Eucaliptos atraem 90% do investimento privado na floresta portuguesa

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1 EDIÇÃO LISBOA TER 19 MAI 2015 PSD e CDS avançam com crime de enriquecimento injustificado p7 Eucaliptos atraem 90% do investimento privado na floresta portuguesa PRÉMIOS 2014 JORNAL EUROPEU DO ANO JORNAL MAIS BEM DESENHADO ESPANHA&PORTUGAL O novo regime jurídico da arborização e rearborização está a acentuar o domínio dos eucaliptos na floresta nacional. Só a prioridade dos apoios europeus a outras culturas impede um cenário mais gravoso Economia, 16 SHAUN CURRY/AFP FESTIVAL DE CANNES QUERIAM QUE AMY WINEHOUSE SE DESINTOXICASSE MAS ELA DISSE NÃO, NÃO, NÃO Do nosso enviado Vasco Câmara Cultura, 28 FMI: milagre das exportações pode ser insustentável Fundo adverte para riscos no médio prazo e defende congelamento das reformas antecipadas no privado p2 a 5 HOJE DVD O Conto da Princesa Kaguya, de Isao Takahata Vencedor do Grande Prémio de Longas-Metragens ddoo FFestival estival MMONSTRA ON Por + 11 Exame divide professores mas satisfaz alunos UE anuncia missão militar no Mediterrâneo Mais de 95 mil estudantes fizeram ontem prova a Português do 4.º ano p8 Operação naval em resposta ao tráfico de migrantes deve arrancar no próximo mês p22 PROCESSO-CRIME E DISCIPLINAR AR MP, IGAI E PSP INVESTIGAM POLÍCIA QUE AGREDIU ADEPTO DO BENFICA EM GUIMARÃES Desporto, 40/41 Faltam 800 médicos de família, mais de metade em Lisboa Há assimetrias regionais e mais de um milhão de pessoas sem médico p6 PUBLICIDADE Ganhe até com a nova Raspadinha dos 20 anos. Os prémios atribuídos de valor superior a estão sujeitos a imposto do selo, à taxa legal de 20%, nos termos da legislação em vigor. ISNN: Ano XXVI n.º ,15 Directora: Bárbara Reis Directores adjuntos: Nuno Pacheco, Simone Duarte, Pedro Sousa Carvalho, Áurea Sampaio Directora de Arte: Sónia Matos jartur.silvestre sapo.pt Ipad

2 2 DESTAQUE PÚBLICO, TER 19 MAI 2015 RELATÓRIO DO FMI O milagre das exportações afinal pode não ser sustentável Aos ganhos de curto prazo do programa da troika, o FMI não junta ganhos para as expectativas de médio prazo e avisa que a falta de reformas estruturais pode significar que a melhoria do saldo com o exterior pode ser reversível Sérgio Aníbal No curto prazo, o programa da troika foi um sucesso, mas no que diz respeito às perspectivas de médio prazo muito pouco mudou. Esta análise é feita pelo Fundo Monetário Internacional (FMI), uma das instituições da troika que, em 2011, chegou a Portugal para conceder um empréstimo, que vinha acompanhado por um programa de consolidação orçamental e de reformas estruturais. Os objectivos da troika em 2011 eram claros: enfrentar a emergência da falta de financiamento do país e, ao mesmo tempo, acabar com as debilidades estruturais da economia, colocando-a outra vez a crescer rápido. Para o FMI, apenas a primeira meta foi atingida para já. No relatório de análise a Portugal publicado ontem, são feitos elogios à forma como se conseguiu reduzir os défices e o país voltou a conseguir financiamento do mercado. Mas depois, quando se analisam as cinco prioridades para o médio prazo garantir um equilíbrio interno (que significa, por exemplo, não ter uma taxa de desemprego demasiado alta), conseguir um equilíbrio externo (não ter défices externos excessivos), aumentar o crescimento potencial, reduzir o endividamento dos privados e assegurar a sustentabilidade orçamental os sucessos observados pelo FMI são muito reduzidos. Dessas cinco prioridades, quatro não eram cumpridas antes da crise. E agora o saldo é o mesmo, ainda com quatro prioridades por cumprir. Houve apenas uma troca: antes apenas o equilíbrio interno estava assegurado e agora passou a ser o equilíbrio externo que está a ser cumprido. Os objectivos de curto prazo do programa foram atingidos. Mas, em relação ao objectivos de médio prazo, os desequilíbrios demoraram muito tempo a acumular-se. São precisos anos de políticas sustentáveis para isso acontecer, explicou Subir Lall, o chefe de missão do FMI em Portugal, na conferência de imprensa de apresentação do documento. O relatório, no entanto, traça uma tendência muito pouco optimista. É que mesmo quando fala do equilíbrio externo conseguido nos últimos anos na economia, o FMI avisa que tal pode não ser sustentável. Na documentação que acompanha o relatório de análise anual à economia portuguesa (no âmbito do Artigo IV), o FMI analisa a forma como Portugal conseguiu passar de uma balança com o exterior de défices acima de 10% do PIB para excedentes. Mas, ao contrário do executivo, não fica convencido de que as alterações produzidas sejam sustentáveis e mostra-se muito pouco impressionado com o crescimento registado pela exportações em termos brutos, que diz não serem prova de que Portugal tenha efectivamente aumentado de forma significativa a sua competitividade. O FMI começa por assinalar que a melhoria de 