O petróleo esgotou-se, a mola do progresso da humanidade até então.

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2 AO REDOR DA FOGUEIRA - GG Por Gerhard Grube Coisas da vida. 1 - UMA HISTÓRIA PARA (NÃO) DORMIR O petróleo esgotou-se, a mola do progresso da humanidade até então. Sua extração reduziu-se a quase nada. O custo, altíssimo. O pouco que ainda resta, é utilizado exclusivamente na finalidade muitíssimo mais nobre do que simplesmente ser queimado como combustível, que são os produtos, os seus derivados industrializados (plásticos, fibras, fios, medicamentos, adubos, tintas etc.). Mas o preço é por demais proibitivo. Infelizmente não existem boas alternativas. O carvão mineral está sendo usado também nestas finalidades, mas é extremamente poluidor e também já está com os seus dias contados. Não é um bom substitutivo para o petróleo, em todos os sentidos, por causa do alto teor de umidade, cinzas e enxofre. E também, porque demanda muito mais energia na obtenção dos produtos que dantes eram extraídos do petróleo. Agravando o problema energético mundial. O petróleo, infelizmente, foi queimado quase todo ele levianamente, para movimentar automóveis, que praticamente já não existem mais. Sua aplicação em indústrias, produção de energia elétrica, aquecimento de prédios e residências nos países frios, foi substituída pelo carvão mineral. A energia fácil abundante e limpa, célula de hidrogênio, eólica, solar, fusão a frio etc., por mais que fossem pesquisadas, nunca deram resultados satisfatórios. Não resolveram o problema global de energia. Não foi dada atenção a estas alternativas, no devido tempo, o suficiente para que fossem viáveis e se tornassem eficientes. Se tivesse sido pensado com antecedência, o impacto da falta de petróleo, não seria tão grande. E talvez o mundo pudesse adaptar-se a essa nova realidade com mais facilidade. Infelizmente, a grande esperança que a ciência e tecnologia resolvessem milagrosamente esse problema, não se concretizou. E temos que conviver com isso, sem alternativa.

3 Usou-se a biomassa. Do Brasil principalmente. O álcool combustível e o agro-diesel substituíram praticamente todas as demais exportações agrícolas, tornando-se prioridade nos países que possuem sol, água e terras férteis em abundância. Exportaram para abater a dívida governamental. Que, mesmo assim, não diminuiu nunca. Esta forma de energia renovável sempre foi insuficiente, devido à exagerada demanda mundial. E piorou bastante com a degradação do meio ambiente, erosão, desertificação e muitos outros problemas ambientais. A produtividade caiu muito e a produção mundial de biomassa reduziu-se, significativamente. As técnicas agrícolas não conseguiram resolver estes problemas. E os estudos de modificação genética neste sentido, foram infrutíferos. A biomassa tornou-se assim também, de importância secundária, em termos de energia. E novamente errou-se, utilizando-a, quase que exclusivamente para movimentar veículos automotivos. A capacidade geradora de hidrelétricas já foi esgotada. Não existe mais como ampliar o sistema, mundialmente. Sendo que a produção vem caindo até, por causa da falta de regularidade na vazão dos rios. Cheias e estiagens alternam-se. Motivadas pelo desmatamento e alterações climáticas. Muitos rios e represas assorearam e estão quase sem água. Utiliza-se agora, com muito mais intensidade, o carvão mineral e também a energia nuclear, muito mais do que até então. São os últimos recursos que existem. Acidentes com reatores nucleares têm sido, cada vez mais freqüentes. Por causa da utilização intensiva e por causa do custo destes tipos de energia, cada vez maior. A segurança está sendo deixada de lado, por motivos econômicos. O lixo atômico também causa muitos problemas ambientais, principalmente no Terceiro Mundo. Para onde são exportados, esses temíveis dejetos. Acabam por infiltrar no subsolo, poluindo extensas áreas. Não existem métodos seguros e duradouros para confinar estes dejetos. Que continuarão irradiando morte, por milhares de anos. Lutas e combates terríveis aconteceram, pela posse dos recursos energéticos, do restante que ainda existe, e pela posse dos demais recursos considerados importantes. Lutas cruentas mortíferas, impiedosas, injustas e egoístas. Mas, pouco adiantou. Pois, como era previsível, e isto não poderia deixar de acontecer, tornaram-se escassos e insuficientes, mesmo assim. E faltarão, cada vez mais. O "EU" e o "MEU", afinal de contas, falaram mais alto. Optou-se pelo confronto e não pelo consenso. Terríveis, as guerras e a destruição, pela posse das coisas. Muito se perdeu com elas. Áreas enormes e muito patrimônio, simplesmente tornaram-se imprestáveis, inúteis escombros. A norma de conduta é, como sempre foi, mas nunca deveria ter sido: "É meu, só meu".

