Revista Especial de Educação Física Edição Digital nº ENSAIO SOBRE A CRISE DE IDENTIDADE DO PROFISSIONAL DE EDUCAÇÃO FÍSICA

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1 ENSAIO SOBRE A CRISE DE IDENTIDADE DO PROFISSIONAL DE EDUCAÇÃO FÍSICA Alene Sylvia Teixeira Balmaceda Universidade Federal de Uberlândia - Fernanda Finotti de Moraes Universidade Federal de Uberlândia - Mozart da Silva Gonçalves Almeida Universidade Federal de Uberlândia - Natalia Justino Batista Universidade Federal de Uberlândia - Priscilla Renata Ferreira Universidade Federal de Uberlândia - Ricardo Palitot Universidade Federal de Uberlândia Resumo Esse trabalho tem como objetivo incitar a discussão sobre as causas da crise de identidade que envolve o profissional da área de educação física, que possa contribuir para a formação de um futuro profissional menos alienado e mais preocupado em encontrar a verdadeira essência da educação física. Através de uma revisão bibliográfica, verifica-se que os autores não conseguem classificar definitivamente a educação física como ciência ou disciplina, o que acarreta no atraso desenvolvimentista da área. A crise se baseia na falta de conhecimento que impede os atuantes na área de definir e resolver o dualismo prática/teoria existente. Concluímos que é imprescindível a definição de o que é educação física e que haja uma conscientização, por parte dos profissionais, da importância do seu papel e em solucionar essa crise. Acadêmicos do 2º período do curso de licenciatura em educação física da Faculdade de Educação Física da Universidade Federal de Uberlândia. 60

2 Introdução O interesse na temática "Crise de identidade do profissional de Educação Física" surgiu de uma dinâmica aplicada pela professora Dinah Vasconcellos Terra, professora da Faculdade de Educação Física da Universidade Federal de Uberlândia (FAEFI / UFU), para que identificássemos um tema de pesquisa para a apresentação de um seminário acadêmico como requisito de conclusão da disciplina de Handebol. Esse trabalho foi apresentado em sala de aula. Mais tarde, surgiu a oportunidade de entrarmos em um grupo de estudos, no Núcleo de Estudos em Planejamento e Metodologias do Ensino da Cultura Corporal (NEPECC), e nesse núcleo tivemos a oportunidade de desenvolver melhor o trabalho afim de enviá-lo para o IV Simpósio de Estratégias de Ensino em Educação / Educação Física Escolar com o intuito de incitar uma reflexão por parte dos profissionais de Educação Física. Enquanto alunos do 2 o.período deste curso temos consciência de que nossas percepções, aqui apresentadas, requerem maior aprofundamento. Entretanto achamos importante arriscar uma discussão acerca dessa temática em função de algumas lacunas com as quais nos deparamos ao refletirmos sobre a realidade da nossa área. O termo ensaio aparece mesmo com essa perspectiva introdutória ao tema. Ensaio sobre a crise Buscando entender o significado de crise, nos deparamos com várias interpretações de diferentes disciplinas: Para a Filosofia a palavra crise designa uma fase ou uma situação perigosa, da qual pode resultar algo benéfico ou algo maléfico para o indivíduo ou para comunidade que por ela passa, um estado transitório de incertezas e dificuldades, mas também cheio de possibilidades de renovação. A Psicologia tem definição semelhante, considera como crise uma mudança que produz a formação de novos hábitos da parte dos indivíduos, que ameaça ou perturba a organização de alguns ou todos os grupos integrados na sociedade. O sociólogo Fairchild (1949) caracteriza o fenômeno da crise como toda interrupção do curso regular e previsível dos acontecimentos, e que ocorre quando o curso dos acontecimentos alcançou um ponto em que a mudança é iminente. 61

3 A palavra crise na língua portuguesa significa uma manifestação violenta e repentina de ruptura de equilíbrio, considerada como um estado de dúvidas e incertezas, momento perigoso e decisivo. Resumindo em uma única palavra: conflito. Ao abordarmos a questão epistemológica da Educação Física, com base nas concepções de alguns autores, várias questões surgem justificando a crise em que a área se encontra. Bracht (1999) afirma que uma parte da crise de identidade da Educação Física vem do desejo de se tornar ciência e da constatação de sua dependência de outras disciplinas, chegando a dizer que ela é colonizada epistemologicamente. Essas questões tornaram-se relevantes no debate em torno da crise de identidade porque levantou-se a hipótese de que a superação dessa crise viria da afirmação da Educação Física como ciência, com a definição de objeto, método e linguagem próprios. Porém, o objeto de uma prática pedagógica não tem as mesmas características de um objeto científico. A Educação Física tem como objetivo pedagógico o ser humano, um objeto que além do biológico, é cognitivo, emocional e social. Então, o estudo do movimento humano deve ser feito a partir do princípio das ciências naturais ou das ciências sociais e humanas, ou, ainda, de ambas? A Educação Física como prática de intenção pedagógica objetiva interpretar a cultura do movimento corporal, sendo assim precisa analisar seu objetivo pedagógico em todas as dimensões que ele possui, o que a torna indissociável das disciplinas afins, o que justifica a expressão colonizada epistemologicamente utilizada no início deste parágrafo. No decorrer do livro, o autor faz algumas definições de Educação Física e de seus interesses: (...) Entendo a Educação Física como aquela prática pedagógica que trata / tematiza as manifestações da nossa cultura corporal e que essa prática busca fundamentar-se em conhecimentos científicos, oferecidos pelas abordagens das diferentes disciplinas. Defendo a idéia de que a Educação Física não é uma ciência. No entanto, está interessada na ciência, ou nas explicações científicas. A Educação Física é uma prática de intervenção e o que a caracteriza é a intenção pedagógica com que trata um conteúdo que é retirado do universo da cultura corporal do movimento. Ou seja, nós, da Educação Física, interrogamos o movimentar-se humano sob a ótica do pedagógico. A Educação Física está 62

