S E S S Ã OD EA B E RT U R A... 9 P rof. Doutor José Mariano Gago - Ministro da Ciência e Te c n o l o g i a

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5 Í N D I C E S E S S Ã OD EA B E RT U R A P rof. Doutor José Mariano Gago - Ministro da Ciência e Te c n o l o g i a D r. Jorge Lacão - Presidente da Comissão Parlamentar de Assuntos Constitucionais, Direitos, Liberdades e Gara n t i a s D r. João Labescat - Presidente da Comissão Nacional de Protecção de Dados P rof.ª Doutora Maria Manuel Leitão Marques - Presidente do Observatório do Comérc i o I PAINEL - COMÉRCIO E L E C T R Ó N I C O : P O N TO DA S I T UA Ç Ã O NAC I O NA L P rof.ª Doutora Maria Manuel Leitão Marques - Presidente do Observatório do Comérc i o M o d e ra d o ra C O M É R C I O E L E C T R Ó N I C O : E S T U D O DA SE M P R E S A S QU E OPERAM EM P O RT U G A L P rof. Doutor António Dias de Fi g u e i redo - Instituto Pedro Nunes, Faculdade de Ciências e Te c n o l o g i a da Universidade de Coimbra E S T U D OS O B R E A D I F U S Ã O DA SP R Á T I CA SD E C O M É R C I O ELECTRÓNICO NO M U N D O DA S FA M Í L I A S E DA SE M P R E S A S :O B S T Á C U L O S AO D E S E N VO LV I M E N TO P rof.ª Doutora Maria de Lurdes Rodrigues - Presidente do Observatório da Ciência e Te c n o l o g i a A N E X O D E BAT E I I PAINEL PRIVAC I DADE NO COMÉRCIO ELECTRÓNICO: A PROTECÇÃO DOS DADOS PESSOA I S D r. João Labescat - Presidente da CNPD M o d e ra d o r O S R I S C O S DA I N T E R N E T PA R A A P R I VAC I DADE: O CA S O P O RT U G U Ê S D r. João Paulo Simões de Almeida - Vogal da Comissão Nacional de Protecção de Dados A EXPERIÊNCIA FRANCESA DA COMISSÃO DE PROTECÇÃO DE DADOS NO DOMÍNIO DA INTERNET 6 3 Marie Georges - D i r e c t o ra do Departamento de Telecomunicações da CNIL D E BAT E

6 I I I PAINEL O COMÉRCIO E L E C T R Ó N I C O E A SP O L Í T I CA S D EP R I VAC I DA D E D ra. Catarina Sarmento e Castro - Vogal da CNPD M o d e ra d o ra O CENTRO COMERCIAL ELECTRÓNICO D r. António Costa Cardoso - A d m i n i s t rador do Shopping Direct A CULTURA E O LAZER Anabela Fernandes - F NAC D E BAT E I V PAINEL A SEGURANÇA NA S T R A N S AC Ç Õ E SE L E C T R Ó N I CA S D r. João Paulo Simões de A l m e i d a M o d e ra d o r A SC E RT I F I CA Ç Õ E S D I G I TA I S : FAC T U R A E A S S I NAT U R A D r. Miguel Pupo Correia - A dvogado e docente unive r s i t á r i o A SE X P E C TAT I VA S E O S D I R E I TO S D O S C O N S U M I D O R E S Luís Silve i ra Rodrigues - A dvogado e Consultor Ju r í d i c o da DECO - Associação Portuguesa para a Defesa do Consumidor D E BAT E E N C E R R A M E N TO D O S T R A BA L H O S D r. João Labescat - Presidente da CNPD 6

