Empreendedorismo Social Legados da Formação Cidadã para os 80 anos de Londrina

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1 Empreendedorismo Social Legados da Formação Cidadã para os 80 anos de Londrina

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3 Empreendedorismo Social Legados da Formação Cidadã para os 80 anos de Londrina Autores Ariana Almeida Quelho é formada em Biblioteconomia e Ciência da Informação na UEL, pós-graduada em Administração de Marketing e Propaganda. Empresária, Diretora Executiva do Grupo CDI e Membro do Conselho do Jovem Empresário da ACIL. Cassiana Stersa Versoza Carvalhal é psicóloga, Mestre em Análise do Comportamento pela UEL e com MBA em Gestão de Pessoas. Diretora de Desenvolvimento Organizacional do Grupo CDI e Professora de Ensino Superior nos cursos de Psicologia e Gestão de Recursos Humanos. Ciliane Carla Sella de Almeida é advogada, formada pela UEL, especializada em Direito Empresarial pela OAB/Inbrape (Londrina) e Mestranda em Engenharia do Desenvolvimento Local pela Universidade Católica de Lyon (França). Sócia fundadora da Priori Consultoria. Cleufe de Almeida é administradora, especialista em Administração de Marketing e Propaganda, empresária, atua na Seressencial soluções empresariais, instrutora e consultora em planejamento, gestão de pessoas e empreendedorismo.

4 Gabriela Guimarães é Diretora Executiva, Coach e Instrutora de Workshops Team Building corporativos da GROOW Coaching & D.H. Expert em processos de Coaching para Desenvolvimento de Liderança, Planejamento de Carreira, transferências e sucessão de cargos. Karen Kohlmann Barbosa é graduada em Relações Públicas pela Universidade Estadual de Londrina e pós-graduanda em Gestão e Planejamento de Projetos Sociais. Atua como articuladora de redes no Junt.us Espaço Colaborativo. Luciana Yuri Shirado é graduada em Secretariado Executivo Bilíngue (Unifil), Pós Graduada em Gestão Financeira, Controladoria e Auditoria (ISAE/FGV) e em Marketing, Comunicação e Vendas (Unopar). Atua com Consultoria e Gestão de Projetos de Inovação e PD&I. Luzimar dos Santos Ribeiro Mazetto é formada em Letras pela UEL e possui especialização em Psicopedagogia (UNIFIL), Psicologia da Educação (UEL) e Educação Especial (UNOPAR). Atua há 17 anos na Rede Municipal de Educação de Londrina e atualmente no projeto Pedagogia Empreendedora e Escola de Pais. Maíra Bendlin Calzavara é advogada, formada pela UEL, pósgraduada em Filosofia Política e Jurídica pela mesma Universidade e possui LLM em Direito Empresarial pela Fundação Getúlio Vargas. Sócia fundadora da Priori Consultoria.

5 Paulo Briguet é jornalista e escritor. Formado pela UEL, atuou na imprensa da cidade e tem três livros de crônicas publicados. É assessor de comunicação da ACIL e colunista do Jornal de Londrina e da Gazeta do Povo. Paulo Varela Sendin é Engenheiro Agrônomo graduado pela ESALQ / USP, possui especialização em Economia Rural e Planejamento Estratégico. É Consultor em Gestão da Inovação Tecnológica e em Agronegócio. Atuando na Adetec e na Priori Consultoria. Rafaela Vieira Marinho é especialista em Gestão e Estratégia Empresarial e Gestão de Pessoas pela Unifil. Graduada em Serviço Social pela UEL. Atua como Analista de Responsabilidade Social do Instituto GRPCOM, responsável pela coordenação regional de projetos de Responsabilidade Social. Rodrigo Martins é consultor empresarial na área de Desenvolvimento Organizacional e Gestão Comercial. Professor convidado dos cursos de pós graduação do ISAE/FGV, PUC-PR e UNOPAR. Formado em Administração de Empresas e especialista em Marketing e Propaganda (UEL). Proprietário da CLEARX CONSULTORIA EMPRESARIAL. Rosi Sabino é Mestre em Administração. Certificada na metodologia de Investigação Apreciativa pela Case Western Reserve University. Membro da Sociedade Brasileira de Coaching. É sócia-diretora da Link Ideia Desenvolvimento Organizacional.

