UNIVERSIDADE DE CAXIAS DO SUL ANA CAROLINA AZEVEDO CASEMIRO CERTEZAS E DÚVIDAS SOBRE O PROCESSO DE DIGITALIZAÇÃO DAS RÁDIOS AM DE BENTO GONÇALVES

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1 UNIVERSIDADE DE CAXIAS DO SUL ANA CAROLINA AZEVEDO CASEMIRO CERTEZAS E DÚVIDAS SOBRE O PROCESSO DE DIGITALIZAÇÃO DAS RÁDIOS AM DE BENTO GONÇALVES CAXIAS DO SUL 2014

2 ANA CAROLINA AZEVEDO CASEMIRO CERTEZAS E DÚVIDAS SOBRE O PROCESSO DE DIGITALIZAÇÃO DAS RÁDIOS AM DE BENTO GONÇALVES Trabalho de Conclusão de Curso de Comunicação Social - Habilitação em Jornalismo apresentado ao Centro de Ciências da Comunicação da Universidade de Caxias do Sul, como requisito para a obtenção do título de bacharel. Orientador: Prof. Dr. Alvaro Fraga Moreira Benevenuto Junior CAXIAS DO SUL 2014

3 ANA CAROLINA AZEVEDO CASEMIRO CERTEZAS E DÚVIDAS SOBRE O PROCESSO DE DIGITALIZAÇÃO DAS RÁDIOS AM DE BENTO GONÇALVES Trabalho de Conclusão de Curso de Comunicação Social - Habilitação em Jornalismo apresentado ao Centro de Ciências da Comunicação da Universidade de Caxias do Sul, como requisito para a obtenção do título de bacharel. Banca Examinadora Prof. Dr. Alvaro Fraga Moreira Benevenuto Junior Universidade de Caxias do Sul UCS Prof. Ms Jacob Raul Hoffmann Universidade de Caxias do Sul UCS Prof. Ms Ronei Teodoro da Silva Universidade de Caxias do Sul UCS

4 Dedico este trabalho a meus pais, Ana, Orlando e Rozimeri (mãe do coração), pelo amor, pelos recursos e por permitirem que eu descobrisse as alegrias e pesares da vida por meus próprios passos. Ao Jonathan, que esteve a meu lado na maior parte desses 10 anos de vida acadêmica e que compartilhará comigo para todo o sempre um tesouro chamado Joana. À minha filha, que diariamente inunda minha vida de inseguranças e medos antes desconhecidos, mas que me ensina a todo instante o real sentido do amor e da família. Ao meu noivo, Felix, que suportou os momentos de total desespero e acreditou que eu chegaria aqui quando pensei repetidas vezes em desistir.

5 AGRADECIMENTOS Agradeço aos professores do curso de Comunicação Social Habilitação em Jornalismo pelo conhecimento transmitido, o qual me conduziu até aqui. Especialmente aos Doutores Paulo Ribeiro, que alimentou a cada aula minha paixão pelo texto, e Luiz Artur Ferraretto, que, em sua breve passagem pela Universidade de Caxias do Sul, despertou em mim o interesse pelo rádio. Agradeço, especialmente, ao Prof. Dr. Alvaro Benevenuto pela sensibilidade demonstrada nestes meses e por ter, em vários momentos, extrapolado seu papel de orientador para atuar como um verdadeiro mestre. Sua serenidade foi, certamente, coautora deste trabalho. Aos gestores da Rádio Difusora e Rádio Viva de Bento Gonçalves, pela disponibilidade e pela conversa franca, essenciais para que se pudesse relatar as expectativas e projetos das emissoras diante da migração para o FM. Ao meu noivo Felix Polo, por relevar meus destemperos nos momentos de ansiedade e por secar minhas lágrimas nos de angústia. Às amigas Fernanda Monte Mezzo Forest e Josiane Ribeiro, pelas orientações e palavras de estímulo. Por fim, agradeço ao Café Melitta, que testemunhou cada linha desta monografia.

