Autoria: Marcia Regina Godoy, Robson Alexandre Maria, Sidnei Pereira do Nascimento

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1 Efeito da Entrada do Medicamento Genéricos nos Preços do Medicamento de Referência e Similar Autoria: Marcia Regina Godoy, Robson Alexandre Maria, Sidnei Pereira do Nascimento RESUMO A introdução dos medicamentos genéricos no mercado brasileiro causou uma grande alteração nos preços. Este trabalho verificou a evolução dos preços dos medicamentos que possuíam o mesmo princípio ativo comercializado simultaneamente na forma de medicamento de referência/marca, genérico e similar. O período analisado foi de dezembro de 1999 a janeiro de Os resultados indicam que os medicamentos similares custam menos que os medicamento genérico e que os genéricos, na maioria das vezes, é mais barato do que o de referência. Além disto, verificou-se que ao contrário da experiência internacional, no Brasil, os medicamentos de referência têm sofrido redução de preço após a introdução do genérico. Demonstrando que a política adotada pelo governo brasileiro foi eficaz ao introduzir a concorrência visando à redução de preços. Fatores como a sinalização de qualidade através dos testes exigidos pela ANVISA e os gastos com propaganda contribuíram para o acirramento da concorrência. 1 - INTRODUÇÃO O mercado farmacêutico é caracterizado por um oligopólio diferenciado baseado na ciência, existindo grandes monopólios e oligopólios por classes e subclasses terapêuticas (RÊGO, 2000). Por exemplo, o laboratório Roche domina o mercado de vitaminas; o Alcon, o de colírios; o Schering, o de anticoncepcionais (BRASIL, 2000b).Várias características estruturais tornam o mercado de medicamentos imperfeito do ponto de vista concorrencial, favorecendo a existência de poder de monopólio. Entre elas destacam-se: a) elevada concentração; b) o fato de o consumidor estar tecnicamente impossibilitado de decidir o que consumir; c) existência de patentes; c) fidelidade à marca (uma marca famosa desempenha um papel importante no processo de ingresso em um mercado relevante); d) existência de barreiras à entrada. As potenciais barreiras à entrada são: 1) os elevados custos irrecuperáveis (sunk cost) em P&D, manufatura, desenvolvimento da marca, pesquisa; 2) Barreiras Tecnológicas; 3) elevados recursos financeiros, para adquirir ou construir bases física e equipamentos indispensáveis á produção. Conferindo um poder monopólico as empresas estabelecidas, já que inibe a entrada de novos concorrentes pela impossibilidade de recuperarem os custos incorridos por sua instalação (SCHYMURA, 1999, p.87). Outra característica igualmente importante neste mercado é o elevado gasto em propaganda, pois a manutenção das vendas de produtos antigos (tradicionais) e o lançamento de produtos inovadores/novos requerem uma complexa estrutura de propaganda. Morton (2000) através de um estudo econométrico conclui que embora sejam elevados estes gastos eles não são barreira à entrada de novos produtos. A razão de ser da indústria farmacêutica é apoiar o progresso da medicina na busca da cura das doenças e do bem-estar do ser humano. Este esforço vem sendo bem-sucedido, pois a expectativa de vida da população aumentou. Em razão deste aumento e do envelhecimento populacional, o consumo de medicamentos e de serviços de saúde tem crescido a taxas elevadas, causando dificuldades para os governos (CÂMARA, 1993; REGO, 2000). O crescimento dos gastos em saúde inclusive medicamentos-, tanto no setor público como privado, tem levado os governos a buscarem estratégias e alternativas para racionalização desses gastos e facilitar o acesso à população, pois há uma estimativa da Organização Mundial da Saúde de que 1/3 da população mundial não tem acesso a

