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6 Tatiana Reis Nara Oliveira

7 Tatiana Reis Caravana Arcoíris Por La Paz

8 O protagonismo cultural tem encontro marcado na Teia Petrobrás Teia é o encontro, ao vivo, dos Pontos de Cultura espalhados ao longo do mapa brasileiro. Esses Pontos de Cultura são uma das iniciativas mais bem sucedidas do Ministério da Cultura, e têm várias características que podem ser concentradas naquela que, possivelmente, seja a mais singular delas: atuar com autonomia e como protagonistas de ações sócio-culturais de envergadura. São inúmeros em todo o país, não têm sede física, nem programação fixa, e não existem dois iguais: cada um tem vida própria. Recebem projetos das comunidades onde foram instalados, encaminham esses projetos para o Ministério da Cultura e os aprovados recebem uma verba determinada. Ou seja, projetos cuja iniciativa (e avaliação, e execução) nascem da própria comunidade onde existem os Pontos de Cultura. Uma vez por ano, seus representantes se reúnem para um intercâmbio de experiências, para promover uma reflexão ampla e profunda sobre o que está sendo feito pelo país afora, tudo isso acompanhado por uma intensa programação que reúne espetáculos, debates, oficinas, seminários. Eis aí a Teia. Este livro reúne o que de mais expressivo aconteceu no evento realizado em Brasília em Foram 88 atrações vindas dos mais diferentes lugares, mais de 1,5 mil participantes, todos eles representantes de uma arte de raízes profundamente populares e grande excelência. O livro faz um balanço desse grande encontro da diversidade cultural brasileira, e revela iniciativas que não podem nem devem ficar restritas ao seu lugar de origem. A Petrobras, maior empresa brasileira e maior patrocinadora das artes e da cultura em nosso país, é parceira e dedica especial atenção aos Pontos de Cultura e, por conseqüência, à realização das edições anuais da Teia. Da mesma forma que os Pontos de Cultura, nossa empresa também está presente ao longo de todo o mapa brasileiro. Mas está presente, principalmente, na união de esforços dedicados a transformar o país, a contribuir para o seu desenvolvimento e para favorecer a contínua democratização de sua cultura e de suas formas de expressão artísticas que, em última instância, conformam a identidade de todos nós.

9 Espaço de reflexão e convergência entre os Pontos de Cultura SESC O Serviço Social do Comércio identifica-se com as ações do governo federal, por meio do Ministério da Cultura. Eminentemente voltado ao desenvolvimento socioeducativo dos cidadãos, o SESC possui como um de seus principais campos de atuação a Cultura. A promoção de projetos nacionais e regionais e o incentivo às manifestações artísticas oriundas de cada região integram o cotidiano da instituição. Tais iniciativas da entidade convergem para as ações do Ministério, e ainda em âmbito nacional, pois muitos de seus projetos são itinerantes. Os circuitos de artes cênicas, música, artes plásticas e cinema, além do incentivo à leitura, com feiras de livros, a extensa rede de bibliotecas e os concursos nacionais do SESC, estimulam o intercâmbio entre as diversas vertentes da produção cultural brasileira. Localmente o SESC debruça-se de forma ainda mais minuciosa sobre as tendências regionais, fomentando a estrutura necessária para que os produtos culturais vicejem. Ao apoiar a Teia Rede de Cultura do Brasil, o SESC reafirma a parceria desenvolvida com o Ministério e demais instituições dedicadas ao tema, afinidade já ratificada por meio de Protocolo de Intenções assinado em Pois se a Teia, como realização fundamental do Programa Cultura Viva, constitui-se no espaço de reflexão e de convergência dos Pontos de Cultura, de certo o SESC almeja assim fortalecer esses vínculos, ao fornecer apoio e patrocínio. Assim ocorreu nas três edições da Rede de Cultura do Brasil, em São Paulo (2006), Belo Horizonte (2007) e Brasília (2008). Especialmente na Esplanada dos Ministérios, quando o evento esteve sob responsabilidade dos próprios Pontos de Cultura, como expressão máxima de sua relevância. Nos grupos de trabalhos, debates, vivências, plenárias, oficinas, exposições e apresentações o SESC pôde corroborar os propósitos conjuntos, estimulando amplos intercâmbio e aperfeiçoamento de experiências, em prol de uma sociedade culturalmente dinâmica e inclusiva. 2