6 RESUMO Esta monografia apresenta um relato sobre o processo de digitalização do rádio e migração do AM para o FM, com ênfase nas emissoras Difusora e Viva, de Bento Gonçalves. Para tanto, pontua a trajetória do rádio desde sua invenção, passando pela chegada ao Brasil e sua ascensão meteórica até a chegada da televisão. Para situar o rádio nos dias atuais, pontua-se o advento da internet, das webradios e das rádios comunitárias. A partir do estudo das legislações pertinentes, descreve-se o processo de digitalização e como as discussões a respeito evoluíram no Brasil, chegando-se ao decreto que autoriza a migração das emissoras de AM para FM. Para entender como a mudança impactará na radiodifusão do município de Bento Gonçalves, foram ouvidos executivos das duas emissoras AM locais. Procede-se à análise das entrevistas e, a partir disso, entende-se que existe elevada preocupação com as questões técnicas. A produção de conteúdo, por outro lado, parece estar à mercê dos indicativos do mercado. Palavras-chaves: Rádio. Internet. Digitalização. Migração.

7 SUMÁRIO 1 INTRODUÇÃO O RÁDIO E HISTÓRIA NOVIDADES NO AR: A INTERNET A DIGITALIZAÇÃO DO RÁDIO DAB DIGITAL AUDIO BROADCASTING IBOC IN BAND ON CHANNEL DRM DIGITAL RADIO MONDIALE ISDB-TSB INTEGRATED SERVICES DIGITAL BROADCASTING, TERRESTRIAL, SEGMENTED BAND HORA DE DEFINIR O SISTEMA MIGRAÇÃO DO AM PARA O FM A PESQUISA OS MÉTODOS CONSAGRADOS MÉTODO APLICADO Técnicas CONTEXTO LOCAL As rádios AM ENTREVISTAS ANÁLISE DAS ENTREVISTAS NOTAS CONCLUSIVAS... 92

8 1 INTRODUÇÃO O rádio, em sua origem, foi um aparelho que permitiu a transmissão de sons por meio de ondas eletromagnéticas. Levando música, notícia e entretenimento sem exigir atenção exclusiva do ouvinte, o rádio elevou-se ao status de companheiro para todas as horas, algo não experimentado por nenhum outro meio de comunicação. As primeiras transmissões de som sem uso de fios ocorreram nos últimos anos do século XIX, conforme Ferraretto (2001). Os créditos do invento são, ainda hoje, divididos entre o italiano Guglielmo Marconi e o brasileiro Landell de Moura, que realizaram experimentos com sucesso na Itália e no Brasil, respectivamente. Inicialmente seu uso foi direcionado a transmissões oficiais por meio de alto-falantes instalados no alto das igrejas e nos prédios públicos. A indústria da radiodifusão, no sentido de produção e transmissão de conteúdos, com a ideia de que cada família poderia ter um aparelho de rádio, propagouse no ano de Ferraretto (2001) situa como marco a fundação da KDKA, nos Estados Unidos. A chegada do novo meio de comunicação ao Brasil ocorreria dois anos depois, nas comemorações do centenário da Independência, quando a própria Westinghouse, empresa proprietária da KDKA, promoveu as primeiras transmissões no país. O rádio teve ascensão meteórica no Brasil, especialmente pelos índices de analfabetismo da população, na primeira metade do século XX 1, o que desfavorecia a penetração dos meios de comunicação impressos. A chegada da televisão, porém, decretou o fim da Era do Rádio, já que o espetáculo começa a migrar para o novo meio (FERRARETTO, 2001, p.137). 1 Conforme informações do portal da Fundação Getúlio Vargas na internet, o Censo de 1940 apontava para uma taxa de analfabetismo de 56,17% entre a população com idade superior a 15 anos. Fonte: Acesso: 23 jun

