UM OLHAR SOBRE A MÍSTICA. O USO DA MÍSTICA NOS ESPAÇOS DE ENGAJAMENTO E PARTICIPAÇÃO POLÍTICA

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1 UM OLHAR SOBRE A MÍSTICA. O USO DA MÍSTICA NOS ESPAÇOS DE ENGAJAMENTO E PARTICIPAÇÃO POLÍTICA Selma Dansi 1 RESUMO As Representações do Rural nos Processos Organizativos da Juventude Rural (UFRRJ/FAPERJ/NEAD/MDA). Esse sub-projeto faz parte do Projeto de pesquisa. Os jovens estão indo embora? a construção da categoria juventude rural em movimentos sociais no Brasil coordenado pela profª Elisa Guaraná de Castro em convênio com o NEAD/MDA. Este trabalho Um Olhar Sobre a Mística o uso da mística nos espaços de engajamento e participação política, é resultado parcial da coleta de dados levantados. O trabalho tem por objetivo analisar as manifestações auto-definidas como culturais e seus usos nos processos organizativos dos jovens rurais, e neste caso o uso da mística. E para entender esse processo a pesquisa vem utilizando como método revisão bibliográfica, aplicação de questionários para a realização de um perfil dos jovens que participam desses eventos, entrevistas individuais e coletivas, conversas informais com as (os) jovens nos espaços organizativos. A mística é usada de forma lúdica, mas também como forma de expressar posições políticas. Diante deste novo contexto de organização da juventude percebemos o desejo desses jovens rurais, não só de permanecer no meio rural, mais de se reafirmarem sua identidade como juventude rural, de forma a resgatar suas raízes através da mística. PALAVRAS-CHAVE: Identidade. Juventude Rural. 1 INTRODUÇÃO O Projeto de Pesquisa As representações do Rural nos processos organizativos da juventude rural. (UFRRJ,FAPERJ) trata da análise da participação da juventude rurais e sua atuação nos movimentos sociais, levando em consideração suas representações dentro dos seus processos organizativos. O Plano de Trabalho inicial propôs focalizar as representações sobre rural e urbano, presentes nos processos de conformação de identidades sociais e políticas, nos processos organizativos da juventude nos movimentos sociais rurais. Compreender as construções identitárias que estão emergindo desses processos organizativos da juventude rural. Com enfoque na análise sobre as representações sociais rurais e urbanas, através da observação das manifestações auto-definidas como culturais que fazem parte dos eventos nacionais, tais como música, teatro, imagens, filmes, fotografias, performances. Ao longo do processo de observação nos eventos acompanhados pode-se perceber a importância dos espaços 1 Bolsista de Iniciação (UFRRJ/FAPERJ/NEAD/MDA) Cientifica, Discente do Curso de Economia Doméstica 1

2 denominados pelos jovens de mística 2 e a música. Assim a analise se deteve mais nessas duas expressões político culturais. O projeto vem acompanhando diversos eventos realizados pelos movimentos sociais rurais do Brasil, nos quais vimos levantando o perfil dos participantes, assim como em eventos de juventude realizados por esses movimentos. Para sabermos quem são os jovens que hoje fazem parte dos movimentos sociais rurais, aplicamos um instrumento quantitativo e qualitativo em três dos eventos acompanhados entre Julho de 2006 a Fevereiro de 2008: II Congresso Nacional da Pastoral da Juventude Rural de 23 a 27 de julho de 2006 /DF - (organização PJR); V Congresso Nacional do MST de 23 de outubro a 26 de outubro 2007(organização MST); - 2 Plenária Nacional dos Trabalhadores e Trabalhadoras Rural CONTAG FETAGs STTRs. Realizado Luziânia - Goiás. No período de Julho 2006 a Julho 2007 já realizava atividades como estagiária pelo SINTEG/UFRRJ, ainda sem bolsa de Iniciação Científica (FAPERJ), que foi concedida no mês de Julho do mesmo ano (2007). A metodologia utilizada na pesquisa baseia-se na revisão bibliográfica, aplicação de questionários, para a realização de um perfil dos jovens que participam desses eventos, entrevistas individuais e coletivas, conversas informais com as (os) jovens, e, principalmente na observação participante. Algumas alterações, quanto às atividades programadas no Plano de Trabalho, ocorreram em função da dinâmica dos próprios movimentos sociais. 2 REVISÃO DE LITERATURA Segundo Rodrígues (1998): [...] a democracia, é um princípio de organização da vida social que só é possível em um mundo de identidades políticas e de diferenças sociais politizadas. Com valor e como princípio de organização da vida em sociedade, democracia e política são noções polissêmicas, seus sentidos sendo definidos contextualmente pelos agentes e grupos sociais [...] ( p. 17). Partindo desse princípio de organização social que a análise desde estudo se apresenta, ou seja, um olhar sobre atores sociais que surgem de um novo contexto e de formas diferentes de organização no campo, em especial a juventude. Hoje, a identidade jovem tem sido reafirmada em processos organizativos nos movimentos sociais rurais no Brasil. A partir dos 2 Segundo, Bogo(2002), a mística é um momento de integração entre os jovens, onde os mesmos trabalham músicas, poemas e versos, muita arte, teatro e expressão corporal, resgatando memórias e momentos que marcaram história de suas caminhadas. 2

