Modulações de sentidos na experiência psicotrópica

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1 UNIVERSIDADE FEDERAL FLUMINENSE UFF CENTRO DE ESTUDOS GERAIS INSTITUTO DE CIÊNCIAS HUMANAS E FILOSOFIA DEPARTAMENTO DE PSICOLOGIA DOUTORADO EM PSICOLOGIA Autor: SANDRO EDUARDO RODRIGUES Orientador: Prof. Dr. EDUARDO PASSOS Modulações de sentidos na experiência psicotrópica NITERÓI 2014

2 ii UNIVERSIDADE FEDERAL FLUMINENSE UFF CENTRO DE ESTUDOS GERAIS INSTITUTO DE CIÊNCIAS HUMANAS E FILOSOFIA DEPARTAMENTO DE PSICOLOGIA DOUTORADO EM PSICOLOGIA Modulações de sentidos na experiência psicotrópica Sandro Eduardo Rodrigues Tese apresentada ao Programa de Pósgraduação de Psicologia Estudos da Subjetividade do Departamento de Psicologia da Universidade Federal Fluminense, como requisito parcial para obtenção do diploma de doutor em Psicologia. Orientador: Prof. Dr. Eduardo Passos NITERÓI 2014

3 Ficha Catalográfica elaborada pela Biblioteca Central do Gragoatá R696 Rodrigues, Sandro Eduardo. Modulações de sentidos na experiência psicotrópica / Sandro Eduardo Rodrigues f. ; il. Orientador: Eduardo Passos. Tese (Doutorado) Universidade Federal Fluminense, Instituto de Ciências Humanas e Filosofia, Departamento de Psicologia, Bibliografia: f Saúde mental. 2. Transtorno relacionado ao uso de substâncias. 3. Uso de droga. I. Passos, Eduardo. II. Universidade Federal Fluminense. Instituto de Ciências Humanas e Filosofia. III. Título. CDD

4 iii Modulações de sentidos na experiência psicotrópica Sandro Eduardo Rodrigues Composição da banca examinadora: Dr. Eduardo Passos (orientador UFF) Dr. Henrique Soares Carneiro (USP) Dr. Auterives Maciel (PUC/RJ) Dra. Analice Palombini (UFRGS) Dra. Silvia Tedesco (UFF) Suplentes Dr. Jorge Vasconcellos (PPGCA/UFF) Dra. Cristina Rauter (UFF)

5 iv Para Fernanda e Iberê, pela maior experiência psicodélica de minha vida.

6 v AGRADECIMENTOS Agradeço a Eduardo Passos pela paciência e cuidado de um verdadeiro guia de cego, dos que ajudam o cego a ir para onde este deseja, mesmo quando o cego se sente também um pouco confuso sobre qual direção tomar. Agradeço ao coletivo de pesquisa GAM-BR e ao Programa de Pós-Graduação em Psicologia da Universidade Federal Fluminense pela acolhida do projeto de pesquisa. Aos integrantes do PPG em Psicologia da UFF agradeço especialmente por terem lutado para garantir as condições para que esta pesquisa fosse levada a termo, mesmo mediante contratempos financeiros que ameaçaram sua continuidade. Agradeço a Henrique Carneiro pela ótima interlocução e comentários atentos, a Analice Palombini pela intensidade e o carinho com os quais tomou parte na escrita do presente trabalho, a Silvia Tedesco pelas considerações sobre linguagem e produção de subjetividade e a Auterives Maciel que há tantos anos me ajuda a pensar com o impensável do pensamento, o que nos força a pensar, o fora. Agradeço também aos colegas da UFF, da UFRGS, UFRJ e UNICAMP, aos colegas do grupo de orientação e da Frente Estadual Drogas e Direitos Humanos-RJ. A David Rodgers pela cuidadosa tradução do resumo para a língua inglesa. Ao povo do underground de ontem, hoje e sempre, em especial os companheiros que embarcaram comigo na incomensurável piração psicodélica chamada Digital Ameríndio & (American Bigfoot) Mouse Mouse Joe. Agradeço a meu pai que um dia foi músico e minha mãe que ensinou como me orientar numa biblioteca. Por fim, a Fernanda e Iberê, nosso filho, pela experiência mais psicodélica e amorosa que pude viver até agora, pois o processo de gestação, o parto e esses primeiros meses partilhando de toda a maquínica desejante que este nosso rebento vem colocando para operar tem sido uma jornada inominável.