6 Sandra Capelo é formada em comunicação social - jornalismo, gestora de negócios da Associação Evangélica Beneficente de Londrina (AEBEL). Tatiana Bittencourt é especialista em Marketing pela ESPM/SP e graduada em Relações Públicas pela UEL. Participou do curso Usina de Ideias da Artemísia/SP. Atualmente é pós-graduanda em Comunicação Popular e Comunitária pela UEL e coordena o projeto #Partiuvoar, com foco no empreendedorismo jovem na periferia. Thaís Bruschi é Diretora Executiva, Coach e Instrutora de Treinamentos Workshops Corporativos da GROOW Coaching & D.H. Expert em processos de Orientação e Planejamento de Carreira, Coaching para Desenvolvimento de Liderança e Programas de Team Building. Tiago Garcia é formado Relações Públicas (UEL), especialista em Economia do Meio Ambiente (UEL) e possui MBA Internacional em Gerenciamento de Projetos (FGV). Possui formação pela Global Reporting Initiative, pela Rede Brasileira do Pacto Global das Nações Unidas para o desenvolvimento de Comunicações de Progresso do Pacto Global e participou do Project Management na George Washington University.

7 Copyright 2014 Maria Rosilene Sabino Copyright 2014 Maíra Bendlin Calzavara Copyright 2014 Ciliane Carla Sella De Almeida 1 a Edição Londrina 2014 Projeto Gráfico, Capa e Diagramação : Magz Comunicação Revisão: Paulo Briguet Patrocínio / Apoio

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9 Sumário PREFÁCIO INTRODUÇÃO Acil: o Nós vem antes do Eu A importância do Terceiro Setor na dinâmica do desenvolvimento local Entendendo melhor os Negócios Sociais Instituto GRPCOM: um caso de estratégia empresarial para a sustentabilidade Inovação social: instrumento de desenvolvimento e transformação social O empreendedorismo social e sua contribuição para formação da cidadania: estudo de caso da Associação Solidariedade Sempre Maratona de Empreendedores: Inovação e Desenvolvimento Social em Londrina A abordagem apreciativa na construção de uma visão de excelência para a educação Pedagogia Empreendedora e suas implicações na rede municipal de Londrina AINTEC e o empreendedorismo na escola Programa Empresário Sombra: um modelo educativo para a formação cidadã

10 Entre ações e mediações: A Pedagogia Murialdo na formação de sujeitos para a sustentabilidade O direcionamento profissional como agente transformador A Pedagogia do Afeto como instrumento para sustentabilidade social Centro de Apoio e Esperança: Transformando vidas Resíduo Eletrônico: O lixo que pode levar informação e conhecimento POSFÁCIO

11 PREFÁCIO Cidadania Empreendedora em Londrina Ozires Silva Em pouco mais de 2 anos de atividade o capítulo Londrina da Cátedra Ozires Silva lança seu segundo livro, demonstrando o alto nível de compromisso com o Empreendedorismo, a Inovação e a Sustentabilidade que são características da comunidade londrinense. Neste ano de 2014 a Cátedra em Londrina se preocupou em oferecer um presente de aniversário à cidade, comemorando os 80 anos de existência com o resgate de alguns dos inúmeros exemplos de ações em prol do desenvolvimento social ocorridas nessas 8 décadas. A construção de uma forte cultura local de empreendedorismo e cooperação se inicia logo na chegada dos primeiros pioneiros da ocupação transformadora do território. Nos idos de 1934 a presença do Estado na região era praticamente nula, condição esta que passa a despertar, em todos, um sentido de cidadania voltado para a solução dos problemas locais e não para uma total dependência de ações governamentais tão usual no imaginário brasileiro. Essa junção de empreendedorismo e cooperação promoveu ao longo dos 80 anos de existência de Londrina um enorme elenco de casos de Empreendedorismo Social permitindo aos organizadores deste livro selecionar com facilidade esta amostra de 16 exemplos de compromisso desinteressado com o progresso social e econômico da cidade. Aliás, podemos dizer que, de fato, são 17 exemplos, pois a própria construção do livro pode também ser considerada um empreendimento social, onde 18 autores colaboraram desinteressadamente para que o objetivo de presentar Londrina em seu aniversário fosse alcançado. E, além desses autores, envolvidos diretamente na elaboração dos textos, outros londrinenses ofereceram também seu trabalho na edição e preparo gráfico da publicação. Empreendedorismo Social 11

