ANDERSON FÁBIO NOGUEIRA ALVES

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1 CURSO DE ESPECIALIZAÇÃO EM CRIMINOLOGIA INSTITUTO DE CRIMINOLOGIA DA ACADEMIA DE POLÍCIA CIVIL DE MG EM PARCERIA COM O INSTITUTO DE EDUCAÇÃO CONTINUADA IEC DA UNIVERSIDADE CATÓLICA DE MG. Crimes contra a hierarquia e disciplina: A evolução da criminalidade contra a hierarquia e disciplina na Justiça Militar do Estado de Minas Gerais no decênio ANDERSON FÁBIO NOGUEIRA ALVES Belo Horizonte 2008

2 2 ANDERSON FÁBIO NOGUEIRA ALVES Crimes contra a hierarquia e disciplina: A evolução da criminalidade contra a hierarquia e disciplina na Justiça Militar do Estado de Minas Gerais no decênio Monografia apresentada ao Curso de Especialização em Criminologia da Academia de Polícia Civil em convênio com o Instituto de Educação Continuada IEC da Universidade Católica de Minas Gerais como requisito parcial para obtenção do título de Especialista em Criminologia. Área de Concentração: Criminologia. Orientador(a): Prof(a). Patrícia Luiza Costa. Belo Horizonte 2008

3 3 Quis custodiet ipsos custodes (quem vigia os vigilantes?) Juvenal, As Sátiras

4 4 RESUMO O presente estudo analisa a criminalidade militar, especificamente os crimes cometidos por policiais militares e bombeiros militares estaduais, cuja competência para julgamento é do Tribunal de Justiça Militar do Estado de Minas Gerais. O objetivo foi averiguar a evolução da criminalidade militar relacionada com a hierarquia e disciplina, principalmente condutas como desacato, violência contra superior e insubordinação. A análise foi baseada na quantidade de ações penais oferecidas pelo Ministério Público e sentenças condenatórias proferidas pela Justiça Militar Estadual no período de 1998 a O resultado alcançado não concluiu pelo aumento desta criminalidade específica. Entretanto, foi observado um aumento significativo da quantidade de processos criminais na Justiça Militar Estadual, com o crescimento de determinadas espécies de crimes, e a redução de outras, no decorrer do período. Foram apresentadas sugestões para outros trabalhos, buscando melhor entender e explicar o fenômeno do crime militar. Além disso, foram propostas algumas medidas ao órgão judiciário, especialmente no tocante ao tratamento estatístico dispensado aos eventos ocorridos. Palavras chave: Tribunal de Justiça Militar do Estado de Minas Gerais crime militar hierarquia e disciplina.

5 5 ABSTRACT This paper analyzes the military criminality, specifically those crimes commited by state military policeman and state military fireman whose competence for judgement is of the State Military Court of Minas Gerais. The aim was to check the evolution of the military criminality connected with the hierarchy and discipline, chiefly conducts as disrespect, violence against superior and insubordination. The analysis was based on the quantity of military criminal actions proposed by the Public Department and condemnatory sentences uttered by de State Military Justice in the period from 1998 to The reached result did not conclude for the increase of this specific criminality. Meantime, there was observed a significant increase of the quantity of criminal processes in the State Military Justice, with the growth of determined kinds of crimes, and the decrease of others, in the course of the period. Suggestions were presented for other studies, in the search to understand and to explain the phenomenon of military crime. Besides, some measures were proposed to the judicial organ, specially on the statistical treatment dispensed to the occurred events. Keywords: State Military Court of Minas Gerais - military crime - hierarchy and discipline.