9 9 As grandes estrelas das radionovelas e dos programas de auditório rapidamente migraram para o novo veículo e restou ao rádio aproveitar sua vantagem na transmissão de música e a dinamicidade na cobertura jornalística, enquanto a concorrente ainda não contava com a possibilidade dos chamados links ao vivo. Na atualidade, diante da internet, do processo de digitalização e da convergência das mídias, a definição original de rádio não mais se aplica. A mensagem sonora já não é formatada somente em hertz, mas também em bits. Tampouco está limitada à transmissão em ondas, pois está também nos satélites e na rede mundial de computadores. Conforme Kischinhevsky (2007), aspectos como a recepção, as tecnologias de transmissão e a produção de conteúdo foram rapidamente alteradas pela internet. No Brasil, o rádio prepara-se para a transição do analógico para o digital, com estudos e testes desenvolvidos desde 2005 em busca do melhor sistema para operação no Brasil: o IBOC, padrão criado e implantado nos Estados Unidos, ou o DRM, que funciona na Europa. Em meio a essas indefinições prestes a completar uma década, o governo brasileiro optou por interromper provisoriamente o processo de digitalização para autorizar a migração das emissoras AM para FM. A decisão teve rápidos desdobramentos, com decreto presidencial publicado em novembro de 2013, normas regulamentadoras definidas em março de 2014, audiências coletivas em cada unidade da federação para agrupar as solicitações e promessa de que as primeiras autorizações venham a público ainda neste ano. Mais que uma questão mercadológica no sentido de melhorar a qualidade de áudio das rádios, a migração que ainda não é obrigatória abre campo para a extinção do AM, liberando espaço no espectro para outros usos, como a internet, a televisão digital e o próprio rádio digital, no futuro. Considerando o contexto histórico acima, que coloca o rádio brasileiro em um momento de decisiva transição, o objetivo deste trabalho monográfico é relatar o andamento da digitalização, culminando no anúncio da migração e com ênfase no planejamento das rádios AM de Bento Gonçalves. Os objetivos específicos a são

10 10 resgatar a história do rádio, pontuando acontecimentos que impactaram, de alguma forma, o modo de produção e transmissão de conteúdo; detalhar o processo de digitalização do rádio, elencando todos os modelos implantados em diversos países e aqueles que vêm sendo testados no Brasil; compreender como as indefinições acerca da migração resultaram em um Decreto de Lei autorizando a migração das rádios AM para FM; e, por fim, relatar a analisar como as emissoras AM do município de Bento Gonçalves estão se preparando financeira e estruturalmente para a migração. O município de Bento Gonçalves, localizado na Encosta Superior do Nordeste do Rio Grande do Sul, dista 124 quilômetros da capital do Rio Grande do Sul, Porto Alegre. De acordo com dados do IBGE de 2013, sua população estimada é de habitantes. Os principais setores da economia atualmente são o moveleiro, vinícola, metalúrgico, de transportes e a fruticultura. Bento Gonçalves possui colocação elevada no Índice de Desenvolvimento Socioeconômico (Idese), tendo liderado o ranking no ano de 2010 entre os municípios com população acima de 100 mil habitantes no Rio Grande do Sul. Além de sua importância econômica para o estado, esse é o município de residência da autora da pesquisa, o que justifica a escolha pelas rádios locais AM como estudo de caso. As hipóteses que nortearam esta pesquisa foram três: 1) Por se tratar de um processo irreversível, as emissoras AM de Bento Gonçalves estão envolvidas; 2) O investimento em equipamentos e regularização da documentação para migração será robusto; 3) O movimento de migração pode impactar no perfil do conteúdo ofertado pelas emissoras. Para atingir o objetivo deste trabalho, foi realizada uma revisão bibliográfica sobre as origens do rádio, sua chegada ao Brasil e como ele se desenvolveu no país até os dias atuais. Fez-se necessário analisar, também, a legislação pertinente ao tema