12 Reafirma-se, portanto, que a criação do Capítulo Londrina da Cátedra Ozires Silva, vem sendo um empreendimento de sucesso. Os dois livros lançados pelo grupo de participantes locais, um voltado para o Desenvolvimento Econômico e a Inovação, e este para o Empreendedorismo Social e a Construção da Cidadania, comprovam que a cultura local de cooperação desinteressada, com foco no bem estar da comunidade, produz bons frutos e é sustentável, já que vem, consistentemente, se fazendo presente ao longo desses 80 anos. Por outro lado, o sucesso do grupo ao produzir esses dois livros nesse curto espaço de tempo tem, em si mesmo, a semente de um grande desafio: como superar as dificuldades inerentes a um trabalho voluntário e conseguir, no próximo ano, alcançar resultados tão relevantes como os obtidos nestes dois anos iniciais? Esse, no entanto e como a história de Londrina mostra, tem sido o desafio permanente da comunidade londrinense nestes últimos 80 anos: a superação dos desafios com base na cooperação de todos e a constante busca de um horizonte cada vez melhor para a cidade. Isso nos dá a certeza de que, em dezembro do próximo ano, estaremos comemorando não só mais um aniversário de Londrina, mas também, o anúncio de um novo conjunto de ações do Capítulo Londrina da Cátedra Ozires Silva.

13 INTRODUÇÃO Cátedra Ozires Silva Paulo Varela Sendin Pelo segundo ano consecutivo o capítulo londrinense da Cátedra Ozires Silva vem a público com uma publicação focada em seus objetivos institucionais de promoção do empreendedorismo e inovação sustentáveis. No ano passado o foco foi o empreendedorismo em seu viés de inovação tecnológica. Neste ano, mantendo-se no tema do Empreendedorismo, a opção foi pelo desenvolvimento social e a construção da cidadania. A pertinência do tema, em termos dos objetivos da Cátedra, é indiscutível. Neste ano, no entanto, Empreendedorismo e Cidadania têm um significado especial para Londrina: ao completar 80 anos, a cidade tem o dever de recuperar e o direito de comemorar essas oito décadas de ações empreendedoras e de compromissos de cidadania. Londrina tem todo um passado empreendedor por ter nascido de um grande empreendimento e atraído pessoas comprometidas com atividades igualmente empreendedoras. E seu impressionante crescimento foi essencialmente baseado nessa vocação. Ao lado da vocação empreendedora, a comunidade local tem também uma história de compromisso com o desenvolvimento local baseado na mobilização cidadã. Até pelo isolamento inicial da cidade, com ínfimos suportes governamentais, a superação dos desafios e dificuldades sempre se baseou na organização local e na criação do chamado capital social. Esse conceito de capital Social é muito importante para o entendimento dos processos de desenvolvimento. Historicamente as análises do processo de desenvolvimento econômico (ou, mais adequadamente, de crescimento econômico...) se baseavam nas chamadas vantagens comparativas de cada Empreendedorismo Social 13

