FARROFA, CACHAÇA E POUSO: TRADIÇÃO, RITUAIS E RELIGIOSIDADE NA TRAJETÓRIA RUMO A ROMARIA DE POSSE DA ABADIA - ABADIÂNIA - GOIÁS

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1 FARROFA, CACHAÇA E POUSO: TRADIÇÃO, RITUAIS E RELIGIOSIDADE NA TRAJETÓRIA RUMO A ROMARIA DE POSSE DA ABADIA - ABADIÂNIA - GOIÁS CLEYTTON JOSÉ DA SILVA O presente artigo tem por objetivo compreender as relações sócio-espaciais, que se configuram no deslocar dos carreiros ou comitiva da Babilônia, em direção a Posse da Abadia, criando relações e espacialidades festivas. Neste deslocar o homem vai construindo e (re)construindo territórios, pelas práticas e relações que ele estabelece com o meio. São dias especiais, onde representam o universo da fé e do lazer, de causos e bebedeiras, danças e comidas. Esse trajeto acontece do dia 5 ao dia 7 de agosto numa tentativa de preservar e resgatar a tradição,do carro de boi, mas ao mesmo tempo, fica evidente a reafirmação do grupo enquanto uma forma de expressar o poder econômico e ideológico, os grupos no deslocar são consome os mesmos espaços, mas distinto na forma pelo qual os indivíduos se relacionam. é o antigo e o novo, presente e passado, vivencias e experiências, que recobrem esse trajeto. A metodologia utilizada parte da observação e da vivencia com o sujeito, através de entrevistas semi-estruturadas, levantamento documental e bibliográfico. Palavras-chave: festa tradição trajetória INTRODUÇÃO O deslocar faz parte da vida do homem, desde do seu surgimento sobre a face da terra até os dias atuais. Esse fenômeno compõem uma relação direta na vivência do homem em sociedade. Os grupos nômades deslocavam em função da alimentação e em busca de abrigo. Deste modo, o deslocar implica diretamente nas motivações que estão postas, diante do homem e do ambiente. Muitas são essas motivações, que levam o homem a sair do seu cotidiano e ir em busca de novas paisagens, lugares e eventos. O homem religioso converge a sua busca para o religamento ao centro do mundo, criando espacialidade ao se deslocar e ritualizando os momentos que permeiam a saída de casa em direção ao sagrado. Representando um momento distinto, onde o deslocar implica na saída da vida e do tempo rotineiro, para dar lugar as novas relações. Essas relações vão sendo construída ao longo do trajeto. A cachaça, a farofa e os pousos vão permeando esse deslocamento, da comitiva da babilônia 1,em direção a romaria de Posse da Abadia, transformando o peregrinar em uma festa, contendo música, comida e muitos causos que fortalecem os laços familiares e sociais. Deste modo, objetivo central é compreender as espacialidades que se formam a partir dos rituais e das tradições no deslocar da comitiva babilônia rumo à romaria de Posse da Abadia, penetrando o universo da peregrinação, procurando entender esse mundo subjetivo que está internalizado no deslocar. O recorte social que se busca analisar parte da escolha da comitiva da babilônia por dois motivos: primeiro representa a força de coesão para resgatar os costumes e as tradições de ir à romaria de carro de boi, no lombo de burro ou a cavalo. O segundo é pela relação que esse grupo exerce sobre a romaria enquanto sujeito e ator social, hierarquizando relações de poder na própria festividade. A espacialidade é ao mesmo tempo construída e desconstruída de forma móvel que proporciona um estreito conviver entre o grupo e a própria natureza. Os pousos representam uma espacialidade materializada, onde ocorre muito mais do que o descanso do corpo. É o momento da socialização, de muita prosa, dança e comida. O espaço aqui analisado recobre desde a saída da 1 Comitiva babilônica- essa comitiva e organizada pelo Senhor Antônio - conhecido como Toninho da babilônia- o mesmo é rei mouro das cavalhadas de Pirenópolis e proprietário da fazenda Babilônia.

