A influência do contexto social na obra Chapeuzinho Vermelho

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1 A influência do contexto social na obra Chapeuzinho Vermelho Guilherme Argenta Souza Ceres Helena Ziegler Bevilaqua UFSM A obra Chapeuzinho Vermelho é um clássico da literatura universal, apreciada por pessoas do mundo inteiro. Ela está presente não só no imaginário infantil, mas também no pensamento reflexivo do adulto. A primeira versão foi publicada em 1697 por Charles Perrault ( ), juntamente com mais sete contos na obra Histórias ou contos do tempo passado, com suas moralidades: contos da Mãe Gansa. Provavelmente, a origem de Chapeuzinho Vermelho tenha sido a mitologia grega, mais tarde incorporada à cultura popular e contada oralmente. Mas foi Perrault que a editou e a tornou conhecida, usando uma linguagem clara, desembaraçada e direta que agradou a adultos e a crianças do mundo inteiro. A literatura produzida no século XVII não era propriamente uma literatura dedicada a crianças, até porque não havia a distinção entre adultos e crianças. Os contos de fada, nesse período, foram criados pensados em adultos. As crianças usavam o mesmo estilo de roupas que os adultos, além de compartilharem os mesmos cômodos, os trabalhos e os ambientes sociais. Assim, ao circular nos mesmos lugares que os adultos, as crianças ouviam as mesmas histórias e contos de fada que os adultos escutavam. Quando editada, a obra Chapeuzinho Vermelho tornou-se conhecida mundialmente, pois possuía uma linguagem clara, objetiva e enredo interessante. Porém, encontramos na obra um cunho moralista, pois serve para mostrar que as crianças não devem dar atenção a pessoas desconhecidas. Como podemos perceber no seguinte trecho, Perguntou-lhe o lobo aonde ia ela. A pobre criança não sabia como era perigoso dar ouvidos a um lobo. Na obra, o vilão era um lobo, mas ao transferir para a realidade poderia ser um homem, um bandido. Dois séculos após a primeira edição de Chapeuzinho Vermelho, surge uma nova versão, desta vez feita pelos Irmãos Grimm, Jacob ( ) e Wilhelm ( ). A nova versão é produzida no período em que se

2 2 consolida a sociedade liberal-burguesa, na qual ocorre o apogeu da Era romântica. A versão feita pelos irmãos Grimm já está em um contexto social em que a criança deixa de ser vista como um adulto e passa a ser tratada como criança que necessita de cuidados específicos. Segundo Nelly Novaes Coelho: Dentro desse processo renovador, a criança é descoberta como um ser que precisa de cuidados específicos para a sua formação humanística, cívica, espiritual, ética e intelectual. E os novos conceitos de Vida, Educação e Cultura abrem caminho para os novos e ainda tateantes procedimentos na área pedagógica e na literária. Pode-se dizer que é nesse momento que a criança entra como um valor a ser levado em consideração no processo social e no contexto humano. (COELHO, 1991, p.108). Nesse período, a criança ainda é vista como um adulto em miniatura, mas já é de entendimento que sua mentalidade não é a mesma de um adulto. Na versão dos Grimm, o final é diferente da versão feita por Perrault. Na primeira, o lobo devora a menina e a avó; na segunda, o caçador abre a barriga do lobo, permitindo que as duas saiam vivas. Portanto, na versão dos Grimm já se traduz uma nova sociedade, na qual a violência já é pensada como algo que não é pertinente e adequado para crianças. Nessa nova versão, também há o cunho moralista, no qual as crianças não devem dar atenção a desconhecidos. As obras de cunho moralista contribuem para a formação das crianças, que, no século XIX, ainda não tinham a quantidade de informações que as crianças do século XXI possuem. Esse cunho moralista é utilizado pelos pais como exemplo para os filhos, pois se a criança der atenção a um desconhecido, algo de ruim poderá lhe acontecer. Neste caso, o vilão é novamente o lobo-mau. As épocas em que Perrault e os irmãos Grimm produziram suas obras são distintas, podemos perceber as transformações sociais que houve dois séculos após a primeira versão. Como no século XIX as pessoas já vêem a criança diferente do adulto, isso se traduz em Chapeuzinho Vermelho, pois a obra de Perrault tem um final trágico que, para um adulto, pode não ser chocante, mas para uma criança é assustador. Como a criança já passa a ser vista como criança, a qual precisa ser protegida da violência, o final da obra dos Grimm é diferente, ou seja, o

