NORMAS LEGAIS DE PREVENÇÃO E COMBATE A INCÊNDIO EM BELO HORIZONTE:

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1 NORMAS LEGAIS DE PREVENÇÃO E COMBATE A INCÊNDIO EM BELO HORIZONTE: mudanças na ação fiscalizadora do Estado 1 Prof. Dr. Allan Kardec Carlos Dias 2 Prof. Gisela do Couto Bemfica 3 RESUMO O trabalho apresenta uma análise da legislação relativa à proteção e combate a incêndio nas etapas de projeto, construção e ocupação das edificações de uso coletivo no estado de Minas Gerais e, especificamente, em Belo Horizonte. Palavras-chaves: AVCB. Fiscalização de sistemas de prevenção a incêndio. Legislação de segurança contra incêndio. Proteção e combate a incêndio. Abstract This paper presents an analysis of legislation about fire prevention and combat related with the stages of design, construction and occupation of buildings for collective use in Minas Gerais, Brasil, specifically in Belo Horizonte. Keywords: Fire Prevention and Combat. AVCB. Systems of Fire Prevention. Legislation of Fire Prevention and Combat. 1 INTRODUÇÃO As maiores concentrações humanas que caracterizam o espaço urbano e a vida contemporânea, são condições que aumentam os riscos de incêndio e os seus impactos. Assim sendo, as edificações urbanas, em especial, aquelas nas quais há maior concentração de pessoas, não podem prescindir de um sistema de proteção e combate a incêndio, aí incluída a capacitação de usuários dessas edificações para que saibam como atuar na eventualidade de um incêndio. 1 Artigo elaborado a partir da monografia homônima apresentada à Faculdade de Engenharia e Arquitetura da Universidade FUMEC, como requisito para a conclusão do Curso de Especialização em Engenharia de Segurança do Trabalho e realizada sob a orientação do prof. Rildo Marcelo Alves. 2 Doutor em Ciência dos Alimentos. Mestre em Agroquímica e Agrobioquimica. Especialista em Ciências Ambientais. Graduado em Ciências, Biologia, Química. 3 Especialista em Engenharia de Materiais e Segurança do Trabalho. Professora da Escola de Engenharia Kennedy.

2 Não se pode negar que, em praticamente todas as edificações coletivas habitacionais, industriais e comerciais dos centros urbanos são encontrados extintores e hidrantes. O que é bastante mais raro é que estas edificações disponham de documentação legal que ateste a eficácia dos equipamentos existentes, em caso de necessidade. Os sistemas de certificação, e mais especificamente a Certificação OHSAS , podem ser um trunfo importante na promoção da conscientização sobre a necessidade dessa documentação. Este estudo foi orientado pela questão acerca de qual a legislação relacionada à prevenção e ao combate a incêndio a ser considerada na atuação do Engenheiro de Segurança, no estado de Minas Gerais. O objetivo foi o de identificar e sistematizar - a partir de um histórico - as legislações relacionadas ao assunto no estado de Minas Gerais e, em especial, no município de Belo Horizonte. Para isso, realizou-se uma pesquisa qualitativa, de caráter descritivo e que não requer o uso de técnicas e métodos estatísticos (GIL, 1991). O trabalho, que se enquadra no estudo das legislações, consistiu de pesquisa bibliográfica sobre as legislações pertinentes, da Carta Magna de 1988 às legislações estadual e municipal, tendo por foco os procedimentos de aprovação e fiscalização dos sistemas de proteção e combate a incêndio em edificações. Além da presente introdução, o artigo está estruturado em quatro tópicos. No primeiro aborda-se o tema de incêndio em edificações e medidas preventivas. No tópico seguinte faz-se um breve histórico do corpo de bombeiros, situando-o nas constituições federal e do estado de Minas Gerais. São também tratadas as legislações de Minas Gerais e de Belo Horizonte relacionadas ao foco do trabalho. No terceiro tópico apresenta-se uma análise da legislação estudada e, por fim, os achados do estudo são sintetizados no último tópico, que trata das considerações finais. 2 INCÊNDIO EM EDIFICAÇÕES E MEDIDAS PREVENTIVAS Os componentes de uma edificação devem satisfazer os requisitos mínimos de utilização e segurança, dentre os quais a resistência ao fogo. Conforme 4 OHSAS 18001, Occupational Health and Safety Assessment Series, é uma especificação que fornece às organizações os elementos de um Sistema de Gestão da Segurança e Saúde no Trabalho (SST).

