Gestão na rede: o bloqueio do youtube

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1 Gestão na rede: o bloqueio do youtube Débora Corrêa Chama 1 Resumo Através deste texto, os estudiosos da área de comunicação - especialmente aqueles interessados nas questões que emergem com as práticas na rede mundial de computadores - poderão encontrar subsídios para reflexões e debates com respeito à liberdade de ciberexpressão. Até que ponto existe uma ameaça às normas sociais de convivência? Há necessidade de elaboração de novas leis que alcancem a realidade virtual? A Internet deve ser um espaço de total liberdade de manifestação? O que pensam gestores da Internet e formadores de opinião no país e no mundo? Estas questões são pertinentes, uma vez que as ocorrências envolvendo a exposição das pessoas na rede vêm aumentando de forma considerável, como é o caso do bloqueio do site YouTube, após ação judicial movida pela apresentadora e modelo Daniela Cicarelli e por seu namorado, Tato Malzoni, objeto de atenção deste estudo. Palavras-chave: controles. internet. liberdade de expressão 1 Internet e controles Quem acessa a Internet hoje, se depara com os mais diversos temas, informações, imagens e conhecimento. Os grandes sites, dispostos a atrair a atenção de um número cada vez maior de internautas, vêm utilizando recursos como imagens, sons, vídeos, entrevistas em tempo real, entre outros, para divulgações de privacidade de pessoas famosas. Os próprios internautas, por sua iniciativa, divulgam, cada vez mais, imagens pessoais e confissões íntimas no Orkut ou em blogs/fotoblogs. O tema do controle na rede vem ganhando espaço nas discussões acadêmicas e políticas, levantando questões como: Deve haver limites à exposição na rede? Que Internet queremos para nossa sociedade? Este debate parece estar apenas no início. As preocupações com respeito à confidencialidade e integridade das informações veiculadas na rede mundial de computadores têm levado alguns países, incluindo o Brasil, a colocarem em pauta, no âmbito do poder legislativo, a questão da segurança e das práticas abusivas na rede. É de autoria do senador Eduardo Azeredo (PSDB-MG), o projeto sobre crimes cibernéticos que estabelece a obrigatoriedade de identificação dos usuários na rede. No entanto, este projeto, após causar polêmica no Congresso e várias discussões veiculadas nos principais jornais do país, acabou sendo retirado de votação em novembro de 2006 para que se pudesse modificar alguns pontos do projeto que não 1 Mestranda do Programa de Pós-graduação em Comunicação, Faculdade de Arquitetura, Artes e Comunicação da Unesp-Bauru.

2 encontraram respaldo para serem votados, especialmente no que se refere à identificação dos internautas. O matemático e cientista da computação americano Vinton Cerf, idealizador da Internet e criador dos protocolos que deram origem a toda a rede de computadores, expressou suas preocupações com respeito às essas questões envolvendo a segurança da comunicação e outras práticas que podem tornar-se abusivas. De acordo com Vinton 2, a Internet precisa evoluir para desenvolver novas formas de tratar tais questões. O problema é definir uma política que possa gerir todo este conjunto de informações, conhecimento e entretenimento, conciliando o respeito à liberdade de expressão. Em todo o mundo, estudiosos de todos os campos do conhecimento têm sua atenção voltada à expansão da cibercultura e seus efeitos no tecido social. Há os estudiosos otimistas, como Levy (2000) 3, que acreditam nas possibilidades abertas pelo ciberespaço em direção a um futuro promissor, no qual a humanidade terá a sua disposição uma enorme inteligência e um grande cérebro do mundo. Outros, como Kerchove (1995, p.113), são cautelosos e consideram, em seus estudos, a complexidade das relações na era da comunicação eletrônica, em que as fronteiras entre o público e o privado, o local e o global esmaeceram, pois os Estadosnação estão se integrando em outro nível histórico, no qual as formas tradicionais de identidade estão ameaçadas. Este autor também percebe o impacto do avanço das telecomunicações nas diferentes culturas, avaliando a importância da globalização na expansão das fronteiras culturais - criando uma nova cultura mundial - porém, identificando o problema da necessidade de preservar a regionalização, a manutenção das identidades e do sentimento de unidade, essenciais para manter um país ou uma empresa. 2 Era digital A rede mundial de computadores, representada pela Internet, tem possibilitado as mais diversas manifestações individuais e coletivas, desde seu início, na década de 90. Temos, portanto, uma revolução de aproximadamente 15 anos e um impacto transformacional equivalente a um século. 2 Entrevista concedida ao Jornal Folha de S.Paulo, suplemento Mais em 29/02/ Disponível em:

3 Mattelart (2000, p ), buscou em alguns de seus estudos, os antecedentes dos debates que deram sentido ao conceito de sociedade da informação. O sociólogo americano Daniel Bell, em 1979, foi o precursor da terminologia que denomina o novo tipo de sociedade baseada na informação, que para ele significa a estocagem, transmissão e o tratamento dos dados enquanto base de todas as trocas econômicas e sociais. Bell classifica a informação em três categorias: registro, programas e bibliotecas/demografia. Na categoria registro, inclui os seguros sociais, as operações bancárias e os créditos. Programas incluem reserva de passagens aéreas, planos de produção e elaboração de inventários, enquanto a categoria bibliotecas/ demografia abriga recenseamentos, pesquisas de opinião, estudos de mercado, boletins eleitorais, entre outros. A análise de Bell considera o conceito de desmaterialização do trabalho, num tipo de sociedade em que o valor do conhecimento substitui o valor propriamente dito. Tofler, especialista em previsões e cenários, já antecipava em 1980, uma sociedade completa, de cadência muito rápida, que repousaria sobre uma tecnologia extremamente avançada e um sistema de valores pós-materialista. Brzezinski, em fins da década de 60, também previu uma unificação acelerada do mundo, uma expansão das redes de informação e comunicação, tendo como o paísfarol (no sentido de iluminar este novo mundo) os Estados Unidos da América, pelo fato de este país comunicar-se mais do que qualquer outro (65% das comunicações mundiais passam por este país). No âmbito individual, as mudanças culturais também se manifestam velozmente e ultrapassam as fronteiras nacionais, globalizando costumes, experiências e, infortunadamente, violações de privacidade. Para Castells (1999, p.497), vivemos em uma sociedade em rede, que se tornou a atual forma de organização dessa sociedade, tendo como principal ingrediente de sua estrutura social a informação, e cujo encadeamento básico é realizado pelas redes, interconectadas através de um fluxo de imagens e de mensagens. De acordo com sua teoria, redes são sistemas abertos, dinâmicos, incorporam inovações desde que não sejam ameaças a seu equilíbrio e são capazes de suplantar o espaço e invalidar o tempo. A base material dessa nova configuração social está sendo remodelada a partir de uma revolução tecnológica concentrada nas tecnologias da informação, desde o final do século XX. Foram criadas novas relações econômicas, impulsionadas por uma

4 revolução tecnológica que tornaram as economias interdependentes globalmente, por todo o mundo. A economia fundamentada na informação conseguiu instalar-se em países culturalmente muito diferentes, acentuando seu caráter global. Por conseqüência mudaram também, além das relações econômicas entre empresas e países, as relações entre Economia, Estado e Sociedade, ocasionando drásticas mudanças sociais, tais como: sistemas políticos em crise de legitimidade, declínio da influência dos movimentos sociais, fim do emprego estável e aumento do emprego temporário, novo sistema de comunicação com linguagem digital/universal, novos fluxos de riquezas, imagens e de poder, inclusão das mulheres na força de trabalho e diminuição do Estado do Bem Estar Social. A emergência da Internet, a partir da ARPANET em 1960, nos Estados Unidos, impulsionou sobremaneira a microinformática e as engenharias com intenção comunicacional. Um sem número de transformações está a gerar um novo mundo, no qual a identidade pessoal se caracteriza, cada vez mais, pelo isolamento e enfraquecimento do sentido de pertença coletivo. O resultante de todos esses processos é uma sociedade caracterizada por uma estrutura social dominante, que é de rede, de economia globalizada com base informacional e culturalmente marcada pela crescente virtualização das relações sócioeconômicas, na qual as noções de tempo e espaço são redefinidas em função dos fluxos de informação, e não mais com relação ao passado e ao futuro. Castells (1999, p.111) argumenta ainda, que a globalização dos processos econômicos e até mesmo culturais é um grande movimento de conexão de tudo o que vale para a razão instrumental de mercado e ao mesmo tempo, de desconexão com tudo o que não vale para essa razão. O papel da tecnologia é fundamental no tocante à globalização. Segundo Castells, Harvey brooks e Daniel Bell (Castells, 1999, p. 49), a tecnologia deve ser entendida, enquanto uso de conhecimentos científicos para especificar as vias de se fazerem as coisas de uma maneira reproduzível, com potencial de expansão muito grande, pois possui capacidade de criar interface entre campos tecnológicos mediante uma linguagem digital comum, na qual a informação é gerada, armazenada, recuperada, processada e transmitida. O seu uso atual é potencializado, pois se realimenta pelo seu uso adicionado a mais inovação, criando dessa maneira, o chamado círculo virtuoso, no qual a tecnologia ao transformar a informação, age sobre todos os domínios da atividade humana possibilitando conexões infinitas entre diferentes domínios, entre elementos e agentes de tais atividades.

