UNIVERSIDADE DE LISBOA FACULDADE DE BELAS-ARTES IMAGENS PARA A INFÂNCIA

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1 UNIVERSIDADE DE LISBOA FACULDADE DE BELAS-ARTES IMAGENS PARA A INFÂNCIA PROCESSOS CONSTRUTIVOS DA ILUSTRAÇÃO DO LIVRO INFANTIL EM PORTUGAL Catarina Isabel Martins de Azevedo MESTRADO EM EDUCAÇÃO ARTÍSTICA 2007

2 UNIVERSIDADE DE LISBOA FACULDADE DE BELAS-ARTES IMAGENS PARA A INFÂNCIA PROCESSOS CONSTRUTIVOS DA ILUSTRAÇÃO DO LIVRO INFANTIL EM PORTUGAL Catarina Isabel Martins de Azevedo MESTRADO EM EDUCAÇÃO ARTÍSTICA Dissertação orientada pelo Prof. Doutor Jorge Ramos do Ó 2007

3 AGRADECIMENTOS Gostaria de expressar os meus sinceros agradecimentos ao Professor Doutor Jorge Ramos do Ó pela orientação, pela transmissão dos seus conhecimentos e pela constante disponibilidade, sem os quais este trabalho jamais seria possível. Agradeço a preciosa ajuda e colaboração da Professora Doutora Ana Bela Mendes. A minha profunda gratidão ao Jorge Maurício pelo apoio incondicional desde o começo. A sua presença e compreensão foram elementos imprescindíveis de motivação e auxílio em todos os momentos. A todos os meus familiares e amigos que me apoiaram e incentivaram ao longo deste percurso, o meu sincero obrigada, especialmente a Andreia Moreira pela colaboração e pelas palavras carinhosas. Aos ilustradores e aos colegas Christine Reyntjens e Pedro Delgado, agradeço a colaboração e disponibilidade dispensada, sempre que foi necessário ao longo deste estudo. A todos os meus amigos e colegas do mestrado, especialmente à Lígia Duvergé, Ana Graça, Catarina Martins e Helena Cabeleira. Esta tese é dedicada à minha mãe por nunca ter deixado de acreditar em mim e a quem devo tudo o que sou. I

4 IMAGENS PARA A INFÂNCIA Processos Construtivos da Ilustração do Livro Infantil em Portugal RESUMO Esta dissertação de mestrado apresenta como proposta a pesquisa sobre o processo construtivo da ilustração no livro infantil em Portugal, tendo como núcleo de análise dez entrevistas sobre a produção gráfica de alguns ilustradores: Alain Corbel, André Letria, Carla Pott, Cristina Sampaio, Inês de Oliveira, João Fazenda, João Vaz de Carvalho, Margarida Botelho, Pedro Morais e Teresa Lima. Pretende-se com este estudo contribuir para um conhecimento e uma compreensão melhores do quotidiano do ilustrador, através do estudo das suas preocupações, expectativas, decisões e da percepção que apresenta no trabalho criativo. A construção de todo o processo de estudo teve em consideração uma breve contextualização sobre o panorama infantil em Portugal. Para auxiliar o desenvolvimento da pesquisa foram tratadas questões relacionadas com a criação como um acto comunicativo, analisando-se: a noção que o ilustrador tem da percepção da criança leitora e as suas imposições; a importância da memória de infância na produção gráfica; a relação existente entre o discurso narrativo e a linguagem visual; por último, a intenção e fundamentação pedagógica na narrativa visual. O que o presente estudo visa, afinal, é ajudar a lançar novos olhares acerca do papel da ilustração, enquanto elemento na educação do olhar estético da criança. Palavras-chave: ilustração, literatura infantil, ilustradores, infância, educação artística. II