2 medicamentos essenciais, há necessidade de políticas que amenizem este problema (REICH, 2000). Para o caso do mercado brasileiro, Saliba (1998) estima que dos 160 milhões de brasileiros, somente 50 milhões são realmente consumidores de medicamentos, 50 milhões são consumidores parciais e os demais 60 milhões não tem acesso. Diante deste quadro, governos têm buscado formas de amenizar estes problemas através da regulação feita através de diversas formas de intervenção no mercado farmacêutico e sobretudo com a adoção da política dos medicamentos genéricos, visando, de um lado, facilitar o acesso a medicamentos ao disponibilizar no mercado medicamentos mais baratos e, de outro lado, reduzir os gastos públicos com saúde. Os gastos com medicamentos constituem um dos itens de grande importância no orçamento familiar e público. Na Tabela 1 está demonstrado o percentual do orçamento familiar que é comprometido com gastos com medicamentos no Brasil. QUADRO 1: Percentual da Despesa Média Mensal Familiar com Medicamentos no Brasil para as áreas da POF 1987 e 1996 Classes de recebimento mensal familiar (S.M.) Variação Percentual Total 1,71 1,89 10,5% Até 2 S.M. 4,26 4,83 13,4% Mais de 2 a 3 S.M. 3,14 3,84 22,3% Mais de 3 a 5 S.M. 3,07 3,46 12,7% Mais de 5 a 6 S.M. 2,50 3,22 28,8% Mais de 6 a 8 S.M. 2,42 2,73 12,8% Mais de 8 a 10 S.M. 2,28 2,60 14,0% Mais de 10 a 15 S.M. 2,28 2,24-1,8% Mais de 15 a 20 S.M. 1,63 2,00 22,7% Mais de 20 a 30 S.M. 1,53 1,79 17,0% Mais de 30 S.M. 1,00 1,01 1,00% Fonte: IBGE Neste artigo buscamos avaliar o impacto da entrada dos genéricos no mercado brasileiro sobre os preços dos medicamentos de marca e similares, pois até o momento, só foram feito pesquisas para demonstrar a diferença de preço entre medicamentos de referência e genéricos. Assim, este artigo tem como objetivo discutir as características do mercado de medicamentos de genéricos no Brasil e principalmente, verificar empiricamente a diferença de preço entre medicamentos de marca, genéricos e similares. 2 TIPOS DE MEDICAMENTOS 2.1 Medicamentos de referência (ou de marca) Os medicamentos de referência se caracterizam por elevados gastos com pesquisa e desenvolvimento de novos processos e produtos, segundo Godoy (2002) existem estimativas que estes custos giram em torno de US$500 milhões para desenvolvimento de um medicamento. As características das inovações dos produtos do setor de medicamentos, novas moléculas, permitem uma maior eficácia na implementação da lei de patentes nesse setor do que na maioria dos demais setores econômicos (ANDRADE, 2000). A maior parte desses investimentos, entretanto, resulta em fracassos: gastos de pesquisa que não resultam em produtos aprovados ou rentáveis. De fato, dentre a moléculas sintetizadas em média apenas uma é aprovada. Dessa forma, a renda de 2

3 monopólio garantida pela posse temporária da patente de uma inovação bem sucedida, financia os gastos com pesquisa e desenvolvimento das demais moléculas sintetizadas (LISBOA, 1998). Mundialmente, o investimento em pesquisa e desenvolvimento atingiu US$ 50 bilhões no ano de 2.000; no Brasil, o investimento das empresas em pesquisa clínica totalizou R$ 93 milhões em 2.000, mas de seis vezes o valor do que foi aplicado em (Revista KAIROS, 2002). Esse esforço é resultado de um circulo virtuoso, cujo elo fundamental é o cumprimento da lei de patentes. Sem a efetiva proteção da propriedade intelectual de suas inovações, seria impossível para a indústria farmacêutica de pesquisa, garantir o trabalho de desenvolvimento de novos remédios e vacinas. 2.2 Medicamentos genéricos Medicamento genérico é aquele que contém o mesmo principio ativo, na mesma dose e forma farmacêutica de um remédio de referência. Também é administrado pela mesma via e tem indicação idêntica. É tão seguro e eficaz quanto o medicamento de marca, mas em geral custa menos (CRF-SP, 2002). Os chamados genéricos são medicamentos cujas patentes já expiraram e cuja comercialização pode ser realizada sem marca comercial, apenas com o nome do princípio ativo. A utilização do nome genérico permite a comparação de preços entre substitutos terapêuticos por parte dos médicos e dos consumidores, de forma a atenuar a assimetria de informações que caracteriza o setor. Um dos primeiros países a adotar os medicamentos genéricos foram os Estados Unidos, através do Waxmann-Hatch Act de 1984, posteriormente foram adotados em diversos outros países tais como: Canadá, Inglaterra, França e Itália (ULRICH, 