A ÉTICA DAS VIRTUDES. A ética e a moral: origem da ética As ideias de Sócrates/Platão. Prof. Dr. Idalgo J. Sangalli (UCS) 2011

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1 A ÉTICA DAS VIRTUDES A ética e a moral: origem da ética As ideias de Sócrates/Platão Prof. Dr. Idalgo J. Sangalli (UCS) 2011

2 ETHOS Significado original do termo ETHOS na língua grega usual: morada ou abrigo de animais (significado ainda presente no termo etologia). Transposição para o universo humano: ETHOS como o modo pelo qual o homem organiza a sua habitação, tanto no que se refere à particularidade da sua casa quanto no que se refere ao seu grupo e ao mundo como lugar que o homem habita.

3 O sentido etimológico: ETHOS/ETHICA (nos Gregos) Duas palavras com vocalismo diferente, provenientes de uma mesma raiz: a) éthos (έϑος)= uso, costume, hábito, se refere a maneira de ser costumeiro. b) éthos ( ἤ ϑος )= caráter, maneira de ser de uma pessoa, índole, temperamento, disposições naturais (caráter) de uma pessoa segundo seu corpo e sua alma e conforme à sua natureza. Se refere ao que se faz ou se é por características naturais, próprias de alguém ou de alguma coisa, o caráter de alguém ou de alguma coisa. Este é tratado pela ética, que estuda as ações e paixões humanas segundo o caráter ou a índole natural dos seres humanos.

4 MORALIS (nos Latinos) O sentido etimológico: Na tradução para o Latim: mos, moris = maneira de se comportar, costume, caráter de uma pessoa. Então, Moralis, -e = relativo aos costumes, a moral.

5 ÉTICA e MORAL Problema: embora haja sinonímia no uso geral e ambos termos estejam intimamente relacionados, não são a mesma coisa. A distinção de Aurélio Buarque (Novo Dicionário): ÉTICA: estudo dos juízos de apreciação referentes à conduta humana suscetível de qualificação do ponto de vista do bem e do mal, seja relativamente a determinada sociedade, seja de modo absoluto. MORAL: conjunto de regras de conduta consideradas como válidas, que de modo absoluto para qualquer tempo ou lugar, quer para grupo ou pessoa determinada.

6 O QUE É ÉTICA? De modo genérico costuma-se dizer que é a ciência da conduta. Duas concepções fundamentais podem ser percebidas na História da Filosofia: A ciência do fim a que a conduta humana se deve dirigir e dos meios para atingir tal fim. Deduz (fim e meios) da natureza do homem. (teleológicas); A ciência do móvel da conduta humana e procura determinar tal móvel com vistas a dirigir ou disciplinar a mesma conduta. Aqui o bem não se define pela realidade ou perfeição, mas só como objeto da vontade do homem ou das regras que a dirigem. (deontológicas).

7 Segundo Höffe, deve-se distinguir três níveis teoréticos: O SABER MORAL, que pondera e julga o agir humano fazemos juízos morais; O SABER ÉTICO, que examina o agir moral e o saber moral, com vistas à sua estrutura, elementos e princípios os juízos morais são analisados; O SABER METAÉTICO, que examina a estrutura e a cientificidade de teorias éticas a própria análise de juízos morais é analisada.

8 Juízos de fato e Juízos de valor Juízos de fato: Está chovendo. A professora explicou o conteúdo. Estamos enunciando, descrevendo um acontecimento. Dizem: O que é? Como é? Por que é? (estrutura e processos necessários da Physis/NATUREZA). Juízos de valor: A chuva é bela. Fulana é uma boa professora. Estamos interpretando e avaliando o acontecimento. Dizem e pressupõem valores: O que é o belo? O que é o bem? O que é o mal? O que é a felicidade? (são valores relativos a CULTURA; a moral e a ética são criação histórico-cultural).

9 Os juízos éticos de valor dizem também como deve ser, isto é, são juízos normativos, imperativos (dever ser): a) enunciam obrigações e avaliam intenções e ações pelo critério de correto e incorreto; b) dizem que sentimentos, intenções, ações, comportamentos devemos ter e quais são condenáveis para alcançar o bem e a felicidade; c) são baseados em um ou mais princípios. Ex. na ética aristotélica: critérios da virtude, da prudência, do meiotermo, da reta-razão; na ética kantiana: imperativo categórico; na ética do discurso: princípio U (universalização) e o princípio D (discurso), etc. Duas questões básicas nos estudos de ética: 1)Como se faz a passagem de proposições descritivas para proposições normativas? 2)Qual é o princípio (1, 2, 3) que rege a ética hoje? Existe?