14 local. Assim, se existisse uma boa disponibilidade de fatores físicos como terras, minérios, localização geográfica, etc. determinada região estaria predestinada ao desenvolvimento. Atualmente, no entanto, sabe-se que o homem é capaz de superar eventuais deficiências das vantagens comparativas (e, às vezes, desperdiçar possíveis boas disponibilidade delas...), construindo vantagens competitivas a partir da aplicação de conhecimento e organização. Uma das vantagens competitivas mais importantes é justamente a construção de capital social, ou seja, a construção da articulação entre pessoas e entidades de forma a definir objetivos comuns e organizar os esforços necessários à consecução desses objetivos. Essa integração entre as pessoas, construindo entidades fortes, e a interação entre essas entidades, buscando a solução dos problemas que se apresentavam, permitiu que Londrina se tornasse um exemplo de dinamismo econômico e social. Este livro se propõe a resgatar, minimamente, algumas dessas histórias de construção de entidades preocupadas com o desenvolvimento da comunidade local, superando a tendência natural de se voltar apenas para seus próprios interesses. Assim, ao completar seus 80 anos de existência, Londrina pode olhar para seus exemplos históricos de empreendedorismo social e construção de cidadania e espelhar-se neles para definir uma nova visão de futuro, buscando na ampliação de seu capital social a alavanca para a construção de um ambiente de alta qualidade de vida para todos os londrinenses. 14 Empreendedorismo Social

15 Acil: o Nós vem antes do Eu Paulo Briguet Resumo: Ao longo dos últimos 77 anos, o associativismo contribuiu de maneira decisiva para o desenvolvimento social, econômico, cultural e ambiental de Londrina. O trabalho da ACIL assegura a continuidade e o aprimoramento do processo civilizatório iniciado pela Companhia de Terras Norte do Paraná. Empreendedorismo Social 15

16 1. A COMPANHIA Londrina! Cidade de braços abertos A todos os filhos do nosso Brasil E a todos aqueles de pátrias distantes Que aqui, confiantes, sob um pálio anil Seu lar construíram e aos filhos se uniram E aos filhos se uniram do nosso Brasil. (Hino de Londrina) Toda sociedade tem o seu mito fundador. No caso de Londrina, o mito encontra-se diretamente relacionado à verdade histórica. Foi algo que de fato aconteceu na tarde de 21 de agosto de 1929, quando o engenheiro agrimensor russo Alexander Razgulaeff fincou o primeiro marco de colonização no Patrimônio Três Bocas, depois rebatizado Patrimônio Londrina. Hoje o local é conhecido como Marco Zero. Chegamos, disse Razgulaeff. Chegamos aonde?, perguntou o chefe da expedição, George Craig Smith, que tinha apenas 20 anos de idade. Ao início das terras da Companhia, respondeu o russo, com seu forte sotaque. Vários elementos da futura Londrina podem ser identificados naquele momento histórico. A Companhia referida por Razgulaeff era uma empresa de capital britânico, a Companhia de Terras Norte do Paraná, que planejaria e executaria a colonização urbana e rural de toda a região. Domingos Pellegrini autor do romance Terra-Vermelha, épico da colonização de Londrina afirma que a Companhia de Terras realizou no norte paranaense a maior reforma agrária promovida pela iniciativa privada em todo o planeta. Londrina nasceu como empresa. A palavra companhia tem origem nos termos latinos com (união) e panis (pão). Ou seja: uma companhia é formada entre homens que confiam uns nos outros a ponto de dividir o mesmo pão. Esse espírito de companheirismo nortearia os primeiros anos da colonização de Londrina cidade que surgiu no meio da floresta. Sem diminuir a importância dos desbravadores da região fazendeiros e caboclos que se aventuraram nas profundezas do sertão paranaense, não há como negar que a história 16 Empreendedorismo Social