2 fazenda Babilônia em direção a Posse da Abadia, no município de Abadiânia. A temporalidade corresponde ao período do dia 5 a 7 de agosto de 2008 onde está ligado diretamente ao deslocar e o festejar. Tudo vira uma festa, cada parada, cada percurso deixado para trás representa histórias, sentimentos e vivencias que vão se aproximando da Romaria, da Casa da Mãe de Deus. O modo de peregrinar torna-se um assunto relevante ao analisarmos os carreiros e seus valores tradicionais, os conflitos existentes e ao depararmos com novos valores que vão sendo impressos diante do antigo e do novo, da religiosidade e da festividade. Os conceitos que se pretendem ser colocado em questão está intimamente intrínsecos na leitura do fenômeno, enquanto uma relação de espacialidade que perpassa o campo da fé, da ritualidade e da tradição. Os Carreiros serão entendidos aqui como os sujeitos que interligam as diversas formas de festejar, celebrar e conviver no seu deslocamento. Deste viés, as categorias que procuro desenvolver esta ligado a festa, território e tradição. Ao conviver com outros valores que se integram à romaria a tradição e a cultura é reinventada, revitalizando a festa como um momento extraordinário na vida dos agentes ou sujeitos sociais. A romaria de Nossa Senhora da Abadia acontece do dia 05 a 15 de agosto, no distrito de Posse da Abadia, município de Abadiânia, 50 quilômetros da Fazenda Babilônia -que esta no município de Pirenópolis. Tornando um espaço de atração religiosa, onde o distrito se transforma com a chegada dos carros de boi, cavalos, ônibus e um grande números de peregrinos vindo a pé. As casas se abrem e se enchem de alegria,nas ruas se percebe um grande rebuliço de pessoas, o ar se recobre de coloridos e tudo passa a ter mais vida. A metodologia adotada, parte da descrição do fenômeno, buscando desvelar e compreender a relação das práticas e das representações dos sujeitos, na trajetória da Fazenda Babilônia ao distrito de Posse da Abadia, que esta intimamente ligado com a festa que é produzida neste deslocar. A observação e as entrevistas vão servir como formas de analisar as praticas e os sujeitos considerando a maneira que as representações simbólicas e festivas se materializam sobre o território. O material levantado em campo, como as fotografias, gravações e questionários será de suma importância para relacionar e compreender a externalidade e a internalidade da festa diante do vivenciado. Assim, esse artigo ainda esta passando por um processo de amadurecimento para colocálo diante de uma visão geográfica. A Caminho da fé: da fazenda Babilônia à Festa de Nossa Senhora da Abadia Vou à romaria para passar momentos junto com meus amigos e com meus parentes (Diego - integrante da Comitiva da Babilônia) A festa é considerada um momento distinto dentro do cotidiano, é o momento de extravasar, de celebrar e até mesmo de se encontrar. É na festa que as classes sociais se diluem, para dar lugar a uma nova relação entre os agentes sociais. O festejar é um universo que está posto sobre um viés complexo e dialético, num mundo materializado e também das relações do não dito,que compõem um universo da subjetividade. A primeira ação que coloca diante do caminho da fé, são os laços e as relações sociais, que permeiam o universo do coletivo, dando vida ao grupo. A festa se inicia, com a preparação para se deslocar. As pessoas juntam suas tralhas e comidas. Da farofa a cachaça que vão dar sustento aos dias de viagens. É a festa do viés social como nos afirma Quinta 2 (1981,p 18): 2 QUINTA, Manoel C. Iniciação à teologia: Festas e Celebrações cristãs ( Volume 5).São Paulo: Editora Paulinas.1981 ( tradução Ir. Isabel Fontes Leal Ferreira)