11 11 da digitalização e da migração. Criou-se um instrumento de pesquisa em forma de questionário aberto para a realização de entrevistas presenciais com os diretores das duas emissoras AM localizadas em Bento Gonçalves: Rádio Difusora 890 AM e Rádio Viva 1070 AM. A apresentação deste trabalho monográfico foi feita em sete capítulos. O capítulo de número 1 é a Introdução, onde se apresenta o objeto de estudo, pontuando brevemente os conceitos que permeiam este trabalho: rádio, internet, digitalização, migração, o município de Bento Gonçalves e as rádios entrevistadas. No segundo capítulo, Rádio e história, conduz-se um recorte histórico sobre a trajetória do rádio no mundo e no Brasil, iniciando pela polêmica sobre o real inventor do rádio: Marconi ou Landell de Moura? A seguir, descreve-se o período de transmissões experimentais no Brasil, até a primeira transmissão oficial, em 1822, e a fundação do primeiro Rádio Clube, no ano seguinte. Pontua-se os primeiros decretos envolvendo o serviço de radiodifusão no país, o advento da televisão, a chegada das rádios FM, da transmissão via satélite e a criação das rádios comunitárias. Novidades no ar: a internet é o capítulo 3, que contextualiza o período de estagnação do rádio brasileiro coincidente com a chegada da internet no país, abordando-se as origens dessa tecnologia e as possibilidades de uso que foram desenvolvidas, principalmente a criação dos programas que possibilitaram o uso doméstico da internet. A seguir, apresenta-se o uso inicial dado pelas emissoras brasileiras de rádio para a internet, até a criação das primeiras webradios, que alteraram rapidamente os processos de produção e transmissão de conteúdos. Pontuase brevemente a inexistência de mecanismos de regulação da internet que colocam as webradios em patamares diferentes do rádio convencional. Por fim, apresenta-se o Marco Civil da internet, primeira tentativa de definir direitos e deveres dos usuários e provedores da web. No quarto capítulo, A digitalização do rádio, aborda-se a perda de espaço do rádio nos lares brasileiros, onde predomina a presença da televisão e se registra elevação gradual no número de computadores. Em um cenário de convergência das

12 12 mídias, reforçada pela internet, a digitalização do rádio surge como um recurso para sua revitalização e recuperação da audiência. São apresentados os modelos implantados com êxito em diferentes partes do mundo e como iniciaram os testes no Brasil para eleger um sistema apropriado para o país. São citados os testes e audiências realizados e a indefinição sobre o tema, que culminou do adiamento da digitalização e anúncio da migração das rádios AM para FM, bem como suas consequências. No capítulo 5, é desenvolvida a pesquisa em si, descrevendo-se seus objetivos, hipóteses e a metodologia utilizada para a obtenção dos resultados. Detalham-se os métodos e técnicas aplicados para, então, estabelecermos o contexto local que envolve a pesquisa. Abordam-se as origens e características do município de Bento Gonçalves, escolhido como cenário desse estudo, enumerando-se também os veículos de imprensa existentes no município. Após, remonta-se o histórico das rádios AM da cidade para, então, pormenorizar as entrevistas realizadas com Volnei Pertile, diretor da Rádio Difusora 890 AM, e Marcos Piccoli, diretor do Grupo RSCOM, detentor da Rádio Viva 1070 AM. Por fim, é feita uma breve análise das falas dos entrevistados. As Notas conclusivas, tema do capítulo 6, exploram informações apresentadas anteriormente sobre a história do rádio, as promessas para seu futuro e as dificuldades do processo de digitalização. Com isso, procede-se a uma avaliação das certezas e dúvidas identificadas nas rádios entrevistadas. Com base nas entrevistas abertas, foi possível determinar os aspectos que recebem maior atenção e investimentos por parte dos radiodifusores, indicando, por exemplo, que as questões envolvendo conteúdo estão em segundo plano. Cabe pontuar que o presente estudo não tem caráter conclusivo, mas representa um recorte do momento atual do rádio brasileiro com ênfase nas emissoras AM de Bento Gonçalves. Portanto, decisões governamentais e mudanças do próprio cenário mercadológico podem, a qualquer momento, alterar as percepções apresentadas.

