NOTA TÉCNICA Nº 502/2010/COGES/DENOP/SRH/MP

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1 MINISTÉRIO DO PLANEJAMENTO, ORÇAMENTO E GESTÃO Secretaria de Recursos Humanos Departamento de Normas e Procedimentos Judiciais Coordenação-Geral de Elaboração, Sistematização e Aplicação das Normas NOTA TÉCNICA Nº 502/2010/COGES/DENOP/SRH/MP ASSUNTO: Solicitação de consulta acerca do Regime de Dedicação Exclusiva dos servidores integrantes da Carreira de Especialistas em Políticas Públicas e Gestão Governamental, exercendo atividade remunerada na iniciativa privada, podendo gerar conflito de interesses. Referência: Processo nº / SUMÁRIO EXECUTIVO 1. Procedente da Associação Nacional dos Especialistas em Políticas Públicas e Gestão Governamental ANESP, o presente processo trata de questionamentos acerca do regime de trabalho denominado dedicação exclusiva atinente à Carreira de Especialistas em Políticas Públicas e Gestão Governamental, no tocante ao exercício de outra atividade remunerada potencialmente causadora de conflitos. ANÁLISE 2. A ANESP solicita uma análise dos dispositivos que tratam da dedicação exclusiva abordando alguns pontos específicos: a) se a única exceção é o magistério; b) as atividades como, por exemplo, profissional, liberal/autônomo também estão abrangidas ou apenas atividades com vínculos; c) qualquer atividade pública ou privada ou qualquer atividade pública ou privada potencialmente causadora de conflito de interesses ; d) qual o entendimento para outras carreiras que já recebiam por subsídio. 3. O processo foi submetido à análise desta Secretaria de Recursos Humanos SRH/MP que, na qualidade de órgão central do Sistema de Pessoal Civil da Administração Federal, procedeu exame preliminar dos autos, tendo exarado Nota Informativa nº 84/2009/COGES/DENOP/SRH/MP, de 14 de outubro de 2009, fls. 22/24, nos seguintes termos:

2 4. Assim, excetuando-se as atividades de docência, os servidores da referida Carreira somente poderão exercer outra atividade remunerada, caso elas não gerem conflito de interesses com as atribuições do cargo público que ocupa. 9. Ressalte-se que, em face da abrangência e subjetividade de tal hipótese, cabe às unidades de recursos humanos dos respectivos órgãos apreciar cada caso, individualmente, a fim de verificar a ocorrência de conflito de interesses quando do desempenho de outra atividade remunerada pelo servidor submetido ao regime de dedicação exclusiva. Em caso de dúvidas, poderá consultar a Comissão de Ética Pública da Presidência da República. 10. Nesse contexto de restrições, há que se destacar, ainda, em atenção ao questionamento promovido pela ANESP, que as atividades exercidas na condição de profissional liberal ou autônomo, embora não ensejem vínculo empregatício, são remuneradas; portanto, estão inseridas no rol das proibições previstas pelo art. 17, da Lei nº , de Assim, da mesma forma que as demais atividades remuneradas, a atuação, na qualidade de profissional liberal, autônomo ou consultor, também, deve estar atrelada à inexistência de conflitos de interesses. 11. Com estes esclarecimentos submetemos o presente Documento à consideração superior, sugerindo o encaminhamento à Consultoria Jurídica deste Ministério, para prosseguimento. 4. Ciente dessa orientação, os autos foram analisados pela Consultoria Jurídica deste Ministério CONJUR/MP, fls. 27/36, que ao apreciar o mérito da questão, assim se pronunciou: 6. A nosso ver, a interpretação adotada pela Secretaria de Recursos Humanos deste Ministério não se coaduna com o regime constitucional das relações entre o servidor público e a Administração Federal, tampouco com os institutos regulados pela norma em análise, conforme se passa a demonstrar. 8. Inversamente ao entendimento encetado pela Secretaria de Recursos Humanos, uma leitura lógico- sistemática do art. 17, em cotejo com seu parágrafo único, da Lei nº , nos leva a conclusão de que o permissivo, aparentemente abrangente, contido no caput, tem seu conteúdo restringido pelo parágrafo único. 9. Por esse viés interpretativo, o parágrafo único teria por finalidade explicitar as exceções ao regime de dedicação exclusiva, acenado na cabeça do dispositivo, de tal arte que aos titulares dos cargos integrantes das Carreiras do Ciclo de Gestão, e demais arrolados no art. 10 da Lei /2008, permitir-se-ia tão somente o exercício da docência, como expressamente dispõe, além do exercício das atividades elencadas no parágrafo único do art Não se olvide, ademais, do princípio basilar da hermenêutica, segundo o qual, a exceção deve ser interpretada restritivamente, orientação que vai ao encontro da linha interpretativa ora adotada. Interpretar-se a norma de forma abrangente, de modo a permitir o exercício de outras atividades públicas ou privadas desde que inexistente o potencial conflito de interesses, representaria o inevitável esvaziamento do regime de dedicação exclusiva. Sob essa ótica, a redação do art. 17, caput da Lei /2008 não passaria de mera repetição do que dispõem os arts. 37, XVI da Constituição, e do art. 17, XVIII da Lei 8.112/90, descaracterizando por completo o regime de dedicação exclusiva. 11. Quisesse o legislador retroceder na proposta de implantação do regime de dedicação exclusiva para as carreiras em análise, deveria tê-lo feito mediante retirada da expressão do caput, o que não ocorreu. 2

