"Os Emigrantes" Texto escritos por alunos do 7º ano (Professora Rute Melo e Sousa)

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1 "Os Emigrantes" Texto escritos por alunos do 7º ano (Professora Rute Melo e Sousa)

2 Estava um dia lindo na rua. O sol brilhava como nunca brilhou, e, no cais, havia muitas pessoas As pessoas estavam tristes e com medo do que iriam encontrar nos Estados Unidos. Só de pensar que aquela multidão vai deixar as suas famílias, fico desiludida. Em S. Miguel, há muitas pessoas com dinheiro e com trabalho Como eu! Mas isto não significa que aqueles que têm menos do que nós não tenham hipóteses de trabalho. Estou aqui, no meio de pessoas desesperadas: uns estão a despedir-se e outros a pensar sobre a sua vida. Uma criança não precisa de ver uma paisagem infeliz, como esta, mas precisa de crescer com um pai ao seu lado para a acompanhar em todas as etapas da sua vida.

3 Laranjas, uma viola da terra e um quadro do Senhor Santo Cristo, também estão presentes no meio da multidão. É bom ver que as pessoas reconhecem o que pertence à sua terra. Mas, simplesmente, estou a dizer que estas pessoas estão tristes porque vão para outro país, porém nunca vou precisar de fazer muito esforço para conseguir o que quero Tenho uma casa, um trabalho e, principalmente, tenho uma família unida. Neste momento, já estão a entrar nos barcos com as laranjas, com a viola e com o quadro do Senhor Santo Cristo. Espero que sejam felizes nos Estados Unidos! Beatriz Jorge 7º Ano, Turma B

4 Era uma sexta-feira de sol de 1922, e lá estava eu metida naquele cais, à espera do barco que nos ia levar ao navio. Naquele momento a única família que tinha era o meu avô. Os meus pais já se tinham despedido de nós e a minha avó ficara doente em casa. Durante aquela espera, eu não parava de olhar para as outras pessoas que se despediam dos familiares. A tristeza nas suas caras pairava sobre a minha alma. O meu avô também não parava quieto. Estava sempre a dizer que eu já era crescida e que não era preciso gastar mais dinheiro com o bilhete dele. Com tantos pensamentos na cabeça não prestei muita atenção ao que ele disse.

5 Mais tarde, ainda durante a época de despedidas, apareceu uma senhora que parecia ser doutro planeta. Toda bem vestida, de sapatos finos e com ar sofisticado. Porém a tristeza via-se na sua cara. Passou meia hora e, finalmente, o barco chegou. Assim que subi a bordo, só conseguia pensar no que o futuro me reservava, na vida que ia deixar para trás, a minha cabeça estava prestes a explodir. Mal pus o pé no navio, senti que iria tornar-me numa pessoa diferente. E quando a ilha começo a afastar-se cada vez mais, suspirei e parei de pensar por uns instantes. Até hoje, cada vez que olho para o quadro do Domingos Rebelo essa memória deprimente regressa ao meu pensamento. Carolina Vieira 7º Ano, turma B

6 Segunda-feira, 14 de setembro de 1972 Querido Pitty, Dia trágico que foi hoje! Não sabes porquê? Então vou contar-te o que aconteceu a 14 de setembro de Era eu uma criança, doce e contente, com uma família pobre, porém feliz. Um dia, uma nuvem atravessou o nosso caminho O meu pai sem trabalho, a minha mãe era dona de casa e eu não tinha um escudo para comprar um docinho. Passos muita fome! Estávamos desesperados com a vida.

7 O meu pai, uma tarde, disse que tinha de partir para a América. Iria mandar dinheiro para vivermos. Afirmou que nunca esqueceria a sua doce mulher e a sua maravilhosa filha Essas palavras marcaram-me eternamente, recheadas de saudades e medo que nunca mais o ouvisse. Então, naquele dia, fui-me despedir daquele velho rezingão, daqueles olhos que tinham uma história tão profunda como o mar e o sorriso que marcava a nossa memória para sempre.

