DOENÇA CELÍACA ATÍPICA EM ADOLESCENTE COM DIABETES MELLITUS TIPO 1: RELATO DE CASO

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1 DOENÇA CELÍACA ATÍPICA EM ADOLESCENTE COM DIABETES MELLITUS TIPO 1: RELATO DE CASO Nabel Anderson de Lencaster Saldanha da Cunha 1 Maria Auxiliadora Ferreira Brito Almino 2 Kédma Suelen Braga Barros 3 1 Introdução/ Desenvolvimento O Diabetes Mellitus Tipo 1 (DM1) é um distúrbio metabólico caracterizado por uma deficiência na produção da insulina, com consequente hiperglicemia, resultante da destruição das células betapancreáticas, de etiologia autoimune ou idiopática (SOCIEDADE BRASILEIRA DE DIABETES, 2009). O DM 1 autoimune é a forma de Diabetes mais comum nas crianças e nos adolescentes (MANNA, 2007). Os estudos DIAbetes MONDiale, EURODIAB e SEARCH for Diabetes in Youth Study forneceram dados sobre o perfil epidemiológico do diabetes em crianças e adolescentes em vários países, evidenciando a extrema variação de incidência da doença nos diferentes locais e um aumento da prevalência de diabetes no decorrer dos anos (LIBMAN, 2009). Segundo Almino (2005), apesar da ausência de estudos sobre a incidência de DM 1 em crianças e adolescentes no município de Barbalha, percebe-se, empiricamente, um aumento na incidência da doença na região. No ambulatório de Diabetologia Pediátrica desenvolvido semanalmente no Centro Integrado de Hipertensão e Diabetes de Barbalha, com a participação do Projeto de Extensão Abordagem a Criança e ao Adolescente Portador de Diabetes Mellitus tipo 1, observa-se um número crescente de crianças e adolescentes acompanhados pelo serviço. O DM 1 frequentemente está associado a outras doenças autoimunes, como a tireoidite autoimune, a doença celíaca, a doença de Addison e o vitiligo. Essa susceptibilidade aumentada para outras doenças autoimunes é conferida pela interação de múltiplos fatores genéticos e ambientais (CAMARCA et al., 2012). A doença celíaca (DC) é uma doença autoimune, causada pela intolerância permanente ao glúten, principal fração proteica presente no trigo, no centeio, na cevada 1 Acadêmico do 4º ano do curso de medicina da Faculdade de Medicina, Universidade Federal do Ceará, Barbalha, Ceará, 2 Professora da Faculdade de Medicina, Universidade Federal do Ceará, Barbalha, Ceará, 3 Acadêmica do 2º ano do curso de medicina da Faculdade de Medicina, Universidade Federal do Ceará, Barbalha, Ceará, 1

2 e na aveia, que se expressa por enteropatia inflamatória mediada por linfócitos T e, em sua forma clássica, apresenta-se clinicamente através de diarreia crônica, geralmente acompanhada de distensão abdominal e perda de peso (BRASIL, 2010). A enteropatia inflamatória decorrente da DC é acompanhada de hiperplasia de criptas e atrofia de vilosidades, levando à má-absorção alimentar (MONT-SERRAT et al., 2008). Consequente à má-absorção de alimentos, os pacientes com DC podem apresentar, mesmo sem a presença de sintomas gastrointestinais, deficiências de ferro, ácido fólico, cálcio, vitamina D e vitamina B12, que devem ser investigadas e tratadas (KOTZE, 2010). Grande parte das apresentações de doença celíaca em crianças e adolescentes com diabetes mellitus tipo 1 são atípicas, ou seja, com poucos ou nenhum sintoma gastrointestinal, ou assintomáticas. São sintomas relacionados à apresentação atípica da DC mais comumente presentes, a baixa estatura, o atraso do desenvolvimento puberal, a fadiga, as deficiências de vitaminais e a deficiência de ferro (CAMARCA et al., 2012). A heterogeneidade da apresentação clínica da doença dificulta o diagnóstico, ocasionando retardo no início do tratamento, com consequente maior possibilidade de complicações para o doente. A prevalência de DC entre portadores de DM 1 tem sido estimada em torno de 4%, variando 0 a 10%, superando a prevalência na população geral entre 0,5% e 1% (MONT-SERRAT et al., 2008). Segundo Araújo (2006), em estudo sobre a prevalência de doença celíaca através da triagem por anticorpo antitransglutaminase humano da classe IgA de pacientes com diabetes mellitus tipo 1 acompanhados em um ambulatório de endocrinologia pediátrica, evidenciou-se positividade para este anticorpo em 10,5% dos pacientes. O diagnóstico é suspeitado pela presença de manifestações clínicas, confirmado com posterior triagem sorológica através dos anticorpos antiendomisio da classe IgA, antitransglutaminase da classe IgA ou IgG e da dosagem de IgA sérica total. Nos pacientes com positividade para um dos anticorpos da classe IgA, acompanhado de IgA sérica em níveis normais, ou nos pacientes com deficiência de IgA e positividade para o anticorpo antitransglutaminase da classe IgG, prossegue-se a investigação com endoscopia digestiva alta e biopsia de mucosa duodenal. A atrofia vilositária, a hiperplasia de criptas e o aumento dos linfócitos intraepiteliais são alterações classicamente associadas à DC. Os testes sorológicos são utilizados na triagem e seguimento destes pacientes. (BRASIL, 2010) Conforme Grainge (2012), aos estudos apontam para um risco aumentado de neoplasias malignas em pacientes com DC comparado à população geral, especialmente de linfoma não-hodgkin s. Entretanto, a literatura é discordante sobre a maior incidência de outras neoplasias malignas em pacientes com DC, sendo encontrados resultados conflitantes, variando de acordo com a população estudada, metodologia do estudo, época de realização do estudo e tempo de seguimento destes pacientes. De acordo com Freeman (2009), o risco de desenvolvimento de neoplasia maligna é de difícil precisão, porém 8-10% dos pacientes adultos com alterações histopatológicas graves relacionadas à DC desenvolvem linfoma. Freeman ainda afirma que a duração da dieta isenta de glúten e o grau de adesão à restrição de glúten são fatores cruciais no surgimento das neoplasias relacionadas à DC. Diante das dificuldades relacionadas ao diagnóstico de apresentações atípicas e assintomáticas de DC em pacientes que apresentam simultaneamente DM 1, somado a necessidade de intervenção precoce para redução de complicações, é relevante o relato dessa experiência. Neste contexto, objetiva-se relatar um caso de doença celíaca atípica 2