6 6 LISTA DE ILUSTRAÇÕES Tabela 1 Documentos distribuídos na 1ª Instância da JME Tabela 2 Denúncias oferecids na 1ª Instância da JME Tabela 3 Militares denunciados na 1ª Instância da JME Tabela 4 - Comparativo absoluto denúncias oferecidas na 1ª Instância da JME Tabela 5 - Comparativo percentual denúncias oferecidas na 1ª Instância da JME Tabela 6 - Evolução denúncias grupo Tabela 7 - Graduação/posto dos denunciados no grupo Tabela 8 - Total de denúncias na 1ª Instância da JME Tabela 9 - Comparativo absoluto sentenças condenatórias na 1ª Instância da JME 1998/ Tabela 10 - Comparativo percentual sentenças condenatórias na 1ª Instância da JME 1998/ Tabela 11 - Graduação/posto dos sentenciados grupo Tabela 12 - Sentenças condenatórias grupo Tabela 13 - Denúncias oferecidas na 1ª Instância da JME Tabela 14 - Denúncias oferecidas na 1ª Instância da JME Tabela 15 - Denúncias oferecidas na 1ª Instância da JME Tabela 16 - Denúncias oferecidas na 1ª Instância da JME Tabela 17 - Denúncias oferecidas na 1ª Instância da JME Tabela 18 - Sentenças condenatórias na 1ª Instância da JME Tabela 19 - Sentenças condenatórias na 1ª Instância da JME Tabela 20 - Sentenças condenatórias na 1ª Instância da JME Tabela 21 - Sentenças condenatórias na 1ª Instância da JME Tabela 22 - Sentenças condenatórias na 1ª Instância da JME Tabela 23 - Sentenças condenatórias na 1ª Instância da JME Tabela 24 - Evolução do efetivo das Instituiçõs Militares do Estado de Minas Gerais Gráfico 1 Documentos distribuídos na 1ª Instância da JME Gráfico 2 Denúncias oferecids na 1ª Instância da JME

7 7 Gráfico 3 Militares denunciados na 1ª Instância da JME Gráfico 4 - Comparativo absoluto denúncias oferecidas na 1ª Instância da JME Gráfico 5 - Comparativo percentual denúncias oferecidas na 1ª Instância da JME Gráfico 6 - Evolução absoluta denúncias grupo Gráfico 7 - Evolução percentual denúncias grupo Gráfico 8 - Graduação/posto dos denunciados no grupo Gráfico 9 - Total de denúncias na 1ª Instância da JME Gráfico 10 - Comparativo absoluto sentenças condenatórias na 1ª Instância da JME 1998/ Gráfico 11 - Comparativo percentual sentenças condenatórias na 1ª Instância da JME 1998/ Gráfico 12 - Graduação/posto dos sentenciados grupo Gráfico 13 - Evolução absoluta sentenças condenatórias grupo Gráfico 14 - Evolução percentual sentenças condenatórias grupo Gráfico 15 - Denúncias oferecidas na 1ª Instância da JME Gráfico 16 - Denúncias oferecidas na 1ª Instância da JME Gráfico 17- Denúncias oferecidas na 1ª Instância da JME Gráfico 18 - Denúncias oferecidas na 1ª Instância da JME Gráfico 19 - Denúncias oferecidas na 1ª Instância da JME Gráfico 20 - Sentenças condenatórias na 1ª Instância da JME Gráfico 21 - Sentenças condenatórias na 1ª Instância da JME Gráfico 22 - Sentenças condenatórias na 1ª Instância da JME Gráfico 23 - Sentenças condenatórias na 1ª Instância da JME Gráfico 24 - Sentenças condenatórias na 1ª Instância da JME Gráfico 25 - Sentenças condenatórias na 1ª Instância da JME Gráfico 26 - Evolução do efetivo das Instituiçõs Militares do Estado de Minas Gerais

8 8 SUMÁRIO 1. INTRODUÇÃO SOCIEDADE E POLÍCIA CONTROLE DA ATIVIDADE POLICIAL DISCIPLINA E MOVIMENTOS REIVINDICATÓRIOS HIERARQUIA E A DISCIPLINA NA PMMG Crime de violência contra superior Crime de desrespeito a superior Crime de recusa de obediência Crime de desacato a superior NORMALIDADE DA INDISCIPLINA MÉTODO RESULTADOS Relatórios da Corregedoria da Justiça Militar Relatórios tipo a denúncias oferecidas Relatórios tipo b sentenças condenatórias DISCUSSÃO E CRÍTICA CONCLUSÕES REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS APÊNDICE... 85

