A QUESTÃO AMBIENTAL NO COTIDIANO ESCOLAR: O PEA DO COLÉGIO ESTADUAL HIGINO DA SILVEIRA

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1 Luiz Antônio de Souza Pereira Professor do Colégio Estadual Higino da Silveira Professor do Centro Universitário Serra dos Órgãos UNIFESO Professor da Universidade Castelo Branco UCB Doutorando em Geografia pela Universidade Federal Fluminense UFF A QUESTÃO AMBIENTAL NO COTIDIANO ESCOLAR: O PEA DO COLÉGIO ESTADUAL HIGINO DA SILVEIRA O Colégio Estadual Higino da Silveira está localizado em Teresópolis, a cerca de 90 quilômetros da cidade do Rio de Janeiro, em um dos municípios mais afetados pela tragédia do verão de 2011 (considerada a maior tragédia ambiental do país). E em abril de 2012 o colégio foi diretamente atingido por uma nova tragédia envolvendo fortes chuvas, com a perda de equipamentos e materiais. Como espaço privilegiado da formação de hábitos e valores, o colégio pode contribuir, através de seus princípios, debates e práticas, para a construção de um mundo de justiça social e equilíbrio ambiental. O presente artigo visa apresentar os resultados alcançados pelo PEA do Colégio Estadual Higino da Silveira em seus dois primeiros anos de existência. 1. ANTECEDENTES DO PEA O Projeto de Educação Ambiental (PEA) do Colégio Estadual Higino da Silveira, assim como boa parte dos PEAs e da própria história da educação ambiental no país e no mundo, foi constituído a partir de problemas. A diretora do colégio, angustiada

2 com a distância entre a teoria e prática me convidou para o desafio de pensar e agir em prol de uma escola sustentável 1. O que mais chamava a atenção naquele momento era a grande quantidade de copos descartáveis utilizados na unidade escolar e o acúmulo de lixo que era gerado. O consumo de copos descartáveis cresceu drasticamente a partir do segundo semestre do ano letivo de 2009, em função do surto de Gripe A (H1N1). Com o intuito de conter o avanço da gripe, o retorno às aulas após o recesso do mês de julho foi adiado na rede de ensino. No colégio os bebedouros foram substituídos por galões de água de 20 litros e foram colocados copos descartáveis. O convite foi aceito e na Semana de Capacitação de 2011 foi apresentado e debatido com os professores e funcionários o tema Gestão e Educação Ambiental. Apesar do interesse do público presente, pouco foi feito naquele ano. A prioridade, mais que necessária, era acolher os sobreviventes da maior tragédia ambiental do país. No final de 2011 as contradições presentes no colégio se acentuam após o mesmo ganhar um concurso local de decoração de natal. Com muita criatividade e trabalho professores e alunos montaram uma linda decoração utilizando materiais reciclados. Em vez de lixo, arte! A direção mais uma vez me procurou. Disse que chegou a hora de agirmos, que a teoria e a prática não poderiam estar tão separadas. A sustentabilidade deveria ser sentida e vivenciada no dia a dia escolar e não apenas em datas específicas ou projetos e programas pontuais. 2. CONCEPÇÃO DO PEA: UM MUNDO MELHOR COMEÇA NA ESCOLA A concepção do PEA do Colégio Estadual Higino da Silveira iniciou durante as férias de janeiro e avançou nos dois primeiros meses de aula (fevereiro e março) do ano 1 A diretora me convidou, no final do ano letivo de 2010, para preparar uma apresentação sobre a questão da sustentabilidade para a Semana de Capacitação do ano seguinte. A Semana de Capacitação acontece, normalmente, uma semana antes do início do ano letivo e possui a finalidade de integrar os profissionais que atuam na unidade, planejar e elaborar ações para o ano letivo e oferecer palestras e debates sobre temas relevantes.

3 letivo de A inspiração para a construção do projeto foi o PEA coordenado por Genebaldo Freire Dias na Universidade Católica de Brasília e relatado no livro Educação e gestão ambiental 2. O Projeto de Educação Ambiental: um mundo melhor começa na escola pode ser dividido em quatro etapas ou fases: - Justificativa para a elaboração de um PEA; - Pesquisa do referencial teórico e estudos de caso; - Diagnóstico e objetivos; - Gestão do PEA As primeiras questões colocadas foram: Por que elaborar um PEA para o C.E. Higino da Silveira? Qual fundamentação teórica e metodológica seria seguida? Quais eram os objetivos do PEA? Onde verdadeiramente queríamos chegar? Logo de início foi combinado que somente após respondermos essas perguntas o PEA seria lançado oficialmente. 2.1 Justificativa para a elaboração do PEA Infelizmente, as justificativas para a criação de um PEA são muitas. De forma bastante resumida, a sociedade atual é baseada num modelo de produção/consumo que extrai da natureza recursos (renováveis e não renováveis) numa velocidade sem precedentes na história. Além da retirada dos recursos naturais, muitas vezes acima da capacidade de reposição da natureza, o descarte dos produtos gerados após a sua utilização causa a poluição dos corpos líquidos, da crosta terrestre e do ar. No ambiente escolar, duas ações relativamente simples, mas muito importantes, podem ser realizadas no cotidiano. Debater o atual modelo civilizatório e suas 2 A apresentação Gestão e Educação Ambiental realizada na Semana de Capacitação de 2011 também foi baseada nesse estudo de caso.

