Ações da Parto do Princípio contra as cesáreas desnecessárias e indesejadas

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1 Ações da Parto do Princípio contra as cesáreas desnecessárias e indesejadas Cristiane Yukiko Kondo a Flávia da Silva Telles Penido b Rebeca Celes Charchar c A Parto do Princípio - Mulheres em Rede pela Maternidade ativa (www.partodoprincipio.com.br) tem o propósito de promover os benefícios do parto humanizado, do parto ativo, do protagonismo da mulher no parto e de lutar contra a banalização da cesárea através de várias frentes de ação. Dessa Rede participam mais de 200 mulheres de 21 estados brasileiros mais o Distrito Federal. Dentre as ações educativas realizadas pela Parto do Princípio está o mapeamento e apoio a grupos presenciais gratuitos para gestantes em todo o Brasil. Esses grupos demonstraram ser aliados contra as cesáreas desnecessárias e indesejadas visto que divulgam informações sobre a gestação, parto e puerpério, sempre com base em evidências científicas e nas recomendações da Organização Mundial de Saúde - OMS 1. Os grupos de apoio oferecem suporte para que as famílias façam escolhas informadas e conscientes sobre o nascimento de seus filhos, iniciativa que promove a saúde e provoca transformações sociais a médio e longo prazo. Os GAPPs (Grupos Apoiados pela Parto do Princípio) trabalham de forma independente mas compartilham com a Rede a missão de oferecer informação qualificada. Questões aparentemente simples são tomadas por difíceis frente ao poder médico. Com o apoio dos grupos as mulheres sentem-se mais confiantes e confortáveis para elaborar um plano de parto, solicitar mais esclarecimentos ao seu médico, para participar das escolhas e decisões e até para perguntar o índice de cesáreas de seu obstetra. O sucesso na disseminação dos GAPPs demonstra a demanda da sociedade brasileira por informações a Psicóloga, doula, ativista da Parto do Princípio, b Psicóloga, arteterapeuta, doula, ativista da Parto do Princípio, c Empresária, doula, ativista da Parto do Princípio,

2 e conhecimento acerca do processo de gestação e parto, inadequadamente suprimidos pelos serviços obstétricos atuais, tanto estatais quanto privados. Os GAPPs apresentamse como alternativa de desconstrução da "cultura da cesárea" vigente na sociedade, sendo essa suporte informacional uma das estratégias adotadas pela Rede para quebrar o círculo vicioso de ignorância, mitos e medos que tornam as mulheres cada vez mais suscetíveis a uma cesárea desnecessária e indesejada. Ainda como ação educativa, a Parto do Principio colabora com a Semana Mundial pelo Respeito ao Nascimento (SMRN) 2, a cada ano abraçando o tema proposto e realizando exposições de fotos emocionantes do momento do parto em várias cidades do país, com frases encorajadoras das mulheres retratadas. Nossa exposição ganha praças, shoppings e, assim, a população pode contemplar a beleza do parto e nascimento, um resgate daquilo que foi perdido culturalmente. Juntamente às fotos produzimos anualmente novos banners explicativos sobre o tema. A Parto do Princípio também mantém um site no qual estão disponíveis textos diversos sobre assuntos referentes a gestação, parto e nascimento, dentre eles os que desmistificam questões comumente relatadas para indicação de cesárea como: falta de dilatação, bacia estreita, cordão enrolado, bebê passou da hora, etc. A falta de informação favorece a aceitação por parte da mulher e de sua família das indicações de cesárea embasadas, na verdade, em mitos ou mera conveniência médica. Como no setor suplementar está a maior parte das cesarianas 3,4, a ANS também tem realizado campanhas educativas a fim de reduzir esses índices, porém os índices de cesáreas continuam crescentes no setor. É de competência da Agência zelar pela qualidade dos serviços de assistência à saúde e estabelecer critérios para procedimentos tendo em vista a proteção do interesse público. Tendo em vista essa atribuição da ANS sobre a regulação do setor suplementar, em 2006 a Parto do Princípio elaborou um dossiê sobre o atendimento ao parto no Brasil. O

3 documento foi entregue ao Ministério Público Federal solicitando sua atuação junto à ANS diante do cenário preocupante de abuso de cesáreas, especialmente no setor suplementar de saúde, composto por seguros de saúde e convênios médicos. O dossiê apresentou índices de partos normais e de cesáreas do setor público e do setor suplementar, as graves implicações para as saúdes materna e neonatal, as distorções sobre cesárea a pedido e cesárea por conveniência médica, os fatores que influenciam na preferência médica em realizar cesáreas, as implicações da realização da cirurgia sem necessidade real e a necessidade da intervenção da Agência Nacional de Saúde Suplementar para o estabelecimento de medidas efetivas para redução das cesáreas realizadas sem indicação clínica real. Após essa denúncia, no ano de 2007, foi realizada uma Audiência Pública promovida pelo Ministério Público na qual estiveram presentes representantes da Parto do Princípio, do Ministério da Saúde, da ANS, do Conselho Federal de Medicina, Conselho Regional de Medicina, Conselho Federal de Enfermagem, Associação de Hospitais de São Paulo, Federação Brasileira de Hospitais, Federação Nacional de Saúde Suplementar, Rede de Humanização do Parto e Nascimento. Foram debatidas propostas, dentre elas: adoção de tetos de pagamento de cesáreas, reavaliação dos valores pagos por cesáreas e partos normais, a possibilidade de enfermeiros obstetras realizarem assistência ao parto normal, incentivo à construção de casas de parto particulares, o direito à informação sobre os riscos de uma cesárea, elaboração de campanhas e cartilhas, capacitação de médicos para assistência ao parto normal com base nas evidências científicas, transparência dos dados pelos prestadores de serviços e cobertura para partos domiciliares. Ainda como fruto da ação de denuncia, em 2010 o Ministério Público Federal ajuizou uma Ação Civil Pública 5 com o objetivo de proteger os direitos dos consumidores usuários de planos de saúde privados. O MPF solicitou que a ANS fosse obrigada a expedir regulamentação que determinasse às operadoras de planos de saúde os percentuais de cesáreas e partos normais realizados pelos obstetras e hospitais conveniados,

