CONTO DE VERÃO. Comédia Romântica. Texto de JULIO CARRARA. Escrita em 2000

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1 CONTO DE VERÃO Comédia Romântica Texto de JULIO CARRARA Escrita em 2000 Atenção: Texto registrado e distribuído em caráter puramente de uso e leitura PESSOAL. Todos os direitos reservados aos detentores legais dos direitos da obra. Para a representação e comercialização legal da peça, entrar em contato com o autor através do

2 Julio Carrara Conto de Verão Pag.: 1 PERSONAGENS: ALAN MARÍLIA FRED GABRIEL LILIANE ANA TELMA PAI DE LILIANE CENÁRIO: A primeira e a última cena se passam na Via Anchieta. Da segunda cena em diante, o ambiente sugere as areias amarelas de uma praia um pouco deserta, na cidade de São Vicente. Duas barracas de camping, esteiras e cadeiras de praia. Outros elementos que poderão compor o cenário, ficarão à critério do cenógrafo e do encenador.

3 Julio Carrara Conto de Verão Pag.: 2 CENA 1 (LUZ SOBE EM RESISTÊNCIA REVELANDO UMA ESTRADA DESERTA EM PLENA MADRUGADA. UMA FORTE NEBLINA ENCOBRE EM PARTE O LUGAR. OUVE-SE NO ÁUDIO RUÍDOS DE MOTOR DE UM CARRO, QUE CUSTA A FUNCIONAR, MESCLANDO COM AS VOZES DOS PASSAGEIROS. BUZINAS, FARÓIS QUE ACENDEM E APAGAM E MUITA FUMAÇA QUE SAI DO AUTOMÓVEL. LOGO EM SEGUIDA ENTRAM TRÊS JOVENS: MARÍLIA, FRED E GABRIEL. ESTÃO UM POUCO TENSOS E CANSADOS) MARÍLIA - Eu sabia que isso não ia dar certo. Não sei onde estava com a cabeça quando aceitei o convite de descer pra praia com vocês. GABRIEL - Fica fria, Marília... Dá-se um jeito pra tudo. FRED - Eu tinha certeza que o carro ia quebrar no caminho. MARÍLIA - E vocês esperavam que essa lataria velha que é o carro do Alan, agüentasse a viagem toda? Eu falei pra ele de vir de buzão ou alugar uma perua, mas é teimoso como uma mula. E ainda mais com a quantidade de coisas que a gente trouxe. (NESSE MOMENTO ENTRA ALAN, TODO SUJO DE GRAXA) ALAN - É, não tem jeito, galera. Ferveu!!!! MARÍLIA - Era de se esperar. E agora, o que a gente vai fazer? ALAN - Esperar o carro esfriar para a gente seguir viagem. MARÍLIA - Você tá zoando com a nossa cara...

4 Julio Carrara Conto de Verão Pag.: 3 ALAN - É a única maneira, Marília. Você vê outra solução? E pelo jeito não vamos encontrar nenhum orelhão por perto para buscar socorro. MARÍLIA - Eu não fico aqui nem mais um minuto. Vou pegar um buzão e a gente se encontra lá em São Vicente. (VAI SAINDO) Tchau! GABRIEL - São três e meia da manhã, Marília. Não tem ônibus pra lá esse horário... E se tivesse com que grana a gente ia pagar? ALAN - Pô, gata, sem stress, relaxa... MARÍLIA - (COM OS NERVOS À FLOR DA PELE) Como eu vou relaxar Alan? Estamos a quase meia hora nessa estrada deserta; tô com fome, com sede, com medo, a bosta desse Fiat 147 quebrou, não passa um miserável pra ajudar a gente e você me pede pra ficar relaxada? Tenha dó. FRED - Fome não é problema. Não seja por isso. Minha mãe me fez trazer uns frangos assados com farofa pra gente poder farofar. Tá aqui na minha mochila. Quer que eu pegue um pra você, Marília? MARÍLIA - Vá se danar, Frederico. Não tô pra brincadeira. FRED - (PARA ALAN) Ô, Alan, dá um jeito na sua mina, mano. O que ela tem? Não aceita brincadeira... MARÍLIA - Brincadeira tem hora, sabia? FRED - É? Não sabia que pra brincar tinha que ter hora marcada... MARÍLIA - (IRÔNICA) Engraçadinho! GABRIEL - Sabe o que é isso, Fred? TPM, saca?

5 Julio Carrara Conto de Verão Pag.: 4 FRED - TPM? Que porra é essa? GABRIEL - Tensão Pré-Menstrual. Algumas mulheres viram verdadeiras megeras quando estão com isso, e a Marília é uma delas. Tome cuidado, viu Alan? MARÍLIA - Não é nada disso, Gabriel. Não tô com TPM porcaria nenhuma. O que eu quero é sair daqui o mais rápido possível... (COMEÇA A CHORAR) Inferno! (ALAN SE APROXIMA DELA) Ah, Alan, mal começamos a viagem e já tá tudo dando errado! ALAN - Não pensa assim. Vai dar certo, sim. Garanto que vai ser o feriado mais divertido que a gente vai passar junto. Você não confia em mim? MARÍLIA - Em você eu confio, só não confio no seu Fiat 147. (CHUTA O CARRO) (ALAN SENTA-SE NO CHÃO AO LADO DA NAMORADA. FRED TAMBÉM SE SENTA E SOLTA O AR DOS PULMÕES VIOLENTAMENTE PELA BOCA) GABRIEL - Tô apertado vou dar um mijão e já volto. (BRINCA COM FRED) Quer vir comigo pra chacoalhar, Fred? FRED - (IRÔNICO) Com todo respeito à sua mãe, (ESTÚPIDO) vá pra puta que te pariu! GABRIEL - (AINDA NO TOM DE BRINCADEIRA) Nossa, que mocinha malcriada! É falta de homem, meu bem?! (FRED ATIRA UMA PEDRA EM GABRIEL, MAS NÃO ACERTA. GABRIEL VAI ATÉ O FUNDO DO PALCO, RINDO. NESSE MOMENTO OUVE-SE NO ÁUDIO RUÍDOS DE UM MOTOR DE CAMINHÃO. FRED, MARÍLIA E ALAN, ESCUTAM, OLHAM UM PARA O OUTRO E CONCORDAM ENTRE OLHARES. SORRIEM COM ESPERANÇA)