3 Na maioria das vezes, esta festa social refere-se ao passado, a história própria do grupo. Não se trata, todavia, de uma festa de recordação pura e simples, que só faz evocar um passado definitivamente terminado. É um momento em que, superando o tempo, as pessoas realizam de novo, reatualizam, o que outrora permitiu que o grupo se constituísse. Uma tal reatualização contribui para consolidar os laços existentes entre os membros para reintegrar os que se houvessem afastado, para reformular os códigos essenciais que ligaram e continuam ligando entre si os diversos membros do grupo. Que funciona como um elemento integrador da festa. Logo pela manhã os cavaleiros e os carros de boi saem da fazenda babilônia para irem em direção do distrito de Posse da Abadia. Os carros de boi vão se locomovendo e cantando pelo caminho. A natureza e a estrada de terra são os elementos que vão compor toda a trajetória. Em todo o deslocamento o homem celebra bebendo água ardente, contando causos e relembrando a infância. É o festejar pelo caminho. segundo Martins 3 (2002, p. 122) a festa é: Uma experiência grupal, de caráter originariamente sagrado, na qual se vivencia ritualmente o caos, como forma de destruição de um tempo velho e como forma de vislumbrar um novo começo, um tempo novo, cheio de energia e força, uma nova vida. Considerando a festa, como um momento de descontração, de afirmação do grupo e do reencontro; percebe-se que essas tendências revestem-a, revelando a maneira, o jeito e o comportamento do grupo, seja pelos condicionamentos que recobrem uma série de atitudes que vão se dimensionar sobre o território. Logo é a hora do almoço, é a festa em volta da alimentação, onde agradecem e pedem a Nossa Senhora da Abadia, para guiar e abençoar a jornada. O primeiro ponto é a fazenda Coqueiral onde o almoço já está a espera. Eles cantam e festejam em volta da comida, as pessoas da casa ficam lisonjeada diante da comitiva, celebrando o momento de si aproximarem da virgem Maria pela união do celebrar, transformando em um momento único, criando rituais que estão postos numa relação dinâmica como DaMatta 4 afirma: As festas são rituais comemorativos que representam tempos de convivência social. Em certos aspectos da realidade são momentos extraordinários marcados pela alegria e por valores que são considerados altamente positivos ( 1983,p.40). A festa constitui o ponto máximo da sociabilidade, onde o homem reformula suas visões de mundo e se relaciona com o outro. Já é o momento de pegar a estrada outra vez, onde a festa constitui de momentos e elementos que vão compor um universo subjetivo e que não pode ser conhecido e experênciado, a não ser adentrar o grupo, numa relação de vivenciar as práticas para evidenciá-las numa realidade até então onipresente ou internalizada na cultura e na religiosidade popular rural. Deste modo Rosendahl 5 (1999, p.24) afirma que : os peregrinos com suas práticas e crenças 3 MARTINS, José Clerton de Oliveira. Festa e ritual, conceitos esquecidosnas organizações. REVISTA MAL-ESTAR E SUBJETIVIDADE / FORTALEZA / V. II / N. 1 / P / MAR (artigo). 4 DAMATTA, Roberto. Carnavais, Malandros e Heróis.4º Ed. Rio de Janeiro: Zahar, 1983, ROSENDAHL, Zeny. Hieropolis: O Sagrado e o Urbano. Rio de Janeiro: EdUER:1999.