10 Tassia Camões Tatiana Reis Nara Oliveira

11 Tatiana Reis Nara Oliveira

12 Do Ponto para uma rede de difusão da cultura brasileira SESI O termo arte traz várias denotações. Uma delas diz que arte é uma atividade que supõe a criação de sensações ou de estados de espírito de caráter estético, carregados de vivência pessoal e profunda, podendo suscitar em outrem o desejo de prolongamento ou renovação. São importantes interpretações sob diversas perspectivas. O impacto das mensagens inseridas nos espetáculos nos faz refletir sobre nossa identidade e, por vezes, buscar formas de mudança e renovação. Mesmo em tempos de crise econômica, o Brasil marcha para o desenvolvimento. Particularmente, acredito que sem investimentos em cultura a meta não será atingida em sua plenitude. A meu ver, a arte como um todo possui grande influência e responsabilidade enorme na formação de massa crítica deste País. E não apenas isto. Existe uma vasta parcela de trabalhadores e empregadores envolvidos com os espetáculos, o que não se pode ignorar. Iniciativas como a Teia Brasília 2008 Encontro Nacional dos Pontos de Cultura, são muito importantes, pois, além da preocupação com a disseminação gratuita da Cultura Brasileira, contribuem para movimentar o mercado de trabalho deste segmento. Reunindo os Pontos de Cultura de todo o país, cumpre o papel de reforçar a transmissão de saberes àsociedade. Desta forma, a Teia alia suas diretrizes ao escopo do Sistema SESI, promovendo e oferecendo espetáculos, amostras e exposições gratuitamente a toda comunidade brasiliense. Considero nobre a iniciativa da Teia: Democratizar e divulgar trabalhos de talentosos artistas, numa verdadeira mostra do que a cultura brasileira tem produzido, unindo artistas consagrados a mestres da cultura popular, linguagens populares e eruditas, aproximando o fazer e ser cultural em suas diversas manifestações. Estes são alguns dos fatores que levaram o Conselho Nacional do SESI a ter orgulho e satisfação em apoiar a Teia Brasília Saúdo o sucesso da iniciativa e todos os que, de algum modo, contribuíram para que sua realização se tornasse possível. A máxima contida na obra de Milton Nascimento se concretiza com a ajuda da Teia, afinal todo artista tem de ir aonde o povo está.

13 Cultura e direitos humanos de mãos dadas Secretaria Especial dos Direitos Humanos da Presidência da República Ao adotar o slogan Direitos Humanos: Iguais na Diferença, lema da Secretaria Especial dos Direitos Humanos da Presidência da República durante comemorações dos 60 anos da Declaração Universal, a Teia 2008 referendou o compromisso mútuo entre Cultura e Direitos Humanos. Com os Pontos de Cultura espalhados pelo país, criou-se uma vasta rede não só para produzir diversão, mas para levar arte, romper o silêncio e promover o diálogo nas mais diversas e distantes comunidades. A riqueza multicultural brasileira e as relações sócio-culturais são ferramentas de superação das desigualdades, exigem constante promoção e valorização. E o Ministério da Cultura, por meio dos Pontos de Cultura, tem contribuído de forma decisiva para a afirmação da identidade nacional, o que está diretamente ligado à construção da dignidade e à garantia dos direitos humanos, entre os quais, o próprio direito à cultura. A Declaração Universal dos Direitos Humanos traduz o ideal comum a ser seguido por todos os povos e nações para a conquista da paz. Elaborada depois da tragédia da Segunda Guerra Mundial pela ONU, o documento apresenta todos os direitos inerentes aos seres humanos, independente de nacionalidade, etnia, cor da pele, sexo, idade, orientação sexual, profissão, classe social, condição de saúde física e mental, opinião política, julgamento moral, religião e grau de instrução. O artigo 27 da Declaração Universal diz que toda pessoa tem direito a participar livremente da vida cultural da comunidade, de fruir artes e de participar do processo científico e de seus benefícios. Mais do que um direito, a cultura é um instrumento estratégico para disseminar os direitos humanos. Os Pontos de Cultura e a Teia 2008 em Brasília sintetizam essa simbiose. Viva a Cultura! Viva a cultura dos Direitos Humanos! 6