6 Julio Carrara Conto de Verão Pag.: 5 FRED - É a chance... Ô, Gabriel! (ASSOBIA PARA GABRIEL, QUE VEM FECHANDO A BRAGUILHA DA CALÇA) GABRIEL - Pô, não posso nem mijar sossegado!...o que foi? FRED - (FELIZ) Carona à vista... GABRIEL - (ESFREGANDO AS MÃOS) Beleza!!! ALAN - E o que eu vou fazer com o meu carro? FRED - Deixa ele aí e vamos dar área. ALAN - Deixar ele aqui na estrada? Tá maluco?! GABRIEL - Quem vai querer roubar um Fiat 147, Alan? Ainda mais do jeito que ele tá. Vamos pegar carona, curtir o feriado e na volta a gente pega ele. Fica frio, cara. Além do mais, sua charanga não presta nem pra desmanche, mano. Acho que nem ferro velho aceita ele. Pode dar tétano. ALAN - Obrigado pela parte que me toca... FRED - Galera precisamos agir rápido... (TODOS OLHAM PARA MARÍLIA) MARÍLIA - (COMPREENDENDO A INTENÇÃO) Êêêêê... GABRIEL - Quebra essa, vai Marília. O que custa? MARÍLIA - Tudo eu, tudo eu... Por que vocês não fazem isso? FRED - Você acha que algum caminhoneiro vai querer dar carona para um bando de marmanjo como a gente? A não ser que seja boiola.

7 Julio Carrara Conto de Verão Pag.: 6 ALAN - Não vou permitir que minha namorada peça carona pra caminhoneiro nenhum... (MUDA O TOM) Mas hoje, só hoje, vou abrir uma exceção... Faz isso pela gente, gata. Salva a nossa pele. MARÍLIA - (DEPOIS DE UMA PAUSA) Tá bom, tá bom, tudo eu, tudo eu, tudo eu... vou me sacrificar por vocês, mas vai ser a última vez... (OS TRÊS PULAM DE ALEGRIA. O CAMINHÃO VAI SE APROXIMANDO LENTAMENTE. OS GAROTOS DESAPARECEM E FICAM ESPIANDO NUM CANTO. APENAS MARÍLIA EM CENA. COMEÇA A FAZER CARAS E BOCAS, MOSTRA AS PERNAS, ETC. SE COMPORTA REALMENTE COMO UMA PROSTITUTA DE BEIRA DE ESTRADA. O CAMINHÃO VAI SE APROXIMANDO. OUVE-SE NO ÁUDIO RUÍDOS DE GALINHAS CACAREJANDO. FOCO NOS GAROTOS, ATRÁS DA MOITA) GABRIEL - (FALA PARA OS OUTROS, QUE COMO ELE ESTÃO ESCONDIDOS) Ihhh, fodeu... ALAN - Por que? GABRIEL - Não estão sentindo o cheiro e ouvindo o barulho? É um caminhão de galinha... FRED - Menos mal. Seria pior se fosse um caminhão cheio de porco com aquele cheiro horrível de lavagem. (MUDA O FOCO PARA MARÍLIA, QUE ACENA PARA O CAMINHÃO IMAGINÁRIO PEDINDO CARONA. OUVE-SE UMA FREADA BRUSCA) MARÍLIA - (FALA PARA O MOTORISTA INVISÍVEL) E aí, tudo bem, como vai gostosão?... Não querendo abusar da sua bondade, mas poderia me dar uma carona até a Baixada? Ó, tô sem grana nenhuma, mas posso te pagar de outra maneira... (OUVE A RESPOSTA) Tudo bem? (SORRI FELIZ. CHAMA COM UM GESTO LARGO OS RAPAZES) Vamos embora, galera!!!!

