EDUCAÇÃO PELA AVENTURA: qual é o mundo que queremos?

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1 EDUCAÇÃO PELA AVENTURA: qual é o mundo que queremos? Fabiana Pereira 1 INTRODUÇÃO Instituto Asas Responsabilidade, cuidado e solidariedade poderão estabelecer um patamar mínimo para que alcancemos um padrão de comportamento que seja humanitário. Leonardo Boff Todas as especulações sobre o Calendário Maia e seu prognóstico sobre o fim do mundo, de modo bem simplista, dividiram a sociedade em dois lados: aqueles que acreditam e aqueles que não. Entre os que acreditam, existe uma vertente que defende que o fim do mundo como nós o conhecemos é que está próximo. Em seu discurso, destacam que o que se aproxima é o fim de um ciclo e com ele, a possibilidade de um recomeço: a construção de um mundo melhor. De todas as teorias, crenças, visões ou como quisermos chama-las, essa é a que gostaríamos de ver acontecer. E diante dela, a pergunta que nos fazemos repetidas vezes é: mas, afinal, qual é o mundo que queremos? O que, por sua vez, nos leva a perguntar: se tivermos clareza sobre esse mundo, como podemos contribuir para construi-lo? Por meio de discussões propostas no Laboratório de Pedagogia da Aventura, organizado pelo Instituto Asas, e apoiados na Carta da Terra 2 e outras referências, buscamos evidenciar o potencial da educação pela aventura na construção do projeto de sociedade que almejamos. Tendo sempre em mente, inspirar e apoiar educadores e aventureiros curiosos. 1 Este artigo, embora sob responsabilidade da Coordenadora de Projetos do Instituto Asas (Fabiana Pereira), é resultado de encontros promovidos com especialistas nas áreas de esporte, aventura, educação e esporte adaptado como parte da estratégia de produção e difusão de conhecimento do Asas em Os especialistas convidados para o Laboratório em Pedagogia da Aventura são: Elizabeth Mattos (USP), Fábio Silvreste (Fundação CSN), Paula Korsakas (PRODEH/USP), Rodrigo Bastos (OBB) e José Aníbal Azevedo Marques (Interação Esporte e Psicologia) 2 A Carta da Terra é uma declaração de princípios éticos fundamentais para a construção, no século 21, de uma sociedade global justa, sustentável e pacífica. Busca inspirar todos os povos a um novo sentido de interdependência global e responsabilidade compartilhada voltado para o bem-estar de toda a família humana, da grande comunidade da vida e das futuras gerações:

2 A crise que afeta todas as sociedades do mundo Leonardo Boff 3, em palestra durante evento do Instituto Ethos, em que discutiu A Ética e a Formação de Valores na Sociedade 4, afirma que as sociedades do mundo estão vivendo uma crise estrutural, que atinge os fundamentos da civilização que construímos nos últimos séculos: hoje, globalizada. Ele divide esta crise em 03 eixos fundamentais: apartação social, sistema de trabalho e alarme ecológico. O primeiro refere-se à pobreza, em que o risco é que a sociedade aceite essa apartação como algo inevitável, levando à percepção de que os laços de cooperação e solidariedade são mínimos em todo o mundo. O segundo, por sua vez, diz respeito à grave crise de emprego, decorrente da hegemonia do capital especulativo sobre o capital produtivo; em que prevalece a competição, e não a cooperação, na lógica da economia mundial. E o terceiro, à forma como a espécie humana vem ocupando o planeta, tão voraz, que este já ultrapassou sua capacidade de resistência e regeneração. Diante disso, Boff levanta alguns desafios que passam sempre pelo como: como trazer mais justiça e garantir a inclusão social dos apartados? Como passar de uma sociedade de pleno emprego para uma de plena ocupação, em que o ócio torna-se criativo, surgindo uma nova forma de interpretação do trabalho? Como estabelecer uma nova relação com a natureza, em que o desenvolvimento se faça com ela e não contra ela? Contudo, frente a tantos como, surge-nos uma inquietação, referente ao o quê. O que é que estamos buscando? Qual o projeto de sociedade que almejamos? Antes de definir o caminho que iremos percorrer para chegar lá, é preciso definir onde é esse tal lá! 3 Teólogo brasileiro, escritor e professor universitário, expoente da Teologia da Libertação no Brasil. É respeitado pela sua história de defesa pelas causas sociais e atualmente debate também questões ambientais. 4 A mesa-redonda Reflexões sobre a Ética e a Formação de Valores na Sociedade, transcrita neste documento, realizou-se em 12 de junho de 2003, durante a Conferência Nacional 2003 Empresas e Responsabilidade Social, do Instituto Ethos, no Novotel Center Norte, em São Paulo, SP:

3 O mundo que queremos ver Seres humanos e Terra comparecem juntos diante do futuro. E juntos devemos encontrar uma solução que seja justa, que garanta a sustentabilidade. Leonardo Boff Inspirados pela Carta da Terra e as palavras de Boff, sendo fiéis a nossa história individual, demos os primeiros passos em busca da caracterização do nosso mundo: aquele em que acreditamos e que gostaríamos de perseguir. Como resultado, obtivemos um mundo que carrega valores fortes, porém especiais: Respeito: acreditamos que cada forma de vida tem valor. Portanto, é nosso dever respeitar todos os seres humanos e demais seres vivos que habitam o mundo; garantir os direitos humanos, suas individualidades e liberdades fundamentais, de forma a proporcionar a cada pessoa a oportunidade de realizar seu pleno potencial, e prevenir os danos ao meio ambiente. Cuidado: vislumbramos um mundo em que o cuidado seja a essência do ser humano. O cuidado consigo, com seu corpo, com sua vida, com o seu futuro, com os outros (estejam eles próximos ou distantes), com a natureza, com os ecossistemas...; desenvolvendo, assim, uma atitude protetora e amorosa para com a realidade em que vivemos. Solidariedade: acreditamos na interdependência entre os seres. Dessa forma, uma sociedade só funcionará se criar laços de cooperação e inclusão, em que cada um coloca-se à disposição do outro, reunindo esforços nas soluções de desafios comuns. A colaboração deve estar presente em assuntos que vão além da responsabilidade individual, mas que contribuem para o desenvolvimento do todo. Tolerância: exultamos a multiplicidade como característica marcante da vida. É por meio do intercâmbio entre diferentes pessoas, experiências e culturas que a vida se faz. Por isso, defendemos a equidade: disposição para reconhecer, imparcialmente, o direito de cada um; respeitando o outro, tolerando as diferenças e aprendendo com elas. De forma a garantir uma conviência pacífica e harmônica entre todos. Responsabilidade: defendemos atitudes justas e cautelosas, em que a nossa ação não seja destrutiva e sim benevolente; ajudando a conservar, expandir e irradiar a vida. Nesse sentido, acreditamos que ser responsável é dar-se conta das conseqüências de

4 nossos atos. Pensar, avaliar e pesar resultados antes de agir torna-se, então, imperativo. Foi assim, então, que demos o primeiro passo em busca da resposta ao o quê?... Mas, e agora, como chegamos lá? A educação pela aventura e sua contribuição para a formação de valores Criativos que somos, pudemos levantar algumas alternativas de caminhos para responder a essa pergunta. Embora um, em especial, tenha-nos deixado mais curiosos: a educação pela aventura, por meio de expedições ao ar livre; razão pela qual decidimos abordá-la aqui. A educação pela aventura busca o aprendizado sobre si mesmo e sobre o mundo. Privilegia uma metodologia de aprendizagem experiencial - ao ar livre, cercada por um cenário natural em áreas remotas -, que utiliza todos os sentidos do indivíduo, dando ênfase aos relacionamentos entre as pessoas e os recursos naturais. É um processo em que os indivíduos constroem conhecimentos, aprendem técnicas e adquirem valores por meio da experiência direta. 5 Todo esse processo acontece em um contexto de expedição, em que o grupo passa a viver em uma mini-sociedade, recém-formada, afastada da realidade social em que vive habitualmente, uma vez que se encontra em ambientes remotos na natureza. A cadeia de ações desta nova sociedade, por sua vez, é bastante simples, considerando que as responsabilidades do grupo estão focadas em deslocar-se, encontrar pontos de acampamento que garantam um bom descanso, buscar água para reabastecimento, alimentar-se, cuidar do lixo e outros dejetos. Como não existem interferências externas, a não ser aquelas derivadas do convívio com o mundo natural, o grupo deve criar suas próprias normas e regras de convivência para garantir o bom funcionamento de sua mini-sociedade, bem como a sua segurança. Diante deste contexto, a cooperação entre os integrantes do grupo o trabalho em equipe torna-se fundamental para o sucesso da expedição 6. Se pensarmos que é no relacionamento com os outros que a pessoa vê-se obrigada a ser coerente em seu discurso, esse pode ser contabilizado com o primeiro aprendizado de valores da expedição. Isso porque o indíviduo só se conhece por meio de sua relação com o outro. É a partir dessa relação que aprende a agir com objetividade e responsabilidade, 5 Outdoor Education: uma alternativa para a educação ambiental (A Educação pelas Pedras: Ecoturismo e Educação Ambiental) Barros, M.I.A. (2000) 6 Os valores citados neste texto foram extraídos do artigo de Kunreuther e Ferraz (2012): Educação ao ar livre pela Aventura: o aprendizado de valores morais em expedições à natureza