7 vi...me lembro que ainda naquela época, eu fiz a seguinte afirmação: é preciso se desmilitarizar na época deles, hein?! inclusive a mente dos civis! Walter Franco

8 vii RESUMO A presente tese propõe articular a experiência psicodélica ao cuidado de usuários de psicotrópicos prescritos em saúde mental. Para tanto, apresentamos a Gestão Autônoma da Medicação (GAM), uma abordagem de intervenção em saúde mental pautada na valorização da experiência dos usuários de psicotrópicos. O problema da presente pesquisa emerge como fora-eixo da GAM, dando relevo à análise de implicações, procedimento metodológico para extrair o excesso de pessoalidade na redação do fora-texto da pesquisa, ou seja, o material usualmente excluído das publicações científicas oficiais. Para auxiliar na redação desse foratexto, algumas ferramentas são introduzidas como recursos estilísticos consistentes com o material trabalhado, tal como o discurso indireto livre, de Mikhail Bakhtin, e os ritmos acelerados, saltos, cortes e dobraduras do tempo, herdados dos artistas beat, sobretudo como utilizados nas rotinas invenção literária de William Burroughs. A tese faz uma apresentação da experiência psicodélica, desde a primeira síntese do LSD-25, em 1938, passando por pesquisas científicas, militares, clínicas, místicas, artísticas e político-culturais, com especial atenção ao acid rock, ou rock psicodélico, e às considerações de Timothy Leary, Ralph Metzner e Richard Alpert no que diz respeito tanto à influência das disposições pessoais (set) e ambientais (setting) quanto à distinção, na experiência psicodélica, de três fases (ou bardos), baseadas no Livro Tibetano dos Mortos, que entendemos como uma primeira fase de transcendência completa, prerreflexiva, sem qualquer distinção entre dentro e fora (para além do espaço-tempo, da linguagem e de si); uma segunda, de controle egoico, que envolve tentativas alucinantes e delirantes de demarcação de limites identitários; por fim, um período de retorno ao jogo da realidade rotineiro, das distinções entre dentro e fora, mas com limites mais alongados, flexíveis e expandidos. Em seguida, apresentamos o fora-eixo da pesquisa de campo realizada em um Centro de Atenção Psicossocial (CAPS), entre março e novembro de Na pesquisa de campo, experimentamos a ação de três vetores, produzindo distintos movimentos de subjetivação: um vetor de exclusão, produtor de fechamento; um de inclusão, produtor de abertura; e um vetor de repulsão, produzindo paranoia, que serviu-nos para ressaltar o caráter desafiante que envolve a inclusão do fora. Com isso, cumprimos nosso objetivo, na expectativa de que a partilha de uma sensibilidade psicodélica auxilie na formação estético-política de trabalhadores do campo da saúde mental. Palavras-chave: Saúde mental. Experiência psicodélica. Drogas lícitas e ilícitas.

