NÃO SE ENCONTRA O QUE SE PROCURA

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5 NÃO SE ENCONTRA O QUE SE PROCURA

6 Do Autor: ficção Não te deixarei morrer, David Crockett (Contos e Crónicas), 2001 Equador (Romance), 2003 Premio Grinzane Cavour Narrativa Straniera (Itália) Rio das Flores (Romance), 2007 Prémio do Clube Literário do Porto No teu deserto (Quase Romance), 2009 Madrugada suja (Romance), 2013 escritos políticos Um nómada no oásis, 1995 Anos perdidos, 2001 A história não acaba assim, 2012 viagem Sahara, a República da Areia, 1985 Sul, 1998 e 2004 Ukuhamba manhã de África, 2010 infantil O segredo do rio, 1997 e 2004 Recomendado pelo PNL (Plano Nacional de Leitura de Portugal) e seleccionado pelo PNLB (Plano Nacional de Leitura do Brasil) O planeta branco, 2005 Recomendado pelo PNL Ismael e Chopin, 2010 Recomendado pelo PNL e seleccionado pelo PNBL outros Grande Reportagem (Reportagem), 2006 (co-autor) Cozinha d amigos (Culinária), 2011

7 Miguel Sousa Tavares Não se encontra o que se procura

8 Reservados todos os direitos de acordo com a legislação em vigor. Reprodução proibida por todos e quaisquer meios. Por vontade expressa do autor, a presente edição não segue as regras do Acordo Ortográfico de , Miguel Sousa Tavares Direitos para esta edição: Clube do Autor, S. A. Avenida António Augusto de Aguiar, º Lisboa, Portugal Tel.: / Fax: Título: Não se encontra o que se procura Autor: Miguel Sousa Tavares Revisão: Tavares e Castro Paginação: Maria João Gomes, em caracteres Revival Impressão: Multitipo Artes Gráficas, Lda. (Portugal) ISBN: Depósito legal: /14 1.ª edição: Dezembro,

9 Tu não caminhas a direito, Tu segues o caminho. Tu não encontras o que procuras, Tu encontras o que encontras. Tu não sabes nem adivinhas, Tu vives.

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11 ESCREVER Eu quero escrever, escrever, escrever. Quero sentar- -me no meu terraço durante o dia e ficar a ver as aves que passam, o vento que corre, o tempo que desliza. Quero sentar-me no meu terraço à noite e ficar a escutar os gritos dos pássaros nocturnos, o riso das rãs na água, o som escondido das estrelas que morrem em silêncio a milhões de anos de distância, e o som do tempo que, de noite, ali não passa. Eu quero viver tudo tudo o que sempre imaginei e tudo o que jamais imaginei. E quero viver para contar em histórias, quero viver para o escrever. Quero escrever sem perder o juízo e quero escrever até perder o juízo. Eu quero a página em branco para a escrever com a minha vida. Eu quero a dor e a alegria quero todas as dores e todas as alegrias. Quero tudo o que sirva para 11

12 MIGUEL SOUSA TAVARES escrever. Eu quero que as histórias venham até mim e me engulam, quero que elas sejam tão fortes que não consiga esquecê-las e só encontre sossego escrevendo-as. Eu não quero, como outros que escrevem dizem, saber das palavras. As palavras vêm, sempre vêm, quando têm de vir quando fazem sentido, quando estão ao serviço da escrita e nada mais. Eu quero a vida inteira, quero olhar, escutar, sentir, lembrar-me. Quero a vida das pessoas e dos personagens, quero o cheiro dos lugares, a memória da luz, a consistência das coisas. Eu quero ouvir os que foram felizes e os que sofreram, os que traíram e os que sentiram a faca nas costas. Eu quero ouvir toda a tragédia, toda a grandeza, toda a felicidade. Eu quero a vida como ela é. Quero contá-la, escrevê-la com as palavras que sempre chegam quando me sento em frente à página em branco do computador e sei que tenho de escrever, porque não há nada melhor que eu possa fazer em troca de estar vivo. Eu quero viver para escrever, viajar para escrever, olhar para escrever, estar vivo para escrever. Quero África, a Ásia, as Américas devorando-me a cabeça. Mas quero também a solidão do escritor, a sós com a sua responsabilidade. Não quero a torre de marfim nem uma vida de ausência e alheamento, mas quero e preciso da solidão, do silêncio, do meu ritual, do meu tempo. Porque não há nada de leviano no acto da escrita. Boa ou 12