9 9 1 INTRODUÇÃO As forças de segurança, especialmente a Polícia Militar, voltaram ao centro das discussões em toda a sociedade brasileira no ano de Pode-se destacar a estréia do filme TROPA DE ELITE, assim como a publicação do livro ELITE DA TROPA, como alguns dos eventos que trouxeram à tona a discussão sobre a polícia que queremos e a polícia que temos atualmente. A análise e o estudo da violência perpetrada pelas forças estatais no combate ao crime, assim como a criminalidade cometida pelos próprios componentes dessas corporações, são de notória percepção pela população. As classes de menor poder aquisitivo são as que mais diretamente percebem este tipo de fenômeno, especialmente no tocante à ação das Polícias Militares, o maior contingente de agentes de segurança estatais. Em recentíssimo artigo, o professor Fernando Antônio Galvão Nogueira da Rocha, Juiz Civil do Tribunal de Justiça Militar do Estado de Minas Gerais, apresentou uma análise do filme aludido: Sob vários aspectos, a obra de ficção nos convida à reflexão ao mesmo tempo em que nos desafia a compreensão sobre qual seja a polícia que serve aos nossos interesses. A premissa da discussão parece óbvia: a polícia existe para nos proteger e não para nos torturar ou matar. Mas, quando se pensa na tropa as coisas não são assim tão simples. 1 Os números apresentados pela imprensa nos indicam uma escalada da criminalidade no meio das forças de segurança, especialmente os chamados delitos graves. Reportagem da Revista VEJA (nº 1609, 1999) indicava que a taxa de criminalidade nas polícias militares, civis e federal, nos nove estados 1 Dispensando a Tropa...para preservar o Estado Democrático de Direito. Disponível em <http://www.tjm.mg.gov.br/index.php?option=com_content&task=view&id=627&itemid=111> acessado em 16/04/2007.

10 10 pesquisados, São Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais, Paraná, Pernambuco, Alagoas, Pará, Rio Grande do Sul e Distrito Federal, revelava que um percentual de 10% do efetivo era acusado de algum crime. Devemos notar, neste ponto, que a criminalidade perceptível pela sociedade civil (incluída a violência que extrapola os limites legais) cometida por policiais militares é apenas uma parte das condutas que a sociedade desaprova e que são cometidas por aqueles que deveriam protegê-la. Destacam-se os delitos militares, alguns deles totalmente diferentes dos delitos comuns, pois específicos das classes militares. Estes delitos, especialmente aqueles que buscam tutelar a disciplina e a hierarquia militares, estão diretamente ligados à estrutura das Polícias Militares. Esta criminalidade militar específica, apesar de atingir objetos não comuns a toda a sociedade, é um reflexo da degradação das forças de segurança. Delitos como a recusa de obediência (recusa em obedecer uma ordem legal relativa ao serviço) e desacato a superior, apresentando como autores e vítimas os próprios militares e a instituição militar, apresentam reflexos negativos no desempenho operacional da força de segurança pública, embora, ao menos diretamente, os desdobramentos não sejam visíveis à sociedade. A Polícia Militar, além de se preocupar com o combate à criminalidade na sociedade fora da caserna, tem de policiar a si mesma, coibindo as condutas criminosas de seus membros, sob pena de inoperância e incapacidade.

11 11 2 SOCIEDADE E POLÍCIA O homem vive em sociedade. O relacionamento entre os seres humanos deu origem, no decorrer da história, à formação de diversos tipos de grupamentos e organizações. Das tribos e clãs, passando pelas Cidades-Estado gregas, chegando até os grandes impérios, as relações se tornaram cada vez mais densas e complexas. Na modernidade, chegamos ao conceito de Estado, ente definido por Dalmo de Abreu Dallari (1990, p. 100) como a ordem jurídica soberana que tem por fim o bem comum de um povo situado em determinado território. Tal ordem jurídica se impõe de maneira cogente, seu poder se impõe de forma tão irresistível que se pode chegar, por vezes, a confundir o próprio Estado com o exercício do poder. Segundo nos apresenta Carvalho (2007, p, 82/83) O homem encontra-se inserido numa sociedade doméstica, religiosa e política, que modela sua conduta e define sua situação na vida. Submete-se a um conjunto de regras que condicionam seu comportamento social, que o colocam em situação de subordinação em correspondência com o tipo de estrutura do grupo a que pertence, a divisão do trabalho, os hábitos de vida e os meios econômicos do qual dispõe. A obediência, em qualquer de suas formas, surge como a fonte da qual emana o poder. Bordeau afirma que o Estado é a institucionalização do poder, ou seja, um poder que, fundado no direito e organizado segundo normas jurídicas, alcança uma espécie de objetividade e se despersonifica, o que o coloca acima de outros poderes. Esta questão do poder e do seu uso, pelo Estado, é uma das principais características que o diferenciam de outras instituições. Apenas ao Estado é deferido o uso da força, excetuando-se pontuais concessões, justamente por esta cogência que detém ao exercer o poder, tanto

