TV RIVIERA E COBERTURA POLICIAL: O caso Hipólito na perspectiva da análise do discurso

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1 TV RIVIERA E COBERTURA POLICIAL: O caso Hipólito na perspectiva da Jéssica Bazzo 1 Wenya Alves Alecrim 2 Resumo Este artigo concentra-se na de sete videorreportagens exibidas pela TV Riviera, afiliada Rede Globo em Rio Verde Goiás, acerca da morte de um policial militar. Durante uma troca de tiros o PM Hipólito da Costa faleceu em serviço, o que motivou uma cobertura por vezes, emotiva e sensacionalista. Por meio do referencial teórico da apoiada em Mikhail Bakhtin, Dominique Maingueneau e Beth Brait, buscamos entender o contexto no qual foram escritos os textos e ainda que significados e representações produziram. Palavras Chave: TV, discurso e jornalismo policial 1. Introdução Às vezes é comum em rodas de conversa ouvir a seguinte constatação: A violência tem aumentado! Viu como só mostra isso na TV! Mas a pergunta que faz neste momento é: a violência aumentou ou ela ganhou visibilidade midiática com o advento da tecnologia e modernas ferramentas de comunicação? Na certeza de que estes questionamentos merecem muito mais atenção do que a que será atribuída aqui, por questão de espaço mesmo, nos ateremos em dizer que até mesmo veículos mais tradicionais de comunicação, que por vários motivos, resistiam em divulgar crimes, quebraram a barreira e ampliaram o espaço destinado ao noticiário policial em busca principalmente de telespectadores (FUCCIA, 2008). Alguns casos são tão bárbaros que viram temas de debates. Quem não se lembra do caso Eloá Cristina? A jovem de 15 anos que passou 100 horas em cárcere privado, sob o domínio do ex-namorado Lindemberg Fernandes Alves. Muitas pessoas em casa acompanhavam tudo pela TV. O desfecho trágico, com a morte da menina, ainda hoje traz muita discussão. Eduardo Fuccia (2008, p. 18) pondera que o jornalismo policial, trabalha com temas humanos, que chocam, comovem, revoltam e despertam 1 Acadêmica do oitavo período de Jornalismo. 2 Mestre em Jornalismo. 24

2 sentimentos, não só para quem narra (o repórter), mas também em quem apenas toma conhecimento (o público). É neste sentido que propomos neste artigo fazer a de 07 reportagens exibidas pela TV Riviera (localizada em Rio Verde, no sudoeste de Goiás) entre os dias 16 e 25/11/2011, acerca da morte de cabo Hipólito Rezende da Costa, integrante da Polícia Militar de Rio Verde, morto após uma troca de tiros com assaltantes. Além destas matérias, ainda foram exibidas pela TV mais 02 entrevistas, feitas com comandantes da PM sobre o assunto, porém elas não integram este corpus, porque fogem do gênero reportagem. 2. Comunicação, jornalismo e televisão Antes de falar das características do jornalismo, propriamente dito, é preciso voltar um pouco mais e visualizar o campo da comunicação. No mundo atual, segundo MORAES (2009, p. 246), existem dois poderes principais sendo o primeiro o econômico e financeiro e o segundo o midiático. Neste sentido, o poder midiático é o aparato ideológico da comunicação. O que a imprensa diz a televisão repete, a rádio repete, e não apenas nos noticiários, mas também nas ficções, na apresentação de um tipo de modelo de vida que se deve apresentar. (MORAES, 2009, p. 246). Ainda segundo o autor (2009, p. 247), a informação se tornou hoje uma mercadoria compra-se e vende-se informação com o objetivo de obter lucro. Passamos do mundo do jornalismo para o mundo do imediatismo, a informação é feita cada vez mais de impressões e de sensações. Dentro dessa abordagem acreditamos que cada meio de comunicação desempenha uma função e exerce em maior ou menor escala, influencia sobre seus leitores/espectadores. O jornal fornece informação e prestígio social. O rádio mostrou-se como companhia. Semelhante à imagem cinematográfica, que é constituída por um roteiro pré-definido, a imagem televisiva trabalha em ritmo muito rápido com as reações neurofisiológicas dos espectadores, processando quase que musicalmente os afetos de uma comunidade de recepção, regulando as medidas à sensibilidade, falando a princípio ao corpo e não à mente e provocando sentimentos nos expectadores (SODRÉ, 2006). O espaço de emissão delimita, pois, uma nova região, dotada de características sociais, geográficas e culturais próprias. O interruptor do aparelho de TV faz nascer uma ordem sintética: o mundo da 25