10 O que é Ética? O ato humano voluntário e livre é o objeto material da ética O ponto de vista (que é sempre teorético) sob o qual se encara os atos humanos (objeto material) é o objeto formal da ética. A ÉTICA (ou Filosofia Moral) estuda o aspecto moral do ato humano e de toda a atividade humana: o bem e o mal, o justo e o injusto, o virtuoso e o vicioso, etc.

11 POR QUE ÉTICA? Nossa vida é feita de RELAÇÕES com os OUTROS (sócio-político) > Convivência. Necessidade de tomar decisões > Contingência Tipos de motivos: a) Ordem b) Costumes c) Caprichos pessoais Importante: Nunca uma ação é boa só por ser uma ordem, um costume ou um capricho.

12 O saber ético é a origem da ética O saber ético (ethos) de determinada tradição cultural ao entrar em crise em suas expressões tradicionais (a religião e a sabedoria da vida) busca nova expressão, força de persuasão e credibilidade nova forma de linguagem (a do logos demonstrativo episteme=ciência) e como referencial simbólico visa reorganizar o mundo da cultura. É o nascimento da ÉTICA na transformação da cultura grega no séc. V e IV a.c. Como disciplina filosófica (tratado científico) surgem com Aristóteles (séc. III a.c).

13 Aristóteles ( a.c.) vai considerar nas suas reflexões sobre a práxis: 1) A tradição aristocrática/cavalheresca expressa na poesia de Homero (Ilíadas, Odisséia), também de Teógnis e de Píndaro e dos autores trágicos. O valor de natureza bem nascidos; 2) Tradição mais urbana, contrapondo à areté aristocrática: substituição do costume pela lei escrita pelo homem, o uso da inteligência depende mais da palavra persuasiva, da utilidade, da eficácia do que da beleza do caráter e dos costumes. Contribuição de Hesíodo (O trabalho e os dias). A relativização do discurso sofístico; 3) Tradição dos ensinamentos de Sócrates e Platão.

14 Os Pitagóricos (570 a.c.): O universo (Cosmos) como modelo (ordem, beleza, paz, repouso, harmonia, organização, perfeição) para o homem (interior/sociedade): tornar-se virtuoso e excelente é trazer para o homem esta ordem do cosmos, vai conquistando para si a ordem e beleza do cosmos. A ética era vista como uma estética da existência humana. Do Cosmos para a esfera humana temos: a boa administração da vida pessoal = ética; a boa administração da casa = economia; a boa administração da pólis = política.

15 Metáfora do corpo: Corpo saudável e belo (doente e feio): suas partes funcionam bem é ideal de perfeição, representa a busca desta condição ideal de ser excelente, dotado de virtuosidade. Preparação para assumir seu destino: vida a ser construída (metáfora do barco), deve navegar com certo rumo, direção certa na prática das virtudes. Necessita de uma técnica de navegação no campo de batalha entre razão e paixões. É o agir ético bem ordenado, belo, excelente, próximo dos heróis e deuses imortais.

16 Da paidéia aristocrática para a paidéia do cidadão na democracia Surge a nova areté: a formação do cidadão para a direção da Polis. Não é mais a coragem do jovem guerreiro em busca da bela morte, mas a areté cívica, o respeito às leis e a participação nas atividades políticas. Principal instrumento: a palavra (o bom orador como Péricles na era de ouro da democracia de Atenas, séc. V a.c.). O ensino retórico/persuasivo relativizante dos sofistas.

17 A ética socrático-platônica Sócrates levantou questões éticas fundamentais, tais como: A) O que é a coragem?(laques); O que é a amizade? (Lisis); O que é a virtude?(mênon); A virtude pode ser ensinada?(mênon e Protágoras)... B) Quais critérios e qual coerência para a aplicação dessas ideias nas situações concretas; C) Quais razões e argumentos que as justificam? O estilo aporético/inconcluso dos diálogos socráticos sugere ênfase na necessidade do desenvolvimento de uma consciência moral, da atitude reflexiva e crítica para adoção de um comportamento ético do que na formulação de um saber sobre a ética e seus conceitos. Ex. A vida sem exame não vale a pena ser vivida

18 O melhor é o mais forte? É melhor sofrer uma injustiça que praticá-la? (obra Górgias tem como tema retórica) Na 1ª parte: a retórica é uma simples técnica apenas para persuadir, não serve para ensinar ou produzir o verdadeiro conhecimento. Na 2ª: continua a discussão... Na 3ª: no diálogo com Cálicles (jovem e ambicioso político ateniense que defende o exercício do poder pelos mais fortes, sem nenhum compromisso com a moral e os princípios éticos) Sócrates defende que no exercício do poder político os princípios éticos devem prevalecer sobre a força, pois melhor é aquele que é capaz de ter equilíbrio e autocontrole. Na argumentação (dialética socrática) examina o significado de conceitos: melhor, mais forte.