11 pontos percentuais do PIB no saldo da balança com o exterior entre 2010 e 2013 foi a maior entre todos os países da União Europeia. No entanto, logo a seguir, lembra que o crescimento das exportações brutas em percentagem do PIB de 9,5 pontos foi apenas o décimo mais alto na UE. Isto significa que a contracção muito acentuada das importações também desempenhou um papel muito significativo na melhoria da balança externa. E agora, avisa o FMI, assim que a economia recupere, as importações irão provavelmente recuperar. Sem competitividade O FMI tenta por isso verificar se, de facto, Portugal registou um efectivo ganho de competitividade, que garanta que as melhorias do desempenho externo são sustentáveis. A Para as empresas, o importante é o Estado paga Pagamentos fora do prazo por parte da administração central e regional, bem como por parte das empresas detidas pelo Estado estes são os principais problemas da economia portuguesa e que as empresas gostariam de ver resolvidos, de acordo com um inquérito elaborado pelo FMI. Ao todo, foram questionadas 500 empresas, das quais 300 são PME (com o estatuto de Líder, ou seja, com boas condições financeiras), mas apenas 17,4% responderam. Estas foram confrontadas com dois tipos de questionários: um sobre o impacto das reformas, e outro sobre a necessidade de mais reformas, e onde deviam ocorrer. Neste segundo grupo de respostas o Estado sai mal na fotografia, com os privados a pedirem mudanças nos atrasos de pagamentos devidos pelas câmaras, administração central e empresas públicas (que são as que surgem mais destacadas pela negativa), bem como melhorias no seu funcionamento. Outros dois pontos em que os privados pedem alterações são a importância de haver maior eficácia na resolução de problemas fora dos tribunais, e a cedência de créditos por parte dos bancos. Na conferência de imprensa por telefone, Subir Lall afirmou que o problema dos atrasos nos pagamentos por parte do Estado era algo que não estava muito alto na lista de prioridades, e que foi importante ter estas respostas. Sobre o impacto das reformas estruturais implementadas no país, as empresas inquiridas afirmam que a mais relevante foi o menor custo dos impostos (o IRC desceu), que ganha assim a medidas como o menor encargo com os despedimentos. Na parte do trabalho, o destaque vai para a maior flexibilidade nos horários de trabalho (que fica em segundo lugar, após os impostos), enquanto o aumento das horas de trabalho (houve a redução dos

3 PÚBLICO, TER 19 MAI 2015 DESTAQUE 3 DANIEL ROCHA FMI mostra-se muito pouco impressionado com o crescimento registado pela exportações em termos brutos Economia Ver mais em resposta dada no relatório é a de que há dúvidas razoáveis de que tal esteja a acontecer. Em primeiro lugar, o FMI diz que as exportações brutas são uma medida enganadora para os ganhos de competitividade. E que para perceber se uma economia se tornou de facto mais competitiva face ao exterior, o melhor é olhar para as exportações que resultam de um valor acrescentado doméstico (Exportações DVA). Este indicador exclui o conteúdo importado das exportações e dá por isso informação sobre a procura externa verdadeira por produtos domésticos. Retira, por exemplo, da análise uma parte considerável das exportações de combustíveis refinados (cuja matéria-prima é importada). A desvantagem deste indicador é que não há dados concretos recentes disponíveis. No entanto, o FMI diz que existe uma forte correlação entre as Exportações DVA e uma série de indicadores estruturais. Como Portugal, de acordo com o Fundo, continua com um desempenho fraco nesses indicadores estruturais, então estima-se que o desempenho das Exportações DVA é bastante menos impressionante do que o das exportações brutas, o que significa que os ganhos de competitividade conseguir a horas feriados e fim dos dias de férias por assiduidade) fica abaixo das alterações nos incentivos ao investimento. Por outro lado, temas a que tanto a troika como o Governo têm dado grande importância, como o dos custos da energia, surgem num plano secundário. No documento, o FMI defende que haverá várias questões a afectar a avaliação das empresas. Uma delas é o facto de haver reformas que precisam de mais tempo até que o seu impacto seja reconhecido, além de que as empresas podem ter dificuldades em distinguir os efeitos da crise económica do impacto das reformas. Outro aspecto a ter em conta, diz o FMI, é a possibilidade de as empresas poderem, face às adversidades, culpar a falta de progresso nas reformas, quando o problema poderá estar em factores internos, como a falta de aptidões dos gestores. Luís Villalobos e Sérgio Aníbal dos por Portugal são provavelmente muito mais baixos. A solução dada pelo FMI para este problema é, mais uma vez, fazer mais reformas estruturais. A economia precisa de aumentar o investimento, ao mesmo tempo que melhora a competitividade externa para