3 língua tevê, a comunidade tevê. A televisão cria, assim, um espaço social que é, entretanto, de uma outra ordem que a simples melhoria da vida familiar ou da comunidade. Não há aí, antes de qualquer coisa, uma influencia sobre a realidade, mas ao contrário a constituição de uma realidade. (SODRÉ, 2006, pg.98). A comunicação não envolve apenas a fala, mas a forma que se fala, a maneira que se veste, os olhares, a postura. Ainda inserida dentro da comunicação temos a linguagem. Ela serve como instrumento integrador dentro de um mesmo grupo social que manipula e pode servir como diferenciador de grupos. As formas de manipulação indicam que existem dois tipos de realidades: a realidade objetiva e a realidade construída pelo discurso da comunicação. A comunicação supostamente mais objetiva, como a notícia jornalística, não é mais que a reconstrução da realidade pelo repórter. Os eventos, com efeito, são percebidos pelo repórter que, além de selecionar apenas os aspectos que lhe parecem relevantes, deixando de fora outros, ainda projeta seus próprios significados conotativos sobre o evento. Ao escrever, a estrutura do discurso isto é, a sequência dos fatos reportados (BORDENAVE, 1982, p. 89). Os meios que utilizam signos visuais e auditivos, tais como o cinema e a televisão, possuem ainda maior possibilidade de reconstrução da realidade. Os quais podem criar atmosferas de romance, terror, comicidade, que predispõem os espectadores a perceber a realidade da maneira requerida pelo diretor (BORDENAVE, 1982). No jornalismo, o simples fato de obter a verdade não é suficiente para comunicar bem, pode-se ter a verdade, mas se não encontrar a forma certa de comunicar, o fato de tê-la não fará diferença. 3. Análise do discurso: enunciado e enunciação O presente artigo está apoiado na análise de discurso de linha francesa (daqui em diante denominada AD). Um dos precursores desta teoria foi o filósofo russo Mikhail Bakhtin. Ainda com relação à AD, nos apoiamos nos conceitos de Dominique Maingueneau, Beth Brait e Maria Aparecida Baccega. O que se pretende aqui é apenas salientar alguns dos conceitos que serão utilizados para análise dos textos selecionados. No decorrer da vida somos influenciados pelas pessoas que convivemos, pelo que vemos e aprendemos, a bagagem cultural aumenta e ganha novas características com o passar dos anos. Fiorin (2008, p.19) afirma 26

4 que para um enunciador construir um discurso, ele leva sempre em contra o discurso de outrem. Por isso todo discurso é inevitavelmente ocupado, atravessado, pelo discurso alheio. Nesse âmbito, Brait (2010) faz uma análise dos termos: enunciado e enunciação difundidos, principalmente, por Mikhail Bakhtin. O enunciado é definido como uma unidade da comunicação e significação, necessariamente contextualizado. Uma mesma frase tem número infinito de enunciados, os quais são únicos dentro de contextos e situações específicas, a enunciação por sua vez é o fato que constitui a produção de um enunciado, um acontecimento feito pela aparição do enunciado. O enunciado é tido como um produto de um processo, isto é, a enunciação é o processo que produz e nela deixa marcas da subjetividade, da intersubjetividade, da alteridade que caracterizam a linguagem em uso, o que o diferencia de enunciado para ser entendido como discurso (BRAIT, 2010, p. 65). Para Mikhail Bakhtin (2009, p. 159), aquilo que falamos é apenas o conteúdo de um discurso. Para penetrar completamente este conteúdo é indispensável integrá-lo ao enunciado. A língua está atrelada a relações sociais estáveis dos falantes. Outra característica da AD está no interesse em desvelar o que há por trás da veiculação de um discurso. Neste caso, o que há por trás do discurso jornalístico, do que aparentemente é apenas a transmissão da informação. Conforme ainda relata Fiorin (2008) todo discurso que fale de qualquer objeto não está voltado para a realidade em si, mas para os discursos que a circundam e toda palavra dialoga com outras palavras, constitui-se a partir de outras palavras, rodeada por outras palavras (2008, p.19). Todo enunciado possui no mínimo duas vozes, que mesmo não manifestadas estão presentes, a do enunciador, propriamente dito, e a de oposição, que no final só fazem sentido tendo em vista a sociedade em que se vive (o contexto). Para Maria Aparecida Baccega (2007, p.26), os discursos da história, literatura e comunicação dão sentido próprio às palavras. Estes sentidos são apreendidos quando se leva em conta as condições de produção, pois a enunciação é portadora de diferenças ideológicas. Os discursos relacionam-se com as posições que seus agentes assumem no campo das lutas sociais e 27

