O RACIONALISMO COMO PROGRESSO: A AVENIDA AFONSO PENA E A. Resumo. Alessandro Borsagli Pontifícia Universidade Católica Minas Gerais

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1 O RACIONALISMO COMO PROGRESSO: A AVENIDA AFONSO PENA E A SUA INFLUÊNCIA NO CRESCIMENTO URBANO DE BELO HORIZONTE Alessandro Borsagli Pontifícia Universidade Católica Minas Gerais Fernanda Guerra Lima Medeiros Centro de Formação e Escola Técnica Minas Gerais Resumo O artigo pretende mostrar o processo de evolução da Avenida Afonso Pena, principal eixo articulador e de socialização da região central de Belo Horizonte, assim como as mudanças em sua paisagem urbana. Para se entender a dinâmica do processo de evolução da avenida e do seu entorno analisaram-se as plantas cadastrais da CCNC e da Prefeitura de Belo Horizonte, além de imagens aéreas e fotografias. A avenida se destacaria ao longo do Século XX como a via mais arborizada de Belo Horizonte, figurando muitas vezes como o cartão postal da nova capital. Além de ser o principal eixo de ligação e passagem obrigatória para se deslocar dentro da urbs mineira, a avenida também foi berço da verticalização, da sociabilidade entre a população e da congestão urbana na região central, antigo bairro do Comércio. Palavras-chave: Avenida Afonso Pena; Memória Urbana; Paisagem Urbana. Grupo de Trabalho n 8: Geografia Histórica Urbana

2 1. Introdução Belo Horizonte foi construída para ser um modelo de urbs no infante Brasil Republicano, que carecia de uma identidade coletiva. Projetada pela equipe do Engenheiro Aarão Reis a Planta da nova capital apresentava um traçado racional e positivista, muito parecido com um tabuleiro de xadrez, em conformidade com o pensamento vigente na época, sendo que a Planta rompia profundamente com a herança colonial, ainda viva na sociedade brasileira e execrada pelos republicanos, que se identificavam com os ideais secessionistas da Inconfidência de A nova capital, edificada em apenas quatro anos no local escolhido pelos políticos mineiros arrasou por completo o arraial do Curral del Rey, fundado no inicio do Século XVIII. Na nova capital prevaleceriam às ideias sanitaristas e o convívio social, através das Praças e Ruas arborizadas. Nesse ultimo aspecto a Avenida Afonso Pena se destacaria ao longo das seis primeiras décadas do Século XX como a via mais arborizada de Belo Horizonte e o ponto de encontro da população, figurando muitas vezes como o cartão postal da nova capital. Além de ser o principal eixo de ligação e passagem obrigatória para se deslocar dentro da nova capital mineira, a avenida também foi berço da verticalização e da congestão urbana na região central, anteriormente denominada bairro do Comércio. Para se compreender a dinâmica da Avenida Afonso Pena, assim como as mudanças sofridas na região do entorno da avenida e a influencia da via no crescimento urbano de Belo Horizonte se fez necessária a analise da primeira Planta confeccionada pela Comissão Construtora da Nova Capital (CCNC) em 1895, assim como a Planta da porção destinada à primeira ocupação da capital feita em As Plantas confeccionadas nas décadas seguintes foram imprescindíveis para o presente artigo, pois elas foram produzidas em conformidade com as obras que estavam em curso no momento da confecção, além das inúmeras fotografias tiradas ao longo das décadas, o que permitiu uma melhor compreensão da profunda mudança espacial na qual passava a capital mineira, em particular a Afonso Pena. De acordo com Corrêa (2000), o espaço urbano é um reflexo tanto de ações que se realizam no presente como também daquelas que se realizaram no passado e que deixaram suas marcas impressas nas formas espaciais do presente. O mesmo Corrêa observa que os agentes formadores do espaço urbano são responsáveis pelas constantes mudanças que ocorrem na paisagem urbana, pois: 2