3 exposto por Berto (1991), uma edificação segura contra incêndio pode ser definida como aquela em que há baixa probabilidade de início de incêndio e na qual, em caso de incêndio, há alta probabilidade de todos os seus ocupantes sobreviverem. Em termos estruturais e de compartimentação do edifício, a norma brasileira NBR (ABNT, 2001) estabelece as condições a serem atendidas para que, em situação de incêndio, se evite o colapso estrutural. Os edifícios devem ser projetados de forma que, na ocorrência de incêndio, seus ocupantes possam permanecer onde estejam, ir para outra parte do edifício (lugar de segurança relativa), ou sair do edifício sem estarem sujeitos a condições insalubres, perigosas ou insustentáveis. A exigência de segurança à vida se aplica para dentro e fora do edifício (CIB W014, 2001, apud BONITESE, 2007). A probabilidade de maior ocorrência de um incêndio em edificações, assim como sua intensidade, duração e risco de conflagração estão associados a (SILVA, 2001): atividade desenvolvida no edifício, propriedades térmicas dos materiais e quantidade de material combustível, o que é tecnicamente denominado de carga de incêndio ; número de pavimentos, área, compartimentação e condições de ventilação, ou seja, a tipologia do edifício ; e sistemas de segurança contra incêndio, denominados de proteção ativa. Assim, para cada tipo de edificação é necessário um plano de segurança de incêndio compatível com as necessidades que lhes são específicas. Segundo a NBR (ABNT,1993), de acordo como o material combustível, o fogo divide-se em quatro classes: classe A: quando ele ocorre em materiais de fácil combustão com a propriedade de queimarem em sua superfície e profundidade, e que deixam resíduos, como: tecidos, madeira, papel, fibras, etc.; classe B: quando o fogo ocorre em produtos inflamáveis que queimem somente em sua superfície, não deixando resíduos, como óleo, graxas, vernizes, tintas, gasolina, etc.; classe C: quando o fogo ocorre em equipamentos elétricos energizados como motores, transformadores, quadros de distribuição, fios, etc;

4 classe D: quando o fogo ocorre em elementos pirofóricos como magnésio, zircônio, titânio, entre outros, que inflamam-se em contato com o ar ou produzem centelhas - e até explosões - quando pulverizados e atritados. Por sua vez, os materiais construtivos podem ser divididos em cinco grupos, conforme seu desempenho a altas temperaturas (SFPE, 2002, apud BONITESE, 2007): materiais estruturais (Grupo L): capazes de resistir a grandes esforços, principalmente tração e compressão; materiais estruturais e isolamento (Grupo L/I): capazes de resistir moderadamente a esforços e, em situação de incêndio, constituem como materiais de resistência ao grupo L; materiais de isolamento (Grupo I): que não são destinados a resistir a esforços. Sua função é apresentar resistência à transmissão de calor a outros elementos da edificação, ou promover o isolamento dos materiais pertencentes aos Grupo L ou Grupo M/I; materiais estruturais/isolamento/combustível (Grupo L/I/F): que podem se tornar combustíveis em um incêndio; materiais isolamento/combustível (Grupo I/F): que podem se tornar combustíveis em um incêndio. A fumaça dos materiais apresenta alto teor de toxidades. Inúmeras pesquisas demonstram que as principais causas de mortes por toxidade são por monóxido de carbono (CO) ou cloreto de hidrogênio (HCL), conhecido como ácido clorídrico, ou por misturas da decomposição térmica de materiais individuais (SFPE, 2002, apud BONITESE, 2007). Os efeitos fisiológicos da exposição à toxicidade da fumaça e ao calor podem ocasionar a morte ou efeitos permanentes, tais como: prejuízos à visão; dores, dificuldade ou danos de trato respiratório causados pela inalação de gases irritantes e por temperaturas elevadas; asfixia por inalação de gases tóxicos, resultando em convulsão e perda de consciência;

