ISSN REVISTA DA ASSOCIAÇÃO PSICANALÍTICA DE PORTO ALEGRE N 25 Outubro 2003 VARIANTES DA CURA

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1 ISSN REVISTA DA ASSOCIAÇÃO PSICANALÍTICA DE PORTO ALEGRE N 25 Outubro 2003 VARIANTES DA CURA

2 ISSN R454 REVISTA DA ASSOCIAÇÃO PSICANALÍTICA DE PORTO ALEGRE / Associação Psicanalítica de Porto Alegre. - n 25, Porto Alegre: APPOA, 1995, Absorveu: Boletim da Associação Psicanalítica de Porto Alegre. Semestral ISSN Psicanálise - Periódicos. Associação Psicanalítica de Porto Alegre CDU: (05) (05) CDU: REVISTA DA ASSOCIAÇÃO PSICANALÍTICA DE PORTO ALEGRE EXPEDIENTE Publicação Interna Ano X - Número 25 - Outubro de 2003 Título deste número: VARIANTES DA CURA Editores responsáveis: Lúcia Mees e Valéria Rilho Comissão Editorial: Beatriz Kauri dos Reis, Inajara Erthal Amaral, Lúcia Alves Mees, Marieta Rodrigues, Otávio Augusto W. Nunes, Valéria Machado Rilho e Siloé Rey Colaboradores deste número: Adão Luiz Lopes da Costa, Maria Auxiliadora Pastor Sudbrack, Maria Rosane Pereira Pinto e Marta Pedó Revisão de português: Noili Demamam Capa: Cristiane Löff Linha Editorial: A Revista da Associação Psicanalítica de Porto Alegre é uma publicação semestral da APPOA que tem por objetivo a inserção, circulação e debate de produções na área da psicanálise. Contém estudos teóricos, contribuições clínicas, revisões críticas, crônicas e entrevistas reunidas em edições temáticas e agrupadas em quatro seções distintas: textos, história, entrevista e variações. ASSOCIAÇÃO PSICANALÍTICA DE PORTO ALEGRE Rua Faria Santos, 258 Bairro: Petrópolis Porto Alegre / RS Fone: (51) Fax: (51) Home-page: Bibliotecária Responsável: Ivone Terezinha Eugênio CRB 10/1108

3 VARIANTES DA CURA

4 SUMÁRIO EDITORIAL...07 TEXTOS O sentido da vida The Meaning of Life Eda Tavares Reflexões sobre a psicanálise com crianças na contemporaneidade...18 Reflections on Child Psychoanalysis Nowadays Ana Marta Meira Psicanálise de crianças na instituição pública: direção da cura ou direção do paciente? Child s Psychoanalysis in the Public Institution: Direction of the Treatment or Direction of the Pacient Ieda Prates da Silva Clínica das psicoses: armadura simbólica The Direction of the Treatment in the Psychosis Clinic Symbolic Armor Maria Ângela Bulhões Observações sobre a direção do tratamento em um caso de esquizofrenia Remarks on the Direction of the Treatment in a Case of Schizophrenia Nilson Sibemberg O nome próprio e sua invenção The Proper Name and its Invention Mario Fleig O corpo e a direção da cura The Body and the Direction of the Treatment Luciane Loss Jardim e Adão Luis Lopes da Costa A histeria e o ressentimento The Hysteria and the Resentfulness Maria Rita Kehl A direção da transmissão em psicanálise passes e impasses na formação do analista The Direction of the Transmission Passes and Impasses in the Psychoanalytical Training Jaime Betts RECORDAR, REPETIR, ELABORAR Elasticidade da técnica psicanalítica (1928)...95 The Elasticity of Psychoanalytical Technique Sàndor Ferenczi ENTREVISTA Conversa com colegas de Bonneuil A Dialogue with Peers from Bonneiul Marie José Lérès e Carole Dubus VARIAÇÕES Escrita da clínica e transmissão da psicanálise Clinical Writing and Psychoanalysis Transmission Simone Moschen Rickes Escre-pintando a clínica Scripainting the Clinic Luciana Loureiro Para uma interlocução (a propósito da castração) Towards a Dialogue (Concerning Castration) Ricardo Goldenberg