5 ideológicas. No caso de alguns textos jornalísticos, não só as seleções, como também os pontos de vistas são mais implícitos. Baccega explica desta forma: 4. TV Riviera No discurso da comunicação, como no discurso histórico, a objetividade se apresenta, em geral, textualmente como ausência de sujeito, ou seja, o fato que assume contar-se como se não houvesse intermediação do sujeito da linguagem (BACCEGA, 2007, p.31). A TV Riviera, canal 12 com sede em Rio Verde, Goiás, começou a operar em março de Juntamente com mais seis emissoras, a TV faz parte da Organização Jaime Câmara, que compõe a rede Anhanguera de TV, fundada em 1963, afiliada da Rede Globo. Atualmente a TV Riviera cobre 3 20 municípios que juntos somam cerca de 385 mil telespectadores em potenciais. Apesar de transmitir seus programas para 20 cidades do sudoeste, observamos que a cobertura jornalística da TV Riviera é feita, principalmente, voltada para Rio Verde. Em casos especiais as esquipes são deslocadas para outras cidades. O forte apelo à regionalização está relacionado também a tendência que a televisão brasileira tem passado nos últimos 10 anos. Ou seja, as emissoras compreenderam que a programação local atrai telespectadores para frente da TV. As sete praças da rede Anhanguera possuem espaço dentro da programação jornalística do grupo. Rio Verde, por exemplo, conta em média com 21 minutos de programa dentro dos telejornais Anhanguera 1ª Edição (JAI) e Jornal Anhanguera 2ª edição (JAII). O JAI local possui dois blocos com duração em média de oito minutos cada um e vai ao ar ás 12h. É um jornal mais leve, com matérias de caráter comunitário como reclamação dos moradores. Além disso, ainda contempla reportagens de comportamento e culinária. Já o JAII, que vai ao ar entre 19h e 19h15, dura em média cinco minutos. Além de apresentar um resumo dos principais fatos do dia é considerado um jornal importante para a emissora, pois é nesse momento que a audiência é maior. De acordo com a tabela divulgada pela TV neste horário, 3 In: Kit de audiência TV Riviera. Material fornecido pela emissora a agencias de propagandas que comercializam as mídias do canal. Dados baseados na pesquisa IBOPE de maio de Acesso em: 22/05/