8 Até hoje não voltou Sem notícias, sem nada! Caseime com homem rico e esbelto, mas muito humilde. Sou muito feliz, no entanto, com saudades O meu marido não sabe desta história, mas respeita a minha decisão.

9 Todos os anos, no dia 14 de Setembro, vou ao cais de Ponta Delgada recordar aquele homem que nunca voltou e que ainda tenho esperanças de voltar a ver No entanto, olho para todas aquelas lágrimas no chão do cais, todas as famílias que ainda ali passam e todas aquelas lágrimas no chão do cais, todas as famílias que ainda ali passam e toda a nossa cultura que é levada com eles. Bem. Hoje fui lá e precisava de desabafar contigo! Obrigada por me ouvires. Da tua Ana Ema Freitas 7º Ano, Turma B

10 Lá estava eu no cais a ver aquela miséria e aquelas famílias tão tristes a despedirem-se. Aquelas famílias só queriam ter um emprego. Se o marido arranjasse trabalho, a mulher e o filho embarcavam para se juntarem a ele. Se não arranjasse trabalho, provavelmente nunca mais ia voltar a ver a família e continuariam a viver na miséria e ainda mais tristes do que quando o senhor embarcou.

11 Era um belo dia de sol a aproximava-se a hora das famílias se separarem. Mais à frente, via-se uma senhora e um senhor de idade, que, provavelmente, também iam viajar. Ao lado do senhor, estava uma senhora que não sei o que pensava, mas, sem dúvida, parecia triste. Felizmente vim a saber que os senhores daquelas famílias tinham arranjado emprego e as famílias ficaram todas juntas. Gonçalo Cabral 7º ano, Turma B

12 Lá estava eu naquele cais desprezível. Olhava para aquelas pessoas com pena de se irem embora para trabalharem como escravos para sustentar a sua família. Olhava para aquele casal, mesmo ali à minha frente a despedirem-se, porquê? Porque a vida para eles não é um mar de rosas como a minha. Eles trabalham, trabalham, trabalham, mas nada feito. Têm que emigrar, ou seja, trabalhar para fora com a intenção de ganhar dinheiro para sustentar a família.

13 Esse casal tinha um bebé em comum, no entanto, a criança não se apercebe do mundo que a rodeia. No entanto, pelo olhar com que ele olhava para os comerciantes, apercebia-se que ele estava imaginar um pouco da realidade. Ainda mais, a roupa que eles vestiam. Será que eles têm inveja de não usar boas roupas? Claro que não, eles não se rebaixam com isso. São honestos e têm dignidade.

14 Estavam lá os comerciantes, mesmo num dia chuvoso, a trabalhar. Será muito duro trabalhar? Não sei responder a essa pergunta, porque nunca trabalhei na vida, mas gostava de ter o prazer para tal. Eles lá a vender aquelas laranjinhas deliciosas.

15 Não, o mais interessante de tudo é como conseguem pintar aquele quadro precioso do Senhor Santo Cristo. Eu tenho muito orgulho de quem pinta e respeita o nosso milagreiro porque não é todos que o fazem. Um dia, será tudo diferente. As pessoas vão ter inveja umas das outras e já não têm honestidade e orgulhoso. Nada será o mesmo. Inês Costa 7º Ano, Turma B

16 Recordo-me muito bem, como se fosse ontem, daquele dia de despedidas, lágrimas e sentimentos naquele porto de embarque. Eu estava vestida com umas das minhas poucas roupas, ao lado do meu pai todo vestido de negro com uma lágrima de cada vez a descer devagarinho, como uma torneira mal fechada. Parecia que estava olhando para o passado, a despedir-se de São Miguel.