3 A ação destes agentes é complexa, derivando da dinâmica de acumulação de capital, das necessidades mutáveis de reprodução das relações de produção, e dos conflitos de classe que dela emergem. A complexidade da ação dos agentes sociais inclui práticas que levam a um constante processo de reorganização espacial que se faz via incorporação de novas áreas ao espaço urbano, densificação do uso do solo, deterioração de certas áreas, renovação urbana, relocação diferenciada da infraestrutura e mudança, coercitiva ou não, do conteúdo social e econômico de determinadas áreas da cidade. (CORREA, 1993, p.11) Analisando a planta oficial da nova capital, confeccionada em 1895 percebe-se que Aarão Reis criou a cidade com duas malhas: as das ruas formando ângulos retos e as avenidas estrategicamente situadas, formando ângulos de 45º interagindo com as ruas 1. Essa interação tem, entre outras características evitar que sejam configuradas ruas em ziguezague, como o antigo Curral del Rey e as cidades surgidas no período colonial, que seguiam os traçados dos primeiros caminhos abertos. A Avenida Afonso Pena foi pensada como um eixo de passagem obrigatório para quem deseja ir de uma ponta a outra na zona urbana planejada, uma avenida monumental a altura da Planta confeccionada segundo Aarão Reis, que se preocupava com a simetria e a monumentalidade, sem levar em consideração as características físicas da região. Observa-se também que a avenida segue cortando as curvas de nível do terreno, ligando a parte baixa, na calha do Ribeirão Arrudas, onde se construiu o primeiro Mercado Municipal a parte alta, na época denominada Morro do Cruzeiro 2, atual Praça Milton Campos. A Avenida do Contorno apresenta-se como o limite da zona planejada, um muro imaginário com traços segregacionistas que separa a zona urbana da zona suburbana e dos sítios, que também figuram na planta apresentando ruas traçadas de acordo com a topografia e quarteirões irregulares, facilmente identificáveis em relação à zona planejada. O projeto dava maior importância à vista da Serra do Curral, que podia ser observada de toda a cidade planejada e ela ficava nos seus limites, encaixada entre a serra e o vale do ribeirão Arrudas. Em suma: a planta buscava atender os ideais 1 Essas malhas formaram dezenas de corta caminhos dentro da zona urbana planejada. Nos engarrafamentos cotidianos de Belo Horizonte os atalhos formados, em alguns casos permitem uma maior mobilidade nos horários de pico, mesmo estando nos aproximando do engarrafamento final, quando, em um determinado horário ninguém irá à parte alguma, retidos no meio da congestão viária e da poluição resultante dos milhões de veículos individuais. 2 O Morro do Cruzeiro tinha essa denominação devido a uma cruz de madeira que ai existiu, erguida pelos habitantes do Arraial no Século XIX. 3

4 positivistas e progressistas presentes na nascente republica e esses ideais estão representados em Belo Horizonte. Um espaço urbano organizado geometricamente, hierarquizado e com funções sociais e administrativas bem definidas e delimitadas. Um espaço que não tinha por objetivo harmonizar com o que já existia anteriormente, como afirma um dos seis estudos acadêmicos reunidos no livro BH, Verso e Reverso (1996): O projeto de Aarão Reis é minucioso, sofisticado, segregacionista e elitista. O plano da cidade determina o espaço a ser ocupado tanto pelas atividades (habitat, trabalho, lazer e administração pública, por exemplo) quanto pelas classes sociais, preservando e isolando as de maior poder aquisitivo. (BH Verso e Reverso,1996) Como dito anteriormente a Avenida Afonso Pena configura-se dentro da zona urbana planejada de Belo Horizonte como a principal via arterial da região central da capital, responsável pelo deslocamento de grande parte do fluxo viário e populacional proveniente dos bairros limítrofes a Avenida do Contorno em direção à região central. Criada para ser a principal via dentro da zona urbana, responsável pela ligação das zonas sul e norte ela apresenta um traçado retilíneo, assim como as demais avenidas planejadas, porém apresenta uma largura de 50 metros e dividindo a zona urbana desigualmente (Figura 01), enquanto as outras avenidas foram abertas com 35 metros de largura. Aarão Reis, em seu relatório para a Presidência do Estado em 1895 deu uma posição de destaque à Avenida, como se pode ler abaixo no trecho extraído do livro Memória Histórica, de Abílio Barreto (1996): Apenas a uma das avenidas que corta a zona urbana de norte a sul, e que é destinada à ligação dos bairros opostos dei a largura de 50 m, para constitui-la em centro obrigado da cidade e, assim, forçar a população, quanto possivel, a ir se desenvolvendo do centro para a periferia, como convem à economia municipal, à manutenção da higiene sanitaria e ao prosseguimento regular dos trabalhos tecnicos. (BARRETO, 1996) Segundo Guimarães (1993), as avenidas da zona urbana teriam a função de estabelecer ligações com pólos funcionais, facilitar os deslocamentos da população e direcionar o crescimento urbano do centro para a periferia, papel atribuido por Reis a Avenida Afonso Pena. Mas nos anos que se sucederam a inauguração da nova capital o crescimento urbano de Belo Horizonte se deu de forma inversa, onde os vazios urbanos dentro da Avenida do Contorno eram notaveis, e o crescimento da zona suburbana demandava cada vez mais a atenção do Poder Público, em particular a região oeste da capital, na qual a avenida era um dos acessos via Lagoinha e Ponte do Saco. 4