4 E pior que isso ainda: "Se não é meu, não é de ninguém!" É preferível destruir do que deixar para os outros. Reduzida minoria, mundialmente, elite das elites, vive ainda abastadamente, segundo os padrões de seres humanos cultos, organizados e civilizados. Vivem muito bem até, nababescamente, como nunca ninguém viveu antes, neste planeta. Quase nada sentem e nada sabem, do flagelo mundial ao seu redor. Do qual não fazem parte e nem lhes interessa. Peritos na capacidade de apropriar-se das coisas. Especialistas em tirar dos outros. Tornaram-se extremamente eficientes em manter como seu tudo aquilo que é sua propriedade. Entre si, competem ferrenhamente, para não serem excluídos dessa sociedade elitista. Que seria o pior castigo que lhes poderia acontecer. Cada vez mais ricos e mais poderosos. Mas são cada vez menos. Terrivelmente odiados e combatidos por todos os demais, que os consideram inimigos mortais. Muralharam e cercaram tudo aquilo que lhes é importante. Para garantir o seu modo de vida. Mas, o futuro é que, também eles, sejam atingidos pelo desastre, como os outros. Serão os últimos, é verdade, mas apenas isso. Todos estão no mesmo barco, que está afundando. E não existe arca de Noé, salvadora de alguns poucos escolhidos. Nem de ninguém. Atualmente os investimentos, a pesquisa e a tecnologia estão voltadas, quase que exclusivamente, para questões de segurança, armamento, obtenção de recursos materiais e para garantir a posse e a propriedade destes recursos. Não se gasta mais em outra coisa. Nada, nada mesmo, para pesquisar e pensar como poderiam ser resolvidos os graves problemas mundiais. Absolutamente nada, quanto à sobrevivência da vida no planeta. Mas, na verdade, isto sempre foi assim. Mesmo quando os problemas ainda não eram tão graves e ainda existia fartura. Pensa-se, como sempre se pensou, no imediato. Nunca no futuro, no longo prazo. Neste aspecto, pouca coisa mudou. Em continuidade ao petróleo, a intensa utilização do carvão, poluidor por excelência, agravou em muito o problema de aquecimento do planeta. O enxofre, que é queimado junto com ele, causa também as famigeradas chuvas ácidas. Teria que ser eliminado previamente, mas ninguém faz isso. Por causa do custo que isso significa. A poluição atmosférica aumentou drasticamente. Nunca se soube ao certo se foi o homem ou por causas naturais, mas a temperatura do planeta aumentou, irreversivelmente. Dizem que "o ponto de não retorno" já foi ultrapassado, que as coisas agora acontecerão independentemente até da interferência humana, e nada pode ser feito. Não interessa mais saber a causa deste aquecimento ou, se é que existe, um culpado. Não há mais volta dizem, iniciou-se uma reação em cadeia. A temperatura mais alta faz aumentar a umidade na atmosfera e está provocando o derretimento da neve e gelo em todo o mundo. Ambos causam a elevação da

5 temperatura do planeta, pois a umidade do ar colabora para o efeito estufa e áreas geladas menores refletem menos a luz solar de volta para o espaço. Até que um novo equilíbrio, que ninguém sabe qual é, ou como vai acontecer, seja atingido. É possível até, que o ser humano, não faça mais parte dessa nova realidade. A vida na Terra não desaparecerá, isso é certo. Mas certo também, é que a transformação atual, na velocidade com que está acontecendo, é inédita, nunca dantes vista na História da vida do planeta. Entretanto, para os bilhões de anos de vida na Terra será apenas um piscar de olhos. Transformação profunda, terrível desequilíbrio, mas transitória, passageira. "Ser humano": Uma experiência que não deu certo. As espécies animais, as que puderam fazê-lo, migraram, na tentativa de encontrar ambiente mais adequado. As outras pereceram. Insetos de clima quente foram em direção aos pólos, espalhando doenças. Pragas, doenças, pandemias, espalharam-se de modo incontrolável. A vegetação, que não consegue migrar em tão curto espaço de tempo, está reduzindo-se drasticamente. Extinguiram-se muitas espécies. A falta de cobertura vegetal alterou ainda mais o clima. Temperaturas altíssimas de dia e próximas do zero à noite. Clima de deserto em muitos lugares, insuportável para maioria dos humanos. Atualmente, as florestas estão diminuindo, não só pela atuação direta do homem, derrubadas, e queimadas, mas também devido à poluição e alterações climáticas, rápidas demais, para que pudessem se adaptar. Estão declinando. Mesmos os "desertos verdes", pinus, eucaliptos e tantas outras florestas artificiais, estão desaparecendo rapidamente. E não se consegue evitar que isso aconteça. As secas e aumento da temperatura provocam incêndios florestais espontâneos, inéditos na sua quantidade. Devastadores. Arrasadores. Não podem ser combatidos, pois a única solução seria fazer chover, alterar o clima. Tarefa muito acima das possibilidades do ser humano. Que nem está preocupado com isso. O ar está sempre fumarento, fazendo as pessoas tossir e lacrimejar, incessantemente. "Devem ser as queimadas", dizem. Mas é assim em todos os lugares, mesmo longe das florestas incandescentes. A diminuição da vegetação só agravou a carência do ser humano e a destruição ambiental aumentou, como nunca visto antes. Nenhuma restrição existe mais. Leis ambientais, o antigo tratado de Kyoto, que nunca tinham sido observados, nem mesmo em parte, foram esquecidos totalmente. E nunca mais fizeram tentativas neste sentido. Nem se pensa mais, em coisas deste tipo, atualmente. Derreteram-se em boa parte, a neve e geleiras das montanhas mais altas. Causando terríveis catástrofes, deslizamentos, avalanches e inundações. Milhões de vidas perderam-se.

6 Muitos rios, que eram alimentados por essa água gelada, secaram. Falta água em muitos lugares dantes povoados. As calotas polares diminuíram. Grande parte do gelo e neve acumulados nas terras geladas derreteu. Os níveis dos oceanos subiram. As correntes marinhas modificaram-se. Inundaram, mundialmente, terras férteis e áreas habitadas. Reduzindo significativamente o espaço disponível ao ser humano. Neste processo perderam-se vidas, e muito, muito patrimônio. Aumentaram muito, os desastres naturais, ventos, furacões, chuvas, inundações, estiagens e ressacas. E até hoje não ficou comprovado com clareza, que isso tenha sido causado pela interferência do ser humano na natureza. Muito foi discutido, muito se brigou nas reuniões e conferências. Mas na verdade já nem interessa mais, é secundário saber qual tenha sido a origem disso tudo. O que não pode ser ignorado é que estão acontecendo em demasia, excessivamente. Os pobres, como sempre, são os que mais sofrem. Mas a vida humana que nunca teve muito valor, hoje em dia é totalmente sem significado. Morre-se aos milhões, e ninguém se importa. Nem fingem mais que se importam. As cidades estão se desagregando. Não existe mais como mantê-las funcionando. Faltam suprimentos, energia elétrica, água. Os serviços, como coleta de lixo, deixando de ser executados. Estão sendo abandonadas pelas pessoas. Tornando-se cidades fantasmas, entupidas de lixo, antro de ratos, moscas e baratas. Epidemias, ressurgimento de moléstias, antes tidas como controladas, são cada vez mais freqüentes. E muitas, inéditas, nunca vistam antes, estão aparecendo, inexplicavelmente. O temido melanoma, câncer de pele, a tuberculose resistente a antibióticos, os nascimentos anencefálicos causados pela poluição do ar, são o dia a dia das pessoas. A poluição e dejetos humanos nas águas doces em geral tornaram inviável sua utilização na finalidade de dessedentar homens e animais. Assim como aconteceu com o rio Tietê muito tempo atrás que, em apenas algumas décadas, de um rio em que se nadava e praticava esportes náuticos, transformou-se, em um canal de esgoto e efluentes. É assim atualmente, com todos os rios e riachos. Abastecimento de água e tratamento de esgoto, que sempre foram insuficientes, quase não mais existe, principalmente por escassez da essencial energia elétrica. As valetas e as redes de esgotos transbordam o seu conteúdo. E o fétido odor, insuportável, está em todos os lugares. Impossível fugir-se dele. E não existe o que possa ser feito. A água potável tornou-se escassa. O pouco que existe, quase só pode quase ser usado localmente. Transportá-la para outros lugares ficou cada vez mais caro, devido à falta de energia. O aqüífero Guarani o maior do mundo, poluiu-se totalmente, por agrotóxicos,