4 materializam uma peculiaridade organizacional e social do espaço essa materialização ao longo do deslocar é escolhido para oferecer momentos de descanso e de festejar como nos afirma João Paulo: (integrante da Comitiva da Babilônia): após um dia de viagem a gente pára e desarreia os animais, da alimento e água para eles... Depois vamos montar as barracas e em seguida tomar banho no córrego... Quando a gente chega a comida já ta pronta e é só jantar e o cansaço vai embora, todos se sentam em volta da fogueira para cantar e dançar. A festa neste momento, atinge seu auge. As vizinhanças e os parentes vem integrar a noite, em volta da fogueira. Com muita bebida, causos e musicalidade, a noite vai indo embora. As pessoas extrapolam esse momento através do beber, do dançar e dos encontros amorosos. São os excessos que compreende o mundo festivo. A festa mistura o celebrar e a realização pessoal através dos prazeres. É o momento de voltar as origens, de unir aos laços e estreitar as relações. Diante desta realidade, a festa compõem um momento individualizado, que se torna coletivo pela interligação e as experiências que vão permeando os indivíduos. Segundo Amaral 6 (1988), a festa representa um momento de descanso, devoção, lazer e renovação do animo e das esperanças. Além da afirmação de seus valores". A festa, ultrapassa o caráter místico, incorporando outros sujeitos em suas práticas e representações, impondo- lhe outras significações, que misturam atividades religiosas com as dimensões do cotidiano. Neste momento, o dia vai surgindo e a jornada rumo a Posse da Abadia recomeça. Logo a estrada fica recoberta pelos carros de boi e pelos cavalos que dimensiona a espacialidades, novas pessoas vão se juntando ao deslocar, com seus carros de boi, tralhas e suas praticas devocionárias. Deste modo, o festejar vai incorporando novos motivos, criando novos circunstância para se aproximar da festa. Cada instante, vai ficando mais próximo da festividade e os motivos que levam as pessoas ou melhor o romeiro a se deslocar para festa, são diversos: alguns vão pagar promessas, outros agradecer até mesmo existe pessoas que vão reforçar o voto e a promessa cumprida. Outros vão acompanhar os penitentes, dançar, beber e até namorar. E como Martins 7 ( 2001 p.118 ) afirma: A experiência de fé dos romeiros é individual e vai se tornando coletiva pelo engajamento no grupo de romeiros. A emoção é tocada através da experiência do mistério. A fé eleva o indivíduo que se encontra isolado e necessitado de uma força que o impulsione para uma nova realidade. A romaria representa este momento de integração do festejar, onde o labutar, a falta de condições se tornam um sacrifício oferecido em prol da padroeira. Diante do percurso, um anima o outro, com testemunhos, histórias e vivencia que religa a força da Padroeira a vida do individuo. A festa dentro da festa: churrasco, ranchões e devoção A romaria passava a ser uma festa em si, para a qual o grupo prepara-se não apenas espiritualmente como também para desfrutar de um acontecimento social. A romaria resulta no campo central do festejar. A festa está intimamente ligada a relação da religiosidade, no que 112p. 6 AMARAL, Rita. Festa à Brasileira: sentidos do festejar no país que "não é sério". (tese de doutorado em antropologia) São Paulo: USP, 1998, 403 p. Disponível em publicação eletrônica na Internet, via WWW. URL: 7 MARTINS, J. Otávio. Os Peregrinos do Divino Pai Eterno: o Santuário ea Reinvenção da Cultura. Goiânia, 2001,185p. Dissertação ( Mestrado em Ciências da Religião). Universidade Católica de Goiás.

5 tangência a romaria, porém, com formas que recobrem o sagrado, tornando um espaço de referência e atração. Para Sanchis 8 ( 1992 p.318) : a festa é, sem dúvida, para muitas aldeias pequenas a única ocasião em que a comunidade experimenta um autodomínio, um voltar a si próprio para se articular livremente e assumir o seu ser e comportamento colectivos: decisões a todos os níveis...articulando papéis sociais endógena a comunidade. Nestas comunidades a festa é esperada o ano inteiro, pelos moradores e também pelas redondezas, pois representa um momento mais precioso, o de festejar, de extravasar, além do que é a oportunidade de conhecer novas pessoas, de consumir o modismo dos grandes centros econômicos e se reforçar enquanto indivíduo. Ao chegar na festa os carros de boi adentram a cidade, e toda a população já esta a espera deste