12 12 que Webber definiu tal característica como o monopólio da força legítima. (apud, BOBBIO, 1998, p. 426) Mesmo antes da existência do Estado Democrático de Direito, no qual a ordem jurídica detém a supremacia frente às vontades individuais, todos os tipos de organização humana possuíram esta característica do exercício do poder. Cabe a um determinado tipo de organização, dentro do corpo social, o efetivo exercício da força, especialmente para garantir a segurança e manutenção da própria ordem estabelecida (atualmente a ordem jurídica, em outros tempos a ordem do soberano). Ao definir condutas, a lei ao mesmo tempo estabeleceu quem seria o responsável pela efetivação das medidas necessárias ao cumprimento de seus preceitos, destacando um determinado grupo de pessoas com poderes para exercer atividades tendentes a tal efetivação. Tais indivíduos constituem um corpo institucional denominado genericamente de Polícia. Segundo a definição apresentada no Dicionário de Política de Norberto Bobbio (1998, p. 944/945), polícia é uma função do Estado que se concretiza numa instituição de administração positiva e visa a pôr em ação as limitações que a lei impõe à liberdade dos indivíduos e dos grupos para salvaguarda e manutenção da ordem pública, em sua várias manifestações: da segurança das pessoas à segurança da propriedade, da tranqüilidade dos agregados humanos à proteção de qualquer outro bem tutelado com disposições penais. [...] a atividade de Polícia abrange, em seu conjunto, as iniciativas voltadas para prevenção e repressão dos delitos. Essa função há de ser exercida por um determinado tipo de organização, conforme descrição de Monet (2001, p. 26) [...] ao cabo de uma longa evolução histórica, a função policial que é a possibilidade de usar a coerção física na ordem interna para manter um certo nível de ordem e de segurança pela

13 13 aplicação das leis e a regulação dos conflitos interindividuais é hoje garantida, na maioria dos países do mundo, por agentes subordinados a autoridades públicas que os recrutam, remuneram e controlam. Esses agentes são profissionais, reunidos no seio de organizações hierarquizadas e estruturadas de acordo com corpos de regras jurídicas explícitas. As organizações policiais estão ligadas à chamada reação social, especialmente como resposta da sociedade para que realize a proteção da mesma contra atividades criminosas. Neste sentido, é um requisito essencial da função do combatente do crime que ele próprio respeite as regras que foi encarregado de proteger. Esta singular atividade, especialmente pela notoriedade de suas ações, corretas e principalmente incorretas, motivou a realização de vários estudos a respeito dos denominados desvios de conduta dos componentes das forças de segurança. Diversos estudiosos criminais e sociais trabalharam na busca insistente da identificação de fatores e condições que estariam ou não ligados ao desvio de conduta dos agentes da polícia. A literatura nacional é repleta de estudos neste sentido. No Estado de Minas Gerais, algumas pesquisas merecem destaque, pois representativas da preocupação social e mesmo institucional sobre o assunto. Antônio Álvaro Nicolau (1993), realizou pesquisa que buscava identificar os fatores que propiciariam a ocorrência de desvios de conduta na Polícia Militar do Estado de Minas Gerais. Dentre os diversos resultados por ele alcançados, e as hipóteses avaliadas, merece destaque o ponto levantado pelo autor relativo ao choque cultural imposto aos novos integrantes da Corporação. Segundo apresenta, ocorreria um conflito cultural entre a história do indivíduo e a história da instituição. O neófito traria consigo uma bagagem de valores e

14 14 conceitos completamente diversos dos conceitos que informam a Polícia Militar. Este embate, aliado a fatores como a pouca idade, a baixa escolaridade e a baixa remuneração, geraria os desvios de conduta. Luiz Alberto Oliveira Gonçalves, et. al. (2006), em trabalho que abrange tanto a Polícia Militar quanto a Polícia Civil de Minas Gerais, apresentou uma sistematização dos fatores apontados pela literatura como os ligados aos desvios de conduta. Tais fatores foram divididos em: a) associados às características dos indivíduos: idade, tempo de serviço, escolaridade, história de vida e condição sócio econômica; b) fatores associados ao meio: relativamente ao meio no qual o policial vivia antes de iniciar a atividade e o meio no que se refere à própria natureza do trabalho (atuação em áreas de risco e outros); c) fatores associados a pressões sociais: no tocante à aspiração de bens e valores e os meios disponíveis para alcançá-los, e d) fatores associados à própria Instituição: controle, disciplina, processo seletivo e características organizacionais. O trabalho de Gonçalves encontrou resultados em desconformidade com os alcançados no trabalho de Nicolau, concluindo que nenhum destes fatores seria determinante para o cometimento de desvios de conduta. Entretanto, tais diferenças apontam para uma necessária análise complementar dos resultados, mormente porque os enfoques metodológicos e os marcos temporais das pesquisas foram diferentes. É de se notar que tais trabalhos foram elaborados tendo como paradigma de estudo os desvios de conduta como uma categoria extensa de situações, indo desde condutas definidas como crimes, passando por infrações administrativas e indo até condutas qualificadas como prestação de serviço deficiente.