8 Julio Carrara Conto de Verão Pag.: 7 (OS TRÊS RAPAZES SAEM DA MOITA CARREGANDO MALAS, BARRACAS ETC, TUDO O QUE SE PODE IMAGINAR. ALAN EMPURRA O CARRO E COM UMA CORDA AMARRA O MESMO NA PARTE TRASEIRA DO CAMINHÃO. PULAM FRED, GABRIEL E MARÍLIA, NA CARROCERIA DO CAMINHÃO ENQUANTO QUE ALAN VAI DENTRO DO CARRO. SAEM DE CENA NUMA MAIOR ALGAZARRA) CENA 2 (LUZ SOBE EM RESISTÊNCIA SOBRE AS AREIAS AMARELAS DA PRAIA. NO CICLORAMA, UM CÉU AZUL CHEIO DE NUVENS. O SOL DA MANHÃ COMEÇA A APARECER NO HORIZONTE. MOVIMENTAÇÃO HABITUAL DE UMA PRAIA. ENTRAM ALAN, MARÍLIA, GABRIEL E FRED, TOTALMENTE IMUNDOS, CARREGANDO CADA UM A SUA BAGAGEM. EM SEGUIDA COMEÇAM A MONTAR AS BARRACAS E ORGANIZAR SUAS COISAS. DEVE SER UM VERDADEIRO ACAMPAMENTO NA PRAIA, COMO OS FAROFEIROS FAZEM. QUANDO TERMINAM O SERVIÇO, ALAN ESTENDE OS BRAÇOS PARA O CÉU) ALAN - São Vicente, aqui estamos nós! (ALAN AGARRA MARÍLIA) MARÍLIA - Ai, Alan, eu tô fedendo à galinha... ALAN - E daí? Olha a minha cara de preocupado... (ALAN JOGA MARÍLIA NA AREIA E AMBOS COMEÇAM A ROLAR NELA) GABRIEL - (CORTANDO O BARATO, BATENDO PALMAS) Ô, vocês dois, agora não é hora de ficar se agarrando aí na areia feito dois cachorros no cio. ALAN - Vá se danar, Gabriel. Tá com ciúme, babacão? MARÍLIA - Tá parecendo meu pai.

9 Julio Carrara Conto de Verão Pag.: 8 (ALAN E MARÍLIA SE DESGRUDAM. FRED COMEÇA A RIR SEMCONTROLE) GABRIEL - O que foi bobo-alegre? FRED - Tô me lembrando da cara do tiozinho do caminhão quando viu o bando entrando na carroceria e ficando junto com as suas galinhas. MARÍLIA - (TAMBÉM RINDO) Ele nem teve tempo de dizer um não. ALAN - E se dissesse levava porrada... (RIEM. POUCO A POUCO VÃO PARANDO DE RIR, ATÉ UM SILÊNCIO ABSOLUTO) GABRIEL - Tá tudo muito bom, mas o que tá faltando aqui nesta Praia é mulher... Muita mulher bonita. MARÍLIA - (OFENDIDA, COM IRONIA) Obrigada, Gabriel. GABRIEL - Pô foi mal. Não era isso que eu queria dizer. MARÍLIA - Mas disse. FRED - (OLHA PARA FORA) Uau! Olha o boieng que vem vindo ali, moçada... (OS TRÊS OLHAM PARA FORA. NESTE INSTANTE ENTRA LILIANE, UMA LINDA GAROTA, LOIRA OXIGENADA E DE OLHOS VERDES, TRAZENDO UMA ESTEIRA E UM RADINHO DE PILHA. ESTÁ COM UM RAYBAN, CHAPÉU E UMA SACOLINHA. FRED E GABRIEL FICAM BOQUIABERTOS. LILIANE COLOCA A ESTEIRA NO CHÃO E SENTA- SE NELA. TIRA O RAYBAN E A CANGA FICANDO APENAS DE BIQUINI. LIGA O RÁDIO. OUVE-SE UMA MÚSICA QUALQUER. TIRA UM BRONZEADOR DA SACOLINHA. COMEÇA A PASSÁ-LO NO CORPO COM UMA GRANDE DOSE DE SENSUALIDADE, SEM NOTAR A PRESENÇA

10 Julio Carrara Conto de Verão Pag.: 9 DOS MENINOS. NOTA-SE UMA CERTA DIFICULDADE QUANDO ESTA VAI PASSAR O ÓLEO NAS COSTAS. QUANDO PERCEBE A PRESENÇA DOS GAROTOS, SE DIRIGE PARA ELES) LILIANE - Ei, vocês aí poderiam me dar uma ajudinha? (FRED, GABRIEL E ALAN FAZEM MENÇÃO DE IR ATÉ ELA. MARÍLIA, AO PERCEBER O MOVIMENTO DE ALAN, O IMPEDE. FRED E GABRIEL PARAM NO MEIO DO CAMINHO) LILIANE - Podem vir, eu não mordo, não. (OS RAPAZES FICAM BEM PERTO DA GAROTA) Poderiam passar esse bronzeador nas minhas costas?... Não tô conseguindo... Acho que Deus deveria ter feito a gente com o braço mais comprido. Toda vez que venho pra a praia sozinha, é sempre o mesmo transtorno, preciso sempre pedir ajuda pra alguém. Poderiam me fazer esse pequeno favor? FRED - (ASSANHADO) Mas é claro. (LILIANE ENTREGA O BRONZEADOR PARA FRED QUE DISPUTA A POSSE DO MESMO COM GABRIEL. LILIANE, AO PERCEBER O QUE ESTÁ ACONTECENDO, TENTA APAZIGUÁ-LOS) LILIANE - Calma. Não precisam brigar, rapazes... Passa um de cada vez... (LILIANE DEITA-SE DE BRUÇOS. OS RAPAZES OLHAM PARA O CORPO DA GAROTA, DEPOIS UM PARA O OUTRO. GABRIEL COMEÇA A PASSAR O BRONZEADOR NO CORPO DELA COM UMA CERTA TIMIDEZ) LILIANE - Passa direito, garoto. Tem medo de mulher, é? (GABRIEL, AGORA BEM MAIS DESINIBIDO, PEGA O ÓLEO E VAI MASSAGEANDO AS COSTAS DA GAROTA. FRED, TODO ASSANHADO, PEGA O FRASCO DAS MÃOS DE GABRIEL E LAMBUZA A GAROTA, MASSAGEANDO DEPOIS)

