PROCESSO DE TRABALHO DO AGENTE COMUNITÁRIO DE SAÚDE ENQUANTO MORADOR E TRABALHADOR DE SAÚDE INSERIDO NO MESMO TERRITÓRIO

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1 1322 PROCESSO DE TRABALHO DO AGENTE COMUNITÁRIO DE SAÚDE ENQUANTO MORADOR E TRABALHADOR DE SAÚDE INSERIDO NO MESMO TERRITÓRIO Janyelle Silva Mendes¹;Juliana Alves Leite Leal² 1. Graduanda do Curso de Enfermagem, Universidade Estadual de Feira de Santana, 2. Orientador, Departamento de Saúde, Universidade Estadual de Feira de Santana, PALAVRAS-CHAVE: Saúde Coletiva, Agente Comunitário de Saúde, Saúde da Família. INTRODUÇÃO O Sistema Único de Saúde (SUS) se constitui numa conquista para os brasileiros, e tem se estruturado na tentativa de traçar um novo olhar para a saúde da população, desviando o foco do modelo hospitalocêntrico e curativista, para práticas de promoção da saúde e prevenção de doenças, ocasionando mudanças no modelo de atenção. Nessa proposta, surge em 1991, no cenário nacional um profissional de destaque o Agente Comunitário de Saúde (ACS), através da criação do Programa de Agentes Comunitários de Saúde (PACS), que se configurou em estratégia transitória para o Programa de Saúde da Família (PSF) (BRASIL, 2001). O PSF foi criado no ano de 1994, foi pensado como uma estratégia de fortalecimento do SUS, na busca pela transformação do modelo de atenção à saúde no Brasil e ampliação da atenção básica. O ACS possui, no processo de trabalho, uma situação particular, já que obrigatoriamente tem que residir no território da Equipe de Saúde da Família (ESF), sendo assim, o mesmo deverá vivenciar com magnitude o cotidiano da sua comunidade. Tendo em vista a relevância do ACS na comunidade e na ESF, o presente estudo toma como objeto o processo de trabalho do ACS enquanto morador e trabalhador de saúde de um mesmo espaço do município de Feira de Santana BA. O interesse em estudar o processo de trabalho do ACS emergiu, inicialmente, durante as vivências no Programa de Ensino pelo Trabalho e para Saúde (PET - Saúde), no qual foi possível ter contato com o trabalho do ACS. Tal desejo foi ampliado na prática de campo do componente curricular Enfermagem em Saúde Coletiva, ministrado no 6 semestre do curso de Graduação em Enfermagem da Universidade Estadual de Feira de Santana, no bairro Campo Limpo, quando foi possível observar que existem diversos fatores, que podem facilitar ou dificultar o desenvolvimento do trabalho do agente comunitário. Enfim, o estudo mostra-se relevante, pois poderá contribuir para valorização do ACS e do reconhecimento do seu trabalho, fortalecer sua atuação na ESF, assim como o desempenhar das suas ações. Além de proporcionar a discussão sobre a relação pessoal e profissional do ACS junto a sua comunidade. Neste contexto o presente estudo teve como objetivo geral discutir o processo de trabalho desenvolvido pelo ACS na Equipe de Saúde da Família no Novo Horizonte em FSA - BA. E, específico, analisar os limites e possibilidades encontradas pelo ACS no seu processo de trabalho, sendo ele residente e trabalhador de saúde em um mesmo território. METODOLOGIA Tratou-se de um estudo de caso de natureza qualitativa, do tipo exploratória. Os sujeitos da pesquisa foram constituídos por 8 Agentes Comunitários de Saúde vinculados a

