Direito a inclusão digital Nelson Joaquim

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1 1 Direito a inclusão digital Nelson Joaquim Vivemos num mundo globalizado, numa sociedade da informação e do conhecimento. A inclusão digital faz parte do direito à educação, até porque as novas tecnologias educacionais estão mudando a maneira pensar, de ensinar e aprender no processo ensino-aprendizagem. Surgindo, também, nova forma de relações sociais criadas pela sociedade em rede com possibilidade de comunicação e informação imediata via internet. E aqui, como as escolas cada vez mais conectadas à internet, os papeis do educador se multiplicam, diferenciam e complementam, exigindo uma grande capacidade de adaptação, de criatividade diante de novas situações, propostas, atividades (MORAN, 2007, p.35). Não resta dúvida, que a informática e a internet são instrumentos valiosos para educação, permitindo que professores alunos e o cidadão em geral possam ter acesso a informações à distância, a banco de dados, discutirem os mesmos assuntos entre si, participar de grupos de trabalho e de pesquisas conjuntas. Aliás, com o computador nossa sociedade chegou à era digital, sobretudo com a chegada da internet, que constitui a maior biblioteca do mundo. 1 Todavia, a inclusão digital não pode ser feita desvinculada do compromisso de pensar na sociedade, ou seja, na realidade social-política, econômica e cultural da sociedade brasileira. A propósito, o domínio pedagógico das tecnologias na escola é um processo complexo e demorado. Apesar dos avanços recentes no contexto sócio-econômico, vivemos, ainda, num país do ponto de vista regional muito desigual. Da mesma forma as escolas são desiguais em relação aos recursos e políticas públicas na área da educação, em razão disso, a tecnologia como apoio a inclusão digital, para garantir o direito à educação, embora necessária, depende do poder público, principalmente nas redes públicas da educação básica. Segundo o professor José Manuel Moran, educar em ambiente virtual exige mais dedicação do professor, mais apoio de uma equipe técnico-pedagógica, mais tempo de preparação e principalmente de acompanhamento, embora para os alunos 1 Apud. Joaquim, Nelson. Direito educacional brasileiro História, teoria e prática, p. 161.

2 2 haja um ganho grande de personalização da aprendizagem, de adaptação ao seu ritmo de vida, principalmente na fase adulta (MORAN, 2007, p. 118). Prossegue o auto, hoje, há muitas instituições com pouca inserção tecnológica, principalmente na internet. Muitas não têm o fundamental para sobreviver e demorarão em aproximar-se das possibilidades tecnológicas existentes. Grande parte da educação escolar está muito atrasada em relação ao que hoje é possível e tem outras prioridades. Essas instituições demorarão muito para chegar à sociedade da informação e do conhecimento. Sem dúvida, os investimentos governamentais diminuirão progressivamente esse atraso ou essa distância, mas a desigualdade é tão gritante que se passarão décadas até termos a maioria das escolas incorporadas efetivamente a essa nova ordem. Iniciativas como o computador barato para os alunos, sem dúvida, aceleram a inclusão, mas se em quase metade das escolas não há sanitários decentes, o notebook provavelmente enfrentará problemas de manutenção não de implantação. (MORAN, 2007, p. 126) Além da demora na implantação das redes físicas, deve ser levado em consideração o tempo de domínio efetivo de todas as possibilidades tecnológicas. Uma coisa é o uso pessoa da tecnologia, para comunicar-se, e outras é o domínio pedagógico, que vem da familiaridade e da realização de inúmeras experiências e práticas, até os professores se sentirem confortáveis no seu uso. Dominamos as tecnologias quando nem as percebemos, quando as utilizamos de forma quase automática, sem pensar. A etapa entre o acesso e familiarização demora vários anos. (MORAN, 2007, p. 127) Quanto a modalidade de educação à distância, no contexto da inclusão digital, não podemos deixar mencionar o art. 80 e parágrafos do art. 80 da Lei nº , de 20 de dezembro de 1996, que estabelece as diretrizes e bases da educação nacional e o decreto nº 5.622, de 19 de dezembro de 2005, que regulamenta a educação à distância no Brasil. 2 Assim, a legislação educacional vem aos pouco regulamentando a modalidade educação a distância nos cursos de graduação e pósgraduação. Não resta dúvida que o ensino a distância e a educação continuada 2 Art. 80. O Poder Público incentivará o desenvolvimento e a veiculação de programas de ensino a distância, em todos os níveis e modalidades de ensino, e de educação continuada..