13 NÃO SE ENCONTRA O QUE SE PROCURA má, ela precisa de quem a respeite, de quem a compreenda. Escrever é viver intensamente e depois desligar-se intensamente. É um farol que varre o mar, alternando a luz com a escuridão, a presença com a ausência. Mas não perguntem nunca porque escrevemos: não há resposta para essa pergunta. Escrevemos como outros pintam, outros fotografam, outros filmam, outros compõem música. Porque está lá: porque está ali uma imagem e nós fotografamo-la; porque está ali um som e nós transformamo-lo em música; porque está ali um texto e nós escrevemo-lo. Não sabemos nunca como estas coisas nascem e de onde vêm; sabemos, às vezes, para onde vão e como irão, conduzidas pela nossa mão; mas não sabemos porquê: porquê connosco, porquê agora, porquê desta maneira e não de outra? Alguns tentam explicar isso pela compulsão, pela necessidade irresistível, pela vocação, talvez. Eu não sei dizer: sei apenas olhar e sei que, olhando, olhando sempre, vendo o que merece ser visto, eu hei-de escrever porque quem viu deve testemunhar. Eu sou uma testemunha, um contador de histórias, um homem que passa a palavra. E, ao passá-la, ao contar tudo o que vi, vivo duas vezes. Sempre tive esta, chamemos-lhe assim, deformação jornalística: tentar transformar tudo o que acontece, tudo o que vejo, tudo o que viajo e tudo o que vivo, numa utilidade literária ou jornalística concreta. Nunca 13

14 MIGUEL SOUSA TAVARES viajei sem escrever ou sem pensar em escrever: ir para ver e não contar a ninguém mais, aos que não foram e não poderão nunca ir, sempre me pareceu um desperdício, uma oportunidade não merecida. Há tempos, passei pela experiência de ter de enfrentar subitamente uma ameaça vinda do nada e uma cirurgia de risco. E quando, passado um mês, passada a cirurgia e passado o perigo, voltei ao hospital e me deram as boas notícias, quando realizei que tinha a minha vida inteira de volta, lembro-me de sair do hospital muito lentamente tão lentamente como quando de lá tinha saído, um mês antes, quando me disseram o que tinha e os riscos que corria. Lembro-me de pisar o chão como uma criança que experimenta os primeiros passos, lembro-me de olhar para cima e ver um céu incrivelmente azul e, se bem que não houvesse ninguém a caminhar comigo e ao meu lado, eu senti que o mundo não cabia em mim, que a vida era maior do que eu conseguia viver. E nesse instante eu soube que nada é mais extraordinário do que estar vivo mesmo que seja só por mais um dia luminoso, uma dessas manhãs de espuma do Tejo suspensa sobre Lisboa, quando a Primavera grita pelo Verão e todo o real parece flutuar, como se estar vivo fosse apenas um sonho. Três meses mais tarde, eu estava a embarcar para África com o meu filho mais novo, para cumprir um sonho antigo e celebrar o simples facto de estar vivo e 14

15 NÃO SE ENCONTRA O QUE SE PROCURA inteiro, antes que fosse tarde demais: antes que um tumor maligno me matasse a mim ou a África e não houvesse quem lhe pudesse contar as histórias dos bichos, da savana, do pôr-do-sol, das manhãs de África. Voltei e escrevi um livro sobre essa viagem, conforme era meu dever de testemunho e de agradecimento. A escrita ensina-nos e convoca-nos à responsabilidade de entender que estar vivo não é um acaso inútil nem um almoço grátis. Toda a criação artística, de que a escrita faz parte, é uma responsabilidade indeclinável e não somente um dom para autocontemplação. Escrevemos para celebrar a vida, não para resgatarmos a própria morte; escrevemos para os outros, não para nós próprios. E escrevemos para contar. Para contar uma história. E toda a história contada precisa de quem a oiça. Um homem que eu muito admiro enquanto grande senhor que é, mas cujos filmes não entendo, disse um dia esta frase terrível: os meus inimigos são os espectadores. Gostava que os meus filmes não tivessem mais do que dois espectadores escolhidos por mim. Pois eu, não. Eu preciso de quem escute as minhas histórias. os que me conhecem bem sabem que elas não têm necessariamente de ser escritas e em forma de livros: também gosto de contar anedotas, lendas, aventuras, coisas nunca ouvidas e, se calhar até, inventadas na hora. Esse é o meu dom, a minha profissão, o meu testemunho, o meu tributo à vida. 15

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