Mais que um leão por dia

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3 Missão de reconhecimento Por volta das 4h30, hora local, chego ao hotel Cataract Pyramids, em Gizé, terceira maior cidade do Egito, localizada à margem ocidental do Nilo e cerca de 20 quilômetros a sudoeste do centro da capital. No quarto, ao abrir a mala para pegar as roupas e tomar um banho a primeira surpresa: os frascos de repelente e filtro solar se abriram durante a viagem e melecaram quase todas as minhas coisas. Deito na cama por volta das 5h30, mas mal consigo descansar, tamanha a ansiedade. Às 7 horas desperto com o almuadem, o som dos alto-falantes das mesquitas convocando os muçulmanos para a primeira das cinco orações obrigatórias do dia. O som melancólico da voz do muaddin, a pessoa que faz o chamado à oração, é uma espécie de ladainha arabesca que repete a frase Allah hu Akbar (Alá é grande) e atesta a fé islâmica: La ilaha ilia Allah, Muhammad rasul Allah (Não há outro Deus que não Alá, e Maomé é o profeta de Alá). O Cairo é conhecido como a Cidade dos Mil Minaretes embora existam muito mais, a ponto de ninguém saber ao certo realmente quantas mesquitas são no total. O chamamento à fé islâmica dura cerca de três minutos e parte simultaneamente dos minaretes de cada uma das mesquitas e se propaga pelo ar, ocupando cada polegada cúbica da atmosfera. Quando algumas mesquitas, por fim, encerram o chamado, umas e outras ainda continuam. Chega um ponto em que você já não sabe dizer ao certo se há algum muaddin com o relógio um pouco atrasado, ou se o som penetrou de forma tão profunda na sua mente que dá a impressão de continuar ouvindo-o o tempo todo. Decido dar uma volta de reconhecimento, explorando a pé as ruas próximas ao hotel. Basta colocar o nariz para fora para ser assediado por um grupo de taxistas, que me cerca querendo me levar para conhecer os pontos turísticos do Cairo o passeio, de 100 euros baixa para 75 euros sem que eu diga uma palavra sequer. Agradeço dizendo que só estou caminhando um pouco. Alguns continuam insistindo e só largam do meu pé quando um turista incauto sai pela porta do hotel e grita a palavra mágica táxi atraindo todo o enxame para o seu entorno. Minha esperança de respirar um pouco de ar puro é logo frustrada. A poluição é um dos maiores problemas do Grande Cairo. Tanto que o hotel cobra US$ 5 a mais para quartos sem vista para a poluição o que no final das contas não passa de um grande engodo, já que é praticamente impossível ver a cor do céu de qualquer ângulo dada 35

4 a espessa camada de poluição. A fonte de boa parte da fumaça cinza que encobre o Cairo são os escapamentos dos automóveis velhos que circulam pelas ruas. Em uma das aventuras em que o herói gaulês Asterix foi ao Egito, seu amigo Obelix não se cansava de repetir: Esses egípcios são uns doidos. Provavelmente, se eles vissem o trânsito das ruas do Cairo hoje em dia, essa percepção se tornaria ainda mais sólida e cristalina. O trânsito egípcio é tão maluco quanto se pode imaginar. Com uma frota estimada em mais de 2 milhões de veículos, os motoristas dirigem com um pé no acelerador e uma mão na buzina. Além disso, muitas carroças com tração animal dividem espaços com carros, motos, vans e caminhões caindo aos pedaços, todos apinhados de gente. Na prática, não existe regra ou código de trânsito. As ultrapassagens podem ser feitas tanto pela direita quanto pela esquerda. O fluxo do trânsito é apenas uma convenção ignorada. Não raro, um carro ou moto decide andar pela contramão, buzinando constantemente para alertar os outros motoristas, que também respondem buzinando para o infrator. Motos podem perfeitamente carregar três adultos e duas crianças todos, é claro, sem capacete, e os pedestres perambulam despreocupadamente no meio da rua. Nas ruas mais congestionadas, eles vão costurando o trânsito ou simplesmente se precipitam entre os carros, ignorando solenemente as buzinadas. Em meio a todo esse caos, é possível até mesmo ver pessoas pegando carona na parte de fora do carro, sentadas no porta-malas de sedãs ou na caçamba de caminhonetes e caminhões. Mesmo sendo um país pobre o que, em tese, poderia estimular o uso da bicicleta por trabalhadores é raro ver algum ciclista pelas ruas e não é difícil entender por quê. Apenas um ou outro se encoraja a pedalar, geralmente com uma caixa na garupa usada por trabalhadores para transportar frutas e legumes. Se o trânsito é de fato o retrato de uma sociedade, a sensação é que o Egito ainda tem um longo caminho a percorrer. Diante disso, minha pretensão de pedalar pelas redondezas para explorar as ruas de Gizé é logo descartada por uma questão de autopreservação. Ao invés disso, tal qual um espectador, fico observando o frenético movimento das ruas, com o povo indo e vindo ao som nervoso das buzinas: mulheres de véu sobre a cabeça caminhando com crianças no colo, jovens montados no lombo de burros, famílias inteiras sobre carros de boi. Alguns sorriem, acenam e cumprimentam: 36