13 2 RÁDIO E HISTÓRIA Nos dicionários da Língua Portuguesa Aurélio, Houaiss, Michaelis e Priberam, as definições de rádio predominantes são osso do antebraço, elemento metálico branco, brilhante, alcalinoterroso, intensamente radioativo, quimicamente semelhante ao bário e aparelho de radiofonia que recebe ondas hertzianas. A versão online do Michaelis ainda amplia suas significações com a definição de atividade artística, educativa e informativa da radiofonia. Das três definições mais vistas, apenas uma está relacionada ao objeto desse estudo. Não trataremos aqui sobre elementos químicos ou partes do corpo humano, mas a respeito de um aparelho que revolucionou a comunicação à distância, ao possibilitar a emissão de mensagens sonoras sem fio de um transmissor para diversos receptores simultâneos. Para melhor compreender o passado e o presente do rádio, deve-se considerar que existem dois aspectos a serem avaliados: de um lado, está a tecnologia que permite a transmissão de sons usando ondas eletromagnéticas; de outro, estão os usos dessa tecnologia e sua evolução como veículo de comunicação massivo nesses mais de 120 anos transcorridos desde que o padre Landell de Moura realizou a primeira transmissão pública por meio de ondas hertzianas no Brasil ou, do outro lado do Oceano Atlântico, desde que Marconi fez sua demonstração pública e confirmada de radiotelegrafia, na Itália. Ferraretto (2001, p. 86) situa a primeira transmissão radiofônica comprovada e eficiente no ano de 1906, em Massachussets, Estados Unidos. O dono do feito foi o canadense Reginald Aubrey Fesseden, que, usando um alternador desenvolvido pelo sueco Ernest Alexanderson, transmitiu o som de um violino, de trechos da Bíblia e de uma gravação fonográfica. Ele é, contudo, mais um entre os vários pesquisadores de diversas nacionalidades apontados como o criador do rádio. A pesquisa de Ferraretto (2001) situa a origem dessa tecnologia no legado de Samuel Morse, com o telégrafo desenvolvido entre 1832 e 1837, e Alexander Graham Bell, detentor da patente do telefone, em Nos anos que se seguiram, muitos

14 14 pesquisadores de diversos países desenvolveram estudos sobre a eletricidade e suas características. Mas foi na última década do século XIX, como aponta Prado (2012), que o italiano Guglielmo Marconi utilizou seus estudos sobre as ondas hertzianas para produzir ondas de rádio. Em palestra feita na Fundação Nobel em dezembro de 1909, Marconi explicou os objetivos de seus estudos: Na minha casa perto de Bolonha, na Itália, iniciei, em 1895, testes externos e experiências com o objetivo de determinar se seria possível, por meio de ondas hertzianas, transmitir a uma distância telegráfica sinais e símbolos, sem o auxílio de fios de ligação. Depois de alguns experimentos preliminares com ondas hertzianas, fiquei muito convencido de que, se essas ondas ou ondas semelhantes poderiam ser confiavelmente transmitidas e recebidas por distâncias consideráveis, um novo sistema de comunicação se tornaria disponível, possuindo enormes vantagens sobre os refletores e métodos óticos, que são muito dependentes para o seu sucesso da clareza da atmosfera (NOBEL, 1909, tradução nossa). Assim, Marconi é citado como o responsável pelas pesquisas que trouxeram à realidade a radiotelegrafia. Em 1896, ele conseguiu realizar a primeira demonstração pública e confirmada de radiotelegrafia (FERRARETTO, 2001, p. 82), transmitindo uma mensagem em Código Morse. Com isso, obteve em Londres a patente sobre o telégrafo sem fio. Embora seu nome tenha ficado para a História, Marconi é considerado um homem visionário, mas não o pai dessa invenção, pois baseou-se nas teorias já estudadas por outros cientistas para aperfeiçoar suas ideias (PRADO, 2012, p.30). Ainda que o seu trabalho seja apontado como o resultado exitoso das pesquisas de seus antecessores, Prado reconhece seus méritos: O sucesso de Marconi deu início a uma revolução mundial no campo das comunicações. Outros inventores passaram a ocupar-se do rádio, várias nações reivindicaram a primazia da invenção (na França era atribuída a Brianey, nos Estados Unidos a Lodge, na Alemanha a Staby). O próprio governo italiano viria a demonstrar interesse tardio e oferecer a Marconi o navio Carlos Alberto para outras experiências (2012, p.32).