5 Fig.01 Planta Topográfica da Cidade de Minas confeccionada em 1895, onde se destaca a Avenida Afondo Pena, dividindo a zona urbana planejada. Escala 1: Fonte: PANORAMA, A avenida e a malha urbana da nova capital A avenida, nos seus primeiros anos havia sido aberta desde o antigo Mercado, onde hoje está a Rodoviaria até o cruzamento da Avenida Brasil. A partir daí ela se convertia em um caminho de terra que levava ao antigo Cruzeiro. Posteriormente ela foi estendida até o cruzamento da Avenida Paraúna, nas proximidades do Cruzeiro, ponto final da avenida segundo a Planta de Entre 1897 e 1920 a Cidade de Minas (a nova capital adotou o nome do antigo arraial de Belo Horizonte em 1901) apresentou um pequeno crescimento na zona urbana compreendida dentro da Avenida do Contorno, projetada para delimitar a zona urbana, simetricamente projetada com ruas regulares e áreas com funções especificas para a zona suburbana, já destinada a população de menor poder aquisitivo e que apresentava ruas e quarteirões irregulares, além da falta de infraestrutura urbana, diferentemente do que acontecia na zona urbana. Durante esse periodo a capital mineira permaneceu com ares de interior devido aos grandes vazios na zona urbana, fato que nao fugiu aos olhos de diversos visitantes ilustres que passaram por ela nesse periodo (Figura 02). 5

6 Fig.02 Avenida Afonso Pena nos primeiros anos da nova capital. Fonte: APCBH A falta de investimento por parte do Poder Publico e a especulação imobiliária atrasou a expansão urbana nos terrenos compreendidos dentro da Avenida do Contorno, cuja ocupação se limitava a região central (bairro comercial), e os bairros Floresta e Funcionários. A arrecadação era pequena e os recursos disponíveis não eram suficientes para a realização das obras necessárias. Isso se deve ao fato de a nova capital ter sido construída apenas para fins administrativos, uma utopia republicana abandonada logo após a inauguração de Belo Horizonte e a extinção da Comissão Construtora, no inicio de Era necessária para a expansão e manutenção da capital um comercio forte e um parque industrial significativo, que irradiasse sua influencia por todo o Estado. Essa preocupação com a arrecadação era sentida desde os primeiros anos da nova capital, como se lê nas palavras do prefeito interino Antonio Carlos Ribeiro de Andrada registrou em seu relatório (1906) que o futuro de Belo Horizonte está na dependencia completa das industrias que aqui se installem. Nas duas primeiras décadas do Século XX a Avenida Afonso e a Rua da Bahia consolidaram-se como o principal espaço de articulação urbana da capital (Figura 03). Eram nessas vias, calçadas somente no final da década de 1900 que se davam o maior fluxo de pessoas e de veiculos, motorizados ou não, de Belo Horizonte. Estas vias, mais os trechos compreendidos na Rua da Bahia entre Timbiras e Afonso Pena, Espirito Santo entre Afonso Pena e Avenida do Comércio, Afonso Pena entre as Ruas da Bahia e Espirito Santo, e por toda a Rua dos Caetés abrigavam grande parte das casas comerciais da nova capital e diversas residencias, muitas delas pertencentes aos 6

7 funcionarios da administração vindos de Ouro Preto. Outra caracteristica marcante desse periodo foram os cafés e bares que existiram ao longo da avenida, onde se destaca o Bar do Ponto, reduto de intelectuais e local de irradiação de noticias, discussões politicas, esportivas que existiu em frente ao Ponto de Bondes da Avenida Afonso Pena, no cruzamento com a Rua da Bahia. A Avenida viria a abrigar além dos cafés, hoteis, casas comerciais e residenciais, essas ultimas tiveram uma breve existencia, a medida que o bairro comercial vai assumindo funções especificas as residências foram sendo empurradas para os bairros adjacentes à regiao central. Fig.03 Cruzamento da Avenida Afonso Pena e Rua da Bahia na década de 1910, à esquerda o antigo Congresso Mineiro e o Bar do Ponto. Fonte: APM A Praça do Cruzeiro, na extremidade sul da avenida e o ponto mais elevado da zona urbana foi o local escolhido pela CCNC para se edificar a nova Catedral da Boa Viagem, segundo a Planta elaborada por esta Comissão. A Matriz, se construída nesse local teria sem dúvida alterado toda a perspectiva que se tinha desde o bairro comercial e adjacências, na outra extremidade da avenida. Talvez pela distancia que ficaria a nova Matriz do local determinado para a primeira ocupação urbana da nova capital ela não foi construída, preservando-se então a antiga Matriz da boa Viagem, que passou a ocupar um quarteirão inteiro dentro da zona urbana, no limite dos bairros do Comércio e dos Funcionários. 7