5 EDITORIAL O que se espera de uma análise, afinal? Em tempos tão científicos nem por isso menos religiosos a crítica a um ideal de cura feita por Lacan em 1966, no texto Variantes do tratamento-padrão, mantém mais do que nunca todo seu vigor: uma análise é terapêutica? Conduzir uma análise orientada por um padrão curativo é submeter o analisante a um analista ideal, mestre que sabe sobre o gozo. Nesse sentido, não é mera coincidência que, numa época de vertiginoso avanço da Ciência, possamos contar aliviadamente com o especialista certo para a doença certa. Para cada parte do corpo que insiste em dar sinais de fracasso, dispomos do correspondente corpus médico especializado. Caberia perguntar: fracasso de quem? A alusão à diversidade que a palavra variantes evoca ironicamente joga com o equívoco neurótico de ali, onde não há senão um saber inerente à linguagem reconhecido como o inconsciente pelos psicanalistas corporificar um mestre do gozo através do oferecimento sintomático ao pai ou especialista. Certamente não é à toa que serão justamente as clínicas que fogem ao modelo neurótico aquelas que mais vivamente interrogam o ideal de cura de uma análise. Isso pode ser vislumbrado quando vemos questionada a pertinência e o sucesso da psicanálise na clínica com crianças, com psicóticos, com toxicômanos, com deprimidos, entre outros. Ou, então, quando o acento, ao invés de recair sobre o quadro sintomático, detém-se sobre o lugar onde a prática psicanalítica é exercida, como nas instituições, por exemplo. O que as especificidades clínicas dão a ver, mais abertamente que a 7

6 EDITORIAL clínica da neurose, é algo comum a toda e qualquer uma: toda análise é sempre específica, porque feita uma a uma. Para um analista, é sempre uma outra, por mais experiência e formação teórica que ele possua. A esse propósito, lembramos que Freud nunca deixou de ressalvar, a cada novo caso clínico apresentado, que as elucidações elaboradas a partir desse serviram apenas para orientar essa análise em particular e não poderiam ser aplicadas nem estendidas a outras em geral. O que, a bem dizer, não o impedia de avançar na construção do corpo teórico da Psicanálise partindo da escuta do um a um. Isso permite concluir que a clínica é diversa, mas sempre pautada por uma e mesma ética, a do desejo. Ética, essa, que, na condução de uma cura, principia pelo desejo do analista, despido de seu saber e de seu afã em sarar, para ser desejo de nada: abertura para a escuta do desejo do analisante, desejo intransitivo, porém decisivo para o destino que se traçará. A bússola da capa, assim, não poderia indicar uma orientação fixada de antemão, e sim apontar para a direção que se delineia a partir da ética da Psicanálise, necessariamente singular. 8

7 TEXTOS O SENTIDO DA VIDA Eda Estevanell Tavares * RESUMO A posição do fantasma na infância não é a mesma daquela na vida adulta. Disto decorre que exista uma especificidade da clínica com crianças. O presente artigo pretende abordar algumas destas especificidades na direção da cura do tratamento de crianças. PALAVRAS-CHAVE: sintoma; transferência; interpretação; filiação; sentido THE MEANING OF LIFE ABSTRACT The position of the fantasy in childhood is not the same as the same as the one in the adult s life.from that follows a specifidity in the clinic with children. This article intends to appoach some of these specificities in the direction of the treatment of children. KEYWORDS: symptom; transference; interpretation; filiation; sense * Psicanalista, membro da Associação Psicanalítica de Porto Alegre, especialista em Psicologia Clínica. 9