11 Julio Carrara Conto de Verão Pag.: 10 LILIANE - Vocês vêm sempre pra cá? FRED - De vez em quando. LILIANE - Vocês moram aqui na Baixada? GABRIEL - Não. Somos de Sampa. LILIANE - Não sei como conseguem viver naquela cidade. É muito barulho, poluição, gente stressada, um horror! FRED - Por isso nós viemos pra cá, pra fugir um pouco do stress provocado pela Paulicéia Desvairada e também para caçar algumas caiçaras. Captou ou quer que eu desenhe? (GABRIEL BATE EM FRED) LILIANE - (CURIOSA, OLHANDO PARA ALAN E MARÍLIA) E quem são aqueles dois? GABRIEL - São os nossos amigos... (GABRIEL ASSOBIA. ALAN E MARÍLIA, SE APROXIMAM) MARÍLIA - (SIMPÁTICA) Olá. Sou Marília. LILIANE - E eu Liliane. E o bonitão aí, como se chama? ALAN - (SEM ENTENDER) Você fala comigo? LILIANE - E que outro bonitão, além de você, está por aqui? GABRIEL - (MAGOADO) Nós sabemos que não somos grandes coisas, mas não precisa jogar na cara, né? MARÍLIA - (CÍNICA, PARA LILIANE) O bonitão se chama Alan...

12 Julio Carrara Conto de Verão Pag.: 11 LILIANE - Alan! Bonito nome... MARÍLIA - (CORTANDO)...e ele tem namorada! LILIANE - Que pena!... Por acaso, é você? Menina de sorte, hein? MARÍLIA - (PERDENDO A CALMA) Quer parar de ficar se insinuando pra ele, sua sirigaitazinha, sua, sua... Surfistinha. LILIANE - Eu não entendi direito o que você quis dizer... MARÍLIA - É que toda oxigenada processa as informações lentamente. Mas existe uma razão pra isso: a tinta cozinhou o cérebro. (PARA ALAN, JOGANDO A INTENÇÃO PARA LILIANE) Você sabe Alan, porque essa garota trouxe esse rádio? ALAN - Não, por quê? MARÍLIA - Porque não pode ouvir mp3... E sabe por quê? (DESTACANDO AS SÍLABAS) Porque o som não se propaga no vácuo. (OLHA FIXAMENTE PARA LILIANE, ENQUANTO ALAN RI) LILIANE - (JOGA OS CABELOS DE UM LADO PARA O OUTRO) Também não entendi. MARÍLIA - (REMEDANDO-A) Também não entendi. Não entendeu? Pois fique sem entender, minha filha... Vamos sair daqui, Alan, que eu não quero arrumar confusão com essa... com essa... (PAUSA) Entenda como quiser! (SAEM DE PERTO. VÃO PARA O OUTRO LADO) LILIANE - (PARA GABRIEL E FRED) Bichinho temperamental!

13 Julio Carrara Conto de Verão Pag.: 12 FRED - Também você dá em cima do namorado dela, assim, na caruda! Você esperava o quê? Que ela te agradecesse?! GABRIEL - E ainda chama a gente de feio, na cara dura, mas que falta de consideração... Depois de tudo que nós fizemos por você. LILIANE -(SEM SE IMPORTAR) Meninos, vocês tomam conta das minhas coisas? Eu vou dar um mergulho... Aliás vocês também precisavam de um bom banho de mar. Tão com um cheirinho... Bye, bye, boys. (SAI FAZENDO POSES) (FRED E GABRIEL SE ENTREOLHAM) GABRIEL - Que mal-agradecida! (AMBOS SE APROXIMAM DE ALAN E MARÍLIA) MARÍLIA - Mas que biscatinha! ALAN - Não precisava baixar o nível, né, Marília? MARÍLIA - Como não? Ela só faltou se jogar nos seus braços... O que adianta ter um corpo escultural e o cérebro do tamanho de um caroço de azeitona? E você bem que gostou né, seu filho da mãe?! ALAN - Claro. (MARILIA DÁ UM TAPINHA EM ALAN) Ai. O que é isso, Marília? (NISSO, OUVE-SE EM OFF, PEDIDOS DE SOCORRO DE LILIANE) FRED - O que é isso? GABRIEL - (OLHANDO PARA O MAR) Olha lá, parece que tem alguém se afogando... É a Liliane. MARÍLIA - Bem feito...