6 46% dos domicílios que possuem cobertura da praça, estão ligados no canal. Após as inserções locais, os telespectadores de todo o Estado passam a assistir a programação da capital. Em breve o JAI contará com quatro blocos locais, somando cerca de 40 minutos de jornal. A análise dos 07 vídeos selecionados nos permitiu separar as reportagens em três eixos temáticos: Emoção; Super-herói e Sensacionalismo. Nº Retranca Repórter Tempo 1 Morte cabo Hipólito Bruno Lésche 1:57 2 Captura/cabo Hipólito Victor Andrade 1:18 3 Velório noite/ cabo Victor Andrade 1:59 Hipólito 4 Velório dia /cabo Hipólito Giovana Dourado 1:48 5 Cortejo /Enterro Ludmila 2:00 Rodrigues 6 Prisão/ assaltante Ludmila 2:11 Rodrigues 7 Missa/ Sétimo dia Bruno Lésche 1: Emoção Despertar as sensações no leitor/telespectador é algo comum no campo do jornalismo. Muniz Sodré afirma que persuadir, emocionar, abrir os canais lacrimais do interlocutor por meio do apelo desabrido à banalidade são recursos produzidos pela mídia. De acordo com o estudioso, a mídia não os define como instrumento de registro de uma realidade, e sim como um dispositivo de produção de um certo tipo de realidade, espetacularizada, produzida para excitação e gozo dos sentidos (SODRÉ, 2006, p.79). É sobre esta produção exagerada de sentidos que este item trata. O vídeo nº 01 fala da perseguição entre bandidos e policiais, com imagens da cena do crime. A reportagem exibe muitas pessoas em uma esquina observando a movimentação. Ali estavam crianças de bicicleta e várias mulheres. Há crianças próximas ao local cercado por uma fita zebrada. Algumas pessoas parecem não ter respeitado a delimitação e estão dentro da área cercada. Isso nos permite pensar que a intenção era ou de participar do fato ou de suprir a curiosidade, como se dentro da parte delimitada pudessem ter acesso a informações privilegiadas. 29

7 BAZZO, J. ALECRIM, W. A. TV RIVIERA E COBERTURA POLICIAL: O caso Hipólito na perspectiva da Imagem: 01: Vídeo 01: TV Riviera novembro/2011 A voz do repórter é incisiva, e ganha mais dramaticidade na sonora4 de um popular que fala do medo vivido durante o tiroteio: Sonora: Homem: [Sic] Menininha tava na garupa da minha moto, eu levando ela pra escola né, ai eu fiquei muito apurado, nessa hora aí eu não vi, só escutei o tiro e eu encostei a moto de uma vez, e ai já desceram cê entendeu? Revalidando um com o outro. (TV Riviera, novembro de 20011). O semblante do homem demonstra medo. O jeito em que fala leva o telespectador a se ver na cena do crime. A sonora do popular neste momento ganhou destaque, pois deu mais detalhes da perseguição. Segundo Carlos Manuel Chaparro (2009), estas fontes, conhecidas como informais, que não tem identidade nem atuação institucional, aparecem na narração jornalística como testemunhas dos fatos para humanizar a história. E é nesta hora que o público é convidado a ter a mesma percepção dos enunciadores. Veja este outro trecho: OFF repórter: Bruno Lésche: O Cabo Luiz Hipólito Rezende levou um tiro no rosto e no tórax e foi levado para o Hospital Evangélico de Rio Verde, mas não resistiu. Vários PMs se solidarizaram à família que se dividia entre a dor e a decepção. (TV Riviera, novembro de 2011, grifo nosso). O enunciador pretendeu aqui, não só informar, mas também modificar, provocar o pensamento do outro, neste caso o telespectador. As palavras escolhidas por ele funcionam como um recorte de sua formação ideológica e 4 Termo usado para designar parte de uma entrevista. PATERNOSTRO, Vera Iris. O texto na TV: manual de telejornalismo. Rio de Janeiro: Campus,