evitar que se gere um desequilíbrio com o exterior. Para um membro de uma união monetária com um espaço orçamental limitado, isto apenas pode ser conseguido através de reformas estruturais, que até agora não garantiram totalmente os resultados esperados, afirma o relatório publicado ontem. Por causa desta desilusão com os resultados das reformas estruturais, o FMI, que previa durante o programa que a economia poderia conseguir atingir um crescimento de médio prazo em torno de 1,75%, agora, não vai mais longe do que os 1,2%. Ao contrário do Governo, que conta com uma aceleração progressiva até taxas de crescimento acima de 2% em 2019, o FMI prevê que, depois de 1,6% este ano, haverá uma desaceleração progressiva até aos 1,2%. A resposta do Governo a este pessimismo do FMI surge num anexo ao relatório, em que o director do FMI que representa o grupo de países em que está incluído Portugal afirma que é preciso mais tempo para ver o efeito total das reformas feitas. Para além de que os impactos de muitas destas reformas é já evidente e efectivo, os benefícios de outras reformas e de novas reformas demora mais tempo a materializarse. Isto não pode considerar-se um fracasso, nem uma insuficiência das reformas, afirma. No relatório, o FMI reconhece que muito foi feito e que estas reformas demoram tempo a dar frutos, mas avisa que não fazer mais nada é uma estratégia arriscada, apelando a que a actual conjuntura económica favorável seja aproveitada. As reformas estruturais pedidas pelo FMI são, à semelhança do que já acontecia em anteriores relatórios, centradas no mercado de trabalho, no mercado de produtos, na redução da despesa pública e na diminuição do excesso de endividamento das empresas. Subir Lall reconhece que tinha, no início do programa, expectativas para um maior crescimento potencial da economia portuguesa, mas continuou a tentar dar uma nota de optimismo. Aliviar o problema da dívida do sector privado faria imediatamente uma enorme diferença, disse. FMI quer novo congelamento de reformas antecipadas Raquel Martins O FMI continua a insistir que é preciso fazer uma reforma estrutural do sistema de pensões em Portugal e deixa duas pistas: o valor das pensões deve estar indexado a factores económicos e deveriam aumentar-se os descontos dos funcionários públicos para a Caixa Geral de Aposentações (CGA). Adicionalmente, o fundo defende o retomar do congelamento das pensões antecipadas no sector privado, o que representa um recuo face a uma medida que está em vigor desde o início do ano. Na sua análise, o FMI lembra que, durante a vigência do programa de ajustamento, os salários do sector público estiveram contidos e o aumento das pensões foi moderado (apenas algumas pensões mínimas tiveram aumentos, as restantes foram congeladas e as mais altas tiveram cortes). O problema é que algumas dessas medidas tenderão a desaparecer já a partir do próximo ano e é preciso encontrar formas de aliviar a pressão sobre a despesa nestas áreas que actualmente representa perto de 25% do PIB. Para a instituição liderada por Christine Lagarde, o acórdão do TC que chumbou os cortes permanentes nas pensões exige uma abordagem mais abrangente das reformas nesta área. Nesse sentido, as autoridades devem adoptar uma regra que permita ajustar automaticamente os benefícios em função de factores económicos. Uma medida semelhante chegou a ser equacionada pelo grupo de trabalho nomeado pelo Governo para estudar a reforma do sistema de pensões em Portugal, e que nunca chegou a sair do papel. A ideia era que o valor das pensões ficasse dependente da evolução do PIB e da esperança média de vida, por exemplo, e que em função da evolução desses indicadores elas pudessem aumentar ou diminuir de forma automática. Adicionalmente, recomenda-se a suspensão da reforma antecipada no sector privado, com o objectivo de conter o aumento do número de pensionistas nos próximos anos. Entre Abril de 2012 e final de 2014, a antecipação da idade da reforma esteve suspensa no caso dos trabalhadores que fazem os seus descontos para o regime geral da Segurança Social. Em Janeiro de 2015, essa proibição foi parcialmente levantada para os trabalhadores com idade igual ou superior a 60 anos e 40 ou mais anos de descontos, que ficam sujeitos a reduções significativas no valor da sua pensão, por causa do factor de sustentabilidade e da taxa de penalização por cada ano que falte para os 66 (a idade legal da reforma em 2015). E o Governo deixou a promessa de que a partir do próximo ano seria equacionado o regresso ao regime existente anteriormente. Mas as recomendações do FMI não ficam por aqui. No caso dos funcionários públicos, que descontam 11% do salário para a CGA, os técnicos propõem que no curto e médio prazo se aumente a contribuição para o sistema, de modo a aumentar a sua sustentabilidade financeira. O FMI não refere, contudo, que uma parte do problema de sustentabilidade da