14 Julio Carrara Conto de Verão Pag.: 13 FRED - Vai lá. Salva ela, Gabriel. GABRIEL - Eu não posso. FRED - Por que não pode? GABRIEL - Por que... Porque eu não sei nadar... FRED - (COM VERGONHA) Nem eu! Eu não devia ter abandonado minhas aulas de natação... (NOVAMENTE OUVEM-SE OS GRITOS DE LILIANE) FRED - (DESESPERADO) Alguém precisa fazer alguma coisa. ALAN - Eu vou lá. MARÍLIA - (REPREENDENDO-O) Alan! ALAN - A menina tá se afogando, Marília... MARÍLIA - E me alegro muito. ALAN - Pára de ser criança... Eu já volto! (CORRE ATÉ O MAR, QUE ESTÁ FORA DE CENA) MARÍLIA - (REVOLTADA, PARA FRED E GABRIEL) Seus inúteis. O que custava entrar no mar pra salvar aquela bisca? FRED - Não foi maldade, Marília. GABRIEL - É. Você acha que faríamos isso de propósito? MARÍLIA - Acho. (ALAN ENTRA COM LILIANE DESMAIADA NOS BRAÇOS. COLOCA-A NA AREIA E COMEÇA A MASSAGEAR SEU CORAÇÃO. TAPA-LHE O NARIZ

15 Julio Carrara Conto de Verão Pag.: 14 E VAI FAZER RESPIRAÇÃO BOCA-A-BOCA. MARÍLIA AO CENA, SEREVOLTA) VER A MARÍLIA - Ah, isso já é demais, Alan. Salvar ela, tudo bem, agora fazer respiração boca a boca nessa oxigenada é o fim da picada. Deixa essa tarefa pro Fred ou pro Gabriel que nunca beijaram ninguém na boca... FRED Bem que eu gostaria, mas não tenho a mínima idéia de como se faz. GABRIEL - Nem eu. E o Alan foi escoteiro, Marília, ele manja esse lance de primeiros socorros. MARÍLIA - Vocês são dois viadinhos, isso sim. bem no que você vai fazer. Alan pense ALAN - Pô, Marília, não torra. Você acha que eu vou abusar da menina na sua frente? Me desculpe, mas eu vou precisar fazer isso. (FAZ A RESPIRAÇÃO BOCA A BOCA EM LILIANE. ESTA, SOLTA UMA GRANDE QUANTIDADE DE ÁGUA PELA BOCA. ALAN REPETE O MOVIMENTO. LILIANE ACORDA, MEIO GROGUE. AO VER ALAN, O ABRAÇA) LILIANE - Meu herói... MARÍLIA - (NO AUGE DA FÚRIA) Sua filha da puta, descarada... Agora você vai ver. (PEGA-A PELOS CABELOS) O Alan te salvou e agora é a minha vez de te mandar fazer companhia para Iemanjá. (LEVA A GAROTA PARA FORA DE CENA. ALAN CORRE ATRÁS. FRED E GABRIEL FICAM NA AREIA, OLHANDO NA DIREÇÃO DO MAR, DESESPERADOS. GRITOS EM OFF. LILIANE VOLTA CORRENDO, SOLTANDO ÁGUA PELA BOCA. PEGA SUAS COISAS E SAI CORRENDO)

16 Julio Carrara Conto de Verão Pag.: 15 LILIANE - Assassina! Assassina! (MARÍLIA VOLTA FURIOSA. ALAN SEGURA A GAROTA) MARÍLIA - Você não perde por esperar, sua vagabunda... (ALAN CHACOALHA MARÍLIA. A GAROTA VAI SE ACALMANDO ABRAÇA- O E CHORA COM RAIVA. FRED E GABRIEL OLHAM TUDO MUITO ASSUSTADOS) ALAN - (SÉRIAMENTE) Agora vamos ter uma conversa bem séria. Só nós dois. E você vai me escutar, ouviu bem? (FRED E GABRIEL, AO VEREM QUE A COISA ESTÁ FICANDO BRAVA, SE AFASTAM. ALAN OLHA PARA MARÍLIA) ALAN - Agora vamos conversar como dois adultos... MARÍLIA - Agora não, eu tô exausta, quero descansar um pouco. Depois a gente conversa. ALAN - Vamos conversar agora. E não adianta fugir... (MARÍLIA DESVIA O OLHAR) Olha pra mim, Marília... Agora me responda, por que você tá agindo dessa maneira infantil e ridícula? Por que criou essa confusão toda com a Liliane? MARÍLIA - Por quê? Você ainda pergunta? Ela ficou dando em cima de você como se eu não existisse. Eu não tenho sangue de barata, né, Alan?! ALAN - E eu por acaso fiquei xavecando ela? MARÍLIA - Não. Mas salvou a desgraçada do afogamento. E ainda fez respiração boca a boca na infeliz. É o que basta! ALAN - Eu faria isso com qualquer pessoa, caramba. Aqui nesse ponto da praia não tem um salva-vidas sequer. Não ia

17 Julio Carrara Conto de Verão Pag.: 16 ficar aqui parado, assistindo de camarote o afogamento dela. (NOUTRO TOM) Pô, Marília, a gente veio aqui pra se divertir, não pra ficar brigando. Esse teu ciúme é tão besta. Por que isso? MARÍLIA - (INSEGURA) Porque eu não quero te perder, Alan. Você é tudo que eu tenho. Tremo só de pensar que isso possa acontecer um dia. ALAN - Se você continuar agindo dessa forma, vai me perder mesmo. Você não era assim. Quando te conheci, você era diferente. Esse teu ciúme já tá passando dos limites, tá virando uma obsessão... Eu quero uma namorada, não uma dona, Marília, entenda isso. Você tá muito insegura comigo e isso não é legal. MARÍLIA - (TRISTE) Eu tô mesmo. Você é tudo o que eu tenho meu gato. E tem muita mulher mais bonita do que eu dando bola pra você e isso me deixa muito mal. ALAN - Você acha que se eu não te quisesse, eu estaria aqui? Hein?! (PAUSA) Fica tranqüila... MARÍLIA - Eu vou tentar. ALAN - E se a Liliane aparecer por aqui, você vai pedir desculpas pra ela pelo ocorrido. MARÍLIA - (SE ALTERA) Isso, não. Pode me pedir qualquer outra coisa, mas pedir desculpas pra aquela piranha, nunca! ALAN - Vai pedir desculpas, sim. É o mínimo que você pode fazer depois do escândalo todo que armou. MARÍLIA - (SE RENDENDO) Tá bom, tá bom. Eu vou pedir desculpas pra ela, mas se ela ficar se oferecendo pra