17 de Londrina começava com aquela palavra de Razgulaeff, um veterano da Primeira Guerra, exilado pelos comunistas russos. Chegamos. Outro indício do que viria a ser Londrina está na variedade étnica daquele grupo de pioneiros. Havia homens com origem britânica (George Craig Smith), russa (Razgulaeff), alemã (Erwin Fröhlich), italiana (Spartaco Bambi), portuguesa (Alberto Loureiro) e brasileira (Geraldo Pereira Maia e Joaquim Benedito Barbosa), sem esquecer os demais integrantes da expedição cujos nomes infelizmente a história não guardou. Era a semente de Londrina e o futuro começaria a germinar numa velocidade assustadora. Em 1938, menos de dez anos depois da caravana, já havia uma pequena Torre de Babel naquela cidadezinha da boca do Sertão, com a presença de brasileiros (na maioria vindos de São Paulo e Minas Gerais), 611 italianos, 533 japoneses, 510 alemães, 303 espanhóis, 218 portugueses, 193 poloneses, 172 ucranianos, 138 húngaros, 51 checoslovacos, 44 russos, 34 suíços, 29 austríacos, 21 lituanos, 15 iugoslavos, 12 romenos, 7 ingleses, 5 sírios, 5 argentinos, 3 dinamarqueses, 2 australianos, 2 norte-americanos, 2 suecos, 2 franceses, 2 búlgaros, 2 belgas, 2 liechteinsteinianos, 2 letões, 1 norueguês, 1 indiano e 1 estoniano. Depois viriam outros, como os libaneses e os nordestinos, formando uma cidade reconhecida por sua diversidade cultural. 2. A ASSOCIAÇÃO Toda a vida (ainda das coisas que não têm vida) não é mais que uma união. Uma união de pedras é edifício: uma união de tábuas é navio: uma união de homens é exército. E sem essa união, tudo perde o nome e mais o ser. O edifício sem união é ruína: o navio sem união é naufrágio: o exército sem união é despojo. Até o homem (cuja vida consiste na união de alma e corpo) com união é homem, sem união é cadáver. (...) Ó Deus! Ó homens! Que só a vossa união vos há-de conservar e só a vossa desunião vos há-de perder! (Padre Antônio Vieira, 1662) O processo civilizatório iniciado pela Companhia de Terras ganharia um impulso fundamental em Dois anos e meio depois da emancipação de Empreendedorismo Social 17

18 Londrina como município, um libanês chamado David Dequêch, dono de um armazém, decidiu criar aquilo que poderia parecer loucura aos desavisados. Reuniu um grupo de 19 cidadãos locais os 19 companheiros, como ele definiu e criou a Associação Comercial de Londrina, hoje conhecida como ACIL. A primeira reunião aconteceu no Líder Clube, na noite de 5 de junho de Com a ACIL, a cidade que nasceu como empresa ganhou uma associação de classe que, dali em diante, iria participar de todos os momentos importantes da história da cidade. A galeria de presidentes da ACIL reflete a diversidade étnica que marcou Londrina desde o princípio: como na caravana pioneira e na bandeira do município, há ali representantes de todos os continentes. O surgimento da Associação Comercial estava perfeitamente alinhado com o espírito do pioneirismo. Desde aquela noite histórica no Líder Clube, homens de diferentes origens culturais se uniram confiantes como diz a letra do hino da cidade em nome do desenvolvimento mútuo. De lá para cá, a ACIL colocaria em prática os princípios basilares do associativismo: 1) livre adesão; 2) gestão democrática; 3) participação econômica dos sócios; 4) aperfeiçoamento contínuo e valorização da educação; 5) interação entre os associados; e 6) cooperação com a comunidade. Ao longo da história das civilizações, percebe-se que existe uma íntima relação entre liberdade e associativismo. O desenvolvimento só é possível quando as pessoas são livres para empreender, produzindo valores e edificando a comunidade. Uma associação cumprirá seu papel institucional na medida em que tiver liberdade e independência para expressar ideias e reivindicações. Não foram poucas as vezes em que as associações de classe funcionaram como focos de resistência a governos ditatoriais, autoritários e corruptos. O primeiro teste de fogo da ACIL viria apenas cinco meses depois da fundação. Em 10 de novembro de 1937, o presidente Getúlio Vargas deu o golpe do Estado Novo, fechando todos os legislativos municipais. Sem vereadores, a cidade recorreu à ACIL para funcionar como poder moderador e fiscalizador da gestão pública. A história se repetiria nos anos 70, durante o regime militar, quando a ACIL atuou como centro catalisador dos movimentos políticos e culturais que lutavam pela democracia e as liberdades públicas no País. 18 Empreendedorismo Social