CGA se deve ao facto ela ser um sistema fechado desde 2006 e como não são inscritos novos contribuintes, o sistema tenderá a ser deficitário. No que respeita aos salários, os técnicos que acompanham Portugal entendem que, tendo em conta as decisões do TC, não serão admissíveis mais cortes nominais nos salários e serão necessárias reformas de natureza estrutural. Recomendam, por isso, que o Governo intensifique o recurso aos programas de rescisão amigável, de modo a manter a redução do número de trabalhadores do Estado, e lembram que as medidas estruturais que venham a ser tomadas devem limitar os aumentos salariais automáticos e as progressões na carreira, de modo a gerar poupanças permanentes de 0,1% do PIB por ano. Nesse sentido, as modalidades e o faseamento da tabela salarial única e da nova tabela única de suplementos, que está a ser preparada pelo Governo e deverá ser apresentada ainda durante o mês de Maio, devem ser cuidadosamente projectadas, para evitar custos adicionais e recuos excessivos.

4 ESTE SEGURO É PARA 4 PÚBLICO, TER 19 MAI 2015 RELATÓRIO DO FMI Contra a pobreza, é prefe fiscal à subida do salário m LÍDERES. Seguro de créditos com condições especiais para PME Líder. Visite-nos em qualquer Balcão ou Centro de Empresas BPI. O Banco Líder das PME Líder Nº1 em adesões a PME Líder pelo 7º ano consecutivo PME Líder 2014 aderiram via BPI Dados IAPMEI e Turismo de Portugal a 13 de Fevereiro de Saiba mais em Banco BPI, S.A., Sociedade Aberta, Rua Tenente Valadim, 284, Porto, na qualidade de Mediador de Seguros Ligado n.º (registado junto do Instituto de Seguros de Portugal em 31/10/ informações adicionais relativas ao registo disponíveis em autorizado a exercer actividade nos Ramos de Seguro Vida e Não Vida com as Seguradoras BPI Vida e Pensões - Companhia de Seguros Vida, S.A., Companhia de Seguros Allianz Portugal, S.A. e COSEC - Companhia de Seguro de Créditos, S.A. O Banco BPI, S.A. não assume qualquer responsabilidade na cobertura de riscos inerentes aos contratos de seguro. Raquel Martins Trabalhadores menos qualificados terão grandes dificuldades em voltar a ter emprego, mesmo que a economia cresça Os trabalhadores com baixas qualificações continuarão a ter dificuldades em encontrar lugar no mercado de trabalho e o crescimento da economia por si só não será suficiente para facilitar a absorção destas pessoas, que representam mais de metade dos desempregados em Portugal. O alerta é deixado pelo FMI no relatório ontem divulgado. Num capítulo preparado por Albert Jaeger, responsável do FMI em Portugal, a instituição deixa alguns alertas e indicações sobre o caminho a seguir, lembrando que não há soluções padronizadas que possam ser seguidas. Antes de mais, referem os técnicos responsáveis pela análise à economia portuguesa, as reformas estruturais têm de ser complementadas com uma política prudente em relação ao salário mínimo que foi aumentado pelo Governo em Outubro de 2014, depois de vários anos de congelamento. Embora reconheça que o salário mínimo permite que os trabalhadores pouco qualificados tenham um patamar mínimo de rendimento e pode ser um instrumento importante para reduzir a pobreza, o FMI defende que há outras medidas que podem ter resultados mais interessantes neste campo. É o caso dos créditos fiscais sobre os rendimentos de trabalho que tendem a ser mais eficientes na redução da pobreza do que aumentar o salário mínimo. Na prática, o FMI defende uma solução semelhante ao complemento salarial anual previsto no relatório Uma Década para Portugal, elaborado por um grupo de economistas para o PS e que prevê a atribuição de um complemento aos trabalhadores que declarem um rendimento do trabalho inferior à linha da pobreza. Peso dos pouco qualificados no total do O Fundo considera ainda que as políticas públicas devem actuar ao nível das competências de gestão, que são relativamente baixas quando comparadas com o resto da Europa, realidade que se torna mais preocupante quando se olha para a componente da gestão dos recursos humanos. São excepção, nota a instituição, as multinacionais a operar em Portugal e as empresas que trabalham em mercados competitivos e que se vêem obrigadas a melhorar as suas competências. O que o FMI vem dizer é que a produtividade dos trabalhadores com baixas qualificações tenderá a ser mais elevada se do outro lado estiver um gestor mais qualificado. Adicionalmente, recomenda que a concertação social deve também dar voz aos grupos mais vulneráveis, nomeadamente aos desempregados, trabalhadores menos qualificados e jovens. Realçando que não há uma solução padronizada para resolver o problema da criação de emprego em Portugal e que cada país tem de encontrar o seu caminho para ajustar os problemas do mercado de trabalho às soluções políticas, o FMI lembra as reformas Hartz feitas na Alemanha durante a década de 2000 e que também servem de inspiração