8 TEXTOS O tratamento psicanalítico com crianças desde seu início vem carregado de questionamentos e controvérsias. O primeiro caso de psicanálise de uma criança foi o do pequeno Hans. Sua análise foi conduzida em conjunto pelo pai do menino e Freud, situação esta já das mais inusitadas. Freud que via com cautela as intervenções com crianças, considerou a de Hans possível justamente por esta conjunção pai/ analista; e respirou aliviado quando mais tarde encontrou o jovem Hans, então com 19 anos, saudável e normal, contrariando os vaticínios da comunidade analítica da época. A conjunção pai/analista trazia à tona um dos impasses que se colocava na análise de crianças. Justamente, a relação primordial de uma criança com seus pais na medida em que ela é fundante do sujeito colocava problemas como a possibilidade de uma criança entrar em transferência com seu analista e o que poderia vir a privilegiar a relação com este, se a relação fundamental do filho gira ao redor dos pais. Seria legítimo o analista ocupar o lugar privilegiado de destinatário de sua neurose? Por outro lado, a dificuldade da criança de sustentar o tratamento através da palavra e da associação livre colocava novos impasses sobre a técnica (utilizar ou não brinquedos, desenhos, massa de modelar). Estas questões determinaram uma celeuma infindável entre Anna Freud e Melanie Klein e uma vasta produção teórica tentando dar conta de posições que permaneceram opostas até o fim. O que todas estas controvérsias conseguiram colocar em evidência, é que, se na psicanálise se trata do sujeito do inconsciente, a posição que ocupa o inconsciente não é a mesma na infância e na vida adulta. Freud [1908 (1980)] mesmo colocou a questão da debilidade do recalque na infância quando, na consideração sobre os sonhos infantis, demonstrou o quanto estes são mais explícitos do que os dos adultos no que se refere aos conteúdos inconscientes. A direção da cura na análise de crianças como vemos abre uma série de questões que constituem a especificidade da psicanálise de crianças, uma vez que no sujeito do inconsciente na infância, apesar de ser um sujeito dividido como o adulto, a posição do fantasma não é a mesma. Propomonos, então, abordar entre estas questões algumas que consideramos cruciais. Falar de cura implica falar de sintoma. Mas no caso da infância se trata de um sintoma do qual quem se queixa, em geral, não é quem o padece: são os pais quem se queixam, enquanto a criança padece e é arrastada até o analista. Que sintoma é esse? De quem é? Quem precisa ser tratado? Para Lacan, o sintoma da criança não é mais do que o representante de três verdades: a verdade do casal parental, a verdade do fantasma da mãe 10

9 O SENTIDO DA VIDA e aquela de seu desejo quando seu filho encarna o objeto (1997). Assim concebido o sintoma da criança, poderia ser equivalente, como adverte Alfredo Jerusalinsky (1997), à substituição da análise do filho pela análise dos pais. O inconsciente do filho seria apenas uma extensão das fantasias parentais. Por este viés deslizaram em certo momento analistas do calibre de Maud Mannoni, como se pode perceber em seu livro A primeira entrevista em psicanálise (1981). Mas, retomando Jerusalinsky, por que uma criança fica constrangida a responder de modo tão imperativo à demanda parental? A razão de tal constrangimento reside em que o saber sobre o mundo provem desse Outro Primordial, verdadeiro instalador das marcas iniciais que orientarão os primeiros passos da criança. Esse pivô tem um preço: responder à demanda dos pais. É essa resposta a única moeda com que a criança pode negociar e ao mesmo tempo garantir a continuidade desse saber. Mas, ao mesmo tempo, do outro lado, os pais formatam esse saber de acordo com seu narcisismo. Assim a sexuação, as identificações e a filiação da criança devem responder àquilo que o desejo dos pais define como ideal do eu. É evidente que nessas formações inconscientes todas as falhas de destino dos pais virão a figurar pelo avesso, ou seja, de forma denegada. Essa denegação no fantasma é o que prepara o terreno do sintoma da criança, na medida em que os pais lhe demandam que ofereça provas já, no presente imediato, de sua condição para responder a esses ideais. A bagagem com a qual a criança conta para responder a tal urgência de oferecer prova hoje de sua posição na sexuação, ser homem ou mulher quando ainda não pode sustentar em ato tais identidades, se restringe, pela sua pequena constelação de significantes, àqueles que lhe são oferecidos pelos representantes privilegiados do Outro em sua vida: seus pais. Enquanto na filiação a criança depende das inscrições prévias para encontrar o valor simbólico de seus atos, as identificações formas de se representar no discurso derivam inevitavelmente dos traços oferecidos nas relações primárias. Porém, tal nível de determinação antecipada tropeça na incerteza dos mesmos pais, que demandam, paradoxalmente, algo novo no filho. Tem a sua lógica: se não houver algo novo nele, a repetição do fracasso será inevitável. Tal a origem do desejo e a curiosidade pelo desconhecido que caracteriza a criança que produz o sinthome com o qual escapa da repetição do fantasma parental. Mas quando a criança tem que responder ao ideal parental hoje, ou seja, se ela não for transicional para os pais, responderá com o real da imagem ao que falta no real, fará um symptôme, não um sinthome (Jerusalinsky, 1997). Se a demanda dos pais pede que a criança responda com seu corpo 11