5 IMAGENS PARA A INFÂNCIA Processos Construtivos da Ilustração do Livro Infantil em Portugal RÉSUMÉ Le thème de cette dissertation de maîtrise est la recherche sur le processus constructif de l illustration du livre infantile au Portugal. L analyse se base sur dix entrevues sur la production graphique de quelques illustrateurs à savoir : Alain Corbel, André Letria, Carla Pott, Cristina Sampaio, Inês de Oliveira, João Fazenda, João Vaz de Carvalho, Margarida Botelho, Pedro Morais et Teresa Lima. Cette étude, a comme objectif de contribuer pour une meilleure connaissance et compréhension du quotidien de l illustrateur, avec l étude de ses préoccupations, expectatives, décisions et avec la perception qu il présente dans le travail créatif. La construction de tout le processus de l étude a tenu en compte un bref encadrement du panorama infantile au Portugal. Pour aider le développemennt de la recherche on a réalisé des questions connexe avec la création comme un acte communicatif, en analysant la motion que l illustrateur a de la perception de l enfant lecteur et ses impositions ; l importance de la mémoire de l enfance dans la production graphique ; la relation existante entre le discours narratif et le langage visuel et, pour finir, l intention et la justification pédagogique dans la narrative visuelle. Ce que la présente étude vise, au fait, c est profiter d un éveil des consciences, ayant comme objectif l hypothèse du rôle de l illustration, en tant qu élément dans l éducation du regard esthétique de l enfant. Mots-clef : illustration, littérature infantile, illustrateurs, enfance, éducation artistique. III

6 ÍNDICE GERAL AGRADECIMENTOS... I RESUMO... II RÉSUMÉ... III ÍNDICE GERAL... IV ÍNDICE DE FIGURAS... VI ÍNDICE DE ANEXOS...VII INTRODUÇÃO Selecção e caracterização da amostra Guião de entrevista Metodologia de análise das entrevistas Roteiro de escrita da dissertação...6 CAPÍTULO I - A ARTE DE ILUSTRAR PARA A INFÂNCIA Breve introdução sobre o panorama da ilustração infantil em portugal Definição do conceito ilustração infantil Ilustração ou Arte? A criatividade na ilustração para a infância...16 CAPÍTULO II - A IMAGEM E O DISCURSO NARRATIVO Introdução A importância da imagética no discurso narrativo A liberdade de expressão no processo criativo A autonomia ou descrição da imagética Uma ilustração, um significado...27 CAPÍTULO III - O AUTOR ILUSTRADOR Introdução Biografias O processo pessoal e o público alvo Inclusão do autor no processo imagético Ilustração e memórias de infância Técnicas de representação no processo criativo...67 CAPÍTULO IV - O PÚBLICO DA ILUSTRAÇÃO Introdução O público-alvo Especialização do ilustrador por faixa etária Imposições do público-alvo...73 CAPÍTULO V - PEDAGOGIA NA ILUSTRAÇÃO Introdução Intenção pedagógica na narrativa visual Fundamentação pedagógica na narrativa visual...79 IV

7 IMAGENS PARA A INFÂNCIA Processos Construtivos da Ilustração do Livro Infantil em Portugal 4. Função da imagem na criança A criança e as novas tecnologias...82 CONSIDERAÇÕES FINAIS...85 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS...88 ANEXO I Entrevistas aos Ilustradores...92 ANEXO II Grelha de Categorias V

8 IMAGENS PARA A INFÂNCIA Processos Construtivos da Ilustração do Livro Infantil em Portugal ÍNDICE DE FIGURAS Ilustração 1 Alain Corbel, Ilhas de fogo...27 Ilustração 2 André Letria, Versos para os pais lerem aos filhos em noites de luar...28 Ilustração 3 André Letria, Letras e Letrias...29 Ilustração 4 Carla Pott, O Soldadinho de Chumbo...31 Ilustração 5 Cristina Sampaio, Bom dia Benjamim...32 Ilustração 6 Inês de Oliveira, Lendas e Contos Indianos...33 Ilustração 7 João Vaz de Carvalho, Prendas de Natal...35 Ilustração 8 João Fazenda Um Saltinho a Madrid...34 Ilustração 9 Margarida Botelho, Os Lugares de Maria...36 Ilustração 10 Pedro Morais, Branca Flor, o Príncipe e o Demónio...37 Ilustração 11 Teresa Lima, Histórias de Animais de Rudyard Kipling...38 Ilustração 12 Pedro Morais, Os Super 4 Sangue Secreto...66 VI