3 3 caçador chega como herói e salva a menina Chapeuzinho e sua avó, permitindo, dessa forma, um final feliz e menos traumático para a criança. Assim, a moral prevalece, as crianças não devem dar atenção a desconhecidos, como consta na tradução da versão dos Grimm E contam também que, certa vez, Chapeuzinho Vermelho ia levando, novamente, um bolo à sua avozinha e outro lobo tentou desviá-la do caminho. Mas a menina não lhe deu ouvidos. Assim, com o susto, a menina não conversou mais com lobos. Também, há uma preocupação para que o lobo não morra como ratifica Bruno Bettelheim: Há razão para que o lobo não morra em conseqüência do corte no estomago para libertar aqueles que engoliu. O conto de fadas protege a criança de uma angústia desnecessária. Se o lobo morresse ao ter seu estômago aberto tal como uma operação cesariana, os ouvintes poderiam temer que uma criança, ao sair do corpo da mãe, a matasse. Mas, como o lobo sobrevive à abertura do estômago e só morre porque pedras pesadas foram colocadas nele, não há razão para angústia a respeito do parto. (BETTELHEIM, 1975, p.247). Com isso, a criança, ao ler ou ouvir a história, até poderá associar a abertura da barriga do lobo a um parto, mas que um corte na barriga não implica, necessariamente, morte. A obra dos Grimm respeita a sensibilidade da criança, permitindo que ela veja o mundo sem traumas, como algo natural. O contexto social em que a versão dos Grimm é inserida é um período em que os teóricos e especialistas começam a entender a mentalidade infantil, reconhecendo que as crianças são sensíveis a certas situações e que possuem medos. O que é natural para um adulto, como o parto, pode ser transformado em um problema se não for bem compreendido pela criança. O texto dos irmãos Grimm preserva a preocupação de não traumatizar o leitor infantil e entender a sua mentalidade. Dessa forma, a obra contribui para que as crianças, de uma maneira lúdica, aprendam que é perigoso falar com quem não conhecem, já que, no século XIX, não havia as informações que há hoje, exemplos divulgados pela mídia nos quais crianças são vítimas de seqüestros e maus tratos. Assim, os contos de fada, como Chapeuzinho Vermelho servem mais como instrumento

4 4 pedagógico do que arte literária, uma vez que mostram determinados valores que devem ser seguidos e respeitados pela sociedade. O final da história dos Grimm permite que as crianças tenham certeza de que Chapeuzinho e sua avó não morreram, pois, ao serem libertadas pelo caçador as duas agem normalmente. A história deixa bem claro que as duas não morreram ao serem engolidas. Isso é evidenciado pelo comportamento de Chapeuzinho vermelho ao ser libertada. a menina pulou para fora gritando: Que medo que eu tive! Como estava escuro dentro do lobo! Ter sentido medo mostra que a pessoa estava bem viva, e significa um estado oposto à morte, quando não se sente ou pensa mais. O medo de Chapeuzinho Vermelho era da escuridão, porque devido a seu comportamento, ela havia perdido sua consciência mais elevada, a qual havia lançado luz sobre o seu mundo. Como a cria que, sabendo que agiu errado, ou não se sentindo mais bem protegida pelos pais, sente cair sobre si a escuridão da noite com seus terrores. (BETTELHEIM, 1975, p. 249). Outro elemento que encontramos neste conto é a importância das relações familiares. Embora haja muitas especulações e estudos sobre o significado das personagens, há uma relação familiar estável entre chapeuzinho, a mãe e sua avó. A mãe manda chapeuzinho ir até a casa da avó para saber como ela está, Vai ver como está a sua avó, pois me disseram que anda doente; leva-lhe uns pães e esta tigelinha de manteiga. Com isso, podemos perceber a proximidade e a boa relação que as personagens possuem. Se a relação não fosse boa, Chapeuzinho não iria feliz levar os pães à avó. Também, ao chegar à residência da senhora, a criança estranha a fisionomia da avó, o que nos permite inferir que ela estava acostumada a vê-la alegre e feliz. Esse pode ter sido um dos motivos do sucesso do conto Chapeuzinho Vermelho, já que não é uma simples obra literária que reúne, numa trama interessante, elementos do mundo fantástico maravilhoso, mas esse valor educativo, que é capaz de transmitir elementos e valores de forma agradável para a criança. A obra Chapeuzinho Vermelho teve várias versões no decorrer dos séculos, sempre influenciada pelo contexto social de cada época; traduzida em diversas línguas, a obra continua no imaginário infantil dos tempos atuais.