17 Já eu ia formando a minha vida, mas sempre com uma enorme mágoa no coração. Olhava para o futuro imaginando como seria dali a uns anos, mas havia um sentimento profundo, porém forte, que não me deixava pensar e me fazia cair uma lágrima pelo olho. No porto, havia uma senhora, parecia ter pena, sentia-se. Ao pé de mim levava as coisas essenciais, pois, também não era rica, era muito pobre e, como tal, não trazia muitas coisas. Ia de viagem, provavelmente não ia voltar. Tinha de emigrar, pois, se vivesse mais um tempo, morreria poucos dias depois, sem água, sem comida e com muito sofrimento

18 Ouvi o barco a chegar, o meu coração a bater a mil, só de pensar que ia ficar mais de um mês naquele barco. Ouvi cada vez mais choros e sentia o sofrimento entrando pelo meu corpo adentro.

19 Passaram trinta anos, já tenho quatro filhos, o meu pai, infelizmente, morreu há pouco tempo e, sempre que posso, conto esta história aos meus filhos para eles serem fortes no futuro e para que depois contem essa mesma história aos seus filhos e netos, para passar de geração em geração, pois essa história é aquela que nunca esquecerei Maria Pastor 7º Ano Turma A

20 Lá estava eu ali, a ver mais uma família a separar-se. Já era a quarta naquele dia. Todos os dias a mesma rotina. Eu acordava, tomava o pequeno-almoço, tomava banho, vestia-me, pegava no meu lanche e ia para o porto. Há muitos anos, era um rapaz jovem que ia para os campos fazer agricultura e jogar futebol num campo de terra batida. Certo dia, o meu tio favorito decidiu voltar de Lisboa.

21 Todos contentes, fomos ao porto, para o receber, mas, ao chegarmos lá, esperámos muito tempo, uma eternidade. Quando chegou uma notícia péssima: o barco tinha afundado e não havia nenhum sobrevivente. Desde esse dia que eu vou ao porto rezar. Levo um quadro do Senhor Santo Cristo dos Milagres para dar a uma família e rezo por ela para não acontecer o mesmo desastre. Jorge Machado 7º Ano Turma B

22 Mais uma família a partir, mais tristeza e por outro lado famílias a juntarem-se de novo. Vão e vêm dos Estados Unidos, é um ambiente trágico. Neste dia maravilhoso de sol, neste cais, não me imagino no lugar destas pessoas. Quase todos os dias vejo estes homens e mulheres na esperança de um dia voltarem a ver as suas famílias.

23 Eu, o guarda do cais, há anos que faço isso, há anos que tento suster as minhas lágrimas perante este cenário. Eles são grandes homens e mulheres a lutar todos os dias contra a saudade, guardada naquela imagem de fé. Manuel Fonseca 7º ano Turma B

24 Lá estava eu no cais à espera de embarcar, à espera que lá fora houvesse melhor qualidade de vida do que a local. Queria desfrutar dos anos que restavam de uma melhor forma, com alguma qualidade, pois na minha infância não tive essa oportunidade. Via aquelas crianças descalças e lembrava-me que eu também andava assim, pois não havia dinheiro para comprar sapatos.

25 Aliás, só com quatro anos tive o meu primeiro par de botas e fiquei radiante, apesar de já não serem novas. Via também casais jovens com filhos a despediremse. O homem ia primeiro e, depois de assegurar um bom emprego e casa, vinham a mulher e os filhos. Lembro-me de quando era criança querer embarcar com o meu pai, mas não podia e ficava muito triste.

26 No meu caso, o meu pai teve que voltar porque vendia laranjas, mas, mais tarde, houve uma praga e o comércio das laranjas ficou arruinado. Havia também as pessoas ricas que iam para o cais, mas não à procura de uma vida melhor, pois a que tinham era muito boa,

27 Vinham para ir de férias ou, mais invulgarmente, vinham ver as pessoas a despedirem-se e pensarem na pena e na tristeza que sentiam delas. Tinha chegado a minha hora, ia à procura de uma vida melhor. Finalmente o meu sonho de infância tinhase concretizado. Sara Duarte 7º Ano Turma B

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