7 dejetos industriais, humanos e animais. O seu nível baixou tremendamente pela super utilização. Foi abandonado. Muitos países agora estão obtendo água potável, por dessalinização da água do mar. Muitos métodos existem. Mas a evaporação solar e osmose reversa são os mais utilizados. Pois demandam menos energia. São, porém insipientes, ineficientes e caríssimos, em termos de custo e equipamentos. Métodos que nunca foram devidamente estudados no passado, para que evoluíssem para sistemas rentáveis e produtivos. A água doce foi sempre, a substância mais utilizada pelo ser humano. Sendo o maior problema, torná-la disponível, nos lugares em que é desejada. De qualidade, pois não é qualquer água que serve. Nos bons tempos era normal uma pessoa utilizar em sua residência duzentos, trezentos litros, diariamente. E mais uns quinze mil litros talvez, indiretamente, devido aos produtos e alimentos que consumia a cada dia. Esta quantidade enorme de água é dificílima de ser obtida, por meios artificiais. Atualmente luta-se por míseros cinco litros de água ao dia. Para não morrer de sede. A produção alimentar mundial diminuiu. Não existem mais áreas férteis e água em suficiência. Não existe mais combustível para movimentar as máquinas agrícolas. A promessa dos transgênicos, de resolver a fome mundial, não se cumpriu. Pelo contrário. Mostrou-se prejudicial ao que restava de diversidade, acelerando a extinção de espécies. Contaminou-se o mundo inteiro com eles em um processo irreversível já sabidamente prejudicial, inclusive ao homem. Foi abandonado. Mas suas conseqüências, imprevisíveis, ainda perdurarão por milhares de anos. Muito mais talvez. Grande parte da floresta amazônica já desapareceu. Está virando deserto. Pois que, o substrato que faz com que ela viva, é meio metro de detritos orgânicos gerados pela própria floresta, sobreposto a um deserto de areia estéril. Que está reaparecendo. Por causa do desmatamento, queimadas, alterações climáticas e poluição. A floresta amazônica, simplesmente, está morrendo. O cerrado não existe mais, já faz tempo, e nenhuma das espécies que o habitavam. Já não serve mais para plantio de qualquer coisa que seja, pois a correção do solo, adubos e a irrigação, agora imprescindíveis, inviabilizaram sua utilização. Tornou-se um grande deserto. O pantanal, com toda a sua incrível diversidade é apenas um espectro de sua pujança original. O que ninguém acreditava ser possível aconteceu. Conseguiram fazer com que secasse! E neste processo, as alterações climáticas tiveram decisiva influência. Canalizaram-se os rios, para beneficiar o transporte fluvial e drenar as enchentes. Diques de contenção e drenagens disponibilizaram áreas enormes para a atividade

8 agrícola e pastagens. O que gerou muitos recursos econômicos é verdade, e muitas dívidas foram pagas com isso. Mas agora a enorme quantidade de água flui, corre e escorre. Não é mais contida, pela baixíssima declividade do terreno, nem pela vegetação original, que funcionava como uma esponja retentora de água. Segue ela enxurrada barrenta erosiva abrindo voçorocas, por vários caminhos, rumo ao Atlântico. E tudo praticamente secou, uma transformação incrível, verdadeiro monumento à capacidade empreendedora do ser humano. A perspectiva é que a região torne-se também, desértica. No desbravamento dessa região, muitos bichos, acuados, perdendo seu espaço, sem alimentos, desesperados, chegaram até a atacar seres humanos. Jacarés, onças e outros, bem mais inofensivos, também fizeram isso. Os homens, sem dúvida, reagiram. Na ocasião, foi uma verdadeira orgia de carnes "exóticas", ofertadas nos restaurantes e mercados da região. Capivara, veado, anta, tateto, ariranha, lontra, paca, jacaré. Até jibóias, ratão d água e carne de onça (a legítima) podia ser adquirido. Às vezes, até mais barato do que o próprio frango de granja. E naturalmente peixes, muitíssimos peixes. Que até afloravam à superfície, por causa da escassez de água e oxigênio. Mas não durou muito. Carne, atualmente, é artigo de altíssimo luxo, uma especiaria. Praticamente abandonouse a produção de aves, peixes, porcos, ovinos e gado de corte, em todo o mundo. Pois, a criação intensiva ou confinada, demanda grãos, vegetais, ração e água, muita água, que não estão mais disponíveis. Nunca fez muito sentido mesmo, alimentarem-se os animais com vários quilos de alimentos, e então no final deste processo obter apenas um quilo de carne. Hoje em dia o custo tornou isso simplesmente proibitivo. Extensivamente também, nas pastagens, tornou-se inviável. As pastagens secaram. Sendo o principal motivo porém, os roubos que acontecem, impossíveis de serem contidos. Tanta gente os pratica. Na calada da noite, ou mesmo de dia, matam o gado, ou o que quer seja que esteja sendo criado, retiram o quanto podem de carne, e fogem. E não existe como impedir isso. É muita gente. E a carcaça, com muita carne ainda, então simplesmente apodrece. As plantações que existem têm que ser vigiadas dia e noite. Mas é impossível fazer isso totalmente. Como gafanhotos as pessoas lançam-se sobre as poucas áreas que ainda são cultivadas, assim que exibam qualquer coisa que seja comestível. Para os que podem plantar, aqueles que ainda possuem recursos, não está mais valendo a pena fazer isso. E os que não podem não plantam. Fala-se muito em canibalismo. Talvez seja boato. Mas a verdade é que as pessoas estão magérrimas, esquálidas, são esqueletos ambulantes. Não conseguem mais se alimentar suficientemente. É possível pois, que isto esteja realmente acontecendo. Ao que parece, mundialmente estamos sendo uma réplica da antiga Ilha da Páscoa. Que, exaurida de recursos e alimentos, extinguiu quase toda a sua população vegetal, animal