5 Nesse contexto tecnológico, o usuário da tecnologia digital pode se tornar também criador, e assim Castells (1999, p.51) nos diz que (...) pela primeira vez na história a mente humana é uma força direta de produção e não apenas um elemento decisivo no processo produtivo. O avanço dessa tecnologia digital se faz notar em todas as dimensões da vida social: da agricultura aos serviços, dos crimes à religião, da medicina ao curandeirismo, da ciência às loterias: tudo pode se interligar na rede, e, fora dela, milhões de pessoas, a maioria da população mundial, aparentemente não se encontra submetida aos seus ditames, pelo menos não se pensarmos em termos de inclusão digital 4. A questão da aceleração do tempo conjugada à quantidade cada vez maior de informações e à globalização, todavia, inclui a todos os indivíduos à mesma condição de vida planetária: seres viventes na era da comunicação digital. A vida na era da comunicação digital pode ser caracterizada, segundo Cebrian, como sendo um ambiente altamente conectivo: O resultado, em cerca de um par de décadas, será o de que um cidadão ativo de qualquer país desenvolvido encontrar-se-á ligado a esse universo por um cabo ou uma antena parabólica ou por um terminal sem fio junto de um repetidor. Graças a essas ligações poderá sentir-se membro de uma comunidade ampliada e, muitas vezes, virtual, com limites geográficos difusos ou inexistentes, hierarquias sociais a serem estabelecidas e normas a serem regulamentadas. (Cebrian, 1998, p. 47) A era digital encontrou sua perfeita combinação com a pós-modernidade. Com o crescimento populacional e o enfraquecimento das principais categorias definidoras da era moderna, o operariado e os capitalistas, estes últimos acabaram cedendo lugar a sistemas econômicos flexíveis e instáveis, enquanto os primeiros tornam-se sujeitos isolados na pós-modernidade, cada vez mais solitários em sua vida individualizada, de valores fluídos, informações abundantes e tempo veloz. A era pós-moderna, como a apresenta Baudrillard (1993, p.33), dissolve o vínculo social fazendo com que o coletivo se transforme em uma massa composta de átomos individuais, que segundo ele, são capazes de trocar facilmente uma manifestação política importante por um jogo de futebol na televisão. 4 No Brasil, somente 20% da população têm computador em casa e 13% têm acesso à Internet de casa, segundo dados da 2ª Pesquisa sobre uso da Tecnologia da Informação e da Comunicação no Brasil (TIC 2006).