2 1323 Unidade de Saúde da Família do Novo Horizonte em Feira de Santana BA, situada na periferia da cidade. A Unidade de Saúde da Família do bairro Novo Horizonte foi escolhida como campo da pesquisa, por ter sido o projeto piloto do PSF na cidade de Feira de Santana-BA, no ano de A técnica de coleta de dados utilizada foi à entrevista semi-estruturada, seguindo um roteiro. A análise dos dados foi feita com o uso do método de análise de conteúdo. A pesquisa em questão foi realizada conforme as normas preconizadas pela Resolução n. 196/96, do Conselho Nacional de Saúde, tendo sido aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa (CEP) da UEFS. ANÁLISE E DISCUSSÃO DOS RESULTADOS Os ACS entrevistados eram na maioria do sexo feminino (87,5%) com idade entre 24 anos a 55 anos. Com relação a escolaridade, 87,5% dos agentes possui o ensino médio completo, e 12,5% com ensino superior completo. No que tange o estado civil, 37,5% são casados, 50% solteiros e 12,5% divorciados. Dos ACS entrevistados, 37,5% não têm filho, 12,5% tem um filho, 25% têm dois filhos, 12,5% três filhos e 12,5% quatro filhos. Com relação ao tempo de serviço como agente comunitário de saúde no Novo Horizonte esse período variou entre 4 a 13 anos; o vinculo empregatício dos profissionais foi estatutário; e o tempo em que reside no bairro ficou entre 10 a 40 anos. Para discussão e análise, os dados coletados foram agrupados em categorias: processo de trabalho dos ACS; o ACS e sua relação com a ESF e a comunidade; limites e possibilidades do ACS como trabalhador e morador na comunidade. Os resultados apontam que o trabalho do ACS acontece principalmente por meio da visita domiciliar (VD), e nesse ambiente realiza ações de promoção da saúde e prevenção das doenças e agravos. Durante a VD, o ACS está em contato direto com os sujeitos e dentre as ações que realiza estão o cadastramento de famílias novas, acompanhamento dos grupos de risco, a orientação às famílias por meio da educação em saúde. [...] traz o problema da pessoa até a unidade de saúde pra que os profissionais fiquem sabendo da pessoa de como é o dia a dia da pessoa [...] ele liga a comunidade aos profissionais de saúde, dá uma visão mais ampla da comunidade para os profissionais que estão aqui dentro [...] (ACS 5). A VD é um importante instrumento utilizado pela equipe de Saúde da Família para realização de ações de prevenção e promoção a saúde, principalmente aquelas realizadas pelos ACS já que são os membros da equipe que mais têm contato com as famílias no domicílio, (FABRI; WAIDMAN, 2002). Dentre outras atividades desenvolvidas e também mencionadas pelos ACS observamos que existe uma valorização do acompanhamento de pessoas com problemas de saúde e aos grupos de risco: crianças, hipertensos, diabéticos, paciente de saúde mental, gestantes. Na análise das falas dos entrevistados, é perceptível que nem sempre os materiais de trabalho do ACS são disponibilizados para esses profissionais, sendo assim a indisponibilidade desses recursos dificulta a realização das atividades do cotidiano do trabalho. Os ACS realizam todas as atribuições que são preconizadas pelo MS e ações aquém dessas estabelecidas, mas apresentam dificuldades no desenvolver de algumas ações por não terem recebido a formação necessária para desenvolvê-las, a oferta de cursos é irregular, pois parte desses profissionais tiveram acesso e outra parte não.

3 1324 Um dos entrevistados homens, atribuiu a questão de gênero particularidades no seu processo de trabalho. Pois mencionou ter dificuldades em alguns momentos em realizar suas atividades por ser homem. agente de saúde [...] só sexo masculino, tem aquelas situações de ciúmes, como eu já passei, na área mesmo, marido ciumento, o que dificulta um pouco, mas da pra fazer um bom trabalho [...] porque na realidade a gente visita mais o sexo feminino, porque o masculino, mais fora de casa, trabalhando, [...] se, por exemplo, eu fosse uma mulher elas se abriam, falava mais coisa. (ACS 1). No que diz respeito à valorização profissional, um dos ACS inferiu que existe uma desvalorização da saúde que pode ser visualizada pelos baixos salários, afirmando que os baixos salários trazem consequências no trabalho que desenvolve, implicando em má qualidade na assistência às famílias. Jardim e Lancman (2009) trazem que a falta de resolutividade provoca um sofrimento adicional aos agentes devido ao contato próximo, ininterrupto, e ao vínculo que estabelecem com a comunidade, o que os faz sentirem-se responsáveis pelos seus clientes. No que diz respeito a relação do ACS com a ESF, a comunicação é apontada como elemento importante para o trabalho em equipe. Dessa forma o trabalho existente entre sua equipe é de integração com articulação das ações e integração dos agentes. [...] a equipe é unida a gente se comunica, a gente ta participando de tudo que a equipe faz, então é uma relação muito boa equipe agente comunitário de saúde (ACS 2) Os ACS apontaram ter uma boa relação com a comunidade, firmando ou fortalecendo uma relação de amizade já existente. Seonane e Fortes (2009) afirmam que é na aproximação existente entre o ACS e a comunidade e principalmente durante a VD que se pode construir a relação de confiança fundamental para o trabalho do ACS. A obrigatoriedade do ACS morar e trabalhar no mesmo território gera uma dupla inserção na comunidade, levando-os a terem uma dupla representação: o de ser simultaneamente agente e sujeito. Nesse sentido, quando os ACS foram questionados sobre as possibilidades em morar e trabalhar no mesmo território, eles apontaram que possuem uma maior liberdade com o horário, pois tem possibilidade de fazer as refeições em suas casas, está sempre próximo de suas famílias, o que permite a melhor criação dos seus filhos, e o fato de não precisarem utilizar transporte público para realizarem as atividades do dia a dia do seu trabalho. Vantagem é pela questão de deslocamento, porque você ta trabalhando ali mesmo, se você tiver uma necessidade em casa você vai rapidinho e volta (ACS 7). Dentre as vantagens de se trabalhar na mesma comunidade, destacamos que o fato de se conhecer as pessoas e a realidade de sua comunidade por também serem moradores daquela área foi apontado como maior facilitador ao trabalho dos ACS. Os ACS trazem como limites por morar e trabalhar no mesmo território o fato de precisarem ter cautela com a forma como se dirigem às pessoas da comunidade, visto que eles são os únicos membros da equipe que precisam morar no local onde trabalham, portanto há contato direto com a comunidade na qual pertencem. É, assim vamos dizer que a gente tem que ter um certo cuidado, ate quando a gente fala [...] Ou como a gente age ou como a gente fala porque de repente a gente é mais visado que as pessoas que trabalham aqui na unidade, [...] (ACS 02) Outro limite apontado está a sua privacidade do ACS comprometida. Como mostra a fala a seguir: A gente perde a nossa privacidade em termos, pelo fato assim de a gente trabalhar para a comunidade, e morar na comunidade o que assim, o que vem acontecer eles procuram