8 fizeram avançar o domínio de seu discurso. As palavras solidarizaram, dor e decepção, juntas neste contexto sugeriram ao telespectador o sentimento de aflição e tristeza. O sob som 5 da viúva do policial completou a sequencia emotiva que aos gritos pedia justiça: Sonora: viúva: Arrisca a vida, por causa de bandido, essas lei tem que ser mudada, os bandidos tem vez e os militares corre risco de vida (TV Riviera, novembro de 2011). A análise de texto e imagens nos permite acreditar que a TV usou artifícios para emocionar o telespectador. As informações encadeadas desta forma o levaram, de maneira geral, a ter a seguinte conclusão após assistir o vídeo: Puxa que pena, tanto tempo a serviço da comunidade, morrer assim e ainda deixar três filhos?. Implicitamente a sensação era de que a justiça deveria ser feita. No vídeo nº 03 também é possível ver um forte apelo à emoção, a narrativa do enunciador beira um tom de revolta, são mostradas coroas de flores e a movimentação no local do velório durante a noite. Os depoimentos dos entrevistados representam de forma individual os locais que o Cabo frequentava. No off, o repórter repassa características da personalidade do policial morto em serviço: No ambiente de trabalho seriedade e espírito de liderança, sem a farda uma pessoa considerada tranquila e carismática. Na sequência, o enunciador fala dos anos de profissão do Cabo e cita o próximo entrevistado, o soldado Kléber Neres: com quem ele (Hipólito) trabalhou nos últimos seis meses e que presenciou bem de perto esse último momento de garra e muito sofrimento. O policial fala por 37 segundos e visivelmente comovido descreve os últimos instantes de vida do colega. Sonora: Soldado Kléber Neres: [sic] Ele efetuou vários disparos. Ele caído no chão ele ainda tava efetuando disparos e ainda gritando de dor e efetuando disparos. E dai pra frente ele foi até o hospital gritando pedindo apoio pelo rádio, no rádio ele falando que ia morrer, que precisava de apoio que não era pra deixar ele morrer, que se ele morresse que não era para abandonar a família dele. chegou na UPA conversando, daquele momento ele foi pro hospital evangélico conversando e o último suspiro de vida dele ele ainda estava 5 Sob Som: marcação técnica no script que indica ao sonoplasta o momento de colocar no ar o som da edição do VT. Momento em que o áudio ganha destaque dentro da reportagem. Ibidem p

9 conversando, ele tava no meio de uma frase e apagou falando e lutando. (TV Riviera, novembro de 2011). Para completar a carga emotiva, a matéria é finalizada com uma fala do colega de trabalho que usou um trecho de um grito de guerra da polícia para ilustrar a situação: Sonora: Soldado Kléber Neres: Prometo defender a sociedade até com a minha própria vida e a vida do cabo Hipólito se foi defendendo a sociedade. (TV Riviera, novembro de 2011). Outro vídeo, nº 05, contém trechos com carga emotiva, principalmente a partir de 1:05 minutos, pois apresenta imagens da viúva e dos filhos do policial chorando sobre o caixão. Na sequencia, a passagem da enunciadora e a sonora de um dos comandantes da PM induzem a comoção: Passagem: Ludmila Rodrigues: O sepultamento minutos depois da prisão do acusado de ter matado o policial militar. A notícia representou um alívio para a família e toda a população. (TV Riviera, novembro de 2011). Sonora: Wilmar Rubens: cmd PM: Eu creio que é um presente até divino né, no meio do cortejo algumas equipes nossas permaneciam no bairro, lá na Vila Menezes ainda, um rescaldo da equipe que ficou lá e conseguiu colocar as mãos nele. Eu vejo como um presente de Deus para nós policiais, embora não vai trazer o nosso companheiro de volta, mas pelo menos nós temos a sensação de que o dever foi comprido. (TV Riviera, novembro de 2011, grifo nosso). Boa parte da sonora do comandante foi coberta com imagens da operação de captura do assaltante. Em alguns momentos viu-se vários policias se abraçando e chorando, comemorando com êxito a prisão. E foi esta sensação, de dever cumprido, que a enunciadora deixou transparecer na reportagem. Apesar de todo aquele sofrimento, amigos e familiares, foram confortados com a prisão do assaltante. A honra da PM fora lavada. A partir destas construções compreendemos que os representantes da mídia, de certa forma selecionaram qual o impacto desejado sobre o comportamento daqueles que têm acesso às notícias. Segundo Zancheta (2004, p.102), os telejornais e por que não dizer as reportagens, são construídos seguindo de perto regras novelescas, inclusive com traços melodramáticos. O autor organizou estas características em sete categorias: narração; teatralidade; verossimilhança; suspense; emoção; oposição; individualização e a última a emoção, que aqui nos interessa. Para o autor, a emoção não estimula a reflexão e sim a sensibilidade, visa manter o 32