3 3 tornam a educação mais democrática, no sentido de possibilitar o acesso de todos ao saber. 3 Vale lembrar, por outro lado, que qualquer reflexão sobre a educação à distância (EAD) deve partir do princípio da igualdade de oportunidade e acesso ao ensino para todos, inscrito no inciso I do art. 206 da Constituição Federal. 4 Nesse sentido, também, na Conferência Mundial de Educação para Todos, que se realizou em Jomtien, na Tailândia, de 5 a 9 de 1990, patrocinada pelo Programa das Nações Unidas para Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco), pelo Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) e pelo Banco Mundial, assinalou a imperiosa necessidade de universalizar de universalizar o acesso à educação e promover a equidade na educação, dar prioridade à aprendizagem, ampliar os meios e alcance da educação básica e fortalecer o ajuste de ações educativas. 5 No caso brasileiro, estamos numa fase de consolidação da educação a distância (EAD), principalmente no ensino superior o nosso sistema educacional vem gradativamente adotando a modalidade de educação a distância nos cursos de graduação e pós-graduação, com crescimento expressivo, principalmente nos curso de pós-graduação. De outro lado, a política de democratização do governo federal e de inclusão de muitos alunos pela educação a distância, principalmente com criação da Universidade aberta do Brasil. (UAB) 6 É oportuno indagar: como podemos avaliar a educação a distância? Nas palavras do professor José Manuel Moran é muito difícil fazer uma avaliação abrangente e objetiva da EAD no Brasil, pela rapidez com que ela tem se expandido [...] porque cada instituição aprende com as outras e passa a imitar as propostas bem-sucedidas. Além disso, pelo fato de não haver um modelo tradicional consolidado de EAD, como em outros países, permitindo as instituições de ensino desenvolver formatos mais flexíveis e adequados para cada situação, com poucos 3 Segundo, José Manuel Moran, Com as tecnologias de comunicação instantâneas é difícil definir o conceito a distância. A educação a distância é um conceito mais amplo que o de educação on-line. Um curso por correspondência é a distância e não é on-line. A educação on-line pode ser definida como o conjunto de ações de ensino-aprendizagem desenvolvido por meios telemáticos, como a internet, a videoconferência e a teleconferência. A educação que desejamos novos desafios e como chegar lá, p Educação a distância analise dos parâmetros legais e normativos, p.31 5 Joaquim, Nelson. Direito educacional brasileiro: história, teoria e prática, p Moran, José Manuel. A educação que desejamos novos desafios e como chegar lá, p. 132.

4 4 ou muitos alunos, recursos e mídias. 7 Ademais, segundo o autor, há escolas que incorporam as tecnologias para baixar custos, encontrar modelos competitivos economicamente, enfrentar a concorrência cada vez mais acirrada no mercado. As que levam vantagem no Brasil são as universidades e os centros universitários particulares. Com maior autonomia, podem criar cursos rapidamente, diminuir sua duração, flexibilizá-los no presencial e oferecer alternativas a distância a preços acessíveis. 8 Apesar de que, já temos no sistema educacional brasileiro cursos de graduação na modalidade de educação a distância (Decreto nº 5.622, de 19 de dezembro de 2005), além disso, muitas instituições de ensino, no âmbito da graduação, estão colocando algumas disciplinas à distância em cursos presenciais como parte dos 20% possíveis. Inclusive oferece a distância disciplinas comuns a vários cursos, como metodologia de pesquisa, sociologia e outras. Da mesma forma temos os cursos de pós-graduação lato sensu e stricto sensu na modalidade de educação a distância (Decreto nº 5622, de 19 de dezembro de 2005). Os cursos de pós-graduação lato sensu oferecidos por instituições de ensino superior ou por instituições especialmente credenciadas para atuarem nesse nível educacional independam de autorização, o reconhecimento e renovação de reconhecimento, quando realizados a distância, eles só podem ser oferecidos por instituições credenciadas pela União e devem incluir provas presenciais e defesa presencial de monografia ou trabalho de conclusão de curso, com seus diplomas devendo indicar, entre outras coisas, o ato legal de credenciamento da instituição. 9 Os cursos de pós-graduação stricto sensu a distância, por sua vez, serão oferecidos exclusivamente por instituições credenciadas para tal fim pela União, obedecendo às mesmas exigências de autorização, reconhecimento e renovação de reconhecimento estabelecidas pela legislação educacional. Eles devem incluir provas e atividades presenciais, observando-se que os exames de qualificação e as defesas de dissertação ou tese também devem ser presenciais, diante de banca examinadora que inclua pelo menos um professor não pertencente ao quadro 7 Idem, p Moran, José Manuel. A educação que desejamos novos desafios e como chegar lá;, p Educação a distância análise dos parâmetros legais e normativos, p, 21,