6 3 Uma nova identidade? A globalização, como um todo, entendida em seus aspectos culturais e econômicos, coloca ao indivíduo inúmeras opções de consumo tanto de idéias quanto de produtos. Diante do paradoxo da expansão populacional, por um lado, e da fragmentação das famílias, por outro, o indivíduo percebe-se em um mundo cada vez mais imprevisível, e, portanto, inseguro. De acordo com Castells (2002, p. 25), a construção da identidade pelo sujeito tem sido uma das formas de resistência à fragmentação advinda dos efeitos globais. Essa identidade se define pelo reconhecimento desse sujeito enquanto ser com determinados atributos culturais construídos de modo a significar algo para si e para os outros. Tedesco (2002, p.74) considera a questão da construção da identidade um processo transformado de maneira substancial em nossos dias. Para ele, tradicionalmente a construção da identidade passava inicialmente pela família, na denominada socialização primária para ser complementada em seguida pela escola, a socialização secundária. Hoje a família não é mais capaz de realizar essa socialização primária. Com a entrada da mulher/mãe no mercado de trabalho e a remodelação das famílias, o cumprimento desta tarefa fica a cargo de outras instâncias, como a escola e a mídia.. É claro, que, em decorrência disto, a socialização primária não se cumpre, ao menos não como anteriormente. E o resultado disso, no campo social, são novas visões de mundo, novas relações com as instâncias coletivas e o enfraquecimento do sentido de pertencer a algo, seja à uma religião, à uma cidade ou à uma nação. A solidão do indivíduo incluído digitalmente é, muitas vezes, minimizada por sua relação com a Internet, que pode lhe propiciar uma segunda identidade, por vezes, muito mais interessante que a identidade real da pessoa. E se essa identidade cibernética lhes parece mais divertida, que dirá a imagem das celebridades na rede, ou como definiu Lopes, das personas midiáticas: As personas midiáticas são estes seres que povoam os corações e mentes contemporâneas. Misto de deuses e pessoas reais, elas vestem uma máscara para o consumo público. Os interesses que movem estes seres diáfanos não lhes pertencem. Apesar do dinheiro e da fama que portam, eles não são donos de suas vidas e precisam conviver com a estranheza da duplicidade de seus egos e histórias pessoais. Os investimentos na construção das personas é muito lucrativo, portando a razão instrumental do capital. Entretanto, não se pode construir estes seres impunemente. Eles acabam ganhando uma soturna autonomia relativa aos negócios envolvidos, sendo apropriados pelos

7 consumidores como deuses ou santos que desceram à Terra e que poderão os levar aos céus. (LOPES, 2005, p. 1) É este o caso de Daniela Cicarelli, desde seu casamento com o craque de futebol Ronaldo, como analisa o autor: Cicarelli, mineira de nascimento, antes de virar a madame fenômeno, já era conhecida do grande público como modelo e 'atriz' de várias peças publicitárias de sucesso. Portanto, não é fato que o casamento a tenha transformado em midiática. Certamente, o namoro e o matrimônio potencializaram e abriram ao mundo suas possibilidades de trabalho. Antes, ela já era do panteão das 'famosas', sendo já conhecida como objeto obscuro do desejo de milhões de adolescentes e marmanjos brasileiros. Antes de ser a senhora Ronaldo, a modelo circulava no jet set freqüentado por empresários ricos e modelos famosas. Sua imagem era recorrente nas mídias, pouco se sabendo de sua história pessoal. (LOPES, 2005, p. 1) Da condição de senhora Ronaldo, a modelo Daniela Cicarelli, após um conturbado período conjugal, passou a ser novamente apenas a celebridade Cicarelli, após a comentada separação do casal. O fato mais recente envolvendo a modelo foi a exibição de um vídeo, realizado por um fotógrafo paparazzi, no site do Youtube, em 2006, no qual a modelo e seu namorado, o empresário Tato Malzoni, namoravam, livres de qualquer inibição, em uma praia espanhola. A recente exposição de sua intimidade neste site e o bloqueio do mesmo pelo poder judiciário brasileiro tornaram-se substância combustível para a retomada do debate sobre a legitimidade ou não do estabelecimento de controles na rede. 4 Repercussões: o YouTube e Daniela Cicarelli O bloqueio do site YouTube foi determinado por liminar do Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo, após uma ação movida por Daniela Cicarelli e Tato Malzoni, fato que ocasionou reclamações de um grande número de internautas. As reclamações fizeram com que, em alguns dias, o juiz responsável pela determinação, Ênio Santarelli Zulianio, solicitasse o restabelecimento do acesso ao YouTube, excluindo a exibição do conteúdo que suscitou a demanda judicial. 5 Os argumentos a favor da proibição, que partem na maioria das vezes de juristas, desembargadores e promotores, consideram que a esfera digital não deve estar à parte 5 De acordo com MONACHESI, Juliana, jornal Folha de São Paulo, 14/01/2007.