8 Posteriormente cogitou-se em transformar a Praça do Cruzeiro em mirante, por apresentar uma visão privilegiada de grande parte da capital, conforme relatório do Prefeito Flavio Fernandes dos Santos em 1923: Há muito que fazer nesta parte, mesmo não contando com a abertura de novas ruas ou trechos de ruas, nas zonas urbana e suburbana. Ninguém poderá negar que, ultimadas a Avenida Affonso Penna e a Praça do Cruzeiro, onde já foi executado grande movimento de terra, si não me engano, pela Comissão Construtora da Capital, muito terá a lucrar o bom aspecto da cidade. Para quem viesse visitar Bello Horizonte, desde que o accesso fosse um dos pontos forçados seria aquella praça, a que se poderia dar um aspecto, por sua vez, agradável, dotando-a de um jardim sem arborização espessa para não perturbar a vista. (SANTOS, 1923) A situação de estagnação em que se encontrava Belo Horizonte mudaria apenas na década de 20, quando se tem a primeira grande mudança espacial na capital mineira, em parte patrocinado pelo Estado, que tinha interesses especificos nas intervenções realizadas, além de continuar nomeando os Prefeitos que administravam a capital, fato que já ocorrida desde a extinção da Comissão Construtora da Nova Capital em As intervenções patrocinadas pelo Estado permitiram a continuação da urbanização dentro da zona compreendida dentro da Avenida do Contorno, nas proximidades da Serra do Curral. Tornou-se então necessaria a regularização e finalização da Avenida Afonso Pena e das vias no seu entorno. Em 1924 foi inaugurado o monumento comemorativo do centenário da Independencia do Brasil, na Praça Quatorze de Outubro, no cruzamento das Avenidas Afonso Pena e Amazonas. Após a inauguração do obelisco a Praça recebeu a denominação de Praça Sete de Setembro, local que se tornaria o marco zero do hipercentro de Belo Horizonte nas décadas seguintes, deslocando o espaço de articulação urbana do cruzamento da Rua da Bahia e Afonso Pena para o cruzamento da Avenida Amazonas. A retomada dos investimentos por parte do Poder Publico na decada de 20 permitiu a finalização da Avenida na segunda metade da decada. Em 1927 foi concluída a terraplanagem da Praça do Cruzeiro planejada pela CCNC no final do Século XIX e realizada exatos trinta anos depois de extinta a mesma Comissão no local que deveria ter sido erguida a nova Matriz da Boa Viagem. A terraplanagem removeu o barranco que impedia a finalização da Avenida (Figura 04) e a terra removida do local foi utilizada para aterrar o antigo leito do córrego do Acaba Mundo, retificado e canalizado para a Avenida Afonso Pena entre a Rua Professor Morais e o Parque Municipal, obra realizada no mesmo período. 8

9 Fig.04 Terraplanagem da Praça do Cruzeiro e finalização da Avenida Afonso Pena em Fonte: APM No trecho aberto entre a Praça 21 de Abril (Praça Tiradentes) e a Praça do Cruzeiro (Praça Milton Campos) a avenida se caracterizava pela predominância de casas residenciais, ainda presentes na paisagem urbana (Figura 05). É bom ressaltar que muitas delas já existiam mesmo estando a Avenida ainda inacabada até A região abaixo da Praça Tiradentes, continuava apresentando uma função mista, com predominância de casas comerciais, terrenos e edifícios institucionais, concentrados na sua maioria nas proximidades do Parque Municipal. Até a década de 40 ainda existiam muitos sobrados de dois pavimentos, destinados ao uso comercial e residencial. Grande parte dos sobrados da Avenida deu lugar aos edifícios construídos a partir de 1932, pioneiros no processo de verticalização da capital. A verticalização de BH teve inicio justamente no bairro comercial, sendo que em 1930 praticamente não existiam mais lotes vagos na Avenida Afonso Pena, de acordo com a Planta Cadastral de 1928/1929 (figura 05). Em Outubro de 1922 a Prefeitura lançou o regulamento de construções na capital que permitiu o aumento da densidade da área central, incentivando a sua verticalização. O concreto armado que já era empregado desde os anos 20 nas construções de pontes, reservatórios e de alguns pequenos edifícios, grande parte deles localizados na Rua dos Caetés teve de fato regulamentado o seu uso em 1933 com o Decreto Nº Nesse mesmo decreto a capital sofreu alterações em relação ao seu zoneamento. 9