7 P R O G R A M A h Entrega da documentação h Sessão de abertura Ministro da Ciência e Tecnologia Prof. Doutor Mariano Gago Presidente da Comissão Parlamentar de A s s u n t o s Constitucionais, Direitos, Liberdades e Garantias D r. Jorge Lacão Presidente da Comissão Nacional de Protecção de Dados Dr. João Labescat Presidente do Observatório do Comércio Prof. Dout o ra Maria Manuel Leitão Marques h I Comércio electrónico: ponto da situação nacional M o d e ra d o ra: Prof. Doutora Maria Manuel Leitão Marques C o m é rcio elect r ó n i c o : estudo das empresas que operam em Po rt u ga l Prof. Doutor António Dias Figueiredo (Instituto Pedro Nunes, FCT da Unive r s i d a- de de Coimbra ). Estudo sobre a difusão das práti cas do comérc i o e l e ctrónico no mundo das famílias e das empre s a s : obstáculos ao desenvo l v i m e n t o Prof. Doutora Maria de Lurdes Rodrigues, Presidente do Observa t ó- rio da Ciência e Te c n o l o g i a h Debate h II Privacidade no comércio electrónico: a pro t e c ç ã o dos dados pessoais M o d e rador: Dr. João Labescat Os riscos da Internet para a pri va c i d a d e : o caso p o rt u g u ê s Dr. João Paulo Simões de Almeida (vogal da CNPD) A ex p e riência da comissão de protecção de dados francesa no domínio da Internet Marie Georges D i r e c t o ra do Departamento de Te l e c o m u n i c a ç õ e s, Commission Nationale de l Informatique et des Libertés (CNIL) 12.25h Debate h Interrupção dos trabalhos para almoço h III O comércio electrónico e as políticas de priva c i d a d e M o d e ra d o ra: Dra. Catarina Sarmento e Castro ( vogal da CNPD) O centro comercial elect r ó n i c o Dr. António Costa Cardoso, Shopping Direct A Cultura e o Laze r Anabela Fernandes, FNAC h Debate h IV A Segurança nas transacções electrónicas M o d e rador: Dr. João Paulo Simões de A l m e i d a As certi fi cações digita i s : f a ctura e assinatura Dr. Miguel Pupo Correia As ex p e cta ti vas e os direitos dos consumidore s Dr. Luís Silve i ra Rodrigues (DECO) 17.00h Debate 17.30h Encerramento dos tra b a l h o s 7

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9 S E S S Ã O D E A B E RT U R A P rof. Doutor José Mariano Gago Ministro da Ciência e Te c n o l o g i a A g radecendo e saudando esta iniciativa, gostaria de fazer uma brevíssima reflexão sobre a questão em discussão privacidade e comércio electrónico que não tem qualquer outra pretensão senão a de exprimir, para lá do apreço, a enorme curiosidade que tenho por este desenvo l v i m e n t o. Julgo que a questão da privacidade e, em geral, a questão dos direitos, liberdades e garantias dos cidadãos e das suas organizações, são e serão cada vez mais c o nvocados quando se fala de qualquer novo suporte técnico da informação. A Internet veio fornecer novas possibilidades e qualquer alteração neste sentido foi assim com o princípio da imprensa escrita, com a rádio, com a televisão desafia o legislador, os cidadãos e ainda os hábitos relativos aos direitos dos cidadãos e das organizações, muito especialmente quando os interesses em jogo são contraditórios. E, neste caso, eles são contra d i t ó r i o s. O desenvolvimento da Internet vem colocar, de novo e repetidamente e não nos devemos surpreender com isso a questão da conflitualidade entre os interesses particulares e os interesses gerais, os interesses do indivíduo ou de organizações e os interesses de outras organizações ou de outros indivíduos. O próprio desenvolvimento da Internet vive hoje, internacionalmente e em cada um dos nossos países, debaixo de uma tensão não resolvida e que eu espero que não se resolva entre a Internet para o comércio electrónico, de que é aliás exemplo a tentativa de fazer migrar o mais possível a Internet para a televisão digital intera c t iva, em detrimento daquilo que foi o essencial dos primeiros anos da sua existência, ou seja, o acesso à informação, o associativismo renovado à escala internacional e a comunicação em rede entre cidadãos e organizações. Julgo que esta tensão é frequente e é uma tensão que, no meu entender, se va i a g ravar nos próximos anos. E é à luz dessa tensão real, entre os que olham o utilizador da Internet essencialmente como um consumidor e aqueles que o olham como um cidadão, que nós deveremos, no meu entender, olhar para a questão da privacidade. A privacidade tem, de facto, a ver com o pólo desta equação que diz respeito ao cidadão. 9