10 TEXTOS ao ideal, o Nome-do-Pai não pode ser metaforizado e, portanto, não poderá produzir na cadeia significante da criança um novo sentido que possa vir a representá-la no discurso social. Há uma precipitação do significante em um único sentido, e se interrompe o deslizamento de sentido (sua extensão) na cadeia significante. A partir do nome-do-pai, a pequena criança será marcada com o ponto de partida, no qual o sujeito fundará sua identidade. Esse outro que sustenta o Nome-do Pai não é um outro qualquer, não é o outro do cuidado corporal, do aconchego, ou o que oferece o objeto da satisfação; é o Outro do discurso social e que situa o sujeito na cadeia significante que caracteriza essa cultura. É por isso que constitui um problema fundamental para todo sujeito como se representar no discurso. Se a criança faz seu sintoma, a análise dos pais não equivale à análise da criança, mas o papel dos pais não é irrelevante, como considerava Melanie Klein. Para ela, os pais só eram consultados para informar como na família eram denominados os órgãos genitais, o que, paradoxalmente, mostra o quanto é a constelação significante familiar que norteia uma criança. Martine Lerude, em seu artigo Pela felicidade das crianças ou como a terapia de crianças pode algumas vezes permitir o crescimento dos pais (1993), trabalha justamente esta questão e demonstra o quanto a análise do filho pode ajudar os pais, assim como a análise dos pais pode ajudar seu filho, na medida em que são para ele os representantes do Outro. Por outro lado, se a constelação significante da qual se serve uma criança pequena vem de seus pais, enquanto representantes do Outro, como, então, uma análise com uma criança que ainda não fala, ou fala muito pouco, pode se sustentar sem a participação dos pais? Aquilo que definirá a participação ou não dos pais no tratamento de seu filho não pode ser uma regra pré-definida. Dependerá de que posição, como representantes do Outro, eles sustentam na relação com seu filho: se colocam em cena um Outro inconsistente, tirânico, indiferente ou invasor (Jerusalinsky, 1997). O analista tem que ter claro quem é este Outro que participará do tratamento da criança e não apenas estas figuras de carne e osso chamadas de pais. É a partir disto que definirá a participação ou não deles no tratamento. A criança, pela necessidade de se sustentar de um saber que vem de Outro, coloca todo adulto numa posição de suposto saber. Assim, a criança está em transferência desde sempre e muito antes de chegar ao consultório do analista. Erik Porge (1998) sublinha que as neuroses da criança são neuroses de transferência. O papel do adulto, desde sua encarnação do Outro, é 12