15 15 Não nos interessa o estudo de tão grande gama de situações, conquanto os fatores acima explicitados possam eventualmente ser aproveitados na análise do objeto de nossa pesquisa. A delimitação de nosso objeto de análise passa pela característica diferenciadora da instituição Polícia Militar do Estado de Minas Gerais, a sua organização estrutural e ideológica militarizada. Unem-se, na mesma instituição, a Polícia Militar, duas características: o combate ao crime e a organização militar. Como ponto de partida, merece destaque a constatação de que, paralelamente ao ordenamento comum, um conjunto de regras é dirigida especialmente ao ramo de atividade da PMMG, tomando por base a característica militar da organização. Jorge Alberto Romeiro (1994, p. 01) apresenta o ramo do ordenamento jurídico afeto às organizações militares. A preservação dessa ordem jurídica militar, onde preponderam a hierarquia e a disciplina, exige obviamente do Estado, mirando a seus possíveis violadores, um elenco de sanções de naturezas diversas, de acordo com os diferentes bens tutelados: administrativos, disciplinares, penais, etc. As penais surgem com o Direito Penal Militar, que é a parte do direito penal consistente no conjunto de normas que definem os crimes contra a ordem jurídica militar [...] Conquanto a lei penal militar descreva algumas condutas idênticas às estabelecidas na lei comum, existe determinada classe de delitos afetas apenas ao meio militar, especialmente porque ofendem a própria instituição militar nas suas condições de vida e nos seus meios de ação (ROMEIRO, 1994, p. 70) Tal modalidade recebe a classificação de crimes propriamente militares ou militares próprios. (vide ROMEIRO, 1994, p. 66 e segs.)

16 16 Embora importante a classificação apresentada, esta não nos interessa senão para constatar que especificamente no caso da Polícia Militar, existe um determinado grupo de delitos especialmente estabelecido para proteger o próprio funcionamento da organização que tem como objetivo o combate aos delitos na sociedade como um todo. Neste aspecto reside o interesse do presente trabalho, pois é nesta categoria de delitos que iremos nos ater, especificamente naqueles dirigidos à proteção da hierarquia militar, o que será melhor apresentado em tópico posterior.

17 17 3 CONTROLE DA ATIVIDADE POLICIAL O velho brocardo latino questiona quem seria o responsável por vigiar os vigias. Diante de tal questão, o chamado desvio de conduta dos componentes das forças de segurança é um fenômeno de especial interesse do ponto de vista criminológico. Desde desvios leves, ou meras infrações administrativas, até as condutas criminosas, todos estes eventos tendem a macular um tipo de estrutura que tem como principal razão de ser o combate a estes mesmos eventos. A sociedade espera que os componentes das instituições responsáveis por lhes garantir a segurança sejam os primeiros a cumprir as regras impostas a todos e especialmente as regras específicas de sua atividade. Desta forma, qualquer desvio de conduta de um policial gera uma descrença na capacidade da polícia de manter a ordem e combater o crime. Tal sentimento popular acaba por engendrar, especialmente em um agrupamento humano que tenta se estabelecer como um Estado Democrático de Direito, o conceito de que o policial deve ser íntegro, conhecedor e cumpridor das leis, não se concebendo que possa ele transigir com a lei ou mesmo descumpri-la. Consequentemente, as Corporações recebem os mesmos atributos ideais, pelo que sofrem a cobrança de que seus efetivos sejam compostos por elementos que, além de capazes e eficientes, atuem como pilares do cumprimento da lei e garantidores da segurança e do combate ao crime. Obviamente que este ideal é uma meta a ser alcançada, não se discutindo, neste trabalho, como chegar a ele ou se o mesmo pode ser realizado.