5 Salaam Aleikum! (Que a paz esteja sobre vós expressão islâmica que equivale a um simples olá ). É o Egito me dando as boas-vindas. Primeiros contatos Dando uma volta pela área comum do hotel é possível reconhecer facilmente quem está aqui para participar da expedição. Em meio aos hóspedes comuns provavelmente interessados apenas em ver pirâmides e múmias, alguns têm uma aura diferente, um sorriso quase dissimulado atuando como um código de autorreconhecimento de uma irmandade secreta, bastando uma troca de olhares para se perceber que ali está mais um aventureiro do Tour d Afrique. Durante o café da manhã, faço meu primeiro contato com outros membros do grupo. Como é de se esperar, as primeiras conversas sempre giram em torno da nacionalidade de cada um, profissões e troca das primeiras impressões sobre o Egito e das expectativas diante da aventura. Como sou péssimo para nomes, no início vou usando esses fragmentos de informações para criar uma espécie de arquivo sobre cada um que vou conhecendo, passando a identificá-los com apelidos mentais: o aposentado alemão, o fazendeiro da Nova Zelândia, o operador da bolsa de valores franco-canadense jogador de squash, o simpático jovem casal de alemães. A cada conversa, vai se percebendo que cada um tem seus próprios objetivos para estar aqui: um inglês acima do peso decidiu que pedalar poderia ser uma boa forma de vencer o sedentarismo e, além de tudo, emagrecer; a bela jovem sul-africana, enfadada com a futilidade da profissão de hostess em cruzeiros de luxo, achou que era hora de mudar os rumos da própria vida e decidiu que pedalar na África seria uma boa forma de arrecadar fundos para uma instituição de caridade; o americano barbudo que trabalha em uma fábrica de microchips e já cruzou três continentes de bicicleta ruma agora para sua quarta grande aventura com a meta de pedalar por todos os continentes do globo. Ao todo, são mais de 50 ciclistas de 15 diferentes nacionalidades das Américas do Norte e do Sul, Europa, África e Oceania. Essa Babel, que propicia uma troca de cultura riquíssima, torna tudo ainda mais fascinante. Diferentes histórias, diferentes metas, mas todos têm algo em comum: a paixão pela bicicleta e a coragem de encarar um grande desafio. 37

6 Desbravando A Poderosa Com praticamente três dias de folga antes de colocar as rodas na estrada sendo um dia necessariamente reservado para a montagem da bicicleta e última checagem dos equipamentos, muitos aproveitam para fazer turismo na capital egípcia. Alguns grupos se formam naturalmente por nacionalidades, por faixas etárias ou simplesmente por afinidades. Acabo fazendo amizade com Rob, o canadense que trabalha na bolsa de valores de Quebec e joga squash. Ele foi o único que me acompanhou quando pedi uma cerveja na mesa do jantar na noite anterior, o que acabou transformando nossa conversa em algo muito próximo a um papo de bar, ajudando a criar uma empatia mútua. Ali mesmo combinamos de irmos juntos conhecer a cidade. Tendo pouco tempo para decidir entre as diversas opções de roteiros disponíveis, ficamos diante do primeiro grande dilema: conhecer o Cairo do passado, com seus museus, múmias e sarcófagos ou a cidade do presente, viva e pulsante com seu trânsito caótico, mercados e mesquitas? Decidimos por bem deixar o turismo fúnebre-histórico para uma outra encarnação, quem sabe, e vamos desbravar A Poderosa significado da palavra Cairo, em árabe do presente. Com cerca de 9 milhões de habitantes apenas na capital e 24,2 milhões na região metropolitana, o Cairo é a maior cidade do continente africano, a mais populosa do mundo árabe e uma das 15 maiores metrópoles do mundo. A história da cidade se perde nas ruínas de Mênfis, antiga capital do primeiro império faraônico do Baixo Egito. Ressurge nas fortalezas romanas, na margem oriental do Nilo, e é refundada no ano 969 d.c. como capital do Egito árabe pelo califado Fatímida. O Cairo é um mundo fascinante, onde a história não foi para a tumba junto com os faraós. Uma parte do passado ainda se faz presente no Cairo Islâmico, região histórica da capital tombada como Patrimônio da Humanidade pela Unesco. O complexo, formado por mais de 600 monumentos históricos que vão do século XII ao XX, retrocede ao início da era do Islamismo. O acervo inclui a fortaleza de Saladino (Citadel), construída em 1183 pelo líder do levante contra os cruzados, e a Mesquita de Mohamed Ali, feita em alabastro e toda no estilo turco-otomano. É também no Cairo Islâmico que está localizada a mesquita de Al-Azhar, a mais antiga do país, que começou a ser construída no ano de 970, apenas um ano após a refundação do Cairo. O templo também é sede da universidade mais antiga do mundo em atividade, fundada pelos fatímidas como centro de estudos da lei islâmica 38

7 do Alcorão, além de ciências como lógica, gramática, retórica e cálculos astronômicos. Embora o campus da Al-Azhar tenha sido transferido neste século para Nasr City, distrito a oeste do Cairo, a mesquita ainda é a sede simbólica da instituição e detém o segundo maior acervo bibliotecário de todo o Egito, com cerca de 100 mil volumes que condensam quase 600 mil manuscritos raros, alguns datados do século VIII. A construção imponente tem uma beleza arquitetônica ímpar, com seu característico minarete duplo e um imenso domo ornamentado por mais de mil anos de história. No portal principal, é preciso descalçar os sapatos para poder entrar. Para um muçulmano, a sola de um sapato é uma das coisas mais sujas, degradantes e repulsivas que existem. Tanto que, no Egito, o simples ato de cruzar as pernas deixando à mostra a sola do sapato algo comum e corriqueiro no Ocidente pode ser tomado como um gesto extremamente grosseiro e ofensivo. Seria impensável, portanto, levar algo tão imundo para dentro de um dos lugares mais sagrados para o islã. Por 2 pounds egípcios, é possível deixar os calçados guardados em uma espécie de guarda-volumes ou se arriscar deixando-os no chão. Olhando a marca dos tênis, o guia nos aconselha a desembolsar o equivalente a US$ 0,15. No interior da mesquita, há um imenso átrio, com o piso todo de mármore branco, ladeado por colunas e paredes com absides árabes, ornamentadas por milhares de afrescos esculpidos à mão. Na nave central, um imenso salão com colunas em mármore. O espaço é iluminado apenas pela luz natural que transpassa os coloridos vitrais. No chão, o tapete das orações, de cor vermelha, com centenas de células delimitando o espaço de cada fiel. Todos apontam para o Mihrab, uma espécie de altar no centro da mesquita, que serve para indicar a direção da cidade sagrada de Meca. De cabeça, faço um cálculo: são 15 fileiras, divididas em cinco faixas com três linhas cada uma. Entre cada coluna, dez células. Ou seja, 150 lugares em cada módulo entre as colunas. Multiplicando por dez colunas à esquerda e outras dez à direita, mais o espaço central, são lugares, apenas na nave central da mesquita. O movimento é intenso. Centenas de fiéis muitos jovens ajoelhados rezam para Alá, enquanto se curvam tocando a fronte no tapete. Não resisto e também me ajoelho. Em silêncio, faço uma pequena prece para o Deus muçulmano, pedindo proteção durante o Tour que se aproxima. Não chego a me curvar e tocar minha testa no chão até por não saber se isso poderia ser tomado pelos outros ao redor como algo desrespeitoso. Não há uma placa escrito turista pendurada no meu pescoço, mas a câmera fotográfica acaba cumprindo esse mesmo papel. 39