18 Julio Carrara Conto de Verão Pag.: 17 você, eu não respondo por mim e armo outro barraco, tá me ouvindo? ALAN - Isso não vai acontecer mais. Garanto. MARÍLIA - Espero. (ENTRAM FRED E GABRIEL, CADA UM SEGURANDO DOIS CÔCOS. FRED ENTREGA UM CÔCO PARA MARÍLIA E GABRIEL ENTREGA OUTRO PARA ALAN) GABRIEL - (PARA ALAN) E aí, acalmaram os ânimos? ALAN - Espero que sim. (NESSE MOMENTO COMEÇAM A CHEGAR ALGUNS TURISTAS, COM ALGUMAS CRIANÇAS, QUE CARREGANDO BALDINHOS E OUTRAS COISAS, COMEÇAM A BRINCAR NA AREIA. UM CASAL COMEÇA A PASSAR PROTETOR SOLAR. ALAN OLHA PARA ESSE CASAL) ALAN - Essa água de côco está ótima, (PONDO A MÃO NA BARRIGA) mas bateu uma fome... Um ranguinho agora ia bem GABRIEL - E aquele franguinho com farofa, Fred? FRED - Tá na mão!!! (ENTRA NA BARRACA E VOLTA COM DUAS TOPPERWARES COM FAROFA E MAIS DOIS FRANGOS ASSADOS COBERTOS COM PAPEL ALUMÍNIO. ABRE O RECIPIENTE E DESEMBRULHA OS FRANGOS) Alguém trouxe pratos e talheres? ALAN - Pra quê pratos e talheres, Fred? Quer bancar o fino aqui nessa praia que só tem farofeiro?... Frango se come com a mão. (PEGA UMA COXA E COME) Assim. FRED - Mas e a farofa? ALAN - Também...

19 Julio Carrara Conto de Verão Pag.: 18 (PEGA UM PUNHADO DE FAROFA E PÕE NA BOCA. OS OUTROS ACHAM GRAÇA NO FATO E REPETEM O GESTO DE ALAN, COM O FRANGO E A FAROFA. DEPOIS CADA UM PEGA UMA LATINHA DE CERVEJA E COMEÇAM A BEBER. JÁ ESTÃO UM POUCO EMBRIAGADOS PELO EFEITO DO ÁLCOOL) FRED - É uma pena que esse frango tá gelado. GABRIEL - Tá valendo. (TRINCHAM O FRANGO. PELA MANEIRA QUE COMEM, DEMONSTRAM TODA A FOME. FAZEM UMA BRINCADEIRA DE FALAR COM A BOCA CHEIA DE FAROFA. O CASAL, QUE ESTÁ DO LADO, OLHA COM UM CERTO ESTRANHAMENTO) ALAN - (PÁRA DE COMER E OFERECE O FRANGO PARA ELES) Vocês querem um pedaço? (O CASAL FAZ CARA DE NOJO E ACENAM NEGATIVAMENTE COM A CABEÇA) Então, por favor, cuidem desses ranhentos e não deixem que eles se afoguem... FRED - (FALA COM A BOCA CHEIA DE CARNE DE FRANGO E FAROFA) O que é que tão olhando? Nunca viram, não? (O CASAL VIRA PARA O LADO E COCHICHAM) ALAN - Ô, Fred, não vamos arrumar briga... GABRIEL - (DESENCANADO) Não esquenta, galera. Não vai haver briga nenhuma. MARÍLIA - Nunca se sabe Gabriel. GABRIEL - Não vai haver briga nenhuma por uma razão bem simples: eles são gringos e não estão entendendo nada do que a gente tá falando. Vocês não sacaram isso, seus babacas? Olha a cor deles. Chegam a ser transparentes!

20 Julio Carrara Conto de Verão Pag.: 19 (RIEM. O CASAL ARRUMA SUAS COISAS E VÃO EMBORA LEVANDO AS CRIANÇAS) ALAN - (FALANDO PARA OS TURISTAS) Good bye, friends, so long! FRED - Ô, meu Deus, cadê as mulheres dessa praia? Não agüento mais olhar pra pernas peludas e sungas salientes... GABRIEL - A única que tinha, a Marília espantou... MARÍLIA - Vai começar droga? GABRIEL - (ERGUENDO AS MÃOS, SE RENDENDO) Foi mal. Desculpe. ALAN - Esse pedaço aqui da praia é deserto mesmo. Não foi esse o combinado da gente? De vir pra um lugar calmo onde a gente pudesse descansar e acampar tranqüilo, sem ter que aguentar aqueles bichos do mato que nunca viram mar, rolando na areia e se transformando em bife à milanesa? FRED - Que merda viu... (SILÊNCIO. ALAN CONVIDA O GRUPO) ALAN - Em vez de ficar aqui jogando conversa fora, por que a gente não vai dar um mergulho? Olha que mar lindo, que sol maravilhoso convidando a gente! Vamos? (SILÊNCIO DE GABRIEL E FRED) GABRIEL - Esqueceu que não sabemos nadar?! ALAN - Ah, fica no rasinho, caramba. Não tem perigo. As ondas dessa praia não passam de trinta centímetros de

