Narcisismo e cultura contemporânea

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1 Narcisismo e cultura contemporânea Flávia Ferro Costa Veppo José Juliano Cedaro A cultura hedonista, marcada pela ilusão na satisfação rápida e sempre possível, evidencia a ausência do elemento de barramento psíquico do desejo, que é outra marca da atualidade: o declínio da função paterna (Birman, 2000). O século XX, marcado pela destituição do lugar do Pai como detentor da verdade e do poder, corroborou em rupturas no pacto edípico, com comportamentos que sugerem falta de internalização de alguns princípios de convívio social, em que é valorizado ao extremo o prazer imediato e desmedido. A figura de Narciso pode ser representada no sujeito contemporâneo cobrando tamanha repercussão do seu individualismo, sendo a moral filosófica contemporânea pautada na busca de satisfação independente de um outro. Seria esta uma economia psíquica atual repleta por novos sintomas articulados pelo social e o individual? Para Lasch (1983) novas formas sociais requerem novas formas de personalidade, novos modos de socialização, novos modos de se organizar a experiência (LASCH, 1983, p. 76). Os novos valores chamados de hedonista-consumista tornam a capacidade criativa e simbólica do sujeito cada vez mais atrofiada e mais perto do vazio, pela não representação de elementos subjetivos substituídos por subsídios concretos e constituem esse novo sujeito. Outro resultante decorrente desta cultura é o empobrecimento da capacidade reflexiva, visto que o pensamento se reestrutura a partir da renúncia estabelecida por influência da Lei. O narcisismo e o consumismo atual interferem de modo significativo na estruturação subjetiva do sujeito contemporâneo. Pais e mães tomados na condição narcísica de eu-ideal evitam a todo custo à condição de castração, de falta, não deixando faltar nada a seus filhos. Verifica-se o pleno gozo perante tudo, sem um ideal de eu atrelado a valores e a modelos a serem seguidos, mas a objetos que se tornam responsáveis pela felicidade. E o outro se torna também objeto de consumo, um outro que alimenta o seu narcisismo e não há dessa forma relação de alteridade, tendo em vista a evitação a todo custo perante a dor.

2 O que se percebe é que o espaço para reflexão em relação ao universo simbólico deste sujeito contemporâneo apresenta-se limitado, pois este já não acredita em nada que não seja si mesmo e na praticidade de resolver seus conflitos de maneira instantânea. A crença de Freud (1914) em que o sujeito atingiria sua evolução a partir da razão e da ciência tem mostrado sua faceta mais cruel frente à subjetivação deslocada das fontes fantasmáticas e simbólicas à objetivação racional, afastando-o de seu repertório o simbólico e de sua condição humana. Não existe mais tempo para se postergar um desejo e se foge das frustrações. Frustração esta necessária e essencial para a constituição do sujeito, pois exige trabalho de elaboração do aparelho psíquico, que pela obliteração da frustração de ter que estar satisfeito o tempo todo, faltam-se as possibilidades introjetivas. O sujeito encontra-se então em estado alienado pelo desejo do gozo pleno, sem espaço para o desamparo. Busca-se um eu ideal e não mais ideais do eu, pela falta de componentes simbólicos e o imperativo da não ausência. O mal-estar que Freud se referia, hoje pode ser nomeado como o mal-estar da irrepresentabilidade do vazio (Magdaleno Junior, 2008), em que a cultura hedonista imbricada pela crença do tudo pode e a representação manifestadamente diluída da Lei do Pai pela lei do mercado e do consumo. Com a ilusão de uma satisfação imediata e sempre possível, torna a triangulação edípica faltosa. A substituição da busca subjetiva por algo concreto instaura o desequilíbrio nessa dinâmica, tornando-a sem limite, sem leis, e que sem a sustentação do simbólico instituído pela Lei do Pai prejudicam-se as vivências da castração e do Édipo. A Lei do Pai é o agente que rompe com a ilusão da onipotência infantil, portanto, a destituição deste limitador acarretará sem dúvidas em um caos para o ser humano. O que se perde é o que Lacan (1978) denomina de objeto a, ponto de partida para a busca do desejo, a causa deste, sendo a relação com o mundo norteada por esta falta, deste objeto sempre buscado, mas nunca encontrado. O declínio da posição paterna acarreta na crise de sua função e provoca alterações significativas na estrutura familiar que ao invés de se apresentar como anteriormente sendo hierarquizada e vertical, torna-se mais flexível. O que se experiencia é a crise das referências simbólicas diante do contexto em que as funções parentais se mostram destituídas do seu exercício mais rígido.