10 Gostaria, contudo, de dizer que, no interior deste campo de tensões, t a l vez haja pólos de fra c t u ra e de aliança que importa explorar obv i a m e n t e, do ponto de vista de quem defende um reforço das sociedades democráticas com base nestes novos meios de comunicação. P r ovavelmente os aspectos de desenvolvimento da privacidade no comérc i o electrónico serão tão essenciais ao desenvolvimento do próprio comércio e das organizações do comércio como são, por exemplo, as políticas ambientais ou as relativas à segurança no trabalho, para a totalidade das organizações industriais. À primeira vista parecem ser entraves ao seu desenvolvimento. E, no entanto, hoje, são claramente vistas como criadoras de um ambiente favo r á vel ao próprio desenvolvimento das actividades industriais, no seu todo. O mesmo se passa, com certeza, em matéria de comércio se aprofundarmos as políticas de defesa da priva c i d a d e. O próprio modelo económico em que vivemos exige, para se exercer a concorrência entre organizações, que uma organização não possa ter acesso à totalidade da informação interna de outra organização. Esta privacidade, em sentido organizacional, é uma questão absolutamente fundamental quando falamos no comércio electrónico. O comércio electrónico será cada vez mais importante na relação entre empresas. E se pensarmos, por exemplo, como funcionará uma pequena ou micro-empresa durante a próxima década, não no que diz respeito a quem vende mas no que diz respeito às relações com aqueles de quem compra, isto é, com os seus fornecedores, veremos a importância deste problema. Fazer com que o comércio electrónico, na relação business to business, d e s i g- nadamente das pequenas, médias e micro-empresas com os seus fornecedores, constitua para elas um motivo de aumento de liberdade de escolha e de informação, é voz corrente. Mas, o que talvez seja menos voz corrente é a possibilidade de esses fornecedores ou alguns desses fornecedores pelo conhecimento detalhado das fraquezas e das fragilidades dessas organizações, não no que diz respeito directamente ao comércio mas no que diz respeito a outros dados a que podem ter acesso, designadamente a carteira de aquisições, o vo l u- me e especificação do crédito ou do débito viciarem as regras de concorrência e criarem, de facto, monopólios ou oligopólios nesta matéria. Esta é uma questão que une, portanto, o cidadão e a empresa. Julgo que seria a b u s ivo e muito limitativo pensar que a privacidade dos cidadãos está de um lado da barricada e que o desenvolvimento das empresas do outro. A cho que ambos empresas e cidadãos podem beneficiar com esta reflexão. 1 0

11 Há ainda uma outra questão que gostaria de sublinhar que diz respeito à relação entre dispositivos técnicos e a possibilidade técnica de compreender a p r ivacidade e a própria privacidade. Explico-me: falou o Senhor Presidente, e muito bem, na questão dos c o o k i e s e dos h i p e r l i n k s escondidos, ou seja, de o u t ras formas que existem hoje de marc a r, identificar, registar e arquivar formas de acesso à informação. Isto é, como se o simples facto de cada um de nós ir p r o c u rar uma informação pudesse, por si só, ser objecto de um registo detalhado, de saber quem foi, quando foi e que informação foi buscar. Ou seja, num primeiro passo, identifica-se e marca-se o potencial consumidor e o seu perfil tendo em vista a definição de perfis globais; num segundo passo, se tal for c o nveniente, identificam-se os perfis individualizados; e, num terceiro passo, procede-se á revenda da informação para que ela seja utilizada para os fins que outros muito bem entendam. Esta questão é absolutamente crítica e não se pode resolver apenas pela regulação jurídica. Se o legislador não tiver um perfeito conhecimento dos elementos fundamentais da cultura tecnológica dos nossos dias e sobre a qual a Internet assenta, essa será uma guerra perdida. Aquilo que faz com que acreditemos que este problema não seja hoje um problema insuperável, o que faz com que a Internet se tenha desenvolvido com esta rapidez e, em última análise, sem que nenhuma das ameaças que indiquei se tenha realmente concretizado de uma forma maciça à escala mundial é, em primeiro lugar, a cultura democrática e, nalguns casos mesmo, libertária, dos investigadores e das organizações científicas que deram corpo ao próprio desenvolvimento da Internet. Sem isso a Internet poderia ser hoje um gigantesco Big Brother internacional. Julgo que continuará a ser assim. E não tem exclusivamente a ver com a relação da Net com os pais fundadores, mas com o facto de have r, e continuar a have r, d u rante os próximos anos, uma gigantesca carência de recursos qualificados e de talento que respondam aos desafios de natureza científica e técnica que o crescimento da Internet e dos suportes digitais acarreta, o que dá ao corpo de i nvestigadores, sejam eles do sector público ou do privado, mas muito especialmente das universidades, em todo o mundo, um poder absolutamente e x t ra o r d i n á r i o. Já contei várias vezes a história do conflito entre a Europa e os Estados Unidos, em matéria de criptografia. Essa história pode-se contar, obviamente, de muitas m a n e i ras e uma delas, que é a canónica e que se lerá nos livros de texto, diz que, numa determinada data, foi estabelecido um acordo político entre os Estados Unidos e a Europa que fez com que os códigos e, em última análise, o s o f t wa r e, o melhor s o f t wa r e em criptação existente exclusivamente nos Estados Unidos pudesse passar a ser comercializado e exportado. 1 1