21 Julio Carrara Conto de Verão Pag.: 20 altura. Acho que vocês não são tão idiotas de se afogarem, né? MARÍLIA - (IRÔNICA) Eles eu não sei, mas teve uma piranhinha muito idiota que conseguiu realizar essa proeza. ALAN - Vai começar? (PARA OS GAROTOS) Vamos? FRED - Tá bom. Mas me esperem um pouco... (ENTRA NA BARRACA. DEMORA UM POUCO) ALAN - (IMPACIENTE) Anda logo, Fred. FRED - (EM OFF ) Já vou. (TEMPO. LOGO APARECE COM ÓCULOS DE MERGULHO, UMA BÓIA DE BICHINHO NA CINTURA E DOIS ENORMES PÉS-DE-PATO) E aí? Como estou? MARÍLIA - (ZOANDO) Uma gracinha! (RIEM DO RIDÍCULO DO RAPAZ) ALAN - O último que chegar é mulher do padre! (SAEM DE CENA CORRENDO. FRED DEMORA UM POUCO MAIS PARA ALCANÇÁ-LOS DEVIDO A GRANDE PARAFERNÁLIA QUE ESTÁ USANDO) CENA 3 (LUZ SOBE EM RESISTÊNCIA REVELANDO O PÔR-DO-SOL. ALAN E MARÍLIA ESTÃO SOZINHOS, SENTADOS NUMA ENORME PEDRA COM OS CABELOS ÚMIDOS E DESPENTEADOS. DE VEZ EM QUANDO, AS ONDAS REBENTAM NAS PEDRAS MOLHANDO O CASAL. ESTÃO ABRAÇADOS E O CLIMA ESTÁ BASTANTE AGRADÁVEL) ALAN - (APRECIANDO O PÔR-DO-SOL) O pôr-do-sol é tão lindo, né, Marília? É uma pena que a gente não possa apreciar essa dádiva da natureza lá em São Paulo. (INSPIRA O AR)

22 Julio Carrara Conto de Verão Pag.: 21 Como é bom respirar um pouco de ar puro, sentir esse cheiro de maresia, ouvir as ondas rebentando nas pedras... Sabe que eu era capaz de ficar assim, a minha vida inteira? Parece que... não sei... que a gente se desliga, se dissolve... se desintegra... (PAUSA) Bobagem minha, né? MARÍLIA - Eu não acho, não, Alan. Sabe, infelizmente a gente vive num mundo consumista onde o que mais conta é o dinheiro... Dinheiro, dinheiro, dinheiro, sempre dinheiro. As pessoas se matam de trabalhar, muitas vezes trabalhando de dia e de noite, se estressam, envelhecem rápido, para no fim do mês receber uma merreca de salário, que mal dá pra pagar o aluguel e outras contas, e quando vão ver... estão com 50, 60 anos e infelizmente, não curtiram os prazeres da vida... Os meus pais são exemplos vivos disso. Por que as pessoas ficaram tão obcecadas em só ganhar dinheiro? Tem outras coisas na vida mais importantes do que isso... Quer mais do que a gente? Estamos sem um puto no bolso e estamos aqui, curtindo esse lugar maravilhoso, numa boa sem se preocupar com o relógio. ALAN - Você fez um belíssimo discurso, mas temos que aceitar tudo isso. São as regras impostas pela sociedade. MARÍLIA - Sociedade!!! Bah, eu quero que essa sociedade se dane... O que eles sabem da vida? Absolutamente nada... Só querem saber de promover jantares pra grã-finos, festas pra cachorro, ficar falando futilidades e desejando o mal para os outros... ALAN - Vamos mudar de assunto? Não tô com saco pra ficar aqui filosofando sobre a vida, sobre o que é certo ou errado, justo ou injusto... (LENTO) O importante é que estamos nós dois aqui, sozinhos, sem aqueles pentelhos do Fred e do Gabriel torrando a paciência... O importante é que eu amo você... MARÍLIA - (INCRÉDULA) O que você disse?

23 Julio Carrara Conto de Verão Pag.: 22 ALAN - Isso mesmo que você ouviu. MARÍLIA - É a primeira vez que você me diz... ALAN - (CONTINUA)... amo você? MARÍLIA - É. (ABRAÇA O RAPAZ) (ALAN BEIJA-LHE A BOCA, O PESCOÇO E A ORELHA DE MARÍLIA. COMEÇA A PASSAR A MÃO PELO SEU CORPO) MARÍLIA - (SE SOLTA) Não, Alan... ALAN - Por que, não? Aqui não vem ninguém... MARÍLIA - (TENSA) Alan, a gente precisa conversar. ALAN - (COMPREENDENDO) A camisinha?... MARÍLIA - Ainda bem que você falou... Eu tava completamente sem coragem... ALAN - Eu tenho uma aqui comigo. (PEGA O PRESERVATIVO DA BERMUDA E BEIJA A GAROTA. EM SEGUIDA, DEITA-A NA PEDRA) MARÍLIA - (LEVANTANDO-SE) Não... Peraí, não é assim. A gente precisa conversar... Eu tô nervosa, tô confusa... (DESABAFA) Alan, eu sou virgem... Mas esse não é o único problema... Eu tenho medo de doer, de engravidar, medo da AIDS, medo de encarar meus pais e muito mais medo de que você me abandone depois que a gente faça essa loucura... (SUSPIRA) Pronto, falei! ALAN - Se você confiar em mim, esse seu medo vai deixar de existir.

