Vamos falar de amor? Amornizando!

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1 Vamos falar de amor? Amornizando! Personagens 1) Neide Tymus (Regente); 2) Sérgio Tymus (Marido Neide); 3) Nelida (Filha da Neide); 4) Primeiro Coralista; 5) Segundo Coralista; 6) Terceiro Coralista; 7) Marricleide; 8) Presidente A sala vazia. Somente uma pequena mesa de madeira com um telefone em cima. Súbito o ar é cortado pelo tocar do telefone. Uma vez, duas vezes, no terceiro toque ela entra correndo pela sala para o retirar do gancho. Neide Alô? Alô? A voz do outro lado fala enquanto ela balança a cabeça em afirmativo. Neide Sim. Claro, sem problemas. Sim. Sim... Não. Isso, não. Aí, sim! Aí, não! Aí, depende né... Entra o marido da Neide e fica olhando ela falando. Neide Hum! Hum? Hummm... É... Sérgio Tá falando com quem? Neide Vamos cantar na inauguração da biblioteca. Ela fala para o marido sem tapar o bucal do telefone, do outro lado da linha o rapaz questiona. Não, eu entendi que é para a semana que vem, eu estava falando com o meu pai. Então, é um convite bem em cima da hora... Mas temos uma vaga na nossa agenda e poderemos estar aí sim. Na sala entra a filha da Neide. Nelida Oi pai, o que a mãe tá falando aí no telefone. Sérgio A gente vai cantar bem no meio de uma livraria, enquanto o pessoal está lendo livros. Sei não se isso vai dar muito certo... Nelida Como é? Ela olha para a mãe que continua no telefone. Sérgio Eu ia ficar muito fulo se estivesse querendo ler um livro e uma rapaziada cantando na minha orelha... Mas sua mãe sabe o que faz, né? A filha olha perplexa para a mãe que continua no telefone. Neide Amor! É amor. Já escreveu amor? Tá bom, agora você escreve nizando... Não, não é separado... É tudo junto. n-i-z-a-n-d-o. Lê prá mim como é que ficou... Não, não é harmozinando... É AMORZINANDO! Olha, tá tudo certo para a apresentação, eu vou passar para minha filha só para corrigir o nome. Ela estica o telefone para a filha fazendo sinal para ela falar. A garota pega o aparelho. 1

2 Nelida Oi, tudo bem? Então... Você sabe amor? Então por favor escreve amor no papel... Enquanto ela fala o marido chega perto da Neide. Sérgio Neide? Posso te perguntar uma coisa? Neide Claro, Sérgio. O que foi? Sérgio Tem certeza que é uma boa ideia cantar em uma livraria? Neide Livraria? Eu falei Livraria, não. É uma biblioteca. Sérgio Vixe que lascou tudo! É pior do que eu pensava! Neide, o pessoal não vai em biblioteca para escutar música, o pessoal vai para ler! Neide Como? Mas Sérgio, é uma inauguração... Nem livro direito tem lá ainda, quanto mais gente lendo! Nelida desliga o fone. Neide Conseguiu acertar o nome? Nelida Sim... Puxa, essa foi difícil. Neide Bom temos que nos preparar! Nelida já vai ligando para o pessoal. Vamos ter que ir em seis carros... Levar equipamento, todo mundo com a roupa separada, vamos levar alguns CDs para vender... Bem, já vai ligando! Vai ligando! Ela sai da sala deixando os dois sozinhos olhando um para o outro. No dia e local da apresentação. Marricleide, a funcionária da prefeitura vai mostrando o local que o coral irá se apresentar. Por sinal muito menor do que ela havia falado por telefone. Marricleide Então é aqui! Tá bom o espaço, não é mesmo? Nelida Mãe, isso aqui tá apertado prá caramba. Nem a gente cabe direito... Imagina quando chegar o público? Neide Marricleide, acho que você errou quando me falou o tamanho do local, né? Marricleide Ah, eu sou um pouco ruim com medidas... As vezes meu marido diz que eu não sei diferenciar o centímetro do metro! Ela rí de sí mesma. Neide Pois é... Só que pelo que me falou aqui tem uns 15 metros a menos de espaço... Marricleide Bem, eu vou deixar vocês aqui sozinhas por que eu sei que tem que fazer o esquenta nas garganta, não é mesmo? Podem ficar aqui bem a vontade prá soltar os cintos, podem pular, se esticar, dar cambalhota, gritar... Neide, Nelida e Sérgio se entreolham. Marricleide As bananas que vocês pediram estão em cima da mesa. Ela sai do recinto deixando-os sozinhos. Neide Banana? Ela tá brincando... Nelida Não tá não! Olha aqui, mãe! A filha pega as bananas nas mãos. 2