14 Nara Oliveira Nara Oliveira

15 Charles Brait Emília Brosig

16 A aranha tece puxando o fio da TEIA a ciência da abelha da aranha e a minha muita gente desconhece... olará viu... muita gente desconhece... João do Vale O Brasil se reconhece e reelege um caminho novo Chico Simões, mamulengueiro Se definirmos um ponto como um lugar no espaço, um Ponto de Cultura só pode ser o encontro de pessoas nesse lugar. E o encontro desses pontos só pode ser uma TEIA. Além disso, toda tentativa de definição reduz o movimento...sabemos que somos, que somamos e abrimos o leque de possibilidades na construção e valorização de diversos saberes e fazeres culturais, que se apresentam como alternativas de sustentabilidade local, sem se descuidarem da relação com o todo a que pertencemos. Nos encontramos em novembro de 2008, em Brasília, para celebrarmos a cultura viva e somarmos mais cultura ao que já somos. Somos a novidade que carrega também a "velhidade" dentro de si, existimos e agimos dentro das contradições inerentes às mudanças de paradigmas que representamos. O etnocentrismo cientificista europeu, embalado pelo capitalismo, mercantilizou as relações, reduzindo o saber à condição de produto. A escola se transformou, por exigência do deus-mercado, em uma fábrica de mão-de-obra. O cenário do planeta é o pior possível: poluição, desequilíbrio socioeconômico, esgarçamento do tecido social, desencanto... Prognósticos científicos apontam para um aquecimento global insustentável, e os alarmistas de plantão anunciam o fim do mundo, enquanto espíritos livres buscam, na mesma velocidade, soluções não

17 convencionais para novos e persistentes problemas. Assumimos nossos erros e vamos aprendendo com eles, a pauta da sustentabilidade ambiental nos une e as diferenças que nos separavam agora nos identificam na diversidade. A democratização dos meios de produção, reprodução e divulgação de conhecimentos glocaliza problemas e soluções. Estamos atentos, somos a TEIA. Quinhentos anos de modernidade não podem suplantar milhares de anos de conhecimentos construídos na relação entre os seres humanos e a natureza. Ao abrirmos os sentidos para culturas tradicionais de resistência, como as culturas afrobrasileiras e as indígenas, vamos descortinando um maravilhoso mundo de conhecimentos e possibilidades sustentáveis de relação com a natureza, de bem-estar social e organização política. Memória e identidade são pautas cada vez mais discutidas e valorizadas; o cotidiano, como previu Paulo Freire, aparece como curso de construção de saberes, de valorização e validação de experiências de vida. O Brasil se reconhece, se identifica, elege e reelege um caminho novo, diverso, complexo, contraditório, brasileiro. A contemporaneidade exige visões cada vez mais transversais, holísticas, globais, que não percam de vista o regional, o comunitário, o local, o particular, o individual. Análises conjunturais precisam levar em conta os mais variados campos do conhecimento humano. Culturas populares resistentes e, historicamente relegadas à periferia da civilização e do progresso, renascem aliadas às Nara Oliveira tecnologias digitais livres que insistem na democratização radical de todo conhecimento, na quebra das patentes e dos monopólios dos podres poderes, anunciando a configuração de um signo revolucionário, sinérgico, que escapa até mesmo às tentativas de auto-definição O que esta em curso tem muitos nomes e não tem nenhum A TEIA dos Pontos de Cultura está em permanente refazer-se, o que ontem foi apenas uma rede de ideias e ideais, hoje é uma necessidade que aponta o caminho de uma política pública horizontalizada e presente em todo o Brasil. É preciso a formação de educadores culturais comunitários capazes de e com disponibilidade para identificar, compreender, fortalecer, dar visibilidade, articular em rede e integrar ações e conhecimentos da comunidade na vida política e vice-versa. Diversos organismos do Estado e da sociedade civil, escolas, comunidades, alunos, professores e agentes culturais reclamam, cada qual com suas especificidades, uma ação nacional coordenada entre esses setores, que atenda a demanda material e humana. Que essa ação faça desse sonho uma realidade, onde cada Ponto de Cultura seja um ponto de encontro entre a comunidade e o saber/fazer, entre educação e cultura, entre sonhos e vida real. 10