8 das ocorrências do ambiente físico e temem que a falta de controle na rede leve à impunidade para crimes de todos os gêneros. Alguns gestores da Rede, como é o caso de Susan Crawford 6, defendem que a rede seja um ambiente de livre manifestação, e quaisquer censuras ou bloqueios serão ineficazes, pois os internautas sempre conseguirão encontrar maneiras de contornar tais bloqueios. Além do que, está em discussão a liberdade de expressão, que há nos Estados Unidos, garantia da Primeira Emenda. Os cientistas e filósofos tendem a opinião semelhante à dos gestores da rede, ressalvando, no entanto, que os crimes devam ser punidos, especialmente aqueles relacionados à pornografia infantil. 5 Considerações Finais A questão dos controles irá demandar, nos próximos anos, discussões mais aprofundadas e abrangentes entre os gestores da rede, legisladores, políticos e sociedade civil organizada. O fato é que a sociedade, como um todo, não pode desconhecer estas ocorrências e precisa se debruçar sobre elas, pois a Internet, segundo Zuffo (2007), (...) irá se tornar um bem público como a iluminação, como acontece em cidades como Boston, onde a própria prefeitura provê acesso gratuito à internet. 7 Assim como as informações, os crimes na rede têm aumentado. Nos últimos dez anos, os bandidos virtuais, têm atuado em todo o mundo, e as violações mais importantes registradas pela imprensa, tiveram relação com crimes de assédio sexual, pornografia, pedofilia, torturas, protestos, racismo, ameaças, terrorismo, roubos a contas bancárias e cartões de crédito, venda e apologia de drogas, entre outros. Segundo informações do PROCON 8 (Fundação de Defesa e Proteção do Consumidor), no Brasil o Legislativo começa a traçar rumos para tipificar os crimes cometidos via internet, como a pedofilia, invasão de computadores para roubo de dados confidenciais e outras fraudes do gênero. A posse de conteúdo pornográfico infantil no computador tem sido combatida pela Justiça Federal, que monitora os sites suspeitos na internet. 6 Professora de direito cibernético e direito das comunicações na Cardozo Law School, em Nova York, e diretora da Icann, a entidade internacional que coordena a internet. 7 Entrevista à Folha de São Paulo, 14/01/2007, suplemento Mais. 8 Disponível em: <http://www.procon.sp.gov.br>.

9 Segundo explica Paulo Quintiliano, chefe do serviço de perícia em informática do Instituto Nacional de Criminalística da PF, (...) diferente dos Estados Unidos, no Brasil só é possível efetuar prisão por pedofilia na internet se as imagens forem enviadas por ou se a pessoa for responsável pela publicação de site criminoso. A polícia federal coordenou uma operação em 11 estados do país, para efetuar a prisão de suspeitos com envolvimento em uma rede internacional de pedofilia. As fraudes em contas bancárias ocorrem com freqüência maior do que se veicula na imprensa. A operação Scam prendeu uma quadrilha, em fins de fevereiro deste ano, acusada de aplicar um golpe de mais de R$ 10 milhões em sete estados. As diligências e prisões vêm sendo feitas, mas a Polícia Federal se queixa de que o país não dispõe ainda de legislação especial que ampare de maneira efetiva suas ações no combate aos crimes na internet. A adoção de um sistema de controle mais rigoroso na rede mundial de computadores é tema de mais de 20 projetos de lei que tramitam no Congresso brasileiro. A Espanha comandou a Operação Azahar em mais de 30 países, no primeiro trimestre deste ano, no entanto, não ocorreram prisões significativas. A Convenção Européia, convênio entre países que definem procedimentos contra crimes na internet, tem como países signatários os países europeus, os Estados Unidos e o Canadá, o Japão e a África. No entanto, o Brasil ainda não participa deste acordo internacional, muito embora a Polícia Federal esteja envidando esforços junto aos ministérios da Justiça e das Relações Internacionais para que o país assine a Convenção. O acesso indevido a documentos confidenciais de órgãos públicos via computador é facilmente realizado pelos bandidos virtuais e não é passível de punição, pois a legislação prevê penas para destruição ou furto de documentos. Alguns deputados também têm se mobilizado para definir normas de acesso à internet, com assessoria da Polícia Federal. Propostas em trânsito na Câmara de Deputados em Brasília prevêem a responsabilização dos provedores que hospedam sites contraventores e de conteúdo duvidoso. Os senadores também têm se mobilizado com relação à estas questões, como o senador Eduardo Azeredo (PSDB/MG), já citado neste artigo. Um dos projetos que transita no Senado Federal desde 1990, trata de crimes cometidos na área de informática, com as punições cabíveis. A quebra de senhas confidenciais dá direito à interpelação judicial dos proprietários de provedores e de redes de computadores.