9 IMAGENS PARA A INFÂNCIA Processos Construtivos da Ilustração do Livro Infantil em Portugal ÍNDICE DE ANEXOS (Algumas disponíveis em suporte digital na Contracapa) ANEXO I 1 - Entrevista ao ilustrador Alain Corbel...93 ANEXO I 2 - Entrevista ao ilustrador André Letria ANEXO I 3 - Entrevista à ilustradora Carla Pott ANEXO I 4 - Entrevista à ilustradora Cristina Sampaio ANEXO I 5 - Entrevista à ilustradora Inês de Oliveira ANEXO I 6 - Entrevista ao ilustrador João Fazenda ANEXO I 7 - Entrevista ao ilustrador João Vaz de Carvalho ANEXO I 8 - Entrevista à ilustradora Margarida Botelho ANEXO I 9 - Entrevista ao ilustrador Pedro Morais ANEXO I 10 - Entrevista à ilustradora Teresa Lima VII

10 IMAGENS PARA A INFÂNCIA Processos Construtivos da Ilustração do Livro Infantil em Portugal INTRODUÇÃO A ilustração para a infância oferece-nos um campo de estudo inesgotável. No entanto, apesar da vasta publicação de estudos referentes à literatura para crianças e jovens, existe uma lacuna no que diz respeito à investigação teórica sobre a ilustração no livro infantil e o seu processo. A presente dissertação apresentará um estudo introdutório sobre o processo criativo do mundo pictórico da literatura infantil em contraste com o enriquecimento estético e contributo para a educação artística. Em algumas partes do mundo a ilustração para a infância é considerada uma manifestação de arte. De acordo com algumas entrevistas realizadas a alguns escritores sobre o significado da cor e da ilustração na literatura infantil em 1980, podemos analisar a relevância proporcionada pelas diferentes opiniões, tal como refere Sophia de Mello Breyner Andresen (1980) a ilustração deve ser iniciação cultural não só através do texto mas também através da ilustração e da qualidade gráfica. A autora defende que o ilustrador deve ser um verdadeiro pintor e artista por isso será fundamental que o pintor esteja disposto a mergulhar no reino da imaginação primordial que é o conto infantil. Segundo Ilse Losa (1980) a ilustração torna-se um elemento fulcral na literatura infantil, deve ser encarada como arte e imprescindível o contacto da criança desde cedo com os artistas plásticos do país, daí o cuidado de recorrer a ilustradores de qualidade. Luísa Ducla Soares (1980) indica que tanto a ilustração como a cor, constituem um apoio visual para o texto e simultaneamente um meio de estimular a sensibilidade estética. Já Maria Lúcia Namorado (1980) refere que são complementos enriquecedores da obra literária para a infância e que não pode deixar de ser uma expressão de arte. Alice Gomes (1980) classifica a ilustração para a infância como um complemento na literatura infantil, independentemente de apresentar cor, o desenho auxilia a criança leitora a formar imagens mentais que o texto 1

11 IMAGENS PARA A INFÂNCIA Processos Construtivos da Ilustração do Livro Infantil em Portugal lhe propõe e sobre as quais tem dificuldade de concretização. Maria Cecília Correia defende a necessidade da visualização da imagem nos primeiros anos de vida de uma criança, pois guardará consigo aquilo que lhe for dado, daí a urgência de boas ilustrações. À luz da citação da ilustradora checa Kveta Pacovská - um livro ilustrado é a primeira galeria de arte que uma criança visita - poderíamos afirmar que um livro ilustrado dotado de imagens de acentuado valor estético, pode assumir um contributo importante para a Educação Artística; tanto na formação do leitor visual como na criança produtora de imagens, promovendo a sensibilização do olhar e uma experiência estética através de um acesso mais fácil e generalizado. Apesar do confronto de inúmeros veículos culturais para o público infantil, nomeadamente o cinema de animação, a banda desenhada e a publicidade foi escolhida a arte de ilustrar para a infância por vários motivos: a) a consciência do interessante e promissor desafio de tentar associar a formação visual do pequeno leitor com um objecto que lhe é próximo e acessível: o livro ilustrado; b) A preocupação com o livro entendido não apenas como suporte de palavras e ideias, mas também como um volume que se projecta no espaço e que desperta sentidos estéticos, sensações, amplia-se a percepção visual do que nos rodeia e como estimulante da criatividade, tudo através de um simples contacto do imaginário pictórico do ilustrador; c) O imenso fascínio que a ilustração infantil exerce sobre a minha sensibilidade estética; 2

