Posicionamento Anpei: vetos presidenciais ao Marco Legal de C,T&I

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1 Posicionamento Anpei: vetos presidenciais ao Marco Legal de C,T&I A presidente Dilma Rousseff aprovou na última segunda-feira (11/01/2016), com vetos parciais, o Projeto de Lei da Câmara (PLC) 77/2015, que aperfeiçoa leis ligadas às atividades de ciência, tecnologia e inovação (C,T&I), como a Lei de Inovação. Conhecido como Marco Legal de C,T&I, o projeto foi aprovado pelo Senado Federal em 9 de dezembro de 2015 e seguiu para sanção presidencial no Palácio do Planalto, em Brasília. A íntegra da nova Lei (nº , de 11 de janeiro de 2016) com a descrição dos vetos foi publicada ontem (12/01/2016) no Diário Oficial da União. A Associação Nacional de Pesquisa e Desenvolvimento das Empresas Inovadoras (Anpei) reconhece os avanços que serão gerados pela aprovação do Marco Legal, como a desburocratização de diversos pontos que alavancarão a pesquisa e o desenvolvimento (P&D) do Brasil e a aproximação das empresas e universidades, que garantirão maior segurança jurídica para os atores do Sistema Nacional de Inovação (SNI). A Associação também destaca a importância dos Núcleos de Inovação Tecnológica (NITs), que são as pontes entre as universidades e as empresas e, com o novo Marco Legal de C,T&I, serão mais estruturados, autônomos e menos burocráticos. Positivamente, o texto do PLC 77/2015 foi construído de maneira participativa, ou seja, em conjunto com empresas, institutos, associações, universidades e o governo. No entanto, os vetos presidenciais apontados impedem que a Lei opere na plenitude de sua concepção, desconsiderando propostas de atuação que estruturam o Sistema de Inovação Brasileiro (SNI) para operar de acordo com o potencial do país. A Anpei acredita que o desenvolvimento de uma nação se dê a partir da parceria entre público e privado. Nos países desenvolvidos isso já é realidade. Mas, lamentavelmente, o Brasil ainda caminha devagar nesse sentido. Confira os oito pontos vetados na sanção presidencial e o posicionamento da Anpei sobre eles. 1º VETO: ALTERAÇÃO DO 5º PARÁGRAFO DO ARTIGO 9 DA LEI Nº , DE 2 DE DEZEMBRO DE Art. 9. É facultado à ICT celebrar acordos de parceria com instituições públicas e privadas para realização de atividades conjuntas de pesquisa científica e tecnológica e de desenvolvimento de tecnologia, produto, serviço ou processo. 5º Aplica-se ao aluno de ICT privada o disposto nos 1º e 4º. VETADO. 1º O servidor, o militar, o empregado da ICT pública e o aluno de curso técnico, de graduação ou de pósgraduação envolvidos na execução das atividades previstas no caput poderão receber bolsa de estímulo à inovação diretamente da ICT a que estejam vinculados, de fundação de apoio ou de agência de fomento.