2000). Em 1984, o mercado de genéricos representava 18,6% do total, elevando sua participação para 47% em 2000, crescimento justificado pelas compras dos sistemas de saúde pública (PHRMA, 2001). Atualmente, no mercado americano os medicamentos genéricos representam 72% do receituário médico e entram no mercado, em média, três meses após expiração da patente. Segundo BERMUDEZ (1999), a questão dos medicamentos genéricos se tornou tendência mundial, não apenas nos países do Terceiro Mundo, mas também nos países centrais, motivada pela necessidade de contenção dos gastos públicos. Muitos países têm adotado políticas agressivas de promoção dos genéricos, como forma de propiciar à população medicamentos com preços mais acessíveis e reduzir gastos com a assistência farmacêutica, (ANVISA, 2002). A experiência internacional mostra que os maiores êxitos obtidos na promoção dos genéricos, têm ocorrido nos países onde as ações são direcionadas para influenciar o comportamento dos médicos, através de informações eficientes que comprovam a qualidade e a confiabilidade desses medicamentos. Na literatura internacional um dos artigos mais importantes a respeito da concorrência dos genéricos é o feito por GRABOWSKI & VERNON (1992). Os resultados encontrados pelos autores indicam a concorrência de medicamentos genéricos tendeu a afetar positivamente a maioria dos preços dos medicamentos de marca pioneiros do mercado. Este artigo inspirou vários estudos, pois a crença mais comum seria imaginar que o medicamento de marca reduzisse seu preço como decorrência do aumento da concorrência no mercado propiciada pelos medicamentos genéricos. GRILICHES & COCKBORN (1993) dizem que quando um genérico entra no mercado ele é vendido por preços mais baixos, algo em torno de 30% a 50% mais barato do que o de marca-referência. 3

4 FRANK & SALKEVER (1995) utilizaram uma amostra dos 32 medicamentos mais vendidos que haviam perdido a proteção da patente no início da década de 80 para testar um modelo econométrico de mínimos quadrados de dois estágios e analisar o comportamento dos preços de medicamentos. Eles verificaram que a maior competição entre produtores de medicamentos genéricos resulta em uma substancial redução de preços para estes medicamentos. Além disso, eles não encontraram evidência que a redução de preços no medicamento de marca seja fruto da entrada de produtos genéricos. Adicionalmente, concluíram que a entrada de genéricos leva os consumidores que são sensíveis ao preço a mudarem para genéricos, os consumidores não sensíveis ao preço continuam a comprar medicamento de marca. Uma outra conclusão foi que a cada nova empresa que iniciava fabricação do genérico, o preço médio dele caia entre 5,6% e 7,2%. Já, FERRANDIZ (1999), encontrou evidências que após a entrada do genérico há um aumento nos preços dos medicamentos de marca. MORTON (2000) utilizou uma amostra de 98 medicamentos genéricos para observar as vendas do medicamento de marca dois anos antes da expiração da patente até um ano depois, no período entre 1986 e Ela desejava verificar se a propaganda da marca de referência podia atuar como uma barreira na entrada de genéricos. Para tal estudo utilizou o modelo de regressão de Poisson e concluiu que as vendas de medicamento de marca no ano anterior a expiração da patente eram o fator mais importante na determinação da quantidade de empresas de genéricos a entrar; vendas mais altas atraem maior número de laboratórios e concluiu ainda que a propaganda não é uma barreira de entrada para empresas de genéricos no mercado farmacêutico americano. MORTON (2000) concluiu que as drogas usadas para tratamento de doenças crônicas atraem mais laboratórios interessados em fabricar genéricos. MORTON (1997) afirmou que os medicamentos com faturamento alto atraíram maior número de interessados em fabricar genéricos e que quanto maior o número de empresas que fabricavam um mesmo genérico, maior seria a redução de preços dada a concorrência. LEXCHIN (2004), examinando o efeito da competição dos genéricos nos preços do medicamento de marca no Canadá não encontrou mudança significativa de preços após a introdução do genérico. Os resultados do autor, indicam que 11% dos medicamentos sofrerão uma redução de preços de 30% e 41,67% não tiveram alteração. Mostrando assim, que não há competição naquele mercado. Para o Brasil, LISBOA & FIUZA (2001) mostram que a concorrência prévia, propiciada pelos medicamentos similares, e derivada da disputa entre laboratórios privados, era pouco eficaz para reduzir os preços dos medicamentos de referência. Entretanto GODOY (2002) e NISHIJIMA & BIASOTO (2003) mostram que ocorreu redução de preços. 