5 PÚBLICO, TER 19 MAI ESTE rível crédito ínimo desemprego é muito elevado PAULO PIMENTA para algumas das medidas propostas pelo PS. Contudo, alerta a instituição, essas reformas ocorreram depois de um processo penoso de procura das melhores soluções. O FMI volta a alertar que a forma tradicional de medir o desemprego não permite ter uma visão real do que se passa em Portugal. A estagnação do mercado de trabalho teve um aumento mais significativo do que é indicado pela taxa de desemprego [que era de 13,7% no primeiro trimestre de 2015], refere-se no relatório. Para o Fundo, as linhas que separam os empregados, os desempregados e os inactivos são necessariamente ténues. Ou seja, explicam os técnicos, entre os empregados há quem trabalhe menos horas do que desejaria; alguns desempregados podem ter uma reduzida capacidade para procurar emprego e entre os inactivos há quem deseje trabalhar se houver empregos disponíveis. Desde 2008 até 2014, referem, estas realidades ganharam uma expressão que não pode ser ignorada. É aqui que se podem encontrar os trabalhadores pouco qualificados, cujo peso no total do desemprego (visto desta forma mais abrangente) é dos mais elevados da Europa, ultrapassando os 50%. Para o FMI, há professores a mais Menos escolas, menos professores. É este o caminho que o Fundo Monetário Internacional (FMI) recomenda para a educação em Portugal na sua última análise sobre o estado da economia, divulgado ontem. A apoiar esta recomendação, o FMI refere que o número total de estudantes no sistema educativo em Portugal caiu 2,4% entre 1998 e 2012 e que se espera que o número de estudantes no ensino primário diminua 13% até Em consequência desta evolução serão necessários futuros ajustamentos na rede de escolas e no número de professores, particularmente nas áreas rurais, onde o declínio da população se processa a um ritmo muito mais acelerado. Nos últimos anos fecharam mais de cinco mil escolas e entre Dezembro de 2011 e Março de 2015 saíram do sistema educativo professores do pré-escolar ao secundário. Segundo o FMI, a racionalização do emprego público levará ao aumento de receitas a curto e médio prazo, mas poderá criar constrangimentos na prestação de serviços em alguns sectores. Por essa razão insiste que as autoridades devem ter como alvo sectores com empregados a mais, incluindo o sector da educação. O FMI volta também a insistir que não existe correspondência entre o que é gasto na educação em Portugal e os resultados obtidos, dando como exemplo o baixo nível de escolarização. Segundo o Fundo, a despesa em educação, em percentagem do PIB, era em 2013 de 6,8%, estando acima da média europeia. O Governo revelou, recentemente, que em 2013 esta despesa se fixou em 5,2% do PIB. A média europeia nesse ano era de 5,5%. Clara Viana CRÉDITO É PARA LÍDERES. Soluções de crédito com condições especiais para PME Líder. Visite-nos em qualquer Balcão ou Centro de Empresas BPI. O Banco Líder das PME Líder Nº1 em adesões a PME Líder pelo 7º ano consecutivo PME Líder 2014 aderiram via BPI Dados IAPMEI e Turismo de Portugal a 13 de Fevereiro de Saiba mais em

6 6 PORTUGAL PÚBLICO, TER 19 MAI 2015 Faltam 800 médicos de família em todo o país, mais de metade em Lisboa Associação Portuguesa de Medicina Geral e Familiar alerta para estagnação da reforma dos cuidados de saúde primários, com mais de um milhão de portugueses ainda sem médico de família Saúde Romana Borja-Santos Em média, diz a associação, os clínicos dão 25 consultas por dia nos centros de saúde Utentes satisfeitos com SNS mas 53% pedem grandes mudanças Estudo indica que 10% faltam a consultas por dificuldades financeiras Os utentes que durante o último ano recorreram aos cuidados do Serviço Nacional de Saúde (SNS) dizem que foram bem atendidos em 91% dos casos e consideram que em 71% das situações ficaram com o problema de saúde resolvido, indica um estudo da Direcção-Geral da Saúde. Porém, 38% dos utentes defendem que são necessárias grandes mudanças e 15% admitem mesmo que o SNS precisa de ser completamente reestruturado. As conclusões fazem parte do Estudo de Satisfação dos Utentes do Sistema de Saúde Português, da Direcção-Geral da Saúde. Os dados resultam de 2300 entrevistas telefónicas feitas entre Fevereiro e Março junto da população residente em Portugal Continental. A DGS reconhece parecer haver dissonância entre o que a população pensa da qualidade do serviço e a percepção da necessidade de melhoria. Mas contrapõe que a diferença pode simplesmente reflectir um desejo natural do consumidor de procurar a excelência nos serviços. Sobre esta questão, o estudo destaca que são mais os cidadãos que recorrem ao privado a apontar necessidades de mudança do que aqueles que efectivamente frequentam os centros de saúde e hospitais públicos. Aqui, a DGS ressalva que, apesar de as perguntas dizerem respeito aos serviços de saúde em geral (públicos e privados), muitas vezes as questões eram entendidas