4 consequências em diversas escalas desde o local até o global se faz necessário para compreendermos muitos dos problemas sociais e ambientais existentes. E formular e aplicar soluções para os nossos questionamentos. A escola não pode e deve agir apenas em relação aos aspectos teóricos. O exemplo ainda é a melhor forma de se aprender e ensinar algo. Não se pode esquecer que a crise ambiental é, antes de qualquer coisa, um dos sintomas de uma crise maior: a crise do nosso modelo civilizatório. Crise poucas vezes tratada com a seriedade e profundidade que merece fora dos grupos restritos formados por ambientalistas e acadêmicos. 2.2 Referencial teórico A educação ambiental dentro do PEA é compreendida como uma proposta político-pedagógica. Compartilhamos o entendimento de Mauro Guimarães (2007) e de Marcos Reigota (2009), no qual a educação ambiental deve revelar as contradições sociais e ambientais e buscar uma justiça social e ambiental. O social e o ambiental estão intimamente relacionados e não é possível atingir um ponto sem tratar do outro. Essa noção está contramão do senso comum, onde a educação ambiental é vista como sinônimo de fauna e flora sem a presença do homem e é praticada apenas em datas especiais como, por exemplo, o dia da árvore ou a nova moda a hora do planeta. Como inspiração para o nosso PEA foi utilizada a experiência realizada na Universidade Católica de Brasília sob a coordenação de Genebaldo Freire Dias relatada no livro Educação e gestão ambiental (2006). 2.3 Diagnóstico e objetivos No primeiro momento foi fundamental realizamos o diagnóstico da pegada ecológica do colégio. Longe de propostas e modelos prontos que vem de cima para

5 baixo e de fora para dentro, o PEA foi concebido a partir do diagnóstico dos problemas encontrados pela comunidade escolar. Para a elaboração do diagnóstico foram feitas reuniões com os funcionários, professores e, por último, alunos com o intuito coletarmos o maior número de problemas encontrados no colégio. O público alvo no primeiro momento foram os funcionários. As práticas ambientais inadequadas realizadas pelos funcionários (equipe de limpeza, secretárias, equipes de pessoal e pedagógica, professores, direção, etc.) dentro e fora da escola devem acabar ou ao menos serem drasticamente reduzidas. Não adianta apresentarmos um belo PEA para nossos estudantes com os próprios funcionários fazendo errado. Frase do tipo o funcionário/professor tal não faz assim mostra a distância entre a teoria e a prática e pode colocar em risco o próprio projeto. No processo de diagnóstico os principais problemas apontados foram: - Lâmpadas acessas nas salas de aula quando as mesmas não estão sendo utilizadas. O colégio possui uma rede elétrica antiga e muitas salas não possuem um local para acender e apagar as luzes, o que dificulta um maior controle do consumo de energia; - No banheiro algumas torneiras e vasos sanitários apresentam vazamentos. E, infelizmente, alguns alunos (se assim podemos chamá-los) deixam as torneiras abertas ou até mesmo as quebram; - Um colégio com quase alunos produz uma grande quantidade de resíduos. Com destaque para o elevado consumo e até desperdício de copos descartáveis. Apesar do elevado potencial, nenhum resíduo é destinado ao Programa Coleta Seletiva Solidária;