3 13. Paralelamente a isso, cumpre assinalar que o regime jurídico dos servidores públicos encontra assento na Constituição Federal, devendo a legislação infraconstitucional a ela submeter-se. Especificamente no que tange à possibilidade de cumulação de cargos públicos, assim dispõe o art. 37, XVI de nossa Carta Política: Art. 37. (omissis) XVI - é vedada a acumulação remunerada de cargos públicos, exceto, quando houver compatibilidade de horários, observado em qualquer caso o disposto no inciso XI. a) a de dois cargos de professor; b) a de um cargo de professor com outro técnico ou científico; c) a de dois cargos ou empregos privativos de profissionais de saúde, com profissões regulamentadas; 14. Conforme se depreende da leitura do dispositivo constitucional, a única possibilidade de acumulação de cargo público para o Especialista em Políticas Públicas e Gestão Governamental, carreira a que se reporta a consulta formulada, é a insculpida na alínea b, qual seja, o exercício do magistério, respeitada a compatibilidade de horários, na hipótese de considerarem-se as Carreiras do Ciclo de Gestão inseridas no conceito de cargo técnico ou científico. 15. Em nosso sentir, a Lei nº , de 24 de dezembro de 2008, em seu art. 17, repetiu o comando constitucional no que pertine à possibilidade de cumulação, o que permite inferir que os cargos arrolados no art. 10 devem ser compreendidos como técnicos ou científicos. 16. Quadra registrar, por oportuno, que em nosso sistema jurídico qualquer restrição quanto ao regime de jornada de trabalho dos servidores públicos federais somente será legítima e válida se puder ser subsumida em uma norma ou princípio constitucional que expressamente enuncie a mesma restrição normatizada pela legislação infraconstitucional. Não sendo possível, conseqüentemente, à legislação infraconstitucional vedar hipótese de acumulação de cargos, empregos e/ou funções públicas, permitidas expressamente pela Constituição Federal. 17. Neste diapasão, o art. 17 da Lei nº /2008, ao prever o regime de dedicação exclusiva para os cargos que enumera, com as ressalvas expressas, não pode inviabilizar o exercício do direito subjetivo à acumulação de cargos previsto em sede constitucional, tal como aquele relativo ao cargo político de vereador e de vice-prefeito, por exemplo, desde que haja compatibilidade de horários. 18. Ademais, garante a Constituição em seu art. 5º, IX, alçando-a a categoria de direito individual, "a livre expressão da atividade intelectual, artística, científica e de comunicação, independentemente de censura ou licença", razão pela qual tais atividades não são passíveis de limitação pela norma infraconstitucional. 19. Por fim, com relação ao questionamento contido na letra (d) do Ofício ANESP nº 011/2009 (fl. 01), supra transcrito, esta Consultoria não vislumbra correlação entre a percepção mediante subsídios e o regime de dedicação exclusiva. Com efeito, a Emenda Constitucional nº 19/98, ao dispor sobre a remuneração por subsídios nada menciona acerca do regime de dedicação exclusiva, conforme se verifica dos dispositivos abaixo transcritos: Art. 39 4º O membro de Poder, o detentor de mandato eletivo, os Ministros de Estado e os Secretários Estaduais e Municipais serão remunerados exclusivamente por subsídio fixado em parcela única, vedado o acréscimo de qualquer gratificação, adicional, abono, prêmio, verba de representação ou outra espécie remuneratória, obedecido, em qualquer caso, o disposto no art. 37, X e XI. 8º A remuneração dos servidores públicos organizados em carreira poderá ser fixada nos termos do 4º. 3