18 Emília Brosig Tatiana Reis

19 Fábio Resck

20 RE-PROCLAMAÇÃO DA REPÚBLICA Manisfesto pela Cultura TT Catalão, coordenador geral da Secretaria de Cidadania Cultural do MinC Precisamos estetizar a política e criar narrativas simbólicas em aliança com os índices técnicos quando se trata da Cultura. O cortejo da Re-Proclamação da República pela Cultura trabalha sobre o reafirmar valores republicanos em rima rica com magnífica diversidade cultural brasileira e suas inúmeras linguagens em todo o território nacional. A oportunidade surge com a data de encerramento do Terceiro Encontro Nacional dos Pontos de Cultura a Teia, no dia 15 de novembro. Uma data cívica, realmente nacional, em Brasília, sempre ficou no calendário com o 21 de abril, sua inauguração, e o 7 de setembro. Faltava relacionar o 15 de novembro no sentido republicano mais amplo, como um projeto de construção permanente que nos mobiliza em direção a desejada sociedade justa e solidária traduzida em participação democrática e direitos culturais da arte aliada da cidadania. Na árdua tarefa de eliminação dos abismos entre brasis, governos e sociedade se articulam. E é a gestão cultural que tem se revelada a melhor síntese dessa federal identidade: nos governos, a nova marca pela ampla política de editais que amplia a participação e o zelo com recursos públicos; na sociedade, o aperfeiçoamento de canais de participação e maior rigor no acompanhamento de bens e serviços públicos. Tatiana Reis

21 Brasília é nesse sentido, a encruzilhada das contradições nacionais, o próprio Exu Monumental. Está, exatamente, no entroncamento das asas (desejo) e o eixo (base e fio terra) do Plano de Lúcio Costa. A Teia acontece na Rodoviária da cidade como rede e redemoinho de radiações e enredo dos novos atores da Cultura brasileira. Ali se instalam tendas, mostras, shows e debates, dali partem nossos desejos e bases para uma Cultura em Movimento permanente como eixo das mudanças no Brasil. Clamar contra a exclusão pelo despejo, reclamar pelo direito ao desejo, reproclamar pela necessidade vital de não ser objeto, mas sujeito de si e no relacionamento com outro e com o meio: para inventar, pela cultura, o outro lado de quem faz e é a própria história. No espaço livre da Teia, de onde parte o cortejo, a Brasília local e a nacional se encontram. É assim que a cidade (no Planalto Central) se faz o próprio ponto das contradições nacionais. Algo que se instala no coletivo e no indivíduo. Reproclamar e reinstaurar o sentido republicano em repúdio ao controle dos mercados que nos querem consumidores de produtos carimbados pela mesmice fragmentada do "um para cada segmento". Reproclamar quando a expressão estética, a liberdade de opinião e a manifestação libertária da consciência repercutem na afirmação (proclamação do desejo) de uma nova configuração republicana do Brasil (eixo pelo projeto comum de nação). A Cultura traduz essa pluralidade que nos faz singular. A soma que nos faz únicos. Iguais na diferença, não no sentido da identificação padronizada em uma só referência, mas na identidade dos muitos que se realizam enquanto se misturam nessa construção permanente e, comprometidamente, republicana. 14 Nara Oliveira

22 Tatiana Reis

23 Nara Oliveira Caravana Arcoiris Por la Paz 6 Tassia Camões

24 Os Pontos de Cultura e a transformação social brasileira Célio Turino, Secretário de Cidadania Cultural do MinC Na Teia 2008, em Brasília, os Pontos de Cultura perceberam com mais clareza sua condição política de agentes transformadores. De agentes que saem do estágio de em si e passam a se perceber como para si. Ela avançou na construção dessa autonomia. A primeira Teia foi uma decisão muito breve. Em pouco mais de um mês decidimos fazer. E foi importante fazer. Ocupamos a Bienal de São Paulo, que representou um marco simbólico nesse processo. É bom lembrar que a Semana de Arte Moderna de 1922 aconteceu na escadaria do Teatro Municipal da capital paulista e adentrou no teatro por alguns dias. Ir pra Bienal de São Paulo tinha esse significado: ocupar o espaço das artes consagradas. E a periferia da produção cultural, não uma periferia geográfica e social, mas estética, de linguagem, ocupou esse espaço. E o processo continua. Na Teia 2007, em Belo Horizonte, fomos para o Palácio das Artes, o principal palco de Minas para manifestações artísticas. Quase não fizemos lá, porque o Palácio não poderia ser usado para a Teia. A minha resposta foi que o povo brasileiro não entra pela porta dos fundos. Não tem aquela história de ter o pé na cozinha, onde os pobres, os escravos não entram pela porta da frente? Nós fazemos o inverso disso.