momento. Sendo um momento impar na romaria, onde os sujeitos se tornam atores sociais, ocupando o lugar central na festividade. O comércio ambulante não tem mas o valor e o chamativo, os ranchões são desligados, o sacerdote vem para frente da igreja. E logo começa a entrada dos carros de boi, transformando em um desfile, onde o diferente que se destaca, seja pelas reis mais robusta ou as de raças anãs, e o tradicional versus o moderno. Como afirma senhor Antônio: Olha o objetivo foi de resgatar a tradição do carro de boi, pois essa pratica tinha ficado esquecida. Retornamos para que as futuras gerações conheçam os meios de locomoção que nossos pais viam a romaria para agradecer e pedir proteção para o trabalho e a vida rural. Deste modo, percebe-se que na festividade o desfile do carro de boi ocupa um lugar central, como um atrativo, uma parte do festejar. E um momento celebrativo onde o carreiro e os próprios cavaleiros tem uma relevância para atrair grandes números de pessoa. Este acontecimento ocorre em todo primeiro domingo de agosto neste distrito. A festa atingi um dos seus dia de auge, de esplendor. Para os carreiros é um momento que se sentem parte fundamental da romaria e também de se religar, de encontrar com o sagrado. Assim o Senhor João Alves afirma: Meu filho é um momento muito bom... pois... A gente viajou três dias para agradecer a Nossa Mãe - Nossa Senhora da Abadia... Pelas graças recebidas... Saúde... E quando você vê a multidão de gente... E que todas vieram ver os carros de boi e fazer sua oração.. A cidade pára!! Mas o momento mais especial pra mim e a hora que passo diante da Igreja.. Chego a arrepiar.. O padre abençoa a gente o os animais...e uma alegria boa que toma conta da gente... Como a gente tivesse no céu.. Pois estamos aqui e chegamos em paz. O ano que vem..com fé em Nossa Senhora da Abadia nós voltaremos outra vez. Deste modo, a chegada a romaria é uma festa para o comitiva da Fazenda Babilônia, que sentem parte do processo, como sujeitos que tem um papel fundamental na sobrevivência da tradição e da continuidade da mesma. Neste momento, é a festa dentro da festa. As pessoas de todas as idades vem para a rua, as crianças, os pais, os idosos, o patrão, o padre, as freiras e logo em seguida começa a servi o churrasco feito ali mesmo, na praça para toda a comunidade, que é oferecida pela prefeitura, a festa neste instante é da comida, da conversar e de rever os amigos. 8 SANCHIS, Pierre.ARRAIAL: Festa de um Povo - As Romarias Portuguesas.Lisboa:Dom Quixote p.( tradução Madalena Mendes de Matos)

6 Já é possível perceber diversos territórios que se estruturam sobre a paisagem de Posse da Abadia. Esse território é definido pela ação humana sobre um determinado espaço, é algo delimitador que possui uma lógica social na construção de seus limites e fronteiras. O território que se percebe é o construído a partir da lógica religiosa. Onde a igreja ocupa um lugar de relevância e em volta dela vai se confirmando os espaços. As barracas ambulantes ocupam a praça central, o parque de diversões fica bem próximo a prefeitura, onde toda a garotada vai para se divertir nos brinquedos como roda gigante, chapéu mexicano entre outros. Os ranchões dançantes também ocupam um lugar em destaque tanto pela força de atração quanto pelas diversas advertências do padre. Criando a partir desta relação territórios subjetivos, ideológicos e adjacentes. Souza 9 afirma: o território é um campo de força, uma projeção de relações de poder sobre um substrato espacial referencial que se constroem e reconstroem-se todo o tempo (2003 p. 81) Na romaria o território se consolida a partir do próprio festejar, comer e divertir. Numa dialética entre devoções e divertimentos. O carreiro consome diferentes territórios festivos, porém que apresente uma relevância dentro da sua relação mundo concebido e experienciado. Logo após a chegada é hora de estruturar o acampamento. Será o espaço utilizado para participar das missas, novenários, queima de fogos e também dos divertimentos. Esses territórios são construídos pelas relações de poder, pela força coexistente em volta da vivencia como sagrado. O território aqui concebido é entendido por apresentar aspectos que envolve o campo subjetivo e material do carreiro, em especial o que saiu junto a comitiva da Fazenda Babilônia, que se consolida no espaço durante seu trajeto e especial na romaria. Haesbaert 10 afirma: [...] o território