5 dores de queimadura na pele e trato respiratório superior, seguidas de queimaduras, ou hipertermia devido aos efeitos do calor. 2.1 Medidas de segurança contra incêndio As medidas de segurança contra incêndio podem ser de prevenção ou de proteção. As medidas de prevenção são aquelas associadas ao elemento precaução contra o início do incêndio e se destinam, exclusivamente, a prevenir a ocorrência do início do incêndio. As medidas de proteção - que dividem-se em proteção passiva e proteção ativa - são destinadas a proteger a vida humana e os bens materiais dos efeitos nocivos do incêndio já em curso em um edifício. Visam a extinção inicial do incêndio; a limitação do seu crescimento e propagação no e entre edifícios; a precaução contra o colapso estrutural; a evacuação segura do edifício; e a rapidez, eficiência e segurança das operações de combate e resgate (BERTO, 1991). As medidas de proteção passivas incluem projetos elaborados corretamente e com utilização de materiais cujas características de ignição sejam perfeitamente conhecidas. A arquitetura de segurança contra incêndio enquadra-se nesse tipo de proteção, da mesma forma que o estudo, no projeto de um edifício, da estrutura, dos elementos constitutivos e dos compartimentos da edificação, quanto ao seu potencial de limitar ou conter o crescimento do incêndio e de dar proteção aos seus ocupantes. A análise e o controle das características e quantidade de materiais combustíveis reunidos tanto no acabamento interno quanto no conteúdo da edificação também fazem parte das medidas de proteção passiva (BERTO,1991). A proteção ativa contra incêndio é constituída por meios (equipamentos e sistemas) que precisam ser acionados, manual ou automaticamente, para funcionarem em situação de incêndio, visando à rápida detecção do incêndio, ao alerta dos usuários do edifício e às ações de combate com segurança. Destacam-se como os principais sistemas de proteção ativa, segundo a Associação Brasileira de Normas Técnicas (ABNT): NBR 9441: sistema de detecção e alarme automáticos de incêndio; NBR 10898: sistema de iluminação de emergência; NBR 13434: sinalização de segurança contra incêndio e pânico; NBR 9441: sistema de alarme manual de incêndio (botoeiras);

6 NBR 10897: sistemas de extinção automática de incêndio (chuveiros automáticos sprinklers, e outros sistemas especiais de água ou gases); NBR 5667: sistema de hidrantes; NBR 12693: sistemas de proteção por extintores de incêndio; NBR 11742: portas corta-fogo para saída de emergência; NBR 9077: rotas de fuga; NBR 5419: sistema de proteção contra descargas atmosféricas (pára raios.); NBR 11715: extintores de incêndio com carga de água; NBR 11861: mangueira de incêndio - Requisitos e métodos de ensaio; NBR 12779: mangueira de incêndio - Inspeção, manutenção e cuidados; NBR 13714: Sistemas de hidrantes e de mangotinhos para combate a incêndio; NBR 14276: Brigada de incêndio. O atendimento a essas normas, juntamente com as instruções técnicas dos corpos de bombeiros estaduais, são os recursos indicados para assegurar que, inicialmente, a concepção projetual da edificação apresente potencial preventivo. Essas regulamentações tem caráter prescritivo e foram definidas por parâmetros rígidos e requisitos específicos não permitindo soluções alternativas (ONO, 2007). Conhecê-las é hoje um requisito obrigatório na concepção e elaboração de projetos de edificações residenciais ou não residenciais. 3 NORMAS LEGAIS DE PREVENÇÃO E COMBATE A INCÊNDIO Além dos requisitos a serem considerados na concepção e projeto das edificações, a segurança quanto ao risco de incêndio dos usuários de edificações depende do atendimento a requisitos e dispositivos legais. Para isso é imperioso conhecer os requisitos que precisam ser atendidos após a construção e ocupação da edificação, tanto quanto à verificação e preservação dos equipamentos de proteção e combate a incêndio, como quanto às obrigações junto ao Corpo de Bombeiros, que é o órgão responsável pela aprovação de projetos, vistoria e fiscalização de edificações no que se refere à proteção e combate a incêndios.