9 viii ABSTRACT This thesis sets out to explore the interconnections between psychedelic experience and the mental health care prescribed for psychotropic drug users. This aim in mind, I present an approach to mental health intervention, Autonomous Medication Management (AMM), that values the experience of psychotropic drug users. The problem examined in this research emerges as an off-axis variant of AMM, highlighting the analysis of its implications as a methodological procedure to extract the excess personalization involved in writing the outside-the-text of the research i.e. the material usually excluded from official scientific publications. To help write this outside-the-text, various tools are introduced as stylistic resources consonant with the material under examination, such as Mikhail Bakhtin s free indirect discourse, and the accelerated rhythms, jumps, cuts and foldings of time inherited from the beat writers, in particular the kind found in the routines invented by William Burroughs. The thesis describes psychedelic experiences from the first synthesis of LSD-25 in 1938 to scientific, military, clinical, mystic, artistic and politico-cultural research, focusing especially on acid rock, or psychedelic rock. Here I turn to the ideas of Timothy Leary, Ralph Mezner and Richard Alpert on both the influence of personal dispositions (set) and environmental dispositions (setting) and the differentiation of three phases (or bardos) in psychedelic experience, derived from the Tibetan Book of the Dead: a first phase of complete, pre-reflexive transcendence, with no distinction between outside and inside (beyond spacetime, language and self); a second phase, controlled by the ego, involving hallucinatory and delirious attempts to delimit identity boundaries; and finally a period of return to the game of everyday reality and the distinctions of outside and inside, but now with more flexible, stretched and expanded boundaries. Next I present the off-axis variant of the field research conducted in a Psychosocial Care Centre (CAPS) between March and November In this field research, we experienced the action of three vectors, each producing distinct movements of subjectification: a vector of exclusion, producing closures; a vector of inclusion, producing openings; and a vector of repulsion, producing paranoia, which served to emphasize the challenges involved in the inclusion of the outside. In reaching this conclusion, the thesis anticipates that the sharing of a psychedelic sensibility can assist in the aesthetic-political training of workers in the mental health field. Keywords: Mental health. Psychedelic experience. Licit and ilicit drugs.

10 ix RÉSUMÉ Cette thèse propose articuler l'expérience psychédélique au soin des utilisateurs de médicaments psychotropes prescrits dans le domaine de la santé mentale. À cette fin, nous présente la Gestion Autonome de la Médication (GAM), une approche d'intervention en santé mentale fondé sur la valorisation de l' expérience des utilisateurs de substances psychotropes. Le problème de cette recherche émerge comme hors-axe du GAM, avec l'accent mis sur l'analyse des implications, procédure méthodologique pour enlever l'excédent de personnalité dans la rédaction du hors-texte de la recherche, c'est-à-dire le matériau habituellement exclus des publications scientifiques officielles. Pour aider à la rédaction de ce hors-texte, comme caractéristiques stylistiques compatible avec le matériau travaillé, tels que le discours indirect libre, Mikhaïl Bakhtine, et les rythmes accélérés, houblon, coupures et pliant dans le temps, héritage des artistes beat, surtout comme utilisé dans lês routines invention littéraire de William Burroughs. La thèse fait une présentation de l'expérience psychédélique, depuis la première synthèse du LSD-25, en 1938, en passant par la recherche scientifique, militaires, cliniques, mystique, artistique, culturelle et politique, avec une attention particulière aux acid rock, ou rock psychédélique, et dês considérations de Timothy Leary, Ralph Metzner et Richard Alpert tant en ce qui concerne l'influence des dispositions personnelles (set) et de l'environnement (setting) comme de la distinction, dans l'expérience psychédélique, de trois phases (ou bardos), basé sur le Livre Tibétain des Morts, qui nous considérons comme une première étape de la transcendance complète, pré-réflectif, sans aucune distinction entre l'intérieur et l'extérieur (en plus de l'espace-temps, de la langue et de lui-même) un deuxième, de contrôle égoïque, ce qui implique tentatives hallucinatoires et délirantes pour délimiter les frontières de l'identité; enfin, une période de récupération de la réalité du jeu de routine, les distinctions entre l'intérieur et l'extérieur, mais avec des limites plus allongées, flexibles et étendues. Puis, nous présentons le champ de recherche menée dans un Psychosociale Care Center (CAPS), entre Mars et Novembre Dans le domaine de recherche, nous avons essayés l'action de trois vecteurs, produisant des mouvements distincts de la subjectivité: un vecteur d'exclusion, producteur de la clôture; l'un de l'inclusion, producteur d'ouverture; et un vecteur de refoulement, produisant des paranoïa, qui nous a permis de souligner le caractère challengeur qu'implique l'inclusion de l'hors. Avec cela, nous avons atteint notre objectif, dans l'espoir que le partage d'une sensibilité psychédélique aide à l éducation esthétique et politique des travailleurs dans le domaine de la santé mentale. Mots-clés: Santé mentale. Expérience psychédélique. Drogues licites et illicites.