5 uma vez que deve considerar tanto a sua pespectiva, quanto a dos demais, na tomada de decisão. Tomar decisões, por sua vez, exige mais do que um julgamento das diferentes perspectivas; o que nos leva ao segundo aprendizado: a iniciativa individual. Cada integrante deve transformar seu julgamento em ação e é apenas na experiência concreta (e não no dilema moral), que oportunidades para tal se apresentam. Como, por exemplo, se apenas uma parte do grupo esforça-se para montar as barracas, isso não está correto e caso nenhuma ação seja tomada para resolver o problema, conflitos podem emergir da situação. Outro aprendizado decorrente da educação pela aventura é a oportunidade de adquirir conhecimento sobre si mesmo. Reconhecer os próprios limites e perceber seus pontos fortes e fracos é sinônimo de respeito consigo mesmo e com o próximo. Essa barreira funciona como um indicador de responsabilidade, pois ao respeitar seu próprio limite, o indivíduo faz-se responsável por seus atos, garantindo sua integridade e dos demais integrantes do grupo. Agir com responsabilidade remete-nos, então, a um novo aprendizado: a importância do cuidado com o outro durante a experiência vivida. Ter consciência de seus limites, ajuda as pessoas a identificarem que outros têm limites também e que estes podem ser diferentes dos seus. Portanto, é importante cuidar para que todos estejam dentro de suas capacidades e caso isso não aconteça, apoiar um ao outro faz-se necessário. Nesse momento, a individualidade dá lugar à ajuda mútua, à compaixão, à solidariedade. Por último, destacamos o tema da justiça, que caminha de mãos dadas com a solidariedade. Redistribuir o peso das mochilas, por exemplo, é uma questão de cuidado com o outro ou, primordialmente, de justiça? O integrante do grupo menos robusto não teria o direito de carregar menos peso? Em casos como este, a igualdade não representa a justiça; isto é, o justo não é tratar todos da mesma forma, mas sim com equidade, em que cada um responde de forma proporcional a suas limitações e/ou potencialidades. Frente a tantos exemplos e evidências, o aprendizado de valores por meio da educação pela aventura ganha força e demonstra que este pode ser um caminho viável (e divertido) para alcançarmos o mundo que queremos.

6 CONCLUSÃO A educação pela aventura apresenta-se como uma oportunidade valiosa na formação de valores. Utilizando-se de vivências concretas, proporciona momentos reais para que coloquemos em prática o convívio em comunidade, cientes de que nossas decisões mais simples desencadeiam conseqüências imediatas. Trabalhar em grupo, agir com responsabilidade, cuidar de si e do próximo são alguns dos valores que esta proposta educacional estimula. Além disso, o indivíduo é provocado a conhecer seus limites, a relacionar-se com a natureza, a viver em uma nova sociedade, construindo com o grupo normas, regras e atitudes que vão pautar o mundo pelo qual querem estar rodeados. Entende-se, então, que a educação pela aventura oferece campo relevante para os profissionais que trabalham com educação. A proposta, ainda pouco explorada no Brasil, tem potencial para contribuir com a educação para valores e permear todos os momentos em que esta aparece: na escola, na família e na sociedade como um todo.

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