10 Fig.05 Planta Cadastral de Belo Horizonte confeccionada em 1928/1929, onde se destaca a Avenida Afondo Pena e região central. Escala 1:5000. Fonte: PANORAMA, 1997 Anterior ao decreto foi inaugurado em 1932 o Cinema Brasil decretando o fim da era do tijolo e dando inicio a era do concreto armado em Belo Horizonte. O prédio do Cine Brasil, localizado na Praça Sete lançou um estilo arquitetônico amplamente adotado na capital nos anos 30 e 40: o estilo Art Decó, que traz como características marcantes a base retangular e os frisos horizontais em baixo relevo, como podemos observar nas imagens abaixo. A regulamentação do uso do concreto armado mostrou as suas consequências pouco tempo depois da publicação do Decreto. Em 1935 era inaugurado o edifício Ibaté, o primeiro arranha céu de Belo Horizonte construído na Rua São Paulo esquina com a Avenida Afonso Pena. Com a sua construção tiveram inicio a substituição das construções de finalidade residencial na área central, em particular as casas residenciais e comerciais na Avenida Afonso Pena, a maioria de no máximo três andares, muitas delas datadas da construção da capital. A verticalização permitiu o maior adensamento da região central e abriu caminho para a verticalização desenfreada das décadas seguintes, devido às sucessivas mudanças no Regulamento de Construções. Além do Ibaté e do Cine Brasil, ambos construídos na Afonso Pena, outros edifícios, todos destinados ao uso comercial construídos no mesmo período selaram definitivamente a mudança espacial da capital, adensando a área central e consolidando o modernismo 10

11 que, graças ao concreto armado, alterou profundamente a paisagem urbana na região central de Belo Horizonte, que se irradiou a partir da Avenida Afonso Pena (Figura 06), atingindo os bairros adjacentes nas décadas seguintes. Fig.06 A Avenida Afonso Pena em 1940, onde se destacam os edifícios Ibaté e Capixaba. Fonte: APM No inicio da década de 40, na gestão Juscelino Kubitscheck teve inicio o prolongamento da Avenida, com a finalidade da melhoria da comunicação viária entre a capital e a cidade de Nova Lima, e para o Rio de Janeiro. A obra de prolongamento também previa a construção de um túnel na Serra do Curral, obra nunca realizada, mas idealizada, como se lê no trecho extraído do Relatório de 1942: Em demanda da Serra do Curral, fizemos prolongar a Avenida Afonso Pena, numa extensão de 382 metros, afim de que se facilite a ligação desta capital ao município de Nova Lima e dali à capital da Republica, através de um Túnel em estudos e que, realizado, será uma das maiores obras da engenharia brasileira. (RELATÓRIO,1941) As obras foram interrompidas pouco tempo após o seu inicio, sendo abertos apenas 700 metros (Figura 07). Desde a interrupção do prolongamento da Avenida o local que já havia sido aberto converteu-se em um dos caminhos utilizados pelos moradores das Favelas do Pindura Saia e Santa Isabel para se chegar a Avenida do Contorno ou aos serviços de transporte publico que existiam no bairro Serra e Anchieta. O barranco criado pela abertura do dito trecho em 1940 foi ocupado por diversos barracos pertencentes a Favela do Pindura Saia. Essa obra fazia parte do projeto das grandes avenidas radiais proposto pelo Engenheiro Lincoln Continentino e adotado em parte por Juscelino Kubitscheck, tanto no prolongamento da Afonso Pena quanto na abertura da Avenida Antônio Carlos, principal via de ligação com a região da 11

12 Pampulha, apesar da Avenida Afonso Pena não ser uma via radial e sim uma via arterial. A sua gestão na Prefeitura de Belo Horizonte foi na verdade um embrião do que viria a fazer na Presidência da Republica, anos mais tarde. Fig.07 Prolongamento da Avenida Afonso Pena em Fonte: APCBH A avenida conservou-se na década seguinte de acordo com o projeto original da CCNC: dentro dos limites da Avenida do Contorno. O prolongamento de 1940 permaneceu até a década de 60 como uma larga estrada de terra que terminava um pouco acima da caixa d água do Cruzeiro (Figura 08). Fig.08 A Avenida Afonso Pena e o prolongamento iniciado em 1942 em destaque na imagem de satélite de Escala aproximada 1: Fonte: PANORAMA, Caos urbano e o rompimento do planejado A década de 60, em particular o ano de 1963 foi marcado por uma das mais profundas transformações da paisagem urbana de Belo Horizonte: o corte dos Fícus da 12