8 Em volta, enquanto uns rezam, outros leem e estudam os textos sagrados encostados nas colunas ou conversam sentados em bancos de madeira em tom de voz baixo, para não atrapalhar a oração dos outros fiéis. Nosso guia-motorista nos explica que, além de espaço de fé, as mesquitas também cumprem o papel de local de encontro e de convivência dos muçulmanos. Quando questiono o guia sobre a corrente religiosa predominante naquela mesquita sunita ou xiita, o sorriso dele desaparece instantaneamente, a cara se fecha e a resposta vem em tom ríspido: - Se Alá é um só, os muçulmanos também são um só. Não existem dois Islãs. A religiosidade é tema sensível aos egípcios e não se conversa sobre religião com a mesma naturalidade com a qual estamos acostumados no Ocidente. O grande mercado egípcio Saindo da mesquita, vamos para a região do souk (mercado) Kahn El Kalili. Encravado no coração do Cairo Islâmico e embrenhado em meio a ruelas lamacentas e becos sem saída, o movimentado mercado de rua existe desde 1382 e há mais de seis séculos atrai comerciantes, negociantes e turistas do mundo todo. Ali é possível comprar de tudo: temperos, frutas frescas, verduras frescas e podres, joias, tecidos e tabaco. O cheiro é uma experiência à parte, com notas do perfume das milhares de especiarias, misturado com couro e aroma de pão fresco; um corpo delicado e envolvente da fumaça dos incensos com um toque amargo do tabaco fumado nos narguilés; e, por fim, um fundo fétido de urina de gato, misturado ao cheiro de cachorro molhado e uma pitada de suor azedo. A trilha sonora vem dos minaretes, com o chamando para a oração do meio-dia. O palavrório das conversas é abafado pelo grito dos comerciantes. Não falo nem entendo árabe, mas o vendedor de tâmaras certamente grita algo como na minha mão é mais barato para atrair os fregueses. Ao fundo, ouve-se o som de um alaúde tocado por um artista de rua em busca de algumas moedas dos turistas. O movimento é frenético. Homens, mulheres e crianças vêm e vão, surgem e desaparecem pelas vielas labirínticas do El Kalili. Uma bicicleta passa apressada. Com uma mão, o ciclista segura o guidão e com outra equilibra um enorme cesto de pães sobre a cabeça. Pombos comem os restos e migalhas que vão ficando pelo chão. Há, aliás, uma rica e abundante fauna local. Os gatos vira-latas predominam na cena e andam por todos os lados inclusive em cima de frutas, verduras e especiarias 40

9 expostas em algumas bancas. Como é evidente que os egípcios não alimentam seus bichanos com ração Wiskas Premiun, não é difícil constatar qual a comida farta que mantém gorda toda a gataria. Na cadeia alimentar a sujeira atrai os ratos, que por sua vez atraem os gatos. Como a cambada não tem predador natural será que aqui eles viram churrasquinho de rua? a população felina fica fora de controle. Além dos animais livres, patos, galinhas e perus vivos ficam presos dentro de gaiolas. Um comerciante, com o cigarro no canto da boca, corre atrás de um peru que acabara de escapar. Uma senhora, com véu na cabeça, chega à sua banca, olha e aponta para uma galinha parda. O dono da tenda encarcera novamente o peru fujão e retira a galinha do cesto, recebe o dinheiro da senhora e lhe entrega a ave. Sem cerimônia, ela destronca o pescoço da penosa ali mesmo e sai andando calmamente pelas ruas do mercado, segurando o defunto penoso pelos pés, provavelmente voltando para casa com o item que faltava para o almoço. No açougue ao lado, meio boi fica pendurado em ganchos, com a carne exposta sem nenhum sistema de refrigeração, fazendo a alegria das moscas e varejeiras egípcias. Assim como não tem direito a requisitos sanitários mínimos, o cliente também não tem a opção de escolher entre picanha, contrafilé ou coxão duro. Ele chega e o açougueiro vai fatiando a carcaça na medida de carne que seu dinheiro pode comprar, tudo pesado a olho e conferido na mão pelo freguês. Ao lado, outro homem, com uma faca na mão, vai limpando as tripas do boi em uma bacia com água, também usada para acomodar a cabeça e as quatro patas do bicho, ainda com os cascos sujos de terra. Com a fome despertada e o apetite aguçado diante de tantos estímulos, seguimos para uma banca que, segundo o nosso guia, faz o melhor falahfel do Egito mas a intimidade demonstrada entre ele o dono da banca ao se cumprimentarem torna evidente que ali há algum tipo de acordo do tipo: você traz seus turistas e eu te dou um falahfel de graça. Ainda que tudo indique não se tratar de fato do melhor do Egito, o quitute tem lá seu charme: um bolinho de grão de bico com gergelim frito em uma gordura que só um arqueólogo seria capaz de dizer a quanto tempo está naquele tacho de cobre, com temperos e especiarias, tudo envolto em um pão árabe. A comida é manuseada e preparada pelas mesmas cuidadosas mãos que contam o dinheiro e vez por outra coçam a cabeça coberta por cabelos negros e engordurados. Ao invés de guardanapo, o acepipe é servido em papel sulfite comum usado, com inscrições em árabe impressas como as de uma planilha de contabilidade. O sabor só não é mais intenso que a adrenalina de provar uma comida tão exótica. Uma 41