3 Para Calligaris (1996) a subjetividade atual encontra afirmação nas imagens que os meios de comunicação propõem como aceitáveis e delegam o trabalho de refleti-las. Kehl (2002) designa o Outro sendo representado pela mídia, por esclarecer e fornecer o que deve ser desejado, provocando a alienação de si e do seu desejo, tornando-o diretamente dependente de seu consumo. Jurandir Freire Costa (1995) ao discorrer sobre esses novos valores frisará a importância do consumo narcísico, em que o sujeito passa a ser o objeto, e a felicidade o consumo. Como a fantasia narcísica está fundamentada na realização imediata do desejo, o mercado será a sua solução, pois se pode ter o que se quiser a qualquer hora. Dessa forma, o sujeito se encontra condenado à crença de que ser é ter e a angústia se instaura quando este mesmo tendo, não consegue ser o que quer e o que é. Condição esta miserável por estar inserido em uma cultura que aprisiona e não visa à reflexão, mas o imediato. O ter ao assumir o lugar do ser e o consumir preferível à reflexão, torna o sujeito um objeto preocupado mera e simplesmente com seu exterior, deixando sua organização interna a mercê do mercado, contrário a ótica psicanalítica que prima por seu mundo interno devido ao contexto de sua origem, era de revoluções artísticas, literárias, filosóficas, dentre outras. Como se pensar a psicanálise frente a esse novo sujeito da aparência, do que se pode comprar, do que a mídia outorga? O consumismo atrelado ao condicionante publicitário, feito para que as ofertas gerem demandas, como havia dito Lacan, cria as necessidades ilusórias gerando maior vazio a serem preenchidos por meio de produtos mercadológicos. Bane-se o tempo histórico, o passado, sendo que o que importa é o gozar aqui e agora por meio do consumo, forjado pela crença de que nada é impossível, sendo as perdas e os fracassos propagados como não existentes, tornando-se assim, insuportáveis quando não alcançadas às satisfações. Há paralelamente maior desinvestimento do outro e maior investimento ao Eu, cujas conseqüências é o empobrecimento nas relações, fazendo com que elas sejam mais efêmeras e inconstantes, que na definição de Bauman (2005): para a grande maioria dos habitantes do líquido mundo moderno, atitudes como cuidar da coesão, apegar-se às regras, agir de acordo com precedentes e manter-se fiel à lógica da continuidade, em vez de flutuar na onda das oportunidades mutáveis e de curta duração, não constituem opções promissoras (BAUMAN, 2005, p. 60).

4 E o sujeito mesmo mais liberto dos laços, faz-se ainda mais inseguro, devido à instabilidade e fluidez nas relações (Lasch, 1983). A ordem capitalista que demanda do sujeito flexibilidade, eficácia e rapidez, obriga-o a de certa forma corresponder a economia vigente que acaba por acarretar em um afrouxamento nos laços sociais, devido à inconstância do mercado que tem se refletido nos vínculos pessoais. Sendo as verdades transitórias, a insegurança e o desamparado serão os sentimentos mais acentuados diante da efemeridade instaurada, e o desprendimento emocional talvez seja uma tentativa em não precisar lidar com a instabilidade das relações. A liberdade impera e a busca está em se afastar de qualquer interferência coletiva que impeça o alcance do bem-estar individual, pela dificuldade em se vincular de forma duradoura ou profunda ao outro, que desemboca na fragilidade das relações e em um crescente individualismo. A identidade do sujeito então se torna dependente do consumismo performático, acarretando em um conseqüente empobrecimento da vida psíquica, sendo o corpo negligenciado em sua totalidade e tomado como matéria/objeto do culto narcísico, abarcado e impresso por um processo dialético que compõe a subjetividade historicamente. RESUMO Cada geração interfere na constituição do sujeito e influenciará seu sistema de referências, sua forma de pensar e agir, pois não há como pensar cada pessoa fora de um contexto sócio-econômico, político e cultural. A cultura contemporânea nomeada como "era do vazio" por Gilles Lipovetsky (1983) aparece na clínica psicanalítica por meio do discurso de pacientes que relatam ou se queixam da dificuldade em lidar com a alteridade e compreender fenômenos para além da sua experiência pessoal. Observamse a exacerbação do individualismo, do hedonismo e do imediatismo, expressões da subjetividade contemporânea norteadas pela ordem mercadológica, que se ratificam na sobreposição dos objetos de desejo aos objetos de consumo. O consumismo e o imediatismo são tão presentes e acentuados nessa era que poderiam ser denominados como representantes do contexto atual. Tornaram-se referência ao balizar a subjetividade contemporânea, ao mesmo tempo em que se apresentam como limitantes do universo simbólico e representacional do sujeito. Trata-se, portanto, de uma cultura

5 narcísica, que enfatiza a personalidade centrada no Eu e que muitas vezes ignora o outro, suas necessidades e demandas. Palavras-chave: Era do vazio, Cultura contemporânea, Narcisismo. REFERÊNCIAS BAUMAN, Zygmunt. (2005). Identidade: entrevista à Benedetto Vecchi. 1ª ed. Rio de Janeiro: Zahar Editor. BIRMAN, J. (2000). A modernidade e a função paterna. In: A psicanálise, a educação e os impasses da subjetivação no mundo moderno. São Paulo: Lugar de Vida. CALLIGARIS, C. (1996). Crônicas do Individualismo Cotidiano. São Paulo: Ática. COSTA, Jurandir F. (1995). A ética e o espelho da cultura. Rio de Janeiro: Rocco. FREUD, S. (1914). Sobre o narcisismo: uma introdução. Obras completas, vol. XIV. Rio de Janeiro: Imago. KEHL, M. R. (2002). Sobre Ética e Psicanálise. São Paulo: Companhia das Letras. LACAN, J. (1978). O Seminário - Livro II: O eu na teoria de Freud e na técnica da psicanálise. Rio de Janeiro: Zahar. LASCH, C. A. (1983). Cultura do narcisismo: a vida americana numa era de esperanças em declínio. Rio de Janeiro: Imago. LIPOVETSKY, G. (1983). A Era do Vazio: ensaio sobre o individualismo contemporâneo. Barcelona: Editora Gallimard. MAGDALENO JUNIOR, Ronis. (2008). A dialética de Eros e o mal-estar na cultura hoje. Ide, São Paulo, v. 31, n. 46.

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