3 em uma paciente com diabetes mellitus tipo 1 acompanhada no Centro Integrado de Hipertensão e Diabetes de Barbalha. 2 Metodologia/ Resultados A metodologia utilizada foi a de um relato de caso de uma adolescente acompanhada no Centro Integrado de Hipertensão e Diabetes de Barbalha com descrição clínica, laboratorial e histopatológica, medidas terapêuticas e desfecho do caso, associado à revisão bibliográfica sobre o tema com os descritores DOENCA CELIACA e DIABETES MELLITUS TIPO 1 no portal da BIREME/Biblioteca Virtual de Saúde nos bancos de dados LILACS, IBECS, MEDLINE e SciELO com refinamento para Textos Completos de 2005 a Relata-se o caso de uma adolescente do sexo feminino, 14 anos e 1 mês, cor parda, natural do município de Barbalha/CE, procedente do Sítio Brejinho, zona rural do município de Barbalha, acompanhada desde os 11 anos e 10 meses no ambulatório de Diabetologia Pediátrica com diagnóstico de Diabetes Mellitus Tipo 1, que compareceu ao serviço para consulta, com queixas de epigastralgia e dificuldade de ganho ponderal há 6 meses, sem queixas ao interrogatório sintomatológico. Ao exame físico, apresentava-se com estado geral regular, apática, pouco comunicativa, hipocorada (3+/4+), emagrecida, com peso de 37 Kg, estatura de 153 cm e IMC de 15,81 kg/m² (-1,82 Escore Z; IMC x Idade. OMS, 2007). Para investigação dos achados, solicitou-se hemograma, hemoglobina glicada, parasitológico de fezes em 3 amostras, TSH ultrassensível, dosagem de anticorpo antitransglutaminase recombinante humana da classe IgA pelo método ELISA, dosagem de anticorpo antiendomísio da classe IgA, sendo orientado o retorno após o recebimento dos resultados dos exames solicitados. Após 2 meses, a paciente trouxe os resultados dos exames que mostraram, como detalhado na tabela 1, anticorpo antiendomisio IgA reagente e anticorpo antitransglutaminase IgA reagente. Com a positividade dos marcadores sorológicos para doença celíaca, solicitou-se endoscopia digestiva alta (EDA) com biopsia de intestino delgado. Após 5 meses, a paciente retorna ao ambulatório com os laudos da EDA e do exame histopatológico. A EDA mostrou pangastrite endoscópica enantematosa leve e achatamento de pregas de kerckring ao nível da segunda porção duodenal. Os fragmentos duodenais biopsiados demonstraram, à microscopia óptica, mucosa duodenal com achatamento criptal, vilos pequenos com reparação foveolar e redução da população caliciforme, e concluíram duodenite crônica com elementos de doença celíaca. Com a confirmação do diagnóstico de Doença Celíaca, a paciente foi orientada quanto à doença, à importância de adesão ao tratamento e à mudança de estilo de vida, sendo encaminhada para a nutricionista para prescrição da dieta isenta de glúten. Nessa ocasião, foi reforçada a importância do consumo de alimentos sem o trigo, o centeio e a cevada; sendo a soja, o arroz, a batata e o milho permitidos em quantidades adequadas para a manutenção do controle glicêmico. Além disso, orientou-se a paciente fazer a leitura dos rótulos dos alimentos industrializados antes da ingestão. A adolescente retornou para avaliação após um mês, com ganho de 2,7 kg após instituição de dieta isenta de glúten, sem queixas, mais comunicativa e com melhora do humor. A paciente do caso relatado mostra uma forma atípica de doença celíaca, que se apresenta por epigastralgia como único sintoma gastrointestinal, dificuldade de ganho ponderal, apatia, palidez cutâneo-mucosa e comprometimento do estado geral. Embora comparecesse irregularmente às consultas médicas, a paciente apresentava boa adesão ao tratamento de DM1, com bom controle glicêmico. 3