12 IMAGENS PARA A INFÂNCIA Processos Construtivos da Ilustração do Livro Infantil em Portugal d) Devido à carência de investigação teórica sobre a imagem no livro infantil, mesmo nos casos em a linguagem verbal e plástica são indissociáveis; e) E, sobretudo pela evolução da ilustração infantil em Portugal. O intuito do trabalho aqui desenvolvido traduz-se num estudo comparativo de alguns ilustradores residentes em Portugal, tendo como objecto a apreensão do processo criativo na concepção de imagens, tal como o seu contributo para o enriquecimento estético na criança leitora. A amostra do estudo é composta por dez ilustradores, nomeadamente: Alain Corbel, André Letria, Carla Pott, Cristina Sampaio, Inês de Oliveira, João Fazenda, João Vaz de Carvalho, Margarida Botelho, Pedro Morais e Teresa Lima, alguns através de encontros directos, com auxilio de um gravador áudio digital Olympus -Digital Voice Recorder VN-480 PC, quando não foi possível o encontro pessoal entre mim e o ilustrador, foi feito o inquérito através de correio electrónico. As declarações dos entrevistados encontram-se em anexo através do suporte de papel, assim como as gravações áudio disponíveis em suporte digital na contracapa. (Ver Anexo I, pág. 92) 1. Selecção e caracterização da amostra a) Que todos os ilustradores entrevistados apresentassem nacionalidade portuguesa ou que residissem em Portugal há pelo menos dois anos; b) Em relação à experiência, todos os ilustradores deviam ter participado ou ainda participam na publicação de livros infantis ilustrados. Todos os ilustradores concordaram em fazer parte da amostra, depois de expostos os objectivos de estudo. 3

13 IMAGENS PARA A INFÂNCIA Processos Construtivos da Ilustração do Livro Infantil em Portugal 2. Guião de entrevista Foi utilizada uma entrevista com o objectivo de recolher as informações relativas ao pensamento e auto-percepção do processo criativo dos ilustradores, onde será discutido: a) A formação académica e profissional 1. Qual foi o seu percurso escolar?; 2. Qual foi o seu percurso profissional?; 3. Como chegou à ilustração? b) A existência ou não de uma recolha pedagógica sobre o público infantil. 4. No processo de criação de uma ilustração, tem por hábito a realização de alguma recolha documental de carácter pedagógico sobre o público infantil?; 5. Como se apercebe da formação do gosto e dos costumes culturais das crianças em torno das novas tecnologias?; 6. Existe uma faixa etária determinada, no público das suas ilustrações? Se não há, como convive com ideias de públicos diferentes?; 7. Entende que é importante especializar-se numa faixa etária específica, por exemplo, dos zero aos três anos ou dos três aos seis anos?; 8. Esteve alguma vez ligado à ilustração didáctica, relativa a manuais escolares? c) Os processos de tradução imagética da obra. 9. O que é para si a ilustração?; 10. Ilustração ou arte?; 11. A construção de uma ilustração depende dos autores do texto, ou tem bastante liberdade de expressão?; 12. Considera o seu trabalho, como ilustrador, entre o descritivo ou autónomo em relação ao texto?; 13. Que técnica artística costuma utilizar na Ilustração?; 14. Quando falamos de criatividade em ilustração de livros infantis, estamos a falar de quê, exactamente?; 15. Até que ponto, o público infantil impõe processos criativos diferentes: se altera toda a linguagem plástica ou só os temas, o que muda?; 16. Sente que o processo criativo o reenvia para a infância? Como? (Se através de filmes, livros ou revistas); 17. O que é mais decisivo no processo criativo: a imagem de si, como ilustrador, ou as fantasias que lhe surgem, sobre a criança leitora?;18. Como define a importância de um texto ser ilustrado?; 19. No 4