10 verdadeira prova de fogo estomacal, na qual acabo sendo aprovado. Já de barriga cheia, observo as livrarias de livros usados enquanto caminho pelas vielas. Entro rapidamente em uma delas e olho maravilhado aquelas prateleiras lotadas, tão desorganizadas quanto só uma livraria egípcia seria capaz de ser. Minha vontade é ficar ali e garimpar um livro antigo de páginas amareladas. Imagino o velho livreiro árabe de barba branca soprando a capa de couro empoeirada e reconhecendo a obra, um alfarrábio que atravessou o Saara no lombo de um camelo, contrabandeado por um beduíno, e contém um segredo guardado há séculos. Meu devaneio só é interrompido quando Rob, apressado, me puxa pelo braço dizendo que temos que ir rápido para podermos aproveitar o restante do dia e visitar os outros locais que ainda faltam. Acompanho Rob, mas fico com a nítida sensação de estar deixando para trás um antigo pergaminho com a formulação original da teoria das equações trigonométricas ou, quem sabe, um manuscrito original inédito das Mil e Uma Noites, provando que Xerazade ludibriou Xariar por uma noite a mais do que se tem notícia. Volto para o mundo do lado de fora ciente de que é preciso continuar. Ainda há uma história toda a ser escrita. Praça Tahrir: o jardim da Primavera Árabe Um manual de viagens que consultei antes de embarcar para o Egito me alertava que não é recomendável puxar conversas de cunho político ou religioso com a população local. O livro, claro, foi editado antes da Primavera Árabe, o movimento que em 11 de fevereiro de 2011, após 18 dias de uma onda massiva de protestos, derrubou a ditadura de Hosni Mubarak, o presidente que, tal qual um faraó tardio, reinava sobre os egípcios por três longas décadas. A marca mais visível da Primavera Árabe na sociedade egípcia é justamente a mudança deste traço cultural. Antes receosos, agora são os egípcios que puxam conversas políticas com os estrangeiros e falam sem medo sobre a revolução e o futuro do país. Somos uma civilização com mais de 5 mil anos de História, enquanto os Estados Unidos tem pouco mais de 500 anos de descobrimento, diz Mohamad, dono de uma loja que vende réplicas de pinturas egípcias feitas em papiros para turistas. O Egito tem uma importância estratégica para o mundo, pois fica entre o Oriente e o Ocidente. Pode-se mudar o peso das nações, mas enquanto o Egito não mudar de lugar, continuará sendo importante para o mundo, avalia. 42

11 Enquanto mostra na prática o processo de como os antigos escribas confeccionavam o papiro, o comerciante se diz frustrado com o novo presidente do país, Mohamed Mursi, representante do Partido Liberdade e Justiça, braço político do grupo Irmandade Muçulmana, uma organização de cunho islâmico-fundamentalista. O problema dos políticos é que eles querem fazer história para eles mesmos, e não para o seu país e pelo seu povo. Mursi cometeu o mesmo erro, mas ainda há esperança. Enquanto houver esperança de que as coisas mudem, a população vai apoiá-lo, senão, haverá outra revolução, vaticina. Já a guia turística Nivin parece mais desconfiada e avalia que o Egito de Mubarak era melhor que o de hoje. Segundo ela, o desemprego antes da Primavera Árabe no país girava em torno de 15%; hoje atinge 30% da população. A indústria do turismo, segunda principal fonte de emprego e renda do país, caiu 70%. Para ter esperança, é preciso ter salário no bolso e comida na mesa, garante. Não importa quem esteja no poder, contanto que garanta isso para a maioria da população, completa. Said, um motorista de táxi, quando questionado sobre qual governo é melhor, mira no governo e nos próprios manifestantes. Acampam agora porque são contra esse governo, acamparam antes porque eram contra o governo anterior. Sempre tem alguém contra alguma coisa, diz. No caminho, é possível perceber que filas de carros e caminhões parados para abastecer nos postos de gasolina ultrapassam cinco quarteirões. O movimento é controlado por soldados do exército, armados com fuzis AK-47. Diante da crise econômica, o presidente Mursi impôs um racionamento para limitar o consumo de combustível tudo isso para fazer sobrar mais petróleo para exportação e, assim, injetar alguns dólares na combalida economia do país. Mas como o Egito também precisa continuar rodando, o racionamento acaba criando novos problemas, penaliza a população e castiga a economia egípcia. O taxista me explica que por conta da medida é obrigado a pagar dez vezes mais caro pelo litro da gasolina no mercado negro. No porta-malas do velho táxi, dois galões cheios vão balançando e colocando em risco a segurança do próprio motorista e de seus passageiros. Todos aqui andam agora com tanque extra para se garantir, revela Said. A insatisfação geral com o novo presidente fica evidente nos cartazes já desbotados da época da eleição, que recebem pichações, e Mursi ganha chifres e bigodes do demônio. Não é difícil perceber que a situação política do Egito ainda vive um período de alta octanagem. 43