11 x FIGURAS: Figura 1 Guia da Gestão Autônoma da Medicação Figura 2 Os pioreres da história da política Figura 3 Cartaz e painel da Ala Psicodélica da Marcha da Maconha 2014 Figura 4 Versão miniatura do painel da Ala Psicodélica

12 xi SIGLAS: AGIDD/SMQ Association des Groupes d Intervention en Defense des Droits en Sante Mentale du Québec AMEA Associação Metamorfose Ambulante de Usuários e Familiares do Sistema de Saúde Mental do Estado da Bahia ANVISA Agência Nacional de Vigilância Sanitária ARUC Alliance Internationale de Recherche Universités-Communautés CAPS Centro de Atenção Psicossocial CBD Canabidiol CIA Central Intelligence Agency CT Comunidade Terapêutica DIL Discurso indireto livre / discurso indireto louco DOM 2,5-dimetoxi-4-metilanfetamina FDA United States Food and Drug Administration FIC Festival Internacional da Canção FNB Federal Narcotics Bureau FEDDH-RJ Frente Estadual Drogas e Direitos Humanos do Rio de Janeiro FNDDH Frente Nacional Drogas e Direitos Humanos GAM Gestão Autônoma da Medicação GAM-BR Gestão Autônoma da Medicação Brasil Gf Grupo focal GGAM Guia de Gestão Autônoma da Medicação GGAM-BR Guia Brasileiro de Gestão Autônoma da Medicação GI Grupo de Intervenção GIF Grupo de Intervenção com Familiares GIU Grupo de Intervenção com Usuários ICC Instituto Carioca de Criminologia IFIF International Federation for Internal Freedom LEAP Law Enforcement Against Prohibition LSD Lyserg-saure-diathylamid L.S.D. League for Spiritual Discovery MAPS Multidisciplinary Association for Psychedelic Studies PILL People Investigating Leary's Lies

13 xii PPG Programa de Pós-Graduação RRASMQ Regroupment des Ressources Alternatives en Sante Mentale du Québec RD Redução de Danos RP Reforma Psiquiátrica RS Reforma Sanitária SDS Students for a Democratic Society STP Serenidade, Tranquilidade e Paz TCLE Termo de Consentimento Livre e Esclarecido UERJ Universidade Estadual do Rio de Janeiro UFF Universidade Federal Fluminense UFRGS Universidade Federal do Rio Grande do Sul UFRJ Universidade Federal do Rio de Janeiro UNICAMP Universidade Estadual de Campinas USA United States of America

14 xiii SUMÁRIO prelúdio, 15 sobre este filho, 15 carta ao autor: a experiência psicodélica de ler sandro, por analice palombini, 22 1 a emergência da gestão autônoma da medicação e do fora-eixo, 25 da suspensão dos medicamentos à negociação da medicação: a emergência da gam, 28 da água para o vinho: a emergência do fora-eixo, 35 a escrita polifônica do fora, 42 are you experienced?, 50 2 a experiência psicodélica, 57 claviceps purpurea, 57 um pressentimento peculiar, 59 atitude experimental, 61 buscando palavras para descrever a experiência, 63 visões fantásticas do celestial e do infernal, 65 sopa de cogumelos ou ciência e arte, 71 a experiência psicodélica: set & setting, 75 usos científico, ritual e terapêutico de psicodélicos, 79 afinidades psicotrópicas, 83 3 automatismos e autonomia, 87 autômatos e automatismos, 89 cibernética e autopoiese, 95 a cia e o lsd: inteligência e intuição, 101 can you pass the acid test?, 108 folk rock e acid rock, 116 a haight-ashbury, 126 a free clinic e o verão do amor, 131 turn on, tune in and drop out!, 141 o underground junkie, 147 vamos pensar a respeito?, 157

15 xiv 4 the san pedro experience, 169 heterogestão e autogestão, 172 cogestão e contágio como inclusão do fora, 173 guiados por quem?!, 178 fora-eixo do giu, atracando a caravela psiconáutica, 233 referências bibliográficas, 237 livros, 237 discos, 248 filmes, 250 sites, 250