3 Neide Puxa vida... Eu falei e repeti que eram maçãs! Sérgio Bem, para quem acha que a gente vai pular e dar cambalhota prá esquentar a voz, banana tem todo o sentido! Ele descasca e começa a comer. Neide Filha, liga para os outros dois carros! Eles ainda não chegaram... estou preocupada. Faltam 2 horas para a apresentação... A filha pega o celular e começa a ligar, Neide vira-se para o marido. Neide Sérgio, você não quer ir ligando o teclado? Já vai esquentando os dedos. Sérgio Nem ia te contar agora... Não queria te deixar brava... Neide O que foi? Sérgio O teclado está no outro carro... No nosso carro veio o violão. Neide Pois então não perca tempo e vai esquentando os dedos com as cordas. O marido pega o violão e começa a esquentar tocando algumas notas. Entram três coralistas. Primeiro Banana? Tão achando que a gente é macaco? Segundo Bem, eu gosto de banana... Essa aqui é nanica, faz tempo que não como! Terceiro Neide, eu estou com a voz um pouco rouca... Mas vou dar o melhor de mim, tá. Neide Vamos lá gente, cada um em suas posições! Primeiro Cadê o resto do pessoal? Segundo Só tem a gente? Neide Os outros carros já devem estar chegando. A Nelida tá ligando para saber onde eles estão. Vamos aquecer a voz! Terceiro Pera ái que eu tô engolindo a banana! Ele fala com a boca cheia. Nelida Mãe, não tenho notícias boas. A filha fala interrompendo-os. Neide Mas o que houve agora? Nelida Um dos carros está em Sorocaba! Neide Sorocaba!!! Mas como? Sérgio Meu teclado?! Nelida Eles se confundiram e estão lá... Estão até dentro da Biblioteca Municipal de Sorocaba. Neide Caramba!! Vamos nos apresentar desfalcados. Nelida Uma notícia boa é que eles acabaram marcando uma apresentação lá para o mês que vem. Neide Uma coisa de cada vez, senão eu tenho um treco! E o outro carro, por que ainda não chegou? Nelida Furou o pneu. 3

4 Neide Ai! Pelo menos eles estão aqui perto? Nelida Furou o pneu em Carapicuiba! Neide Mas o que eles estão fazendo lá? Nelida É que uma das coralistas esqueceu a roupa da apresentação, então tiveram que ir lá buscar. Marricleide entra no local. Marricleide Oi gentem, bem eu vou precisar que vocês saiam um pouco para a gente colocar mais umas cadeiras e pendurar umas serpentinas. Sérgio Mas a gente nem ensaiou! Nelida Mais cadeiras? Mas nem a gente cabe direito aqui! Neide Vamos lá pessoal, a gente ensaia no banheiro ou então na rua! Vambora! Marricleide Dona Neide, daqui a quinze minutos a gente vai abrir as portas. Vocês vão gosta, está lotado lá fora! Sérgio Agora a porca torceu o rabo! Meu teclado em Sorocaba e nem passamos nada! Nelida Mãe, e agora? Neide Filha, já passamos por coisas piores! Sei que está difícil hoje, mas não vamos recuar agora. Já estamos aqui, vamos sem o último ensaio mesmo. Marricleide, pode abrir as portas. Marricleide abre as portas e o pessoal vai entrando. Terceiro Nossa, eu não estou passando muito bem. Primeiro Deve ter sido algo que você comeu. Segundo A banana! Ela comeu a dela e a minha. Primeiro Então é isso! Com a pança cheia de banana! Neide Suas posições! Marricleide Olá gentem, boa tarde! Quero agradecer a presença de todos vocês aqui na inauguração da nossa biblioteca. Temos além do belíssimo coral... Ela procura nos papéis o nome do coral. Marricleide Ah, tá aqui. Eu até anotei no papel para não errar. Temos além do coral Harmozinando, O pai da Neide bate com a mãe na testa Isso mesmo, estão aqui para irem harmozinando o nosso ambiente... Então temos além deles uma presença ilustre. Pode entrar! Sérgio O que pode estar faltando agora? Nelida Pai, nem consigo imaginar. Toca a música do programa Hora do Brasil, entra o Presidente da República. Terceiro Valha me Deus! Ela perde os sentidos desmaiando nos braços do Segundo o segura. Sérgio O Presidente... O Presidente do Brasil! Ninguém avisou a gente! Nelida Toma, pai... Come mais uma banana! 4

5 Ela estica a mão entregando a fruta para o pai. Neide vira-se para o público: Neide Pois é pessoal, tantas colinas subimos. De diversas portas quebramos o ferrolho com as notas musicais, tocando assim nossos irmãos. Por quantas ruas sinuosas nós passamos? Sim, muitos obstáculos... Que se tornam pequenos quando abrimos nossa garganta para a voz que traz o amor. Amornizando! Entra a música do Coral Amornizando no CD. Cai o pano. 5

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