14 IMAGENS PARA A INFÂNCIA Processos Construtivos da Ilustração do Livro Infantil em Portugal processo criativo, dá mais importância à originalidade ou à técnica?; 20. Já alguma vez aconteceu sentir a necessidade de se incluir nas ilustrações que produz? d) O impacto esperado na criança. 21. Qual é a sua opinião sobre o impacto esperado na criança, ao observar uma ilustração? Seduzi-la para a leitura? Levá-la a evadir-se da leitura; 22. Quais os temas que costumam fazer parte da sua ilustração (Ambiente, Ciência, Homem, Criança); 23. As suas ilustrações apresentam algum cariz pedagógico; 24. Escolha uma imagem produzida por si e descodifique-a. 3. Metodologia de análise das entrevistas A metodologia utilizada para analisar as entrevistas será a análise de conteúdo, que segundo Bardin (1977), é um método que possibilita inferências sobre as condições de produção das comunicações a partir de indicadores quantitativos ou não. Em seguida serão apresentados os passos a ter em conta nos procedimentos utilizados na análise de dados, e a sua posterior transformação em categorias. Em relação à metodologia de análise, a aplicação das entrevistas foi precedida de algumas preocupações a ter na aplicação desta técnica. Desta forma, foi necessário percorrer os seguintes passos, procedimentos e regras: a) Elaborar o guião de questões para a entrevista guiada; b) Contacto anterior com os ilustradores, para a autorização da entrevista e respectiva publicação na dissertação; c) Garantia da não utilização indevida ou abusiva das entrevistas e ilustrações; d) Preparação para a entrevista, tentando diminuir os receios que a entrevista sempre provoca nos entrevistados. Após a gravação áudio das entrevistas, foi necessário transcrever as declarações dos entrevistados para protocolo escrito, de forma a procederse mais facilmente à análise de conteúdo. O passo seguinte foi eliminar os 5

15 IMAGENS PARA A INFÂNCIA Processos Construtivos da Ilustração do Livro Infantil em Portugal segmentos sem significado, bem como as repetições de palavras, muitas vezes naturais num discurso. O sistema de análise foi efectuado através do processo de categorização e de inferências. Segundo Bardin (1997) a categorização é uma operação de classificação de elementos constitutivos de um conjunto, por diferenciação e, seguidamente, por reagrupamentos segundo o género (analogia), com os critérios previamente definidos. Este procedimento permitiu quantificar os dados da entrevista para posterior análise, juntamente com os dados referentes ao processo criativo dos ilustradores. No que diz respeito ao sistema de categorização das entrevistas, foi realizada uma grelha categorial com as respectivas inferências que se encontra em anexo. (Ver Anexo II, pág. 177) Categorias: 1ª Formação Académica; 2ª Fundamentação Pedagógica; 3ª Novas Tecnologias; 4ª Público-Alvo; 5ª Especialização por Faixa Etária; 6ª Manuais Escolares; 7ª Definição do Conceito; 8ª Ilustração ou Arte; 9ª Relação Imagem/Texto; 10ª Autonomia da Imagem; 11ª Técnicas de Representação; 12ª Conceito Criatividade/Ilustração; 13ª Dinâmica do Processo Criativo; 14ª Processo Criativo/Infância; 15ª Processo Pessoal/Público-Alvo; 16ª Texto/Ilustração; 17ª Originalidade/Técnica; 18ª Inclusão do Autor; 19ª Função da Ilustração na Criança; 20ª Temas; 21ª Intenção Pedagógica 4. Roteiro de escrita da dissertação A presente dissertação dividir-se-á em cinco capítulos: no primeiro far-se-á uma breve introdução acerca do panorama da ilustração para a infância em Portugal. Serão abordados os conceitos dentro do tema, tais como: a ilustração infantil, a criatividade e a ilustração como forma de arte. No segundo capítulo proceder-se-á a uma análise acerca da relação entre a imagética na literatura infantil e o discurso narrativo. Para tal, abordar-se- 6