2 4º A bolsa concedida nos termos deste artigo caracteriza-se como doação, não configura vínculo empregatício, não caracteriza contraprestação de serviços nem vantagem para o doador, para efeitos do disposto no art. 26 da Lei nº 9.250, de 26 de dezembro de 1995, e não integra a base de cálculo da contribuição previdenciária, aplicando-se o disposto neste parágrafo a fato pretérito, como previsto no inciso I do art. 106 da Lei nº 5.172, de 25 de outubro de Posicionamento Anpei: A isenção dos valores transferidos pelas bolsas de pesquisa aos alunos de graduação, pós-graduação, docentes e pesquisadores de universidades e instituições científicas e tecnológicas (ICTs) públicas, para fins de cálculo da contribuição previdenciária, foi mantida. Porém, o veto não permite esse benefício para os alunos e demais atores de C,T&I bolsistas de ICTs e universidades privadas. As atividades de pesquisa e formação de recursos humanos não são realizadas apenas em ICTs e universidades públicas. Pelo contrário, o governo tem conduzido programas de incentivo à formação de recursos humanos e educação, contando com financiamento próprio, como o Fundo de Financiamento Estudantil (FIES). Ou seja, ao mesmo tempo em que o governo apoia o acesso ao ensino universitário por meio de instituições privadas, desestimula os que optam por este caminho a seguir uma formação científica. Os estudantes e pesquisadores de instituições privadas não contarão com a isenção da contribuição previdenciária e do afastamento do risco trabalhista de suas bolsas, o que é um grande contrassenso. As bolsas de pesquisa destinadas à interação universidade-empresa não terão os benefícios do afastamento da caracterização do vínculo trabalhista e da incorporação de seus saldos para fins de recálculo previdenciário. Somente entes ou órgãos da administração pública poderão usufruir do benefício. Isso é um grande desestímulo aos centros de pesquisa privados e às empresas que investem em seus próprios centros de P,D&I, podendo ampliar o risco das empresas no uso de bolsas de estimulo à inovação no ambiente produtivo, em especial para a formação e a capacitação de recursos humanos e à agregação de especialistas. Ademais, cria-se um descompasso entre o público e o privado em matéria de bolsas de pesquisa, cujo mérito e a operação não o exigem. 2º VETO: ALTERAÇÃO DO ARTIGO 10 DA LEI Nº , DE 2 DE DEZEMBRO DE Art. 10. Os instrumentos firmados com ICTs, empresas, fundações de apoio, agências de fomento e pesquisadores cujo objeto seja compatível com a finalidade desta Lei poderão prever, para sua execução, recursos para cobertura de despesas operacionais e administrativas, podendo ser aplicada taxa de administração, nos termos de regulamento. VETADO. Posicionamento Anpei: Este veto impacta diretamente as fundações das universidades, responsáveis, em sua maioria, pelo trâmite financeiro e burocrático da execução dos projetos de parceria. A alteração da Lei propunha sanar riscos jurídicos na cobrança de taxas de administração por parte das fundações. O efeito esperado desta proposição era a simplificação da administração dos contratos assinados e a desburocratização e simplificação dos projetos de P,D&I, que acabam embutindo os custos desta transação em seu bojo. A gestão financeira da pesquisa, viabilizando compras e pagamentos realizados pelas fundações, exige recursos humanos e estrutura que as universidades não dispõem. A colaboração ICT-empresa não deve ser penalizada com falta de suporte, concorrendo a um menor investimento em P&D no país e a permanente subutilização do estoque de conhecimento gerado na academia. 3º VETO: ALTERAÇÃO DO ENUNCIADO DO ARTIGO 20-A DA LEI Nº , DE 2 DE DEZEMBRO DE 2004, SUAS DUAS CONDIÇÕES E SEU 1º PARÁGRAFO. Art. 20-A. É dispensável a realização de licitação pela administração pública nas contratações de microempresas e de empresas de pequeno e médio porte, para prestação de serviços ou fornecimento de

3 bens elaborados com aplicação sistemática de conhecimentos científicos e tecnológicos, que tenham auferido, no último ano-calendário, receita operacional bruta inferior a R$ ,00 (noventa milhões de reais), oriunda de: VETADO. I cooperação celebrada com a contratante para a realização de atividades conjuntas de pesquisa científica e desenvolvimento tecnológico para a melhoria de produto e processo ou para o desenvolvimento de fonte alternativa nacional de fornecimento; VETADO. II atividades de pesquisa fomentadas pela contratante nas ICTs. VETADO. 1º As atividades de que trata o inciso I poderão ser desenvolvidas pela contratada em parceria com outras ICTs ou empresas. VETADO. Posicionamento Anpei: Esse artigo tratava da dinâmica do poder de compra das estatais, em uma lógica de encadeamento produtivo. Porém, o texto remanescente preserva somente a dinâmica de grandes encomendas vinculadas às matérias de interesse público, como temas sobre saúde a vacina para dengue, por exemplo. O desenvolvimento de um contratipo nacional específico para uma cadeia produtiva, como um termostato utilizado em uma sonda para perfuração de poços de petróleo, obviamente, não é de interesse público. Mas é essencial para a formação de uma cadeia produtiva nacional de petróleo. Quando esse artigo foi criado, a proposta era permitir que as estatais pudessem fomentar desenvolvimento tecnológico, dando efetividade ao mercado e ao desenvolvimento econômico para os compulsórios de P,D&I - como o da Agência Nacional de Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP), por exemplo - para aqueles produtos e processos desenvolvidos que não se qualificassem como de amplo interesse público. O objetivo deste artigo era criar um espaço para o desenvolvimento de empresas nacionais com capacidade tecnológica que operem em cadeias produtivas estratégicas, na qual uma estatal exerce liderança (elétricas, petroleiras, etc.). Ao deixar o texto como está, todas as ações de encadeamento produtivo e formação de fornecedores nacionais, com capacidade de operar globalmente, com competências em P,D&I em áreas estratégicas, não serão alçadas. Pois, teremos o mesmo gargalo de sempre, em que componentes desenvolvidos e produzidos com tecnologias brasileiras são obrigados a participar de licitações internacionais. É uma concorrência injusta dado o poder econômico gerado pela escala das empresas com operações globais. Este era o instrumento inicial para a formação da camada de micro, pequenas e médias empresas (MPMEs) brasileiras com alta capacidade de P,D&I e densidade tecnológica. Essa camada é essencial para qualquer país que almeja ser desenvolvido, como acontece na Alemanha, na França, na Coréia e em todos os principais players globais. A Associação acredita que esta é uma enorme perda para as MPMEs do Brasil. Os elementos para caracterizar a excepcionalidade ficaram excessivamente amplos, permitindo a utilização da dispensa em hipóteses que justificariam o procedimento licitatório. A Anpei propõe que a regulamentação da Lei seja o mecanismo adequado para esclarecer o caráter de excepcionalidade da dispensa de licitação, visando garantir a harmonia entre políticas de desenvolvimento nacional e os princípios da administração pública. 4º VETO: ALTERAÇÃO DO PARÁGRAFO ÚNICO DO ARTIGO 21-A DA LEI Nº , DE 2 DE DEZEMBRO DE Art. 21-A. A União, os Estados, o Distrito Federal, os Municípios, os órgãos e as agências de fomento, as ICTs públicas e as fundações de apoio concederão bolsas de estímulo à inovação no ambiente produtivo, destinadas à formação e à capacitação de recursos humanos e à agregação de especialistas, em ICTs e em empresas, que contribuam para a execução de projetos de pesquisa, desenvolvimento tecnológico e