como dizendo só respeito ao SNS. No total, só 17% das pessoas disseram que o sistema de saúde RUI GAUDÊNCIO funciona bem e 26% referiram a necessidade de pequenas mudanças. No entanto, se forem separados os utentes do público e do privado, no primeiro caso 18% das pessoas destacam o bom funcionamento, um valor que cai para 13% nos segundos. A DGS procurou também perceber o impacto que a crise financeira. O trabalho aponta para que no último ano 8% dos inquiridos tenham faltado a consultas por dificuldades financeiras. O valor sobe para quase 10% se forem tidos em conta apenas os dados dos utilizadores do SNS. Numa pergunta semelhante mas referente a exames médicos e tratamentos, a percentagem sobe para 11%. A falta de dinheiro motivou ainda que 10% das pessoas deixassem de comprar medicamentos prescritos. R.B.S. A reforma dos cuidados de saúde primários está estagnada e faltam 800 médicos de família em todo o país, 500 dos quais apenas na região de Lisboa. O alerta é feito pelo presidente da Associação Portuguesa de Medicina Geral e Familiar. Rui Nogueira mostra-se especialmente preocupado com as assimetrias regionais, com algumas zonas do país em que uma em cada três ou quatro pessoas não tem médico de família ao mesmo tempo que há 260 recém-especialistas que ainda aguardam colocação por falta de abertura de concurso por parte do Ministério da Saúde. Por outro lado, o especialista alerta que só metade dos utentes já é atendida nas unidades de saúde familiar (USF), enquanto os outros ainda só têm acesso aos antigos centros de saúde. A advertência é feita quando hoje se assinala o Dia Mundial do Médico de Família, com Rui Nogueira a defender que a promissora reforma iniciada há dez anos nesta área está praticamente parada e a apontar que a abertura de mais USF era uma das metas acordadas com a troika com quem o Governo tem tantas preocupações. As primeiras USF foram criadas em 2006 e representam um modelo inovador em que os cuidados de saúde são prestados com base em indicadores e os profissionais premiados por incentivos. Ao todo existem mais de 400 em todo o país, mas o ritmo de abertura caiu de tal forma que em 2015 ainda só abriu uma. Sobre este ponto, o Ministério da Saúde tem contraposto que a abertura resulta de um processo de candidatura voluntária dos profissionais e que, por isso, o número não tem crescido mais. Em resposta às questões do PÚ- BLICO, o Ministério da Saúde admitiu que há 1,2 milhões de portugueses sem médico de família, mas garantiu que dentro de dois anos o problema estará totalmente ultrapassado com a chegada de novos especialistas formados. Adiantou também que tem concurso aberto para contratar 400 reformados. Porém, para Rui Nogueira, o que tem existido é falta de vontade política. Com este abandono da reforma na verdade não evoluímos. Hoje temos mais de um milhão de pessoas sem médico de família, um número maior do que tínhamos, acrescentou. O presidente da Associação Portuguesa de Medicina Geral e Familiar recusa também que este seja um problema do interior, que o Governo tentou resolver dando incentivos. O interior é na realidade Lisboa, sobretudo Amadora e Sintra, mas também todo o estuário do Tejo e Algarve. Em termos médios, no país 12% da população não tem médico de família e nestes locais são cerca de 30%, muito acima da média nacional, contrapôs. O clínico considera que o problema mais emblemático do cabal esquecimento é existirem 260 médicos de família formados em Abril e que não foram ainda colocados porque o concurso não abriu. É uma situação perfeitamente aberrante. Estão a trabalhar em situações precárias, provisórias e não necessariamente onde há mais falta de médicos de família. É uma ilusão para todos, insiste, lembrando que há sempre especialistas formados em Abril e em Outubro pelo que não entende o carácter excepcional dos concursos. Questionado sobre a possibilidade de aumento da lista dos médicos, que agora têm perto de 1900 utentes nas suas listas, Rui Nogueira rejeitou que essa seja uma solução. E justifica com números: em média cada cidadão tem 2,8 consultas por ano nos cuidados de saúde primários. Isso significa que um médico terá de dar cerca de 25 consultas por dia, um esforço enorme que não pode ser aumentado. Também recusa ideias como a recentemente avançada de disponibilizar consultas virtuais através da Linha Saúde 24 a quem não tem médico de família. Isso funciona para doentes que já conhecemos e que nos conhecem. Para doentes que não conheço, eu não fico descansado e o doente também não, reitera. Em alternativa, o médico considera importante reforçar os cuidados primários com mais administrativos, enfermeiros e profissionais como nutricionistas, psicólogos e higienistas orais. Não resolveria o problema mas ajudaria a dar uma melhor resposta, salienta Nogueira, que entende ser também importante avançar de forma generalizada com a figura do enfermeiro de família.