10 contato com o telespectador. Os efeitos sonoros, e a leitura, tensa são também ingredientes de emoção. Assim como nos vídeos anteriores a reportagem nº 07contém estes traços. Logo no início da matéria uma adolescente é consolada por outras. O texto e a sonora de um padre garantem que o policial era dedicado à família. A passagem do enunciador reforça este sentido. Passagem: repórter: Bruno Lésche: E esta entrega seria mostrada mais uma vez neste mês de dezembro, o cabo Hipólito estava organizando uma reunião de familiares e amigos para comemorar mais um ano de casado. Sonora: viúva: Tem três filhos né, fruto do nosso amor. Agora 18 de dezembro faria 18 anos de casados. (TV Riviera, outubro de 2011). Neste trecho da reportagem não foram usados efeitos sonoros para sensibilizar o telespectador, mas a missa de sétimo dia, por si só garantia isso. Acredita-se que ao fazer a cobertura da missa, a intenção do veículo foi manter público em contato com o tema. A sonora da viúva do policial conta com palavras de carga emotiva como fruto, amor e 18 anos de casados. Além disso, o semblante abatido completa a cena. Segundo Zancheta (2004, p.121), mais do que versões, as informações passam a se mostrar como versões decisivas sobre os fatos, pois os pontos e vista são definidos a partir de estruturas monopolizadas da informação. Observa-se nos fragmentos acima que as falas dos repórteres relaram muito mais do que estava explícito ao leitor/telespectador. Super-herói? Eduardo Fuccia (2008), acredita que a proximidade pelos personagens que envolvem um fato terá muito mais probabilidade de ser notícia se tiver impacto na vida de uma pessoa comum ou puder ser comentado por alguém do povo. Na análise desse corpus percebemos claramente que a morte do cabo Hipólito estava, inevitavelmente, ligada a corporação da PM. Não só familiares e amigos, mas também pessoas ligadas aos outros policiais comentavam o assunto, que ganhou mais visibilidade por meio das estratégias de enunciação da TV Riviera. O vídeo nº 05 mostra família e amigos a velarem o corpo de cabo Hipólito. Desde o início o texto é sugestivo. 33

11 BAZZO, J. ALECRIM, W. A. TV RIVIERA E COBERTURA POLICIAL: O caso Hipólito na perspectiva da OFF repórter: Ludmila Rodrigues: Faltou espaço na casa para prestar as últimas homenagens ao policial que amigos e familiares chamavam de herói. O caixão encoberto com a bandeira do estado de Goiás seguiu no caminhão do corpo de bombeiros. Carros da PM e helicóptero seguiram juntos. (TV Riviera, novembro de 2011). Ao analisarmos este trecho visualizamos aqui não só a intenção implícita de emocionar o leitor, mas também de tornar a figura do policial em um herói, que saiu de casa para defender a população e fora morto por criminosos. A enunciadora ainda tenta ser imparcial, ao dizer que era os familiares e amigos que o chamavam de herói. Mas mesmo assim, a ideia que se tem é de que o enunciador também comprou este discurso. E para um herói, honras militares com a bandeira do Estado sobre o caixão. Imagem: 02: Vídeo 05: TV Riviera novembro/2011 Logo mais adiante a repórter fala da chegada do cortejo ao cemitério. OFF repórter: Ludmila Rodrigues: Na chegada ao cemitério São Sebastião o corpo já era esperado por uma multidão que homenageou o policial com palmas. Pétalas de rosa também marcaram um dia inesquecível pela corporação. (Sob som do helicóptero sobrevoando) E com uma salva de tiros, (sobe som dos tiros) os militares se despediram do cabo Luiz Hipólito Resende. (TV Riviera, novembro de 2011, grifo nosso). Neste trecho do texto encontramos palavras que revelam mais uma vez a intenção de tornar a imagem do policial assassinado na de um herói. Na mitologia os heróis eram considerados semideuses. Alguém nascido de um ser divino e outro humano. O dicionário define herói como uma pessoa dotada de muita coragem, autora de grandes feitos. Vale lembrar que em outros vídeos (nº 03) os enunciadores fizeram questão de destacar que o cabo ainda caído 34