15 15 Embora a primeira transmissão sonora radiofônica comprovada e eficiente seja atribuída, como citado anteriormente, a Reginald Aubrey Fesseden pelo experimento realizado em 1906, a emissão de sons via rádio teria sido feita antes disso. Antes até da transmissão do Código Morse por Marconi, o padre gaúcho Roberto Landell de Moura chegou a obter resultados por vezes superiores aos dos cientistas estrangeiros (FERRARETTO, 2001, p. 83). Mas suas descobertas nunca chegaram a ter a repercussão obtida pelo italiano. Prado situa: Diferentemente do ocorrido com Landell de Moura, Marconi conseguiu ser reconhecido e foi agraciado em 1909, recebendo, juntamente com o alemão Karl Ferdinand Braun, o Nobel de Física. Braun é o descobridor dos semicondutores, dentre eles, o sulfeto de chumbo natural, um mineral conhecido como galena, base do histórico rádio de galena (2012, p.33). O padre Roberto Landell de Moura nasceu em Porto Alegre, onde iniciou seus estudos, tendo concluído sua formação em Roma, no Colégio Pio Americano e estudado Química na Universidade Gregoriana. De volta ao Brasil, por volta de 1886 e instalado no Rio de Janeiro, celebrou missas na presença do Imperador Dom Pedro II. Alencar situa que, na Capital Federal, o padre encontrou-se em algumas ocasiões com o Imperador do Brasil D. Pedro II, tendo lhe falado sobre suas pesquisas acerca da transmissão do som. O assunto fascinava D. Pedro II a ponto de ele ter financiado, em 1856, parte dos trabalhos de Alexander Graham Bell nos Estados Unidos. Nos anos que se seguiram, ele exerceu o ministério sacerdotal em cidades do Rio Grande do Sul e São Paulo. Instalado na capital paulista entre 1893 e 1894 portanto, pelo menos dois anos antes da demonstração pública de Marconi Landell de Moura teria realizado as suas primeiras experiências com transmissão e recepção de sons por meio de ondas eletromagnéticas [...] (FERRARETTO, 2001, p. 83). Precisamente em 1894, de acordo com Alencar, o padre realizou a primeira transmissão pública por meio de ondas hertzianas, entre o alto da Avenida Paulista e o alto de Sant'Anna, em São Paulo, cobrindo uma distância de oito quilômetros. Apesar de seus avanços, o padre era vítima da descrença e, em certa ocasião, declarou:

16 16 Quero mostrar ao mundo que a Igreja Católica não é inimiga da Ciência e do progresso humano. Indivíduos, na Igreja, podem, neste ou naquele caso, haverse oposto a esta verdade; mas fizeram-no por cegueira. A verdadeira fé católica não a nega. Embora me tenham acusado de participante com o diabo e interrompido meus estudos pela destruição de meus aparelhos, hei de sempre afirmar: isto é assim e não pode ser de outro modo... Só agora compreendo Galileu exclamando: E pur se muove! (ALENCAR apud FORNARI, 1960). Foi somente em março de 1901 que Landell obteve, no Brasil, a Carta Patente número O objeto da invenção é um aparelho que se presta à transmissão a distância com fio e sem fio condutor, tanto através do espaço e da terra, como do elemento aquoso (FERRARETTO, 2001, p.84). Em vida, Landell de Moura não obteve apoio, reconhecimento ou recursos financeiros para suas atividades científicas. Num esforço para levar adiante suas descobertas, rumou aos Estados Unidos, onde conseguiu, em 1904, outras três cartas patentes: para o telégrafo sem fio; para o telefone sem fio e para o transmissor de ondas sonoras. Depois disso, sem conseguir efetivar parcerias que pudessem levar adiante suas ideias, o padre voltou ao Brasil e retomou sua vida eclesiástica e acadêmica. O mérito pela primeira transmissão de voz coube a Fesseden, em Mas, na forma como conhecemos atualmente, o rádio foi imaginado [...] a partir de 1916, quando o russo radicado nos Estados Unidos, David Sarnoff, anteviu a possibilidade de cada indivíduo possuir em casa um aparelho receptor (FERRARETTO, 2001, p.23). Sarnoff era funcionário da empresa que Guglielmo Marconi fundou com atuação na Grã-Bretanha e Estados Unidos, sendo uma espécie de pioneira nas comunicações presente em vários países. A pesquisa de Ferraretto (2001) situa que o russo registrou suas intenções para a direção da empresa por meio de um memorando, concebendo a ideia de aproveitar o rádio como meio de comunicação de massa, pois até então a ferramenta havia sido utilizada para o envio de mensagens de uma pessoa à outra ou de uma pessoa a um público reunido em torno de uma caixa receptora.