2.3 Medicamentos similares Remédios similares são a mesma droga produzida em laboratórios diferentes, tendo diversos nomes fantasia. Aqueles que contém o mesmo ou os mesmos princípios ativos, apresenta a mesma concentração, forma farmacêutica, via de administração, posologia, indicação terapêutica, e são medicamentos registrados no órgão federal responsável pela vigilância sanitária, podendo diferir somente em características relativas a tamanho e forma do produto, prazo de validade, embalagem, rotulagem, excipiente e veículos, devendo sempre ser identificado por nome comercial ou marca (PRÓGENERICOS, 2002). Os medicamentos similares surgiram no Brasil a partir de 1971, quando o Brasil decidiu não reconhecer patentes de medicamentos, pois as invenções que tiveram por objeto substâncias, matérias, misturas, ou produtos alimentícios, químicos-farmacêuticos e medicamentos de qualquer gênero passaram a ser não privilegiáveis pela legislação brasileira (Lei 7903/1945, Lei 1005/1969 e Lei 5772/1971). 4

5 Dada a ausência de proteção da patente os fabricantes nacionais passaram a copiar as invenções. A situação de não reconhecimento de patentes era bastante cômoda para a indústria brasileira, já que podia-se copiar livremente, não necessitando fazer investimentos em pesquisas e desenvolvimento, conseqüentemente havia uma redução drástica de custos na ausência de patentes. Além disto, a Vigilância Sanitária concedia o direito de registro de produto farmacêutico por similaridade a outro já registrado (Lei 6360/76). Assim, os laboratórios solicitavam ao governo a manutenção do não reconhecimento de patentes, e mecanismo de proteção ao capital local (ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE QUÍMICA DO RIO GRANDE DO SUL, 1987). Em 1996, com o reconhecimento da lei de patentes (Lei 9279/96), ficou determinado que os laboratórios nacionais poderiam produzir similares de medicamentos patenteados em outros países, somente se este estivesse expirado a data da produção interna. Com a nova legislação, essas patentes são concedidas aos respectivos laboratórios que pesquisam um princípio ativo ou uma molécula e documentam cientificamente e clinicamente suas propriedades, estabelecendo parâmetros de utilização do produto. Essas patentes são concedidas por até 20 anos. Vencida a patente, essa tecnologia passa a ser de domínio público, quando poderão ser registrados medicamentos genéricos. (ANVISA, 2002). Em 5 de outubro de 1993, o presidente Itamar Franco assinou um decreto tornando obrigatório que tanto a embalagem, quanto à bula dos medicamentos tenham sua denominação genérica em destaque, impressa em posição superior à da marca, isto é, do nome fantasia, que não poderá ultrapassar 25% do tamanho da denominação genérica, isto facilitaria o consumidor a escolher o mais barato. (Os laboratórios pediram seis meses de prazo para se ajustarem às novas normas, que nunca entraram em vigor). Com a Resolução nº62 de 12/08/2002, a ANVISA regulamenta o registro de medicamento similar, este regulamento é composto por três partes: das medidas antecedentes ao registro, as exigências legais e técnicas do registro, as medidas pós-registro. 