7 Breves MIGUEL NOGUEIRA PÚBLICO, TER 19 MAI 2015 PORTUGAL 7 Maioria PSD/CDS avança com enriquecimento injustificado e deixa pouca margem para oposição Justiça 1 Homem absolvido pela segunda vez de homicídio O Tribunal de Aveiro absolveu novamente ontem um homem que há quase quatro anos matou a tiro um amigo, em Sever do Vouga. O arguido tinha sido absolvido do homicídio num primeiro julgamento, que ocorreu há cerca de um ano, mas a Relação de Coimbra anulou o acórdão e ordenou a reabertura da audiência, para se proceder à reconstituição do crime. Tal como da primeira vez, o colectivo de juízes considerou que o arguido agiu em legítima defesa, absolvendo-o do crime de homicídio privilegiado de que estava acusado pelo MP. O homem foi ainda absolvido do pagamento de uma indemnização aos familiares da vítima, tendo sido condenado a pena suspensa por posse de arma proibida. Justiça 2 Provedor abriu 8200 processos por queixas de cidadãos O provedor de Justiça disse ontem, no Funchal, ter aberto este ano 8200 processos na sequência de queixas de cidadãos, número que considera elevadíssimo. Não houve aumento de queixas, mas estamos num patamar elevadíssimo, salientou Faria Costa, vincando que o número de processos instaurados mantém-se o mesmo nos últimos dois anos, sendo que o número de queixosos baixou de 18 mil, em 2013, para 14 mil, em Lisboa e Porto continuam na linha da frente e em terceiro lugar surge Coimbra. O provedor trabalha para um aprofundamento da democracia. O provedor não actua contra quem quer que seja. O provedor actua sempre em defesa e na tutela dos direitos fundamentais. Se tiver maioria, Costa garante cortar com a austeridade PS contrariará recomendações e austeridade do FMI Partidos Maria João Lopes António Costa defende ainda que não é preciso reduzir número de funcionários públicos O secretário-geral do PS, António Costa, reagiu ao relatório do FMI, divulgado ontem (ver páginas 2 a 5), garantindo que, se os socialistas tiverem maioria nas próximas eleições legislativas, vão contrariar as políticas de austeridade e as recomendações do FMI. As recomendações são precisamente no sentido oposto à alternativa que propomos. Faremos uma política contrária que permita alcançar os bons resultados que o país precisa e que a prossecução destas politicas de austeridade, que este Governo quer continuar a prosseguir, só tem dado maus resultados, declarou aos jornalistas, no final de um encontro, em Lisboa, com agentes culturais com o objectivo de recolher contributos para o programa eleitoral. O secretário-geral apelou a uma maioria clara do PS que contrarie essa obsessão pela austeridade. Para Costa, o que o relatório do FMI diz é que, depois de quatro anos de austeridade, é preciso mais do mesmo : É necessário uma alternativa que permita virar a página da austeridade, que permita relançar a economia, gerar a criação de emprego, de confiança e, cumprindo as regras que partilhamos na zona do euro, poder devolver ao país esperança. António Costa defendeu ainda não ser necessário reduzir o número de funcionários públicos: Temos, neste momento, um nível adequado de número de funcionários. Pelo contrário, é necessário começar a reconstituir centros de competência que permitam reintroduzir no sector público muitas das capacidades técnicas que foi perdendo, disse, sublinhando que, em áreas como serviços jurídicos ou análise financeira de projectos, se está a recorrer à contratação no sector privado e que o PS pretende, entre outras medidas, contratar jovens licenciados desempregados que o país está a desperdiçar. Quanto à privatização da TAP, o secretário-geral lamenta que, no final do mandato, o Governo tome decisões que possam ser irreversíveis : Este Governo está numa agonia que tem vindo a ser prolongada e está naquela fúria de saber que tem muito pouco tempo para acabar de fazer as maldades que quer fazer ao país. Cada dia que passa é um dia em que eles têm mais uma oportunidade de fazer mais uma maldade. Esperemos que não haja tempo para que pratiquem actos que sejam irreversíveis, disse, acrescentando ainda, com ironia, que o ministro da Economia inspira uma enorme confiança em cada acto de governação