19 Entre os desafios da ACIL nos tempos pioneiros, estava a construção de uma ponte sobre o Rio Tibagi, para facilitar o acesso das pessoas e a circulação de mercadorias na cidade. Em pleno Estado Novo, David Dequêch e seus companheiros conseguiram trazer a Londrina o temido e irascível interventor Manoel Ribas, conhecido como Mané Facão, e convencê-lo de que era necessário construir a tal ponte do Tibagi recorrendo a uma tática inusitada. No momento em que o interventor decidiu voltar para Curitiba, os cidadãos locais formaram uma imensa fila para esperar a balsa na margem do Tibagi, fazendo com que Mané Facão sentisse na pele a importância da construção da ponte. Em pouco tempo, a obra foi iniciada e concluída. Aquele era apenas o primeiro dos muitos benefícios que a ACIL ajudaria a trazer para a cidade. Entre os principais legados da ACIL, destaca-se a criação de instituições que fazem a diferença na comunidade londrinense. No Palácio do Comércio foram assinadas as atas de fundação da Sociedade Rural do Paraná, da Santa Casa, da Associação Médica, da Universidade Estadual de Londrina, do Instituto Agronômico do Paraná, do Aeroclube, do Conselho Comunitário de Segurança, do Fórum Desenvolve Londrina e de outras entidades que hoje compõem a sociedade civil local. Todas elas foram criadas com o DNA associativista, cuja essência pode ser definida por uma simples frase: O nós vem antes do eu. 3. A UNIÃO O homem das sociedades tradicionais encontra nos mitos os exemplares de todos os seus atos. Os mitos lhe asseguram que tudo que ele faz ou pretende fazer já foi feito no princípio dos Tempos, in illo tempore. Os mitos constituem, portanto, a súmula do conhecimento útil. Uma existência individual se torna, e se conserva, uma existência plenamente humana, responsável e significativa, na medida em que ela se inspira nesse reservatório de atos já realizados e pensamentos já formulados. (Mircea Eliade) Enquanto Londrina se tornava a Capital Mundial do Café, nos anos 50 e 60, a ACIL atuou decisivamente em questões que envolviam a infraestrutura, a política tributária, o financiamento à produção, o planejamento urbano, o Empreendedorismo Social 19

20 resgate da memória e a segurança pública. Toda e qualquer questão relevante para a comunidade também é relevante para a ACIL. Afinal, as empresas só prosperam na medida em que o conjunto da sociedade ganha em qualidade de vida. Há uma relação direta entre livre iniciativa e desenvolvimento humano. Quanto mais empresas, mais prosperidade e melhores indicadores sociais. Com a geada de 1975 e o final do ciclo cafeeiro, Londrina viu-se diante do desafio de reinventar-se. Desde os anos 60, a ACIL já vinha fomentando o debate para a diversificação econômica do município. Com a criação da UEL e do Iapar, nos anos 70, a cidade passou a ser um centro de referência na educação, na pesquisa e no atendimento à saúde. O setor da construção civil teve um grande impulso nos anos 80, tornando Londrina uma das cidades mais verticalizadas do Brasil. O comércio e a prestação de serviços ganharam forte impulso e passaram a atrair visitantes de toda a região. Uma cidade com Londrina não possui apenas uma vocação. A diversidade cultural dos tempos pioneiros transforma-se necessariamente em diversidade produtiva. Em 1987, a ACIL passou a ser denominada oficialmente Associação Comercial e Industrial de Londrina. O estímulo à industrialização tem sido das principais bandeiras do associativismo local, considerando as potencialidades do segmento na produção de valor e na geração de renda. Mais recentemente, o segmento transversal da tecnologia da informação (TI) ganhou destaque nas ações da entidade. A partir dos anos 90, a qualificação dos trabalhadores e empresários tornouse prioridade na ACIL. Anualmente, a entidade sedia mais de 700 palestras, seminários e cursos em seu Centro de Capacitação. A maior parte dessas atividades é voltada para a formação de pessoas, com ênfase no aumento da competitividade empresarial. Há também programas de acesso ao crédito com juros baixos e gestão financeira para pequenos e médios empresários. Os serviços de proteção ao crédito e certificação digital atendem a milhares de pessoas todos os anos. A ACIL dispõe de uma equipe de profissionais qualificados para atendimento a um público cada vez mais exigente. 20 Empreendedorismo Social