9 e humana. Praticaram, como último recurso, o canibalismo. Não como um ritual, mas como forma desesperada de sobrevivência. Já que a ciência, a tecnologia e a racionalidade não resolveram os problemas materiais e de sobrevivência, as pessoas voltaram-se, cada vez mais, para os deuses. Não para salvar a alma ou ter como prêmio a vida eterna, mas para obterem recompensa já em vida. Nesta vida tão difícil e cheia de amarguras. Para aliviar os sofrimentos terrenos imediatos. A religiosidade aumentou muito. E a fé, o acreditar sem ver para crer, é ainda o que está impedindo, mais ou menos, aquilo que tem se tornado cada vez mais comum entre as pessoas: O suicídio. Que antes era uma rara exceção, uma anormalidade, violenta transgressão aos princípios da vida. Agora, ao contrário, está sendo considerado como sendo panacéia, solução para todos os problemas. É claro, nenhuma religião prega como virtude, o suicídio. Perderia adeptos se o fizesse. Assim, são elas, que ainda seguram, um pouco, a onda incalculável desses acontecimentos. A bacia amazônica foi invadida parcialmente pelo mar, assim como os estuários e deltas dos rios, em todo o mundo. Agravou-se o problema de obtenção de água doce, das populações ribeirinhas, que vivem nas partes mais baixas desses rios. Ilhas de corais, paradisíacas, a maioria apenas a um ou dois metros acima do nível do mar, desapareceram. Ficaram as vulcânicas. Mas suas praias de areia sumiram totalmente. Os mangues já vinham sendo dizimados pelo homem em sua demência imobiliária e por causa da poluição. Os corais sendo sufocados pelas enxurradas, trazidas pelos rios, conseqüência do desmatamento e da urbanização. Branquearam, restaram apenas seus esqueletos calcários. Mangues e corais, os grandes criadouros e berçários da vida marinha, a elevação do nível dos mares e o aumento da temperatura deram-lhes o golpe final, mundialmente. Morreram. Sem eles, as espécies marinhas estão desaparecendo rapidamente. Inclusive o topo da cadeia alimentar. Já não existem mais peixes a serem pescados. O plâncton, a base alimentar das espécies aquáticas, devido às alterações climáticas e poluição, está morrendo. As algas e o fitoplâncton já não são suficientes, já não produzem mais tanto oxigênio. Falta oxigênio na água. Mortandade de peixes, muitíssimas vezes observado em águas interioranas, agora está acontecendo também nos oceanos. A própria atmosfera está alterada em sua composição. Mais metano, monóxido de carbono e dióxido de carbono. E menos oxigênio.

10 Os oceanos estão morrendo. A vida no planeta Terra está morrendo!!! Então acordei. Ufa! Graças a Deus, foi tudo só um terrível pesadelo!

11 2 - O COMEÇO Final da segunda grande guerra mundial. Tempos difíceis, mesmo para os brasileiros. Mas nós crianças tínhamos coisas mais importantes no que pensar. Pouquíssimas são as recordações deste conflito: Gibis enaltecendo o heroísmo dos aliados; os estranhos gasogênios montados na traseira dos automóveis nos quais queimavam-se os dedos, quando tocados; Repórter Esso e suas gritadas notícias, sintonizado nos rádios da vizinhança, a todo volume; as intermináveis filas para comprar pão e outros produtos escassos. Nossos problemas como crianças eram outros. Existem lugares melhores e lugares piores para se viver, sem dúvida. Tanto para crianças como para os adultos, mas os interesses são totalmente diferentes. Mora-se quase sempre onde é mais conveniente para os pais, em função da atividade que dá sustento à família. As crianças nunca são consultadas. Pensa-se nelas apenas em termos de proximidade de uma escola, transporte, segurança e coisas assim, mas na verdade elas não querem saber de nada disso. Crianças querem espaço, liberdade e mil coisas para fazer. Meu irmão e eu tivemos sorte neste aspecto, pertinho de nós praia, areia e água do mar, metade da felicidade. E muito calor, todos os dias. Nossa mãe era liberal, totalmente. Morria de preocupação, mas não tolhia a nossa liberdade. Mas os perigos eram poucos, tráfego de automóveis quase não existia na época. E os poucos bondes elétricos eram até uma utilidade, serviam para moer os cacos de vidro que colocávamos em seus trilhos. Pó fino, quanto mais fino melhor, que então, misturado à cola de madeira, formava o famigerado cerol, a ser aplicado na linha de nossas cafifas arraias e morcegos. Afogar-se no mar era praticamente impossível, pois desde cedo aprendemos a nadar como peixes. Quase nada pois, com o que se preocupar. As casas eram poucas em Icaraí (Niterói, Rio de Janeiro), edifícios um só, de sete andares. E não longe, iniciava-se o mato pouco denso, capoeira, nos morros que ladeiam a praia. Onde, com as cetras (estilingues), tornávamos insegura a vida dos pobres passarinhos. Mas nem tanto, pois dificilmente lográvamos êxito. Fugiam sempre, assustados. Energia, a tínhamos aos montes, sobrando, e fazíamos o possível para gastá-la toda. Mas faltava tempo hábil para executar tudo aquilo que era desejado. Mar, ondas, areia, sol quente e, do outro lado da baía, os imponentes Corcovado e morro da Urca. Era esse o cenário, o nosso meio ambiente. Melhor, impossível.