16 prelúdio 15 Prelúdio é uma introdução a um texto escrito ou a uma obra musical, podendo se referir, por exemplo, tanto a um prefácio para um texto acadêmico quanto a pequenas peças instrumentais que introduzem obras maiores, como óperas ou balés. Nesse sentido, prelúdio se especifica em relação à noção musical mais ampla de abertura pelo compromisso daquele em apresentar os temas e motivos que se repetirão ao longo da música, anunciando assim as temáticas abordadas e as motivações persistentes no decorrer da obra. No entanto, há prelúdios que não se limitam a introduzir outras obras, mas constituem composições em si mesmos, livres em sua estruturação, como, por exemplo, o Prèlude à l après-midi d un Faune ( ), do compositor francês Claude Debussy, cuja melodia inicial da flauta ondula entre o tonal e o atonal, tornando sensível assim o tom oscilante do discurso expresso em toda obra (Griffiths, 1998). O presente prelúdio tem o intuito de construir um ambiente mais aconchegante para uma contração da experiência psicodélica e, para tanto, o contexto de produção dos dois textos a seguir merece ser brevemente apresentado. O primeiro deles constava como introdução na versão entregue à banca de defesa e visava introduzir, mais que o texto da tese, seu próprio contexto de produção, o que pode soar enigmático agora, mas que se torna mais nítido a partir do próximo parágrafo, sobretudo ao levarmos em conta que o prelúdio incorpora, em seguida, a instigante carta redigida e lida durante a defesa da tese pela professora Analice Palombini, titular da banca e integrante do coletivo de pesquisa GAM, a quem agradeço, dentre outras coisas, pela autorização para publicar aqui o texto tão inspirado quanto inspirador. sobre este filho Um choro de bebê no quarto ao lado. Sexta-feira, oito de agosto de 2014, sete e vinte da manhã. O choro logo cessa, tendo durado somente o tempo que levei para escrever a primeira frase deste texto introdutório à tese que, outrossim, já deveria agora estar em mãos da banca. Mas a introdução a uma tese sobre a experiência psicodélica, realizada sob a perspectiva da pesquisa-intervenção (que, grosso modo, pressupõe a consistência vital de qualquer ato de conhecimento; ou seja, a ligação necessária entre pensamento e vida), não me pareceria muito consistente, caso fosse ignorado o contexto de sua produção o que, ao longo da tese, será chamado setting (usualmente traduzido por ambiente ou cenário). Esta introdução está sendo regida no Bairro de Santa Rosa, em Niterói, em uma manhã ensolarada com nuvem alguma no céu, embora no oitavo andar de um apartamento em que as manhãs têm sido, há exatos seis meses, abençoadas com um nevoeiro que, conforme vai clareando o dia, faz revelar o morro que temos diante de nós, habitado até metade de sua altura, deixando-nos