6 - Nas salas de aula, nas áreas comuns e no pátio encontramos com facilidade embalagens de alimentos e papéis espalhados pelo chão. Em alguns pontos faltam coletores; - A quantidade de papel consumido é muito grande. Para piorar, raramente se utilizam os dois lados das folhas. Esse mau hábito gera um maior consumo de papel, ou seja, de recursos e resíduos, além de um maior gasto econômico; - Na cozinha a sobra de alimentos e o óleo algumas vezes são despejos de forma inadequada, ocasionando o entupimento da caixa de gordura e causando transtornos no pátio e gastos extras com o desentupimento. Após realizamos o diagnóstico do colégio, iniciamos a construção dos objetivos para reduzir a nossa pegada ecológica. Em vez de um projeto grande e bastante abrangente, optamos por realizar um projeto enxuto e reduzido, abordando uma pequena quantidade de questões, porém com pretensões gigantescas. A medida que os problemas enfrentados fossem sanados partiríamos para a solução de outros. Para eliminar ou ao menos reduzir nossa pegada ecológica foi proposto: - Não deixar as salas de aula acessa quando não houver aula, sobretudo nos turnos da manhã e tarde. Em caso de segurança, deixar apenas uma parte das lâmpadas acessa (caso do turno da noite); - Observar com maior regularidade a existência de vazamentos. Estudar a possibilidade de trocar as torneiras (numa fase posterior do projeto); - Abolir o uso dos copos descartáveis. Substituí-los por copos plásticos (por motivos óbvios não foi possível a troca por vidro). Incentivar que a comunidade escolar traga um copo ou garrafa de casa para o seu uso pessoal;

7 - Disponibilizar coletores de resíduos em diversas áreas da escola (sempre que possível com separador reciclável e orgânico); - Realizar um concurso de desenhos e frases para serem colados nos coletores de resíduos; - Utilizar com maior frequência os dois lados do papel e após o seu uso destinálo a reciclagem; - Abolir a fritura no dia a dia do colégio, sendo permitida apenas em datas especiais. Criar um ponto de coleta de óleo de cozinha para a fabricação de sabão (numa fase posterior do projeto); - Destinar os resíduos sólidos da cozinha para o Programa Coleta Seletiva Solidária. Após a realização do diagnóstico e dos objetivos, o dia 04 de abril de 2012 foi escolhido para a inauguração oficial do Projeto de Educação Ambiental: um mundo melhor começa na escola. 3. CONQUISTAS NOS 2 PRIMEIROS ANOS DO PEA O que dizer de um projeto que em menos de um ano de existência foi um dos dois selecionados a participar de uma atividade promovida pelo Instituto Estadual do Ambiente (Inea) durante a semana do Rio+20? Que foi selecionado para a gravação do Programa Globo Educação (da maior emissora de televisão do país)? Que recebeu homenagem da Câmara Municipal local (junto com outros dois projetos do colégio)?

8 Que foi convidado a participar de eventos em um clube de classe média e em uma das melhores escolas particulares da cidade? O suposto sucesso do projeto se deve mais a sua iniciativa do que aos seus resultados concretos. Alguns pontos positivos só puderam ser alcançados devido a concepção do projeto. As reuniões com funcionários e professores permitiram ver coisas que não conseguíamos ver sozinhos. Além de plantar uma semente de pertencimento ao projeto. Além das parcerias internas, foram feitas parcerias com outras instituições, em especial, com a Secretaria de Meio Ambiente e Defesa Civil da Prefeitura Municipal de Teresópolis e com o Instituto Estadual do Ambiente (Inea) do Governo do Estado do Rio de Janeiro. A prefeitura forneceu todo o suporte necessário para a destinação adequada dos resíduos sólidos que foram coletados e separados no colégio. Através da participação das profissionais da cozinha eram coletados, em média, duas gaiolas com resíduos por semana para doação ao Programa Coleta Seletiva Solidária existente na cidade. Através da reciclagem diversas famílias que antes viviam e trabalhavam dentro dos lixões agora vivem e trabalham com dignidade e segurança. Um exemplo concreto de que a questão ambiental vai muito além da fauna e flora. A questão ambiental também é social! A prefeitura e o Inea possibilitaram a visita de alunos do colégio ao Aterro Sanitário localizado no município e ao galpão onde é feita a separação do material reciclável pela cooperativa de catadores. Os dois parceiros também distribuíram material informativo sobre a coleta de lixo e participaram em palestras e eventos no colégio, sendo sempre solícitos as nossas dúvidas e chamados. O Inea ainda forneceu o transporte para a locomoção dos alunos em Teresópolis e no evento que ocorreu na cidade do Rio de Janeiro durante o RIO O Governo do Estado do Rio de Janeiro, paralelo ao nosso projeto, ofereceu um curso de capacitação para professores da rede estadual de ensino, através do Programa Educação Ambiental e Agenda 21 Escolar: Formando Elos de Cidadania, coordenado pela Universidade Estadual do Rio de Janeiro UERJ. Além da capacitação aos