12 Nas festas juninas, é claro, balões e fogos de artifício. Por vezes, meu irmão e eu, com um caixote velho, colocado em pé, instaladas prateleiras em seu interior e duas tabuinhas à guisa de telhado, improvisávamos uma barraquinha para venda de fogos de artifício. Coberta com papel de seda colorida e no topo uma lanterninha de papel com um toco de vela em seu interior. Tudo isso era colocado em cima de uma cadeira na calçada. E estava iniciado o negócio. Era muito comum, as crianças fazerem isso na época. Iniciavam um pequeno comércio de brinquedo, com dinheiro de verdade. Mas não durava muito, como que por ordem invisível, o assunto da moda se modificava. Passávamos então a nos dedicar a outras coisas. E coisas existiam muitas a serem feitas. Na verdade, faltava tempo para realizar todos os empreendimentos e, naturalmente, o estudo é que padecia nisso tudo. Tinha que ser sacrificado, ceder espaço físico para o turbilhão de idéias que deveriam ser colocadas em prática. Estudávamos o mínimo, só o suficiente para passar de ano, "raspando". E mesmo isto, só debaixo de ameaça. O calor reinante, a proximidade do mar, a tranqüilidade daquela praia maravilhosa ditavam as regras de nossas atividades. O meio, sem dúvida, determina o comportamento. Nessa vida fácil de criança formam-se os gostos, as vontades e as preferências. E adultos, são nada mais que a continuação das crianças que foram. Desde cedo se define o futuro que, se não impedido, realmente acontece. Pelo resto de nossas vidas procuramos ser, aquilo que sonhamos enquanto crianças. Se é que não somos simplesmente o resultado de eventos anteriores até ao próprio nascimento, registrados em nosso código genético. A água o sol o mar, a aventura, as pescarias, o observar a natureza, definiram a que nos iríamos dedicar futuramente. Se no final, não fizemos exatamente isso profissionalmente, pelo menos na maneira de agir, de pensar, de gostar, nas conversas e no lazer. A sociedade exige, obriga, tolhe e assim quase nunca é possível fazer o que é desejado integralmente, o tempo todo. Tenta-se então adaptar o inconveniente ao que se gosta, o mais possível. A profissão sendo na maioria das vezes apenas uma aproximação daquilo que se é verdadeiramente. Quando crianças quase nunca tínhamos dinheiro, contrário à maioria de nossos amiguinhos. Era uma espécie de filosofia de nossos pais, para que tentássemos resolver nós mesmos os nossos problemas, e assim tínhamos que improvisar e, com as poucas ferramentas disponíveis, confeccionar nós mesmos nossos dispositivos e apetrechos. O que nos aguçou a curiosidade e o espírito inventivo. Começamos a nos interessar em saber como funcionam as coisas e líamos bastante. E nunca mais deixamos de ser assim. Vão-se os tempos de criança. A vida passa e somos induzidos a acompanhar a grande "boiada" humana que, tangida por uma varinha misteriosa e invisível, nos leva a fazer tudo o que todos fazem. Seguimos todos, as mesmas trilhas, os mesmos objetivos, com os mesmos conceitos. São as ações e as mentes, globalizadas.

13 Fazemos o que todos fazem e nem percebemos que não é o que gostaríamos, verdadeiramente. Uma vez ou outra paramos e pensamos para nós mesmos: "Será que tudo não poderia ser diferente? Será que tudo que aprendemos está correto? Será que as verdades que aprendemos, são todas elas verdadeiras?" Por que não questionar assuntos, considerados por todos como líquido e certo, só para ver o que acontece? Por que não ter uma opinião diferente? Às vezes vemos multidões inteiras fazendo algo, sem nexo, ilógico e até ridículo, e aceitamos, sem pensar muito, argumentando: "Milhões, não podem estar errados". Tem que ser assim? Quantos no mundo fazem o que fazem, apenas porque são "Maria vai com as outras?". Por que não, de vez em quando, questionar e discutir as coisas um pouco mais? A verdade, a tão soberana e idolatrada verdade, não é única. Não existem simplesmente coisas verdadeiras e em contrapartida, as falsas. Até as leis físicas são assim, muitas comprova-se com facilidade a sua validade. Entretanto, no microcosmo, no zero absoluto de temperatura, perto da velocidade da luz, algumas delas simplesmente deixam de funcionar. A verdade pois, tem a sua abrangência e apresenta limites. E praticamente tudo, é passível ser questionado, de uma forma ou de outra, mais cedo ou mais tarde. Fatos históricos, relatados friamente, revelam a verdade para uns. E mentira para outros. Solano Lopes, para os paraguaios foi um herói, para os brasileiros um crápula. Duas verdades contraditórias. Qual seria a verdade verdadeira? O depoimento de autoridades não tem validade absoluta. Por princípio, é errado supor que mesmo o mais erudito conhecedor de um assunto qualquer, seja infalível. Muito menos o "chefe", ao qual apenas foi delegado o poder de decisão. Pois nenhuma verdade é definitiva, não existe o dono da verdade, não existe a última palavra, nunca. O preço da verdade é o seu eterno questionamento. Se assim não fosse, os conhecimentos estariam estagnados, já há muito tempo. Como de certo modo aconteceu, na Idade Média. O consenso também não é garantia de validade. Se todos, ou a maioria concordam em determinado assunto, não significa que o mesmo seja verdadeiro. É perfeitamente possível que milhões de pessoas acreditem piamente, em uma deslavada mentira.