17 16 bastante verde para oxigenar os ventos fortes que nos chegam, em geral, vindos, por detrás do morro. O vento vem vindo lá de longe, ondulando as praias de Icaraí e São Francisco, e, ao chegar em terra firme, oscila para o alto, escalando o morro e, embora desça novamente do outro lado, uma parte nos atinge ainda no oitavo andar, antes da descida, trazendo ares bem refrescantes para nós. O nós é o ponto em que este parágrafo tenta indicar de que trata esta tese. Pois o bebê do quarto ao lado é ainda mais lindo que o nome lindo que para ele escolhemos: Iberê, meu filho branco com nome de índio. Aquele choro do parágrafo anterior cessou logo, pois Iberê está agora esparramado, saciado, em êxtase, sobre o aconchegante corpo de Fernanda, de onde saiu ainda há poucos dias, mais exatamente, terça-feira, dia cinco, às vinte e duas horas e cinquenta minutos. A bolsa havia rompido por volta de dezessete horas da tarde de segunda-feira, quatro de agosto. Conseguira sentar havia pouco diante do computador, neste quarto tornado temporariamente escritório, para correr com o fechamento da conclusão da tese, pois havíamos entrado na trigésima nona semana da gestação e Iberê poderia vir à luz a qualquer instante. Não costumo estourar prazos, embora a aposta em um parto normal, ativo e humanizado nos tenha exigido uma preparação (algo que, no presente trabalho, é chamado set) bem maior, além de certa disponibilidade para lidar com o imponderável, inexorável, incomensurável. Concordo com o Fernando Beserra, que assina a coluna Portas da percepção no site Hempadão: laricas de informação, quando, em uma oficina sobre psicodélicos e redução de danos que ministramos na Casa Nuvem, na Lapa, disse, talvez não de fato nestes termos, mas certamente nesse sentido, que ser pai é a experiência mais psicodélica que há. E se a metáfora usual do meio acadêmico é que a tese é um filho, é preciso acrescentar que tanto o processo gestacional ( gestão, como veremos, tem o sentido de gerência, mas também o de geração, de gestação) do Iberê quanto o parto da presente tese exigiram bastante, mas, como disse o Jorge Melo (quem ainda não o conhece, terá uma primeira oportunidade ao ler esta tese), citando o músico Walter Franco, apesar de tudo, é muito leve... Nós, seres vivos, somos Soft Machine, máquinas leves para as quais são necessárias tecnologias leves. Embora, como cantavam os Secos e Molhados, o amor, leve, como leve pluma, muito leve, leve, pousa, muito leve, leve pousa. É leve sim, mas suave, coisa nenhuma. Em meio à elaboração deste parágrafo, o choro do Iberê voltou e, virando berro, converteu-se numa imagem acústica fortemente perturbadora de limites identitários, quando, ao trocarmos sua fralda, chamei carinhosamente de preto este nosso filho branco com nome de índio. Mas voltemos à ruptura da bolsa, ao setting do atraso no envio da tese para a banca. Até o instante imediatamente anterior à ruptura da bolsa, imaginava fechar conclusão e introdução da tese na segunda-feira, para na terça comprar cartucho, papel, imprimir, encadernar e enviar por Sedex para os integrantes da banca, buscando garantir, assim, a entrega do texto ainda no prazo e uma disponibilidade total para a recepção ao Iberê. Mas, na ruptura da bolsa, irrompeu uma espécie de cesura, uma quebra, um corte no fluxo da experiência que interrompeu o próprio curso

18 17 da escrita. Às oito da noite, ainda na segunda-feira, fui com Fernanda para o Rio de Janeiro, de carona com seu pai. A aventura foi longa, cheia de contratempos, não houve espaço para a redação. Tampouco há palavras que nos aproximem da beleza e emoção que é acompanhar tão de perto uma experiência na qual set e setting ganham bem mais importância que procedimentos interventivos desnecessários, ou, para dizer melhor, que o recurso a procedimentos interventivos, mesmo quando estes não se fazem de fato necessários. Tínhamos a sorte de podermos contar com uma excelente equipe voltada para o parto normal e humanizado, pois foi essa equipe que lutou, enfrentando muita resistência dentro da instituição, para garantir uma abordagem que é muitíssimo mais custosa e demandante de emoção e atenção por parte dos profissionais que os procedimentos interventivos, mais confortáveis para a maioria dos trabalhadores, embora menos potencializante da experiência para mãe e bebê. Pude notar que, nesse tipo de situação, duas posturas parecem se opor. Embora em ambos os casos ocorra o cuidado, são concepções distintas. Em uma delas, notamos um empecilho advindo da tentativa de se zerar qualquer influência externa às tecnologias das indústrias farmacêutica e de equipamentos médicos; pois, com isso, corre-se o risco de se ignorar aspectos importantíssimos da experiência vivida, ao focar exclusivamente na leitura de dados quantificáveis (medidores, exames, remédios, equipamentos). Embora creiamos que qualquer clínico só possa ser considerado um clínico de fato se souber interpretar tais medidas e exames ou seja, não estamos dizendo que as medidas tratem sozinhas (caso contrário, já estaríamos literalmente no admirável mundo novo de Huxley), quando se tenta subtrair a qualquer custo as influências externas, o que ocorre de fato é a tradução das medidas em procedimentos sugeridos a partir de instituições sem qualquer ligação direta com a experiência dos usuários (pois, como indicamos adiante, por mais que os estudos nos laboratórios farmacêuticos, por exemplo, sigam 'rigorosos' procedimentos de controle, os efeitos colaterais a longo prazo do uso de cada procedimento se mostram exatamente nos usuários). O problema se agrava quando os profissionais de saúde insistem em acreditar apenas na eficácia das tecnologias de ponta em um fetiche consumista por drogas e equipamentos de última geração, ignorando os próprios relatos dos usuários. Uma outra postura profissional é a de considerar a utilização de procedimentos intervencionistas tais como cirurgias, medicamentos, anestesias, etc., verdadeiros arrombamentos biológicos e, muitas vezes, existenciais ; portanto, recursos a serem utilizados apenas quando os demais falham (na metáfora do arrombamento, caberia ligar antes da visita, tocar a campainha ao chegar, aguardar o tempo do anfitrião e, caso seja mesmo preciso entrar, por conta de alguma dificuldade do anfitrião, que se tente ver se a porta está mesmo trancada, ou se não dá para entrar por alguma janela, basculante, isso tudo antes de derrubar a porta, armados, berrando polícia! ). Mas todo procedimento intervém na realidade. Sendo assim, como situar o ponto em que um procedimento sabidamente mais agressivo se torna necessário?