3 A EXPERIÊNCIA BRASILEIRA COM MEDICAMENTOS GENÉRICOS A indústria farmacêutica brasileira a partir de 2000, adquiriu grande destaque no cenário político/econômico, principalmente pela entrada dos medicamentos genéricos no mercado, os quais foram lançados para viabilizar o acesso aos medicamentos à população carente. O assunto dos medicamentos genéricos foi discutido no Congresso Nacional a partir de 1992 e em 1999 foi assinada a Lei 9787/99 que estabeleceu as regras para a instituição do medicamento genérico através da criação formal desta denominação. Dentre outros instruções, a lei instituiu a obrigatoriedade de fixação na embalagem da denominação comum brasileira (DCB), ou seja, o princípio ativo, em letras cujo tamanho não pode ser inferior à metade do tamanho do nome comercial. Já os medicamentos genéricos devem ter escrito na embalagem: Medicamento Genérico - Lei 9787/99. A partir do dia 10 de fevereiro de 1999, com a Lei 9.787, estabeleceram-se as bases legais para os medicamentos genéricos e atribuições de poderes à Agencia Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA) para regulamentação das condições de registro e controle de qualidade. Até então, não existiam genéricos no país, só medicamentos de marca e similares, utilizando a denominação genérica. Um dos argumentos utilizados para justificar os preços menores dos genéricos é que como os fabricantes de medicamentos genéricos copiam um determinado medicamento sem fazer investimentos em pesquisas para o seu desenvolvimento, visto que as formulações já estão definidas pelos medicamentos de referência e que servirão de parâmetro para a fabricação. Outro argumento é que não necessitam fazer propaganda, pois não há marca a ser divulgada. 5

6 Os medicamentos genéricos comercializados no mercado brasileiro são predominantemente fabricados por laboratórios fixados no Brasil. Cerca de 22,25% deles são importados de vários países como: Alemanha, Canadá e principalmente Índia, entre outros. O Laboratório que possui maior número de registros, atualmente, é o EMS com 158, seguido do Eurofarma com 115 e Medley com 105. QUADRO 2: Medicamentos Genéricos no Brasil 03/2004 Registrados Fármacos 268 Registros 1094 N.º classes terapêuticas 57 Apresentações 4273 Laboratórios Fabricantes 51 Fonte: ANVISA O Governo visando estimular as vendas de genéricos determinou que no serviço público de Saúde (SUS - Sistema Único de Saúde), os profissionais têm a obrigatoriedade de prescrever os medicamentos pela denominação genérica. Já nos serviços privados de saúde, a prescrição fica a critério do médico responsável, podendo ser realizada sob nome genérico ou comercial, devendo, no entanto, ressaltar as restrições à intercambialidade, quando necessário. Neste caso, a restrição deverá ser efetuada pelo prescritor, de próprio punho, de forma clara, legível e inequívoca, (ANVISA, 2002). QUADRO 3: Evolução da quantidade vendida de medicamento genéricos no Brasil - Junho de 2000 a Junho 2001 Mês Quantidade Vendida em milhões de unidades Participação no Mercado Total (%) Junho/00 2,02 1,48% Julho/00 2,26 1,67% Agosto/00 2,71 1,95% Setembro/00 2,77 2,18% Outubro/00 3,23 2,40% Novembro/00 2,46 1,92% Dezembro/00 3,18 2,45% Janeiro/01 3,58 2,70% Fevereiro/01 3,40 3,13% Março/01 4,57 3,46% Abril/01 4,58 3,60% Maio/01 6,39 4,80% Junho/01 6,16 4,76% Fonte: ANVISA Embora os frutos da entrada dos genéricos no mercado brasileiro sejam difíceis de mensurar dada a escassez de dados, procurou-se neste trabalho ilustrar alguns casos do efeito da entrada do genérico na quantidade vendida e no preço do medicamento de referência. Os Gráficos 1 e 2 revelam os efeitos sobre as vendas do Antak e do Renitec, respectivamente, pode-se verificar que os produtos de marca reduziram suas vendas e a parcela de mercado dos genéricos tem se ampliado. 6

7 GRÁFICO 1: Evolução das vendas do medicamento Antak e o genérico Cloridrato de Ranitidina período maio/2000 a abril/2001 Quantidade Vendida (em 1000 unidades) mai/00 jun/00 jul/00 ago/00 set/00 out/00 nov/00 dez/00 jan/01 fev/01 mar/01 abr/01 Total Ranitidina Antak (referência) Fonte: ANVISA GRÁFICO 2: Evolução das Vendas do Renitec (referência) e genérico Maleato de Enalapril - maio/2000 a abril/ Quantidade Vendida mai/00 jun/00 jul/00 ago/00 set/00 out/00 nov/00 dez/00 jan/01 fev/01 mar/01 abr/01 FONTE: ANVISA Total Renitec(referência) Enalapril 4 A PESQUISA 4.1 Procedimentos Metodológicos Para verificar a existência das diferenças do preço máximo ao consumidor entre as três classes de medicamentos: marca, genéricos e similares. Utilizamos a seguinte metodologia: num primeiro momento, identificamos os medicamentos que possuem o mesmo princípio 7