25 Em Brasília, na Esplanada dos Ministérios, a gestão da Teia foi feita pelos próprios Pontos de Cultura. Em primeiro lugar, isso teve um ganho de afetividade. O próprio acolhimento, com recepção no aeroporto, hospedagem... a Teia foi feita por quem é parte integrante dela. Em segundo, foi feita a construção do entendimento do Ponto de Cultura como um movimento, um movimento social, político, de postura, de construção. Daí a ideia de ganhar asas, e tinha que ganhar asas justamente na Esplanada dos Ministérios, o espaço simbólico do poder. A partir do amadurecimento dos Pontos de Cultura na Teia, eu diria que o programa Cultura Viva tem um componente educador. Tanto para o Estado quanto para a sociedade. O primeiro aspecto é perceber que os limites do Estado são apertados, estreitos. O movimento dos Pontos de cultura até ocupou uma brecha, mas ainda é limite. O Estado não está preparado pra desconcentrar ou estabelecer novas formas de parceria. Mas aí é o povo em processo. A gente vai ocupando brechas, abrindo novas alternativas. Nesses mais de cinco anos de programa, o que se percebe é que caminhar com o povo, com a sociedade é melhor. E essas pessoas precisam ter cada vez mais espaço para sua realização protagonista. Isso pressupõe um estágio civilizatório mais avançado. Nós não estamos construindo uma forma de governar que é reivindicativa ou de assistência às necessidades. Ela até é necessária, e no Brasil as carências são tão grandes que a gente fica feliz quando algumas necessidades são atendidas. Mas o marco do CulturaViva é que a gente saia da construção a partir da carência e passe a pensar política a partir da potência. Nara Oliveira Espero que na minha velhice, tenhamos um padrão de convivência social, um estágio de civilização mais evoluído. Onde exista de fato respeito ao próximo, uma relação de construção de uma prática cotidiana que seja criativa. Eu sou um gestor, um militante, e pretendo ser um intelectual, refletir sobre o assunto. A cultura tem um componente que nenhuma outra área tem. Qual é? Nos últimos duzentos anos, a política, no Brasil e no mundo, foi construída a partir de interesses. São interesses legítimos, muitas vezes. Direito a melhores condições de vida, salários. Ou também interesses de fazendeiros, que querem espoliar...enfim, sempre é uma política construída a partir de interesses. 18

26 As ideologias surgem a partir disso. São interesses transformados em ideias que defendem um determinado grupo. Por que a gente não pode experimentar outra forma de fazer política, alicerçada nos valores? Mario de Andrade tem um texto sobre o desinteresse da arte. E o que motiva alguém a atuar num Ponto de Cultura? Basicamente é um trabalho voluntário que é feita, há uma doação plena. O Ponto de Cultura é um espaço de cultura. Mas é outra política, alicerçada nos valores. Eu diria que estamos fazendo um exercício de busca de uma outra construção política, que integra um outro sentido para a cultura. São três es : ética, estética e economia. Aqui está a chave de uma outra cultura. Quando a gente fala de ética, é compromisso com as pessoas. É compaixão. A estética, em que a gente não pode expressar uma idéia inovadora sem oferecer uma estética inovadora. E a economia, que, ao contrário do que se pensava, não determina a sociedade e a cultura. Eu diria que há uma interação. Ela é produto e vetor das mudanças. Se nós tivermos um outro comportamento em relação à economia, buscando comércio justo, economia solidária, trabalho colaborativo, consumo consciente...tudo isso muda a própria forma de organizar a economia. O melhor é esparramar, espalhar, deixar fazer com liberdade, e as pessoas vão experimentando. Isso já existia, bem antes do programa. O que a gente fez foi tirar um manto de invisibilidade e aproximar. E sem o Estado, a gente não conseguiria acelerar essa junção. É aproveitar essa brecha, meter uma cunha, alargar. Enfim, se empoderem. Tem que tomar o poder, algum dia. Fábio Resck