19 18 Já se aproximavam de vinte e quatro horas desde que a bolsa havia ficado rota, sem que as contrações obtivessem um ritmo que caracterizasse de fato a entrada no trabalho de parto, mesmo após a realização de algumas recomendações do obstetra, como caminhada, banho de chuveiro, concentração e conversa com o Iberê, cuja cabeça, sabiamente encaixada, passou a reter na bolsa o líquido que Fernanda vinha perdendo. No entanto, o risco de o parto natural não poder ser realizado, caso o trabalho de parto não se iniciasse até (por volta de) vinte e quatro horas após o rompimento da bolsa, acabou disparando em Fernanda um temor que parecia, ele mesmo, estar impedindo que as contrações tomassem ritmo. Junto ao temor, o medo e uma sensação de solidão, como se o mundo houvesse nos privado do amor, da força de Eros. A maternidade estava lotada quando chegamos, às vinte e quatro horas do rompimento da bolsa, e soubemos que era horário de pico das cesarianas, em geral, marcadas pelos obstetras após seu expediente em consultório. O nosso obstetra, sempre passando tranquilidade, nos sugeriu administrar um cheirinho de ocitocina para ajudar a dar um empurrãozinho nas contrações ritmadas. Foi preciso paciência do profissional para dar conta de um momento mais difícil. Trata-se de um obstetra experiente. Mas o termo experiente não pode ser confundido aqui com qualquer eufemismo para idoso (e tal não é mesmo o caso); antes tem um sentido bem mais próximo ao de Jimi Hendrix, que, com apenas vinte e quatro anos, perguntava, com bastante propriedade, are you experienced? pois trata-se não do acúmulo de anos de prática em preencher receituários com diagnósticos estereotipados, mas de uma experiência que se dobra sobre todas as outras: experiência em focar na experiência (sobretudo, a experiência das gestantes). Fernanda aceita a sugestão. Mas, com o medo de não conseguir, gerando sensação de solidão, desaba em choros como se tivesse falhado, como se fosse então menos mãe, por recorrer a uma intervenção invasiva. Eu tentava ajudar, mas imerso também no parto metafórico e seus próprios contratempos, estava em condições afetivas insuficientes para dar conta de outras sensações de solidão (ou talvez nem caiba tentar justificar meus limites). No entanto, o efeito da ocitocina foi quase imediato, com Fernanda começando a sentir uma forte contração, embora as contrações imediatamente seguintes ainda estivessem pouco regulares. Alguns minutos depois, começaram as contrações regulares e o obstetra e sua equipe iniciaram uma batalha com a instituição para conseguir um local para fazer o parto. A maternidade é muito moderna, com equipamentos e instalações de ponta para cesarianas (parece que mais de noventa por cento dos nascimentos realizados lá são por cesarianas), mas há pouca disponibilidade para lidar com o parto natural (pois já nem cabe mais chamá-lo de 'normal', uma vez que a norma, a regra, virou intervenção cirúrgica). Após o cumprimento de algumas burocracias enquanto o trabalho de parto já havia efetivamente começado, conseguimos ir para uma sala autorizada para o nascimento. Era uma sala com bastante espaço, embora sem nenhum dos recursos que esperávamos (como, por exemplo, banheira) a partir dos vídeos que assistíramos de partos humanizados. Ao contrário, tratava-se de