21 Mas a principal contribuição da ACIL para o desenvolvimento de Londrina não pode ser definida por seu patrimônio material. A mais importante riqueza da entidade está nas pessoas e nos valores que elas representam: trabalho, legalidade, conhecimento, eficiência, gratidão. E tudo isso só é possível quando as pessoas se unem em torno de causas comuns. Foi assim no movimento Pé Vermelho Mãos Limpas, em 1999 e 2000, quando as entidades locais, lideradas pela ACIL, conseguiram enfrentar uma onda de corrupção que tomou de assalto a administração pública do município. Os líderes do movimento receberam o Prêmio Integridade, conferido pela Transparência Internacional, em Hoje o desafio é melhorar a eficiência da gestão pública e tornar Londrina um modelo gerencial para o Brasil. A atual diretoria da ACIL condensou essa tarefa em um lema: Pé Vermelho Mãos Unidas. Nos 80 anos de Londrina, o presente da ACIL para a cidade se chama união e inspira-se no exemplo dos pioneiros vieram de diversas partes do mundo e construíram um sonho no meio do Sertão paranaense. Iniciamos este artigo citando os primeiros versos do Hino de Londrina. A música foi composta pelo maestro Andrea Nuzzi. O empresário Francisco Pereira Almeida Jr. teve apenas oito dias para escrever a letra do hino, a pedido do prefeito Antônio Fernandes Sobrinho. Os versos traduzem perfeitamente a trajetória da cidade: Londrina! Cidade que sobe e que cresce/ Que brota e floresce,/ Que em frutos se expande!/ Que a Pátria enriquece,/ Que alta, e que grande,/ O encanto oferece de sempre menina! Como estamos comemorando o aniversário de Londrina, cidade menina, é justo encerrar este breve perfil institucional dizendo ao leitor que o autor da letra do Hino a Londrina foi um presidente da ACIL. E aos filhos se uniram do nosso Brasil. Empreendedorismo Social 21

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23 A importância do Terceiro Setor na dinâmica do desenvolvimento local Ciliane Carla Sella de Almeida 1 RESUMO: Este artigo aborda a importância do Terceiro Setor como um dos eixos do desenvolvimento local e as parcerias que podem ser celebradas com o poder público na qualidade de colaboradoras do Estado e executoras de programas e projetos de interesse público assim como as alianças com as empresas privadas (setor produtivo) que queiram desenvolver seu braço social. Palavras-chave: Desenvolvimento Local, Parcerias, Relações Intersetoriais, Terceiro Setor. 1 Advogada, Especialista em Direito Empresarial e Mestranda em Engenharia do Desenvolvimento Local. Sócia proprietária da Priori Consultoria. Empreendedorismo Social 23