13 Avenida Afonso Pena, com a justificativa da melhoria do fluxo viário na região central e da extinção dos tripés, praga que acometia os Fícus desde o final da década de 50. A arborização da Afonso Pena era a marca registrada da capital mineira e o seu desaparecimento da noite para o dia deixou marcas profundas na sociedade, que podem ser vistas até os dias atuais, nas lembranças dos moradores contemporâneos ao corte. A Avenida e suas arvores haviam sobrevivido praticamente intactas as transformações ocorridas no seu entorno durante a primeira metade do Século XX, mas não sobreviveriam ao processo de metropolização que acontecia na capital desde a década de 50, responsável pelas mudanças na paisagem urbana que também sepultariam os principais cursos d água da capital, em prol da mobilidade urbana, uma politica vigente até os dias atuais. Um ano antes do corte definitivo dos Ficus, no final de 1962 foi retirado da Praça Sete o monumento comemorativo do centenário da Independência, o famoso Pirulito, sob alegação que obstruía o já caótico transito das Avenidas Amazonas e Afonso Pena, local que havia se tornado o epicentro da capital mineira. No mesmo local foi construído um novo monumento aos fundadores de Belo Horizonte, retirado em 1972 para a desobstrução completa da Avenida 3. As profundas transformações da paisagem urbana ocorridas nas décadas de 60 e 70 viriam a descaracterizar a Afonso Pena, antes vista como um dos mais importantes cartões postais de Belo Horizonte, ponto de encontro da população, da construção de uma sociabilidade e de manifestações populares 4 e de resistência. Ela havia se tornado, com a evolução urbana uma via rápida, onde reinavam a pressa e o não relacionamento, o clímax da congestão urbana, um local cuja prioridade passou a ser do automóvel e não do pedestre (Figuras 09 e 10). 3 Considero esse momento (o ano de 1973) como a consolidação do automóvel como prioridade nas politicas voltadas para a mobilidade urbana em Belo Horizonte, um processo que se inicia no final da década de 50 e que perdura até os dias atuais. Na desobstrução da Avenida Afonso Pena, assim como a cobertura dos córregos grande parte da imprensa foi a favor, assim como a população belorizontina, que ficaria dividida quando o Obelisco comemorativo voltou para a avenida em Muitas das reformas empregadas na Praça Sete visavam reprimir as manifestações públicas que ocorrem no local desde as primeiras décadas de existência de Belo Horizonte, todas sem sucesso. O local continua sendo o principal ponto de encontro para as manifestações e protestos populares. 13

14 Fig.09 Título da reportagem da revista Quatro Rodas de Novembro de 1962, que sugeria a remoção do Obelisco para a desobstrução do transito na avenida. Fonte: Acervo Quatro Rodas Fig.10 A Praça Sete e a Avenida Afonso Pena em três momentos, da esquerda para direita: a Avenida em 1957, com os Ficus e os estacionamentos no centro da via, em 1966 com o Monumento em homenagem aos fundadores da capital e em 1973 completamente desobstruída para a melhoria do tráfego. Fonte: APM e APCBH/ASCOM Em meio a metropolização e congestão urbana da região central, a malha urbana da capital começa a se expandir para as partes mais altas, no sopé da Serra do Curral. Nessa expansão a Avenida Afonso Pena teria um papel central, por permitir uma melhor mobilidade entre o centro e a região sul, ao dar continuidade à via, como proposto em 1940 na gestão JK. Com a criação da Ferrobel em 1963, na Serra do Curral todas as terras delimitadas por uma extensa cerca que havia nas proximidades da Avenida Bandeirantes passaram a pertencer a essa Companhia, com a finalidade da expansão da exploração do minério de ferro ao longo dos anos. Porém, em 1966 foi criado o Parque das Mangabeiras nos terrenos onde a Ferrobel havia apenas iniciado a sua exploração. Com esse Decreto, a Companhia entregou a iniciativa privada os terrenos de sua propriedade que se localizavam abaixo da Mina das Mangabeiras, com a finalidade de se criar um grande loteamento visando às classes mais abastadas da capital, que nesse 14