12 trocou tiros com os bandidos. Na chegada ao cemitério a sensação era de que ele estava sendo coroado pelos grandes feitos, como de um herói. No cemitério as honras militares (salva de tiros e marcha fúnebre) continuaram. Arbex Júnior (2001, p. 52), destaca que hoje em dia o que importa mais nos programas telejornalísticos é o impacto da imagem assim como o ritmo da transmissão. Talvez esta intenção do enunciador reforce os argumentos de Domingos Meireles (PAIXÃO, 2010, p.51), jornalista da TV Globo, também da área policial e investigativa. Para ele o jornalista deve manifestar sincera preocupação com o sofrimento do outro. Não pode se omitir ou ser indiferente às dificuldades que flagelam o semelhante. Por meio da, entende-se que o contexto vivido naqueles dias do assassinato possibilitaram essas construções de sentidos. Implicitamente a enunciadora, não julgou ser um exagero, igualar o cabo a um semideus, ou alguém de muita coragem. As fontes são instrumentos indispensáveis para um bom jornalista, e para quem cobre polícia mais ainda. São elas que possibilitam chances de furos. Mas nem por isso as fontes são infalíveis (suscetíveis de erros), comprometidas com ideias que podem atingir o que chamamos de imparcialidade. Fuccia (2008, p.25) argumenta que por isso é preciso confiar nas fontes desconfiando, ainda que possam ser consideradas fidedignas. A credibilidade delas não pode ser medida pelo cargo que ocupa [em cobertura policial, comandantes e PMs são, na maioria das vezes, as fontes oficiais que predominam nas reportagens]. É notório ressaltar também a simpatia que existe entre alguns veículos de comunicação com entidades, corporações e fontes. Entre elas estão Corpo de Bombeiros e Polícia Militar. Em Rio Verde o CB 6 é uma das instituições que contribui com o trabalho da TV Riviera. Por diversas vezes, os militares ligam para a TV e passam informações sobre acidentes e incêndios, até em primeira mão. A Polícia Militar também utiliza o canal para mostrar a sociedade o 6 Notícia publicada no inicio de 2012 pelo jornal goiano, O Popular dizia que o Corpo de Bombeiros era o órgão mais confiável perante os olhos da população de Goiânia. A pesquisa feita pelo Instituto Grupom revelou que o índice de aprovação chega a 75,4%, mais do que o dobro do segundo lugar ocupado pelos carteiros que tem 30,2% da confiança da população. In: Acesso em: 13/05/

13 trabalho feito pela corporação. Sabe-se, na verdade, que tanto as TVs, em geral, quanto as instituições mencionadas se servem desta parceria. A TV se vê com notícias que atraem telespectadores para os telejornais e as instituições ganham evidência e mostram serviço. Ainda sobre as fontes o jornalista e comentarista da área policial, Renato Lombardi (PAIXÃO, 2010), destacou que já ganhou prêmios por causa delas. Algumas cultivadas como amigos. É neste cenário que visualizamos o posicionamento da TV com a Polícia Militar de Rio Verde. A cobertura, por vezes exagerada, na verdade pode ser compreendida pela simpatia entre TV e Polícia Militar. No vídeo nº 4, também observa-se a tentativa de enlevar a figura do policial morto em serviço. Off: repórter: Giovana Dourado chamado de herói, de guerreiro, um pai de família. Esta foto foi postada pelo comando da PM de Rio Verde. Mostra o momento em que o policial falou no microfone numa reunião com toda a tropa ontem de manhã, algo que, o sempre discreto cabo Hipólito não costumava fazer. (TV Riviera, novembro de 2011, grifo nosso). Imagem: 03: Vídeo 04: TV Riviera novembro/2011 Percebe-se aqui, que a comunicação foi utilizada também para instituir status e a legitimação do prestígio (Merton-Lazarsfeld, 1957 apud Bosi, 2007), quando a repórter aparece citando o policial como herói e guerreiro. 5. Sensacionalismo 36