14 Como as religiões. Onde cada qual afirma ser ela a única verdadeira. Como podem coexistir, e isto sempre foi assim em todos os tempos, se apenas uma delas é necessariamente a verdadeira? A verdade pois, é dúbia sempre, incerta, fugidia. Por incoerente que seja, a verdade torna-se então uma questão de fé, simplesmente. O que significa acreditar sem provas. Verdade é aquilo em que se acredita, nem que seja uma falsidade. A verdade não existe por si só, tem que ser acreditada. Importante para alguns, sem significado para outros, a verdade nunca é universal. Altera-se com o tempo e lugar, não é uma constante. Vivemos segundo as verdades e mentiras que construímos e nas quais acreditamos e que não são eternas. As pessoas devem convencer-se, ou serem convencidas. É mais importante do que saber se a verdade é, ou não, verdadeira. E é o que sempre tem sido feito na humanidade: Convencer as pessoas sobre as verdades, nem que sejam mentiras. As verdades são aprendidas, e de pequenino se torce o pepino. Os costumes e a educação formam as pessoas e desde muito cedo elas aprendem o que devem aprender. É imposição, uma terrível opressão, da qual pouquíssimos tentam e logram escapar. Os que conseguem libertar-se são considerados anti-sociais, delinqüentes e perigosos. São repudiados sem exceção, rejeitados e castigados. As pessoas devem aprender desde cedo as verdades, quando ainda não as podem contestar, pois mais tarde, torna-se mais difícil alterar o cimento já moldado e endurecido pelo tempo. São os adultos que mais relutam em aceitar idéias novas. Recusam-se a desmontar o edifício de credibilidade, que trabalhosamente construíram ao longo de suas vidas. E como convencer uma pessoa sobre um assunto qualquer, se ela não acredita? Existem as leis que obrigam. Obrigam a fazer ou deixar de fazer alguma coisa, não importa que não se acredite nelas, ou não se esteja convencido de sua validade. Obrigam pela ameaça de punição. E assim, não existe uma única lei em todo universo, sem que haja castigo pelo seu descumprimento! A punição é a essência de todas as leis. Com isso deve existir obrigatoriamente uma estrutura que fiscalize e uma estrutura punitiva. Que podem tornar-se inviáveis, se forem muitos os transgressores. A sociedade pode tornar-se opressiva em excesso, cruel e desumana. O caminho das leis é um caminho caro e difícil, melhor é convencer as pessoas. Que então farão, ou deixarão de fazer, tudo aquilo que é desejado, espontaneamente. Pois acreditarão nisso. As pessoas não gostam de mudanças nem de idéias novas, opõe-se a elas, mas são maleáveis. A maleabilidade é considerada até, uma virtude. Ninguém gosta de turrões que fincam o pé em um ponto de vista e não cedem milímetro, nem a pau. Mesmo que essa pessoa esteja corretíssima em sua afirmação. Mesmo assim, ela deve ceder, deve

15 abdicar da verdade e submeter-se ao consenso. Isso é considerado virtude, é virtuoso aceitar a mentira. As pessoas podem ser convencidas com certa facilidade, raríssimas as exceções. É só achar os meios para se fazer isso. Que de preferência, devem ser dissimulados, o suficientemente, para que as pessoas não percebam que estão sendo enganadas. E é enganação sempre, sem dúvida, fazer com que as pessoas aceitem uma idéia qualquer. Já que nunca está em jogo transmitir a verdade. Que é sempre duvidosa. Como a propaganda, seja ela para vender algum produto ou fazer (desfazer) uma ideologia. É bem mais custosa, se a idéia tem que ser martelada incessantemente por dias, meses e anos a fio. É efetiva sem dúvida, principalmente porque nunca é mencionado o outro lado da moeda (nunca são citadas as desvantagens do produto ofertado, nunca se fala sobre as virtudes da idéia que está sendo combatida). As pessoas acabam achando que é a única opção existente, e acreditam. Mas é custosa, e demorada. Muito mais eficiente e bem mais dissimulada, é a pretensa neutralidade. Mantém-se a aparência de imparcialidade. Divulga-se com habilidade as duas faces da moeda, ressaltando porém, as características que são desejadas e inferiorizando as que se quer combater. Com naturalidade e aparente neutralidade. E então o grande truque, o pulo do gato: Fica em aberto o "gran finale". Deixa-se que o receptor da mensagem, ele mesmo, chegue às conclusões desejadas! A tão almejada verdade, se ela permanece escondida, não existe, não é verdade. Como diz o ditado: Longe dos olhos, longe do coração. Milhões de acontecimentos nada significam, se eu os desconheço totalmente e nem sei se aconteceram. E se pouco sei sobre eles, pouco sou afetado. Tremendamente mais importante é a tempestade em copo d água, que insistentemente é esmiuçada, comentada e divulgada. Esta sim move moinhos e remove montanhas. As verdades pois, além de muitas vezes serem deslavadas mentiras, tem ainda a sua mentirosa classificação: Verdades importantes e verdades sem importância. As importantes são detalhadas minuciosamente, as pessoas envolvidas têm passado, presente e futuro, tem nome, sobrenome, família, gato, cachorro e papagaio. Vivem, sentem e se emocionam. As sem importância são ignoradas, simplesmente isso. Quando muito é citado um gélido e impessoal número estatístico.