4 inovação e para as atividades de extensão tecnológica, de proteção da propriedade intelectual e de transferência de tecnologia. Parágrafo único. A concessão de bolsas no âmbito de projetos específicos deverá observar o disposto nos 4º e 5º do art. 9º. VETADO Art.9: 4º A bolsa concedida nos termos deste artigo caracteriza-se como doação, não configura vínculo empregatício, não caracteriza contraprestação de serviços nem vantagem para o doador, para efeitos do disposto no art. 26 da Lei nº 9.250, de 26 de dezembro de 1995, e não integra a base de cálculo da contribuição previdenciária, aplicando-se o disposto neste parágrafo a fato pretérito, como previsto no inciso I do art. 106 da Lei nº 5.172, de 25 de outubro de º Aplica-se ao aluno de ICT privada o disposto nos 1º e 4º. Posicionamento Anpei: Teoricamente poderia ampliar os custos de programas clássicos de apoio à P,D&I no país, como as bolsas do Programa de Formação de Recursos Humanos em Áreas Estratégicas (RHAE) e os Agentes Locais de Inovação (ALI). A Anpei questiona se a sua exclusão significará um aumento dos riscos trabalhistas e previdenciários para o uso de bolsas de estímulo à inovação no ambiente produtivo, em especial para a formação e a capacitação de recursos humanos e à agregação de especialistas. A adoção de diretrizes para o veto do 4º parágrafo, do artigo 9, tendo como base o destinatário da bolsa de P,D&I, abre um precedente perigoso na interpretação do atual sistema de aplicação das bolsas de C,T&I. 5º VETO: ALTERAÇÃO DO ARTIGO 26-B DA LEI Nº , DE 2 DE DEZEMBRO DE Art. 26-B. A ICT pública que exerça atividades de produção e oferta de bens e serviços poderá ter sua autonomia gerencial, orçamentária e financeira ampliada mediante a celebração de contrato nos termos do 8º do art. 37 da Constituição Federal, com vistas à promoção da melhoria do desempenho e ao incremento dos resultados decorrentes de suas atividades de pesquisa, desenvolvimento, inovação e produção. VETADO. Posicionamento Anpei: Essa foi uma solicitação direta de importantes institutos públicos de pesquisa e produção de fármacos e vacinas do nosso sistema público de saúde. A Lei passaria a dar maior autonomia financeira e de gestão para ICTs públicas com estrutura de produção. Este elemento poderia ampliar a agilidade e os negócios destas entidades e garantir uma maior estabilidade na gestão de seus recebíveis e maior autonomia na aplicação de suas receitas no desenvolvimento dos investimentos de P,D&I. Estas instituições, algumas honrosamente associadas, lutaram muito por essa autonomia e a Anpei as apoia. 6º VETO: ALTERAÇÃO DO 8º PARÁGRAFO DO ARTIGO 4 DA LEI Nº 8.958, DE 20 DE DEZEMBRO DE Art. 4º... 8º Aplica-se o disposto no 4º do art. 9º da Lei nº , de 2 de dezembro de 2004, às bolsas concedidas nos termos do 1º deste artigo, aos preceptores de residências médica e multiprofissional e aos 18 bolsistas de projetos de ensino, pesquisa e extensão, inclusive os realizados no âmbito dos hospitais universitários. VETADO. 4º do art. 9º da Lei nº , de 2 de dezembro de 2004: A bolsa concedida nos termos deste artigo caracteriza-se como doação, não configura vínculo empregatício, não caracteriza contraprestação de serviços nem vantagem para o doador, para efeitos do disposto no art. 26 da Lei nº 9.250, de 26 de dezembro de 1995, e não integra a base de cálculo da contribuição previdenciária, aplicando-se o disposto