24 Julio Carrara Conto de Verão Pag.: 23 MARÍLIA - Mas e minha família? Se chegar no ouvido do meu pai que eu perdi minha virgindade, ele me mata! Tá me dando uma culpa, um grilo danado... ALAN - Ele não precisa saber... Ninguém precisa saber. MARÍLIA - Vou me sentir uma criminosa... Você não me entende, Alan. É tão difícil pra mim... O meu pai... ele ainda me atormenta. ALAN - Lembra daquela aula de Psicologia?... O que aquele tal de Freud dizia sobre matar o próprio pai? MARÍLIA - (TENTANDO LEMBRAR) Ele dizia que: pra continuar crescendo, a gente tem que matar o pai dentro da gente. ALAN - Então... Esquece ele de uma vez. MARÍLIA - Você acha que eu não tento?... Pensa que é fácil? Eu acho que ainda não tô preparada pra fazer amor com você. Essa é que é a verdade... ALAN - Tudo bem. Não vou forçar a barra. Vai ser quando e na hora que você quiser e se sentir preparada... MARÍLIA - Olha pra mim, Alan... (ALAN OLHA PARA A GAROTA) Você promete que não vai me deixar? ALAN - Você é a mulher da minha vida, Marília. MARÍLIA - (VAI CEDENDO) Esse é o discurso que todos os garotos fazem quando querem transar com uma menina... (PAUSA. ALAN BEIJA-LHE A ORELHA E DIZ ALGO NO OUVIDO DA GAROTA) Ai, Alan, assim eu não agüento. Você me mata com essa voz de travesseiro... Até hoje você, foi o único homem que fez minha vida virar no avesso.

25 Julio Carrara Conto de Verão Pag.: 24 ALAN - Você também. Eu fico maluco quando sinto o teu perfume, quando beijo a tua boca, quando olho pra esses olhos... (ALAN BEIJA A GAROTA. ACARICIA-LHE O CORPO, PASSA A MÃO EM SUAS ANCAS. A GAROTA FAZ O MESMO NO RAPAZ, ACARICIANDO-LHE OS CABELOS, O PEITO, O ABDÔMEN, OS BRAÇOS MUSCULOSOS, E DEMONSTRA UM POUCO DE INSEGURANÇA AO TOCÁ-LO) ALAN - Fica calma... Relaxa. MARÍLIA - (PREOCUPADA) E se aparecer alguém? ALAN - Não vai aparecer ninguém. E que ninguém ouse atrapalhar esse momento pelo qual vamos passar. Pode escrever na sua agenda: essa vai ser uma noite inesquecível. (ALAN E MARÍLIA SE ACARICIAM E FAZEM AMOR. OUVE-SE NO ÁUDIO OS GEMIDOS DOS DOIS. A CENA, EM MOMENTO ALGUM DEVERÁ SER APELATIVA. OS GEMIDOS SÃO MESCLADOS COM O REBENTAR DAS ONDAS. O CLIMA DEVE SER DE PURA POESIA. LUZ VAI DESCENDO EM RESISTÊNCIA FICANDO APENAS O PÔR-DO-SOL. A NOITE CAI) CENA 4 (FRED E GABRIEL ESTÃO SENTADOS NAS CADEIRAS, PERTO DAS BARRACAS) GABRIEL - Onde será que foram esses dois? FRED - Devem estar em qualquer escurinho, fodendo... GABRIEL - Pô, você só pensa em sexo, Fred! FRED - E tem outra coisa melhor pra se pensar?... No fundo, no fundo, eu tenho um pouquinho de inveja do Alan e da Marília, sabe? É tão legal ver um casal como eles, né?

26 Julio Carrara Conto de Verão Pag.: 25 Apesar de serem bem diferentes um do outro, de brigarem o tempo todo, eles se combinam... GABRIEL - Bem que poderia pintar uma Marília pra gente, não?... Puta que o pariu, vai ser muito azar se a gente não conseguir catar nenhuma mina por aqui. FRED - A única que pintou com certeza nunca mais vamos ver. GABRIEL - (COMEÇA A SONHAR) Liliane... Como eu queria deitar com ela aqui na areia, encher aquela boquinha de beijos. FRED - Vamos parar de ficar sonhando, truta! Não tem mais volta. O único jeito de estar com a Liliane é quando... (GESTO DE MASTURBAÇÃO) estivermos soltando pipa... GABRIEL - Você não vale nada, seu bosta. (LILIANE ENTRA EM CENA COM UMA MOCHILA. SENTA-SE EM UM CANTO E CHORA DESBRAGADAMENTE. FRED E GABRIEL FICAM OLHANDO PARA ELA, SEM RECONHECÊ-LA) GABRIEL - O que será que aconteceu com essa gatinha? FRED - E eu sei lá. GABRIEL - Parece que o caso é sério. Eu vou falar com ela. FRED - Eu vou com você. GABRIEL - De jeito nenhum. O que a gente combinou lá em Sampa? Não vem empatar, não. Eu vi primeiro. FRED - Eu sempre fico na mão...

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