11 O SENTIDO DA VIDA permitir que a transferência da criança possa vir a se enlaçar no discurso social. Erik Porge (1998) define a falha no cumprimento deste papel como uma ruptura na transmissão do saber. Diz ele: A perturbação na criança vem manifestar um ponto de ruptura naquilo que, de um saber familiar, por causa de seu poder captador, não é mais transmissível ao grupo social. Não é mais transmissível à maneira de um chiste, ou seja, daquilo que ultrapassa a barreira de uma relação dual para se produzir em um lugar terceiro (1998, p.12). A neurose da criança eclode quando aquele que está incumbido de fazer passar socialmente a mensagem familiar claudica em sua função de sujeito suposto fazer passar. Assim, seguindo o autor, podemos concluir que o papel dos pais é de serem bons passadores 1 deixando que a mensagem de seu filho encontre um endereçamento no social. Quando se rompe a transferência da criança com o Outro do discurso social, quando os pais não puderam ser passadores dela, é que se justifica uma análise com uma criança. E o papel do analista será o de re-estabelecer esta transferência que se apresenta paralisada no sintoma. Dar conta de tal transferência, coloca o analista em seu afazer, a interpretar o que ali fez obstáculo, permitindo destrancar a série significante do pequeno sujeito para que esta possa vir a conduzi-lo a encontrar um modo de se representar no discurso. É por isso que o grau de polivalência semântica de que uma criança pode se utilizar e o grau de extensão simbólica de sua constelação de significantes, são sinais de que a análise com uma criança pode estar chegando ao seu final. Para existir, isto é, para sair do caos e se desvencilhar desse Outro que a enleia nas redes de seu desejo, ela (a criança) tem que compreender, ou seja encontrar a ordem do mundo e o caminho de seu próprio desejo (Cordié, 1996, p.131). Essa ordem do mundo implica um significado, um sentido na dupla acepção de compreensão e direcionamento do qual a criança precisa se apropriar e, em certa medida, inventar. É isso o que ela tenta no seu brincar: criar sentidos novos partindo dos significantes que lhe foram oferecidos. Mas quando se trata de uma criança com problemas, seguramente, o Outro que está ali personificado sejam os pais, os professores, os personagens próximos ao seu drama familiar o está de modo a fazer obstáculo. A criança já tropeça, pela condição infantil do sujeito, com a curta extensão de sua cadeia significante, o que lhe causa dificuldades para essa 1 Erik Porge refere como passar a transferência para os bastidores e de ser um bom entendedor. 13

12 TEXTOS necessária produção de novos sentidos. Se, ainda por cima, o analista no seu afazer colocar o apagamento de todo o significado, como no caso da análise de adultos, poderá confrontar a criança com a angústia de um vazio sem saída. Para uma criança, o que está em questão na sua estruturação subjetiva é a constituição de seu sinthome e de seu fantasma. Esvaziar o significante de todo significado, se, por um lado, lhe permite que se desmanche o que ficou precipitado e obstaculizando a cadeia associativa, por outro, não permite que o Nome-do-Pai adquira consistência. A chave está em que os significantes do Nome-do Pai são os que representam a filiação, e é ela que permitirá que todo significante novo venha a produzir sentido. Sabemos, a partir das Teorias sexuais infantis assinaladas por Freud [1908 (1980)], que todo conhecimento, todo encontro com o novo surge como corolário de um processo de procura de um significante que responda à interrogação sobre a origem. É a referência a este ponto de origem que permitirá distinguir o velho do novo. Será caracterizado como um significante novo, se vier a se inserir na cadeia significante de sua origem, porque é nela que o sujeito encontra os significantes onde pode se reconhecer e suportar o estranhamento que este novo significante provoca. Se não é possível esse reconhecimento, o sujeito pode ficar à beira da loucura: Esse é o cerne do sintoma de tudo que é humano: o pêndulo entre a imperiosa necessidade do novo para manter vivo nosso desejo, e o incessante retorno ao ponto de nossa origem para reencontrar nossa identidade (Jerusalinsky & Tavares). 2 Na clínica, é evidente a problemática que se introduz para sujeitos que não podem se indagar sobre suas origens, que precisam por alguma razão negar seu passado. Tais são os casos de filhos adotivos, por medo da perda do amor dos pais adotivos ou porque esta verdade sobre sua origem lhes é interditada; ou casos em que, por terem pais em falha social grave, que abandonam, abusam, agridem, seus filhos se vêem impelidos a negar sua filiação. Se esperamos viver não só cada momento, mas Ter uma verdadeira consciência de nossa existência, nossa maior necessidade e mais difícil realização será encontrar um significado em nossas vidas. (...) apenas na idade adulta podemos obter uma compreensão inteligente do significado da própria existência neste mundo a partir da própria experiência nele vivida (...) a criança deve 2 Texto Crise, publicado na Web no site da Produtora Zeppelin. 14