12 A história, dita do ponto de vista de quem está, do lado da investigação, é outra e conta como alguns dos melhores cientistas americanos deste sector decidira m violar a lei e libertar os códigos de acesso da criptografia e os teoremas que lhes serviam de suporte. É preciso que estes aspectos não sejam vistos como pormenores de interesse marginal. No meu entender, são absolutamente essenciais e não é a primeira vez que acontecem nas nossas histórias. A história do nuclear, designadamente d u rante a Segunda Guerra Mundial e no pós-guerra vista, por uns, como um fenómeno de espionagem internacional e, por outros, como o estabelecimento do equilíbrio à escala global é essencialmente uma história por vezes entendida pela comunidade científica internacional como natural: alguns cientistas s e n t i ram que era indispensável que mais entidades e mais pessoas tive s s e m acesso àquilo que eram então segredos científicos, e portanto, segredos militares. Mas a história dirá. O mesmo se está a passar hoje no que diz respeito às tecnologias de informação e de comunicação e se está a passar muito criticamente no que diz respeito á criptografia, no que diz respeito à identificação dos indivíduos e das organizações e, designadamente, na evolução do s o f t wa r e que dá corpo às assinatura s digitais e à identificação. A defesa da privacidade, repito e era este ponto que gostaria de sublinhar exige ainda mais algum desenvolvimento do ponto de vista científico e técnico p a ra que o cidadão, ele próprio, não sendo um especialista em informática, possa facilmente utilizar os meios ao seu dispor para garantir a sua própria privacidade. Isso ainda hoje não é fácil, mas há muita gente a tra b a l h a r, designadamente no meio científico e universitário, para tornar isso mais fácil. Por último permitam-me a insistência esta mesma reflexão exige que haja i nvestigação livre e que esta seja apoiada pelos Estados, designadamente nas u n iversidades, que haja livre circulação de profissionais à escala internacional entre o sector público e o sector privado, que haja defesa e garantias dadas pelo l e g i s l a d o r, aos investigadores e aos profissionais das tecnologias de informação que trabalham nas empresas das tecnologias de informação que trabalham nas empresas de tecnologias de informação, e que haja uma nova aliança entre os profissionais das ciências sociais e jurídicas e profissionais das ciências dura s, sejam elas as matemáticas, a informática ou as ciências e tecnologias da informação em geral. Apreciei muito o comentário que fez a Senhora Presidente do Observatório do C o m é rcio no que diz respeito à regulação e aos riscos de uma hiper- r e g u l a ç ã o que em geral mais não revela senão a nossa angústia. É legítima essa angústia. 1 2

13 Já me parece, contudo, que a excessiva regulação revela sobretudo a incapacidade de responder, de forma positiva, à angústia. E há outras formas mais posit ivas e interessantes, e certamente mais efectivas de responder a esta questão. Não vejo razão nenhuma para a angústia, nos tempos que correm. A situação é hoje muitíssimo melhor do que era há anos atrás. A Internet não só veio para ficar como veio para dar mais liberdade, para dar mais condições de acesso democrático à informação, para dar mais igualdade de oportunidades a pessoas e jovens de diferentes classes sociais e de diferentes regiões do mundo e para dar a possibilidade de que se renove, à escala global e à escala de cada um de nós e das nossas comunidades, um associativismo mais liv r e. O desenvolvimento da indústria e das técnicas de telecomunicações, ao longo do século XX, é absolutamente fascinante. Desejados, pelos seus criadores e designadamente por todos aqueles que inve n t a ram os grandes meios de comunicação de massas que hoje conhecemos designadamente a transmissão de som e, mais tarde, de imagem e som através da televisão como métodos de comunicação e de criação de comunidades virtuais, esse desejo nunca foi realizado. Não só por razões de natureza social mas, muito especialmente, porque esses meios exigiam, sobretudo no caso da televisão, custos de tal maneira elevados que impediam a possibilidade de concretização dos objectivos iniciais. A Internet veio realmente, e pela primeira vez, cumprir o programa dos gra n d e s criadores das tecnologias de comunicação do século XX, pondo à disposição da g e n e ralidade dos cidadãos, a preços baixos, a possibilidade da criação de comunidades virtuais e, portanto, da criação de mecanismos associativos liv r e s, não só à escala nacional como à escala internacional. Muito obrigado. 1 3