4 1325 logo a gente, independente de horário de trabalho ou não [...] estão batendo em sua porta (ACS 1). Nesse sentido o ACS necessita muitas vezes isolar-se do seu trabalho para poder descansar, como morador da própria comunidade, é preciso muitas vezes impor uma barreira para o acesso dos usuários. CONSIDERAÇÕES FINAIS Os resultados apontaram que o ACS é um ator social muito importante na consolidação do Sistema Único de Saúde, pois articula o processo de trabalho da equipe, por morar em sua área de atuação, fazendo a ligação entre a equipe e a comunidade. As ações desenvolvidas pelos ACS apontadas em suas falas correspondem ao estabelecido no Art. 2º da Lei nº , 10 de Julho de 2002, que afirma que a profissão de ACS caracteriza-se pelo exercício de atividade de prevenção de doenças e promoção da saúde, mediante ações domiciliares ou comunitárias, individuais ou coletivas. Geralmente sentem-se desmotivados pelos baixos salários, assim como pela impossibilidade de dar resolutividade aos problemas da sua comunidade em algumas circunstâncias, devido ao pouco investimento e incentivo dos gestores, impedindo a continuidade da assistência prestada por eles. Os relatos dos agentes revelam um trabalho em parceria com a equipe com a qual trabalha, apontando a comunicação como peça fundamental no desenvolvimento do trabalho. Percebemos que a obrigatoriedade do ACS morar e trabalhar na mesma comunidade, traz limites e possibilidades para sua a vida pessoal e/ou profissional, pois o mesmo tem uma dupla inserção como agente e como sujeito. Dentre as possibilidades apontadas pelos ACS em morar e trabalhar no mesmo território, estão, a maior liberdade com o horário, pois tem possibilidade de fazer as refeições em suas casas, está sempre próximo de suas famílias. Os agentes comunitários de saúde trazem como limites por morar e trabalhar no mesmo território o fato de precisarem ter cautela, como se expressam, o que presenciam e as informações que tem contato, já que eles são os únicos membros da equipe que precisam morar no local onde trabalham. Os ACS apontam ainda como limite o fato de terem a sua privacidade comprometida. Referem que os usuários os procuram em locais públicos, em suas residências em qualquer horário e ate mesmo aos finais de semana e feriados. REFERÊNCIAS BRASIL Ministério da Saúde. Secretaria Executiva. Programa de Agentes Comunitários de Saúde (PACS). Brasília: Ministério da Saúde. BRASIL Lei n o , DE 10 DE JULHO DE Cria a profissão de Agente Comunitário de Saúde e dá outras providências. Disponível em: <http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/2002/l10507.htm>. Acesso em: 26 out FABRI, C. A.; WAIDMAN, M. A. P Visita domiciliar: A atividade do agente comunitário de saúde no programa saúde da família. Família Saúde Desenvolvimento, Curitiba, v.4, n.2, p JARDIM, T. A; LANCMAN, S Aspectos subjetivos do morar e trabalhar na mesma comunidade: a realidade vivenciada pelo agente comunitário de saúde. Interface, Botucatu, v.13, n.28, p

5 1326 SEOANE, A. F; FORTES, P. A. C A percepção do usuário do Programa Saúde da Família sobre a privacidade e a confidencialidade de suas Informações. Saúde Social, São Paulo, v. 18, n. 1, p

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