13 O SENTIDO DA VIDA receber ajuda para que possa dar algum sentido coerente ao seu turbilhão de sentimentos. Necessita de idéias sobre a forma de colocar ordem na sua casa interior, e com base nisso ser capaz de criar ordem na sua vida (Bettelheim, 1980, p. 11/13). Ou seja, uma criança não tem ainda uma constelação significante suficiente para ter a confiança de que sua palavra será reconhecida pelo discurso social, além das já conhecidas, e se lançar no novo. Criar e descobrir, para uma criança, depende de se sentir segura de vir encontrar um ponto de reconhecimento. Assim, se coloca a questão para os analistas de crianças: o que na transferência lhe dará essa confiança? Bruno Bettelheim aponta um caminho. Diz ele: Como educador e terapeuta de crianças gravemente perturbadas, minha tarefa principal foi a de restaurar um significado na vida delas (...) Com respeito a esta tarefa, nada é mais importante que o impacto dos pais e outros que cuidam da criança; em segundo lugar vem nossa herança cultural, quando transmitida à criança de maneira correta. Quando as crianças são novas, é a literatura que canaliza melhor este tipo de informação (1980, p. 12). Ele se ocupou vastamente deste tema ao trabalhar os contos de fadas. No campo da clínica e sobre nossa questão, o que nos interessa pensar é sobre a posição do saber que é oferecido às crianças nessas histórias; como refere Bettelheim (1980), um saber transmitido de maneira correta. Trata-se de pensar que tipo de interpretação da vida fazem os contos de fadas que podem permitir às crianças a criação de um sentido próprio para suas vidas; sentido, aqui como um direcionamento, e não a precipitação em um significado. Essa literatura infantil é destinada a permitir à criança a produção de um sentido. Elas colocam em cena, através do imaginário, significantes numa posição tal que lhes permite elaborar algum saber sobre os enigmas da vida. As narrativas dessas histórias sugerem soluções, mas nunca as explicitam; isto caberá, por identificação, a cada pequeno leitor. Essa duplicidade da mensagem de sugerir um saber, mas que não é acabado nem conclusivo, permite à criança inverter a demanda do Outro, produzir um saber próprio que lhe possibilite lidar com o monstro com a garantia de achar um desfecho feliz, acenando com o final da infância e a promessa do gozo sexual da vida adulta. Promessa enganosa que será desmascarada na adolescência, detonando toda a revolta que lhe corresponde, mas que cumpre seu necessário papel na infância: suportar a condição de pequeno polegar num mundo de ferozes e famintos gigantes. 15

14 TEXTOS O trabalho de um analista de crianças também precisa sustentar na transferência o lugar que permitirá a produção de um novo sentido. Esvaziase um, mas para produzir outro que possibilite ao pequeno sujeito encontrar um ponto de reconhecimento, a partir do qual ele dê mais um passo adiante na sua cadeia significante. Em um artigo que escrevi, sobre literatura infantil (Tavares, 1998), utilizei, para concluir um poema de José Paulo Paes sobre a Vida de sapo, exemplar do saber necessário na infância e da posição do significante, certamente um belo poema para finalizar um artigo sobre a direção da cura na infância. O sapo cai Num buraco E sai Mas noutro buraco Cai O sapo cai Num buraco E sai Mas noutro buraco Cai É um buraco A vida do sapo É um buraco Buraco pra lá Buraco pra cá Tanto buraco enche o sapo REFERÊNCIAS BIBLIOGRAFICAS 16 BETTELHEIM, Bruno. A Psicanálise dos contos de fadas. Rio de Janeiro: Paz e terra, CORDIÉ, Anny. Os atrasados não existem. Porto Alegre: Artes Médicas, FREUD, Sigmund. Escritores criativos e devaneios1908. In: Obras Completas. Rio de Janeiro: Imago, Sobre as teorias sexuais das crianças In: Obras Completas. Rio de Janeiro: Imago, JERUSALINSKY, Alfredo. Sintomas de infância. In: Sintoma da Infância. Revista da Associação Psicanalítica de Porto Alegre, número 13, LERUDE, Martine. Pela felicidade das crianças ou como a terapia de crianças pode algumas vezes permitir o crescimento dos pais. In: RIO, Ângela Baptista do. Do pai e da mãe.coleção Psicanálise da criança. Salvador, Álgama, 1993 MANNONI, Maud. A primeira entrevista em psicanálise. Rio de Janeiro: Campus,1981.