15 momento fugiam da iminente congestão urbana da região central e bairros adjacentes, como o bairro de Lourdes. É bom ressaltar que o loteamento das terras localizadas nas cabeceiras do córrego do Leitão (bairros São Bento e Santa Lúcia) e a abertura da Avenida Prudente de Morais também se iniciaram nesse período, destinadas às camadas de maior poder aquisitivo. Em 1966 visando melhorar a comunicação viária entre o recém-criado bairro Mangabeiras e a zona central da capital teve inicio a expansão da avenida (Figura 11), primeiro com o encascalhamento do prolongamento iniciado em 1940 e posteriormente com a finalização e asfaltamento da avenida até a Praça da Bandeira, inaugurada em e a construção da Praça Milton Campos, inaugurada em Essas intervenções realizadas pelo Poder Público também tinham como objetivo a urbanização das terras ocupadas pelo Pindura Saia e Vila Santa Isabel, que foram fragmentadas e praticamente extintas no período entre 1968 e A extinção de grande parte do Pindura Saia permitiu a expansão do bairro Cruzeiro, a abertura de diversas ruas e a construção do Mercado do Cruzeiro em A canalização das cabeceiras do córrego das Mangabeiras no período 68/72 permitiu o prolongamento da avenida além da Praça da Bandeira, porém batizada como Avenida Agulhas Negras, que termina no sopé do paredão da Serra do Curral, onde se construiu o Hospital Hilton Rocha e a Praça do Papa, além de se tornar o principal acesso para o Parque das Mangabeiras, inaugurado em O prolongamento da Avenida Afonso Pena, assim como a sua porção inserida dentro da Avenida do Contorno continuou a apresentar uma função mista, com a presença, inclusive de prédios institucionais. 5 A Praça da Bandeira foi inaugurada antes do inicio das obras de prolongamento da Avenida Afonso Pena, pelo então prefeito Oswaldo Pieruccetti, que assumiu o cargo em 1965, após a cassação do prefeito Jorge Carone pelo Governo Militar devido a divergências com a nova ordem imposta e com o Governo do Estado. 15

16 Fig.11 A Avenida Afonso Pena no bairro Cruzeiro em 1966, antes do inicio das obras de prolongamento e em 1972, após a conclusão das obras. Fonte: APCBH/ASCOM Desde a finalização da Afonso Pena na década de 70 ela continua exercendo o papel de principal eixo articulador da zona urbana inserida dentro da Avenida do Contorno. Com pouco mais de quatro quilômetros de extensão a avenida continua sendo a Artéria responsável pelo recebimento dos fluxos viários de grande parte das zonas sul e oeste da capital e abriga ainda a Estação Rodoviária, a Praça Sete, principal marco simbólico da capital e a sede da Prefeitura. O prolongamento da avenida, finalizado na primeira metade da década de 70 alterou o plano inicial da avenida que transpôs o muro imaginário estabelecido pela CCNC, materializada pela Avenida do Contorno e levou os equipamentos urbanos para as áreas antes ocupadas pelas primeiras Favelas da capital que foram praticamente extintas quando do seu prolongamento nas décadas de 60 e 70. A verticalização, expandida para os bairros que cresceram no seu entorno contribuíram, assim como os grandes edifícios existentes ao longo da avenida para o aumento da temperatura na região central, em particular a Praça Sete, marco zero do hipercentro de Belo Horizonte que se apresenta como uma ilha de calor devido ao excesso de edifícios, intensa impermeabilização do solo e a vegetação escassa, praticamente resumida ao canteiro central da avenida Considerações finais Apesar dos 115 anos e das transformações sofridas ao longo das décadas a Avenida Afonso Pena continua exercendo a função para a qual foi criada: a artéria principal da cidade planejada, responsável pela ligação direta entre a parte mais baixa da capital, localizada na calha do Ribeirão Arrudas às partes mais altas, no sopé da Serra do Curral, atravessado toda a zona planejada e canalizando os fluxos provenientes dela, tanto populacional quanto viário. Sem duvida uma Avenida que apresenta grandes contrastes e diversidades ao longo de sua existência (Figuras 12 e 13). 6 Não se incluem ai o Parque Municipal e as partes mais altas da avenida que, apesar de estarem completamente urbanizadas ainda apresentam um clima mais ameno do que a Praça Sete, situada a uma altitude menor do que os bairros ao sul da avenida. 16

17 Fig.12 Mapa dos usos e funcionalidades do Hipercentro de Belo Horizonte do ano de A Avenida Afonso Pena e a Avenida Amazonas destacam-se como o eixo articulador de toda a região central. Fonte: PBH Fig.13 A Avenida Afonso Pena em toda a sua extensão na imagem de satélite do ano de Em destaque o Terminal Rodoviário (1), a Praça Sete (2), a Praça Milton Campos (3) e a Praça Da Bandeira (4). Fonte: Google Earth 17