8 ativo e a mesma apresentação nas três classes de medicamentos (marcas, genéricos e similares), como forma de eliminar as diferenças entre eles. A seguir, buscamos identificar os preços dos medicamentos para verificar a diferença entre as classes de medicamentos. Para que seja realizado o calculo sobre a diferenciação de preços no mercado farmacêutica brasileiro, serão usados como fonte de dados, o preço máximo ao consumidor. Com relação a estes preços, estão disponibilizados nas revistas KAIROS e ABCFARMA, esta última é de uso obrigatório nas farmácias e drogarias do Brasil, Portaria nº 37 de 11 de maio de Devido ao aumento de preços dos medicamentos em períodos diferentes, neste trabalho para realizar a chamada diferenciação de preços, será adotado o preço do último mês de cada ano estudado, (dezembro de 1999, dezembro de 2000, dezembro de 2001, dezembro 2002 e dezembro de 2003). Os critérios para selecionar os medicamentos para este trabalho consistiu em: 1º - Medicamentos que possuem genéricos e similares idênticos quanto à apresentação e quantidade; 2º - Medicamentos que são entre os mais vendidos. Para atender o critério número 1, utilizamos a Lista Comparativa de Preços de Medicamentos Genéricos disponibilizada no site da ANVISA e também Lista de Preços da ABCFARMA. Para o critério 2, utilizamos BRASIL (2000) que contempla uma lista com os medicamentos mais vendidos no Brasil. Seguindo estes critérios, selecionamos os medicamentos abaixo relacionados: 4.2 Medicamentos selecionados Os medicamentos de referência selecionados foram: Medicamento Apresentação Quantidade Laboratório! Amplacilina 500 mg 12 cápsulas Eurofarma! Keflex 500 mg 8 drágeas Eli Lilly! Cataflam 50 mg 20 drágeas Novartis! Voltarem 50 mg 20 comprimidos Novartis! Magnopirol 500 mg 20 ml Farmasa! Tylenol 200 mg 15 ml Janssen Cilag! Diabinese 250 mg 30 comprimidos Pfizer! Glifage 850 mg 30 comprimidos Merck! Zocor 20 mg 30 comprimidos Merck Sharp! Renitec 20 mg 30 comprimidos Merck Sharp! Capoten 50 mg 28 comprimidos Bristol Myers Squibb! Losec 20 mg 14 cápsulas Astrazeneca! Tagamet 200 mg 40 comprimido Glaxosmithkline! Aldomet 500 mg 30 comprimidos Prodome! Feldene 20 mg 10 cápsulas Pfizer! Helmibem 100 mg 6 comprimidos Eurofarma! Flagyl 250 mg 20 comprimidos Aventis Pharma 4.3 Resultados Nesta seção mostraremos de forma sintética os resultados obtidos na pesquisa, dado que as tabelas são de grande proporção e eliminamos as tabelas dos anos de 1999 e Esta omissão não compromete seriamente a analise dos resultados, uma vez que, nem todos os princípios ativos possuíam medicamentos genéricos nestes anos. 8

9 QUADRO 4: Comparação de Preço dos medicamentos do ano de Doença Principio Ativo Medicamento Diferença Percentual 2001 entre Unidade Marca e Genérico Marca e Genérico e Similar Similar Amoxil 20,16 Amoxicilina Genérico 12, ,75 74 Similar 11,60 Amplacilina 16,49 Antibiótico Ampicilina Genérico 9,64 (Infecções) Similar 9, ,4 78 Keflex 18,03 Cefalexina Genérico 11, ,09 60 Similar 11,28 Cataflam 12,12 Diclofenaco Genérico 6,69 Potássico Similar 5, Voltarem 12,24 Antiinflamatório Diclofenaco Genérico 6,99 (Inflamações) Sódico Similar 5, Feldene 10,64 Piroxicam Genérico 5, Similar 3,35 Magnopirol 6,90 Dipirona Genérico 4, ,95 89 Antipirético Sódica Similar 3,65 Análgesico (Febre/Dor) Tylenol 7,28 Paracetamol Genérico 4, Similar 3,59 Antilipênico Zocor 71,37 (Hipercoles- Sinvastativa Genérico 46, terolenia) Similar 41,94 Renitec 32,73 Maleato de Genérico Enalapril 28,29 Anti-hipertensivo Similar 17, (Hipertensão) Capotem 48,68 Captopril Genérico 23, Similar 17,16 Losec 57,71 Omeprazol Genérico 25, Antiulceroso Similar 21,97 (Gastrointestinal) Antak 23,76 Ranitidina Genérico 11, Similar 9,21 Zentel 5,20 Albendazol Genérico 3, Anti-parasitário Similar 2,51 (Verminose) Helmibem 7,78 Mebendazol Genérico 2, Similar 2,14 Fonte: Dados da Pesquisa obtidos em ABCFARMA (12/2001), nº