17 17 A ideia permaneceu por alguns anos nas gavetas da corporação, somente tendo sido levada adiante por outra empresa, a Westinghouse Eletric and Manufacturing Company, a partir da criação da KDKA, em novembro de Conforme Ferraretto, nascia com a KDKA oficialmente a indústria de radiodifusão, no sentido de produção e transmissão de conteúdos, um novo campo para investimento de capital (2001, p.89). No Brasil, a partir de 1919, já havia algumas experiências de radioamadorismo, como o Rádio Clube de Pernambuco, em Recife. Porém, a chegada efetiva do rádio veio por intermédio da própria Westinghouse, que numa investida da estratégia de busca de novos mercados [...] enviou, a título de demonstração, duas estações transmissoras de 500W ao Brasil (FEDERICO, 1982, p. 15). A década de 1920 é descrita por Federico (idem) como uma época de transmissões experimentais e iniciais em todo o mundo. A autora enumera a chegada do rádio nessa época em pelo menos 12 países, além do Brasil: Alemanha, Bélgica, Canadá, Inglaterra, Espanha, Argentina, França, Itália, Portugal, Japão, Polônia e Suécia. A primeira demonstração em terras brasileiras ocorreu por ocasião do centenário da Independência, em 1922, com uma estação de radiotelefonia montada no alto do Corcovado: Essa estação teve receptores alto-falantes colocados estrategicamente nos recintos da exposição do centenário da nossa independência, pelos quais os visitantes puderam ouvir o pronunciamento do Presidente Epitácio Pessoa que a inaugurou. Esses receptores em forma de corneta propiciaram ainda a audição da canção O Aventureiro, da obra O Guarani, de Carlos Gomes (FEDERICO, 1982, p. 33). Ferraretto destaca que a demonstração promovida pelo capital norteamericano atingiria o seu objetivo, despertando o interesse dos pioneiros do rádio no Brasil (2001, p.94). Presente na ocasião, o antropólogo Edgar Roquette-Pinto, que ocupava o cargo de secretário na Academia Brasileira de Ciências, prontamente vislumbrou aquela revolucionária invenção utilizada com objetivo cultural e educativo.

18 18 Para implantar a primeira emissora de rádio com funcionamento regular no país, Roquette-Pinto contou com o apoio dos membros da Academia especialmente de seu presidente, Henrique Morize. Fundada em 20 de abril de 1923, a Rádio Sociedade do Rio de Janeiro passou a operar durante uma hora por dia 2. Logo no começo, o Governo designou o Departamento de Correios e Telégrafos, vinculado ao Ministério da Viação, como responsável pela emissão de licenças para os primeiros proprietários de aparelhos de rádio. Naturalmente, os primórdios do rádio no Brasil foram marcados por um período de adaptação, sem uma programação totalmente definida e com público ainda muito insipiente. Além disso, a ideia de Roquette-Pinto de que o Rádio iria trabalhar pela cultura dos que vivem em nossa terra e pelo progresso do Brasil (FERRARETTO, 2001, p.97) não se concretizou tão cedo. Magaly Prado (2012) esclarece que apenas a elite brasileira tinha condições financeiras de acesso ao aparelho nessa fase inicial do rádio. Além do custo alto, as pessoas pagavam uma mensalidade para ouvir a emissora, já que era a contribuição dos associados que cobria os custos da operação. Os interessados nessa nova tecnologia da época esbarravam, ainda, na escassez de aparelhos no país. Em 1922, quando da demonstração da Westinghouse, apenas 80 aparelhos foram trazidos junto com os dois transmissores. Além deles, de acordo com Federico, havia alguns do tipo alto-falantes e outros do tipo galena (fabricados em casa) com fones de ouvido. Esses aparelhos individuais foram distribuídos a pessoas de destaque no Distrito Federal (1982, p.46). Além das contribuições mensais e do preço elevado dos aparelhos de rádio, houve outros fatores que elitizaram esse meio de comunicação nos seus primeiros anos. Segundo Federico (1982), havia taxas a serem pagas por quem desejasse 2 Para efetuar essas transmissões, conforme Ferraretto (2001), a Rádio Sociedade do Rio de Janeiro obteve autorização do governo para utilizar, durante uma hora por dia, a estação de transmissão da Praia Vermelha uma das duas instaladas no Rio de Janeiro por ocasião do centenário da Independência. Sensibilizado pela utilidade dos equipamentos para radiotelefonia, o governo acabou adquirindo a estação instalada na Praia Vermelha. A outra, no Corcovado, já havia sido desmontada e regressara aos Estados Unidos.