7 A seguir são sistematizadas as prescrições legais pertinentes, com ênfase na identificação dos procedimentos, competências e instrumentos relacionados com a garantia das condições de proteção e combate a incêndio nas edificações urbanas de Belo Horizonte. 3.1 Um panorama do Corpo de Bombeiros no Brasil A extinção de incêndios na cidade do Rio de Janeiro esteve a cargo dos trabalhadores do Arsenal da Marinha. Em fins do século XVIII um Alvará Régio de 12/08/1797 determinou a organização de um Sistema de Combate envolvendo esses trabalhadores, quando o Arsenal da Marinha tornou-se, então, o primeiro órgão público responsável pela extinção de incêndio. Mais de meio século depois o Decreto Imperial nº 1.775, assinado pelo Imperador Dom Pedro II em 02/07/1856, criou e organizou o Corpo Provisório de Bombeiros da Corte e, em 1860, o Decreto nº 2.587, de 30/04/1860, tornou definitivo esse corpo provisório. Com o Decreto nº 8.837, de 17/12/1881, o Corpo de Bombeiros tornou-se uma organização efetivamente militar, tendo sido também aprovado o seu regulamento. 3.2 O Corpo de Bombeiros de Minas Gerais Em Minas Gerais, a Lei nº 557, de 31/08/1911, constituiu o Corpo de Bombeiros a partir do contingente de pessoal que integrava a Guarda-Civil. Sua constituição autônoma deu-se a partir do Decreto Lei , de 04/01/1934, que desvinculou seu quadro de pessoal daquela força pública, situação que perdurou até 1966, quando os oficiais do Corpo de Bombeiros foram integrandos à Polícia Militar de Minas Gerais pela Lei 4.254, de 25/08/1966. Com a Emenda Constitucional nº 39, em 02/07/1999, o Art. 98 da Constituição do Estado de Minas Gerais foi modificado e a corporação foi desvinculada da Polícia Militar e desmilitarizada. A ela foram atribuídas as competências de coordenar e executar ações de defesa civil, atividades de prevenção e combate a incêndios, busca e salvamento, perícias de incêndio, e o estabelecimento das normas relativas à segurança contra incêndios e outras catástrofes. Em termos de atribuições, competências, constituição e subordinação do Corpo de Bombeiros, importa mencionar que ora se esteve diante de uma legislação de âmbito nacional, ora essa legislação foi estadual. Portanto, o levantamento

8 relativo ao papel do Poder Público quanto à proteção e combate a incêndios que se apresenta a seguir abrange as esferas federal, estadual e municipal. 3.3 Legislação no âmbito Federal Constituição de 1988 Ao estabelecer competências privativas da União, a Constituição da República Federativa do Brasil de 1988 inclui os corpos de bombeiros militares como entidades a serem regulamentadas pela União e subordinadas aos governadores. O Título III - Da Organização do Estado, o inciso XXI do Artigo 22 reconhece, como competência privativa da União, o estabelecimento de normas gerais de organização, efetivos, material bélico, garantias, convocação e mobilização das polícias militares e corpos de bombeiros militares. Ao tratar da defesa do Estado e das instituições democráticas, o Título V, o 5º do Artigo 144 estabelece que aos corpos de bombeiros militares, além das atribuições definidas em lei, incumbe a execução de atividades de defesa civil e o 6º do mesmo artigo subordina polícias militares e corpos de bombeiros militares (...) aos Governadores dos Estados, do Distrito Federal e dos Territórios. 3.4 Legislação no âmbito Estadual Constituição do Estado de Minas Gerais de 1989 Uma vez que, constitucionalmente, os corpos de bombeiros subordinamse aos governadores, os estados, norteados pelas normas gerais privativas da União, podem definir, suplementarmente, as competências da corporação. Dessa forma, o Artigo 142 da Constituição do Estado de Minas Gerais de 1989 estabelece as atividades do Corpo de Bombeiros de Minas Gerais e o Artigo 143 determina que a sua organização seja definida em Lei Complementar. O primeiro dos artigos constitucionais mencionados reconhece a Polícia Militar e o Corpo e Bombeiros Militar como forças públicas estaduais dotadas de órgãos permanentes, organizados com base na hierarquia e disciplina militares, competindo aos últimos a prevenção e combate a incêndio, busca e salvamento Emenda Constitucional No 39