10 O quadro 4 consiste em comparar os preços dos medicamentos genéricos de referência e os similares do ano 2001, calculando a diferença em percentual entre eles. QUADRO 5: Comparação de Preço dos medicamentos do ano de Doença Principio Ativo Medicamento Antibiótico (Infecções) Antiinflamatório (Inflamações) Antipirético Análgesico (Febre/Dor) Antilipênico (Hipercolesterolenia) Anti-hipertensivo (Hipertensão) Antiulceroso (Gastrointestinal) Anti-parasitário (Verminose) Amoxicilina Ampicilina Cefalexina Diclofenaco Potássico Diclofenaco Sódico Piroxicam Dipirona Sódica Paracetamol Sinvastativa Maleato de Enalapril Captopril Omeprazol Ranitidina Albendazol 2002 Unidade Amoxil 21,16 Genérico 12,48 Similar 11,60 Amplacilina 17,44 Genérico 10,45 Similar 9,34 Keflex 19,09 Genérico 11,01 Similar 10,98 Cataflam 12,82 Genérico 8,19 Similar 5,54 Voltarem 12,95 Genérico 7,34 Similar 5,21 Feldene 11,25 Genérico 6,87 Similar 3,55 Magnopirol 7,30 Genérico 4,32 Similar 3,83 Tylenol 7,70 Genérico 4,62 Similar 3,81 Zocor 75,53 Genérico 49,15 Similar 31,65 Renitec 34,33 Genérico 29,94 Similar 16,99 Capotem 49,11 Genérico 24,21 Similar 16,36 Losec 61,07 Genérico 25,36 Similar 12,89 Antak 25,14 Genérico 11,75 Similar 9,44 Zentel 5,21 Genérico 3,37 Similar 2,97 Marca e Genérico Diferença Percentual entre Genérico e Similar Marca e Similar 69 0, ,

11 Helmibem 8,23 Mebendazol Genérico 3,09 Similar 2,68 Fonte: Dados da Pesquisa obtidos em ABCFARMA (12/2002), nº O quadro 5 consiste em comparar os preços dos medicamentos genéricos de referência e os similares do ano 2002, calculando a diferença em percentual entre eles. QUADRO 6: Comparação de Preço dos medicamentos do ano de Doença Principio Ativo Medicamento Antibiótico (Infecções) Antiinflamatório (Inflamações) Antipirético Análgesico (Febre/Dor) Antilipênico (Hipercolesterolenia) Anti-hipertensivo (Hipertensão) Antiulceroso (Gastrointestinal) Amoxicilina Ampicilina Cefalexina Diclofenaco Potássico Diclofenaco Sódico Piroxicam Dipirona Sódica Paracetamol Sinvastativa Maleato de Enalapril Captopril Omeprazol Ranitidina 2003 Unidade Amoxil 26,06 Genérico 15,31 Similar 13,77 Amplacilina 21,47 Genérico 12,12 Similar 11,70 Keflex 23,50 Genérico 14,58 Similar 7,31 Cataflam 15,81 Genérico 10,08 Similar 8,87 Voltarem 15,95 Genérico 10,36 Similar 5,34 Feldene 13,83 Genérico 9,17 Similar 4,07 Magnopirol 9,41 Genérico 5,79 Similar 4,60 Tylenol 9,52 Genérico 5,67 Similar 4,59 Zocor 93,07 Genérico 60,55 Similar 35,47 Renitec 39,23 Genérico 36,89 Similar 19,04 Capotem 60,52 Genérico 27,14 Similar 16,45 Losec 72,75 Genérico 30,63 Similar 22,53 Antak 30,72 Genérico 16,02 Marca e Genérico Diferença Percentual entre Genérico e Similar Marca e Similar , ,

12 Anti-parasitário (Verminose) Albendazol Similar 13,54 Zentel 5,74 Genérico 3,41 Similar 3,23 Helmibem 10,11 Genérico 3, ,55 77 Mebendazol Similar 1,91 Fonte: Dados da Pesquisa obtidos em ABCFARMA (12/2003), nº 148. O quadro 6 consiste em comparar os preços dos medicamentos genéricos de referência e os similares do ano 2003, calculando a diferença em percentual entre eles Resultados e discussão Os resultados das análises de preço demonstram que a diferença entre os medicamentos de marcas e similares é muito maior que entre medicamentos de marca e genéricos. Para melhor visualizar essa diferença e analisar os resultados como um todo, ano a ano, foi calculado a média ponderada ano por ano. QUADRO 7: Média Ponderada ano a ano. Ano Marca e Genérico ,3 % ,8 % 21,8 % 137,7 % ,5 % 24,1 % 128,1 % % 37,1 % 146,8 % ,5 % 50 % 168,2 % O Quadro acima é composto pela média ponderada do Quadro 4; Quadro 5 e Quadro 6. Pode-se notar que a diferença entre os medicamentos de marca e similar tendem a aumentar, e a diferença entre medicamentos de marca e genéricos a diminuir. Para melhor visualizar estas diferenças e analisar os resultados, foi calculado a média ponderada de 1999 a 2003 (Quadro 8). QUADRO 8: Média Ponderada de 1999 a Genérico e Similar Marca e Similar Marca e Genérico Marca e Ano Genérico e Similar Similar 1999 a ,7 % 33,2 % 135,2 % O Quadro acima é a média ponderada do Quadro 7, cujo resultado é a diferença média dos preços dos medicamentos no mercado