24 INTRODUÇÃO A importância do Terceiro Setor na dinâmica do desenvolvimento local é o texto escolhido para inaugurar esta obra. As experiências relatadas ao longo deste livro confirmarão esta abordagem e poderão servir de inspiração às empresas privadas e aos gestores públicos para uma maior utilização de parcerias com as entidades sem fins lucrativos para execução de projetos de interesse da sociedade. Tema mundialmente debatido e amplamente documentado 2, o desenvolvimento local passa a ser um dos desafios da sociedade, conciliando o econômico, o social e o ambiental. Abordamos nestas breves páginas os requisitos necessários para um projeto de desenvolvimento local, o Terceiro Setor na atualidade e as parcerias entre público e privado para a execução de projetos, programas e atividades que têm como finalidade o bem estar das comunidades e a melhoria da qualidade de vida dos cidadãos. O DESENVOLVIMENTO LOCAL Todo projeto de desenvolvimento local tem como objetivo a melhoria de vida das comunidades através da integração entre diferentes setores da sociedade. Há consenso entre os estudiosos do tema que qualquer proposta de desenvolvimento local requer, para seu sucesso, a existência de três eixos: a comunidade local, a parceria e um clima propício à ação. A comunidade local é definida segundo os diversos interesses e em função dos serviços a serem prestados aos cidadãos. Estes podem não estar localizados em territórios definidos pelo Estado, mas sempre correspondem aos locais onde os cidadãos se encontram, onde existe sentimento de pertencimento e de identidade do local. Assim pode haver várias comunidades no interior de uma mesma cidade ou de um mesmo bairro. Nas palavras de Augusto de Franco 3, comunidades são mundos pequenos que atingiram certo grau de tramatura do seu tecido social. 2 Banco Mundial, Banco Interamericano de Desenvolvimento, Agências de Cooperação Internacional, Organização Internacional do Trabalho. 3 Franco, Augusto de. A revolução do local: globalização, glocalização, localização. Brasília: Agência de Educação para o Desenvolvimento. São Paulo: Editora de Cultura, 2003/ Empreendedorismo Social

25 A participação das comunidades nos projetos de desenvolvimento local e na sociedade é o resultado de processos de mobilização permanente e da formação dos cidadãos para que bem exerçam seu papel no interior desta sociedade. Como exemplos de mobilização local, citamos as conferências e conselhos municipais, as audiências públicas, os fóruns de discussões, as associações de bairros, as redes de participação, dentre outras. São espaços de diálogo e deliberação com alto poder de transformar opinião pública em discernimento público, desenvolver uma voz pública, lidar com conflitos, desenvolver o protagonismo público, formar relacionamentos públicos, criar condições para a ação pública. Enfim, são práticas coletivas que levam a outra forma de cidadãos se relacionarem com autoridades, conforme David Mathews 4. As parcerias e a criação de redes devem existir na perspectiva do desenvolvimento local. Apesar de os interesses divergentes, os representantes dos setores privado, público e comunitário decidem trabalhar juntos a fim de desenvolver uma participação intersetorial e de intervenções transversais. Como exemplo de redes em nível local, podemos citar a iniciativa do Fórum Desenvolve Londrina 5 que tem por objetivo aglutinar a sociedade organizada e mobilizar a comunidade para o desenvolvimento sustentável de Londrina e região, por meio de atividade permanente de prospecção de futuro e planejamento estratégico, independente de política partidária. O que se pretende no processo de reunião de atores provenientes de diferentes setores é o trabalho coletivo de grupos de interesses às vezes opostos e de líderes que são também concorrentes, mas que, elegem os interesses e demandas da sociedade como ponto de diálogo e interação. As parcerias se estabelecem entre todos os intervenientes, porém, mais particularmente entre o poder público e os parceiros sociais e econômicos. A terceira condição necessária ao sucesso das políticas de desenvolvimento local é o estabelecimento de um ambiente e de um clima propícios à colaboração e a ação comunitária. 4 MATHEWS, David. Fortalecendo a atuação democrática de comunidades. Curitiba:Inesco:Complexo Pequeno Príncipe.AEW-PR, Ver Empreendedorismo Social 25

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