14 A maneira como se noticia as ocorrências policiais pode gerar sensacionalismo (PAIXÃO, 2010, p.33). Os produtos jornalísticos destinados a classes B, C e D, normalmente são condenados ao rótulo de sensacionalista. Este termo, sempre esteve enraizado na história do jornalismo. Os jornais mais populares da França que contavam histórias de catástrofes e crianças violentas, por exemplo, faziam sucesso entre o público. Foi no final século do XIX que o sensacionalismo se instalou na imprensa, por meio das melhores técnicas de impressão nos Estados Unidos. Aqui no Brasil, este jeito de fazer jornalismo, surgiu a partir de 1840, com os folhetins, (AMARAL 2006, p.19). Já na TV o boom de produtos populares ocorreu em Alguns programas são emblemáticos como Cadeia, criado em Londrina, no Paraná; Aqui Agora transmitido pelo SBT, que chegou a mostrar ao vivo um caso de suicídio e ainda os programas Brasil Urgente da Rede Bandeirantes e Cidade Alerta, da Record. Na TV Globo o destaque foi para o Linha Direta, apresentado pelo jornalista Marcelo Resende. Márcia Franz Amaral (2006), afirma que todo jornal é sensacionalista, pois busca prender o público. Em geral está ligado ao exagero; a intensificação, valorização da emoção, à exploração do extraordinário. Para o jornalista policial Gil Gomes o esforço acadêmico de ensinar ser objetivo cai por terra quando o profissional vai para o campo. Sem sentimento não pode! Não há jornalismo, na minha opinião, sem sentimento. Não adianta as faculdades de jornalismo ficarem ensinando objetividade ou imparcialidade, porque o profissional, quando for para a rua, vai aprender a usar o sentimento. [...] Mas no jornalismo popular, seja ele policial ou esportivo, se não tiver sentimento, não é jornalismo. (PAIXÃO, 2010, p.77). O vídeo nº 2 de 01:19 começa com uma movimentação no batalhão da Polícia Militar de Rio Verde. Dezenas de policiais enfileirados recebem instruções de um comandante. Alguns deles estão fortemente armados. A impressão é de que estão prontos para uma grande operação. OFF repórter: Victor Andrade: A megaoperação começou no batalhão da PM de Rio Verde. Mais de 100 policiais estavam reunidos com armamento pesado. Mas a ordem era para não usar a violência. (TV Riviera, novembro de 2011, grifo nosso). As frases grifadas chegam a ser contraditórias. Só pelo fato dos policiais estarem devidamente armados, implica pensar que poderiam a qualquer 37

15 BAZZO, J. ALECRIM, W. A. TV RIVIERA E COBERTURA POLICIAL: O caso Hipólito na perspectiva da momento utilizar estes equipamentos. É importante dizer que a corporação da PM em Rio Verde, é formada por cerca de 200 militares. Ou seja, quase 50% estavam envolvidos na busca de um assaltante. Na sequencia o enunciador diz que a operação contava com a participação do helicóptero da PM de Goiânia e mais uma vez deixou explícito que a polícia não estava medindo esforços para encontrar o assaltante. OFF repórter: Victor Andrade: Toda corporação recebeu uma foto de Roberto Leres e um mapa da cidade. Até um helicóptero da PM de Goiânia apareceu para dar apoio. (TV Riviera, novembro de 2011, grifo nosso). Ou seja, a operação foi tão minuciosa que contou até com um helicóptero da capital, localizada há 280 km de Rio Verde. O sentido denotativo da preposição até indica limite, lugar de destino ou inclusão. Mas por meio da AD que nos leva a olhar para fora do texto e considerar os traços extraverbais, a palavra até, tomou aqui outro sentido. Como se não bastasse terem montado uma megaoperação o polícia ainda solicitou um helicóptero. As próximas imagens da matéria são do bairro já cercado pelos policiais. No texto o enunciador diz que ninguém saía ou entrava sem ser revistado. Boa parte das imagens desta matéria não foram às mesmas usadas pela repórter Giovana Dourado, no vídeo nº 05. Isto nos leva a crer que em momentos diferentes da busca pelo acusado, duas equipes da TV Riviera estiveram no local indicando mais uma vez a disposição do veículo em cobrir o caso. Imagem: 04: Vídeo 02: TV Riviera novembro/2011 A passagem do repórter também é interessante. Passagem: repórter: Victor Andrade: Nesse momento a informação que chega pelo rádio da Polícia Militar é que o bandido foragido estaria mesmo neste bairro, por isso os policiais continuam as buscas 38

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