19 Cálicles afirma que na democracia ateniense as leis foram impostas pela maioria, composta pelos mais fracos, para impedir os mais fortes, hábeis e inteligentes de exercerem o poder. Sócrates contesta esta tese de que o melhor é o mais forte e faz Cálicles cair em contradição, pois se fosse assim, então, um bando de escravos, cuja única força é a dos músculos, poderia ser caracterizado como os melhores. Também na obra Górgias, Sócrates mostra que o indivíduo que comete injustiças e causa danos a outro será visto como injusto e perverso, afetando sua reputação e o convívio causando-lhe dano. Defende a tese de que não se pode ser feliz fazendo o mal, por isso é preferível sofrer uma injustiça do que praticá-la. O exercício do poder supõe que aquele que o exerce seja capaz de controlar a si mesmo para assim agir de modo justo e equilibrado.

20 O que é a areté (virtude)? Pode ser ensinada? (obra Mênon) A resposta é negativa: não pode ser ensinada; ou já a trazemos conosco ou nada será capaz de incuti-la em nós. Então, a virtude deve ser inata, está adormecida (esquecida) em cada pessoa e cabe ao filósofo despertá-la (recordar) (doutrina da reminiscência/anamnese). [Na obra Protágoras o personagem Protágoras diz que a virtude pode ser ensinada, e Sócrates nega tal possibilidade. A análise da questão depende de compreender o conjunto do pensamento de Platão, aliás o próprio Platão examinou a virtude em diferentes diálogos. O objetivo fundamental da educação e do conhecimento filosófico de Platão é alcançar a areté humana.] Na discussão sobre a natureza da virtude, Mênon aponta para exemplos do que seria a virtude. Sócrates argumenta contra essa tentativa de definir a virtude, isto é, um conceito através de exemplos. Precisa de uma definição geral para poder compreender os exemplos (particular/geral). Então, a virtude é um conceito? Buscá-lo onde?

21 O que é a conduta correta? O que é a justiça? (obra A República fala da decadência da democracia ateniense e formula um ideal de cidade justa) Parte da resposta à questão consiste no necessário conhecimento da forma da justiça e pressupõe, portanto, a discussão sobre a natureza das Formas, ou Ideias, e a possibilidade de conhecê-las (é a teoria do conhecimento de Platão: a natureza da realidade, as Formas como a verdadeira realidade, o problema do conhecimento e o Bem como Forma suprema e fundamento da ética e da justiça). A questão ética exposta por Glauco (o mito do Anel de Giges) apresenta a tese de que os homens só são justos porque temem o castigo.

22 Na certeza da impunidade, todo tipo de atos condenáveis seriam praticados, agindo como se fosse um deus. Um indivíduo com o poder (invisibilidade) de fazer o que quiser, ele não hesitará em agir de forma injusta e de acordo com seus próprios interesses. Mesmo o homem de bem, justo agiria igual ao homem injusto. Teste: dar-lhes o mesmo poder, o anel de Giges. Glauco não endossa esta tese e convida Sócrates a refutá-la. A questão é: a conduta ética depende apenas do medo da punição?

23 A alegoria da caverna: da visão habitual do mundo sensível para a visão do mundo inteligível, do Sol/Bem em si, verdade e causa de tudo. Diz o personagem Sócrates: Nos últimos limites do mundo inteligível aparece-me a idéia do Bem, que se percebe com dificuldade, mas que não se pode ver sem se concluir que ela é a causa de tudo o que há de reto e de belo. [...] Acrescento que é preciso vê-la se se quer comportar-se com sabedoria, seja na vida privada, seja na vida pública. Aqui, a possibilidade de alguém tornar-se justo e virtuoso depende de um processo de transformação pelo qual deve passar: afastar-se das aparências, preconceitos e condicionamentos e adquirir o verdadeiro conhecimento, via dialética.

24 O processo dialético da busca do conhecimento verdadeiro culmina na visão do Bem Isso significa que o sábio/filósofo é aquele que pode atinge essa percepção e conhecer o Bem significa tornarse virtuoso e justo. Quem conhece a justiça não pode deixar de agir de modo justo. Na passagem da obra em que fala da natureza humana, Platão faz uma analogia entre os tipos de governo da cidade e o governo da alma. Dos três tipos de homens, qual será mais feliz? O governado pela razão, o dominado pelos desejos de glória ou o dirigido pela ambição de riqueza? Resposta: aquele em que a razão predomina, pois a conduta ética depende do autocontrole, onde o indivíduo mais feliz e realizado do ponto de vista ético é aquele em que a razão predomina e por isso é capaz de decidir com mais acuidade e melhor governar a si mesmo, e daí ser o rei-filósofo da República.

25 Foi utilizado o texto, com algumas adaptações, na parte sobre Sócrates e Platão: MARCONDES, Danilo. Textos básicos de ética: de Platão a Foucault. 3. ed. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2008, pp

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