20 19 um centro cirúrgico de aspecto um tanto quanto frio, com uma 'mesa de parto' (muitas aspas aqui) que mais parecia uma cadeira de dentista, de tão estreita, e ainda por cima com um entra-e-sai de funcionários mal-humorados do hospital para levar para a sala equipamentos sem qualquer necessidade para o parto natural. Felizmente, a equipe (set) que estava conosco para fazer o parto era ótima, criando, assim, um território existencial afetivamente favorável dentro daquele setting laboratorial, frio e aterrador. Foram duas horas e meia, ao mesmo tempo curtíssimas e longuíssimas, passadas com a aposta dos profissionais na autonomia, no amor, no tesão, na experiência, na vida, no humor. Muita luta, muita dor, muito estímulo, muito apoio, muito medo, muitos cuidados, muita atenção, expectativa, risos e a disposição para tentar tudo quanto fosse posição (tendo o obstetra se referido posteriormente, de modo espirituoso, à experiência vivida por todos que pudemos partilhar daquele momento como o kama sutra do parto ativo). Foi tudo lindo e emocionante, uma paisagem existencial exuberante, dentro de um cenário deprimente (com todo o poético kama sutra realizado sobre uma cadeira estreita e desconfortável). Muito bom também sentir o quanto, nessa abordagem, os afetos perpassam intensamente toda a equipe envolvida e, surpreendentemente, contagia mesmo a instituição. Logo após o parto, enquanto tirava os aventais cirúrgicos, um pai que entraria em seguida na sala que ocupáramos me pergunta se meu filho era o que tinha nascido de parto normal e afirmo, ao que ele responde com um lamento de que eles gostariam de ter um parto normal, mas a equipe disse que sua esposa teria problemas. Senti que ele nos admirava (o que me surpreendia, sobretudo, naquele local, onde antes víramos a todos como figurantes de novela, estranhando nossa atitude de ter parto natural como uma espécie de primitivismo romantizado, de retorno à natureza), mas o que mais chamou atenção era certo constrangimento desse pai. Era preciso cuidar ainda de algo ali. Respondi-lhe que de fato há situações que favorecem e outras que desfavorecem o parto em favorecimento à cesariana, ressaltando a sorte que tivemos em conseguirmos um médico e uma equipe que militassem ao máximo a este favor, mas fiz também questão de dizer-lhe que não foi por capricho nosso que o parto foi natural (o capricho, no caso, seria talvez o oposto da natureza), pois, caso fosse de fato necessário para a saúde dela ou do Iberê, faríamos uma cesariana. Logo em seguida, um lindo bebezinho de dedos compridos e nome de deus indígena, saudável e já muito desperto e esperto, se tornou a sensação do berçário, como dito tanto pelo obstetra e o pediatra de sua equipe, quanto por diversos profissionais da própria maternidade. Como o parto foi concluído às vinte e duas e cinquenta de terça-feira, o pediatra, ao visitar-nos, na quarta, sugeriu-nos ficarmos um dia a mais na maternidade, para sairmos mais seguros no dia seguinte. O setting voltou a perturbar, com muita gente e agito, não tendo eu podido escrever nada mais por lá. Tendo dormido por cerca de duas horas na noite de segunda para terça-feira e cerca de três horas na noite de terça-feira para quarta, encantado com a presença e as exigências deste filho, ao chegarmos de volta a nosso lar (ainda em caos), com nosso pequeno recém-nascido, a exaustão não me

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