9 professores, o programa foi muito importante para a formação de um grupo de alunos que possivelmente serão nossos futuros multiplicadores. Entre as conquistas do PEA podemos destacar: - A abolição dos copos descartáveis. Através dessa medida simples reduzimos um pouco a nossa pegada ecológica (consumindo menos recursos e gerando menos resíduos). Do ponto de vista econômico o colégio eliminou uma despesa mensal ao não precisar comprar mais copos descartáveis. Economia e meio ambiente podem e devem andar juntos; - Todos os resíduos não orgânicos da cozinha são doados ao Programa Coleta Seletiva Solidária realizado em Teresópolis. Em média duas gaiolas cheias de resíduos deixaram de ser lançadas no aterro sanitário local e passaram a gerar receitas para as famílias que fazem parte da cooperativa dos catadores. A participação das profissionais da cozinha nesse projeto foi surpreendente. Educação ambiental envolve mudança de valores e hábitos e não se limita a questões naturais ; - Uma maior sensibilização com a utilização do papel, que passou a ser utilizado dos dois lados com mais frequência por parte dos funcionários e professores. Após o seu uso, dos dois lados, o papel enfim recebe um descarte correto. Reduzir, reutilizar e reciclar: a maior forma de ensinar é através do exemplo; - A campanha realizada pelo colégio e a instalação de coletores separando os resíduos orgânicos e recicláveis reduziu a quantidade de resíduos no chão. Os funcionários encarregados pela limpeza afirmaram que a redução foi de cerca de 50%;

10 - O colégio apresentou e debateu com os estudantes e funcionários a importância do descarte adequado de pilhas e baterias e tornou-se um ponto coletor dos mesmos; - Foram instalados interruptores em todas as salas de aula do prédio anexo e realizadas melhorias na parte elétrica; - A redução de alguns custos possibilitou, juntamente com verbas extras, a modernização do auditório; - Em função do PEA, ganhamos uma doação de pequenos coletores de resíduos de uma empresa privada; - O Centro Universitário Serra dos Órgãos (UNIFESO) abraçou o PEA concedendo uma bolsa de monitoria para uma estudante do curso de Engenharia Ambiental e Sanitária auxiliar gerenciamento do projeto; - A sensibilização e o engajamento, em especial, de um grupo de alunos que possivelmente serão os nossos futuros multiplicadores. A participação é peça fundamental para o exercício da cidadania e para a construção de um mundo com justiça social e equilíbrio ambiental. Podem parecer poucas ações em dois anos, mas conscientemente nós optamos por iniciar o PEA com poucas ações e a medida que elas sejam concluídas ou atinjam determinado patamar nós avançaremos. Para isso é fundamental a busca de parcerias dentro e fora do colégio. 4. CONSIDERAÇÕES FINAIS

11 O PEA: um mundo melhor começa na escola buscou, desde a sua origem, dialogar com a comunidade escolar para juntos pensarmos nossos problemas, desafios e desejos. Em nenhum momento foi um projeto engessado. O que demandou bastante trabalho. Os resultados positivos, sobretudo a sua visibilidade, superaram a nossa expectativa e viabilizaram parcerias importantes para a melhoria do colégio e do projeto. Os erros e problemas ainda existentes mostram claramente que apenas iniciamos uma jornada. O PEA procurou desconstruir o senso comum sobre a temática ambiental (que simplifica a questão ambiental a fauna e flora, sem a presença do homem e de seu modelo de sociedade) nos debates com os estudantes. A sustentabilidade envolve justiça social e equilíbrio ambiental e não pode ser abordada apenas em datas comemorativas e de forma superficial e simplista. Quando bem planejado e executado, um PEA gera redução de consumo de recursos, energia e gastos financeiros. E mesmo que inicialmente ocorra uma elevação dos gastos econômicos, o investimento tende a ser recuperado a curto, médio ou longo prazo. Economia e meio ambiente podem e devem andar juntos. 5. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS DIAS, Genebaldo. Educação ambiental: princípios e práticas. 9 ed. São Paulo: Gaia, 2004 (75-92). Educação e Gestão Ambiental. São Paulo: Gaia, GUIMARÃES, Mauro. Educação ambiental: no consenso um embate? 5 ed. Campinas: Papirus, 2007 (67-85). IBGE. Plataforma cidades Dados de Teresópolis Disponível em: - Acesso em: 13/01/2013.

12 PEREIRA, Luiz Antônio. A maior tragédia ambiental do Brasil: aspectos físicos e humanos no município de Teresópolis RJ. In: Anais da Segunda Convención Internacional: Geografía, Medio Ambiente y Ordenamiento Territorial, Havana CUBA, REIGOTA, Marcos. O que é educação ambiental. 2 ed. Revista e ampliada São Paulo: Brasiliense, 2009 (11-19). TRIGUEIRO, André (coord). Meio ambiente no século 21: 21 especialistas falam da questão ambiental nas suas áreas de conhecimento. 4ed. Campinas: Armazém Ipê (Autores Associados), 2005.

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