3 anos 2000 observamos uma maior visibilidade de organizações de jovens nos movimentos sociais rurais sindicais CONTAG 3 (Confederação Nacional dos trabalhadores na agricultura) e FETRAF 4 (Federação dos Trabalhadores na Agricultura Familiar) e nos movimentos que integram a VIA CAMPESINA 5. Neste trabalho vamos apresentar uma primeira análise do uso da mística como forma de construção de identidade e de engajamento político. 3 MÉTODOS INVESTIGATIVOS A identidade jovem tem sido reafirmada em processos organizativos nos movimentos sociais rurais no Brasil. E para que entender esse processo a pesquisa 6 vem utilizando a seguinte metodologia: revisão bibliográfica, aplicação de questionários para a realização de um perfil dos jovens que participam desses eventos, entrevistas individuais e coletivas, conversas informais com as (os) jovens, e, principalmente, no caso do trabalho que ora apresentamos, a observação das místicas apresentadas nos espaços coletivos ao longo dos eventos A Mística nos Processos Organizativos da Juventude Rural Segundo Castro (2005): Os movimentos sociais no Brasil e em muitos países da América Latina são palco do surgimento de novas organizações de juventude rural como ator político. Isto é observado no MST (Movimento dos Trabalhadores Sem Terra), em Sindicatos de Trabalhadores Rurais, assim como em organizações patronais, e, ainda, em organizações religiosas evangélicas e católicas (p 12). Nos espaços organizativos, seminários de formação, congressos, encontros, bem como nas marchas, caminhadas, e outras formas de expressar publicamente suas posições políticas, um elemento sempre presente é a mística. A mística é usada de forma lúdica, mas também como forma de expressar posições políticas. As místicas se remetem a questões nacionais, a preocupações com a transformação da sociedade e em especial da realidade do 3 (CONTAG) Confederação Nacional dos trabalhadores na agricultura. 4 (FETRAF) Federação dos Trabalhadores na Agricultura Familiar. 5 No Brasil são membros da Via Campesina o (MST) Movimentos dos Trabalhadores Rurais Sem Terra, (MPA) Movimento dos Pequenos Agricultores, (MAB) Movimento dos Atingidos por Barragens, (MMC) Movimento de Mulheres Camponesas, (FEAB) Federação dos Estudantes de Agronomia do Brasil, (PJR) Pastoral da Juventude Rural. 6 Os jovens estão indo embora? a construção da categoria juventude rural em movimentos sociais no Brasil (DLCS/UFRRJ/FAPERJ),coordenado pela profª Elisa G. de Castro em convênio com o NEAD/MDA; 3