5 neste parágrafo a fato pretérito, como previsto no inciso I do art. 106 da Lei nº 5.172, de 25 de outubro de º VETO: ALTERAÇÃO DO 2º PARÁGRAFO DO ITEM G DO ARTIGO 2 DA LEI Nº 8.032, DE 12 DE ABRIL DE Art. 2º.. g) por empresas, na execução de projetos de pesquisa, desenvolvimento e inovação, cujos critérios e habilitação serão estabelecidos pelo poder público, na forma de regulamento; 2º: Às importações das empresas em projetos de pesquisa, desenvolvimento e inovação aplicam-se as seguintes condições: VETADO. I isenção do Imposto de Importação (II), do Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI) e do Adicional ao Frete para a Renovação da Marinha Mercante (AFRMM) para as importações de máquinas, equipamentos, aparelhos e instrumentos, bem como de suas partes e peças de reposição, acessórios, matérias-primas e produtos intermediários, destinados à pesquisa científica, tecnológica e de inovação; VETADO. II dispensa de exame de similaridade e de controle prévio ao despacho aduaneiro. VETADO. Posicionamento Anpei: A isenção de imposto de importação de insumos e equipamentos por empresas que realizam projetos de P,D&I foi vetada. Ou seja, ao invés de equalizar os direitos dos centros de pesquisa privados aos das ICTs públicas, fomentando o investimento privado em P,D&I, o veto manteve estas diferenças. O Brasil possui enorme gargalo em seu funil de inovação, principalmente na transferência de conhecimentos e tecnologias para o mercado. Uma das razões para este fato é a ausência de uma ampla rede de empresas (de todos os portes) com unidades de P,D&I aptas à execução da ciência aplicada e da finalização de produtos. Ao equalizar a isenção de Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI) e de outros tributos para a importação de insumos e equipamentos de P,D&I, o artigo equalizava a condição de operação tanto dos centros de P,D&I públicos quanto privados, ampliando a transferência de tecnologias das ICTs e facilitando a atração de centros globais de P,D&I para o país (redução de custo Brasil). Esse artigo tinha um impacto enorme junto às MPMEs. Bani-lo significa manter a barreira intransponível e o discurso (desgastado) do predominante investimento público em P,D&I em detrimento da ausência do capital privado. 8º VETO: ARTIGO16 DA LEI Nº , DE 11 DE JANEIRO DE Art. 16. Na concessão de bolsa destinada às atividades de ensino, pesquisa e extensão em educação e formação de recursos humanos, nas diversas áreas do conhecimento, por parte de ICT, agência de fomento ou fundação de apoio, inclusive em situações de residências médica e multiprofissional e no âmbito de hospitais universitários, aplica-se o disposto no 4º do art. 9º da Lei nº , de 2 de dezembro de VETADO. 4º do art. 9º da Lei nº , de 2 de dezembro de 2004: A bolsa concedida nos termos deste artigo caracteriza-se como doação, não configura vínculo empregatício, não caracteriza contraprestação de serviços nem vantagem para o doador, para efeitos do disposto no art. 26 da Lei nº 9.250, de 26 de dezembro de 1995, e não integra a base de cálculo da contribuição previdenciária, aplicando-se o disposto neste parágrafo a fato pretérito, como previsto no inciso I do art. 106 da Lei nº 5.172, de 25 de outubro de Posicionamento Anpei: Bolsas destinadas à professores e residentes de hospitais universitários também seriam isentas de riscos trabalhistas e previdenciários, nos termos originais do projeto de Lei. O efeito deste parágrafo não é central na agenda de P,D&I, mas configura-se como um elemento socialmente

6 importante no contexto do frágil sistema brasileiro de saúde, e elemento de sustentação do processo de formação profissional das áreas em que se aplica. PRÓXIMOS PASSOS Os vetos serão discutidos após a reabertura do Congresso a partir do dia 2 de fevereiro. São Paulo, 14 de janeiro de 2016.

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