16 IMAGENS PARA A INFÂNCIA Processos Construtivos da Ilustração do Livro Infantil em Portugal ão os aspectos inerentes a estes dois factores, que implicam a relevância da ilustração; analisar-se-á a existência ou não de liberdade por parte do ilustrador, na concepção da imagem; procurará perceber-se se o trabalho ilustrativo se apresenta autónomo ou descritivo em relação ao texto; por fim, proceder-se-á a análise descritiva por parte do ilustrador de uma ilustração da sua autoria. No terceiro capítulo perspectivar-se-á uma contextualização do autor ilustrador, atentando nos seguintes aspectos: análise das biografias; imagem de si como ilustrador e o impacto esperado na criança leitora; envolvimento pessoal no processo criativo, particularmente a inclusão ou não de si na ilustração; concepção de imagens como processo de reenvio para a infância e análise de procedimentos técnicos nas propostas visuais. O quarto capítulo do presente estudo ocupar-se-á do processo de avaliar o público da ilustração, no sentido de determinar a existência de uma faixa etária determinada; a pertinência no que diz respeito a uma especialização do ilustrador a um público-alvo específico e as imposições da criança leitora em relação aos temas propostos e respectiva linguagem plástica. O último capítulo desta dissertação visa a análise do papel pedagógico referente à alfabetização visual da criança leitora, ou seja, a existência de uma intenção de cariz pedagógico na proposta visual por parte do ilustrador; a presença ou não de uma fundamentação pedagógica na ilustração infantil; a intenção da ilustração para a criança, referentemente ao discurso narrativo, se existe um papel sedutor em relação ao texto ou de evasão e por último, o espaço das novas tecnologias em relação à leitura. O que o presente estudo visa, afinal, é tirar partido de um despertar de consciências em relação à ilustração infantil e o seu processo de concepção, como papel fundamental na formação artística da criança. 7

17 IMAGENS PARA A INFÂNCIA Processos Construtivos da Ilustração do Livro Infantil em Portugal CAPÍTULO I - A ARTE DE ILUSTRAR PARA A INFÂNCIA Os últimos vinte anos trouxeram inovações tecnológicas de relevo que beneficiaram o aspecto gráfico da produção editorial. O frequente uso da impressão a quatro cores, o recurso ao computador, tanto para a impressão como para o desenho e também para a apresentação de originais, são elementos que contribuíram para notáveis alterações no trabalho de edição. Ligando estes benefícios à expansão do livro para o público infanto-juvenil, não podia deixar de se esperar que os reflexos da nova situação se avolumassem no campo da ilustração. (Rocha: 2001:163) 1. Breve Introdução sobre o Panorama da Ilustração Infantil em Portugal A extensão de assuntos a abordar nesta dissertação impossibilita uma visão histórica muito pormenorizada do panorama da literatura infantil em Portugal. Assim, serão mencionados, de um modo sucinto, apenas alguns marcos fundamentais, especialmente os aspectos conotativos do tema primordial deste estudo, sendo excluídos nomes de escritores e os seus respectivos livros. No século XIX assistimos a um momento marcante no historial da literatura para crianças. As profundas transformações sociais, derivadas da revolução burguesa na Europa da viragem do século XVII, impuseram alterações significativas ao conceito de infância que, paralelamente a uma metamorfose no domínio da educação, foram responsáveis pelo princípio de uma literatura destinada aos mais novos. Ressalte-se que, nas primeiras décadas do século XX, Portugal presencia o nascimento das correntes estéticas modernistas, que se fazem sentir de uma forma indirecta na ilustração de alguns livros infantis. Assim, surgem 8