15 O SENTIDO DA VIDA PORGE, Erik. A transferência para os bastidores. In: A criança e o psicanalista. Revista Littoral. Rio de Janeiro: Companhia de Freud, TAVARES, Eda. No reino dos pequeninos. In: Psicanálise e literatura. Revista da Associação Psicanalítica de Porto Alegre, número 15,

16 TEXTOS REFLEXÕES SOBRE A PSICANÁLISE COM CRIANÇAS NA CONTEMPORANEIDADE Ana Marta Meira * RESUMO O presente trabalho tem como eixos questões que se revelam na psicanálise com crianças na sociedade contemporânea. Neste âmbito, a crescente objetalização que rege o social encontra-se em jogo no processo analítico, sendo que a demanda dos pais dirigida ao analista, é marcada pela mesma. A busca de dar sentido aos sintomas do filho é imperativa e consonante com o discurso social vigente. Dar lugar à palavra, ali onde esta encontra-se apagada é trabalho a perfazer em contraponto às exigências imperativas de eficácia e perfeição, ideais sociais contemporâneos. PALAVRAS-CHAVE: psicanálise; crianças; discurso social; contemporaneidade; infância REFLECTIONS ON CHILD PSYCHOANALYSIS NOWADAYS ABSTRACT The present work has for axes questions that are unveiled in the psychoanalysis with children in contemporary society. In this scope, the growing objectalization that rules the social is at stake in the analytical process, leaving its marks in the parents demand towards the analyst. The search to give meaning to the child s symptoms is imperative and consonant with the social discourse in force. To give rise to the word, there where it is faint, is work to be done as counterpoint to the imperative demands of efficiency and perfection, contemporary social ideals. KEYWORDS: psychoanalysis; children; social discourse; contemporaneity; childhood 18 * Psicóloga, Psicanalista, Membro da Associação Psicanalítica de Porto Alegre. Organizadora do livro Novos Sintomas, Salvador: Ágalma, Coordenadora do Boquinha, grupo de meninos e meninas de rua, ligado ao jornal Boca de Rua.