18 18 Também não se trata aqui de procurar as causas dos desvios de conduta, assunto já grandemente tratado em diversos trabalhos. A especificidade de nosso objeto demanda uma tomada de posição, de maneira científica, tanto do ponto a partir do qual se observa o fenômeno aqui tratado, quanto da modalidade com que se realiza a mensuração dos mesmos. Segundo a lição de David H. Bayley, citado por Silva (2006), existem quatro mecanismos de controle do Trabalho Policial. Segundo a divisão do autor, considerando-se se o exercício do controle é exercido dentro ou fora da instituição, existem os controles externos e internos, o primeiro se dividindo em Controle Externo Exclusivo e Inclusivo, o segundo em Controle Interno Explícito e Implícito. O Controle Externo Exclusivo é exercido mediante os seguintes mecanismos: a) Governamental - próprio; b) Unitário - múltiplo; c) Político burocrático; d) Autoritário conservador. Quanto ao Controle Externo Inclusivo, este é exercido pelos seguintes mecanismos: a) Tribunais; b) Promotores; c) Legislaturas; d) Partidos Políticos; e) Mídia.

19 19 Este tipo de controle é do tipo inclusivo, segundo Bayley, pois suas atividades não se restringem unicamente à atividade policial, mas se dirige a ela como parte de seu corpo de atribuições ou interesses. De outro lado, o Controle Interno Explícito se exerce pelos seguintes mecanismos: a) Supervisão hierárquica; b) Procedimentos Disciplinares; c) Responsabilidade entre colegas; d) Socialização. Quanto ao Controle Interno Implícito, os mecanismos de seu exercício são: a) Sindicatos e associações; b) Vocação para a carreira; c) Critérios de premiação; d) Contato com a sociedade. Conquanto a classificação dos diferentes mecanismos de controles apresentada pelo autor não seja taxativa, pois não apresenta todos os órgãos de controle, como as Ouvidorias e Corregedorias 2, além de não fazer menção a um órgão do poder judiciário afeto exclusivamente aos militares, qual seja, o Tribunal de Justiça Militar 3, é de lapidar utilidade na divisão do controle a partir do ponto em que é exercido, do interior da instituição ou do seu exterior. De fato, a divisão do controle do trabalho policial em controle interno e controle externo é um norte essencial para o estudioso do tema. A análise dos desvios de 2 Quem vigia os vigias? (Record, 2003), livro de Julita Lemgruber, Leonarda Musumeci e Ignácio Cano, apresenta interessante estudo sobre a atuação de ambas estas organizações nos diversos estados do Brasil e também em alguns outros países. O foco central é a atuação das ouvidorias de polícia como órgãos de exercícios do controle interno das polícias. 3 A Justiça Militar Estadual é constitucionalmente competente para processar e julgar os militares estaduais, policiais e bombeiros, pelo cometimento de crimes militares, por força do art. 125, 5º, da Constituição da República de 1988.

20 20 conduta devem ponderar diferentes questões quando se utilizam marcadores produzidos dentro ou fora da instituição policial. Certamente que os mesmos problemas podem ocasionar efeitos nos mecanismos afetos aos dois tipos de controle, entretanto, é de essencial importância que se atente para o tratamento dado às condutas de acordo com o mecanismo de controle que é acionado. Uma mesma conduta é analisada de maneira diversa quando o mecanismo acionado é interno ou externo. Desta forma, qualquer pesquisa que tenha como escopo a diagnose de determinado desvio de conduta deve atentar para esta diferença. Assim, o primeiro passo para a pesquisa científica é a escolha do tipo de controle a ser trabalhado. Tratando-se de desvios de conduta relativos à hierarquia e disciplina, grande é a quantidade de trabalhos realizados a partir do ponto de vista do controle interno, ou seja, grande é a quantidade de trabalhos e pesquisas realizados dentro do âmbito da PMMG, sendo que alguns dados relativos a estes trabalhos serão apresentados no tópico seguinte. Entretanto, o mesmo tema merece ser tratado do ponto de vista do controle externo da instituição. No caso, o que se tenciona é apresentar conclusões do ponto de vista dos mecanismos externos de controle que têm a função específica de avaliar as condutas dos militares do Estado de Minas Gerais, a saber: o Tribunal de Justiça Militar do Estado de Minas Gerais e o Ministério Público Estadual que atua diretamente junto a este órgão. Desta forma, diante de um fenômeno ocorrido no meio militar, a prática de condutas indicativas deste mesmo fenômeno que potencialmente podem ser