brasileiro, no período de 1999 ao início de Alguns laboratórios detentores da marca de referência, após a redução na quantidade vendida têm adotado estratégia competitiva de preços, visando amenizar a perda de receita com a queda das vendas em unidades. Um exemplo disto, pode ser evidenciado no caso do Renitec (Maleato de Enalapril) que reduziu o preço R$61,07 em dezembro de 2000 para R$32,73 em dezembro de CONSIDERAÇÕES FINAIS Com a introdução dos medicamentos genéricos no mercado brasileiro, os medicamentos de referência e similares diminuíram nitidamente os preços, logo à política dos medicamentos genéricos tem sido eficiente. Ao contrário do que indicava a experiência 12

13 internacional, onde o produtor do medicamento de referência mantinha ou aumenta seus preços, no Brasil tem ocorrido redução de preços. A análise dos resultados encontrados no Quadro 7, demonstra que a diferença entre os medicamentos de marca e os genéricos estão lentamente diminuindo. A diferença entre os medicamentos genéricos e similares está aumentando, de 21,8 % para 50 % em quatro anos, observou-se à diminuição do preço dos medicamentos similares, Quadro 7. Adicionalmente, verificamos que alguns laboratórios detentores da marca de referência, após a redução na quantidade vendida têm adotado estratégia competitiva de preços, visando amenizar a perda de receita. O comportamento dos fabricantes de medicamentos de referência pode ter sido alterado por dois motivos. O primeiro deles é que o governo, ao exigir testes de bioequivalência para os medicamentos genéricos sinaliza para o mercado que o medicamento genérico é um produto de boa qualidade, pois em mercados com problemas de informação imperfeita a sinalização é um instrumento muito útil. O segundo motivo é que os elevados gastos do governo com publicidade sobre os medicamentos genéricos foram eficazes em fazer ao fornecer informações para os consumidores, atuando de forma semelhante aos grandes gastos com propaganda realizados pelos grandes laboratórios farmacêuticos. Verificou-se que a diferença de preços entre medicamentos de marca e similares, foi de 95,3 % para 168,2 % aumentando nitidamente a diferença com a introdução dos medicamentos genéricos no mercado. Na amostra analisada, foi possível detectar que os medicamentos de referência custam 80,7 % a mais que os medicamentos genéricos, e 135,2 % a mais que os medicamentos similares. Estas diferenças são muito significativas uma vez que 43% dos consumidores de genéricos possuem renda de até 3 salários mínimos e que famílias que recebem até 2 salários mínimos, comprometem 4,83% do seu orçamento mensal com medicamentos, tornando assim o medicamento similar uma boa opção de compra. Contudo analisando as Tabelas de Preços houve alguns poucos casos como, por exemplo, os genéricos Sulfato de Amicacina, Ampicilina e Cefalotina cujos valores foram superiores entre 1,20% a 15% - aos dos medicamentos de referência. Tais fatos evidenciaram a importância de uma legislação que regulamente a questão dos preços dos genéricos, seja através de uma determinação de que este não pode ser superior ao do de referência, ou do estabelecimento de padrão mínimo de diferença entre preços. Esta sugestão, justifica-se pela existência da assimetria de informação entre o balconista/farmacêutico e o paciente/consumidor; além disto, as campanhas informativas e de divulgação dos genéricos, tendiam/tendem a transmitir a idéia que estes são mais baratos, mas nem sempre tem acontecido desta forma. Como sugestão de trabalho futuro, verificar se os medicamentos de referência e similares continuam a ter redução de preço, após a entrada dos genéricos no mercado brasileiro através de modelos econométricos como Elison et al (1997). 6 - Bibliografia ABCFARMA. Órgão Oficial da Associação Brasileira do Comércio Farmacêutico para farmácias drogarias e empresas do setor. São Paulo: dezembro 1999 a dezembro ANVISA. Agência Nacional de Vigilância Sanitária. Disponível em: <http://www.anvisa.gov.br>. ANDRADE, Mônica Viegas. Ensaios em economia da saúde. Rio de Janeiro: FVG,

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