9 Posteriormente, a Emenda Constitucional N o 39 de 2/6/1999 atribui ao Corpo de Bombeiros a competência para estabelecer normas relativas à segurança contra incêndios, a prevenção e combate a incêndios e a realização de perícias em caso de sinistro. Essa emenda dá nova redação ao Art. 142 e acrescenta um parágrafo único ao Art.143. A nova redação do Art. 142 atribui ao Corpo de Bombeiros Militar a competência para estabelecer normas de proteção e combate a incêndio, o que resulta em significativo impacto sobre o papel e as condições de atuação da corporação. Por sua vez, o parágrafo único acrescentado à redação do Art. 143 reconhece a necessidade de revisão periódica, pelo Poder Executivo, dos regulamentos disciplinares, com vistas ao seu aprimoramento e atualização Lei Complementar nº 54 de 13/12/1999 A organização do Corpo de Bombeiros a que os Art. 143 do texto constitucional mineiro e Art. 10 da Emenda Constitucional nº 39 se referem, foi objeto da Lei Complementar nº 54, de 13/12/1999. Essa lei dispõe sobre a organização básica do Corpo de Bombeiros Militar de Minas Gerais CBMMG e seu Art. 3º estabelece como atribuições da corporação: I- coordenar e executar as ações de (...) prevenção e combate a incêndio, perícias de incêndio e explosão em locais de sinistro, (...); [...] III- coordenar a elaboração de normas relativas à segurança das pessoas e dos seus bens contra incêndios e pânico e outras previstas em lei, no Estado; As leis complementares relacionadas à regulamentação das atribuições relativas à prevenção e combate a incêndio são examinadas a seguir. 3.5 Legislação relativa à prevenção e combate a incêndio em Minas Gerais Para identificar de que forma as competências e atribuições relativas à prevenção e combate a incêndio são realizadas examinam-se as leis estaduais nº , de 19/12/2001, os decretos nº , de 17/05/2004, nº , de 01/04/2006, e nº , de 29/02/2008. A Lei Estadual nº , no seu Art. 1º, dispõe sobre a prevenção contra incêndio e pânico no estado de Minas Gerais e estabelece a edificação destinada a

10 uso coletivo como o tipo de edificação a ser visada/verificada. O Art. 2º define os procedimentos de análise, aprovação e vistoria, bem como as normas técnicas a serem atendidas e o Art. 5º torna obrigatória a afixação, em parte externa da edificação - e portanto acessível -, do Auto de Vistoria e Liberação emitido pelo Corpo de Bombeiros (AVCB). Entre 2001 e 2008 esta lei foi sucessivamente especificada por diferentes decretos estaduais, os quais são analisados a seguir. O primeiro deles, Decreto nº , entre outras coisas, delimita mais claramente as competências do Corpo de Bombeiros quanto às suas atribuições de proteção contra incêndio; estabelece as responsabilidades da corporação quanto ao serviço de segurança; e define termos relacionados com o sistema de prevenção e combate a incêndio, com destaque para o AVCB - Auto de Vistoria do Corpo de Bombeiro. De conformidade com esse decreto, o sistema de prevenção e combate a incêndio das edificações coletivas é acompanhado pelo Corpo de Bombeiros desde a fase de projetação, quando o projeto desse sistema deve ser submetido à aprovação, passando pela etapa de vistoria, quando não só é verificada a correspondência entre projeto e construção, como também é testado in loco o efetivo funcionamento do sistema; para, ao final, o sistema implantado ser aprovado, o que se formaliza com a emissão do AVCB - Auto de Vistoria do Corpo de Bombeiro. Em 2006 esse decreto é substituído pelo de nº que, tal como o anterior, delimita competências, estabelece responsabilidades e define termos relacionados com o sistema de prevenção e combate a incêndio, em especial, o AVCB - Auto de Vistoria do Corpo de Bombeiro. Cumpre destacar duas alterações resultantes desse decreto: 1- das competências do Corpo de Bombeiro, que passa então a ter a atribuição de periciar e fiscalizar as edificações 5 ; e 2- da validade do AVCB, que passa a ser de dois anos 6. Com igual objetivo de regulamentar a Lei nº , em 2008 é editado o Decreto Estadual nº que amplia o escopo das atribuições do Corpo de Bombeiro 7, reduz de quinze para dez dias úteis o prazo de elaboração da vistoria 5 De conformidade com o Art. 4 o. 6 Conforme Art. 9º. 7 Conforme o Art. 4º.