4 Tabela 1 Resultado dos Exames Laboratoriais da Paciente Exames Resultados Valores de referência Hemácias 4,64 x /mm³ 4,1 5,3 Hemoglobina 12,9 g/dl 12,0 15,0 Hematócrito 39,2 % TSH 1,37 mui/ml 0,30 5,00 mui/ml Anti-transglutaminase IgA 69 U/mL (Positivo) < 10 U/mL Anti-endomísio Anticorpo IgA Reagente Negativo Parasitológico de fezes seriado Negativo Negativo Hemoglobina Glicada (HbA1C) 6,2 % <7% (bom controle) Fonte: Prontuário Médico da Paciente - Centro de Diabetes e Hipertensão de Barbalha. Apesar da estatura adequada para a idade, observa-se um platô na curva de crescimento no gráfico de estatura por idade (OMS, 2007), com aumento da angulação da curva após o início do tratamento, como mostrado na figura 1, evidenciando o benefício precoce do tratamento com dieta isenta de glúten no ganho de peso e estatura. Os benefícios a longo prazo proporcionados pelo tratamento da doença celíaca estão relacionados à adesão à dieta isenta de glúten. Figura 1: Referencial estatura por idade. Percentil (OMS, 2007) O diagnóstico precoce de doença celíaca, a instituição da terapêutica adequada e seu monitoramento são essenciais na melhora da qualidade de vida, na prevenção de outras comorbidades e complicações associadas à doença. A dificuldade de acesso aos serviços de saúde, devido a fatores sociais e geográficos, comprometeu o seguimento deste caso. Além disso, a não realização de endoscopia digestiva alta em criança e adolescentes no município de Barbalha pelo Sistema Único de Saúde e o atraso no agendamento dos procedimentos de investigação complementar foram barreiras impostas pelo sistema de saúde que retardaram o diagnóstico. 4

5 3 Considerações Finais Estes resultados sugerem que devido ao grande número de apresentações atípicas e assintomáticas a doença celíaca deve ser investigada em todos os pacientes com Diabetes Melittus Tipo 1. O diagnóstico precoce da doença melhora a qualidade de vida e reduz as complicações e os custos na assistência à saúde desses pacientes. 4 Referências ALMINO, M.A.F.B.; QUEIROZ, M.V.O. Diabetes Mellitus em Adolescentes: aspectos clínicos e controle da doença. In: LOPES, C.H.A.F.(Organizador); QUEIROZ, M.V.O.(Organizador) Produção do conhecimento em saúde da criança e do adolescente: recortes de dissertações. 1 edição. Fortaleza : Editora da Universidade Estadual do Ceará, capítulo1, p ARAUJO, J. et al. Soroprevalência da doença celíaca em crianças e adolescentes com diabetes melito tipo 1. Jornal de Pediatria. Porto Alegre, v.82, n.3, junho BRASIL. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção à Saúde. Protocolo clínico e diretrizes terapêuticas da doença celíaca CAMARCA, M.E et al. Celiac disease in type 1 diabetes mellitus. Italian Journal of Pediatrics, Naply, v.38, n.10, FREEMAN, H.J. Malignancy in adult celiac disease. World Journal of Gastroenterology, Vancouver, v.15, n.13, april GRAINGE, M.J. et al. The long-term rick of malignancy following a diagnosis of coeliac disease or dermatitis herpetiformis: a cohort study. Alimentary Pharmacology & Therapeutics, Nottingham, v.35, p , january KOTZE, L. M. S. Doença Celíaca: conceitos, epidemiologia, patogênese e diagnóstico. In: BARBIERI, D. et al. Doenças diarreicas da criança e do adolescente. São Paulo: Atheneu, 2010, capítulo 19, p LIBMAN, I. M.. Epidemiología de la diabetes mellitus en la infancia y adolescencia: tipo 1, tipo 2 y diabetes doble?. Revista Argentina de Endocrinología y metabolismo, Ciudad Autónoma de Buenos Aires, v. 46, n. 3, setembro MANNA, T.D. Nem toda criança diabética é tipo 1. Jornal de Pediatria, Porto Alegre, v.83, n.5, novembro MONT-SERRAT, C. et al. Diabetes e doenças auto-imunes: prevalência de doença celíaca em crianças e adolescentes portadores de diabetes melito tipo 1. Arquivos Brasileiros de Endocrinologia & Metabologia, São Paulo, v.52, n.9, dezembro SOCIEDADE BRASILEIRA DE DIABETES. Diretrizes da Sociedade Brasileira de Diabetes Itapevi, 2009 WHO. World Health Organization. Growth reference data for 5-19 year. Disponível em: < Acesso em: 10 de outubro

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