disponíveis para aceitar que, rompendo com o equilíbrio existente na lei em vigor, a simples vontade passe a ter um valor superior à protecção da vida e à responsabilidade do indivíduo pelos seus actos. Ao votar Sim, apenas estaria a contribuir para que a sociedade em que vivo aceite orientar-se por um sentido menor de exigência e responsabilidade, permitindo que os simples actos de vontade se sobreponham a algo que até hoje sempre foi considerado indisponível, o direito à vida. Se vingar o Sim, não haverá menos aborto, menos pobreza, menos drama, menos dor ou sacrifício. Estaremos apenas a aceitar o aborto como saída, legalmente promovida e, portanto, socialmente relativizada, praticada, entretanto, nas frias paredes de um hospital ou de uma clínica que uma certa retórica política eufemisticamente apelida de estabelecimento legalmente autorizado. Pergunto-me, porém, que custos poderemos ter de pagar no futuro. Ao aceitarmos ser legalmente admissível que o aborto dependa apenas de um acto de vontade, a prazo, acabará por diminuir a censura sobre algo que, neste momento, é considerado pelos partidários do Não e por muitos dos defensores do Sim da maior violência. Ao fazê-lo, estaremos a abrir uma porta para que mais jovens e adultos pratiquem uma sexualidade de risco, que potencialmente conduzirá a mais gravidezes indesejadas e a uma maior exposição a doenças sexualmente transmissíveis. 5

6 O voto no Sim tem, também, raízes dogmáticas bem profundas, não resultando apenas de uma suposta preocupação com as incidências da realidade. Na verdade, durante mais de um século ganharam terreno no mundo ocidental correntes de pensamento que pretendem colocar o corpo na condição até aí destinada à razão, que vêem na nossa existência física a mais relevante fonte de conhecimento. Nietzsche, v.g., o principal inspirador do pós-modernismo, faz a apologia do homem grego, dionisíaco, que considera estar no nosso tempo amordaçado pelos herdeiros do pensamento socrático e platónico, cujos ditames encarceram a vontade nos limites da razão. Combate assim toda a tradição filosófica que assenta na razão, para a deslocar para o corpo e para o conhecimento que resulta dos sentidos e da experimentação; pretende ainda eliminar o conceito de culpa, diluir as noções de bem e de mal, com que a razão condiciona o conhecimento corporal. No Fédon Platão enaltece a importância da razão, definindo a actividade filosófica como o processo em que a alma se destaca do corpo; para Platão, o homem deve fugir das fontes dos sentidos que o enchem de tal forma de amores, paixões, desejos, temores, de imaginação, que o impedem de conhecer; Nietzsche quer inverter o jogo e avisa: há mais razão no teu corpo do que na tua melhor sabedoria : O corpo avança, ao longo da história, evoluindo e lutando sem cessar ( ) Os diversos nomes do bem e do mal são ( ) parábolas; nada exprimem, sugerem. Louco é aquele que deles espera o saber! ( ) A hora em que o vosso coração se expande, largo e abundante como um rio, benefício e perigo para os povos ribeirinhos ( ) A hora em que vos sentis acima do louvor e acima da censura; em que o vosso querer decide comandar todas as coisas, como querer apaixonado ( ) A hora em que já só tendes um único querer, onde essa reviravolta de toda a necessidade se torna, para vós, a própria necessidade, essa[s] [são] a[s] hora[s] em que nasce a vossa virtude. ( ) Em verdade, ela [a virtude] exprime um novo bem e um novo mal ( ) um novo e profundo murmúrio de água corrente, e a voz de uma nova fonte ( ) uma força nova, uma nova virtude ( ) um pensamento dominador, que envolve uma alma sábia; um sol de oiro e, enrolada em volta dele, a serpente do conhecimento. F. Nietzsche, Da Virtude que Dá, in Assim falou Zaratrusta, Parte 1.ª, Capítulo XXII. 6

7 Como se vê, em Nietzsche, de uma forma expressa e consistente, teoriza-se o corpo como instrumento da vontade e fonte suprema de um conhecimento que se liberta das noções clássicas de bem, mal, censura e culpa. A forma como o aborto nos é apresentado e a discussão corrente sobre a IVG estão fortemente influenciadas pela marca existencialista e pósmoderna: o aborto será uma realidade pandémica, injustificadamente classificada de barbárie, e onde os condicionalismos morais representam um absurdo ; para a mulher, o inferno são os outros as causas e circunstâncias extrínsecas, e os ditames da lei que limitam a mulher na sua liberdade; a esta, por seu lado, já lhe basta ter de viver numa luta constante, condenada que está à decisão, a um livre arbítrio que não pode ser condicionado pela moral exterior. Subjaz por tudo isto ao Sim não apenas uma suposta assolação do real, um pretenso grau superior de humanidade que atende ao drama do seu próximo, uma alegada sensibilidade para solucionar as doenças sociais, da pobreza e da ignorância, mas, sobretudo, a assumpção de uma ética existencialista, pós-moderna, que promove o corpo como categoria maior de conhecimento, que coloca a vontade no eixo da decisão sobre a disponibilidade da vida e que, ao enaltecer que só o indivíduo deve poder eleger as suas atitudes, objectivos, e formas de vida, nega a possibilidade de existirem realidades e valores não conformáveis fora da escolha humana, que surge neste campo apenas condicionada pela própria consciência. No próximo referendo conflituam-se duas das visões que mais marcaram a pós-modernidade, cujas origens remontam à Antiguidade Clássica; uma, já reflectida na actual lei, assenta no equilíbrio entre o direito à vida e uma vontade conformada pela razão; e outra, que pretende inspirar a mudança normativa, deixa a decisão ao livre arbítrio da mulher e à sua vontade. Qual destas duas permitirá que, no futuro, se minimize o impacto do aborto? Qual é a mais exigente, e inspirará em nós e nos nossos filhos um maior sentido de responsabilidade? Qual é capaz de tornar os indivíduos mais seguros de si, capazes de se governar, de ultrapassar as limitações que os conduzem à pobreza, à inimputabilidade e à ignorância? A resposta a esta questão deverá ser dada por cada um de nós. 7

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