18 IMAGENS PARA A INFÂNCIA Processos Construtivos da Ilustração do Livro Infantil em Portugal ilustrações assinadas por nomes como: Màmia Roque Gameiro ( ); Raquel Roque Gameiro ( ); Milly Possoz ( ); Martins Barata ( ); Raul Lino ( ); Sarah Afonso ( ) ou em edições mais recentes, Luís Filipe de Abreu (1935). Em 1936 o governo de Oliveira Salazar leva a cabo uma reforma do Ensino Primário, que implica a redução da escolaridade obrigatória a três anos, o que resulta no encerramento de várias escolas generalizando-se a separação dos alunos por sexo. Diversas escolas do magistério Primário são encerradas, dando-se a extinção de classes infantis no ensino oficial. Portugal assiste por um lado à transformação de conteúdos de ensino simplistas e ideológicas, marcando assim nos anos trinta a sua política educativa, por outro lado, tal como refere José António Gomes, Os livros infantis ressentem-se desta situação: assiste-se ao surto de uma literatura de pendor nacionalista (por vezes historicista), não raro de cariz moralizante, onde se exaltam pretensos valores nacionais no contexto dos objectivos de doutrinação ideológica do Estado Novo. Neste período e salvo algumas excepções (...) não se regista, pois, um enriquecimento significativo da nossa literatura para crianças. (Gomes: 2002,15) Para além dos ilustradores referidos, outros nomes evidenciaram durante estas décadas nomeadamente, José de Lemos ( ) também escritor; Óscar Pinto Lobo ( ); Mário Costa; Emmerico Nunes ( ); Eduardo Teixeira Coelho ( ); Manuela Lapa; Laura Costa; Cambraia; Ofélia Marques ( ); Maria Vasconcellos e mais tarde, Neves e Sousa ( ); Júlio Pomar (1926) e Fernando Bento (1963) - que se imporá nos anos seguintes. Todavia, em 1956 a escolaridade passa a ser obrigatória para o sexo masculino, em 1960 para o sexo feminino e, em 1964, será alargado até seis anos. Estas transformações provocam uma explosão escolar e, 9

19 IMAGENS PARA A INFÂNCIA Processos Construtivos da Ilustração do Livro Infantil em Portugal consequentemente, um aumento do público leitor que requer um maior número de material de leitura e maior diversidade. Salienta-se assim, em 1958, a criação da rede itinerante por parte da Fundação Calouste Gulbenkian e das bibliotecas fixas, três anos mais tarde, constituindo assim um passo importante no encontro facilitado da criança leitora e do adulto com o livro. Surgiam então várias movimentações que divulgavam os autores e a literatura para crianças mostrando a importância desta área cultural. Importa salientar que, entre os anos cinquenta e sessenta, se assiste à revelação ou à confirmação do talento de vários ilustradores, realçando os nomes de Maria Keill (1914); Câmara Leme; César Abbott; Armando Alves; Tòssan (1943); Fernando Bento (1963) e Leonor Praça. Em 2 de Abril de 1967 iniciou-se a comemoração do Dia Internacional do Livro Infantil, iniciativa do IBBY (International Board on Books for Young People). Entre 1974 e 1980, muitos foram os escritores e ilustradores que se dedicaram a esta área da criação. Não poderia deixar de destacar Manuela Bacelar (1943), vencedora de prémios de ilustração e que se ligou também a uma experiência dedicada ao álbum para crianças em idade pré-escolar, além de Júlio Resende (1917), Dário Alves (1940), João Machado (1942) e João Botelho (1949). Embora em Portugal fossem raras as apostas na criação e edição de livros ilustrados para os mais pequenos, a década de setenta assiste a um aparecimento de uma produção com interesse, destinada à faixa préescolar ou a crianças no início da Escola Primária. Importa salientar que a nossa literatura para a infância continuou a dispor de ilustradores de qualidade, cujo trabalho tem sido reconhecido, tanto a nível nacional como internacional. Assim, desde a década de setenta do século XX até à actualidade são muitos os que se vão dedicando com mais 10