16 E existem os truques. Associando-se coisas, influencia-se com mais facilidade as pessoas. Textos, falas, documentos, imagens, sons, melodias, opinião de autoridades. Sozinhos, cada um destes tem efeito limitado. Juntos porém, são quase imbatíveis. Um confirmado o outro, não existe como duvidar. E a idéia é aceita, sem muito questionamento. A música "heawy metal" que é apresentada quando um surfista está pegando uma onda, não pode ser utilizada quando a reportagem é sobre uma criancinha que está chorando a perda dos pais. Evidentemente. Na verdade, a melodia não existe em nenhuma destas ocasiões, é introduzida para influenciar (subliminarmente poderia dizer-se) o acontecimento. De certo modo falsificando a realidade. Um menino afogou-se. A reportagem relata o acidente e as imagens mostram o rio em que aconteceu a tragédia. Sem dúvida acredita-se que a notícia seja verdadeira, pois associou-se a fala do repórter com a imagem do rio. Ouvidos e olhos receberam a informação. Mas, o rio filmado poderia não ser aquele em que o menino se afogou, poderia ser um outro rio qualquer. E o que o repórter disse, também poderia ser simplesmente mentira. O que tornou a notícia acreditável, foi a associação da fala com a imagem. Não existe muito motivo para duvidar de uma notícia dessas, como a de um afogamento. Mas a verdade é que muitas e muitas notícias são falsificadas dessa maneira. E todas elas, sem exceção, são adulteradas para que se tornem mais impactantes. Selecionando-se argumentos, fotos, textos, falas e imagens, com cuidado, praticamente qualquer verdade pode ser fabricada. Qualquer um que exponha a sua opinião utiliza mais ou menos esse recurso. É impossível a total imparcialidade, seja qual for o assunto, mesmo na mais técnica e científica das exposições. E a mais legítima das verdades tem que ser defendida, com unhas e dentes, empregando-se os mesmos métodos com que é elaborada a mais mentirosa das falcatruas. Pois sempre o objetivo é convencer pessoas, e as pessoas não são racionais, tem que ser convencidas, devem acreditar. É o que fazem os editores e as agências de notícias. Sendo eles que determinam se, e como, as notícias são publicadas, mundialmente, não importa qual seja o assunto. Construindo assim as verdades universais. Faz-se tanto uso disso, que já estamos acostumados, nem estranhamos mais. Mistura-se realidade e ficção e nem notamos mais a diferença. Ficamos a ruminar esse pensamento por algum tempo. Então, eis que um de nós, diz:

17 "Mas afinal, somos o que somos porque queremos, ou simplesmente não temos escolha? Se as verdades são forjadas por nós mesmos, não teríamos que ser totalmente livres? Dos infinitos mundos possíveis, forjamos aquele que nos é conveniente. E se temos liberdade para fazer isso, somos livres, totalmente livres!". A liberdade, verdadeiramente não existe. Liberdade assim como democracia são palavras, nada mais. Pior do que isso até, são engodos, ilusórios artefatos, ilusões artificiais. São pontas do arco-íris, fáceis de enxergar, mas impossíveis de serem alcançadas. O pote de ouro que existe em suas extremidades, só é acessível àqueles que fazem os outros acreditar que realmente seja possível chegar lá. E tiram proveito disso. Os seres vivos, todos eles, tem uma característica comum: Estão vivos. O que é mais que evidente. E é isso o que mais os preocupam. A vida, a sua vida, o continuar vivo. O que também é evidente, pois se assim não fosse, morreriam. E estariam excluídos do grupo dos viventes. A mola propulsora de praticamente tudo aquilo que fazem, é apenas isso, um tentar permanecer vivo. E é prioritário, sobre qualquer coisa. Esta interminável defesa da vida, entretanto, poucas vezes acontece ser defesa a um perigo mortal iminente. Emergência, quando então a adrenalina, ou seja, lá quais substâncias sejam produzidas neste momento, vai ao infinito, e é máxima a concentração para evitar ou contornar, o pior que pode acontecer na vida: A morte. Na maioria das vezes, o perigo não é imediato, existe mais tempo para pensar, para fugir, para evitar, para postergar aquilo, que finalmente quando chegar a hora será inevitável. A luta pela sobrevivência sem dúvida é prioritária, mas não fazemos isso incessantemente, o tempo todo. Um futuro deve ser construído pelo ser vivo. Mas é um futuro sem futuro, pois não será eterno nunca. Mesmo assim os seres vivos trabalham, ignorando a morte, como se ela não fosse acontecer nunca. E é isso o que os mantém vivos. Desde o primeiro ao último suspiro. Desde ao minúsculo vírus à enorme baleia. A idéia é sempre a mesma: Ficar vivo. Neste aspecto, como todos os demais seres vivos, não temos escolha nenhuma. Somos prisioneiros, não temos liberdade. E por isso somos egoístas, sem exceção. E não é uma fraqueza. Nossa vida é importante, mais importante que qualquer coisa. Mais importante que a vida dos outros. Mais importante que a vida de nossa própria prole. Defendemos nossos filhos, com certeza, mas primeiramente, defendemos a nossa própria vida. O que até é racional, pois só estando vivos, podemos proteger a nossa

18 prole. Prole que, sem que tenhamos consciência disso, é a continuação de nossa vida. É assim que atuamos. Quando temos tempo, trabalhamos para viver eternamente e quando não temos, lutamos com unhas e dentes para continuar vivo, por mais um minuto, que seja. Nem que tenhamos que destruir o mundo inteiro, nessa tentativa de ficar vivo mais um instante ou de viver eternamente. De bom grado cada um de nós entregaria a vida de todos os demais, se com isso pudesse obter a almejada eternidade. Ou continuar vivendo por apenas mais um minuto. Em situação extrema somos extremamente egoístas, a vida nos obriga a isso. Entre a vida dos outros e a nossa, que morram os outros. Mas não necessariamente a sobrevivência é mais bem atendida pelo egoísmo. Individualmente pode ser que sim, mas não coletivamente. Onde a cooperação mostrase como a única estratégia verdadeiramente eficiente. O egoísmo é individual, a solidariedade é para todos. Individualmente, competindo uns com os outros, garantimos a sobrevivência do ser. Com a solidariedade e a cooperação garantimos a sobrevivência da espécie. Sórdidas e infelizes são as sociedades onde a competição é enaltecida e considerada mais importante do que a solidariedade. Como se sobreviver individualmente fosse suficiente para a sobrevivência de todos. Mas sem dúvida somos egoístas, a vida nos obriga a isso, não temos escolha. Não somos livres para deixar de ser egoístas. Precisamos de energia, se não morreremos. Somos máquinas térmicas. Regidas pelas leis da física e química. Reações químicas exotérmicas. É o que nos aquece. Somos gélidas máquinas, que necessitam de combustível. Assim, obter energia é manter-se vivo. Alimentar-se, o problema maior. Se quisermos ficar vivos temos que nos alimentar. Sortes dos vegetais recebem luz do sol, não precisam preocupar-se com a obtenção de energia. Entretanto os outros se alimentam deles. E, além disso, os vegetais competem ferrenhamente, por "um lugar ao sol". O início da cadeia alimentar não é nada tranqüilo. Nem o final também. Não existe tranqüilidade energética na vida. Não temos liberdade neste aspecto também. Sem saber porque, queremos procriar. Fazemos isso e quase não temos controle sobre esse sentimento. É exigência da vida. E, novamente, se assim não fosse, não estaríamos vivos. Mas não é bem o procriar, a proliferação, que é desejada. Quer-se isto sim, a relação sexual. É este o atrativo, que tem como conseqüência a gravidez, a prole, a continuidade da espécie. Muitos seres vivos são assim, e outros já não. Alguns se subdividem, cindem-se em dois, de um só tornam-se dois seres vivos. Na verdade, de um indivíduo fazer muitos, é o que fazemos sempre. E não podemos deixar de fazer isso. Não temos liberdade.