4 22. Pelo exposto, concluímos que o entendimento esposado pela Secretaria de Recursos Humanos deste Ministério não é o mais consentâneo com o regime de dedicação exclusiva preconizado pela norma. Interpretação lógico-sistemática, à luz do texto constitucional, conduz a uma interpretação mais restritiva, a partir da qual, respondem-se pontualmente os questionamentos: a), b) e c) As únicas exceções ao regime de dedicação exclusiva são o magistério e as hipóteses previstas no parágrafo único, bem como as exceções constitucionalmente erigidas. d) Vide itens 17 a Com efeito, em consonância com o pronunciamento contido no Parecer/MP/CONJUR/JD/Nº /2010, de 28 de janeiro de 2010, entendemos que a Administração Pública encontra-se sujeita a regras específicas quanto à cumulação de cargos. Assim somente podem ser acumulados os casos previstos na Constituição Federal de 1988, devendo a norma infraconstitucional a ela submeter-se, pois assim dispõe o art. 37 da Lei Maior: Art. 37 A administração pública direta e indireta de qualquer dos Poderes da União, dos Estados, do Distrito Federal e dos Municípios obedecerá aos princípios de legalidade, impessoalidade, moralidade, publicidade e eficiência e, também, ao seguinte: XVI - é vedada a acumulação remunerada de cargos públicos, exceto, quando houver compatibilidade de horários, observado em qualquer caso o disposto no inciso XI. (Redação dada pela Emenda Constitucional nº 19, de 1998) a) a de dois cargos de professor; (Incluída pela Emenda Constitucional nº 19, de 1998) b) a de um cargo de professor com outro técnico ou científico; (Incluída pela Emenda Constitucional nº 19, de 1998) c) a de dois cargos ou empregos privativos de profissionais de saúde, com profissões regulamentadas; (Redação dada pela Emenda Constitucional nº 34, de 2001). 6. A vedação constitucional abrange a acumulação de cargos efetivos, de contratação temporária ou provimento em comissão na Administração, direta ou indireta, autárquica, fundacional e abrange também as empresas públicas, sociedades de economia mista, do Distrito Federal, dos Estados, dos Territórios e dos Municípios. As três alíneas, do inciso XVI, do art. 37, constituem exceção à proibição de acumulação de cargo e se afigura um rol taxativo, a ser interpretado restritivamente, eis que impassível de ampliação. Dessa feita, considerando que o texto constitucional é imperativo ao excepcionar a acumulação de dois cargos apenas, não comporta a tripla acumulação remunerada. 7. No mesmo sentido é o que dispõe o artigo 118, da Lei nº 8.112, de 1990, que rege os servidores públicos da Administração direta, autárquica e fundacional, estabelece: 4

5 Art Ressalvados os casos previstos na Constituição, é vedada a acumulação remunerada de cargos públicos: 1º A proibição de acumular estende-se a cargos, empregos e funções em autarquias, fundações públicas, empresas públicas, sociedades de economia mista da União, do Distrito Federal, dos Estados, dos Territórios e dos Municípios. 2º A acumulação de cargos, ainda que lícita, fica condicionada à comprovação da compatibilidade de horários. Parágrafo único. O disposto neste artigo não se aplica à remuneração devida pela participação em conselhos de administração e fiscal das empresas públicas e sociedades de economia mista, suas subsidiárias e controladas, bem como quaisquer empresas ou entidades em que a União, direta ou indiretamente, detenha a participação no capital social, observado o que, a respeito, dispuser a legislação específica. (Redação dada pela Medida Provisória nº , de ). 8. Quanto à consulta promovida pela ANESP, em resposta aos questionamentos a, b, c e d entende-se que aos servidores titulares da Carreira de Especialistas em Políticas Públicas e Gestão Governamental não é permitido desempenhar qualquer outra atividade remunerada, pública ou privada, com exceção ao exercício de magistério e as atividades elencadas no parágrafo único do artigo 17 da Lei nº , de Desse modo, tal como impõe o Parecer AGU GQ 145, de 1998, é facultado aos servidores da carreira em comento a acumulação com o exercício de magistério, desde que não estejam sujeitos a carga horária semanal total superior a 60 horas, sendo essa acumulação considerada lícita enquanto se comprovar materialmente que o servidor consegue conciliar a carga horária dos dois cargos. CONCLUSÃO 10. Ante o exposto, a Constituição Federal de 1988 estabelece em seu inciso XVI do artigo 37, os casos que podem ocorrer a acumulação de cargos. Assim, a acumulação para a Carreira de Especialistas em Políticas Públicas e Gestão Governamental sob o regime de dedicação exclusiva será possível, no entanto, somente para o exercício de magistério e as atividades elencadas no parágrafo único do artigo 17 da Lei nº , de 2008, caso haja compatibilidade de horários e no exercício desses cargos não ocorra conflito de interesses. 5

6 11. Com estes esclarecimentos, submetemos a presente Nota Técnica à consideração superior, sugerindo o encaminhamento ao Departamento de Relações de Trabalho deste Ministério -DERT/MP, para providências subsequentes. Brasília, 03 de maio de MÁRCIA ALVES DE ASSIS Agente Administrativo ANA CRISTINA SÁ TELES D ÁVILA Chefe da DIORC De acordo. Á consideração superior. Brasília, 3 de maio de GERALDO ANTONIO NICOLI Coordenador-Geral de Elaboração, Sistematização e Aplicação das Normas Aprovo. Encaminhe-se à Departamento de Relações de Trabalho deste Ministério - DERT/MP, para providências subsequentes. Brasília, 13 de maio de VALÉRIA PORTO Diretora do Departamento de Normas e Procedimentos Judiciais 6

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