20 IMAGENS PARA A INFÂNCIA Processos Construtivos da Ilustração do Livro Infantil em Portugal regularidade à ilustração para crianças, tais como Henrique Cayatte (1957); António Modesto (1957); mais tarde juntaram-se Teresa Lima (1962); André Letria (1973); João Caetano (1962); João Fazenda (1979); Danuta Wojciechowska (1960); Alain Corbel(1965); João Vaz de Carvalho (1958); Cristina Valadas (1965); Luís Mendonça (1965); Elsa Navarro; Marta Torrão (1974); Carla Pott (1973); Margarida Botelho (1979); Inês de Oliveira (1979); Ângela Melo; José Manuel Saraiva (1974); Pedro Morais (1962); Cristina Sampaio (1960); Fernanda Fragateiro (1962); Carlos Marques; José Miguel Ribeiro (1966) entre outros. Todavia, não poderemos esquecer que para esta evolução de criadores e de novos talentos, contribuíram iniciativas como o Prémio Nacional de Ilustração (promovido pelo Instituto Português do Livro e das Bibliotecas e pela Associação Portuguesa para a Promoção do Livro Infantil e Juvenil secção portuguesa do International Board on Books for Young People) que teve início no ano de 1996, o Grande Prémio Calouste Gulbenkian de Literatura para Crianças e jovens, modalidade ilustração, o Prémio do Melhor Livro de Ilustração Infantil (promovido pelo Festival Internacional de Banda Desenhada da Amadora, que teve início em 2003) e o Prémio ILUSTRARTE 1. Já em 1997 se realizava em Salamanca o IV Simpósio sobre a Literatura Infantil e Leitura intitulado La ilustración: primera lectura e educación artística. No início do encontro, a directora da Fundação de Madrid referiu que, tendo a literatura infantil um indiscutível valor, constituindo um caminho que conduz a um grande prazer e utilidade da leitura, será evidente que a ilustração constituirá a porta para esse caminho. Neste capítulo apresenta-se uma questão fulcral desta dissertação: a definição de ilustração infantil, um facto que por lacuna, não está patente 1 Um dos maiores contributos para a divulgação desta área em Portugal, um projecto cultural centrado no livro infantil ilustrado, com a primeira edição em 2003 e mais tarde a segunda edição em 2005, a Bienal Internacional de Ilustração para a Infância, ILUSTRARTE que tem lugar no Barreiro. 11

21 IMAGENS PARA A INFÂNCIA Processos Construtivos da Ilustração do Livro Infantil em Portugal no panorama literário infantil. Numa primeira secção será feita uma análise sobre a opinião pessoal de cada ilustrador com o intuito de esclarecer e definir o conceito. Numa segunda secção discutir-se-á o estatuto da ilustração como arte, sendo que esta questão surgiu através da leitura da entrevista inserida no catálogo pertencente à ILUSTRARTE e de como alguns países, nomeadamente Espanha, promovem a ilustração nesse sentido. Na última secção deste capítulo será feita uma análise acerca da concepção de criatividade na ilustração infantil. De que forma poderá o ilustrador conceber um trabalho criativo, a partir do momento em que está condicionado a um tema que lhe é imposto pelo escritor que cria a história. 2. Definição do Conceito Ilustração Infantil No que concerne às opiniões dos ilustradores, relativamente à definição pessoal sobre a ilustração, grande parte destes referiram que a ilustração para a infância constitui um complemento do texto e que esta não funciona como uma interpretação do mesmo. Segundo João Vaz de Carvalho a ilustração apresenta-se como uma forma de expressão que faz uso da imagética com o objectivo de transmitir ao leitor emoções que o autor tenciona transmitir. Assim, o ilustrador tem o dever de pesquisar, através da ideia do escritor, complementando através de imagens que seduzam o leitor, estabelecendo assim um ponto de contacto com o discurso literário. No que diz respeito a João Fazenda, este refere que a ilustração não se demonstra ilustrativa ou como uma legenda desenhada ; relaciona-se de uma forma muito dinâmica com o texto, tendo a obrigação de o completar e o enriquecer, excluindo a própria reprodução, transmitindo todos os factores exteriores. Já André Letria, alega que a ilustração 12

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