18 As formas da paisagem urbana são diversas e, segundo Santos (1998) é a materialização de um instante da sociedade. Apesar da sociedade e dos agentes urbanos interferirem e modificarem o meio urbano de acordo com suas necessidades, a Avenida Afonso Pena exerceu ao longo do Século XX a função de eixo irradiador do crescimento urbano da capital mineira, mais especificamente nas zonas conectadas diretamente a ela através dos eixos viários. Já no hipercentro de Belo Horizonte grande parte das edificações, tanto de uso misto como institucional foram tombadas, em uma tentativa de perpetuar os diversos períodos de ocupação da avenida e do seu entorno, amenizando a perda da identidade local por parte da sociedade, abalada desde a década de 60, com o processo de metropolização e com o automóvel passando a ser o protagonista das politicas urbanas da capital. Da primitiva avenida, o principal eixo de articulação viária de Belo Horizonte e palco principal das construções e demolições constantes que caracterizam a capital em eterna construção, restam às imagens e os relatos de quem a viveu intensamente, como o escritor Pedro Nava: Íamos ao outro extremo da cidade subindo ao Cruzeiro. Galgávamos o barranco onde terminava a Avenida Afonso Pena e ganhávamos o campo de futebol onde está hoje a Praça Milton Campos (ele, nesse tempo, não praça, não estatua, às vezes conosco). Do pé da torre de alta voltagem e da Cruz de madeira que vinha o apelido de logradouro olhávamos a cidade. Víamos a Avenida Afonso Pena como a Campos Elíseos de cima dum Arco do Triunfo. Estéril, de moledo solferino e terra escarlate, sem calçamento e com as beiradas escavadas pela erosão das grandes chuvas que faziam sulcos caprichosos como negativos de cordas torcidas. (NAVA,1985) Referencias Bibliográficas Acervos Documentais APCBH ARQUIVO PÚBLICO DA CIDADE DE BELO HORIZONTE. Acervo Assessoria de Comunicação da Capital. APM ARQUIVO PÚBLICO MINEIRO. Fundo Olegário Maciel. Livros, teses, fontes digitais e impressas AGUIAR, T. F. R. de. Vastos Subúrbios da Nova Capital: formação do espaço urbano na primeira periferia de Belo Horizonte, (Doutorado em História), Universidade Federal de Minas Gerais, Belo Horizonte (2006). BARRETO, Abílio. Belo Horizonte, memória histórica e descritiva; história média. 18

19 v.2. Belo Horizonte: FJP/ Centro de Estudos Históricos e Culturais, BELO HORIZONTE. Prefeitura Municipal. Mensagem apresentada pelo prefeito Antonio Carlos Ribeiro de Andrada ao Conselho Deliberativo de Bello Horizonte em 1906 e relatórios anexos. Belo Horizonte: Imprensa Official do Estado, BELO HORIZONTE. Prefeitura Municipal. Mensagem apresentada pelo prefeito Flavio Fernandes dos Santos ao Conselho Deliberativo de Bello Horizonte em 1922/1923 e relatórios anexos. Belo Horizonte: Imprensa Official do Estado, BELO HORIZONTE. Prefeitura Municipal. Mensagem apresentada pelo prefeito Chistiano Monteiro Machado ao Conselho Deliberativo de Bello Horizonte em 1928 e relatórios anexos. Belo Horizonte: Imprensa Official do Estado, BELO HORIZONTE. Prefeitura Municipal. Relatório apresentado pelo prefeito Juscelino Kubitscheck de Oliveira a Câmara Municipal de Belo Horizonte em 1940/1941. Belo Horizonte: Imprensa Official do Estado, BELO HORIZONTE, Prefeitura Municipal. Secretaria de Educação. BH Verso e Reverso. Belo Horizonte, BORSAGLI, A. Os anos 1960: a metrópole, o caos e as consequências. Em: < >. Acesso em: 05 Maio CORREA, R. L. O Espaço Urbano. São Paulo: Editora Ática, 4ª edição. FUNDAÇÃO JOÃO PINHEIRO/Centro de Estudos Históricos e Culturais, Panorama de Belo Horizonte; Atlas Histórico, Belo Horizonte, GUIMARÃES, B. M. Minas Gerais: a construção da nova ordem e a nova capital. Analise e Conjuntura, v.8, Belo Horizonte, MELO, T. S. D. A Vila Santa Isabel na Avenida Afonso Pena: A experiência positiva da moradia popular em região central de Belo Horizonte, (Mestrado em Arquitetura e Urbanismo), Universidade Federal de Minas Gerais, Belo Horizonte (2012). NAVA, P. Beira Mar. Rio de Janeiro Nova Fronteira, 1985 RODRIGUES, A. M. Moradia nas Cidades Brasileiras. 5.ed. São Paulo, Contexto, SANTOS, M. Metamorfoses do espaço habitado. São Paulo: Hucitec,

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