12 Na Praça Tahrir, o epicentro da revolução, manifestantes ainda permanecem acampados. Ao redor da praça fica o Museu Egípcio do Cairo que guarda parte do acervo das pirâmides e das catacumbas que não foi contrabandeado para museus de Londres e Nova York e a sede do Partido Democrático Nacional, do ex-ditador Mubarak, alvo de depredação durante o levante de Foi ali na Midan al-tahrir a Praça da Libertação que mais de 2 milhões de egípcios se reuniram para derrubar Mubarak e, depois, para forçar Mursi a recuar da decisão de decretar a si mesmo poderes faraônicos e de aumentar impostos sobre produtos básicos. Também foi na Praça Tahrir que o povo debateu a nova Constituição. Apenas dez dias antes da minha visita à praça, o país foi às urnas novamente para referendar a Carta Magna do Egito pós-mubarak, que colocou em jogo o papel da religião na sociedade. Houve confrontos entre o governo que defendeu a sharia, interpretação islâmica das leis, sob os princípios do Alcorão e a oposição, defensora de um estado laico. De acordo com os resultados oficiais, 63% dos eleitores aprovaram a nova Constituição, mas apenas 32% dos egípcios aptos a votar foram às urnas. A oposição contestou os resultados alegando fraudes. Milhares de pessoas voltaram às ruas em protesto contra o governo, alegando que a nova Carta estaria traindo os princípios da revolução que depôs Mubarak. Embora não esteja mais tomada por centenas de milhares de manifestantes como no auge da Primavera Árabe, algumas centenas de pessoas permanecem acampadas na Praça Tahrir. Em geral, são seculares que resistem em defesa de um Egito laico. Nas barracas, além da bandeira egípcia, usam como símbolo de luta a lua crescente símbolo universal do islã com uma cruz cristã ao centro. Os revolucionários da Praça Tahrir não gostam de fotos nem de muita conversa com estrangeiros. No photos, no photos!, foi a única frase que consegui ouvir de um grupo de acampados. Outro, em tom um pouco mais ameaçador, alerta: Isso aqui não é a Disneylândia!. Temeroso, decido guardar a câmera. Ainda assim, me aproximo de outro grupo, me identifico como jornalista brasileiro e digo que estou interessado em saber mais sobre a causa pela qual lutam. Uma menção ao craque de futebol Ronaldo mostra que minha nacionalidade ajuda a quebrar um pouco a resistência inicial. Três revolucionários concordam em conversar, mas desde que não sejam feitas fotos de rosto de nenhum dos acampados. Segundo me explicam, há duas razões para todo esse receio. O primeiro é o temor de perseguições e represálias. Mursi tem um viés ditatorial. Nunca se sabe o que pode nos acontecer se ficarmos expostos como oposição ao regime, diz um deles. O segundo motivo é a essência da própria revolução. Não 44

13 queremos mostrar o rosto porque a revolução não tem um líder ou uma só cara. Ela foi feita pelo povo que veio e ocupou a Praça Tahrir, que resistiu e derrubou Mubarak. A revolução tem a cara do povo egípcio, explica o revolucionário. Nossa luta é para derrubar a Constituição, que não representa as legítimas aspirações do povo egípcio, afirma o outro. A revolução não terminou, completa. Coitados dos coptas Se a vida no Egito não está fácil para ninguém, imagine então para os coptas. Representando menos de 10% da população do país, o grupo é formado pelos egípcios que abraçaram o cristianismo ainda no século I da era moderna e que hoje seguem a Igreja Ortodoxa Copta uma das igrejas orientais mais antigas do mundo, originária do cisma com a Igreja Ortodoxa tradicional e com a Igreja Católica Apostólica Romana. Encravado no chamado Antigo Cairo, o bairro copta é na verdade uma fortificação murada e vigiada ostensivamente por forças de segurança egípcias. Apesar de a liberdade religiosa ser garantida por aqui, a minoria copta é vítima constante de violência sectária. Para entrar no bairro, é preciso passar por um posto de controle, com revista de mochilas e detector de metais. Isso porque, frequentemente, o local é alvo de atentados de muçulmanos radicais, que invadem o bairro e saem atirando a esmo. São recorrentes os casos de estupros, depredações, incêndios e assassinatos contra os coptas. Essa marginalização também cria um obstáculo, fazendo com que o desemprego que atinge em massa os egípcios tenha, historicamente, o dobro da força sobre a população copta. No entorno, os alto-falantes das mesquitas do lado de fora são direcionados para o bairro copta e o volume do almuadem parece ser amplificado, na tentativa de converter os infiéis. Há uma perseguição quase oficial à minoria. Durante as manifestações da Primavera Árabe, um grupo de muçulmanos conservadores investiu contra os cristãos, que protestavam nas ruas contra o incêndio criminoso de uma igreja, dias antes. A polícia egípcia interveio, mas tomou posição em um dos lados do conflito, deixando um saldo de 24 mortos e mais de 300 feridos; todos eles coptas. Oficialmente, a ação foi em legítima defesa, já que os soldados estariam sob o ataque da turba dos coptas armados com paus e pedras; responderam à bala. 45