é o produto de uma relação desigual de forças, envolvendo o domínio ou controle político-econômico do espaço e sua apropriação simbólica, ora conjugados e mutuamente reforçados, ora desconectados e contraditoriamente articulados. ( 2002, p. 121) As diferenças e desigualdades residem a própria forma de construir o território, uma junção de forças internas e externas que são capazes de unir ou segregar, apropriar ou demarcar, separa ou assegurar a disposição dentro do mesma espacialidade. O universo do carreiro parte de uma relação do catolicismo popular, onde o elemento estruturante parte da vivencia individual e particular de se aproximar do sagrado. Que ora fortalece a tradição e ora e reconstruído pelas trocas simbólicas e os conflitos que permeia o mundo subjetivo.assim, o território se especializa num desdobramento de como o homem consome e cria seus modos de festejar. A festa possui sua forma e dimensão religiosa, mas e nesta festa também que o próprio carreio, o romeiro e até a população residente que vai experiênciar o festejar com sentido de extravasar e de também de um modo de se encontrar enquanto individuo dentro da própria festividade. Considerando essa relação pode-se afirma que a espacialidade da festa é construída e estruturada sobre o modo de utilizar os espaços dando funcionalidade pelo os diversos aspectos da vida social. Deste modo o território festivo é construído, um território que expressa atrás do uso materialidade e também um campo subjetivo que esta internalizado no individuo perpassando pela ideologia e pela força do poder político e religioso. Tradição e resistência diante do festejar 9 SOUZA, Marcelo José Lopes de. O território sobre espaço e poder, autonomia e desenvolvimento: in Castro, Iná Elias de ; Gomes, Paulo César da Costa; Correa, Roberto Lobato (Orgs) Geografia: conceitos e temas. 6ª Ed. Rio de Janeiro. Ed. Bertrand Brasil: 2003 p HAESBAERT, Rogério. Territórios Alternativos. Niteroi: EdUFF; São Paulo: Contexto: p.

7 A tradição dentro da festa é algo que tem um papel de ritualização e sobrevivência da própria conjuntura festiva. Pois a tradição fortalece os laços de solidariedade e permite a perpetuação ou a conservação da identidade, dos rituais, das formas de festejar. As tradições agregam e asseguram a permanência da religiosidade e dos costumes, num plano em movimento que arraigadas de tal maneira que permanecem vivas no imaginário social. A tradição possui mecanismo interligados ao passado e ao moderno, que permite a ela revitalizar e sobreviver. Hobsbawm 11 destaca que tradição é: Conjunto de práticas, normalmente reguladas por regras tácita ou abertamente aceitas; tais práticas, de natureza ritual ou simbólica, visam inculcar certos valores e normas de comportamento através de repetição, o que implica automaticamente, uma continuidade em relação ao passado. Aliás, sempre que possível, tenta-se estabelecer continuidade com um passado histórico apropriado (Hobsbawm 2002, p.16). A tradição, deste modo, funciona como um regulador da festa e a festa lhe fornece a razão de existir. Como um mecanismo que proporciona uma interdependência e um existir continuo na tradição. Destarte, a festa, como um momento distinto, repleto de rituais, que proporciona ao homem, uma temporalidade e espacialidade, permitindo sua sobrevivência pela tradição do povo. O deslocar dos carros de boi em direção a Posse da Abadia são elementos de resistência no sentido de resgatar e preservar os ensinamentos dos mais antigos do grupo. Ir a Romaria, pelos caminhos do carro de boi, significa também momento de aprendizado, pois a tradição é passado de geração em geração. As mulheres ensinam uma as outras modo de cozinhar, lavar e até mesmos experiência de vida. A hora da comida é o momento de alegria, momento de se preparar também para a diversão. Como nos afirma Dona Francisca: Todo ano eu venho, pois é muito bom, vem eu meu marido, meus filho e sempre conhecemos novas pessoas, e um momento alegre, divertido que a gente nem vê o tempo passar... Todos ajudam... Quem tem comida uma comida diferente oferece para todos e ainda até ensina. É muito prazeroso.. Eu sinto até falta quando retornamos para casa. Os homens ensinam os jovens como guiar o carro de boi, as experiências e os prodígios da vida. É um momento único que uni a tradição do grupo e o modo de festejar. A religiosidade, também revela, fortes elementos, que funcionam como unificador, são