17 REFLEXÕES SOBRE A PSICANÁLISE... Não se quer dizer, no entanto, que nossa cultura se desenvolva entre trevas exteriores à subjetividade criadora. Esta, pelo contrário, não cessou de militar nela para renovar o poder nunca esgotado dos símbolos no intercâmbio humano que os tira a luz. (Lacan, 1987, p.274) Apsicanálise com crianças apresenta uma particularidade que a diferencia ali onde a transferência se instala: a escuta dos pais. Realizada desde as entrevistas preliminares, ela é marcada por uma posição que remete à história familiar e aos ideais que fundam a subjetividade. Ao buscar tratamento para seu filho, via de regra os pais insistem em dizer que já fizeram tudo o que podiam por ele, que não sabem mais o que fazer para acabar com a angústia revelada nos sintomas que oscilam entre a depressão e a agitação, o isolamento e a agressividade, entre outros. Ao analista é dirigida a demanda imperativa de responder, de forma imediata, ao desejo de cura dos sintomas, a compreender todos os atos da criança, a realizar um diagnóstico preciso e inequívoco, a planejar formas de intervenção eficazes e de rápido efeito, tudo em prol da saúde e perfeição, vigentes no discurso social contemporâneo como índices de normatização. Para isto, muitas vezes, os pais realizam tratamentos alternativos paralelos, em que os medicamentos vêm a cobrir a angústia que o não-saber sobre seu filho provoca. A especularização com o discurso social vigente, que obtura a angústia com pautas comportamentais, sugestões e medicamentos, é uma das vias mais freqüentes que se revelam na demanda dirigida ao analista, à qual, obviamente, o analista não responde. Que seu filho não se confronte com a falta, que não agrida, não chore, durma bem, se alimente com rigor, saiba se vestir sozinho, não adoeça, se ocupe, são algumas das falas dos pais, remetidas ao ideal de perfeição que marca sua relação. Em Infância do Sintoma, Charles Melman aponta que se espera da criança que realize um ideal negador da castração, ou seja, o impossível: Considerando essa exigência que vem da parte desses Outros reais que são os pais reais, podemos imediatamente compreender como a falta de cumprimento deste ideal é, de certo modo, o que vem a manter a criança nesse pouco de liberdade subjetiva, nessa pequena margem que a protege de uma alienação realizada. (Melman, 1997, p.20) Martine Lerude, em Pela felicidade das crianças, escreve: Seguramente existe na demanda dos pais não somente uma demanda inconsciente que concerne ao seu próprio sintoma, mas 19

18 TEXTOS também ao sintoma social, ao sintoma generalizado pelo imaginário coletivo, pelo imperativo que este imaginário prescreve. (Lerude, 1998, p.135) Há que se pensar a respeito do estatuto do simbólico e do lugar que os ideais ocupam na contemporaneidade. Ou seja, a demanda dos pais encontra-se hoje na confluência com o discurso social, como aponta Anne Marie Hammad em seu ensaio A criança é o pai do homem: Interroguemos, pois, os termos que designam os sintomas mais freqüentemente evocados há alguns decênios: por um lado, o stress, a agitação, a instabilidade 1 e, há um certo tempo, sobretudo no nível de adolescentes, e até mesmo de crianças cada vez mais jovens, a violência; por outro, a depressão servindo de depósito e de álibi para o tratamento medicamentoso imediato, porque estamos em uma sociedade em que é preciso, a qualquer preço, estar em forma! As diversas formas de dependência aditiva respondem da mesma maneira a esses sintomas que não se falam de saída, talvez muito simplesmente porque se trata de encontrar ou de reencontrar um sistema de decodificação que nos escapou, porque ele está particularmente submetido ao recalque. (Hammad, 2003, p ) Ao mesmo tempo, referindo-se às transformações dos lugares paterno e materno que revelam-se nas famílias recompostas ou nas chamadas famílias monoparentais 2, a autora aponta que ninguém pretenderá que se trate, neste caso, de constelações inconscientes novas, no encontro de casais. O que é novo é que estas posições se acham consagradas no discurso social. (Hammad, 2003, p.19) Basta abrirmos os jornais, ligarmos a televisão, transitarmos pela cidade para constatar que os ideais vigentes hoje elevam ao mais alto grau o imediatismo e a constante mutabilidade do laço social. A permanência, o tem O estudo publicado pelo Journal of the American Medical Association revela que, entre 1991 e 1995, o número de receitas prescrevendo estimulantes do tipo Ritalina a crianças de dois a quatro anos triplicou; o número de receitas prescrevendo a elas antidepressivos dobrou e o recurso à clonidina, um medicamento geralmente utilizado para as hipertensões, aumentou grandemente, para tratar a insônia ligada aos transtornos da atenção na criança pequena (Le Monde, ). (Hammad, 2003, p. 14) 2 O termo monoparental é apontado por Anne Marie Hammad como sendo operador da exclusão do pai em sua própria enunciação: Ser uma família monoparental tornou-se uma norma que apaga a presença do outro pai no discurso. Na grande maioria dos casos, o lugar apagado é o do pai, demissionário ou ejetado. (Hammad, 2003, p.18)

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