4 estabelecesse um modelo de partograma como documento obrigatório, que obrigasse as operadoras a credenciar e possibilitar a atuação dos enfermeiros obstetras no acompanhamento de trabalho de parto e parto, que fossem criados indicadores e notas de qualificação para operadoras e hospitais, estabelecesse uma remuneração superior para a assistência ao parto normal. Em 2011, as ativistas da Rede participaram da Consulta Pública nº 40 da ANS na qualidade de usuárias, ocasião em que foram enviadas propostas de modificação da RN nº 211 para que houvesse inclusão de alguma diretriz para a realização de cesárea eletiva. Até junho de 2011 não havia quaisquer diretrizes para a cobertura de cesáreas eletivas, levando mulheres que aguardam o início do trabalho de parto para realizar a internação a encontrar dificuldades em encontrar vagas dependendo do dia da semana, ou mesmo dificuldade burocrática pelo não-agendamento antecipado devido à demanda por cirurgias eletivas. Contudo, a regulação do setor suplementar e o empoderamento de mulheres não são suficientes para assegurar a assistência adequada ao parto e nascimento. Faz-se necessário ainda que as equipes de saúde e serviços conveniados estejam preparados para realizar uma assistência segura e humanizada ao parto normal. A ambiência e as intervenções contribuem para a expectativa e impressões do parto normal 6, por isso a adequação da estrutura física dos hospitais e maternidades é de extrema relevância. As instituições, seguindo modelos internacionais de assistência, devem acolher a gestante e seu acompanhante para favorecer o trabalho de parto e parto. É preciso promover condições para que a parturiente possa deambular, se movimentar, escolher a posição que lhe proporcione maior conforto, utilizar métodos não farmacológicos de alívio da dor e manter sua privacidade. O acompanhante deve ser escolhido pela mulher para todo o período de internação, estudos comprovam os benefícios desse suporte contínuo.

5 A Rede está realizando articulações junto a Conselhos de Saúde, Conselhos de Defesa dos Direitos da Mulher, Ministério Público Estadual, Secretarias de Saúde, para que as maternidades estejam adequando-se às RDC 36 e RD 50 da ANVISA que contemplam as diretrizes para essas adequações físicas e à Lei Federal nº /05 que garante a presença de um acompanhante de livre escolha da mulher durante o pré-parto, parto e pós-parto imediato. Considerando-se que a redução do índice de cesáreas precisa ser acompanhada de melhorias na assistência ao parto normal, urge que outros setores da sociedade mobilizem-se para que os serviços de saúde proporcionem segurança na assistência e manejo do parto normal, assistência conjunta de enfermeiros obstetras, obstetrizes e médicos obstetras em uma equipe multidisciplinar e estrutura para encaminhamento cirúrgico quando necessário. A Rede Parto do Princípio segue alinhada nesse propósito, oferecendo informação e representatividade às usuárias dos serviços de saúde.

6 1 Organização Mundial de Saúde. Maternidade Segura, assistência ao parto normal: um guia prático. Genebra: Organização Mundial de Saúde, Alliance Francophone pour l'accouchement Respecté. Semaine Mondiale pour L accouchement Respecté [Internet]. França: Alliance Francophone pour l'accouchement Respecté; [acesso em 2011 Mai 10]. Disponível em: 3 Yazlle ME, Rocha JS, Mendes MC, Patta MC, Marcolin AC, de Azevedo GD. Incidência de cesáreas segundo fonte de financiamento da assistência ao parto. Rev Saude Publica Apr;35(2): Agência Nacional de Saúde Suplementar. Brasil tem uma das maiores taxas de cesariana na Saúde Suplementar [Internet]. Rio de Janeiro: Agência Nacional de Saúde Suplementar; 2006 [acesso em: 2011 Jun 14]. Disponível em: 5 Pinto LC, Costa L. Ação Civil Pública [Internet].São Paulo: Ministério Público Federal; 2010 Ago 17 [acesso em 2011 Mai 31]. Disponível em: % _cesarianas.pdf 6 Hodnett, E D. Pain and women s satisfaction with the experience of childbirth: a systematic review. Am J Obstet Gynecol. 2002; 186: S160-S172)

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