11 para emissão do AVCB 8 e aumenta a validade deste documento de dois para três anos, em locais de reunião de público, e para cinco anos, nas demais ocupações Compartilhamento de atribuições com o município de Belo Horizonte Os instrumentos legais acerca do compartilhamento, entre o estado de Minas Gerais e o município de Belo Horizonte, das atribuições e responsabilidades relacionadas com o combate a incêndio são anteriores a Entretanto, como não foram afetados pela Constituição Estadual de 1989, eles permanecem vigorando. São eles, a Lei Estadual nº 5.497, de 13/07/1970, e a Resolução Estadual nº 310, de 05/03/1975. A Lei Estadual nº dispõe sobre as atividades das unidades de Bombeiros da Polícia Militar e autoriza o poder executivo a celebrar convênios com as prefeituras municipais para a execução dos serviços de bombeiros. Conforme o seu Art. 4º, no Município da Capital, a execução dos serviços previstos no Artigo 1º desta lei, far-se-á pelas Unidades de Bombeiros sediadas na Capital, cabendo à Prefeitura providenciar legislação própria de prevenção contra incêndios e explosões, podendo contar com a cooperação do órgão técnico da Polícia Militar. O Art.11 estabelece que o município organizará legislação própria de prevenção contra fogo, desabamentos, inundações, atualizando-se se for o caso, sua legislação específica e seu código de obras, tendo em vista as cláusulas do convênio. O parágrafo único desse artigo estabelece que o Município assegurará, no seu âmbito, a fiscalização das condições dos prédios, construções e instalações, podendo o órgão técnico da Polícia Militar interditar, se for o caso, as construções e os prédios sem condições de segurança. Como capital do estado, é competência do município de Belo Horizonte elaborar a legislação de prevenção a incêndio e explosões, contando com a cooperação do órgão técnico da Polícia Militar. 10 Cabe também ao poder público municipal assegurar a fiscalização das condições dos prédios, construções e instalações, 11 ficando a fiscalização da obediência às normas e a fiscalização dos 8 Conforme 1º do Art. 8º. 9 Conforme 4º do Art. 8º. 10 Conforme os artigos 4º e Conforme o Art. 11.