27 Alexandra Martins Alexandra Martins 10 Tassia Camões Nara Oliveira Nara Oliveira

28 Emília Brosig Nara Oliveira

29 Tassia Camões Nara Oliveira Alexandra Martins

30 De Ponto em Ponto, uma Teia é construída Juca Ferreira, Ministro da Cultura A Teia nasceu para marcar a reflexão do Programa Cultura Viva, avaliar com mostras e debates os caminhos percorridos e traçar novas estratégias. A primeira edição foi em SP-2006, a segunda em BH e a terceira Teia, em 2008, teve em Brasília seu momento mais decisivo: a gestão dos próprios Pontos de Cultura, que assumiram a responsabilidade direta na organização, programação e condução dos temas em conjunto com o Ministério da Cultura, por meio da antiga Secretaria de Programas e Projetos Culturais, hoje Secretaria de Cidadania Cultural. Fazemos história quando nos comprometemos além do discurso. O Cultura Viva revela o crescimento da cidadania no país, especialmente entre artista e comunidade, na prova maior de que o desenvolvimento real só se dá quando a Cultura e o Humano estão na base. Desde o início, afirmamos: O Estado não impõe, o Estado dispõe. E ao potencializar o já existente, comprovamos que crescemos pela renovação permanente das alianças. Alexandra Martins A Teia Brasília consolidou as conquistas e demonstrou, pelo alcance nacional do Programa Cultura Viva, que somos iguais na diferença e que hoje construímos democracia de maneira irreversível em liberdade, confiança e co-responsabilidade.

31 Nenhuma ousadia institucional de Estado, no campo da Cultura, foi tão longe quanto a criação dos Pontos de Cultura. Quando se esperava paternalismo, veio o protagonismo. Onde se aguardava a tutela, veio a gestão compartilhada. Quem ainda não acreditava no poder de criação do povo brasileiro tanto em suas expressões tradicionais quanto nas novas linguagens contemporâneas com novas mídias teve a resposta cotidiana de pessoas e comunidades. E assim o Programa se construía enquanto tecia suas relações. Aprendia enquanto experimentava. Vivo. Em processo aberto de reflexão e diálogo com marcante participação de seus integrantes. Vivo entre parcerias governamentais e da sociedade. Espelho e reflexo de realidades ainda não visíveis. Canal livre e libertário: muito mais que mero identificador de Pontos isolados, o MinC criou conexões e pontes entre as muitas culturas da diversidade brasileira. Tudo para que arte e cultura acontecessem conjugadas no rumo transformador da sociedade. O Cultura Viva, tendo os Pontos de Cultura na sua ponta de lança, hoje acentua a imensa capacidade de luta e criatividade de grupos e pessoas que resistem, pela arte, beleza e força das idéias e da solidariedade, em regiões sob severas condições precárias e que, mesmo assim, não anula nem impede esses testemunhos brilhantes de cidadania e arte. Sem modelos, a medula do Programa é partir do que já existe em respeito ao que já se faz, para crescer potencializado em rede e circuitos de trocas. Essa escala progressiva de comprometimentos entre sociedade e Estado cria um fato novo na política cultural brasileira por interferir diretamente na qualidade de vida da comunidade. Um Programa que não censura opções estéticas; não restringe manifestações; não impede trocas entre linguagens (unindo ou contrapondo ruptura e tradição); não dá voz, imagem ou gesto apenas ao consagrado; amplia a massa crítica para colaborar na fruição da arte, não só como consumidores ou passivos espectadores, mas como criadores ativos, com impacto em suas relações econômicas, pelo acesso e, também, a informações e ferramentas que os fazem produtores. Criadores de vida e da própria vida. Sujeitos de si e conscientes do meio. Prontos para darem seus pontos de vista em pensares, saberes e fazeres do jeito que podem, do modo que sabem, do ser especial que cada um é. 24

32 Tatiana Reis Tatiana Reis

33 Nara Oliveira Tatiana Reis

34 II FÓRUM NACIONAL DOS PONTOS DE CULTURA A voz dos Pontos na construção de novas políticas culturais Comissão Nacional dos Pontos de Cultura O II Fórum Nacional dos Pontos de Cultura (FNPC), realizado de 12 a 14 de novembro, como acontecimento central da programação da Teia Brasília 2008, foi a etapa nacional de um processo de mobilização e articulação política dos Pontos de Cultura em todo o país. Ao longo do ano, foram realizados 19 encontros e fóruns estaduais, mobilizando cerca de 6 mil participantes nessas etapas preparatórias. Foram inscritos cerca de 600 delegados um representante por Ponto de Cultura conveniado com o MinC em um universo de até então 850 pontos, o que evidencia o interesse e a mobilização que o II FNPC provocou na rede.