14 Os muros do bairro copta também guardam importante parte da história. Lendas contam que o local foi visitado pela Sagrada Família durante o período descrito pela Bíblia como Fuga para o Egito, quando José, Maria e Jesus de Nazaré teriam fugido da perseguição do rei Herodes. Também foi ali, sob as ruínas de Mênfis, que o império romano erigiu a fortaleza da Babilônia. Localizado à margem direita do Nilo, o local tinha grande importância estratégica, dando controle militar e comercial sobre o Canal de Heliópolis rota que ligava o Nilo ao Mar Vermelho. As ruínas da torre, construída com imensos blocos de concreto, permanecem como testemunha de invasões e reconquistas no decorrer dos séculos, ao lado das dezenas de igrejas. O Vaticano dos coptas é a Catedral de São Marco no momento, fechada para visitação por conta de uma ampla restauração. Já o Monastério e Igreja de São Jorge, construídos no século X, também são de grande importância para os fiéis. Na cripta úmida, escavada na pedra nua e iluminada apenas pela luz de velas, há uma flâmula vermelha bordada à mão com fios de ouro e a imagem de São Jorge sobre o cavalo branco empinado, derrotando o dragão. Ao redor, centenas de papéis e bilhetes, colocados nas frestas com pedidos e preces de fiéis e peregrinos. No interior da igreja, altares de madeira entalhados à mão dividem espaço com vitrais. Tudo isso se mistura com enfeites bregas de Natal e figuras de Papai Noel de plástico e pisca-piscas made in China, ainda por causa da data comemorada há apenas dois dias. Os coptas seguem o calendário juliano e celebram o nascimento de Cristo naquele que equivale ao dia 8 de janeiro para quem segue o calendário gregoriano. Nas paredes, quadros formam uma galeria com fotos de homens, quase todos de longas barbas brancas. Mas não se trata de uma exposição de papais-noéis, e sim da galeria papal copta. A série é encerrada com a foto de Sua Beatitude Teodoro II, novo líder copta empossado dois meses antes, após o conclave sucessório de Shenouda III, quando seu nome foi retirado de uma urna por um garoto vendado. Desde então, ele responde pelo título de Papa de Alexandria e Patriarca da predicação de São Marcos e de Toda a África. Ao assumir seu pontificado, Teodoro II prometeu se empenhar pela unidade do povo egípcio, focada na convivência pacífica entre coptas e muçulmanos para alcançar a paz. Uma missão nobre, mas nada fácil. Que Deus e Alá o ajudem. 46

15 Últimos detalhes Na véspera da largada do Tour d Afrique, o dia é dedicado quase que exclusivamente à montagem das bicicletas, organização e checagem final das bagagens e equipamentos. Em volta da piscina do hotel, cada um abre sua caixa para montar sua própria bicicleta. Tirá-la da caixa, conferir item por item, ajustar as peças sabendo que aquele aperto de parafuso pode ser decisivo para o sucesso de uma aventura de 12 mil quilômetros pela África tudo isso dá ao processo um ar cerimonial, quase ritualístico. Mas, apesar de ciclista experiente, mecânica de bicicletas nunca foi o meu forte. Tento resolver a situação por conta própria, mas o quebra-cabeça não se encaixa. Tento de outra forma e nada. Disfarçadamente, dou uma olhadela para ver como o colega do lado está fazendo com a dele. Chego a lembrar dos meus tempos de criança quando, com uma chave de fenda nas mãos, desmontava rádios-relógio, videocassete e outros eletrodomésticos por pura diversão, e nunca conseguia remontá-los novamente com todas as peças talvez por isso tenha desistido de uma promissora carreira na engenharia. Enquanto me debato para montar a caixa de direção da bicicleta, uma chuva torrencial despenca do céu cinzento do Cairo. Às pressas, todos pegam suas bikes semidesmontadas, caixas e ferramentas e correm para debaixo de uma marquise. Enquanto esperamos a chuva passar para retomar a árdua tarefa, descubro que o colega com quem estou batendo papo faz parte da equipe do Tour e é um dos dois mecânicos que vai nos ajudar durante a viagem. Relato minha dificuldade em encaixar as peças na ordem certa apesar de meu inglês não permitir relatar com exatidão o nome correto de cada item: arruela vira coisa redonda, espaçador, tipo um anel, e rolamento, aquela coisa com bolinhas. Não sei se para ele faz tanto sentido quanto faz na minha própria cabeça. Quando a chuva passa, voltamos à beira da piscina e retomamos a montagem das bikes. Conto agora com a ajuda do canadense Jon Jamieson o Jay-Jay, mecânico do Tour que põe a mão na massa e me ajuda a montar o que falta da Safarini. Para a minha surpresa e para a dele próprio também a peça não se encaixa porque um dos rolamentos da caixa de direção entortou e amassou durante o voo. Enquanto Jay-Jay 47

16 tenta desamassá-la com a mão, duas ou três bolinhas de aço se soltam e saem pingando com destino incerto. Passamos vários minutos vasculhando cada palmo do chão; sem sucesso, desistimos. Quem sabe, um dia, um arqueólogo possa encontrá-las? Montamos a bicicleta do jeito que dá; além do rolamento capenga, dois espaçadores peças usadas para aumentar a distância do encaixe do guidão com o quadro acabaram sobrando. Por enquanto, dá para ir usando assim mesmo, mas, assim que possível, terei de substituir a peça, diz Jay-Jay. Ao redor, fica evidente a ansiedade e a expectativa no rosto de cada um dos participantes enquanto fitam e contemplam suas próprias bicicletas. No meio da tarde, em uma reunião com a equipe da organização, nos são passadas as informações básicas sobre o dia a dia e as regras do Tour d Afrique. Cada ciclista se apresenta de forma breve nome, idade, nacionalidade, mas quando o quarto ciclista começa a se apresentar, já nem me lembro sequer do nome do primeiro, da idade do segundo e da nacionalidade do terceiro. A mesma coisa acontece com os membros do TDA. A equipe é composta pelo líder do Tour, uma diretora de corrida, uma assessora de comunicação, dois paramédicos, um cozinheiro e um cozinheiro-assistente e dois mecânicos de bicicletas. O líder do Tour é o canadense Ciaran Powers, que está partindo para sua segunda aventura em terras africanas. Baixinho e marrento, ele fala com convicção e sabe impor sua autoridade e liderança sem ser grosseiro. Ciaran explica de maneira geral os procedimentos para a largada do dia seguinte e as regras gerais do TDA, procedimentos de segurança, navegação, o que fazer ou a quem pedir socorro em caso de necessidade. Em resumo, são três as leis do Tour d Afrique, nessa ordem de importância: segurança, respeito e diversão. Segurança em primeiro lugar, para que todos voltem vivos e inteiros. Capacete na cabeça o tempo todo. Não é permitido pedalar um centímetro sequer sem o capacete. Não tem desculpas, mas, ou porquês, ele deixa bem claro. Respeito para com os organizadores, os outros ciclistas e a população local acessos de raiva ou xingamentos dirigidos a qualquer um destes resultam em uma advertência por escrito; na segunda vez, expulsão do Tour. Agressão física é expulsão sumária. E diversão, já que todos vieram aqui para pedalar e viver uma grande aventura; e se isso não for divertido, nada mais faz sentido. No dia seguinte, despertamos às 4h40, antes mesmo de o sol raiar. Cada um coloca seus pertences nos caminhões. Em uma última reunião, ainda no hotel, nos são dadas algumas orientações sobre o primeiro dia. Uma chamada confere se nenhum ciclista ficou dormindo. Depois de cada nome, um dos membros do staff pergunta 48