fatores ainda determinantes para manter uma manifestação que é, ao mesmo tempo, a exteriorização da devoção, e uma tradição familiar, que se tornou ao longo do tempo um elo entre parentes e amigos que resistem. Deste modo a religiosidade no deslocar do carro de boi apresenta como um elemento integrante que uni e socializam as pessoas, permitindo a revitalização do antigo. É uma forma de resistência assim como nos afirma Martins 12 (2001 p 68): A resistência é um modelo de querer preservar costumes mais antigos e básicos na estrutura do grupo dos carreiros: a prática da solidariedade que se realiza através dos elementos fundamentais do catolicismo assimilados pelo tipo cultural popular dos carreiros é um exemplo da resistência. 11 HOBSBAWM, Eric. A invenção das tradições. ( Trad. De Celina Cardim Cavalcante). Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2002.p Ibidem

8 Assim, o deslocar para Posse da Abadia, no carro de boi é um momento único, onde se reuni passado e presente, lembranças e vivências, que se consolidam no víeis das tradições. Essas tradições tem um papel distinto para permanências e a revigorar da própria festividade. Dando continuaidade e efervescência ao existir da festividade. Diante das diversas maneiras percebe-se pelo relato de Marcos Potielli que a religiosidade não está no primeiro plano: sabe foi uma experiência inesquecível, o ano que vem quero vim de novo.. Tem muita aventura, tomar banho gelado no córrego, as comidas e especialmente os pousos.. A gente descansa e se alegra. Mas é essa religiosidade que faz que desperta o caminho da aventura e da experiências, do tradicional ao moderno que reveste e consolida esse deslocar. Considerando que na romaria a uma interligação onde o carreiro existe em função da romaria e a romaria existe pela relação direta com o carreiro. Considerações Finais A festa é um elemento estruturante e estruturador dentro das relações identitárias de um povo. No Brasil, em especial, a festa compõem um fator de relevância na vida social e religiosa do individuo e da coletividade.a festa concebida no cerrado, existe um estreita relação como práticas herdadas e inventadas a partir da relação homem e espaço, num arcabouço que vão colocar os mitos, os modos de produção, as trocas culturais entre diversas etnias, a religiosidade e o próprio ambiente como elementos que se conectam e se completam para cristalizar os costumes, as tradições e sobretudo especializando num territórios cultural.. Deste modo, a festa representa os variados territórios que vão sendo definidos pela expressão cultural social e econômica, que se especializam. Na romaria o homem se desloca para ir ao encontro do sagrado, essa pratica cria formas e costumes que se traduzem numa tradição religiosa popular e se configura sobre o espaço criando territórios que se consolidam a partir da vivencia com o sagrado, com o santo padroeiro. As lendas, as histórias, as devoções, vão compor esse universo distinto, que materializaram sobre a festa diferentes espacialidades que interligam a forma de conviver com ambiente. A festa representa uma ruptura da ordem, com as estruturas virgentes, enquanto processo, que vai dar uma singularidade, a manifestação universal, gerando disputas no território imbricados. O deslocar perpassa um universo distinto que premia uma relação do homem com o território. Numa constituinte que parte da tradição e das relações de festejar. Dentro do fies do carreiro, o caminho, o deslocar, o peregrinar concilia relações sociais e identitarias que constrói diferentes modo de se especializar e de evidenciar esse período extraordinário que a festa insere sobre o ir a romaria. num universo contendo fé, devoção e lazer. Dentro da festa os momentos do cotidiano e relembrado e colocado em evidência como o comer, o beber, sexo e o próprio deslocar com maior significado. Para o carreio é adjunção entre presente e passado, onde os causos, as histórias e a memória estão presente para dar um realce no festejar. São dias marcados pelo sol e pelo cansaço mas sempre motivados pela momento mas essencial o chegar a Matriz de Posse da Abadia, de entregar suas ofertas, pedidos e agradecimento. E um universo complexo diante das mudanças sociais e do universo cultural, pois as subculturas que abriga a espacialidade do romeiro e instrisica, subjacente e internalizada nos momentos diacrônicos do deslocar.

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