4 interessada nas explicações, compreensões e interpretações sobre as objetivações culturais do movimento humano fornecidas pela ciência, com o objetivo de fundamentar sua prática (...). A respeito desta última citação, Bracht afirma que para fundamentar esta prática pedagógica não basta somar conhecimentos, há necessidade de sintetizá-los para que supram as necessidades e os interesses da Educação Física, no sentido de possibilitarem um diálogo acerca das contribuições que cada área pode dar. Sobre a crescente produção de conhecimento científico nesta área, ele diz não acreditar que a Educação Física seja capaz de oferecer uma identidade epistemológica própria a pesquisas, por estar tão bem ancorada nas ditas ciências-mãe. A seguir, fala também do surgimento dos especialistas, que por não se especializarem exatamente em Educação Física, mas em outras disciplinas das quais ela depende, fragmentaram-na. Conseguiremos concluir que tal fragmentação dificulta uma análise do ser humano em sua totalidade, se pensarmos como João Paulo Medina. Medina (2002) defende que o homem concreto é aquele entendido no contexto em que vive, inseparável de suas relações cotidianas, que se concretizam dinâmica e reciprocamente, e, que práticas só se tornam práticas educativas se estiverem intimamente relacionadas à realidade das relações do ser humano, com seus costumes, políticas, ética, estética etc. A partir do momento em que conferimos à Educação Física a responsabilidade de entender e, desta forma, colaborar para o desenvolvimento do ser humano, devemos admitir que a área deve atender às necessidades de seu objeto pedagógico, um objeto vivo e dinâmico, construindo e renovando sua prática pedagógica numa perspectiva de formação continuada. Bracht (1999) é da opinião de que teremos que aprender a conviver com a diversidade e dinamicidade dos contornos que nosso campo assume, abandonar a visão de que uma disciplina acadêmica só se instala em função da existência de uma justificativa epistemológica. É preciso buscar um diálogo na tentativa de alcançar um consenso mínimo no que diz respeito a regras de convivência, respeitando a dinamicidade das mesmas. Medina (2002) afirma que A Educação Física precisa entrar em crise urgentemente. Precisa questionar criticamente seus valores. Precisa ser capaz de justificar-se a si mesma. Precisa procurar sua identidade. É preciso que seus profissionais distinguam o educativo do alienante, o fundamental do supérfluo de suas tarefas. 63

5 O autor parece não ter interesse em classificar a Educação Física como ciência ou como disciplina científica, pois se refere à Educação Física por ambos os termos quando afirma que A falta de um volume de séria reflexão em torno do significado mais amplo e profundo da Educação Física tem tirado desta disciplina a oportunidade de se estabelecer definitivamente como uma verdadeira arte e ciência do movimento humano(...). Fensterseifer (2000) mostra ser de opinião análoga à de Bracht e Medina, quando diz que a área não deve preocupar-se em delimitar uma "Verdadeira Educação Física", mas assimilar os diversos discursos num constante debate argumentativo, o qual sustenta nossa área. "O esforço epistemológico, tal como eu visualizo não deve preocupar-se em apontar esta ou aquela vertente como a que expressa o que é a Verdadeira Educação Física, mas identificar os diferentes discursos e seus pressupostos, mantendo vivo o debate argumentativo que produz, este sim, a verdadeira Educação Física, da qual somos os artífices. (...)". Considerações finais Com base nos autores citados, podemos concluir que, ainda, é difícil de se classificar definitivamente a Educação Física como uma Ciência ou uma Disciplina. Bracht (1999) não acredita que a Educação Física seja uma Ciência, por estar ancorada em duas das ditas ciências-mãe. Fensterseifer (2000) não se preocupa em classificá-la. Já Medina, em sua obra, trata a Educação Física tanto como Ciência, como Disciplina. Este ensaio leva à discussão do que é a Educação Física e incentiva a realização de estudos futuros que possam colaborar para a formação dos profissionais desta área. 64

6 Referências Bibliográficas BRACHT, Valter. Educação Física e Ciência: cenas de um casamento (in) feliz. In: Revista Brasileira de Ciência do Esporte. Campinas. Autores Associados, v. 22, n. 1. p CRISE. In: Enciclopédia Luso-Brasileira de Filosofia. São Paulo: Editorial Verbo-Lisboa, v.1, col CRISE. In: FERREIRA, A. B. de H; Novo Aurélio século XXI: o dicionário da língua portuguesa. 3 ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, p.581. FAIRCHILD, H. P. Crise. In: SILVA, B; MIRANDA NETTO, A. G. de. Dicionário de Ciências Sociais. Rio de Janeiro: Editora da Fundação Getúlio Vargas, p.284. FENSTERSEIFER, Paulo Evaldo. A crise da racionalidade moderna e a educação física. In: Revista Brasileira de Ciência do Esporte. Campinas. Autores Associados, v. 22, n. 1. p MEDINA, João Paulo Subirá. Educação Física cuida do corpo e... mente. 18ª ed. Campinas. Papirus, SILLAMY, Norbert. Crise. In: Dicionário de Psicologia. 1. Ed. Cidade: Editora Laroussse do Brasil, ano. p.90 WILLEMS, Emilio. Crise social. In: Dicionário de Sociologia. 1.ed. Porto Alegre: Editora Globo, p.87. Eixo temático: Escola e Educação Física Recursos: Retroprojetor Endereço: Rua Horácio Rezende, 137 apto 302. Bairro: Daniel Fonseca. 65

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