17 se cada participante gostaria de ser chamado por algum apelido. Para descomplicar o Alexandre, na minha vez, acabo sugerindo apenas Ale, como sou chamado pela maioria dos meus amigos. - Ok, então, Ali; Ali C. para diferenciar dos outros diz ela, enquanto anota meu novo nome na prancheta. Pela mesma lógica, Alistair Insall vira apenas Ali, Alex Beraskow vira Alex e Alexandre Morrier se torna Alex Morrier. Por volta das 6h30 saímos do hotel em comboio, escoltados por viaturas da polícia egípcia em direção à Gizé, para a largada oficial do Tour d Afrique O deleite do Faraó Ciclistas, do alto dessas pirâmides 40 séculos de história vos contemplam. Aos pés da Grande Pirâmide de Quéops, sobre minha bicicleta, essa é a primeira coisa que me vem à cabeça, em uma adaptação livre da célebre frase de Napoleão Bonaparte exortando seus soldados, em minoria numérica, a combater o exército do Império Otomano, apoiado pelos mamelucos, naquela que ficou conhecida como a Batalha das Pirâmides. Porém, quase 215 anos depois, ao invés de dois regimentos de exércitos inimigos combatendo com suas cavalarias, um esquadrão multinacional de ciclistas aliados, montados em suas bicicletas. O objetivo desta vez, no entanto, não é apenas o de dominar o Cairo e o Egito, e sim o de conquistar toda a África o que faz com que Napoleão fique se parecendo mais com um maluco de hospício. Contemplar a única maravilha remanescente do Mundo Antigo desencadeia uma série de sensações e emoções indescritíveis. Tocar com a ponta dos dedos as pedras desses monumentos com mais de 4,5 mil anos de história é quase como uma experiência de viagem no tempo. Dependendo do ângulo que se observa, a face da pirâmide parece uma imensa escadaria para o céu uma passagem para o infinito e a vida eterna, exatamente como planejavam os faraós. A tentação de escalar os imensos blocos de pedra é irresistível. Ainda que a vontade seja a de galgar até o topo, subir os primeiros degraus já acaba sendo uma experiência tão marcante que você se dá conta que vai carregá-la consigo para a vida eterna. Pagando alguns pounds egípcios, é possível adentrar em uma pequena câmara mortuária um túnel estreito com uma galeria de não mais de 15 metros. No interior, nada de pinturas, múmias ou tesouros ao menos aparentemente, já que a vontade 49

18 é sair tocando as paredes em busca uma pedra-alavanca capaz de acionar a abertura de uma passagem secreta. De qualquer forma, a sensação de penetrar no coração da pirâmide já é intensa o suficiente para que você se sinta um verdadeiro Indiana Jones. A mística, o poder simbólico, a maravilha arquitetônica e a história da pirâmide. Tudo isso está permeado em cada átomo dos 2,3 milhões de blocos de pedra usados para edificá-la. Mais adiante, guardando a Necrópole de Gizé e o Templo do Vale, a Grande Esfinge, esculpida em uma única peça de rocha calcária com a cara de um homem e o corpo de um leão. Diante da magia de algo tão grandioso, o enigma da esfinge Decifra-me ou te devoro! e o segredo da pirâmide passam a fazer algum sentido. Acabo recordando aquela história do pastor de ovelhas da Andaluzia que chegou às pirâmides para realizar um sonho. Fico com a sensação de que, se virar a esquina com a minha bicicleta, pedalar até o aeroporto e voltar para casa no Brasil, nada terá sido em vão. O primeiro tesouro acaba de ser encontrado. Uma dimensão paralela Antes de qualquer coisa, a foto oficial. É preciso guardar e eternizar essa imagem histórica para não correr o risco de tê-la danificada pela ação do tempo sobre a memória. De um mirante no platô do deserto, as três pirâmides alinhadas no horizonte. As bicicletas encostadas na mureta compõem o cenário. E os ciclistas com suas roupas coloridas, em meio a cliques, flashes e sorrisos exultantes parecem nem se importar com o frio da manhã, capaz de fazer congelar os ossos. Um farto café da manhã é servido, com sucos, biscoitos, pães, doces e salgados. Enquanto comemos, tiramos fotos e conversamos, alguns turistas civis se aproximam e perguntam o que é tudo aquilo. Ficam impressionados quando ouvem que o grupo vai atravessar a África de bicicleta e aproveitam para tirar fotos com membros do grupo, como se fôssemos celebridades do mundo dos esportes. Ao redor, alguns camelôs egípcios vendem réplicas da esfinge em gesso, pintadas de dourado. Dizem que os egípcios são exímios comerciantes. Faz certo sentido. Simplesmente olhar para as bugigangas de gosto duvidoso é o mesmo que perguntar quanto custa e perguntar quanto custa é o mesmo que dizer vou comprar. Vejo um dromedário (camelo-árabe) parado e me aproximo com a intenção de tirar uma foto. Enquanto me preparo para tirar a capa da lente, o dono do animal avisa: - Se clicar, é 5 pounds! ou seja, tirar foto de um camelo perto das pirâmides equivale 50