12 estadual. 12 O desdobramento da Lei Estadual nº no âmbito de Belo Horizonte município. 13 Conforme essa resolução, cabe à organização de Bombeiros da PMMG a estabelecimentos com vistas à prevenção de incêndio, a cargo do poder público foi o convênio firmado entre o governo do estado e a prefeitura do município, conforme a Resolução Estadual nº 310, que estabelece os termos do convênio e fixa as condições para execução dos serviços de prevenção contra incêndios e explosões, combate ao fogo, salvamento e socorros em geral, no âmbito do execução dos serviços de prevenção contra incêndios e explosões, combate ao fogo, salvamento e socorros em geral, sendo portanto da alçada estadual. Esses serviços envolvem a fiscalização da aplicação das normas preventivas de incêndio, o assessoramento e a assistência à Prefeitura nesse sentido e a vistoria das instalações de prevenção e combate a incêndio nas edificações. A aprovação e divulgação das normas técnicas propostas pela PMMG para a prevenção contra incêndios e explosões é da alçada municipal, assim como a exigência de cumprimento dos requisitos legais para isso; e o condicionamento da concessão do habite-se à aprovação, pela PMMG, da execução de projeto preventivo previamente aprovado, consubstanciada pela emissão do certificado de vistoria da edificação. Com a desvinculação entre Corpo de Bombeiros e Policia Militar, em 1999, as atribuições dos primeiros tornaram-se específicas, tendo sido definidas em normas estaduais posteriores. Em termos do foco deste trabalho, cumpre registrar que, à exceção do município de Belo Horizonte, no estado de Minas Gerais, as prefeituras somente liberam a edificação e o respectivo habite-se, depois de aprovado o projeto de prevenção e combate a incêndio e emitido o AVCB. No caso de Belo Horizonte, a legislação municipal atribui ao responsável técnico (RT) pela execução da edificação, a responsabilidade de que sejam atendidas as condições mínimas de segurança contra incêndio (hidrante e extintor), e de que a edificação atenda às normas vigentes pelo período de 5 anos. 12 Conforme os incisos IV e VIII do Art. 8º. 13 A Lei Municipal nº 2060 de 27/04/1972, do município de BH, tratada mais adiante, estabelece, em termos municipais, as condições para o convênio.

13 Conforme a legislação estadual, o RT tem a responsabilidade de que o projeto executado esteja dentro das normas legais, cabendo ao(s) proprietário(s) e/ou ao responsável pelo uso da edificação a responsabilidade pela manutenção das condições previstas em projeto ao longo da vida da edificação. 3.7 Legislação no âmbito do município de Belo Horizonte Como já mencionado, a Lei Estadual nº deixa a cargo da prefeitura da capital do estado a legislação própria de prevenção contra incêndios e explosões. Para isso, a lei municipal 2.060, de 27/04/ regulamentada pelos decretos nº 2.912, de 03/08/1976, e nº 6.942, de 22/08/ estabelece as normas de prevenção e combate a incêndios, condiciona a aprovação de construção de uso coletivo ao seu atendimento e autoriza a celebração de convênio com o Governo do Estado de Minas Gerais. Em 1995, a lei municipal nº 6.824, de 6 de janeiro, define normas adicionais de prevenção e combate a incêndios em estabelecimentos de uso coletivo e, posteriormente, ambas são modificadas pela lei municipal 9.064, de 17/01/2005 e o decreto nº , de 21/03/2005, estabelece as condições a serem seguidas para assegurar responsabilidades pelo atendimento das normas de prevenção e combate a incêndio. Da lei nº cumpre destacar o Art. 2º que condiciona a concessão do habite-se à vistoria da edificação pelo Corpo de Bombeiros, devidamente comprovada por certificado expedido por essa corporação. Em 1976 esta lei foi regulamentada pelo Decreto Municipal nº 2.912, que estabelece que, antes da instalação do sistema prevenção de incêndio, o seu projeto deve ser apresentado ao setor próprio do Corpo de Bombeiro, para atestar sua aprovação 14. Em decorrência desta condição, a Prefeitura de Belo Horizonte só aprova um projeto arquitetônico após a emissão do atestado, que precisa ser anexado ao projeto arquitetônico da edificação. 15 Embora norma legal tenha sido alterada em 1991 pelo decreto nº 6.942, suas alterações não dizem respeito aos aspectos tratados neste trabalho. No que se refere ao foco deste trabalho, das normas adicionais estabelecidas pela lei municipal nº 6.824, destacam-se o condicionamento da 14 Conforme os artigos 31 e Conforme Art. 33.