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15 D r. Jorge Lacão Presidente da Comissão Parlamentar de Assuntos Constitucionais, Direitos, Liberdades e Gara n t i a s Quero começar por agradecer o convite que o Sr. Presidente da Comissão Nacional de Protecção de Dados e a Sr.ª Presidente do Observatório do Comércio fizeram à Primeira Comissão da Assembleia da República a Comissão de Assuntos Constitucionais, Direitos, Liberdades e Garantias para poder partilhar c o nvosco este Colóquio e, particularmente, este momento de abertura. Saudando o Sr. Ministro da Ciência e Tecnologia, desejo cumprimentar igualmente todos vós e manifestar a minha congratulação pela verificação do elevado nível de participação que esta iniciativa, desde já, vos merece, sublinhando nisso a atenção que todos vamos dando a problemáticas tão inovadoras como a do Comércio Electrónico. Não há dúvida de que o mundo está a mudar muito rapidamente à nossa vo l t a e que é um desafio cultural, científico, de responsabilidade social, um desafio que a todos se nos coloca de tudo fazermos para estar à altura desse processo de mudança, para que não aconteça aquilo a que os sociólogos denominam como o «poder normativo dos factos». Aquela situação em que o Direito, a resposta jurídica, tende a chegar tarde à regulação das situações especiais e, muitas vezes, deixando à deriva, porve n t u ra a criar enquistamentos, situações desreguladas do ponto de vista da garantia dos direitos, da protecção jurídica e da regulação jurídica adequadas. Não há, por isso, dúvidas quanto à importância de começarmos por compreender o fenómeno que temos pela frente e perceber que revolução deste mundo electrónico está, aqui, à nossa volta, para compreendermos, complementarmente, o tipo de enquadramento que lhe deveremos dar. O processo de mudança é certamente inexorável. Permitam-me este apontamento pessoal: o meu filho de 10 anos, quando chego a casa, costuma dizer «pai, hoje aprendi a fazer mais uma coisa no computador». E é para mim, digamos, um mistério perceber como é que uma criança domina uma linguagem que eu, com a experiência de adulto, tenho muito mais dificuldade em integra r- -me nela. Não há dúvida de que há todo um domínio de costumes, de práticas, de modos de estar em sociedade, que se vão alterar profundamente. 1 5

16 Temos, evidentemente, que estar atentos para que não aconteça, como outros sociólogos costumam significar, relativamente aos fenómenos do nosso tempo, o risco de entrar numa sociedade onde só há relações, já não há sujeitos. E é precisamente para que esta sociedade permita a intensificação das relações entre todos, mas que não se apague o sujeito como polo individualizado desse sistema de relação, que temos que compreender todas estas matérias e procura r d a r-lhe resposta. Elas vão concentra r-se, hoje, com particular atenção nos problemas da priva c i- dade e dos modos adequados de regulação do comércio electrónico. Mas não há dúvida de que ao perspectivarmos um tal domínio, tomamos também consciência de que este já é um domínio em interface com outros aspectos, sem dúvida relevantes, da utilização das potencialidades deste mundo electrónico. Muito recentemente, a Assembleia da República esteve a apreciar alterações no domínio do processo, particularmente do processo civil, mas também do processo penal. Aí se introduzem soluções para utilização do suporte electrónico e dos sistemas de videoconferência para permitir, em grande medida, tornar mais céleres e mais imediatas as próprias relações no plano da regulação da conflitualidade jurídica, matéria, portanto, que certamente andará de passo na sua reflexão e na sua importância com esta da regulação do comérc i o e l e c t r ó n i c o. Interrogo-me também e certamente este será um dos pontos que não deixará de ser, aqui, hoje, apreciado se, ao procurarmos uma adequada regulação dos aspectos desta nova actividade na regulação de quem vende e de quem comp ra e no modo adequado de defesa dos direitos, particularmente dos direitos dos consumidores, não temos que, simultaneamente, procurar soluções altern a t ivas aos tradicionais sistemas institucionais de justiça para uma regulação mais célere das próprias situações de conflito emergentes deste novo mundo relacional. Aqui abre-se um imediato desafio complementar, na relação de interesses entre c o m e rciantes e consumidores que carece de ter respostas igualmente adequadas e, porve n t u ra, igualmente céleres ao nível da regulação dos conflitos, desafiando-nos e convocando-nos para um aprofundamento das soluções alternat ivas aos sistemas institucionais de justiça. Domínio que é pioneiro no aprofundamento das experiências de regulação dos conflitos por via das soluções de mediação e arbitragem que são, porve n t u ra, cada vez mais necessárias p a ra acompanhar todos estes aspectos do nosso desenvo l v i m e n t o. Queria, depois desta breve reflexão, testemunhar, em nome da primeira Comissão, o nosso empenhamento em acompanhar os resultados deste Colóquio. Em 1 6