35 O que começou como um programa governamental - o Programa Cultura Viva - extrapolou as fronteiras institucionais, e hoje os Pontos de Cultura emergem com a força de um movimento social presente e organizado em todo o país. Nos últimos três anos, este movimento se (re)conheceu, se encontrou e se fortaleceu. Os Pontos de Cultura apontam para o surgimento de novas formas de relação entre o Estado e a sociedade. Reconhecem a necessidade da mobilização organizada da sociedade para um profundo debate com os poderes executivo e legislativo sobre as políticas públicas para a cultura no Brasil. Reivindicam a criação de novos marcos legais em que o Estado, ao invés de impor, dispõe as condições e os meios para o exercício da autonomia, protagonismo e empoderamento social. Vistos em uma perspectiva histórica, os Pontos de Cultura são uma experiência recente, mas que representam uma linha de continuidade com diversos movimentos de construção das identidades e manifestações da diversidade do povo brasileiro. São herdeiros das diversas resistências indígenas e quilombolas de nossa história, da Semana de Arte Moderna de 1922 e da antropofagia modernista de Mário e Oswald de Andrade, dos Centros Populares de Cultura (CPCs) da UNE, dos Círculos de Cultura de Paulo Freire, do Tropicalismo, da resistência cultural à ditadura, das expressões culturais da juventude na periferia das grandes cidades, dos saberes e práticas de tradição oral de griôs e mestres da cultura popular. O Fórum Nacional dos Pontos de Cultura é uma instância permanente de articulação do Movimento Nacional dos Pontos de Cultura. Sua realização observa a autonomia e diversidade das formas de organização desse movimento, através das redes e fóruns estaduais, das redes temáticas, das ações nacionais, das redes articuladas pelos Pontões de Cultura e as demais formas de organização transversal dos Pontos de Cultura em nível local, regional e nacional. Nara Oliveira 28 É a expressão legítima e organizada deste movimento político-cultural em desenvolvimento na rede dos Pontos, que apresenta para o conjunto da sociedade suas pautas políticas, produções artísticas, práticas pedagógicas, manifestações e expressões culturais.

36 O II Fórum Nacional dos Pontos de Cultura reuniu 25 Grupos de Trabalho temáticos, que discutiram temas transversais relacionados às diversas áreas de atuação dos Pontos de Cultura, como: culturas populares e patrimônio imaterial, matriz africana, cultura digital, juventude, artes cênicas, audiovisual, sustentabilidade, articulação em rede etc. TEIA, trocas de saberes, de sabores e experiências, num emaranhado colorido de verdadeira resistência. No resgate e difusão de nossas riquezas e heranças culturais, em prol do desenvolvimento local e empoderamento de seu povo através das Artes! Marly Cuesta Ponto de Cultura Voluntário "Vitória-Régia" Esses grupos de trabalho aprovaram um conjunto de 125 resoluções específicas de suas áreas de atuação e 90 resoluções gerais sobre políticas públicas para a cultura.o II FNPC foi coordenado pela Comissão Nacional dos Pontos de Cultura (CNPC), responsável por sua convocação, inscrições de delegados(as), credenciamento, programação, metodologia, sistematização e divulgação de resoluções. Durante o Fórum foi também foi montada a nova composição da CNPC, que reúne cerca de 50 representantes de Pontos de Cultura, entre representantes estaduais e dos Grupos de Trabalho e áreas temáticas transversais, que serão responsáveis pela articulação do movimento nacional até a realização do III Fórum Nacional dos Pontos de Cultura, que vai se realizar na Teia Em síntese, o conjunto de resoluções aprovadas no II Fórum Nacional dos Pontos de Cultura apontam para as seguintes diretrizes gerais: Garantia da permanência dos Pontos de Cultura como política de Estado, com dotação orçamentária prevista em dispositivo legal, mecanismos públicos de controle e gestão compartilhada com a sociedade civil; Aprovação da PEC 236, que pretende acrescentar a cultura como direito social no Capítulo II, artigo 6 da Constituição Federal; Aprovação da PEC 150, que vincula 2% do Orçamento Federal, 1,5% do Orçamento Estadual e 1% do Orçamento dos Municípios para a Cultura;

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