19 a perguntar quanto custa no idioma comercial egípcio. Enquanto caminho de volta em direção ao grupo, um vendedor de turbantes, ao reconhecer a bandeira brasileira na manga esquerda do meu uniforme, grita: - Brissil! Brissil! Ronaldo! Ronaldinho!!! Quando se aproxima, me chamando de my friend, percebo que seus dentes são marrons, manchados por uma crosta de tártaro e tabaco. Vestido como um beduíno, ele diz que adora o Brasil, que trabalhou como estivador e que esteve em um navio ancorado no porto de Santos em Com seu inglês egípcio, fala que, por eu ser brasileiro, vai me dar um turbante de presente. Agradeço e recuso a oferta, mas ele insiste: - Você é my friend! É um presente para meu amigo brasileiro!!! Rejeito novamente, explicando que vamos viajar por muito tempo de bicicleta e que não há espaço suficiente para acomodar coisas acumuladas durante o caminho. Além do mais, não preciso de um turbante. Mesmo assim, ele pega um dos turbantes, coloca sobre o meu ombro e sentencia: - É um presente! Leve com você, my friend! Agradeço meio sem jeito, viro as costas e quando dou apenas dois passos o beduíno se materializa na minha frente, tal qual um espectro e sugere: -Me dá um dinheirinho pelo turbante! Pode ser dólar, pound ou até mesmo real do Brissil! perco a paciência, jogo de volta na sua mão o presente de egípcio e deixo meu ex-my-friend falando sozinho. Tomo um último gole de café. Dou uma última olhada nas pirâmides. Respiro fundo, faço uma pequena meditação e oro em silêncio, pedindo aos deuses do Egito proteção durante toda a jornada. O coração pulsa mais forte e a adrenalina corre solta pelas veias. Logo à frente, o portal de largada. Sobre ele, a marca oficial do Tour d Afrique e um selo do departamento de turismo do governo egípcio com o slogan Onde tudo começa. Nada mais apropriado, penso comigo. Empurro a Safarini até o limite da linha de largada. Subo na bicicleta. O momento tem um ar solene. A partir dali, serão quase 12 mil quilômetros, através de dez países, até a Cidade do Cabo, no extremo Sul do continente. Vem à minha cabeça uma frase tida quase como o lema do TDA: Uma vez que você vai, você nunca mais será o mesmo. Dou a primeira pedalada atravessando o portal que me leva por um caminho sem volta a outra dimensão. A dimensão de um sonho chamado Tour d Afrique. 51

20 Pedalando no Saara Saindo do pé das pirâmides do Egito seguimos em comboio, atravessando o Cairo escoltados por viaturas da polícia e acompanhados por carros de reportagem de redes locais de tevê. A cada metro percorrido, vamos recebendo acenos e o carinho da população egípcia nas ruas, além de buzinadas frenéticas dos motoristas. Já na estrada, o pelotão se desforma e pedalamos pelo acostamento, cada um por si. A estrada tem pista dupla, asfalto novo, liso e em boas condições. Mas há muito pouco movimento tanto de carros, quanto de caminhões de carga. Em meio ao deserto, um tanque de guerra de fabricação soviética jaz enferrujado. É um espólio da Guerra do Yom Kipur, quando uma coalizão árabe liderada pelo Egito atacou Israel para tentar se vingar da humilhante derrota na Guerra dos Seis Dias, seis anos antes. O ciclista egípcio Ahmed Nayer me conta a história do conflito, que custou a vida de até 15 mil soldados árabes. Israel abateu aquele tanque egípcio. Também venceu taticamente aquela guerra. Mas o Egito atingiu seu objetivo no conflito e forçou as duas nações a firmarem um acordo. Pelo Tratado de Paz Israelo-Egípcio, assinado em 1979 em Washington, a nação árabe reconheceu o direito de existência do estado judeu tendo como contrapartida a completa retirada das tropas israelenses da Península do Sinai. Ahmed diz que tem uma foto de quando ainda era criança, tirada sobre o tanque. Não resisto e também faço meu registro naquele pedaço da história. Beirando a rodovia desértica, obras faraônicas com réplicas de pirâmides, esfinges e obeliscos. Algumas edificações com o que deveriam ser postos de serviços ou praças de pedágio seguem inconclusas há anos. Erguidos, mas sem acabamento, portas ou janelas, permanecem desocupados, como verdadeiros monumentos ao desperdício. Dá até para ter uma ideia de quanto dinheiro público foi gasto ali, o superfaturamento da obra e os milhões que foram parar em paraísos fiscais, na conta de políticos e burocratas inexplicavelmente isso tudo acaba soando de uma maneira familiar para quem vive ao Sul do Equador. No primeiro dia, pedalamos cerca de 130 quilômetros a Sudeste, em direção à cidade de Ain Sokhna. Uma bandeira alaranjada na beira da estrada indica que chegamos ao fim da primeira das 94 etapas do TDA. Faço o trecho em 7h15 sobre a bicicleta, com velocidade média de 18 quilômetros por hora um ritmo razoável. Nosso primeiro acampamento é no meio do deserto o que significa noites frias. 52

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