19 Manter-se vivo, alimentar-se, procriar. Não temos como deixar disso. Somos escravos da vida. Não temos escolha. É a verdade que não podemos forjar. "Mas então não evoluímos, somos bichos primitivos!", retruca um de nós. "Será que nós humanos somos ainda apenas os irracionais que éramos há milhões de anos atrás, e que obedeciam apenas a instintos?". Evoluímos sim. Todos os seres vivos evoluíram. E fizeram isso, todos igualmente, por mais diferentes que sejamos uns dos outros. O mais elementar vírus, nada mais que um código genético, coberto por insípida capa de proteínas, e a suprema conquista da vida na Terra, o homem, todos evoluíram igualmente. Pois que, se a origem da vida é única, como tudo indica que seja assim que tenha acontecido, a evolução é igual, para todos os seres vivos. Podemos dizer que existem os seres mais simples e os mais complexos, mas evoluir, isso todos fizeram igualmente. Um tubarão é assim como é hoje, já há milhões de anos. Pois não foi necessário alterar-se. Atingiu cedo, um certo grau de perfeição. E permaneceu. Uma ostra grudada em alguma pedra qualquer é tão antiga quanto o ser humano. Evoluiu pois tanto quanto nós. Nossa vaidade como seres humanos no entanto, nos diz que somos mais, mais evoluídos, sentimos isso, intimamente. Entretanto, o ser humano é onívoro, não definiu ainda qual é o seu alimento preferido. Não se especializou ainda. Cheio de defeitos e imperfeições, ergueu-se sobre duas patas. Mas não se adaptou a isso totalmente. Ainda é um quadrúpede, que anda sobre duas patas. Resta-lhe um toco de rabo, sem finalidade. As unhas dos pés e das mãos, antigas garras, são inúteis. O cérebro cresceu, mas sua caixa craniana não lhe deu espaço. Invadiu a cavidade bucal, restringindo a irrigação sanguínea, provocando dentição deficiente e vulnerável. Como é que podemos afirmar, ter evoluído mais que os outros? Sem dúvida a evolução mostra no todo e em detalhes seu esforço em direção à sobrevivência da espécie. Tudo que é supérfluo acaba tornando-se peso morto e deve ser descartado. Tudo que é útil aprimora-se. O que demanda muitíssimas gerações de tentativas, erros e acertos. As espécies tornaram-se eficientes máquinas de sobrevivência, se não, não sobreviveriam. Neste aspecto a diversidade é importante. Diversidade dentro da mesma espécie, diversidade de espécies e diversidade de ambientes ecológicos. A diversidade facilita a evolução, protege a vida.

20 Se os seres vivos fossem muito semelhantes entre si eles extinguiriam. Sucumbiriam em decorrência de uma alteração qualquer do ambiente para a qual não estivessem preparados. Essas máquinas de sobrevivência, por sua aparência que a evolução lhes proporcionou, parecem estar numa luta constante incansável e sem tréguas no sentido de sobreviver. Mas é só aparência, na verdade não fazem isso o tempo todo. Ao contrário, boa parte do seu tempo estão sossegadas descansando ou se divertindo. Fazendo o que nós chamamos de lazer. Sobra-lhes sempre bastante tempo. Tempo este necessário, imprescindível até, que possa ser utilizado para sobreviver, nas adversidades. Sem o que extinguiriam. Tanto é que quando observamos os bichos em seu ambiente natural eles freqüentemente estão fazendo outras coisas do que lutar pela sobrevivência. É incomum até testemunhar estarem praticando a sobrevivência, dificilíssimo observar a predação, por exemplo. Os que mais vemos praticando sobrevivência são os coletores. Animais pastando, mordiscando aqui e ali algum alimento, normalmente pouco energético e que precisam ser ingeridos em grande quantidade. Os bichos de sangue frio necessitam pouca energia. Seu tempo disponível é muitas vezes enorme. Podem ficar semanas sem alimentar-se, mas seu metabolismo é sensível às variações de temperatura. Ficam impedidos de viver plenamente, o tempo todo. Já os de sangue quente necessitam de muito mais alimentos para manter estável a sua temperatura. O que lhes permite atuar e viver em condições adversas e portanto alimentar-se melhor. Mas todos sempre com tempo sobrando. Sem o que extinguiriam já no surgimento do primeiro contratempo. O ser humano, em nada diferente dos demais seres vivos, também vivia assim com bastante tempo disponível, antes de tornar-se civilizado. Vida tranqüila sem dúvida. Sobrevivência plenamente garantida. De modo nenhum é como imaginamos, que a vida tenha sido extremamente difícil para os nossos ancestrais. Pelo contrário, trabalhamos muitíssimo mais do que eles. Estamos constantemente enfrentando situações adversas e perigos estranhos à nossa herança de milhões de anos. Perigos que nossos genes não nos preparam para enfrentar. Muitíssimos de nós trabalham exaustivamente, e meramente sobrevivem. Muitos possuem muito, e mesmo assim trabalham exaustivamente, para ter mais. E existem aqueles aos quais não é permitido trabalhar, os desempregados. Estes estão condenados à morte, já que não podem usar aquilo que existe em excesso, mas pertence a outros. Assim, devem morrer de fome e miséria, ou serão mortos, se tentarem burlar as regras da civilização.

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