5 5 Em 1979, é editada pela primeira vez a obra Chapeuzinho Amarelo, de Chico Buarque de Holanda. Essa é uma obra contemporânea, uma adaptação do clássico Chapeuzinho Vermelho. Nessa obra, Chico Buarque escreve para o público infantil, pensando nas crianças, e isso difere das versões de Perrault e dos irmãos Grimm. Nessa obra, Chico Buarque de Holanda se detém na criança contemporânea, cheia de temores e restrições. Em um primeiro momento, a personagem, Chapeuzinho Amarelo, tem vários medos, quase não age por seus medos; sua fisionomia é amarela por não sair de casa. Isso ocorre em um âmbito social em que a criança já conhece os perigos, sabe as coisas horríveis que pode enfrentar ao sair de casa. Nos textos anteriores, Chapeuzinho Vermelho era inocente, pois não conhecia o lobo, nem as suas maldades, já Chapeuzinho Amarelo, no texto de Chico, conhece o lobo e seus perigos, suas traições. A criança dos dias atuais, que fica em casa, que possui meios de comunicação e informação, não é mais uma criança inocente, que não conhece os perigos, mas uma criança que prefere ficar em casa a correr os perigos do cotidiano. Chapeuzinho Amarelo, diferente de Chapeuzinho Vermelho, nunca sai de casa, o que nos remete a um contexto social contemporâneo, em que as crianças ficam presas em suas residências. O medo da personagem de Chico Buarque de Holanda, também, remete à atual violência que a sociedade enfrente, pois as crianças têm livre acesso à informação, dessa forma sabem dos perigos que correm ao sair de casa. A personagem, Chapeuzinho Amarelo, é praticamente estática, sem ação, pois tudo lhe dá medo: Tinha medo de trovão/ minhoca para ela, era cobra/ E nunca apanhava sol/ porque tinha medo da sombra./ Não ia pra fora pra não se sujar./ Não tomava sopa pra não ensopar. / Não tomava banho pra não descolar./ Não falava nada pra não engasgar. Não ficava em pé com medo de cair./ Então vivia parada, /deitada, mas sem dormir, com medo de pesadelo./ Era a chapeuzinho amarelo. (HOLANDA, 1997, p. 2)