19 19 escutar de casa as transmissões radiofônicas da Rádio Sociedade. Antes de instalar o aparelho, devia-se protocolar junto ao Ministério da Viação um requerimento de licença pelo qual se cobrava uma estampilha, ou taxa administrativa. Também era necessário um certificado de idoneidade emitido pela própria Rádio Sociedade, para o qual também havia custos. A autora esclarece que isso se devia ao temor do Governo da então Capital Federal de que os ouvintes interceptassem correspondências radiotelefônicas em seus aparelhos domésticos. Todos esses requisitos formais, que deviam ser preenchidos pelos ouvintes para usufruírem dos benefícios da radiodifusão, eram não só desencorajantes como onerosos. Portanto, só uma minoria economicamente privilegiada poderia despender não só o dinheiro necessário como o tempo para a obtenção de todos os deferimentos (FEDERICO, 1982, p.47). E, como se não bastasse, a programação era basicamente constituída por música clássica e discursos altamente eruditos o que se agravava pela falta de regularidade das transmissões. Conforme Ferraretto, a primeira sequência de programas organizados pela Rádio Sociedade contemplava notícias de interesse geral, conferências literárias, artísticas e científicas, números infantis, poesia, música vocal e instrumental (2001, p. 96). As dificuldades existiam porque o rádio brasileiro estabeleceu-se a partir de uma dupla determinação, segundo Lia Calabre: um veículo de comunicação privado, portanto subordinado às regras do mercado econômico, mas, ao mesmo tempo, controlado pelo Estado (2004, p.12). Nesse período, os pioneiros do rádio ainda não haviam percebido a possibilidade de exploração da publicidade, o que mudou em 1924: Esta nova consciência das possibilidades lucrativas do veículo tem suas origens na Rádio Clube do Brasil, fundada em 1º de junho de 1924 por Elba Dias, um dos técnicos que auxiliara na estruturação da Rádio Sociedade. A emissora foi a primeira a obter autorização para transmitir publicidade (FERRARETTO, 2001, p.100).

20 20 A década de 1920 foi marcada, portanto, pelo surgimento das primeiras emissoras de rádio e por uma exploração ainda pouco estruturada desse meio de comunicação. A grande virada da radiodifusão no país se deu entre 1931 e 1932, com a publicação de dois decretos governamentais. O primeiro, de número e publicado em de 27 de maio de 1931, regula a execução dos serviços de radiocomunicações no território nacional 3 (BRASIL, 1931). Esse decreto caracterizou como serviços da radiocomunicação, a radiotelegrafia, a radiotelefonia, a radiofotografia, a radiotelevisão, e quaisquer outras utilizações de radioeletricidade, para a transmissão ou recepção, sem fio, de escritos, sinais, imagens ou sons de qualquer natureza por meio de ondas hertzianas (idem). O outro, de número , regulamentou o decreto anterior e ainda contemplou a inserção de comerciais até um limite de 10% da programação, como descrito em seu parágrafo de número 73: Art. 73. Durante a execução dos programas é permitida a propaganda comercial, por meio de dissertações proferidas de maneira concisa, clara e conveniente à apreciação dos ouvintes, observadas as seguintes condições: a) o tempo destinado ao conjunto dessas dissertações não poderá ser superior a dez por cento (10%) do tempo total de irradiação de cada programa; b) cada dissertação durará, no máximo, trinta (30) segundos; c) as dissertações deverão ser intercaladas nos programas, de sorte a não se sucederem imediatamente; d) não será permitida, na execução dessas dissertações, a reiteração de palavras ou conceitos (BRASIL, 1932). Nessa época, Ferraretto (2001, p. 101) elenca a existência de emissoras nos estados da Bahia, Ceará, Maranhão, Minas Gerais, Pará, Paraná, Pernambuco, Rio de Janeiro, Rio Grande do Sul, Santa Catarina e São Paulo. O advento da publicidade 3 No decreto , é usado, pela primeira vez em um documento legal, o termo radiodifusão. Ferraretto elucida que, antes dele, as emissoras de rádio eram enquadradas na legislação da telefonia e da telegrafia sem fios (2001, p. 103).

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