que pratica. Foi também com ironia que comentou as críticas que a coligação PSD/CDS fez ao PS no jantar, neste fim-de-semana, em Guimarães, para assinalar o primeiro aniversário da saída da troika do país: É extraordinário que façam um jantar para festejarem e, como não têm nada para festejar, a única coisa que têm para dizer é falar do PS e de mim próprio. Sinto-me muito honrado; para o PS, é uma enorme distinção. Parlamento Sofia Rodrigues Novo projecto da maioria abandonou a expressão enriquecimento ilícito e deverá ser votado amanhã na comissão A maioria PSD/CDS quis tornar mais precisa a definição do crime de enriquecimento ilícito (mudando para injustificado) e avançou com algumas alterações ao seu projecto inicial, mas tem pouca margem para acolher propostas da oposição. No projecto de substituição que deu entrada ontem na Assembleia da República, PSD e CDS acolheram algumas sugestões resultantes das audições com agentes da justiça e alteraram a definição do próprio crime. Quem por si ou por interposta pessoa, singular ou colectiva, adquirir, possuir ou detiver património incompatível com os seus rendimentos e bens declarados ou que devam ser declarados é punido com pena de prisão até três anos, lê-se na nova proposta de alteração ao Código Penal. Foi assim substituída a expressão do projecto inicial da maioria que referia quem por si ou por interposta pessoa obtiver um acréscimo patrimonial ou fruir continuadamente de um património incompatível com os seus rendimentos e bens declarados. Esta redacção foi abandonada por ter um advérbio de modo que dificultava a determinação do momento da prática do crime. Foi também substituída a expressão enriquecimento ilícito por enriquecimento injustificado, já que aquela foi considerada indicativa de uma proveniência ilícita dos rendimentos e logo uma presunção de culpa. Enriquecimento ilícito era a referência no primeiro diploma apresentado pela maioria PSD/CDS e que, em 2012, foi chumbado pelo TC. O novo projecto das bancadas da maioria prevê uma pena de prisão até três anos no caso do acréscimo patrimonial acima de 350 salários mínimos (cerca de 176 mil euros), agravada para cinco anos se a discrepância for de 500 salários mínimos (252 mil euros). O castigo tornase mais pesado para os titulares de cargos políticos e titulares de cargos públicos: são cinco anos de prisão que podem ir até aos oito anos se a discrepância for superior a 350 salários mínimos. A alteração da referência de salá- rios mínimos para Índice de Apoios Sociais (IAS) poderá ser uma das alterações que a maioria permitirá na especialidade, com vista a harmonizar com as referências noutras leis como a da fraude fiscal. As votações são já amanhã, em conjunto com os outros diplomas da oposição, mas estas propostas deverão ficar pelo caminho. Mantendo a divergência que sempre existiu entre a maioria e o PS sobre esta matéria, os sociaisdemocratas consideram que o projecto de lei socialista é fogo-de-vista, por introduzir na lei o que já existe. A proposta do PS desvia-se manifestamente do intuito de criminalização autónoma da desproporção entre o património fruído e os rendimentos auferidos, afirma ao PÚBLICO a deputada do PSD Teresa Leal Coelho. Os socialistas pretendem uma malha mais apertada para os titulares de cargos políticos na sua obrigação de declarar rendimentos. Ao mesmo tempo é colocada sob a responsabilidade da Autoridade Tributária a verificação das declarações prestadas e impõe uma taxa de 80% sobre o acréscimo patrimonial injustificado. Já o projecto do PCP prevê a obrigação de entrega de uma declaração universal de rendimentos que funciona como parâmetro para aferir a desproporção entre património fruído e rendimentos declarados, punindo também a falta dessa declaração. O BE coloca nas mãos da administração tributária a averiguação de uma discrepância de 20% entre o rendimento declarado e aquisições patrimoniais, sempre que o valor exceda os 25 mil euros. Caso essa discrepância não seja explicada, é aplicada uma taxa de 100% sobre o acréscimo patrimonial obtido. Novo projecto da maioria prevê penas de prisão de 3 a 5 anos

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