6 6 Na paródia criada por Chico Buarque de Holanda, a personagem já conhece o lobo de outras histórias, através da intertextualidade. Percebemos que é uma personagem que possui informação, pois já leu/ ouviu as antigas histórias de Chapeuzinho Vermelho. O Lobo é imaginário, não existe como nas versões antigas, é um lobo virtual: De todos os medos que tinha,/ o medo mais medonho/ era medo do tal LOBO,/ um LOBO que nunca se via,/ que morava lá pra longe/ do outro lado da montanha/ numa terra tão estranha,/ que vai ver que o tal LOBO/ nem existia. (HOLANDA, 1997, p. 4). O lobo, o medo mais medonho, é um lobo virtual, pois o narrador conclui que vai ver que o tal de lobo nem existia, além de nunca ser visto. Como a menina tem medo de algo que ela nunca viu? Isso está no imaginário da personagem, porque o lobo que ela tem medo é o das histórias que ela já conhece. Ao passar o tempo, Chapeuzinho Amarelo encontrou o lobo, talvez tenha sido um sonho, e, ao encontrá-lo, perdeu o medo não só do lobo, mas todos os outros medos. Passou a sair de casa e a agir. Dessa forma, a menina conquista a liberdade ao ver que o mundo não é tão perigoso e descobre os prazeres que as crianças sentem, uma vez que começa a brincar, correr, subir em árvores. O mesmo acontece a uma criança que fica presa horas do dia em casa, quando começa a freqüentar parques, praças, a ter contato com a natureza, perde seus temores. Após a menina perder o medo, há uma inversão dos sujeitos, ou seja, o lobo, de dominador, passa a passivo, como vemos no seguinte trecho: E ele gritou: sou um LOBO!/ Mas a Chapeuzinho, nada./ E ele gritou: sou um LOBO!/ Chapeuzinho deu risada./ E ele berrou: EU SOU UM LOBO!!!/ Chapeuzinho, já meio enjoada, com vontade de brincar/ de outra coisa. / Ele então gritou bem forte/ aquele seu nome de LOBO/ umas vinte e cinco vezes,/ que era pro medo ir voltando/ e a meninha saber/ com quem estava falando: EU SOU UM LOBO! (HOLANDA, 1997, p. 10)

7 7 O lobo passa a não ser mais objeto de medo da menina, e ela deixa de ser uma presa fácil de ser devorada, pois mesmo que ele tente assustá-la, ela não vê mais medo na personagem que maltratou a personagem de Perrault e dos irmãos Grimm. Isso nos insere no contexto em que a criança, ao entrar em contato com a realidade, deixa de sentir certos medos. Ao sair à rua, vê quem nem todas as pessoas são más, passando a conviver socialmente. Quando a imagem do medo é desconstruída, também se desconstrói a imagem de agressividade do lobo, ele se transforma em um ser inofensivo que pode ser comido pela menina, pois de LOBO transforma-se em BOLO. LO-BO LO- BO LO- BO LO- BO- LO- BO LO-BO LO- BO- LO (HOLANDA, 1997, p. 12). Desse modo, a obra surgida através da oralidade, depois editada por Perrault, e feita uma nova versão pelos irmãos Grimm, foi ganhando o mundo, lida e contada desde o século XVII até os dias atuais, logicamente que adaptada conforme o contexto social em que é inserida. Na obra de Perrault, Chapeuzinho Vermelho ainda não é visto como uma criança, pois na sociedade da época não havia distinção entre crianças e adultos, por isso o final trágico, e talvez assustador. Já na versão dos Grimm, a sociedade do século XIX reconhece a diferença entre adulto e criança. Há, assim, uma preocupação com o final da narrativa para que as personagens não decepcionem o imaginário infantil através dos contos de fadas. Na paródia feita por Chico Buarque de Holanda, encontramos uma versão contemporânea que traduz os problemas e situações enfrentadas pelas crianças de hoje, além de uma transformação da personagem. Assim, mesmo recebendo adaptações, a obra continua servindo como recurso pedagógico e literário. Referências COELHO, Nelly Novaes, Literatura infantil, São Paulo: Ática, COELHO, Nelly Novaes. Panorama histórico da literatura infanto-juvenil/ das origens indoeuropéias ao Brasil contemporâneo. São Paulo: Quíron, 1985.

8 8 BETTELHEIM, Bruno, A psicanálise dos contos de fadas, Rio de Janeiro: Paz e terra, GRIMM, Irmãos, Chapeuzinho Vermelho, São Paulo: Cortez, CHARLES, Perrault, Chapeuzinho Vermelho, São Paulo: Cortez, HOLANDA, Chico Buarque, Chapeuzinho Amarelo, Rio de Janeiro: José Olympio, 1997.

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