17 momento oportuno, num diálogo tido com a Comissão Nacional de Protecção de Dados, suscitámos a oportunidade de que um evento desta natureza pudesse ter lugar. Congratulamo-nos vivamente por ele estar a acontecer hoje. O legislador terá tudo a ganhar para poder beneficiar da reflexão que todos, hoje e aqui, vão fazer. Os meus agradecimentos, portanto, pelo convite e sobretudo os meus cumprimentos pela oportunidade da iniciativa. 1 7

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19 D r. João Labescat Presidente da Comissão Nacional de Protecção de Dados Boa tarde a todos. As minhas primeiras palav ras vão para quem não está, para aquelas 200 pessoas que se tentaram inscrever para este Colóquio e, em virtude da capacidade da sala, não foi possível atender a esse pedido. E aquilo que eu posso prometer é que a Comissão Nacional de Protecção de Dados e o Observatório de C o m é rcio irão analisar e fazer o balanço deste Colóquio e verificar a possibilidade de, para o ano, incluir uma iniciativa deste tipo que possa abranger as pessoas que se quiseram inscreve r. A todas os meus agradecimentos. Espero que algumas delas, pelo menos, possam assistir ao debate que, aliás, está a ser transmitido também via Net. Em segundo lugar, e pedindo desculpa por alguma irreverência à Mesa, queria a g ra d e c e r, primeiramente, a presença dos nossos convidados. O Colóquio é p a ra vocês e espero que venham também contributos desse lado. Finalmente, queria agradecer a presença estimulante do Senhor Ministro da Ciência e Tecnologia, que tem sido uma das pessoas que, nestas matérias, mais tem batalhado e tem dado inúmeros contributos no seu Ministério para o avanço destas matérias; ao Sr. Presidente da Comissão de Assuntos Constitucionais, Direitos, Liberdades e Garantias, Dr. Jorge Lacão, pela sua presença, com o que muito nos honra, e, finalmente, porque, às vezes, os últimos também são os primeiros, ao Observatório do Comércio por ter cooperado de forma empenhada e que permitiu trazer outro tipo de experiências e aliar as questões de privacidade à situação real no terreno, na pessoa da Prof. Doutora Maria Manuel Leitão Marques, presidente do Observatório do Comércio, pelo t rabalho que desenvo l veu e pela forma como cooperou com a Comissão Nacional de Protecção de Dados. Meus Senhores e Minhas Senhoras, muito obrigado. Cabe-me abrir os trabalhos e, portanto, avançaria apenas com três ou quatro i d e i a s - ch ave, nesta sessão de abertura para, depois, serem devidamente consid e radas por todos os participantes. 1 9