14 aprovação do projeto arquitetônico e concessão de alvará de construção à aprovação, pelo Corpo de Bombeiros, do projeto de prevenção e combate a incêndio e a exigência da plena execução do mesmo, para concessão de habite-se. A lei municipal nº 9.064, de 2005, introduz modificações tanto na lei nº como na lei nº O parágrafo único do Art. 1º da lei conceitua a edificação destinada a uso coletivo como a edificação, cujo fim seja comercial, de serviço, industrial ou residencial multifamiliar, que se preste à ocupação por pessoas, em caráter permanente ou temporário 16 e o Art. 2º estabelece que a certidão de baixa e habite-se, parcial ou total, somente poderá ser concedida após apresentação de laudo técnico, emitido por profissional legalmente habilitado e com anotação de responsabilidade técnica, que ateste a eficiência do sistema de prevenção e combate a incêndio implantado e a sua adequação às normas técnicas e à legislação vigente. 17 Com isso, a partir de 2005 tanto a aprovação de projetos de arquitetura e concessão de alvarás de construção, como a concessão de habite-se e baixa de construção deixaram de estar explicitamente condicionados à vistoria pelo Corpo de Bombeiros. Em seu lugar, o poder público municipal passou a exigir, expressamente, um laudo técnico elaborado por profissional legalmente habilitado e com a devida anotação da responsabilidade técnica, para atestar a eficiência do sistema de prevenção e combate a incêndio das edificações. 18 Ao estabelecer tais condições, o decreto nº deixa de exigir a manifestação explícita do Corpo de Bombeiros e transfere a agentes da sociedade a responsabilidade técnica pela eficiência do sistema de prevenção e combate a incêndio. A responsabilização de agentes da sociedade se amplia na medida que inclui a obrigação de renovação periódica do laudo afim de garantir a manutenção da eficiência do sistema de prevenção e combate a incêndios e pânico e exige que o responsável pela edificação mantenha atualizado o documento comprobatório dessa eficiência. 16 Nova redação, porém sem alteração de conteúdo. 17 Alteradas as condições de concessão de certidão de habite-se e baixa de construção. 18 Como consta respectivamente, do parágrafo único do Art. 3o. da lei e do Art. 2o. da lei modificados pela lei

15 É importante notar que não é responsabilidade do profissional que atestou inicial ou anteriormente tal eficiência a obrigação de fiscalizar o sistema ou de mantê-lo em perfeitas condições. A manutenção da eficiência do sistema e as providências para renovação periódica do laudo são atribuições dos proprietários da edificação, diretamente ou por meio daquele que indicarem como responsável pela mesma. 4 ANÁLISE O foco do percurso proposto neste trabalho foi a identificação das responsabilidades relativas à segurança e prevenção contra incêndios em edificações de uso coletivo. Partiu-se do reconhecimento, na Carta Magna, da subordinação da organização dos bombeiros aos governos estaduais e passou-se a examinar a legislação no âmbito do estado de Minas Gerais. A análise desta legislação evidencia que até 2006 o AVCB 19 da edificação era emitido uma única vez e tinha validade permanente, desde que mantidas as condições iniciais da edificação. 20 No entanto, essa certificação não assegurava a efetiva eficiência do sistema de prevenção e combate a incêndio, já que constituía uma iniciativa voluntária por parte dos síndicos/proprietários da edificação manter em condições os equipamentos de segurança, uma necessidade pouco reconhecida, certamente ainda hoje. Com o decreto estadual , em 2006 o auto de vistoria passa a ter validade limitada, o que torna obrigatória a atualização da sua validade, responsabilidade esta atribuída ao responsável pela edificação, sob pena de aplicação de sanções pelo Corpo de Bombeiros. No que se refere à legislação municipal de Belo Horizonte, observa-se uma significativa modificação no ano de 2005, ano de publicação da Lei 9.064, relativamente às exigências do município para aprovação de projetos e concessão de habite-se, complementarmente à ação fiscalizadora do Corpo de Bombeiros de Minas Gerais. 19 AVCB- Auto de Vistoria do Corpo de Bombeiros. 20 Com o estabelecimento de um prazo de validade, tanto para o AVCB como para os laudos técnicos mencionados na legislação municipal, é possível garantir que os equipamentos instalados permaneçam eficientes, já que é obrigatória a vistoria local sempre que se for proceder à renovação de ambos documentos. No entanto, em termos de divulgação da obrigatoriedade de renovação, é pouco provável que os responsáveis pelas edificações coletivas do município tenham ciência disso.

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