10 Outro projeto trata de ocorrências discriminatórias e de divulgação de preconceitos de qualquer tipo via internet. Quanto maior se torna a inclusão digital, maior se torna a complexidade das relações comerciais e sociais via Internet. Neste sentido, a sociedade precisaria se mobilizar para participar das políticas públicas de comunicação, como deseja Rebouças (2002, p.1-16). Para ele, entre os quatro atores sociais que podem pressionar o setor de comunicações para o estabelecimento de novas políticas, quais sejam: o Estado, a classe econômica, a sociedade civil organizada e os intelectuais, estes dois últimos, têm tido participação mínima na definição das políticas para o setor. Neste sentido, é necessário que estas forças se correlacionem em uma nova dinâmica, para que a sociedade civil organizada e os intelectuais possam manifestar-se e influir de fato nos rumos da política virtual e comunicacional no país. 6 Referências bibliográficas BAUDRILLARD, J. A sombra da maioria silenciosa: S. Paulo, Brasiliense, CASTELLS, M. A sociedade em rede. São Paulo: Paz e Terra, O poder da identidade. A era da informação: economia, sociedade e cultura. 3ª ed., S. Paulo: Paz e Terra, 2002, vol. 2. CEBRIAN, J. L. A rede: como nossas vidas são transformadas pelos novos meios de comunicação. São Paulo: Summus, CHAMA, Débora C. Comunicação e suas relações na Sociedade e Política Contemporâneas. Trabalho apresentado no Intercom Sudeste 2006, Grupo de Trabalho: Políticas e Estratégias de Comunicação, Ribeirão Preto, 22 a 24/05/2006. Internet: compartilhamento de informações e de riscos. Trabalho apresentado no CELACOM 2006, Grupo de Trabalho: Pensamento Cibermidiático São Bernardo do Campo, 09 a 11/10/2006. KERCKHOVE, D. de. A pele da cultura: uma investigação sobre a nova realidade eletrônica. Lisboa: Relógio d Água, LOPES, Luís Carlos. Um casamento fenomenal: personas no mundo globalizado, La insígnia. Revista eletrônica, 28/02/2005. Disponível em: Acesso: dezembro de 2006.

11 LOPES, Roberta. Pesquisa mostra que cerca de 20% da população brasileira tem computador em casa, Observatório de Políticas Públicas de infoinclusão, 14/11/2006. Disponível em: Acesso: janeiro de LYOTARD, J. F. A condição pós-moderna, 6ª ed., Rio de Janeiro: José Olympio, MARTINS, Francisco M. e SILVA, Juremir Machado (Orgs). A genealogia do virtual: comunicação, cultura e tecnologias do imaginário. Porto Alegre, Sulina, REBOUÇAS, Edgard. Lobby nas políticas e estratégias de comunicações: a movimentação dos atores sociais no Brasil e no Canadá, in Congresso Brasileiro de Ciências da Comunicação, 27, Porto Alegre. Anais. São Paulo: Intercom, CD-ROM. TEDESCO, Juan Carlos. O novo pacto educativo: Educação, competitividade e cidadania na sociedade moderna. S. Paulo: editora Ática, 1998.

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