4 campo brasileiro, e com a afirmação da identidade da juventude rural. As Representações do Rural nos Processos Organizativos da Juventude Rural 7 tem por objetivo analisar as suas manifestações e neste estudo a mística e seu usos nos processos organizativos dos jovens rurais. A juventude rural organizada nos movimentos sociais do campo acompanhados pela pesquisa vem reforçando valores, buscando expressar e reafirmar sua identidade enquanto jovens do campo. O II Congresso Nacional da Pastoral Juventude Rural realizado em Brasília (2006), no V Congresso Nacional do MST (2007), foram espaços importantes para observarmos os processos organizativos e de engajamento político dos jovens. No II Congresso Nacional da Pastoral Juventude Rural 8, nos espaços coletivos os jovens se afirmavam, através dos símbolos e das falas como juventude rural. Na abertura do evento a mística envolveu muitos que participavam do evento com tema central Juventude camponesa na construção de um projeto popular para o Brasil. Em um dos momentos coletivos o discurso de uma jovem do Ceará chama a atenção quando a mesma diz Somos jovens, que vivemos na zona rural, construtores de uma nova sociedade e que possuímos a nossa própria identidade. A preocupação em reafirmar e valorizar a identidade rural aparece ao longo dos dois eventos mencionados. Os elementos utilizados como bandeiras, faixas, foices, sementes e flores etc. São símbolos que falam por si, e representa esforços e dedicação ao trabalho. Um instrumento que sempre aparecia junto a mística eram as músicas, reforçando os debates e também sendo utilizadas como um chamado de luta e participação política. Segundo Castro (2008), o engajamento político aparece freqüentemente como um chamado um convite para participar de um processo de transformação da sociedade, podemos ressalta esta afirmação com um trecho de uma música tocada e cantada pelos jovens nos momentos de plenária: Eu chamo a gente pra um momento novo, de caminhar junto com seu povo, é hora de transformar, o que não dá mais, sozinho isolado ninguém é capaz. Por isso vem, entra na roda com a gente também, você é muito importante, então vem. Não é possível crer que tudo é fácil. Há muita força que produz a morte. Gerando dor, tristeza e desolação. É necessário unir o cordão. (...) 9. 7 As Representações do Rural nos Processos Organizativos da Juventude Rural (UFRRJ/FAPERJ/NEAD/MDA). Esse sub-projeto faz parte do Projeto de pesquisa. Os jovens estão indo embora?, supra citada, fazem parte desse projeto o Projeto de Extensão: A juventude rural nos movimentos sociais no Brasil: recuperando a história recente. (DLCS/DEXT/UFRRJ). E o Projeto de Pesquisa As Jovens Rurais e a Reprodução Social das Hierarquias: Relações de Gênero na Construção da Categoria Juventude Rural em Movimentos Sociais no Brasil (DLCS/UFRRJ/CNPq). 8 A PJR (Pastoral da Juventude Rural) é composta de jovens rurais com objetivo de organizar a juventude rural em busca de melhorias para o campo. A PJR nasce em 1983 no Rio Grande do Sul na cidade de Pernambuco. Hoje esta distribuída por regiões abrangendo cerca 18 estados. No ano de 2000 realizou o 1 Congresso Nacional, em Brasília. Após este evento a PJR firma por concreto sua aliança com a Via Campesina. Em 2006 acontecerá O 2º Congresso Nacional da PJR sediado em Brasília do dia 23 à 27 de julho. Atualmente, a PJR já estruturada atua ao lado dos movimentos sociais em busca de melhorias no campo. 4

5 As místicas reforçam a valorização da condição de jovem e de agricultor que luta pela terra, que reafirma suas raízes, que busca melhorias para o campo. No decorrer do Congresso, tanto no início, durante ou no final das plenárias as místicas entrava em cena muitas vezes como um elemento surpresa. Os jovens traziam nas mãos fotografias e painéis de grandes mártires e guerreiros revolucionários. A mística sempre se manifestava de forma prática, porém cheia de ideologias e contextos, e o principal instrumento de luta para estes jovens rurais e o seu próprio corpo e nele que encontram forças para lutar. No V congresso Nacional do MST os símbolos apareciam com mais intensidade a bandeira representava o elemento principal, junto com o hino de luta a cruz com panos brancos e pretos a barraca com lona preta, o boné, o facão a foice etc. A emoção das místicas colaborava no fortalecimento da luta e diante de todas estes expressões que estes atores políticos se organizam e se fortalecem, se diferenciando no seu cotidiano, onde sua cultura se configura através da mística. 4 CONCLUSÕES As observações e entrevistas correram de forma participativa, os jovens sentiam a necessidade de serem ouvidos e compreendidos como atores sociais, sentindo-se fortalecidos como categoria, não somente como jovens, mas também como jovens rurais. Diante deste novo contexto de organização da juventude percebemos o desejo desses jovens rurais, não só de permanecer no meio rural, mas de se tornarem protagonistas de sua própria história, e o engajamento político se reforça através da mística e das músicas, sendo um meio de se fortalecerem como atores sociais e de reafirmarem sua identidade como juventude rural, de forma a resgatar suas raízes através da mística. 5 REFERÊNCIAS BOGO, A.; O Vigor da Mística; Caderno de Curlura n 2 MST; CASTRO, E.G.; Entre Ficar e Sair: uma etnografia da construção social da categoria jovem rural. Rio de Janeiro: PPGAS/MN/UFRJ; Tese de Doutorado; Música Momento Novo: Grupo Revivendo (SP). [10] Música Jovem da roça também tem seu valor, autor não identificado 5

6 . O Paradoxo Ficar e Sair : caminhos para o debate sobre juventude rural. In Ferrante, V.L.S.B. e Aly Jr,O. (orgs.) Assentamentos Rurais: impasses e dilemas (uma trajetória de 20 anos). São Paulo: UNIARA/Invra/ABRA, 2005a.. Os jovens estão indo embora? a construção da categoria juventude rural em movimentos sociais no Brasil; Relatório da Pesquisa (DLCS/UFRRJ); RODRÍGUES, Lorenzo Cachón. Uma antropologia da política: rituais, representações e violência: projeto de pesquisa / NUAP Núcleo de Antropologia da Política. Rio de Janeiro: NUA, p SILVA, B.; Representação coletiva. In: Dicionário de ciências Sociais. 1.ed. Rio de Janeiro : Fundação Getulio Vargas, p

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