5 5 docente da instituição responsável pelo programa. A avaliação efetuada pela Coordenação de aperfeiçoamento de Pessoa de Nível Superior (Capes) utilizará critérios que garantam o cumprimento do preceito de equivalência entre a qualidade da formação assegurada por esses curso e a dos cursos presenciais. 10 A nosso ver, em relação a modalidade de educação a distância nos cursos superiores estamos avançando, inclusive com uma boa aceitação por parte dos alunos, percebe-se um crescente envolvimento de Instituições de ensino superior com cursos de educação à distância, como evidência o aumento dos pedido de credenciamento e autorização de cursos superiores nesta modalidade de educação. Contudo, para entendermos as dificuldades da implantação e do domínio pedagógico das tecnologias principalmente nas escolas da rede pública, apesar do esforço do governo, é importante fazer uma leitura da história da educação brasileira, do direito à educação e uma reflexão sobre a realidade atual da educação no país, comparado com outros países emergentes. De outra parte, a nosso ver a educação mediada pela tecnologia e o ensino a distância em todos os níveis escolares não é algo que acontecerá da noite para o dia, e sim vinculada ao compromisso dos governantes e da sociedade de pensar a nossa realidade socialpolítica e cultural, bem como acompanhada de políticas públicas na educação, saúde, segurança e diminuição as diferenças regionais. Por fim, justifica-se inclusão digital na educação, principalmente em relação as novas tecnologias no ensino, até porque é necessária numa sociedade da informação e do conhecimento, onde a criança e o jovem já têm uma relação com a internet, redes sociais, celular, tablets e multimídia. Além disso, o ensino semipresencial é viável e bem vindo a partir do ensino médio ou em algumas disciplinas deste ensino. Para tanto, a nosso ver, a inclusão digital como direito à educação, deve atender o projeto político pedagógico, capacitação dos professores, melhores condições de trabalho e salário para o professor e o governo tem a obrigação de monitorar e fiscalizar como estão sendo aplicados estes recursos de tecnologia no ensino nas redes públicas de ensino Idem, p Consulte a respeito o excelente trabalho do prof. José Manuel Moran A educação que desejamos novos desafios e como chegar lá; Editora Papirus. Sugiro principalmente a leitura do quinto capítulo: Mudanças na educação com as tecnologias. (pp. 125 a 143). Pesquisa feita em 2005 e publicada em 2007.

6 6 BIBLIOGRAFIA Educação a distância: análise dos parâmetros legais e normativos. Roberto Fragale Filho (Org) Rio de Janeiro: DP&A, 2003 JOAQUIM, Nelson. Direito educacional brasileiro. História, teoria e prática [prefácio Agostinho Reis Monteiro]. Rio de Janeiro: Livre Expressão, MORAN, José Manuel. A educação que desejamos: Novos desafios e como chegar lá. Campinas, SP: Papirus, 2007 Como citar este texto: JOAQUIM, Nelson. Direito à inclusão digital. 10 de março Disponível em:

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