21 21 consideradas crimes acarretam a atuação de mecanismos de controle externo. Ocorrendo condutas que potencialmente configuram crimes militares, ocorre a atuação do MP e da JME. A quantificação e análise de tais condutas, assim como a solução apresentada pelos mecanismos indicados, podem nos fornecer dados a partir deste ponto de vista, o que serve de contraponto aos dados e conclusões resultantes de trabalhos realizados com base em dados do controle interno. Desta forma se pretende ampliar o conhecimento sobre o tema e possibilitar uma diferente abordagem tendendo a uma compreensão mais global a respeito do fenômeno sob estudo.

22 22 4 DISCIPLINA E MOVIMENTOS REIVINDICATÓRIOS A missão de proteger a sociedade e de manter a ordem cabe a um tipo de organização, como visto acima, denominada Polícia. Entretanto, administrativamente, existem diversas divisões do corpo de polícia, cada um dos quais com diferentes atribuições, de modo que se diferenciam, em um primeiro momento, as organizações policiais que seguem as bases de uma instituição militar e outras que não. No Brasil, a Polícia Civil e a Polícia Federal, que incluem em suas atribuições a função de polícia judiciária e investigativa, não apresentam, em sua organização, princípios militares, tais como a divisão hierárquica em postos e graduações, saudações regulamentares e o uso de insígnias e uniformes. Já as polícias militares estaduais apresentam estes atributos, sendo que o modelo de segurança pública constitucionalmente estabelecido no Brasil prevê a sua existência, atribuindo-lhes a função de polícia ostensiva e manutenção da ordem pública, e definindo-a como força auxiliar e reserva do Exército, de acordo com o art. 142, 5º e 6º, da CR/88. A Carta Constitucional também estabelece que as Polícias Militares seriam instituições organizadas com base na hierarquia e na disciplina conforme se observa do texto do art. 42, caput, também da CR/88. Não apenas no Brasil este paradigma é a base da instituição polícia, segundo Jean-Claude Monet (2001, p. 16) A polícia, tomada em sua unidade, consiste também de homens organizados, em todos os países da Europa (e em outras partes), em administrações públicas. Aqui, o termo polícia remete a um tipo particular de organização burocrática, que se inspira ao mesmo tempo na pirâmide das organizações militares e no recorte funcional das administrações públicas. Hierarquia e disciplina parecem as palavras-chave desse universo cujas engrenagens se

23 23 espera ver funcionar de modo azeitado e cujos agentes devem marchar como um só homem sob a ordem de seus chefes. Todavia, nada é menos monolítico, mais dividido, atravessado por conflitos de poder internos e rivalidades crônicas, nada é mais difícil de controlar do que uma polícia. Pois se a polícia constitui de fato uma administração, essa administração não é como as outras. Em todos os países, os policiais têm um estatuto diferente dos outros corpos de funcionários. O uniforme e a arma assinalam, de resto, sua pertença a um mundo à parte [...] De um modo geral, todos os corpos policiais, mesmo aqueles não moldados no estilo militar apresentam na hierarquia e na disciplina as suas bases de sustentação. A eficiência de um tipo de organização que necessita de estreito controle sobre seus componentes e que tencione alcançar resultados satisfatórios, passa pelo uso dos ditames da hierarquia e da disciplina. Foucaut, em seu clássico Vigiar e Punir (1997), aponta que a disciplina foi copiada dos meios militares para diversas instituições como forma de manter o controle sobre os indivíduos, especialmente para que cada um permanecesse em seu lugar e se desincumbisse daquilo a que estava obrigado. Nas instituições militares, o binômio hierarquia-disciplina figura como sustentáculo de sua existência, sendo tais elementos essenciais para a manutenção e eficiência da atividade desenvolvida. Esta exacerbação da disciplina e da hierarquia, a que pode ser creditado, em grande parte, o sucesso de grandes impérios da antiguidade, como o Império Romano, é apenas uma das especificidades do meio militar. No tocante às Polícias Militares, é um dos pontos que mais a diferenciam de outros corpos policiais, aproximando-a das forças armadas, instituições militares por excelência.

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