20 «A Privacidade e o Comércio Electrónico» é, pois, o tema que vos propomos p a ra o debate de hoje. Procurámos que este dia tivesse várias componentes: por um lado, que constituísse uma reflexão, que importa fazer, sobre a aplicação dos princípios, regra s e direitos relativos à protecção de dados plasmados no artigo 35.º da Constituição da República e na Lei n.º 67/98, de 26 de Outubro, Lei de Protecção de Dados Pessoais; por outro, colocar o debate num dos actores primordiais das relações electrónicas o cidadão consumidor. Não numa lógica exclusiva do business to business ou business to consumer, mas tendo exactamente, como ponto de partida, os direitos de cidadania nesta nova fase de integração e i n t e r o p e ra t ividade comunicacional e, por fim, adaptar as várias componentes do comércio electrónico, na sua projecção e contratação, aos direitos dos c o n s u m i d o r e s. A todos muito obrigado, designadamente àqueles que se disponibilizaram em intervir nestas áreas. A iniciativa nacional para o comércio electrónico, desenvolvida pelo Ministério da Ciência e Tecnologia, na sequência do «L ivro Verde para a Sociedade de I n f o r m a ç ã o», a p o n t ava já para a necessidade de consagrar regras e direitos que g a rantissem a confiança dos consumidores, protegessem a sua privacidade e dessem ao mercado condições efectivas para a segurança e a confidencialidade das comunicações. A Lei de Protecção de Dados nas Telecomunicações e o regime jurídico da assin a t u ra digital e da factura electrónica são a base fundamental e o ponto de partida da reflexão jurídica a fazer. As exigências de resposta do mercado, por seu lado, são múltiplas: mais de 20 milhões de páginas com extensão «com», mais de 4 milhões de páginas criadas desde que esta intervenção foi feita, ou seja, nas últimas 24 horas. Isto quer d i z e r, de facto, um avanço exponencial, revolucionário, do mercado nesta área. Os utilizadores, nos vários estudos realizados, dão, por seu lado, um sinal claro das suas preocupações e dúvidas: problemas quanto à usurpação da identidade, à falta de controlo na We b e à possibilidade de acesso de terceiros a dados pessoais, subsistem como anátemas que marcam ainda bastante a desconfiança dos cidadãos nesta matéria, preocupações que, aliás, encontra m e têm algum fundamento, alguma base. Num estudo realizado em 99 pela OCDE, em 50 sítios We b, constatou-se que a clareza e a transparência na recolha e utilização dos dados era claramente insuficiente e que, por exemplo, um terço dos s i t e s não conferia o direito de acesso e o direito de oposição. Da mesma forma, 25% destes s i t e s não indicavam a morada e outras formas de con- 2 0

21 tacto da empresa, excepto a electrónica, de forma a permitir outro tipo de comunicação que não a meramente electrónica. Portanto, há uma falta de t ra n s p a r ê n c i a. Do mesmo modo, a Fe d e ral Trade Commission, que é um organismo regulador do comércio dos Estados Unidos, revelou, em estudos realizados, que 92% dos s i t e s recolhiam informação pessoal e que só 20% mantinham uma política integ rada de privacidade, que incluía os direitos de informação, escolha, acesso e a segurança nas transacções. Igualmente reveladores são os dados d ivulgados pelo EPIC (Electronic Priva cy Information Center), segundo os quais, dos 100 s i t e s mais populares de comércio electrónico, só 18 tinham uma política de privacidade consistente. As Directivas europeias relativas à protecção de dados, já transpostas para a legislação nacional, contêm o quadro essencial das políticas de privacidade a aplicar nas situações o f f e o n - l i n e, princípio do consentimento esclarecido e informado, enquanto acto legitimador do tratamento de dados, lealdade na recolha e tratamento posterior não incompatível, direitos de informação e de acesso. Estes são pontos essenciais que todos, aliás, devem cumprir e que estão plasmados na nossa lei. Contudo, o mercado global e a interopera t ividade das redes vieram trazer novo s problemas a exigirem respostas globais do Direito e daqueles que aplicam o Direito. Novos desafios se colocam também às empresas da economia digital que pretendam sobreviver num mercado aberto, competitivo e duro, mas onde se encontram milhões de clientes, numa relação ponto-a-ponto, ao sabor de um simples clique. As estratégias do comércio electrónico passam, cada vez mais, pelo maior conhecimento do consumidor, com a definição de estudos e de perfis, segmentação capilar, definição de categorias, aditamento de dados que utilizam várias fontes incluindo a especial, as electrónicas, fóruns e listas públicas, etc.. A monitorização da rede e dos computadores pessoais, com utilização dos c o o k i e s, p r o g ramas que identificam as visitas efectuadas a determinados s i t e s e, nestes, a páginas específicas ou que admitem mesmo a captação de dados pessoais, constituem uma das formas de evasão que, bastas vezes, é feita sem conhecimento e sem informação dos utilizadores. A prática de envio de e - m a i l s e de comunicações electrónicas não solicitados s p a m, com base em listas captadas na rede, sem informação e sem consentimento dos titulares, constituem também práticas desleais que carecem de habilitação legal. É uma questão que teremos de aprofundar, designadamente e n c o n t rando formas que permitam a constituição de listas de pessoas que não 2 1

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